Sebenta · Preparar o terreno para a instalação de espécies vegetais em jardins e espaços verdes (UC04187)
- Introdução
- 1. O solo: fatores de formação e perfil
- 2. Textura, estrutura e propriedades físicas
- 3. Propriedades químicas: pH, complexo de troca e nutrientes
- 4. Matéria orgânica, água e propriedades biológicas
- 5. Amostragem de solo: procedimentos e interpretação de resultados
- 6. Fertilidade, correção do solo e cálculo de adubações
- 7. Gestão e conservação do solo: erosão
- 8. Planeamento das operações de preparação do terreno
- 9. Operações de mobilização do solo e equipamento
- 10. Segurança, saúde no trabalho e legislação aplicável
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Nenhum jardim nasce bem se o terreno não estiver bem preparado. Antes de plantar uma única árvore ou de semear um metro quadrado de relvado, um técnico de jardinagem competente conhece o solo com que está a trabalhar: a sua textura, a sua acidez, a sua fertilidade, os seus problemas. Esta sebenta acompanha o percurso completo dessa preparação, desde a recolha da amostra de solo, passando pelo planeamento das operações, até à execução e monitorização da mobilização do terreno.
O solo não é um material inerte. É um corpo vivo, formado ao longo de séculos, com propriedades físicas, químicas e biológicas que se cruzam e se influenciam mutuamente. Tratar o solo com rigor técnico, em vez de "cavar e plantar" sem mais, é o que separa um espaço verde que se desenvolve bem de um jardim que fica sempre doente.
Objetivos de aprendizagem (referencial): recolher amostras de solo segundo o procedimento correto; planear as operações de preparação do solo para instalar uma área ajardinada; executar e monitorizar as operações de mobilização do solo; cumprir os requisitos legais e as normas de segurança, proteção individual, ambiental, de gestão de resíduos e da qualidade.
1. O solo: fatores de formação e perfil
O solo resulta da alteração lenta da rocha, combinada com a ação do clima, dos organismos vivos, do relevo e do tempo. São os cinco fatores de formação: material de origem (a rocha-mãe, que dá a composição mineral de partida), clima (temperatura e precipitação aceleram ou travam a alteração da rocha e a decomposição da matéria orgânica), organismos vivos (plantas, microrganismos e fauna do solo, que incorporam e transformam matéria orgânica), relevo (condiciona a drenagem, a exposição solar e a espessura do solo) e tempo (um solo maduro leva séculos a milénios a formar-se).
Um corte vertical no solo mostra camadas horizontais, os horizontes, cada um com características próprias:
| Horizonte | Descrição |
|---|---|
| O | Matéria orgânica pouco decomposta (folhada, resíduos vegetais) |
| A | Horizonte mineral superficial, rico em matéria orgânica e em raízes |
| B | Horizonte de acumulação, onde se depositam argila, óxidos de ferro e de alumínio |
| C | Material de origem alterado, ainda parcialmente reconhecível |
| R | Rocha-mãe consolidada |
Em jardinagem, o trabalho concentra-se sobretudo no horizonte A, o mais fértil e biologicamente ativo. Em terrenos urbanos recém-construídos, este horizonte está muitas vezes perturbado, removido ou substituído por terra de aterro de qualidade desconhecida, o que obriga a uma caracterização cuidadosa antes de qualquer decisão.
Cartas de solos e de capacidade de uso
Para além da observação direta no terreno, existem instrumentos cartográficos de apoio: as cartas de solos, que classificam o solo segundo a sua origem e características, e as cartas de capacidade de uso do solo, que indicam a aptidão de cada zona para diferentes usos (agrícola, florestal, urbano). Consultá-las antes de um projeto de espaço verde de maior dimensão ajuda a antecipar limitações do terreno.
