Sebenta · Planear e implementar sistemas de rega e de drenagem (UC04190)
- Introdução
- 1. Água na planta e no solo
- 2. Balanço hídrico e necessidades de rega
- 3. Métodos e sistemas de rega
- 4. Critérios de seleção do sistema de rega
- 5. Dimensionamento e cálculo da rega
- 6. Equipamento de rega
- 7. Qualidade da água, gestão e impacto ambiental
- 8. Programação, monitorização e manutenção do funcionamento
- 9. Drenagem
- 10. Enquadramento legal, segurança, ambiente e qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Sem água a chegar à hora certa, na quantidade certa, ao sítio certo, não há relvado verde, não há canteiro florido nem há colheita. Esta sebenta ensina a planear, instalar, operar e manter um sistema de rega e a projetar a drenagem que o completa, tanto num jardim ou espaço verde municipal como numa exploração agrícola.
O percurso segue a lógica de um profissional no terreno: primeiro perceber quanta água a planta precisa (relação solo, água e planta; evapotranspiração), depois escolher e dimensionar o método de rega, instalar e regular o equipamento, programar e monitorizar o funcionamento, fazer a manutenção, e por fim tratar da drenagem quando há excesso de água no solo. Fecha com o enquadramento legal, a segurança e a qualidade que atravessam todo o trabalho.
Objetivos de aprendizagem (referencial): avaliar as necessidades de água e de drenagem; preparar, organizar e efetuar a instalação de sistemas de rega; avaliar e executar as operações de rega de culturas e de plantações; monitorizar e efetuar a manutenção do sistema de rega, respeitando as normas de segurança, ambientais, de biossegurança e de qualidade.
1. Água na planta e no solo
Antes de regar, é preciso entender o percurso da água: do solo, para a raiz, para a planta, e de volta à atmosfera.
A relação solo, água e planta
A água do solo fica retida entre as partículas e nos poros. A planta absorve-a pelas raízes e perde-a, em grande parte, pelas folhas (transpiração). Três referências descrevem quanta água um solo consegue guardar e ceder:
- Capacidade de campo (CC): a quantidade de água que o solo retém depois de drenar o excesso por gravidade. É o "solo bem regado, sem encharcar".
- Ponto de emurchecimento permanente (PMP): o limite abaixo do qual a planta já não consegue retirar água do solo e murcha de forma irreversível.
- Água útil (AU): a diferença entre os dois, a água que está realmente disponível para a planta usar.
Exemplo resolvido · Reserva de água útil do solo
Um talhão tem capacidade de campo de 28% e ponto de emurchecimento permanente de 12%, medidos em volume. As raízes das culturas hortícolas em causa exploram os primeiros 30 cm (300 mm) de solo.
- Água útil, em percentagem: AU = CC − PMP = 28% − 12% = 16%.
- Reserva de água útil (RU), na profundidade radicular: RU = AU × profundidade = 16% × 300 mm = 48 mm.
Este valor, 48 mm, é a "reserva no banco": a quantidade de água que o solo consegue ceder à cultura antes de ser preciso regar outra vez.
Carência, excesso e controlo de humidade
- Carência hídrica (défice): o solo aproxima-se do PMP, a planta fecha os estomas, cresce menos e pode murchar.
- Excesso hídrico: o solo satura, falta oxigénio às raízes, apodrecem e a planta também sofre. É aqui que entra a drenagem, tratada no capítulo 9.
- Controlo de humidade: faz-se com tensiómetros, sondas capacitivas ou o método expedito de observar e apalpar o solo a 10-15 cm de profundidade, para decidir quando e quanto regar.
2. Balanço hídrico e necessidades de rega
Para saber quanto regar, calcula-se primeiro quanta água a cultura perde por dia.
