Sebenta · Orçamentar o fabrico de componentes em construção metálica (UC04451)
- Introdução
- 1. Da encomenda ao orçamento: o papel do orçamentista
- 2. Analisar a documentação referente ao fabrico
- 3. Materiais, normalização e simbologia
- 4. Material em bruto e cálculo de massas, volumes e áreas
- 5. Custo de matéria-prima e fator de desperdício
- 6. Custo hora-máquina e processos de fabrico
- 7. Custo de mão-de-obra
- 8. Soldadura: cordões, material de adição e tempos
- 9. Tratamentos superficiais: áreas e custos
- 10. Despesas gerais, consumíveis e energia
- 11. Margem de lucro, preço de venda e IVA
- 12. Prazos de entrega, transporte e logística
- 13. Árvore de produto, folhas de cálculo e automatização
- 14. Registo da informação, normas de qualidade e segurança
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Orçamentar é transformar um desenho técnico numa proposta de preço que a empresa consegue cumprir sem prejuízo. Um orçamento otimista perde dinheiro em cada peça fabricada; um orçamento pessimista perde o cliente para a concorrência. O rigor está algures no meio, e chega-se lá com método, não com "olho".
Esta sebenta segue o percurso real de um orçamentista de serralharia metálica: ler a documentação de fabrico, calcular o custo de cada recurso (material, máquina, mão de obra, consumíveis, energia), somar as despesas gerais, aplicar uma margem de lucro, acrescentar o IVA e, por fim, tratar de prazos, transporte e registo da informação.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar a documentação referente ao fabrico; estimar custos afetos ao fabrico; orçamentar tarefas afetas ao fabrico, adequando recursos técnicos, humanos e materiais, assegurando o cálculo e a categorização de custos, e registando toda a informação.
Ao longo da sebenta acompanhamos um caso único, para que os números se liguem uns aos outros: o suporte metálico reforçado SMR-01, um componente em aço para prateleiras industriais, do desenho até ao preço de venda.
1. Da encomenda ao orçamento: o papel do orçamentista
Uma encomenda de fabrico percorre sempre o mesmo caminho:
Pedido do cliente → Documentação técnica → Análise do fabrico
→ Estimativa de custos (material, máquina, mão de obra, indiretos)
→ Formulário de orçamento → Margem e IVA → Proposta ao cliente
O orçamentista não é quem fabrica, é quem antecipa o custo de fabricar. Para isso precisa de:
- Ler e interpretar desenho técnico e documentação de fabrico.
- Conhecer os processos de fabrico disponíveis na oficina (corte, quinagem, maquinação, soldadura, tratamento superficial).
- Saber onde consultar tabelas e normas (materiais, tempos-padrão, custos-hora de equipamento).
- Trabalhar com folhas de cálculo para não repetir contas à mão em cada orçamento.
Um orçamento tem sempre a mesma estrutura de custos, que vamos construir passo a passo nesta sebenta:
| Rubrica | O que inclui |
|---|---|
| Matéria-prima | material em bruto + desperdício de corte |
| Mão de obra | tempo de trabalho direto × custo-hora |
| Hora-máquina | uso dos equipamentos de fabrico |
| Consumíveis | elétrodos/arame, gás, discos, abrasivos |
| Energia | eletricidade consumida pelos processos |
| Despesas gerais | estrutura da empresa (renda, seguros, indiretos) |
| Custo industrial | soma de tudo o que está acima |
| Margem de lucro | percentagem sobre o custo industrial |
| IVA | imposto sobre o preço de venda |
Guarda esta tabela: é o esqueleto de qualquer orçamento desta UC.
2. Analisar a documentação referente ao fabrico
Antes de estimar um único euro, o orçamentista analisa a documentação: desenho técnico da peça, lista de materiais, condições de entrega e requisitos de qualidade.
O que procurar no desenho técnico
- Cotas (dimensões): comprimento, largura, espessura, diâmetros de furos.
- Material especificado: designação normalizada (ex.: aço S275JR, chapa laminada a quente).
