Sebenta · Planear e monitorizar os trabalhos por conformação plástica (UC04454)
- Introdução
- 1. Da leitura do desenho à escolha do processo
- 2. Tecnologia dos materiais aplicada à conformação
- 3. Conformação de peças maciças e de secção constante
- 4. Conformação de chapa: quinagem, calandragem, estampagem e embutidura
- 5. Variáveis do processo e retorno elástico
- 6. Equipamentos, operação de máquinas e preparação em bancada
- 7. Metrologia dimensional
- 8. Planeamento de operações, Ordens de Produção e ferramentas de planeamento
- 9. Estudo dos tempos e métodos e análise estatística
- 10. Custeio de operações de fabrico
- 11. Monitorizar a execução e controlar a qualidade
- 12. Segurança, saúde no trabalho, ambiente e qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara-te para planear e monitorizar trabalhos por conformação plástica, uma das famílias de processos mais usadas na indústria metalomecânica: dar forma ao metal por deformação, sem retirar material.
O papel do técnico de planeamento não se limita a "mandar produzir". Envolve quatro tarefas que se repetem em cada lote de trabalho:
- Analisar as necessidades de trabalhos por conformação plástica, a partir do desenho técnico.
- Estabelecer as etapas do processo, sequenciando operações, recursos e prazos.
- Monitorizar a execução, verificando a qualidade das peças produzidas.
- Determinar os custos associados ao processo de fabrico.
Para conseguires fazer isto bem, precisas de conhecer os processos de conformação plástica (forjamento, extrusão, trefilagem, laminação, quinagem, calandragem, estampagem e embutidura), os equipamentos que os executam, a metrologia que verifica o resultado, as ferramentas de planeamento (Gantt, PERT, CPM) e o custeio das operações, sempre com segurança, saúde, ambiente e qualidade como condição, não como extra.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar necessidades de trabalhos por conformação plástica; estabelecer as etapas do processo; monitorizar a execução; e determinar custos associados a processos de conformação plástica, ajustando os processos aos requisitos da peça e aos meios instalados.
1. Da leitura do desenho à escolha do processo
Todo o planeamento de conformação plástica começa no desenho técnico da peça. É nele que estão as decisões que já foram tomadas no projeto e que o técnico tem de respeitar:
- Cotas e tolerâncias · as dimensões exigidas e a margem de erro admissível.
- Material · a designação normalizada da liga (aço, alumínio, cobre, latão).
- Espessura e geometria · se a peça é maciça, tubular ou de chapa fina.
- Notas de fabrico · raios mínimos de dobra, sentido do grão, acabamentos exigidos.
A partir destas informações, o técnico associa a peça a um processo de conformação plástica. A tabela seguinte resume a lógica de decisão que atravessa toda a sebenta:
| Geometria da peça | Processo típico |
|---|---|
| Barra ou bloco maciço, forma complexa | forjamento |
| Perfil de secção constante (tubo, cantoneira) | extrusão |
| Fio ou varão de precisão | trefilagem |
| Chapa ou perfil bruto, redução de espessura | laminação |
| Chapa dobrada em linha reta | quinagem |
| Chapa curvada de forma contínua | calandragem |
| Peça complexa de chapa em série | estampagem |
| Peça oca de chapa (lata, panela) | embutidura |
Exemplo resolvido · associar peça a processo
Situação: o desenho pede uma calha metálica de chapa de aço de 2 mm, com duas dobras a 90°, produzida em série de 500 unidades.
- Geometria: chapa fina, dobrada em linhas retas → afasta forjamento, extrusão e trefilagem (esses são para peças maciças ou de secção constante).
- Tipo de deformação: duas dobras localizadas, não uma curva contínua → afasta a calandragem.
- Complexidade e série: série média, geometria simples → não justifica o custo de uma ferramenta de estampagem.