Evapotranspiração: ETo e ETc
A evapotranspiração é a soma da água que evapora do solo e da que a planta transpira. Usam-se dois valores:
- ETo (evapotranspiração de referência): a perda de água de uma cultura de referência (relva bem regada), calculada a partir de dados climáticos (temperatura, radiação, vento, humidade). Sai de estações agrometeorológicas ou de tabelas.
- ETc (evapotranspiração cultural): a perda de água da cultura real, que depende da espécie e da fase de desenvolvimento. Calcula-se com o coeficiente cultural (Kc):
ETc = ETo × Kc
O Kc varia ao longo do ciclo: baixo na instalação (planta pequena, pouca folhagem), máximo no desenvolvimento pleno, e volta a descer na maturação.
Exemplo resolvido · Necessidade diária de um relvado
Num dia de ponta de verão, a estação meteorológica regional indica ETo = 4,5 mm/dia. O relvado está em desenvolvimento pleno, com Kc = 0,8.
- ETc = ETo × Kc = 4,5 × 0,8 = 3,6 mm/dia.
- Para um relvado de 250 m², como 1 mm de lâmina de água sobre 1 m² equivale a 1 litro, o volume diário necessário é: Volume = ETc × área = 3,6 × 250 = 900 litros/dia.
Este número, 900 L/dia, é o ponto de partida para dimensionar o sistema no capítulo 5.
Balanço hídrico do solo
O balanço hídrico cruza o que entra (rega e chuva) com o que sai (evapotranspiração e perdas por escorrimento ou percolação profunda), para decidir quando regar:
Água no solo (hoje) = Água no solo (ontem) + rega + chuva − ETc − perdas
Quando a água no solo se aproxima do limite da reserva útil (capítulo 1), é sinal de regar. É a lógica que está por trás dos programadores de rega inteligentes, tratados no capítulo 8.
3. Métodos e sistemas de rega
Há quatro grandes métodos de rega, cada um com um princípio de funcionamento diferente.
| Método | Como funciona | Uso típico |
|---|---|---|
| Localizada (gota a gota, microaspersão) | água gota a gota ou em jato fino, junto à raiz | canteiros, sebes, fruteiras, hortícolas em linha |
| Aspersão | água pulverizada no ar, como chuva artificial | relvados, prados, culturas extensivas |
| Alagamento / gravidade | a água corre à superfície por sulcos ou inundação do talhão | culturas de sequeiro tradicional, arroz |
| Regulada (deficit irrigation) | aplica-se intencionalmente menos água do que a ETc, em fases pouco sensíveis da cultura | vinha, olival, poupança de água em época de escassez |
Eficiência de aplicação
Nem toda a água aplicada chega à raiz: parte perde-se por evaporação, vento ou escorrimento. A eficiência de aplicação (Ea) mede a fração aproveitada, e é decisiva para calcular o volume bruto a aplicar:
- Rega localizada: cerca de 90-95%.
- Rega por aspersão: cerca de 70-85%.
- Rega por gravidade / alagamento: cerca de 40-60%.
Quanto menor a eficiência, mais água bruta é preciso aplicar para entregar a mesma água útil à planta, com o inevitável desperdício e o maior impacto ambiental.
4. Critérios de seleção do sistema de rega
A escolha do método não é arbitrária: cruzam-se vários fatores, todos do referencial da UC.
- Topografia: terrenos inclinados favorecem a rega localizada ou a aspersão de baixa pressão, para evitar escorrimento; terrenos planos toleram melhor a gravidade.
- Tipo de solo: solos arenosos, com infiltração rápida, pedem regas mais frequentes e curtas; solos argilosos retêm mais água e toleram regas mais espaçadas, mas correm risco de encharcamento.
- Disponibilidade de energia e mão de obra: a rega localizada automatizada poupa mão de obra mas exige energia para a bomba e manutenção regular de filtros; a rega por gravidade é mais barata em equipamento mas exige mais mão de obra a abrir e fechar regos.
- Custo da rega: custo de instalação (tubagem, gotejadores, aspersores, programador) mais o custo de operação (água, energia, manutenção).