- Tolerâncias e acabamentos: rigor dimensional exigido, tratamento superficial.
- Simbologia de soldadura: tipo de cordão, perna, comprimento, posição.
- Escala e vistas: para não confundir uma cota real com uma cota reduzida.
Exemplo resolvido · ler uma ficha técnica
O desenho do suporte metálico reforçado (SMR-01) especifica:
- Chapa base: 300 × 120 × 6 mm, aço S275JR.
- Cartela de reforço: 80 × 60 × 6 mm, mesmo aço, soldada em ângulo.
- Furação: 4 furos Ø9 mm para parafuso M8.
- Acabamento: pintura epóxida, 2 demãos.
- Quantidade da encomenda: 50 unidades (exemplo principal) ou 80 unidades (no projeto).
Analisar esta documentação antes de calcular evita o erro mais caro em orçamentação: cotar uma peça diferente da que vai realmente ser fabricada. Cada dado acima entra diretamente numa fórmula das secções seguintes.
3. Materiais, normalização e simbologia
Materiais em construção metálica
Os aços mais comuns em serralharia e caldeiraria: S235JR (uso geral), S275JR (estruturas, mais resistente), S355 (grande exigência estrutural), aços inoxidáveis AISI 304/316 (higiene, exterior) e alumínio (leveza, sem corrosão).
| Designação | Uso típico | Densidade |
|---|---|---|
| S235JR / S275JR | serralharia, estruturas ligeiras | 7,85 kg/dm³ |
| S355 | estruturas de maior carga | 7,85 kg/dm³ |
| AISI 304 (inox) | ambientes húmidos, alimentar | 7,90 kg/dm³ |
| Alumínio (Al 6060) | leveza, exterior | 2,70 kg/dm³ |
A densidade (massa por volume) é o dado-chave para transformar um desenho (dimensões) num custo (massa × preço/kg). Nesta UC trabalhamos sobretudo com aço ao carbono, densidade 7,85 kg/dm³ (equivalente a 7,85 g/cm³).
Normalização e simbologia
A normalização garante que um desenho feito em Lisboa é lido sem ambiguidade numa oficina no Porto: símbolos de soldadura (norma ISO 2553), designação de aços (norma EN 10025), tolerâncias (ISO 2768), simbologia de acabamento superficial. Cumprir a norma é também um critério de desempenho avaliado nesta UC.
4. Material em bruto e cálculo de massas, volumes e áreas
Antes de custear, é preciso saber quanto material a peça consome. A matéria-prima fornece-se em formatos normalizados: chapa (plana), perfil (barra, tubo, cantoneira), redondo (varão). O cálculo depende do formato.
Fórmulas essenciais
- Volume de chapa/barra retangular:
V = comprimento × largura × espessura. - Massa:
m = V × densidade. - Área de uma face retangular:
A = comprimento × largura. - Perímetro retangular:
P = 2 × (comprimento + largura).
Exemplo resolvido · massa das duas peças do SMR-01
Chapa base (300 × 120 × 6 mm → em cm: 30 × 12 × 0,6):
V₁ = 30 × 12 × 0,6 = 216 cm³
m₁ = 216 cm³ × 7,85 g/cm³ = 1 695,6 g = 1,6956 kg
Cartela de reforço (80 × 60 × 6 mm → em cm: 8 × 6 × 0,6):
V₂ = 8 × 6 × 0,6 = 28,8 cm³
m₂ = 28,8 × 7,85 = 226,08 g = 0,22608 kg
Massa útil total (a que fica na peça, sem contar desperdício de corte):
m_útil = m₁ + m₂ = 1,6956 + 0,22608 = 1,92168 kg ≈ 1,922 kg
Guarda este valor: reaparece já na secção seguinte.
5. Custo de matéria-prima e fator de desperdício
Nenhum corte é perfeito: sobras de chapa entre peças, aparas de guilhotina, folgas de nesting. Esse desperdício entra no custo, senão a empresa paga-o do próprio bolso.