- Conclusão: processo escolhido é a quinagem, numa quinadora com matriz em V ajustada à espessura de 2 mm.
Esta lógica de eliminação, geometria → tipo de deformação → série, aplica-se a qualquer peça nova que chegue ao planeamento.
2. Tecnologia dos materiais aplicada à conformação
O comportamento do material durante a conformação determina a força necessária, o equipamento e o risco de defeitos.
- Ductilidade · capacidade de se deformar sem fraturar. Alumínio e aços macios são muito dúcteis; aços de alta resistência, menos.
- Limite elástico · tensão a partir da qual a deformação passa a ser permanente (plástica). Abaixo dele, o material volta à forma original.
- Encruamento · o material fica mais duro e menos dúctil à medida que é deformado, exigindo mais força a cada passagem sucessiva.
- Trabalho a quente vs a frio · a quente reduz a força necessária e facilita grandes deformações; a frio dá melhor acabamento e precisão dimensional, mas exige mais força e pode obrigar a recozer o material entre operações.
| Material | Características principais | Processos habituais |
|---|---|---|
| Aço macio (S235/S275) | dúctil, económico, uso geral | quinagem, laminação, forjamento |
| Aço inoxidável | resistente, encrua depressa | quinagem, embutidura |
| Alumínio | leve, muito dúctil a frio | extrusão, quinagem, embutidura |
| Cobre e latão | dúctil, boa condutividade | trefilagem, laminação |
Exemplo resolvido · escolher o regime de trabalho
Situação: é preciso forjar um veio de aço de grande secção para um eixo industrial.
- Um bloco desta dimensão, à temperatura ambiente, exigiria uma força de forjamento muito elevada e arriscaria fraturar o material antes de o deformar o suficiente.
- Aquecendo o aço até à temperatura de forjamento (acima da temperatura de recristalização), a sua ductilidade aumenta e o limite elástico desce.
- Decisão: forjamento a quente, com controlo da temperatura ao longo do processo para não perder as propriedades mecânicas desejadas no arrefecimento.
3. Conformação de peças maciças e de secção constante
Quatro processos dão forma a metal em bloco, barra ou fio, sem passar por chapa fina.
Forjamento
Aplica forças de compressão (martelo, prensa) para dar forma a um bloco ou barra de metal, normalmente a quente.
- Forjamento livre · sem molde fechado, para peças únicas ou grandes.
- Forjamento em matriz (estampa) · o metal é comprimido dentro de uma matriz com a forma final, usado em série.
O forjamento orienta as fibras internas do metal segundo a forma da peça, o que aumenta a resistência mecânica face a uma peça equivalente maquinada de um bloco bruto.
Extrusão e trefilagem
Extrusão: o material é empurrado através de uma matriz com a secção do perfil pretendido (tubos, perfis em L ou U). Pode ser direta (material sai no sentido do êmbolo) ou inversa (sentido contrário, menos atrito).
Trefilagem: o material é puxado através de uma fieira que reduz o seu diâmetro, usado sobretudo para produzir arame e varões de precisão.
A distinção mais útil na prática: extrusão empurra, trefilagem puxa.
Laminação
Faz passar o metal entre dois rolos contra-rotativos, reduzindo a espessura e aumentando o comprimento.
- A quente · grandes reduções de espessura, chapa grossa e perfis, menor precisão.
- A frio · passagens finais, melhor acabamento e precisão, mas encrua o material.
Parâmetros a acompanhar: redução por passagem, número de passagens e velocidade de laminação. Defeitos típicos: ondulação das bordas, empeno e variação de espessura, todos motivo de rejeição no controlo de qualidade.
Exemplo resolvido · escolher entre extrusão e trefilagem
Situação: é preciso produzir 200 metros de fio de cobre com 1,5 mm de diâmetro e tolerância dimensional apertada.
- A geometria é de secção constante (fio) → candidato a extrusão ou trefilagem.