2. Textura, estrutura e propriedades físicas
Textura
A textura é a proporção relativa das três frações minerais que compõem a fase sólida do solo, classificadas pelo tamanho das partículas:
| Fração | Diâmetro | Comportamento típico |
|---|---|---|
| Areia | 2 a 0,05 mm | partícula grande, boa aeração e drenagem, pouca retenção de água e nutrientes |
| Limo | 0,05 a 0,002 mm | partícula intermédia |
| Argila | inferior a 0,002 mm | partícula fina, alta retenção de água e de nutrientes, pode compactar-se facilmente |
A classe textural obtém-se cruzando as três percentagens no triângulo textural (referência USDA), que define classes como areia, franco-arenoso, franco, franco-limoso, franco-argiloso ou argiloso. Um solo franco, com equilíbrio entre as três frações, é geralmente o mais favorável para relvados e maciços ornamentais: drena razoavelmente e retém água e nutrientes suficientes. A textura é, na prática, uma propriedade fixa do solo: não se altera por lavoura ou por adubação, apenas por incorporações muito prolongadas de matéria orgânica ou de areia em grande quantidade.
Estrutura e porosidade
A estrutura é a forma como as partículas minerais se organizam em agregados (torrões). Os tipos mais frequentes: granular (pequenos agregados arredondados, típica de um bom horizonte A, arejada e fácil de trabalhar), em blocos (angulares ou subangulares), laminar (agregados em placas horizontais, sinal de compactação, difícil para as raízes) e prismática.
A porosidade é o volume de espaços entre os agregados, ocupado por ar e água. Um solo bem estruturado tem porosidade equilibrada entre poros grandes (drenagem e aeração) e poros pequenos (retenção de água). A compactação, muito comum em terrenos de obra por passagem repetida de máquinas pesadas, destrói a estrutura granular, reduz a porosidade e dificulta o desenvolvimento radicular: é um dos problemas mais frequentes que um técnico de jardinagem encontra ao preparar terrenos recém-construídos.
Exemplo resolvido · classificar uma amostra pela textura
Uma amostra de solo apresenta, em percentagem de peso, 40% de areia, 40% de limo e 20% de argila.
- Estas três percentagens somam sempre 100%.
- Localizando o ponto no triângulo textural USDA (40% areia, 40% limo, 20% argila), a classe correspondente é franco.
- Um solo franco é, regra geral, um bom ponto de partida para relvado e para a maioria dos maciços arbustivos, exigindo apenas ajustes pontuais de matéria orgânica e de correção conforme o resultado da análise química.
3. Propriedades químicas: pH, complexo de troca e nutrientes
O pH mede a concentração de iões de hidrogénio no solo, numa escala de 0 a 14, e é um dos parâmetros mais lidos num boletim de análise, por condicionar diretamente a disponibilidade de nutrientes para a planta.
| Classe | Intervalo de pH |
|---|---|
| Muito ácido | inferior a 4,5 |
| Ácido | 4,5 a 5,5 |
| Moderadamente ácido | 5,5 a 6,5 |
| Neutro | 6,5 a 7,5 |
| Alcalino | 7,5 a 8,5 |
| Muito alcalino | superior a 8,5 |
A maioria das espécies ornamentais desenvolve-se bem entre pH 6,0 e 7,0. Espécies acidófilas, como azáleas, camélias ou hortênsias de flor azul, exigem solo mais ácido; espécies calcícolas toleram ou preferem solo alcalino. Estes valores são sempre confirmados caso a caso pelo boletim de análise e pela ficha técnica da espécie, nunca fixados de memória.
O complexo de troca é a capacidade da fração fina do solo (argila e matéria orgânica, em conjunto chamadas complexo argilo-húmico) reter e libertar iões nutritivos de forma reversível: é a capacidade de troca catiónica (CTC). Solos argilosos e ricos em matéria orgânica têm CTC alta, retêm melhor os nutrientes e resistem melhor a alterações bruscas de pH, o chamado poder tampão. Solos arenosos, com CTC baixa, perdem nutrientes por lixiviação com maior facilidade, exigindo fertilizações mais frequentes e em doses mais fracionadas.
Os nutrientes dividem-se em macronutrientes, necessários em maior quantidade (azoto N, fósforo P, potássio K, cálcio Ca, magnésio Mg, enxofre S), e micronutrientes, necessários em quantidades vestigiais mas igualmente indispensáveis (ferro Fe, manganês Mn, zinco Zn, cobre Cu, boro B, molibdénio Mo).