Fator de desperdício
massa a comprar = massa útil × (1 + fator de desperdício)
Um fator de 10 a 15% é típico em corte de chapa por guilhotina/quinadora com peças pequenas e nesting simples; processos de corte a laser com software de nesting avançado baixam para 5 a 8%.
Exemplo resolvido · custo de matéria-prima do SMR-01
Fator de desperdício adotado: 12% (corte por guilhotina, nesting manual).
massa total = 1,92168 × 1,12 = 2,1522816 kg ≈ 2,152 kg
Preço de mercado do aço S275JR em chapa (2026): 1,20 €/kg.
custo matéria-prima = 2,152 kg × 1,20 €/kg = 2,5824 € ≈ 2,58 €/unidade
Para uma encomenda de 50 unidades: 2,58 € × 50 = 129,00 €.
Erro a evitar: custear a massa útil sem desperdício. É a forma mais comum de um orçamento ficar "bonito" no papel e dar prejuízo na oficina.
6. Custo hora-máquina e processos de fabrico
Cada processo de fabrico (corte, quinagem, maquinação, soldadura) usa um equipamento, e esse equipamento custa dinheiro por hora, mesmo sem contar a energia ou o operador: amortização do investimento e manutenção.
Método de cálculo
custo-hora-máquina = (valor de aquisição ÷ vida útil ÷ horas de utilização/ano)
+ (manutenção anual ÷ horas de utilização/ano)
Exemplo resolvido · custo-hora de um torno mecânico
Torno mecânico: aquisição 30 000 €, vida útil 10 anos, utilização 2 000 h/ano, manutenção 2 000 €/ano.
depreciação/hora = 30 000 ÷ 10 ÷ 2 000 = 1,50 €/h
manutenção/hora = 2 000 ÷ 2 000 = 1,00 €/h
custo-hora-máquina = 1,50 + 1,00 = 2,50 €/h
Na prática, cada oficina mantém uma tabela de custos-hora já calculada para os seus equipamentos, para não refazer esta conta em cada orçamento:
| Equipamento | Custo-hora |
|---|---|
| Quinadora / guilhotina | 8,50 €/h |
| Posto de soldadura MIG/MAG | 6,00 €/h |
| Torno mecânico | 2,50 €/h |
| Serra de fita | 3,20 €/h |
Exemplo resolvido · custo hora-máquina do SMR-01
O SMR-01 passa por corte + quinagem (7 min) e soldadura (6 min):
tempo corte+quinagem = 7 min = 0,1167 h → 0,1167 × 8,50 = 0,99 €
tempo soldadura = 6 min = 0,10 h → 0,10 × 6,00 = 0,60 €
custo hora-máquina = 0,99 + 0,60 = 1,59 €/unidade
Para 50 unidades: 1,59 € × 50 = 79,50 €.
7. Custo de mão-de-obra
O custo de mão de obra não é o salário: é o custo-hora totalmente carregado para a empresa, que inclui salário, encargos sociais (TSU), subsídios e seguros. Para um serralheiro/soldador qualificado, é um valor típico de referência para 2026: 16,50 €/h.
Fatores determinantes
- Categoria profissional (aprendiz, oficial, especialista): custos-hora diferentes.
- Tempo de preparação (setup): montar ferramenta, afinar máquina, muitas vezes fixo por lote.
- Tempo de produção: por unidade, o que domina em lotes grandes.
- Tempo de acabamento/inspeção.
Exemplo resolvido · tempo e custo de mão de obra do SMR-01
Tempos diretos por unidade: corte (4 min) + quinagem (3 min) + soldadura (6 min) + rebarbagem/acabamento (5 min).
tempo total = 4 + 3 + 6 + 5 = 18 min = 0,30 h
custo mão de obra = 0,30 h × 16,50 €/h = 4,95 €/unidade
Para 50 unidades: 4,95 € × 50 = 247,50 €.
Erro a evitar: esquecer o tempo de preparação num lote pequeno. Num lote de 5 peças, 20 minutos de setup pesam muito mais por unidade do que num lote de 500.