- Espécie e disposição da cultura: culturas em linha (fruteiras, hortícolas) combinam bem com localizada; relvados e prados pedem cobertura uniforme, típica da aspersão.
Exemplo resolvido · Escolher o método para dois casos
Caso A: um talhão de tomateiro em linha, em socalco com alguma inclinação, com acesso à eletricidade. Caso B: um relvado desportivo plano de 2 000 m², com necessidade de cobertura uniforme e rápida.
- Caso A: a inclinação e a disposição em linha apontam para rega localizada (gota a gota), com maior eficiência e menor risco de erosão.
- Caso B: a área grande e a exigência de cobertura uniforme apontam para rega por aspersão, com aspersores rotativos setoriais ou de círculo completo.
5. Dimensionamento e cálculo da rega
Dimensionar é transformar a necessidade da cultura (capítulo 2) num tempo de rega e num caudal, dado o equipamento escolhido (capítulo 6).
A fórmula central:
Tempo de rega (h) = Lâmina necessária (mm) ÷ Pluviometria do sistema (mm/h)
Onde a pluviometria (ou taxa de aplicação) é a "chuva" que o sistema produz por hora, e é dada pelo fabricante do aspersor ou calculada a partir do caudal dos gotejadores.
Exemplo resolvido · Dimensionar a rega por aspersão de um relvado
Retomando o relvado de 250 m² do capítulo 2, com ETc = 3,6 mm/dia, instalado com aspersores rotativos de pluviometria 12 mm/h.
- Tempo de rega = ETc ÷ pluviometria = 3,6 ÷ 12 = 0,3 h = 18 minutos.
- Caudal total do setor = pluviometria × área = 12 × 250 = 3 000 L/h = 3 m³/h.
- Confirmação por volume: Volume = caudal × tempo = 3 000 × 0,3 = 900 L, exatamente os 900 L/dia calculados no capítulo 2.
Exemplo resolvido · Dimensionar a rega gota a gota de um talhão de tomateiro
Um talhão de tomateiro tem 8 linhas de 25 m, com 1,2 m de entrelinha. Os gotejadores estão espaçados 0,3 m ao longo da linha, com caudal unitário de 2 L/h. O tomateiro está em frutificação (Kc = 1,15) e a ETo do dia é 5 mm/dia.
- Área do talhão = 8 linhas × 25 m × 1,2 m = 240 m².
- Gotejadores por linha = 25 m ÷ 0,3 m ≈ 83; total = 8 × 83 = 664 gotejadores.
- Caudal total = 664 × 2 L/h = 1 328 L/h (≈ 1,33 m³/h).
- ETc = ETo × Kc = 5 × 1,15 = 5,75 mm/dia.
- Volume líquido necessário = ETc × área = 5,75 × 240 = 1 380 L/dia.
- Corrigindo pela eficiência de aplicação da rega localizada (90%): Volume bruto = 1 380 ÷ 0,90 ≈ 1 533 L/dia.
- Tempo de rega = Volume bruto ÷ caudal total = 1 533 ÷ 1 328 ≈ 1,15 h ≈ 1h09min.
Estes dois exemplos são o mesmo raciocínio aplicado a dois métodos diferentes: primeiro a necessidade da cultura, depois o caudal do sistema, por fim o tempo que fecha a conta.
6. Equipamento de rega
O sistema de rega é uma cadeia de componentes, desde a captação até ao gotejador ou aspersor.
Componentes principais
- Fonte de água: furo, poço, curso de água, rede pública ou reservatório.
- Grupo eletrobomba: cria a pressão necessária quando a fonte não a garante por gravidade.
- Contador de água: regista o volume consumido.
- Filtros: de disco, de rede (tela) ou de areia, essenciais na rega localizada para não entupir os gotejadores.
- Tubagem principal e secundária: distribui a água pelo terreno, normalmente em PEAD ou PVC.
