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UC · Unidade de Competência · UC04461

Sebenta · Efetuar o controlo da produção (UC04461)

Indicadores, MRP, JIT/Kanban, cartas de controlo e melhoria contínua, com o caso da Metalúrgica do Vale
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Planeamento Industrial ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a controlar a produção numa unidade industrial, do conceito ao cálculo, seguindo o percurso de um técnico de planeamento industrial: acompanhar o que se fabrica, comparar com o que estava planeado, analisar os desvios e propor melhorias. O contexto é a indústria metalomecânica, o setor de referência desta qualificação, e o exemplo que vai atravessar todos os capítulos é o de uma empresa fictícia, a Metalúrgica do Vale, Lda., que fabrica um suporte metálico, o SM-204.

Controlar a produção não é fiscalizar no fim da linha. É um ciclo permanente: planear, executar, controlar e corrigir. Um plano de produção diz o que devia acontecer; o controlo diz o que aconteceu de facto; a análise liga os dois e decide o que fazer a seguir. É esse ciclo, com os seus indicadores, ferramentas e métodos, que esta sebenta desenvolve.

Objetivos de aprendizagem (referencial): monitorizar os fluxos de produção, os níveis de stock, os indicadores de desempenho e a qualidade do produto; analisar indicadores de desempenho e desvios da produção; propor e implementar estratégias e medidas para otimizar a eficiência da produção, sempre com precisão e rigor na identificação e rastreabilidade do produto e no cumprimento das normas de segurança, qualidade e ambiente.

1. Controlo da produção: conceito e sistemas

Controlar a produção é acompanhar, em tempo real ou por turno, o que está a ser fabricado e compará-lo com o que foi planeado, agindo sempre que há um desvio. O objetivo é garantir que se produz a quantidade certa, com a qualidade certa, no prazo certo e ao custo previsto. O controlo é a ponte entre o plano de produção, que existe no papel ou no sistema informático, e o chão de fábrica, onde as coisas realmente acontecem.

Tipos de sistemas de controlo de produção

Sistema Lógica Exemplo
Push (empurrar) produz-se conforme o plano, independentemente da procura imediata MRP clássico
Pull (puxar) só se produz quando há um pedido a jusante Kanban, JIT
Contínuo fluxo constante, produto sempre igual cimento, laminagem de aço
Intermitente / por lotes séries de produtos diferentes na mesma linha peças metalomecânicas por encomenda

Nenhuma empresa real é 100% push ou 100% pull. A Metalúrgica do Vale usa um sistema misto: o MRP (push, capítulo 6) planeia os componentes com semanas de antecedência, e o Kanban (pull, capítulo 7) regula, dia a dia, o abastecimento da linha de montagem a partir do consumo real.

Funções do encarregado de controlo de produção

O encarregado (ou técnico) de controlo da produção tem seis funções centrais, que correspondem diretamente às realizações desta UC:

Pensa nesta função como a de um piloto de avião: não basta seguir o plano de voo, é preciso monitorizar constantemente os instrumentos e corrigir o rumo sempre que o vento (uma avaria, um atraso de material) desvia a rota.

2. Processos produtivos e layout industrial

Tipos de processos produtivos

Uma padaria industrial de pão de forma opera em produção contínua: a massa entra, o pão sai, sempre igual, sem paragens naturais entre "unidades". Já uma oficina metalomecânica que fabrica mobiliário metálico por encomenda do cliente está em produção por projeto: cada peça tem um desenho próprio.

O SM-204 da Metalúrgica do Vale é fabricado em produção por lotes: cada lote corresponde a uma encomenda de um cliente, com uma quantidade definida (ao longo desta sebenta vamos usar, sobretudo, o exemplo de um turno com 800 unidades planeadas).

Tipos de layout industrial

Layout Organização Vantagem
Posição fixa o produto fica parado, os recursos deslocam-se até ele produtos grandes (navios, estruturas)
Funcional / por processo máquinas agrupadas por função (corte, soldadura, pintura) flexibilidade para produtos variados
Produto / linha máquinas na sequência do processo alto volume, produto padronizado
Celular células com várias máquinas para uma família de peças equilíbrio entre flexibilidade e fluxo

A escolha do layout não é uma questão só de arrumação: condiciona diretamente o tempo de fabrico e, por consequência, os indicadores vistos no capítulo 4. A Metalúrgica do Vale organiza a linha do SM-204 num layout celular: corte, quinagem e soldadura na mesma célula física, o que reduz as deslocações e o tempo de fila entre operações, tal como uma bancada de cozinha em U reduz as voltas que se dá para preparar uma refeição.