8. Soldadura: cordões, material de adição e tempos
A soldadura tem uma particularidade: consome material de adição (arame ou elétrodo) proporcional ao volume do cordão, não ao peso da peça.
Cálculo do cordão de soldadura em ângulo
Um cordão de ângulo (fillet weld) tem secção transversal triangular, com perna a:
área da secção ≈ a² ÷ 2
volume do cordão = área da secção × comprimento do cordão
massa do cordão = volume × densidade (7,85 g/cm³)
massa de arame necessária = massa do cordão ÷ rendimento de deposição
O rendimento de deposição (perdas por salpico e rebarba) ronda os 90% em processo MIG/MAG.
Exemplo resolvido · cordão de 5 mm ao longo de 500 mm
Perna do cordão a = 5 mm = 0,5 cm; comprimento total do cordão (dois lados de 250 mm) 500 mm = 50 cm.
área da secção = 0,5² ÷ 2 = 0,125 cm²
volume = 0,125 × 50 = 6,25 cm³
massa cordão = 6,25 × 7,85 = 49,0625 g ≈ 0,049 kg
massa de arame = 0,049 ÷ 0,90 = 0,055 kg
custo arame = 0,055 kg × 3,50 €/kg = 0,19 €
Tempo de soldadura, a uma taxa de deposição de 1,2 kg/h:
tempo = 0,055 ÷ 1,2 = 0,0454 h ≈ 2,7 minutos
Este método (área × comprimento × densidade ÷ rendimento) aplica-se a qualquer cordão: só mudam a perna e o comprimento.
9. Tratamentos superficiais: áreas e custos
Pintura, galvanização ou zincagem cobram-se por área tratada, não por massa. É preciso calcular a área exposta da peça: as duas faces principais mais os bordos (o perímetro vezes a espessura).
Fórmula
área total = 2 × (comprimento × largura) + perímetro × espessura
perímetro = 2 × (comprimento + largura)
Exemplo resolvido · área a pintar da chapa base do SMR-01
Chapa base: 300 × 120 × 6 mm (em metros: 0,30 × 0,12 × 0,006 m):
área das faces = 2 × (0,30 × 0,12) = 0,072 m²
perímetro = 2 × (0,30 + 0,12) = 0,84 m
área dos bordos = 0,84 × 0,006 = 0,00504 m²
área total = 0,072 + 0,00504 = 0,07704 m² ≈ 0,077 m²/unidade
Tinta epóxida industrial, rendimento combinado de 2 demãos: 6 m²/L; preço 9,50 €/L.
litros necessários = 0,077 ÷ 6 = 0,01284 L/unidade
custo tinta = 0,01284 × 9,50 = 0,122 € ≈ 0,12 €/unidade
Para uma encomenda de 80 unidades: 0,12 € × 80 = 9,60 €.
10. Despesas gerais, consumíveis e energia
Além do material, da máquina e da mão de obra direta, há custos que não se atribuem a uma única operação, mas que a empresa tem de suportar: aluguer ou amortização do espaço, seguros, administrativo, e uma parte da energia e dos consumíveis que não vale a pena medir peça a peça.
Consumíveis (exemplo do SMR-01)
| Consumível | Custo/unidade |
|---|---|
| Arame de soldadura (0,0042 kg × 3,50 €/kg) | 0,01 € |
| Gás de proteção (1 min de arco × 1,80 €/h) | 0,03 € |
| Disco de corte/lixa (1,20 € ÷ 40 peças) | 0,03 € |
| Total consumíveis | 0,07 € |
Energia (exemplo do SMR-01)
Potência da quinadora 5 kW (0,1167 h de uso) + posto de soldadura 4 kW (0,10 h):
energia = 5 × 0,1167 + 4 × 0,10 = 0,984 kWh
custo energia = 0,984 kWh × 0,16 €/kWh = 0,1574 € ≈ 0,16 €/unidade
Despesas gerais (indiretas)
Aplica-se uma percentagem sobre o custo direto (material + mão de obra + hora-máquina + consumíveis + energia), tipicamente entre 10% e 20% consoante a estrutura da empresa. Adotamos 15%.
custo direto/unidade = 2,58 + 4,95 + 1,59 + 0,07 + 0,16 = 9,35 €
despesas gerais = 9,35 × 0,15 = 1,4025 € ≈ 1,40 €
custo industrial = 9,35 + 1,40 = 10,75 €/unidade
11. Margem de lucro, preço de venda e IVA
O custo industrial ainda não é o preço de venda: falta a margem de lucro (o que a empresa ganha) e o IVA (imposto entregue ao Estado, taxa normal de 23% em Portugal continental).