- Bocas de rega: pontos de ligação da rede principal aos ramais.
- Eletroválvulas: abrem e fecham cada setor de rega, comandadas pelo programador.
- Emissores: aspersores (fixos ou rotativos), gotejadores, microaspersores, conforme o método escolhido.
Instalação, regulação e limpeza
A instalação segue, em geral, esta ordem: implantação da rede segundo o projeto, abertura de valas, colocação da tubagem com a profundidade adequada à proteção contra geada e danos mecânicos, ligação dos componentes, teste de pressão e de estanquicidade, e por fim regulação dos emissores (alcance dos aspersores, caudal dos gotejadores).
A limpeza dos filtros é a tarefa de manutenção mais frequente: um filtro entupido reduz a pressão a jusante e pode inutilizar um setor inteiro de gota a gota.
Exemplo resolvido · Pressão necessária à entrada do setor
Os gotejadores instalados têm pressão nominal de funcionamento de 1,0 bar. A rede (tubagem e filtro) introduz uma perda de carga estimada de 0,4 bar, e o ponto mais alto do talhão está 3 m acima da entrada do setor.
- Perda de carga por desnível, usando a aproximação de que 10 m de coluna de água correspondem a cerca de 1 bar: 3 m ≈ 0,3 bar.
- Pressão necessária à entrada = pressão nominal + perdas na rede + perda por desnível = 1,0 + 0,4 + 0,3 = 1,7 bar.
Se a fonte de água (rede pública, bomba) não garantir 1,7 bar naquele ponto, os gotejadores mais distantes ou mais altos vão receber menos água do que os primeiros: é preciso rever o traçado ou reforçar a pressão.
Manutenção, reparações e substituição de peças
- Limpar ou substituir filtros com regularidade, sobretudo se a água tiver sedimentos.
- Verificar e desentupir gotejadores obstruídos (sais, algas, areia).
- Testar as eletroválvulas e substituir vedantes ou solenoides avariados.
- Reparar fugas na tubagem, cortando e ligando com uniões próprias.
- Antes do inverno, purgar a água da rede em zonas com risco de geada.
7. Qualidade da água, gestão e impacto ambiental
Nem toda a água serve para regar sem cuidados. A qualidade da água de rega condiciona a cultura e o solo a longo prazo.
Análise de águas e salinidade
A condutividade elétrica (CE), medida em dS/m, indica a concentração de sais dissolvidos na água. Uma aproximação prática converte CE em sólidos dissolvidos totais (TDS, em mg/L):
TDS (mg/L) ≈ CE (dS/m) × 640
Exemplo resolvido · Classificar a salinidade de uma água de rega
Uma análise de água de um furo devolve CE = 1,2 dS/m.
- TDS ≈ 1,2 × 640 = 768 mg/L.
- Segundo as classes de salinidade usadas na análise de águas de rega (C1 muito baixa, C2 média, C3 alta, C4 muito alta), um valor de 1,2 dS/m situa-se na classe C3, salinidade alta: a água deve usar-se com precaução, em solos bem drenados e com culturas mais tolerantes ao sal, e com lavagens periódicas do solo para evitar a acumulação de sais.
Impacto ambiental da rega
- Escorrimento e erosão: uma pluviometria acima da capacidade de infiltração do solo faz a água correr à superfície, levando terra e nutrientes.
- Lixiviação: o excesso de água arrasta nutrientes (nitratos) para debaixo da zona radicular, contaminando os lençóis freáticos.
- Sobre-exploração de origens de água: captar mais água do que a origem suporta compromete o recurso a longo prazo.
- Salinização do solo: o uso continuado de água salina, sem lavagens nem drenagem adequada, acumula sais no perfil do solo.
A gestão responsável da água de rega cruza sempre a eficiência do sistema (capítulo 3), a qualidade da água e o respeito pelos limites da origem captada.