3. Modelos de gestão industrial e redes de fabrico

Um modelo de gestão industrial é um conjunto coerente de princípios e ferramentas para planear e controlar a produção. Nesta UC vamos aprofundar quatro:

Nenhum destes modelos é usado isoladamente. Na prática, as empresas combinam o MRP para planear com o Lean e o Six Sigma para melhorar continuamente: o MRP é o "mapa de estradas" (o que e quando produzir), o Lean e o Six Sigma são a "condução eficiente" nesse mapa.

Redes de fabrico

A produção raramente acontece numa única fábrica isolada. Uma rede de fabrico é o conjunto de unidades produtivas e fornecedores que, em conjunto, entregam o produto final:

A Metalúrgica do Vale subcontrata a zincagem do SM-204 a um parceiro externo. Isto obriga a incluir o tempo de transporte e de fila no fornecedor no cálculo do prazo total de entrega: uma rede de fabrico é como uma equipa de estafetas, o tempo total depende de cada corredor, não apenas do mais rápido.

4. Indicadores de desempenho industrial

Os quatro grupos de indicadores

Os indicadores de desempenho industrial organizam-se em quatro grupos, cada um respondendo a uma pergunta de gestão:

Grupo Pergunta Exemplos
Produtividade quanto se produz por recurso usado? unidades/hora, unidades/trabalhador
Eficiência quão bem se aproveita o tempo e a capacidade disponíveis? OEE, taxa de utilização
Prazos cumprem-se os prazos planeados? desvio face ao plano, atrasos
Qualidade o que se produz está conforme? taxa de refugo, taxa de retrabalho

São como os sinais vitais de um doente: pressão, temperatura, pulso e oxigénio. Um só não chega para diagnosticar; olhar só à produtividade e ignorar a qualidade pode esconder que se está a produzir muito, mas mal.

O indicador OEE (Overall Equipment Effectiveness)

O OEE é o indicador mais usado para medir a eficiência global de um equipamento ou linha. Combina três fatores, multiplicados entre si, nunca somados:

OEE = Disponibilidade × Desempenho × Qualidade

Um OEE de 100% significaria produzir sempre, ao ritmo máximo, sem nenhum defeito, o que na prática nunca acontece. Um OEE acima de 85% é geralmente considerado "classe mundial" na indústria. Sendo uma multiplicação e não uma média, um único fator baixo arrasta o resultado todo para baixo: são como três torneiras em série, mesmo que duas estejam quase completamente abertas, a mais fechada limita o caudal final.

Exemplo resolvido · Calcular o OEE

Este é o exemplo condutor desta sebenta: os mesmos números vão reaparecer nas fichas e no projeto.

Turno da Metalúrgica do Vale na linha do SM-204: 8 horas = 480 minutos.

Calculando cada fator, passo a passo:

  1. Disponibilidade = tempo de funcionamento real / tempo de funcionamento planeado = 420 / 450 = 0,9333 = 93,3%.
  2. Desempenho = (tempo de ciclo ideal × total produzido) / tempo de funcionamento real = (0,5 × 780) / 420 = 390 / 420 = 0,9286 = 92,9%.
  3. Qualidade = peças conformes / total produzido = 750 / 780 = 0,9615 = 96,2%.

OEE = 0,933 × 0,929 × 0,962 ≈ 0,833 = 83,3%.

Erro frequente: usar o tempo total do turno (480 min) em vez do tempo de funcionamento planeado (450 min) no cálculo da disponibilidade. As paragens planeadas (mudanças de ferramenta, manutenção programada) não contam como perda de disponibilidade, só as não planeadas contam.

Produtividade, taxa de refugo e desvio face ao plano

Continuando o mesmo turno (780 unidades produzidas em 8 horas, 30 refugadas, plano do turno = 800 unidades):

Este desvio de −2,5% não é um número solto: tem uma causa registada, a paragem de 30 minutos por avaria. Um relatório analítico só é útil quando liga o número à causa: dizer "produzimos 2,5% menos" vale pouco; dizer "produzimos 2,5% menos porque houve 30 minutos de avaria na quinadora" já permite agir.