4. Matéria orgânica, água e propriedades biológicas
Matéria orgânica
A matéria orgânica do solo resulta da decomposição de resíduos vegetais e animais. Dois processos biológicos transformam-na: a mineralização, em que os microrganismos libertam nutrientes minerais diretamente aproveitáveis pelas plantas, e a humificação, em que parte da matéria orgânica se transforma em húmus, um material estável escuro que melhora significativamente a estrutura, a retenção de água e a CTC do solo. A relação carbono:azoto (C:N) de um material orgânico condiciona a velocidade a que se decompõe: materiais com relação C:N alta (palha, estilha de madeira) decompõem-se devagar e, se incorporados frescos junto às raízes, podem provocar competição temporária por azoto, prejudicando as plantas recém-instaladas.
Água no solo
A água ocupa os poros do solo em diferentes formas: água gravitacional, que escoa por gravidade e não fica disponível para a planta; água capilar, retida nos poros finos por tensão superficial, a principal fonte de água aproveitável pelas raízes; e água higroscópica, fortemente ligada à superfície das partículas, inacessível às raízes. Dois pontos de referência delimitam a água disponível: a capacidade de campo (a quantidade de água que o solo retém depois de o excesso ter drenado por gravidade) e o ponto de emurchecimento (o limite a partir do qual a planta já não consegue extrair água com força suficiente). Entre estes dois pontos está a água útil, disponível para a planta. Solos arenosos têm pouca água útil, por drenarem depressa; solos argilosos têm mais água útil, mas retida com maior força.
A permeabilidade (velocidade a que a água atravessa o solo) e a coesão e tenacidade (resistência do solo a deformar-se ou a partir-se) completam a caracterização física relevante para as operações de mobilização.
Propriedades biológicas
O solo é um ecossistema vivo: bactérias, fungos, minhocas e outros organismos participam na mineralização e na humificação, arejam o solo com as suas galerias e melhoram a estrutura. Um solo biologicamente ativo é, regra geral, um solo mais fértil e mais resiliente.
5. Amostragem de solo: procedimentos e interpretação de resultados
A amostragem é a primeira realização desta UC e a base técnica de toda a decisão seguinte. O procedimento habitual, para um jardim ou espaço verde:
- Percorrer o terreno em zig-zag, identificando entre 8 e 15 pontos representativos da zona a caracterizar.
- Evitar locais atípicos, que enviesam o resultado: junto a caminhos e muros (contaminação por cal ou cimento), antigos montes de estrume ou de adubo, valas de drenagem.
- Em cada ponto, abrir um pequeno buraco e recolher solo entre os 0 e os 20 cm de profundidade, a camada relevante para relvado e para a maioria dos maciços arbustivos. Para árvores de maior porte, recolher também amostra a maior profundidade.
- Juntar todas as subamostras num balde limpo e misturar bem: obtém-se a amostra composta, que representa a zona no seu conjunto.
Exemplo resolvido · da amostra ao boletim
Um técnico está a preparar um talhão de 800 m² para plantação de arbustos ornamentais.
- Divide o talhão em duas zonas homogéneas (uma mais exposta a sul, outra mais sombria), por terem historial de uso diferente.
- Em cada zona, recolhe 10 subamostras em zig-zag, entre 0 e 20 cm de profundidade, evitando os 2 metros junto ao muro.
- Junta as subamostras de cada zona num balde separado, mistura, retira cerca de 500 g de cada uma, e etiqueta com o local, a data, a profundidade e o seu nome.
- Envia as duas amostras a um laboratório acreditado no mesmo dia da recolha, sem as deixar ao sol.
- Ao fim de alguns dias, recebe dois boletins: a zona sombria tem pH 5,2 (ácido) e a zona exposta tem pH 6,8 (neutro). Decide corrigir apenas a zona sombria antes de plantar as espécies que exigem pH mais próximo do neutro.
Este exemplo mostra porque um terreno aparentemente uniforme pode, na realidade, exigir duas decisões técnicas diferentes.