8. Programação, monitorização e manutenção do funcionamento
Um sistema bem dimensionado só funciona se for bem operado no dia a dia.
Programação da rega
O programador (temporizador) controla automaticamente as eletroválvulas: dias da semana, hora de início e duração de cada setor. Boas práticas de programação:
- Regar de madrugada ou ao fim do dia, quando a evaporação é menor e não há vento forte.
- Ajustar a programação por estação: mais frequência e volume no verão, redução gradual no outono, suspensão no inverno em climas com chuva regular.
- Usar sensores de chuva ou de humidade para suspender a rega automaticamente quando não é necessária.
Monitorização
- Tensiómetros e sondas de humidade dão uma leitura direta da água disponível no solo, e evitam regar "por hábito".
- A verificação visual do estado da cultura (cor, turgescência das folhas) complementa a leitura dos instrumentos.
- Comparar o consumo registado no contador com o valor calculado no dimensionamento ajuda a detetar fugas ou avarias cedo.
Monitorizar e efetuar a manutenção do sistema
Monitorizar não é só ler instrumentos: é também percorrer o sistema periodicamente, verificar se todos os setores abrem e fecham como programado, se não há aspersores entupidos ou gotejadores a verter, e se a pressão se mantém dentro do previsto (capítulo 6). Qualquer anomalia de funcionamento deve ser verificada e comunicada de imediato, e as pequenas avarias (uma união partida, um gotejador obstruído, uma eletroválvula colada) devem ser reparadas no próprio dia, antes que comprometam a rega de toda a zona a jusante.
9. Drenagem
Quando o solo retém água a mais, por chuva, rega ou lençol freático alto, a drenagem escoa o excedente e devolve oxigénio à zona radicular.
Objetivos e vantagens
- Evitar o encharcamento e a asfixia radicular.
- Reduzir o risco de doenças de raiz associadas a solos permanentemente húmidos.
- Permitir o acesso e o trabalho de máquinas em terrenos que, sem drenagem, ficariam intransitáveis após chuva.
- Em campos desportivos e relvados de recreio, garantir que o terreno seca depressa e fica utilizável pouco depois da chuva.
Tipos de sistemas de drenagem
- Drenagem superficial: valas abertas, caleiras e a própria modelação do terreno (pendentes) que encaminham a água de escorrimento para um ponto de recolha.
- Drenagem subterrânea (enterrada): rede de drenos (tubos ranhurados ou perfurados) enterrados a uma profundidade e espaçamento calculados, que recolhem a água do solo e a conduzem a um coletor.
Materiais e desenho
Os drenos enterrados usam habitualmente tubo corrugado em PEAD, ranhurado, envolvido em geotêxtil (para filtrar as partículas finas e evitar o colmatar dos furos) e assente sobre uma camada de brita ou godo, que facilita a entrada de água. O desenho define o traçado, o espaçamento entre drenos (mais apertado em solos argilosos, mais largo em solos arenosos) e a inclinação mínima que garante o escoamento por gravidade.
Exemplo resolvido · Desnível de um dreno enterrado
Um dreno enterrado tem 40 m de comprimento, projetado com uma inclinação de 0,5% até ao coletor.
- Desnível total = comprimento × inclinação = 40 × 0,005 = 0,20 m (20 cm) entre as duas extremidades do dreno.
Este desnível garante que a água escoa por gravidade até ao coletor, sem zonas de água parada dentro do próprio tubo.
Técnicas de instalação e manutenção
A instalação segue: definição do traçado e das cotas, abertura da vala com a inclinação projetada, colocação de geotêxtil e brita, assentamento do tubo, cobertura e reposição do terreno. A manutenção inclui a limpeza periódica das arcas e coletores, a verificação de obstruções (raízes, sedimentos) e a reparação de troços colapsados.
10. Enquadramento legal, segurança, ambiente e qualidade
Todo o trabalho anterior tem de respeitar um conjunto de normas e obrigações.