5. Codificação, nomenclatura e rastreabilidade

Sistemas de codificação e nomenclatura de produtos

Cada produto e família de produtos precisa de um código único, para não haver confusões entre referências parecidas:

O código do produto funciona como o número de matrícula de um carro: único, e permite encontrar todo o histórico associado. Um sistema de codificação bem desenhado poupa erros de picking em armazém, erros de faturação e falhas de rastreabilidade.

Rastreabilidade de produtos

Rastreabilidade é a capacidade de seguir um produto ao longo de todo o processo, desde a matéria-prima até à entrega, e de o localizar em caso de problema.

Se um lote de chapa de aço chegar com um defeito de fornecedor, a rastreabilidade permite identificar exatamente que peças SM-204 usaram esse lote e isolá-las, sem ter de recolher toda a produção do mês. É como o cartão de vacinação: regista o que aconteceu, quando e com que produto, para se poder consultar mais tarde.

Rastreabilidade e qualidade andam sempre de mãos dadas: sem registo, não há como provar conformidade nem localizar uma não conformidade.

6. Planeamento de necessidades de materiais (MRP)

O MRP (Material Requirements Planning) calcula quanto e quando encomendar ou produzir cada componente, a partir da procura do produto final. Precisa de três entradas:

A saída do MRP são ordens de produção e de compra, com quantidade e data, para cada componente. A fórmula central é:

Necessidades líquidas = Necessidades brutas − Stock disponível − Receções programadas

O MRP é como fazer a lista de compras a partir de uma receita multiplicada pelo número de convidados, olhando primeiro ao que já há no frigorífico e ao que já está a caminho da loja.

Exemplo resolvido · Necessidades líquidas de um componente

O SM-204 usa 2 unidades da base B-10 por cada suporte fabricado. A Metalúrgica do Vale recebeu uma encomenda de 800 unidades de SM-204 para a próxima semana.

  1. Necessidades brutas de B-10 = 800 × 2 = 1 600 unidades.
  2. Stock disponível de B-10 em armazém: 300 unidades.
  3. Receção já programada junto de um fornecedor: 200 unidades.

Necessidades líquidas = 1 600 − 300 − 200 = 1 100 unidades de B-10, a produzir ou encomendar, com uma data limite anterior ao arranque da linha, considerando o lead time do fornecedor ou da produção interna.

Erro frequente: subtrair só o stock disponível e esquecer as receções já programadas (ou o contrário), o que leva a duplicar encomendas ou a subestimar as necessidades reais.

7. Just In Time e Kanban

Just In Time (JIT)

O JIT é uma filosofia de produção que visa produzir apenas o necessário, na quantidade necessária, no momento necessário, eliminando stocks e desperdícios. Reduz o stock parado (capital imobilizado) e o espaço de armazenagem, mas exige qualidade elevada (sem stock de segurança, um defeito para a linha) e fornecedores fiáveis. O JIT não é ausência de planeamento: é um planeamento tão afinado que dispensa stocks de reserva grandes, como cozinhar à minuta num restaurante, onde os ingredientes têm de estar sempre prontos, mas só se prepara o prato quando o cliente pede.

Kanban: o sistema pull em cartões

O Kanban é o método mais comum para implementar o JIT: um sistema de cartões (ou sinais visuais) que autorizam a produção ou o transporte de um contentor de peças. Cada cartão representa um contentor de quantidade fixa; quando o contentor esvazia, o cartão volta à origem e autoriza a reposição. Só se produz quando há um cartão livre, é o consumo a jusante que puxa a produção a montante, como o sistema de garrafas de gás vazias e cheias em casa, em que a garrafa vazia é o "cartão" que pede a reposição.

O número de kanbans necessários calcula-se por:

N = (D × L × (1 + S)) / C

Onde D é a procura por unidade de tempo, L é o lead time de reposição, S é o fator de segurança e C é a capacidade do contentor.

Exemplo resolvido · Número de cartões Kanban

A célula de montagem do SM-204 consome a base B-10 a um ritmo de D = 100 unidades/hora. O fornecedor interno demora L = 0,5 hora a repor um contentor, e a empresa usa um fator de segurança de S = 10% (0,10). Cada contentor tem capacidade C = 25 unidades.

N = (100 × 0,5 × 1,10) / 25 = (50 × 1,10) / 25 = 55 / 25 = 2,2

Como o número de cartões tem de ser um número inteiro, arredonda-se sempre para cima (nunca para o valor matemático mais próximo): são precisos 3 kanbans em circulação para garantir o abastecimento sem parar a linha. Um cartão a menos aqui significaria risco de rutura de material.

