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UC · Unidade de Competência · UC04460

Sebenta · Planear a produção (UC04460)

Da recolha de elementos ao ajuste do plano, com MRP, CRP e caminho crítico na indústria metalomecânica
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Planeamento Industrial ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a planear a produção numa oficina metalomecânica, do primeiro contacto com a encomenda até ao ajuste do plano depois de a produção arrancar. O planeamento da produção é o que transforma uma promessa comercial ("entregamos em três semanas") numa sequência concreta de operações, materiais e pessoas que a cumprem.

O percurso segue as quatro realizações do referencial: realizar o estudo e a preparação da planificação da produção, realizar o planeamento e a gestão dos materiais afetos à produção, definir os processos, a sequência de fabrico e os métodos operatórios da produção, e avaliar, monitorizar e ajustar o planeamento da produção. Ao longo dos capítulos vais dominar desenho técnico e materiais, processos de fabrico, gamas e tempos, previsão da procura, aprovisionamento e stocks, planeamento agregado, MRP e CRP, os métodos Gantt, PERT e CPM, ferramentas informáticas, monitorização e ajuste, e ainda sustentabilidade, legislação, segurança e qualidade.

Esta UC é aplicável a diferentes contextos da indústria metalomecânica: oficinas de maquinação, serralharias, linhas de montagem e fabrico por encomenda. Os exemplos que se seguem usam números realistas desse setor.

1. Planear a produção: visão geral

Planear a produção é decidir, antes de fabricar, o quê, quanto, quando, com quê e com quem. Numa oficina metalomecânica que recebe uma encomenda de 500 flanges, o planeamento decide: que processos usar, que materiais comprar, que máquinas e operadores reservar, e em que sequência e prazo.

As quatro realizações, por ordem

  1. Estudo e preparação da planificação: recolher todos os elementos (desenho, quantidade, prazo, materiais disponíveis) antes de planear.
  2. Planeamento e gestão dos materiais: garantir que os materiais certos existem no momento certo.
  3. Definição de processos, sequência de fabrico e métodos operatórios: decidir como e por que ordem a peça é fabricada.
  4. Avaliação, monitorização e ajuste: comparar o planeado com o realizado e corrigir o plano.

Este ciclo repete-se em cada nova encomenda ou período de produção, e é a estrutura que organiza todo o resto desta sebenta.

Os sete critérios de desempenho

O trabalho do técnico é avaliado por sete critérios: assegurar a recolha de elementos para a planificação; garantir o aprovisionamento e a receção dos materiais; assegurar o sequenciamento das etapas de trabalho; aplicar técnicas de análise e previsão; adequar métodos de planeamento às variações da produção e do aprovisionamento; assegurar o caminho crítico; e cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho, de proteção individual, ambiental, de gestão de resíduos e da qualidade.

Sempre que tiveres dúvidas sobre "o que é avaliado nesta UC", volta a estes sete critérios: cada capítulo seguinte desenvolve um ou mais deles.

2. Desenho técnico, materiais e metrologia

Antes de planear, o técnico tem de interpretar desenhos, croquis, peças e outros suportes técnicos, e interpretar normas e documentação técnica. O desenho técnico normalizado (cotas, tolerâncias, vistas, cortes, segundo normas ISO e NP) é a linguagem comum entre cliente, projetista e oficina: sem o ler bem, planeia-se a partir de suposições, não de dados.

A tecnologia dos materiais condiciona diretamente os tempos e os processos:

Material Característica Impacto no planeamento
Aço macio fácil de maquinar e soldar tempos de ciclo mais curtos
Aço inoxidável resistente à corrosão, mais duro maior desgaste de ferramenta, tempos maiores
Alumínio leve, boa maquinabilidade velocidades de corte mais altas
Ferro fundido frágil, boa fundição cuidado no manuseamento e transporte

A metrologia dimensional garante que a peça fabricada respeita o desenho: instrumentos como o paquímetro, o micrómetro, o relógio comparador e a máquina de medição por coordenadas medem comprimentos, diâmetros e ângulos com o rigor exigido pelas tolerâncias. O planeamento tem de prever tempo de controlo dimensional como uma operação própria, não como um extra invisível: uma peça fora de tolerância gera retrabalho ou refugo, o que desorganiza todo o plano seguinte.

Uma oficina de Águeda recebeu um desenho de um veio com tolerância de ±0,02 mm no diâmetro. Sem prever tempo de medição com micrómetro a cada dez peças, o lote inteiro só foi controlado no fim: três peças fora de tolerância obrigaram a refazer o setup da retificadora dois dias depois de o lote estar "concluído".