Captação de água e licenciamento
Captar água de origens naturais ou subterrâneas (furos, poços, cursos de água) para rega não é livre: exige, em regra, um Título de Utilização de Recursos Hídricos (TURH), emitido pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), ao abrigo da Lei da Água. O título define o caudal e o volume autorizados, e o seu incumprimento é uma infração. Antes de projetar uma captação nova, confirma-se sempre a situação legal junto da APA.
Equipamentos de proteção individual (EPI) e segurança e saúde no trabalho
- Luvas e calçado de proteção na manipulação de tubagem, valas e equipamento mecânico.
- Proteção ocular ao cortar ou colar tubagem.
- Atenção redobrada a valas abertas (risco de queda) e a linhas elétricas junto a bombas e quadros.
- Respeito pelas normas de segurança e saúde no trabalho em toda a instalação e manutenção, incluindo o uso correto de ferramentas e de máquinas de escavação.
Normas de gestão de resíduos e de biossegurança
- Embalagens de filtros, tubagem, uniões e outros materiais devem ser encaminhadas para os circuitos de resíduos corretos, nunca queimadas ou abandonadas no terreno.
- Ao mover equipamento entre parcelas ou explorações, limpa-se terra, raízes e restos vegetais para não espalhar pragas, doenças ou infestantes: é a biossegurança aplicada ao trabalho de rega e drenagem.
- Ferramentas e equipamento que contactam com solo de zonas afetadas por doenças devem ser desinfetados antes de reutilizar noutra parcela.
Registos, documentação técnica e sistema de gestão da qualidade
Manter registos das operações de rega (datas, tempos, volumes), das manutenções realizadas e das anomalias detetadas permite planear melhor a estação seguinte, provar o cumprimento do título de água e diagnosticar avarias mais depressa. Este hábito de registo e documentação técnica é também a base de qualquer sistema de gestão da qualidade: procedimentos escritos, registos completos e correção sistemática de não conformidades, para que o trabalho seja repetível e verificável por qualquer colega da equipa.
Erros comuns
- Calcular a rega sem saber a ETc real da cultura, usando "regra de terreno" sem verificar.
- Esquecer a eficiência de aplicação e subdimensionar sistematicamente a rega localizada.
- Escolher o método de rega pelo custo de instalação, ignorando o custo de água e energia a longo prazo.
- Instalar tubagem sem calcular a pressão necessária nos pontos mais altos ou mais distantes do setor.
- Não limpar os filtros com regularidade, deixando os gotejadores entupir em silêncio.
- Usar água de um furo sem a analisar, arriscando salinizar o solo ao longo dos anos.
- Programar a rega uma vez no início da estação e nunca a ajustar ao clima real.
- Instalar drenos sem a inclinação mínima, deixando água parada no próprio tubo.
- Captar água sem confirmar o Título de Utilização de Recursos Hídricos (TURH) junto da APA.
- Não registar as operações de rega e manutenção, perdendo o histórico para diagnosticar avarias.
Glossário
- Evapotranspiração: perda de água de um sistema solo, planta pela soma da evaporação e da transpiração.
- ETo: evapotranspiração de referência, calculada a partir de dados climáticos.
- ETc: evapotranspiração cultural, a necessidade real de uma cultura (ETc = ETo × Kc).
- Kc: coeficiente cultural, varia com a espécie e a fase de desenvolvimento.
- Capacidade de campo (CC): água retida no solo depois de drenar o excesso por gravidade.
- Ponto de emurchecimento permanente (PMP): limite de humidade abaixo do qual a planta não recupera.
- Água útil (AU): água do solo disponível para a planta, entre a CC e o PMP.
- Pluviometria: taxa de aplicação de água de um sistema de rega, em mm/h.
- Rega localizada: método que aplica água junto à raiz, gota a gota ou por microaspersão.
- Rega por aspersão: método que pulveriza água no ar, simulando chuva.