- A tolerância apertada e o diâmetro fino favorecem um processo que puxa o material através de uma fieira calibrada, com melhor controlo dimensional do que a extrusão a esta escala.
- Decisão: trefilagem, eventualmente em várias passagens sucessivas, reduzindo o diâmetro progressivamente até ao valor final.
4. Conformação de chapa: quinagem, calandragem, estampagem e embutidura
A chapa metálica fina tem processos próprios, todos partindo de uma folha plana.
Quinagem
Dobra a chapa ao longo de uma linha reta, entre um punção e uma matriz em V, numa quinadora. A linha de quinagem é o eixo da dobra; o ângulo e o raio interno dependem da abertura da matriz e da espessura. Peças com várias dobras exigem uma sequência planeada.
Calandragem
Curva chapa ou perfis de forma contínua, entre três ou mais rolos, para obter formas cilíndricas ou cónicas (tubos, viradores, reservatórios). Ao contrário da quinagem, a curvatura é distribuída ao longo de toda a peça, não localizada numa linha.
Estampagem
Conforma chapa entre um punção e uma matriz que se fecham sobre ela, num único golpe ou em progressão, para peças complexas em série. As ferramentas têm custo elevado, mas o ciclo de produção é muito rápido; só compensa em grandes séries.
Embutidura
Transforma uma chapa plana num corpo oco (latas, panelas, para-lamas), tracionando o material para dentro de uma matriz com um punção. Exige material muito dúctil e um prensa-chapas que controle o fluxo do material, para não gerar rugas. Peças profundas precisam de várias embutiduras sucessivas, com recozimento intermédio.
| Processo | Tipo de dobra/curvatura | Uso típico |
|---|---|---|
| Quinagem | localizada, em linha reta | perfis, caixas, calhas |
| Calandragem | contínua, distribuída | tubos, reservatórios |
| Estampagem | forma complexa, série grande | peças automóvel, eletrodomésticos |
| Embutidura | forma oca, tração do material | latas, panelas |
Exemplo resolvido · sequenciar dobras numa peça de quinagem
Situação: uma caixa de chapa tem quatro dobras a 90° para fechar os lados.
- Desenhar o desenvolvimento da chapa (a peça plana antes de dobrar), com as quatro linhas de quinagem marcadas.
- Planear a ordem das dobras: dobrar primeiro os lados que não impedem o acesso da chapa à quinadora nas dobras seguintes.
- Executar a 1.ª e 2.ª dobras opostas, verificar o ângulo, depois a 3.ª e 4.ª.
- Se a última dobra não coubesse na abertura da quinadora por causa das dobras anteriores, seria preciso reordenar a sequência antes de começar a produção.
5. Variáveis do processo e retorno elástico
Depois de conformado, todo o metal recua ligeiramente em direção à sua forma original: é o retorno elástico (springback). Se se dobrar uma chapa exatamente a 90°, ela acaba com um ângulo maior depois de a força ser retirada.
As variáveis de compensação contrariam este efeito:
- Sobre-dobrar ligeiramente, prevendo o recuo.
- Calcular a geometria da matriz já com a compensação incluída.
- Ajustar a folga entre punção e matriz consoante a espessura e o material.
O retorno elástico depende do material (maior em aços de alta resistência), da espessura e do raio de dobra. As linhas de quinagem e as variáveis de compensação para cada dobra são registadas numa ficha de processo, para que qualquer operador repita o resultado sem ter de reaprender por tentativa e erro.
Exemplo resolvido · compensar o retorno elástico
Situação: uma quinadora dobra chapa de aço a exatamente 90° na matriz, mas as peças saem medidas a 93°.
- Diagnóstico: o desvio de 3° é retorno elástico, o material recua depois de a força ser retirada.
- Correção: ajustar a matriz (ou o curso do punção) para dobrar a 87°, prevendo que o material recue os mesmos 3° até estabilizar nos 90° pretendidos.