8. Aplicações informáticas de controlo da produção

Sistemas de monitorização e informação

O controlo da produção apoia-se hoje em sistemas informáticos que recolhem dados diretamente do chão de fábrica:

Estes sistemas substituem os registos em papel, reduzem erros de transcrição e permitem calcular o OEE quase automaticamente. Um MES é como o painel de instrumentos de um carro moderno: mostra tudo em tempo real, mas quem decide travar ou acelerar continua a ser o condutor.

Folhas de cálculo e registo manual

Nem todas as empresas, nem todas as linhas, têm um MES. A folha de cálculo continua a ser uma ferramenta central de controlo da produção, usada para:

Saber construir uma folha de registo clara e uma fórmula correta é, muitas vezes, mais importante do que dominar um software caro: uma folha bem feita é como uma receita escrita com rigor, qualquer pessoa a segue e chega ao mesmo resultado.

9. Análise de resultados: desvios e gargalos

Recolha e tratamento de dados de produção

Analisar resultados começa por comparar sistematicamente o que estava planeado com o que foi realizado, em cinco passos:

  1. Recolher os dados do turno: quantidades, tempos, paragens, refugo.
  2. Tratar: organizar por linha, produto e turno, calcular os indicadores.
  3. Comparar planeado vs. realizado, e calcular o desvio.
  4. Analisar tendências: o desvio repete-se? Está a piorar ou a melhorar ao longo dos turnos?
  5. Identificar a causa: avaria, falta de material, formação, método de trabalho.

O desvio de −2,5% calculado no capítulo 4 já tem causa identificada: a avaria de 30 minutos registada no turno. Um relatório analítico só é útil quando liga o número à causa e a uma proposta de ação; um único turno isolado não chega, os desvios só ganham sentido quando comparados ao longo do tempo, tal como um médico não decide só com uma medição, olha à evolução ao longo de várias consultas.

Gargalos e limitações da capacidade produtiva

Um gargalo é a estação ou recurso que limita a capacidade de toda a linha: ninguém pode produzir mais depressa do que o gargalo permite, mesmo que as outras estações tenham folga.

Considera uma linha com três estações em sequência:

Estação Tempo de ciclo
A · Corte 2,0 min/peça
B · Soldadura 3,5 min/peça
C · Acabamento 2,5 min/peça

A estação B é o gargalo, por ter o maior tempo de ciclo. A capacidade da linha é sempre a do gargalo, não a média das três estações:

Capacidade da linha = 60 / 3,5 ≈ 17,1 peças/hora, mesmo que A (60/2 = 30 peças/hora) e C (60/2,5 = 24 peças/hora) consigam mais.

Erro frequente: calcular a capacidade da linha pela média dos tempos de ciclo das três estações. A linha nunca é mais rápida do que o seu gargalo; aumentar a capacidade de A ou C sem tocar em B não aumenta em nada a produção final, tal como uma auto-estrada com três faixas que estreita para uma só flui sempre ao ritmo do troço mais estreito.

10. Melhoria contínua: Lean Manufacturing

Otimizar a produção é procurar, de forma sistemática e contínua, formas de produzir melhor: mais rápido, com menos desperdício e com mais qualidade, sem baixar as condições de trabalho. Nasce sempre da análise de resultados do capítulo anterior, um gargalo, um desvio recorrente, uma taxa de refugo alta, e aplica-se sobretudo através do Lean Manufacturing. É um ciclo permanente, nunca "está feito", tal como manter a forma física não se resolve com um único treino.

5S: a base da organização do posto de trabalho

Os 5S são cinco práticas japonesas para organizar o posto de trabalho, a base de qualquer melhoria contínua:

S Significado Na prática
Seiri triagem separar o necessário do desnecessário
Seiton arrumação um lugar para cada coisa, cada coisa no seu lugar
Seiso limpeza limpar e inspecionar regularmente
Seiketsu normalização criar normas visuais para manter os 3 primeiros S
Shitsuke disciplina manter o hábito, com auditorias periódicas

Um posto de trabalho em 5S reduz o tempo perdido à procura de ferramentas e previne acidentes. É como arrumar uma oficina: se cada ferramenta tem o seu lugar marcado, ninguém perde tempo à procura dela a meio de uma tarefa urgente. Uma limpeza pontual não chega para se chamar 5S, falta a normalização e a disciplina para que o hábito dure.