- Rega por gravidade ou alagamento: método que conduz a água à superfície, por sulcos ou inundação.
- Rega regulada (deficit irrigation): aplicação intencional de menos água do que a ETc, em fases pouco sensíveis.
- Eficiência de aplicação (Ea): fração da água aplicada que é efetivamente aproveitada pela cultura.
- Tensiómetro: instrumento que mede a tensão da água no solo, usado para decidir quando regar.
- Eletroválvula: válvula comandada eletricamente que abre ou fecha um setor de rega.
- Programador (temporizador): equipamento que automatiza o horário e a duração da rega por setor.
- Drenagem superficial: escoamento do excesso de água pela superfície do terreno, por valas ou pendentes.
- Drenagem subterrânea: rede de drenos enterrados que recolhe e escoa a água em excesso no solo.
- Geotêxtil: manta permeável que filtra partículas finas e protege os drenos de colmatação.
- TURH: Título de Utilização de Recursos Hídricos, exigido para captar água de origens naturais.
- APA: Agência Portuguesa do Ambiente, entidade que licencia as captações de água em Portugal.
- Biossegurança: conjunto de práticas para evitar a propagação de pragas, doenças e infestantes.
Síntese
Regar bem é uma sequência de decisões encadeadas: perceber a necessidade hídrica da cultura (ETc = ETo × Kc), escolher o método de rega mais adequado ao terreno, à cultura e aos recursos disponíveis, dimensionar o caudal e o tempo de rega, instalar e regular o equipamento, garantir a pressão e a qualidade da água, programar e monitorizar o funcionamento no dia a dia e fazer a manutenção que evita avarias. A drenagem completa o ciclo, escoando o excesso quando o solo não consegue absorver mais água. Todo este trabalho corre dentro de um enquadramento legal (captações e TURH), de segurança (EPI, SST), ambiental (resíduos, biossegurança) e de qualidade (registos e documentação), que não são acessórios, são parte do ofício.
Exercícios resolvidos
1. ETc e tempo de rega de um talhão de couves. Um talhão de couves, com Kc = 1,05, está sujeito a uma ETo de 4 mm/dia. O sistema instalado, por aspersão, tem pluviometria de 8 mm/h, e a área do talhão é 150 m².
Resolução: ETc = ETo × Kc = 4 × 1,05 = 4,2 mm/dia. Tempo de rega = ETc ÷ pluviometria = 4,2 ÷ 8 = 0,525 h ≈ 32 minutos. Volume diário = ETc × área = 4,2 × 150 = 630 litros.
2. Caudal e tempo de rega de um canteiro de roseiras. Um canteiro tem 200 roseiras, cada uma com 2 gotejadores de caudal unitário 4 L/h. O volume diário necessário, já calculado a partir da ETc, é 1 200 L.
Resolução: Caudal total = 200 × 2 × 4 = 1 600 L/h. Tempo de rega = Volume ÷ caudal = 1 200 ÷ 1 600 = 0,75 h = 45 minutos.
3. Pressão de entrada necessária. Um gotejador tem pressão nominal de 1,2 bar. A rede introduz uma perda de carga de 0,5 bar, e o ponto mais alto do terreno está 5 m acima da entrada do setor.
Resolução: Perda por desnível ≈ 5 m ÷ 10 m por bar = 0,5 bar. Pressão necessária à entrada = 1,2 + 0,5 + 0,5 = 2,2 bar.
4. Reserva de água útil e desnível de um dreno. Um solo tem CC = 30% e PMP = 14%, com profundidade radicular de 40 cm (400 mm). Um dreno enterrado, com 60 m de comprimento, tem inclinação de 0,3%.
Resolução: Água útil = CC − PMP = 30% − 14% = 16%. Reserva de água útil = 16% × 400 mm = 64 mm. Desnível do dreno = comprimento × inclinação = 60 × 0,003 = 0,18 m (18 cm) entre as extremidades.