- Verificação: produzir uma peça de teste com a nova afinação e medir com goniómetro antes de libertar a série.
- Registo: a afinação de 87° fica escrita na ficha de processo desta peça, material e espessura.
6. Equipamentos, operação de máquinas e preparação em bancada
Cada processo tem o seu equipamento característico:
| Equipamento | Processo | Função |
|---|---|---|
| Prensa mecânica/hidráulica | estampagem, embutidura | fornece força de conformação |
| Quinadora (prensa dobradeira) | quinagem | dobra chapa em linha reta |
| Calandra | calandragem | curva chapa/perfis de forma contínua |
| Laminador | laminação | reduz espessura entre rolos |
| Trefiladora | trefilagem | puxa fio/barra através de fieira |
| Martelo/prensa de forjar | forjamento | comprime a peça em matriz ou livre |
Operar estas máquinas em operações elementares segue sempre a mesma disciplina: verificar proteções e sistemas de segurança; confirmar a ferramenta montada contra a ordem de fabrico; produzir e verificar uma peça de teste antes da série; verificar periodicamente durante a produção; registar paragens e incidentes.
Antes de a peça chegar à máquina, há trabalho de bancada: corte e preparação da chapa ou barra à medida (segundo o desenvolvimento calculado), marcação das linhas de referência e de quinagem, verificação do material recebido, e organização das ferramentas e instrumentos de medição necessários. Uma bancada mal preparada é uma das causas mais comuns de atraso, mesmo sem qualquer falha de máquina.
Os equipamentos sofrem desgaste (rolos, matrizes, punções) e precisam de planos de manutenção:
- Preventiva · intervenções programadas (lubrificação, afinação, substituição de peças de desgaste) antes de haver avaria.
- Corretiva · reparação depois de uma falha, com paragem de produção não planeada.
Um plano de manutenção bem integrado no planeamento de produção evita que uma paragem não planeada comprometa um prazo de entrega já assumido com o cliente.
7. Metrologia dimensional
A metrologia dimensional garante que a peça conformada cumpre as tolerâncias do desenho.
| Instrumento | Mede | Precisão típica |
|---|---|---|
| Paquímetro | comprimentos, diâmetros, profundidades | 0,02 mm |
| Micrómetro | espessuras e diâmetros de precisão | 0,01 mm |
| Goniómetro/esquadro | ângulos de dobra | graus |
| Calibre de forma (gabarito) | conformidade com um perfil | passa/não passa |
A escolha do instrumento depende da tolerância exigida: como regra geral, a precisão do instrumento deve ser cerca de dez vezes melhor do que a tolerância a verificar.
Exemplo resolvido · plano de verificação de um lote
Situação: um lote de 200 suportes de chapa quinada tem uma tolerância de ±0,1 mm na cota crítica.
- Escolher o instrumento: com uma tolerância de 0,1 mm, um paquímetro (0,02 mm) é adequado; uma régua não seria.
- Definir o plano de amostragem: medir 1 em cada 10 peças produzidas (20 peças no total do lote).
- Executar e registar: medir a cota crítica de cada peça da amostra e anotar o valor.
- Decidir: se todas as medidas estiverem dentro de ±0,1 mm, o lote segue; se uma medida sair fora, parar a produção, ajustar o processo (por exemplo, a compensação de retorno elástico) e só depois retomar.
8. Planeamento de operações, Ordens de Produção e ferramentas de planeamento
Planear operações de conformação implica, para cada lote: estabelecer a sequência operatória, alocar recursos (máquina, operador, ferramenta), definir prazos e gerir a capacidade instalada, sem planear mais horas de máquina do que as disponíveis.
A Ordem de Produção (OP) é o documento que autoriza e regista a execução: identifica a peça, a quantidade, o desenho e o processo; lista as operações pela ordem planeada, com tempos previstos; e regista, à medida que se executa, tempos reais, quantidades boas e rejeitadas e incidentes. A OP liga o planeamento (previsto) à monitorização (real).