A cascata do preço
custo industrial
+ margem de lucro (%)
= preço de venda sem IVA (PVP líquido)
+ IVA (%)
= preço de venda final ao cliente
Exemplo simples (introdutório)
Um componente com custo industrial de 50,00 €, margem de 25%:
margem = 50,00 × 0,25 = 12,50 €
PVP sem IVA = 50,00 + 12,50 = 62,50 €
IVA = 62,50 × 0,23 = 14,375 € ≈ 14,38 €
PVP com IVA = 62,50 + 14,38 = 76,88 €
Exemplo resolvido · preço final do SMR-01
Margem de lucro adotada: 20% sobre o custo industrial (10,75 €).
margem = 10,75 × 0,20 = 2,15 €
PVP sem IVA = 10,75 + 2,15 = 12,90 €
IVA = 12,90 × 0,23 = 2,967 € ≈ 2,97 €
PVP com IVA = 12,90 + 2,97 = 15,87 €/unidade
Formulário de orçamento completo · SMR-01, 50 unidades
Regra da casa: calcula-se ao cêntimo por unidade e multiplica-se pela quantidade; não se recalculam as percentagens sobre os totais do lote (ver o "erro a evitar" abaixo).
| Rubrica | Por unidade | Lote (50 un.) |
|---|---|---|
| Matéria-prima | 2,58 € | 129,00 € |
| Mão de obra | 4,95 € | 247,50 € |
| Hora-máquina | 1,59 € | 79,50 € |
| Consumíveis | 0,07 € | 3,50 € |
| Energia | 0,16 € | 8,00 € |
| Custo direto | 9,35 € | 467,50 € |
| Despesas gerais (15%) | 1,40 € | 70,00 € |
| Custo industrial | 10,75 € | 537,50 € |
| Margem (20%) | 2,15 € | 107,50 € |
| PVP sem IVA | 12,90 € | 645,00 € |
| IVA (23%) | 2,97 € | 148,50 € |
| PVP com IVA | 15,87 € | 793,50 € |
Erro a evitar: recalcular o IVA sobre o total do lote em vez de multiplicar o IVA unitário pela quantidade.
23% de 645,00 €dá 148,35 €, não 148,50 €: a diferença de 0,15 € vem de arredondar cada linha ao cêntimo antes de somar. Nenhuma das duas contas está "errada", mas uma empresa tem de escolher uma convenção e ser consistente em todos os orçamentos, senão duas propostas para a mesma peça saem com preços diferentes.
12. Prazos de entrega, transporte e logística
Um orçamento sem prazo é uma proposta incompleta. O prazo depende da capacidade de produção e de etapas que não se podem apressar (secagem de tinta, por exemplo).
Exemplo resolvido · prazo de entrega de 80 unidades de SMR-01
Capacidade da oficina: 20 unidades/dia neste componente.
dias de produção = 80 ÷ 20 = 4 dias
Mais 1 dia de preparação (setup, afinação da quinadora) e 1 dia de secagem/cura da pintura:
prazo total = 4 + 1 + 1 = 6 dias úteis
A partir de segunda-feira, 14 de setembro de 2026, contando só dias úteis (sem contar o fim de semana), o 6.º dia útil cai em segunda-feira, 21 de setembro de 2026.