Parâmetros do boletim e interpretação
Um boletim de análise de solo inclui habitualmente pH, matéria orgânica (%), fósforo e potássio extraíveis, textura e, por vezes, condutividade elétrica (indicador de salinidade). Interpretar o boletim é comparar cada valor com o intervalo de referência da espécie a instalar e decidir, com base nisso, que corretivos e que fertilizantes aplicar, e em que dose.
6. Fertilidade, correção do solo e cálculo de adubações
Avaliar a fertilidade
A fertilidade é a capacidade do solo fornecer às plantas, em quantidade e proporção equilibradas, os nutrientes de que precisam. A lei do mínimo, formulada por Liebig, estabelece que o crescimento da planta é limitado pelo nutriente menos disponível em relação às suas necessidades, ainda que todos os outros estejam em abundância. Daí a importância de avaliar a fertilidade a partir da análise de solo, e não de aplicar fertilizante "por rotina": aumentar um nutriente que já não é o fator limitante não melhora o desenvolvimento da planta e desperdiça recurso.
Corretivos
Quando o pH está fora do intervalo desejado para a espécie a instalar, aplica-se um corretivo:
- Solo ácido: calagem com calcário (calcítico ou dolomítico, este último fornece também magnésio), que sobe o pH e fornece cálcio.
- Solo alcalino: aplicação de enxofre elementar, que baixa o pH lentamente por oxidação biológica no solo, mas só é viável em solos alcalinos sem calcário livre. Em solos calcários (efervescência com ácido clorídrico diluído, ou calcário ativo no boletim) o carbonato de cálcio neutraliza a acidificação: preferem-se matéria orgânica, adubos de reação ácida, quelatos de ferro Fe-EDDHA contra a clorose e espécies tolerantes ao calcário.
A dose de corretivo necessária depende da textura e do poder tampão do solo: solos arenosos, com CTC e poder tampão baixos, precisam de menos corretivo para atingir o mesmo efeito; solos argilosos, com poder tampão alto, precisam de mais. A dose concreta a aplicar é sempre a que consta da recomendação técnica do boletim de análise, nunca um valor fixo copiado de outra situação. A calagem deve ser incorporada nos primeiros 15 a 20 cm de solo e feita com semanas ou meses de antecedência em relação à plantação, para dar tempo à sua reação.
Exemplo resolvido · cálculo de uma adubação
É preciso aplicar 30 kg de azoto por hectare num relvado, usando sulfato de amónio, que contém 21% de azoto.
- A quantidade de produto necessária calcula-se dividindo a dose de nutriente pretendida pela concentração do produto: 30 ÷ 0,21 ≈ 142,9 kg de sulfato de amónio por hectare.
- Para um talhão de 300 m² (0,03 ha), a quantidade real de produto é 142,9 × 0,03 ≈ 4,3 kg.
- Em solo arenoso, com CTC baixa, esta dose deve ser fracionada em duas ou três aplicações, para reduzir as perdas por lixiviação.
Este mesmo raciocínio, dose pretendida dividida pela concentração do produto, aplica-se a qualquer fertilizante e a qualquer nutriente.
7. Gestão e conservação do solo: erosão
A erosão é a perda de solo por ação da água ou do vento, agravada em solo descoberto, compactado ou em declive.
- Erosão hídrica laminar: a água da chuva arrasta uma fina camada uniforme de solo em toda a superfície.
- Erosão em sulcos: a água concentra-se em pequenos canais, criando marcas visíveis no terreno.
- Erosão em ravinas: sulcos que se aprofundam progressivamente até formarem valas permanentes, difíceis de corrigir.
- Erosão eólica: o vento arrasta partículas finas de solo desprotegido, sobretudo em solos arenosos secos e sem cobertura vegetal.
Um terreno recém-mobilizado, sem cobertura vegetal, é especialmente vulnerável à erosão nos primeiros meses após a preparação. Medidas de conservação: instalação rápida de cobertura vegetal (relvado ou coberto de solo), mulching (cobertura morta com casca, estilha ou palha) em canteiros e maciços, curvas de nível em terrenos inclinados para quebrar a velocidade de escoamento da água, e sebes corta-vento em zonas expostas ao vento dominante.
8. Planeamento das operações de preparação do terreno
Planear é a segunda realização desta UC: decidir, antes de qualquer intervenção, a sequência e o momento certo de cada operação.