3. Processos de fabrico e sistemas de produção

Identificar os processos industriais de fabrico disponíveis é o segundo passo do estudo prévio: maquinação (torneamento, fresagem, furação, retificação), conformação (quinagem, calandragem, estampagem), união (soldadura, rebitagem, colagem), corte (laser, plasma, jato de água, guilhotina) e tratamento (térmico, superficial). Cada processo tem tempos, custos e capacidades diferentes.

Caracterizar os sistemas de produção é decidir como a fábrica está organizada:

Sistema Características Exemplo
Produção contínua grandes volumes, produto único fábrica de perfis metálicos
Produção intermitente (por lotes) lotes variáveis, várias referências serralharia com várias encomendas
Produção por projeto peça ou conjunto único estrutura metálica sob medida
Just-in-Time (JIT) produzir só o necessário, quando necessário linha de montagem de componentes

Identificar as tecnologias instaladas e avaliar os benefícios e as limitações da automatização completam este capítulo: máquinas CNC, robótica industrial, sistemas MES/ERP ligados ao chão de fábrica e sensores de recolha automática de dados trazem rapidez e consistência, mas exigem investimento elevado e menos flexibilidade em lotes muito pequenos.

4. Preparação do trabalho: gamas, tempos e meios

Definir os processos, a sequência de fabrico e os métodos operatórios materializa-se na gama de fabrico, o documento que descreve operação a operação como se fabrica uma peça:

Operação Máquina Ferramenta Tempo (min)
10 · Corte a laser Corte laser bocal 1,5 mm 4
20 · Quinagem Quinadora matriz V12 6
30 · Soldadura Posto MIG fio 0,8 mm 12
40 · Controlo dimensional Bancada de medição paquímetro 3

A ficha de trabalho acompanha a ordem de fabrico no chão de fábrica e regista o tempo real gasto por operador e operação, permitindo comparar depois o planeado com o real.

Exemplo resolvido: tempo de fabrico do lote

Um lote de 200 peças tem tempo de preparação (setup) de 30 minutos e tempo de ciclo de 2 minutos por peça.

Tempo total = tempo de preparação + (tempo de ciclo × quantidade) = 30 + (2 × 200) = 30 + 400 = 430 minutos, cerca de 7 horas e 10 minutos.

Se o prazo disponível é de 6 horas de produção, o plano tem um problema: dividir por dois turnos, reduzir o tempo de setup ou renegociar o prazo com o cliente.

Planear também é alocar meios humanos e materiais (operadores com as competências certas, máquinas, ferramentas, matéria-prima) através da organização e preparação do trabalho: preparar postos e documentação antes de a produção arrancar evita paragens à espera de algo que devia já estar pronto.

5. Previsão da procura

Assegurar a recolha dos elementos começa por verificar encomendas e previsões, e por verificar os inputs de clientes e as previsões comerciais. As encomendas em carteira dão a procura certa; as previsões comerciais dão a procura provável. Cruzar as duas dá a procura total a planear.

Aplicar técnicas de análise e previsão é um critério de desempenho explícito da UC. Uma das técnicas mais simples é a média móvel.

Exemplo resolvido: média móvel simples

Vendas dos últimos quatro meses de um componente: 120, 135, 128, 142 unidades.

Previsão para o próximo mês = (120 + 135 + 128 + 142) / 4 = 525 / 4 = 131,25, arredondado a 131 unidades.

Este valor entra depois como procura prevista no planeamento agregado e no MRP. Técnicas mais avançadas, como a média móvel ponderada ou o alisamento exponencial, dão mais peso aos meses mais recentes, reagindo mais depressa a mudanças de tendência.

Nenhuma técnica de previsão é exata. O objetivo é reduzir o erro face à procura real, nunca eliminá-lo por completo.

6. Aprovisionamento, receção e gestão de stocks

Garantir o aprovisionamento e a receção dos materiais é o segundo critério de desempenho e apoia diretamente a realização de planeamento e gestão de materiais. O aprovisionamento garante que o material certo chega no momento certo, na quantidade certa; a receção confere a entrega contra a guia de remessa (quantidade, referência, estado). Um erro na receção só se manifesta dias depois, na linha de produção, quando já é tarde para corrigir sem custo.

Planear as ordens de compra, de fabrico e de montagem de componentes organiza-se em três tipos sincronizados:

Ordem Objetivo Quem executa
Ordem de compra adquirir matéria-prima ou componentes externos fornecedor
Ordem de fabrico produzir internamente uma peça oficina
Ordem de montagem juntar componentes num conjunto linha de montagem

A gestão de stocks equilibra o custo de guardar material (custo de posse) com o custo de ficar sem ele (custo de rutura), usando dois conceitos-chave: o stock de segurança (quantidade extra para cobrir variações e atrasos) e o ponto de encomenda (nível de stock que dispara uma nova compra).