Custos de transporte e logística
custo transporte = distância (km) × custo/km
Distância ida e volta ao cliente: 60 km; custo por km (combustível + manutenção + amortização da viatura): 0,42 €/km.
custo transporte = 60 × 0,42 = 25,20 €
Mais uma embalagem/paletização fixa de 15,00 €:
total logística (sem IVA) = 25,20 + 15,00 = 40,20 €
IVA (23%) = 40,20 × 0,23 = 9,246 € ≈ 9,25 €
total logística (com IVA) = 40,20 + 9,25 = 49,45 €
O transporte entra no orçamento como uma linha separada, com o seu próprio IVA, e soma-se ao preço do produto para dar o valor final a pagar pelo cliente.
13. Árvore de produto, folhas de cálculo e automatização
Uma árvore de produto (BOM, Bill of Materials) mostra de que componentes é feito o produto final, em níveis:
SMR-01 (produto final) (1 un.)
├── Chapa base 300×120×6 mm, S275JR (1 un.)
├── Cartela de reforço 80×60×6 mm, S275JR (1 un.)
├── Parafuso M8×25 DIN 933 (4 un.)
├── Porca M8 DIN 934 (4 un.)
├── Anilha M8 (4 un.)
└── Pintura epóxida (2 demãos) (0,077 m²)
A árvore de produto é o que permite automatizar o orçamento: cada nível tem uma quantidade e um custo unitário, e uma folha de cálculo soma tudo automaticamente.
Custo dos elementos de fixação (exemplo)
Parafuso M8×25 (0,08 €) + porca M8 (0,03 €) + anilha M8 (0,01 €) = 0,12 €/conjunto; 4 conjuntos por unidade:
custo de fixação = 4 × 0,12 = 0,48 €/unidade
Automatizar em folha de cálculo
Numa folha de cálculo, cada rubrica é uma célula com fórmula, não um número escrito à mão:
| Célula | Conteúdo | Fórmula |
|---|---|---|
| B2 | massa útil (kg) | =B_comprimento*B_largura*B_espessura*B_densidade/1000 |
| B3 | massa com desperdício | =B2*(1+B_fator_desperdicio) |
| B4 | custo matéria-prima | =B3*B_preco_kg |
| B10 | custo direto | =SOMA(B4:B9) |
| B11 | custo industrial | =B10*(1+B_taxa_despesas_gerais) |
| B13 | PVP com IVA | =B12*(1+B_taxa_iva) |
Mudar a quantidade da encomenda, o preço do aço ou a taxa de margem passa a recalcular tudo em segundos: é o que torna o orçamentista capaz de responder a um cliente em minutos, não em horas.
14. Registo da informação, normas de qualidade e segurança
Um orçamento não vive isolado: fica registado (histórico de preços, revisões, versão aprovada pelo cliente) e cumpre normas de segurança e saúde no trabalho e normas da qualidade, que também têm custo (equipamento de proteção, ensaios, certificação) e devem entrar nas despesas gerais quando aplicável.
- Registo: cada orçamento guarda-se com data, versão, responsável e justificação de cada rubrica, para rever, comparar com o custo real e aprender com os desvios.
- Normas de segurança e saúde no trabalho: equipamento de proteção individual, ventilação em soldadura, resguardos de máquina; o seu custo entra nas despesas gerais ou no preço da hora-máquina.
- Normas da qualidade: controlo dimensional, ensaios não destrutivos em soldaduras críticas, certificação do processo; quando exigidos pelo cliente, entram como uma rubrica própria do orçamento.
Orçamentar com rigor é também documentar as decisões: um orçamento que ninguém consegue explicar seis meses depois não serve de aprendizagem para o próximo.
Erros comuns
- Custear a massa útil sem desperdício. Ignora o material que se perde no corte; o orçamento fica bonito e dá prejuízo.
- Esquecer o tempo de preparação (setup) em lotes pequenos, subestimando muito o custo de mão de obra.
- Confundir custo-hora-máquina com o preço da eletricidade. São rubricas diferentes: uma é amortização/manutenção, a outra é consumo energético.
- Calcular o cordão de soldadura pela massa da peça, em vez de pela geometria do próprio cordão (perna × comprimento).
- Aplicar o IVA sobre o custo industrial em vez de sobre o PVP sem IVA (custo industrial + margem).