Três ferramentas ajudam a visualizar e controlar o plano:
- Diagrama de Gantt · barras horizontais que mostram início, duração e fim de cada tarefa ao longo do tempo. Ótimo para comunicar o plano, mas não destaca por si só as tarefas mais críticas.
- PERT (Program Evaluation and Review Technique) · rede de tarefas com tempos otimista, mais provável e pessimista, para lidar com a incerteza.
- CPM (Critical Path Method) · identifica o caminho crítico: a sequência de tarefas cuja soma de durações define o prazo mínimo total. Atrasar qualquer tarefa do caminho crítico atrasa o projeto inteiro; tarefas fora dele têm folga.
Exemplo resolvido · construir um Gantt simples e encontrar o caminho crítico
Situação: um lote de conformação tem quatro tarefas: A) corte da chapa (1 dia), B) quinagem (2 dias, depende de A), C) verificação dimensional (1 dia, depende de B), D) embalagem (1 dia, depende de C).
- Sequência: A → B → C → D, todas dependentes em cadeia, sem tarefas paralelas.
- Gantt: A ocupa o dia 1; B os dias 2 e 3; C o dia 4; D o dia 5. O lote demora 5 dias no total.
- Caminho crítico: como todas as tarefas estão em sequência (nenhuma tem alternativa em paralelo), todas fazem parte do caminho crítico. Um atraso de 1 dia em qualquer uma delas atrasa a entrega em 1 dia.
- Conclusão: se fosse possível fazer a organização da embalagem (D) em paralelo com a verificação (C), o prazo total desceria, porque D deixaria de estar no caminho crítico à espera de C terminar.
9. Estudo dos tempos e métodos e análise estatística
O estudo dos tempos e métodos mede e melhora a forma como uma operação é executada:
- Decompor a operação em elementos simples (pegar, posicionar, acionar, retirar).
- Cronometrar cada elemento, várias vezes, para obter um valor representativo.
- Aplicar fatores de ritmo e de tolerância (fadiga, necessidades pessoais) para chegar ao tempo padrão.
- Comparar métodos alternativos e escolher o mais eficiente.
A análise estatística dos tempos recolhidos (média e dispersão dos valores) diz se um tempo padrão é fiável ou se há grande variabilidade que vale a pena investigar antes de o assumir como referência.
Exemplo resolvido · calcular um tempo padrão
Situação: cronometraram se 5 ciclos de quinagem de uma peça: 42 s, 45 s, 41 s, 44 s, 43 s. O fator de ritmo do operador foi avaliado em 105% e a tolerância definida é de 12%.
- Tempo médio observado: (42+45+41+44+43) / 5 = 215 / 5 = 43 s.
- Tempo normal: 43 × 1,05 = 45,15 s (ajustado ao ritmo do operador).
- Tempo padrão: 45,15 × 1,12 = 50,57 s (com a tolerância aplicada).
- Conclusão: o tempo padrão a usar no planeamento desta operação é de aproximadamente 51 segundos por peça.
10. Custeio de operações de fabrico
Determinar o custo de um processo de conformação soma várias parcelas:
| Componente | O que inclui |
|---|---|
| Material | matéria-prima consumida, incluindo desperdício |
| Mão de obra | tempo padrão × custo horário do posto |
| Máquina | amortização, energia e manutenção, por hora de utilização |
| Ferramentas | desgaste ou amortização de matrizes e punções |
O custo por peça resulta de dividir o custo total do lote pela quantidade produzida. Ferramentas caras (como uma matriz de estampagem) só compensam economicamente em séries grandes, que diluem o seu custo por peça produzida.
Exemplo resolvido · custo por peça com ferramenta amortizada
Situação: uma matriz de estampagem custou 8.000 €. Cada peça consome 0,60 € de material e 0,40 € de mão de obra e máquina. Considera se um lote de 2.000 peças.