Exemplo resolvido: ponto de encomenda

Consumo médio de 50 peças/dia, prazo de entrega do fornecedor de 6 dias, stock de segurança de 80 peças.

Ponto de encomenda = (consumo médio × prazo de entrega) + stock de segurança = (50 × 6) + 80 = 300 + 80 = 380 peças.

Quando o stock atinge 380 peças, lança-se uma nova ordem de compra, a tempo de o material chegar antes de o stock se esgotar.

A organização de armazéns e instalações completa este capítulo: localização fixa ou dinâmica dos materiais, identificação clara por etiquetas e códigos, fluxo lógico entre receção, armazenagem e expedição, e o princípio FIFO (primeiro a entrar, primeiro a sair), que evita materiais obsoletos.

7. Planeamento agregado

Caracterizar os diversos tipos de planeamento e as suas vantagens distingue três horizontes: longo prazo (estratégico), médio prazo (planeamento agregado) e curto prazo (operacional, dia a dia). O planeamento agregado decide, mês a mês, quanto produzir por família de produtos, equilibrando capacidade e procura prevista, sem entrar ainda no detalhe de cada referência.

Estratégia Como funciona Vantagem Desvantagem
Nivelamento produção constante, stock absorve variações mão de obra estável custo de stock
Perseguição produção acompanha a procura mês a mês pouco stock contratações e horas extra variáveis

Exemplo resolvido: estratégia de nivelamento

Procura prevista para três meses: 800, 950 e 700 unidades. Capacidade normal: 800 unidades/mês. Com nivelamento, produz-se sempre 800/mês:

Mês Procura Produção Situação
1 800 800 equilibrado
2 950 800 défice de 150, cobre-se com horas extra ou stock
3 700 800 excedente de 100, acumula stock

O nivelamento não elimina o problema dos picos de procura, apenas o transforma em custo de horas extra ou de stock acumulado.

8. MRP e CRP: materiais e capacidades

O Planeamento de Materiais (MRP) calcula, a partir da procura de produtos finais, quanto e quando encomendar ou fabricar cada componente. Precisa de três dados: o plano diretor de produção, a lista de materiais (BOM) e o registo de stocks. A partir daí, "explode" o produto final nos componentes e calcula as necessidades líquidas.

Exemplo resolvido: cálculo MRP

Encomenda de 100 conjuntos; cada conjunto leva 2 parafusos M8. Stock atual: 60 parafusos.

  1. Necessidade bruta = 100 × 2 = 200 parafusos.
  2. Necessidade líquida = necessidade bruta − stock disponível = 200 − 60 = 140 parafusos.
  3. Se o prazo de entrega do fornecedor é de 5 dias, a ordem de compra tem de sair pelo menos 5 dias antes de a montagem precisar dos parafusos.

Este cálculo repete-se para cada componente da lista de materiais, o que explica porque otimizar o planeamento agregado e de materiais exige quase sempre software.

O Planeamento de Capacidades (CRP) verifica se a oficina tem capacidade real para cumprir o plano que o MRP gerou: compara a capacidade necessária (horas exigidas pelas ordens) com a capacidade disponível (horas reais existentes). O diagrama de carga mostra visualmente essa comparação por posto de trabalho:

Capacidade disponível: ████████████████████ (160h/semana)
Carga planeada:        ██████████████████████████ (200h/semana)
                        └──────── sobrecarga de 40h ────────┘

Se a carga excede a capacidade, o plano tem de reagir: horas extra, subcontratação ou reagendamento de uma ordem menos urgente, sempre antes de a semana começar.

9. Métodos de planeamento: Gantt, PERT e CPM

O diagrama de Gantt mostra as tarefas de uma ordem de fabrico ao longo do tempo, em barras horizontais, e é a ferramenta mais usada para comunicar um plano à equipa:

Tarefa            Dia 1  2  3  4  5  6
Corte             ████
Quinagem              ████
Soldadura                ██████
Controlo dimensional          ██
Pintura                          ████

O Gantt é fácil de ler, mas não calcula sozinho qual é o percurso mais crítico. Para isso usam-se o PERT (Program Evaluation and Review Technique) e o CPM (Critical Path Method), que representam as tarefas como uma rede de dependências e calculam o caminho crítico: a sequência de tarefas cujo atraso atrasa todo o projeto. Assegurar o caminho crítico é um critério de desempenho explícito desta UC.