- Recalcular percentagens sobre o total do lote em vez de multiplicar o valor unitário arredondado pela quantidade, gerando dois preços diferentes para a mesma peça.
- Esquecer o transporte e a logística como rubrica própria do orçamento, com o seu próprio IVA.
Glossário
- Orçamentar · estimar o preço de um trabalho antes de o executar.
- Custo direto · soma da matéria-prima, mão de obra, hora-máquina, consumíveis e energia.
- Custo industrial · custo direto mais as despesas gerais (indiretas).
- Despesas gerais · custos da estrutura da empresa não atribuíveis a uma peça (renda, seguros, administrativo).
- Custo-hora-máquina · custo de usar um equipamento durante uma hora (amortização + manutenção).
- Fator de desperdício · percentagem de material perdida no corte, acrescida à massa útil.
- Rendimento de deposição · fração do material de adição que fica realmente no cordão de soldadura.
- Margem de lucro · percentagem de ganho da empresa sobre o custo industrial.
- PVP · preço de venda ao público (com ou sem IVA, consoante o contexto).
- IVA · Imposto sobre o Valor Acrescentado, taxa normal de 23% em Portugal continental.
- Árvore de produto (BOM) · lista hierárquica dos componentes de um produto e das suas quantidades.
- Formulário de orçamento · documento estruturado que organiza todas as rubricas de custo de uma proposta.
Síntese
Orçamentar em construção metálica segue sempre a mesma sequência: analisar a documentação de fabrico → calcular massas, volumes e áreas da matéria-prima → aplicar o fator de desperdício e o preço do material → determinar o custo hora-máquina e o custo de mão de obra pelos tempos de cada processo → calcular cordões de soldadura e áreas de tratamento superficial → somar consumíveis e energia → aplicar as despesas gerais → chegar ao custo industrial → acrescentar margem de lucro e IVA → somar transporte e logística com prazo definido → organizar tudo numa árvore de produto e numa folha de cálculo automatizada, com o devido registo e respeito pelas normas de qualidade e segurança. Este fluxo aplica-se a qualquer componente metálico, do mais simples ao mais complexo.
Exercícios resolvidos
1. Uma chapa retangular de 400 × 200 × 8 mm em aço S275JR (densidade 7,85 kg/dm³). Calcula a massa.
Resolução: em cm, 40 × 20 × 0,8 = 640 cm³. Massa = 640 × 7,85 = 5 024 g = 5,024 kg.
2. Sobre essa peça aplica-se um fator de desperdício de 10% e um preço de 1,20 €/kg. Calcula o custo de matéria-prima.
Resolução: massa com desperdício = 5,024 × 1,10 = 5,5264 kg ≈ 5,526 kg. Custo = 5,526 × 1,20 = 6,63 €.
3. Um cordão de soldadura tem perna de 4 mm e comprimento de 300 mm. Calcula a massa do cordão (densidade 7,85 g/cm³).
Resolução: área da secção = 0,4² ÷ 2 = 0,08 cm². Volume = 0,08 × 30 = 2,4 cm³. Massa = 2,4 × 7,85 = 18,84 g (0,01884 kg).
4. Uma peça leva 12 minutos de mão de obra direta a um custo-hora de 16,50 €/h. Calcula o custo de mão de obra.
Resolução: 12 min = 0,20 h. Custo = 0,20 × 16,50 = 3,30 €.
5. Um orçamento tem custo industrial de 80,00 € por unidade. A empresa aplica margem de 25% e IVA de 23%. Calcula o preço final ao cliente.
Resolução: margem = 80,00 × 0,25 = 20,00 €. PVP sem IVA = 100,00 €. IVA = 100,00 × 0,23 = 23,00 €. PVP com IVA = 123,00 €.
6. Uma encomenda de 30 peças demora, a uma capacidade de 15 unidades/dia, mais 2 dias de preparação e tratamento. Calcula o prazo total em dias úteis.
Resolução: dias de produção = 30 ÷ 15 = 2 dias. Prazo total = 2 + 2 = 4 dias úteis.