- Custo da ferramenta por peça: 8.000 € / 2.000 peças = 4,00 €/peça.
- Custo variável por peça: 0,60 € + 0,40 € = 1,00 €/peça.
- Custo total por peça: 4,00 € + 1,00 € = 5,00 €/peça.
- E se o lote fosse de 8.000 peças? Custo da ferramenta: 8.000 / 8.000 = 1,00 €/peça; custo total: 1,00 + 1,00 = 2,00 €/peça.
- Conclusão: quadruplicar a série reduz o custo por peça para menos de metade, porque o custo fixo da ferramenta se dilui por mais unidades. É por isto que a estampagem só se justifica em grandes séries.
11. Monitorizar a execução e controlar a qualidade
Monitorizar não é olhar de vez em quando: é comparar continuamente o previsto (OP, plano) com o real (produção, tempos, qualidade), identificar desvios cedo e registar possibilidades de melhoria para o lote seguinte.
O técnico colabora na verificação e controlo da qualidade das peças fabricadas, usando os instrumentos de metrologia do capítulo 7, segundo o plano de amostragem definido. Quando uma medida sai fora de tolerância, a produção para, o processo é ajustado (ferramenta, variáveis de compensação, tempos), e só depois se retoma.
Um sistema de monitorização bem feito transforma cada lote produzido em informação para o planeamento seguinte: que sequência funcionou melhor, que tempos reais divergiram do previsto, que ajustes de processo foram necessários.
12. Segurança, saúde no trabalho, ambiente e qualidade
A conformação plástica envolve forças elevadas e riscos que não se negoceiam, seja qual for a pressão de prazo:
- Riscos principais: esmagamento, corte, projeção de material, ruído.
- Equipamentos de Proteção Individual (EPI): óculos, luvas adequadas ao processo, proteção auditiva.
- Normas de segurança e saúde no trabalho: proteções de máquina sempre ativas, procedimentos de bloqueio antes de qualquer intervenção na máquina.
- Normas de gestão de resíduos: aparas de metal, óleos e lubrificantes usados, separados e encaminhados corretamente.
- Normas de proteção ambiental e da qualidade: aplicadas em todas as fases do processo, não só na inspeção final.
Cumprir estas normas é uma condição de trabalho do técnico de planeamento, tão importante como cumprir prazos e custos.
Erros comuns
- Escolher o processo antes de ler bem o desenho · leva a decisões que têm de ser refeitas.
- Ignorar o retorno elástico · peças saem sistematicamente fora do ângulo pretendido.
- Confundir extrusão com trefilagem · a extrusão empurra o material, a trefilagem puxa.
- Confundir quinagem com calandragem · dobra localizada versus curvatura contínua e distribuída.
- Saltar a peça de teste antes de libertar uma série completa.
- Ignorar a manutenção preventiva até haver uma avaria a meio de um lote urgente.
- Cronometrar um único ciclo e assumir esse valor como tempo padrão definitivo.
- Esquecer o custo da ferramenta e da máquina no custeio, contando só material e mão de obra.
- Preencher a Ordem de Produção só no fim, "de memória", perdendo rigor no registo de tempos e incidentes.
- Desativar uma proteção de máquina por pressão de prazo.
Glossário
- Conformação plástica · processo que dá forma ao metal por deformação permanente, sem retirar material.
- Forjamento · conformação por compressão, a quente ou livre ou em matriz.
- Extrusão · o material é empurrado através de uma matriz para obter um perfil de secção constante.
- Trefilagem · o material é puxado através de uma fieira para reduzir o seu diâmetro.
- Laminação · redução de espessura entre rolos contra-rotativos.
- Quinagem · dobra de chapa numa linha reta, entre punção e matriz em V.
- Calandragem · curvatura contínua de chapa ou perfis, entre vários rolos.
- Estampagem · conformação de chapa em série, entre punção e matriz.