SMED, TPM e Jidoka

Estas três ferramentas atacam diretamente os três fatores do OEE: SMED e TPM melhoram a disponibilidade, Jidoka melhora a qualidade. É esta ligação que dá sentido prático ao Lean, em vez de o tratar como um conjunto de siglas soltas.

11. Six Sigma

O método DMAIC

O Six Sigma é uma metodologia orientada para reduzir a variabilidade e os defeitos, usando dados e estatística. Aplica-se através do ciclo DMAIC:

O nome "Six Sigma" vem da meta estatística de 3,4 defeitos por milhão de oportunidades (DPMO), um nível de qualidade muito exigente. O Six Sigma complementa o Lean: o Lean elimina desperdício de tempo, o Six Sigma elimina variabilidade e defeitos. O DMAIC funciona como um checklist de investigação: define o problema, recolhe provas, analisa, resolve e vigia para que não se repita.

Exemplo resolvido · DPMO

Retomando o turno da Metalúrgica do Vale: 780 unidades produzidas, 30 refugadas, considerando uma oportunidade de defeito por unidade (o furo de fixação analisado no capítulo 12).

DPMO = (defeitos / (unidades × oportunidades)) × 1 000 000

DPMO = (30 / (780 × 1)) × 1 000 000 = 0,038462 × 1 000 000 ≈ 38 462 DPMO

Este valor está muito longe da meta de 3,4 DPMO do Six Sigma: mostra que há margem grande de melhoria na qualidade desta linha e justifica abrir um projeto DMAIC completo. Repara que o DPMO usa exatamente o mesmo par de números (30 refugadas em 780 unidades) já usado no cálculo do OEE, apenas numa escala diferente: 3,8% de refugo e 38 462 DPMO são a mesma realidade, vista de duas formas.

12. Cartas de controlo da qualidade

O que é uma carta de controlo

A carta de controlo é um gráfico que acompanha uma característica do produto ao longo do tempo, para distinguir a variação normal (do processo) da variação anormal (uma causa a corrigir). Recolhem-se subgrupos de amostras, calcula-se a média e a amplitude (R) de cada subgrupo, e a partir da média das médias e da média das amplitudes calculam-se os limites de controlo (UCL e LCL). Pontos dentro dos limites: processo sob controlo. Pontos fora: processo a precisar de intervenção. A carta de controlo é a ferramenta central da etapa Control do DMAIC.

Os limites de controlo vêm dos dados do próprio processo, não são a tolerância do desenho técnico: são como a "temperatura normal" de uma pessoa saudável, enquanto os limites de especificação são o que o médico considera aceitável antes de agir.

Exemplo resolvido · Limites de controlo (X̄-R)

Controlo do diâmetro do furo de fixação do SM-204 (nominal 20,00 mm, tolerância ±0,05 mm). Recolhidas 5 amostras (subgrupos) de 4 peças cada, em milímetros:

Amostra Medições Média Amplitude (R)
1 20,02 · 19,99 · 20,01 · 20,02 20,010 0,03
2 19,98 · 20,00 · 19,99 · 20,01 19,995 0,03
3 20,01 · 20,02 · 19,99 · 20,02 20,010 0,03
4 19,99 · 20,00 · 20,01 · 20,00 20,000 0,02
5 20,02 · 20,01 · 20,00 · 20,01 20,010 0,02
  1. Média das médias (X̿) = (20,010 + 19,995 + 20,010 + 20,000 + 20,010) / 5 = 100,025 / 5 = 20,005 mm.
  2. Média das amplitudes (R̄) = (0,03 + 0,03 + 0,03 + 0,02 + 0,02) / 5 = 0,13 / 5 = 0,026 mm.
  3. Para subgrupos de n = 4, a constante estatística é A₂ = 0,729: UCL = X̿ + A₂ × R̄ = 20,005 + 0,729 × 0,026 ≈ 20,005 + 0,019 = 20,024 mm. LCL = X̿ − A₂ × R̄ = 20,005 − 0,019 = 19,986 mm.

Erro frequente: usar a amplitude de todas as 20 medições juntas, em vez da média das 5 amplitudes, uma por subgrupo. Os limites de controlo dependem da variação dentro de cada subgrupo, não da dispersão total dos dados.

Interpretar uma carta de controlo

Uma carta de controlo lê-se para além de "dentro ou fora dos limites":

No exemplo do SM-204, com tolerância ±0,05 mm (entre 19,95 e 20,05 mm), os limites de controlo calculados (19,986 a 20,024 mm) estão dentro da tolerância de especificação: o processo é considerado capaz. Uma sequência de pontos do mesmo lado é como uma febre que não passa dos 38°C mas nunca desce: não é uma emergência, mas exige atenção.