Exemplo resolvido: caminho crítico

Tarefa Duração (dias) Depende de
A · Corte 2 -
B · Quinagem 3 A
C · Soldadura 4 B
D · Pintura 2 C
E · Embalagem 1 D

Existe um único caminho, A → B → C → D → E: 2 + 3 + 4 + 2 + 1 = 12 dias. Sem caminhos alternativos, todas as tarefas são críticas: qualquer atraso numa delas atrasa a entrega final. Quando há tarefas em paralelo, o caminho crítico é o mais longo entre o início e o fim do projeto, e as tarefas fora dele têm folga (margem) disponível.

10. Ferramentas informáticas, monitorização e ajuste

A informática aplicada ao planeamento cobre três níveis: folha de cálculo (Excel, Google Sheets) para MRP simples e verificações rápidas, software de gestão de materiais integrado num ERP, e ferramentas de planeamento dedicadas, com CRP e Gantt automáticos ligados ao chão de fábrica. Operacionalizar aplicações informáticas específicas, configurar e adaptar software de planeamento e integrar dados de diferentes fontes são aptidões práticas: um plano só é tão bom quanto os dados que o alimentam.

A quarta realização, avaliar, monitorizar e ajustar o planeamento da produção, fecha o ciclo: avaliar compara o planeado com o realizado no fim de cada período; monitorizar acompanha indicadores durante a execução (prazos, ocupação de máquinas, nível de stock); ajustar altera o plano quando surgem desvios, avarias ou encomendas urgentes.

Exemplo resolvido: identificar e analisar um desvio

O plano previa 500 peças em 5 dias; foram produzidas apenas 430.

Desvio = (500 − 430) / 500 = 14% abaixo do planeado.

Investigando a causa, encontra-se uma avaria de 6 horas na quinadora. A ação corretiva não é só lamentar o desvio, é otimizar a precisão do planeamento: rever o plano de manutenção preventiva e incluir uma margem para paragens não planeadas no próximo ciclo.

11. Sustentabilidade, legislação, segurança e qualidade

O último critério de desempenho da UC junta cinco áreas normativas: normas de segurança e saúde no trabalho, de proteção individual, ambiental, de gestão de resíduos e da qualidade.

Cortar tempo de segurança ou de gestão ambiental para "ganhar tempo" num plano apertado não é planeamento eficiente, é transferir o risco para mais tarde e a um custo muito maior.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Planear a produção é um ciclo contínuo: estudar e preparar (desenho técnico, materiais, metrologia, processos e sistemas de produção), planear materiais (previsão, aprovisionamento, stocks), definir sequência e métodos (gamas, tempos, planeamento agregado, MRP, CRP, Gantt, PERT, CPM), e avaliar, monitorizar e ajustar com apoio de ferramentas informáticas. A sustentabilidade, a segurança, o ambiente e a qualidade atravessam todas as fases, não são um capítulo à parte. Domina este ciclo e serás capaz de planear a produção de qualquer encomenda numa oficina metalomecânica.

Exercícios resolvidos

1. Uma oficina tem 6 horas de produção disponíveis para um lote com setup de 40 minutos e tempo de ciclo de 3 minutos por peça. Quantas peças consegue fabricar?

Resolução: tempo disponível = 6 × 60 = 360 minutos. Tempo para produção = 360 − 40 (setup) = 320 minutos. Peças = 320 / 3 ≈ 106 peças.

2. O consumo médio de um componente é de 30 peças/dia, o fornecedor entrega em 8 dias e o stock de segurança definido é de 50 peças. Qual é o ponto de encomenda?

Resolução: ponto de encomenda = (30 × 8) + 50 = 240 + 50 = 290 peças.

3. Uma encomenda de 80 conjuntos precisa de 3 anilhas por conjunto. O stock atual é de 100 anilhas. Qual é a necessidade líquida?

Resolução: necessidade bruta = 80 × 3 = 240. Necessidade líquida = 240 − 100 = 140 anilhas a comprar ou fabricar.

4. Um projeto tem as tarefas A (3 dias), B (2 dias, depende de A) e C (5 dias, depende de A) em paralelo com B, e D (1 dia, depende de B e C). Qual é o caminho crítico?

Resolução: dois caminhos possíveis: A→B→D = 3+2+1 = 6 dias; A→C→D = 3+5+1 = 9 dias. O caminho crítico é o mais longo, A→C→D, com 9 dias. A tarefa B tem folga de 3 dias.

5. A produção real de um mês foi de 640 peças contra um plano de 750. Calcula o desvio em percentagem e sugere uma ação de ajuste.

Resolução: desvio = (750 − 640) / 750 ≈ 14,7% abaixo do plano. Ação: identificar a causa (por exemplo, falta de material ou avaria), corrigir a origem e ajustar o próximo plano com uma margem de segurança para o mesmo tipo de imprevisto.