- Embutidura · transformação de chapa plana num corpo oco.
- Retorno elástico · recuo do metal em direção à forma original, depois de retirada a força de conformação.
- Linha de quinagem · eixo marcado no desenvolvimento da chapa em torno do qual esta dobra.
- Metrologia dimensional · verificação de cotas e ângulos com instrumentos de medição.
- Ordem de Produção (OP) · documento que autoriza, sequencia e regista a execução de um lote.
- Diagrama de Gantt · representação de tarefas em barras horizontais ao longo do tempo.
- Caminho crítico · sequência de tarefas que define a duração mínima total de um projeto.
- Tempo padrão · tempo de referência de uma operação, obtido por cronometragem e ajustado por fatores de ritmo e tolerância.
- EPI · Equipamento de Proteção Individual.
Síntese
Planear e monitorizar trabalhos por conformação plástica segue um ciclo: ler o desenho e escolher o processo (forjamento, extrusão, trefilagem, laminação para peças maciças ou de secção constante; quinagem, calandragem, estampagem, embutidura para chapa) → considerar o comportamento do material e o retorno elástico → preparar a bancada e operar o equipamento certo, com manutenção planeada → verificar dimensionalmente com os instrumentos adequados → planear com Ordens de Produção, Gantt, PERT e CPM → medir tempos e métodos e custear a operação → monitorizar a execução e a qualidade → tudo sob normas de segurança, ambiente e qualidade. Domina este ciclo e sabes planear qualquer lote de conformação plástica, seja qual for o processo escolhido.
Exercícios resolvidos
1. Uma peça é um tubo de secção constante, em alumínio, produzido em grande quantidade. Que processo escolherias e porquê?
Resolução: extrusão. A secção constante ao longo do comprimento é a assinatura deste processo: o material é empurrado através de uma matriz com o perfil do tubo, e o alumínio, muito dúctil, presta-se bem a este trabalho a quente ou a frio.
2. Uma quinadora dobra uma chapa a 90° na matriz, mas as peças saem a 94°. O que se passa e o que fazer?
Resolução: é retorno elástico: o material recua depois de a força ser retirada. Solução: ajustar a matriz para dobrar a 86°, prever que o material recue os 4° em falta até estabilizar nos 90° pretendidos, e confirmar com uma peça de teste antes de libertar a série.
3. Um lote de 500 peças estampadas usa uma matriz de 12.000 €. Cada peça consome 0,80 € de material e mão de obra. Qual o custo por peça?
Resolução: custo da ferramenta por peça = 12.000 / 500 = 24 €/peça; custo total por peça = 24 + 0,80 = 24,80 €/peça. Este valor tão alto confirma que a estampagem só compensa em séries muito maiores do que 500 peças.
4. Quatro tarefas de um lote estão todas em sequência (A→B→C→D), sem nenhuma em paralelo. Qual é o caminho crítico?
Resolução: o caminho crítico inclui todas as quatro tarefas, porque não há alternativa em paralelo: qualquer atraso numa delas atrasa diretamente a data de entrega final.
5. Cronometraram se 4 ciclos de uma operação: 30, 32, 29, 31 segundos, com fator de ritmo de 100% e tolerância de 10%. Qual o tempo padrão?
Resolução: média = (30+32+29+31)/4 = 122/4 = 30,5 s; tempo normal = 30,5 × 1,00 = 30,5 s; tempo padrão = 30,5 × 1,10 = 33,55 s, aproximadamente 34 segundos por peça.
6. Uma peça precisa de uma tolerância de ±0,05 mm. Que instrumento de medição usarias e porquê?
Resolução: um micrómetro (precisão de 0,01 mm), porque um paquímetro (0,02 mm) está demasiado próximo da tolerância exigida para dar confiança na medida; a regra geral pede um instrumento cerca de dez vezes mais preciso do que a tolerância a verificar.