13. Qualidade e rastreabilidade de produtos

Gestão da qualidade e procedimentos

Garantir a qualidade de um produto metalomecânico exige procedimentos definidos e seguidos, não apenas boa vontade:

A precisão e o rigor na identificação e rastreabilidade do produto são, em si, um critério de desempenho avaliado nesta UC, não um detalhe secundário.

Registos e documentação técnica

O controlo da produção só existe, de facto, se ficar registado:

Um registo bem feito serve três públicos: o próprio encarregado, para decidir; a direção, para acompanhar; e um auditor, para comprovar conformidade. É como o diário de bordo de um navio: regista-se tudo, não só as tempestades.

14. Registos, novas tecnologias e sustentabilidade

Novas tecnologias: sistemas de produção e IoT

A indústria atual integra sensores e conectividade no controlo da produção, o que se costuma chamar Indústria 4.0:

Um sensor de vibração é como um estetoscópio permanente na máquina: avisa antes de o problema se tornar audível a olho nu. Estas tecnologias não substituem os conceitos desta UC, apenas tornam a recolha de dados mais rápida e mais fiável, a análise e a decisão continuam a ser humanas.

Sustentabilidade e eficiência energética

O controlo da produção também acompanha o consumo de recursos e o impacto ambiental:

Um OEE mais alto não é só mais produtivo, é também mais sustentável: cada unidade refugada gastou energia e material que não geraram nenhum valor, tal como reduzir o desperdício alimentar numa cozinha poupa matéria-prima, energia e dinheiro ao mesmo tempo.

15. Normas, segurança e proteção ambiental

O controlo da produção cumpre-se sempre dentro de um quadro de normas obrigatórias, que fecham o referencial desta UC:

Cumprir estas normas não é opcional nem negociável, é uma condição para operar, tal como qualquer indicador de produção. São como as regras de trânsito: não aceleram a viagem, mas sem elas ninguém chega ao destino em segurança.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Controlar a produção é um ciclo permanente: planear (com sistemas push como o MRP e pull como o Kanban), executar, monitorizar através de indicadores (produtividade, eficiência, prazos, qualidade, culminando no OEE), analisar desvios e gargalos, e corrigir com ferramentas de melhoria contínua (Lean e Six Sigma), sustentado por cartas de controlo, registos e rastreabilidade, e sempre dentro das normas de segurança, qualidade e ambiente. O caso da Metalúrgica do Vale mostrou este ciclo completo: de um turno com 780 unidades e um OEE de 83,3%, passando pelo MRP da base B-10, ao Kanban de 3 cartões e à carta de controlo do furo de fixação, tudo com os mesmos dados, coerentes do início ao fim.

Exercícios resolvidos

1. Calcula a disponibilidade de um turno de 480 minutos, com 40 minutos de paragens planeadas e 20 minutos de avaria.

Resolução: tempo de funcionamento planeado = 480 − 40 = 440 min. Tempo de funcionamento real = 440 − 20 = 420 min. Disponibilidade = 420 / 440 ≈ 95,5%.

2. Numa linha com tempo de ciclo ideal de 1 min/peça, em 400 minutos de funcionamento real produziram-se 350 peças. Calcula o desempenho.

Resolução: Desempenho = (tempo de ciclo ideal × total produzido) / tempo de funcionamento real = (1 × 350) / 400 = 350/400 = 87,5%.

3. Um turno planeava 600 unidades e produziu 570. Calcula o desvio em unidades e em percentagem.

Resolução: desvio = 570 − 600 = −30 unidades. Em percentagem, sobre o plano: (−30 / 600) × 100 = −5%.

4. Um produto final precisa de 3 unidades de um componente. Encomenda de 400 unidades do produto final, stock do componente = 250, receção programada = 100. Calcula as necessidades líquidas.

Resolução: necessidades brutas = 400 × 3 = 1 200. Necessidades líquidas = 1 200 − 250 − 100 = 850 unidades do componente.

5. Uma linha consome um componente a D = 60 unidades/hora, com lead time L = 1 hora, fator de segurança S = 20% e contentores de C = 20 unidades. Calcula o número de kanbans.

Resolução: N = (60 × 1 × 1,20) / 20 = 72 / 20 = 3,6, arredondando sempre para cima: são precisos 4 kanbans.