A sequência-tipo de operações, do início ao fim: limpeza do terreno (remoção de entulho, infestantes persistentes e vegetação indesejada), recolha de amostras e análise de solo, mobilização primária (lavoura ou escarificação), incorporação de corretivos e de matéria orgânica, mobilização secundária (gradagem ou fresagem), nivelamento final. Alterar esta ordem, por exemplo fertilizar antes de corrigir o pH, reduz a eficácia do adubo, porque muitos nutrientes ficam menos disponíveis fora do intervalo de pH adequado.
Planear implica ainda estimar prazos realistas (tendo em conta a época do ano e o tempo de reação de corretivos), afetar recursos (máquinas, mão de obra, materiais) e registar tudo num cronograma simples, com datas e responsáveis. O planeamento cumpre diretamente o critério de desempenho de determinar as operações a realizar e os equipamentos a utilizar, de acordo com as características do solo e da área a ajardinar.
9. Operações de mobilização do solo e equipamento
Mobilização primária
Trabalha o solo em maior profundidade, para o soltar e arejar. A lavoura, feita com charrua, corta e vira a camada superficial, enterrando restolho e matéria orgânica. A escarificação, feita com escarificador ou subsolador, rompe camadas compactadas em profundidade sem inverter o solo, preservando a estrutura das camadas superiores; é frequentemente a escolha certa em terrenos de obra, onde o problema principal é a compactação profunda deixada por máquinas de construção.
Mobilização secundária
Afina o trabalho feito na mobilização primária, deixando o solo pronto para semear ou plantar. A gradagem, com grade de discos, desfaz torrões e mistura os corretivos e a matéria orgânica incorporados. A fresagem, com motoenxada ou fresa, desfaz e homogeneíza o solo a menor profundidade, muito usada na preparação de canteiros e relvados novos. O nivelamento, com ancinho mecânico ou rolo, deixa a superfície regular. A sequência lógica vai sempre da operação mais grosseira para a mais fina.
Desinfeção do solo
Em situações de contaminação persistente por pragas, doenças ou infestantes, pode justificar-se desinfetar o solo antes da instalação. A solarização (cobrir o solo húmido com plástico transparente durante semanas de verão, elevando a temperatura o suficiente para reduzir pragas e sementes de infestantes) é o método de menor impacte ambiental e, sempre que exequível, a primeira opção a considerar. O controlo químico só deve ser usado quando justificado, com produtos aprovados pela DGAV e aplicados por aplicador habilitado.
Equipamento e manutenção
| Equipamento | Função |
|---|---|
| Trator | fonte de tração e de força para as alfaias |
| Motocultivador | versão ligeira, para pequenas áreas |
| Charrua | lavoura, mobilização primária |
| Escarificador / subsolador | romper compactação em profundidade |
| Grade de discos | mobilização secundária, desfaz torrões |
| Fresa / motoenxada | homogeneíza a camada superficial |
| Ancinho mecânico / rolo | nivelamento final |
Cada equipamento tem procedimentos próprios de utilização, limpeza e desinfeção e manutenção, indispensáveis para prolongar a vida útil da máquina e para garantir a segurança de quem a opera.
Engate e desengate de alfaias
O engate de três pontos é o sistema mais comum de ligação de alfaias ao trator. Procedimento de engate: aproximar o trator da alfaia em linha reta e devagar; ligar os dois braços inferiores e depois o braço superior (o terceiro ponto); ligar a tomada de força (TDF) se a alfaia for acionada pelo motor do trator; verificar as travas de segurança antes de erguer a alfaia e circular. Para desengatar, inverte-se a sequência: pousar a alfaia no solo, desligar a TDF e só depois soltar os braços do engate, nunca com o trator em movimento. Esta ordem protege quem trabalha de esmagamentos e de projeção de peças em movimento.
10. Segurança, saúde no trabalho e legislação aplicável
O trabalho de preparação do terreno envolve máquinas pesadas, ferramentas cortantes, poeiras e, nalguns casos, produtos químicos, o que exige rigor no cumprimento de normas de segurança e de legislação.
Equipamentos de proteção individual
Os EPI mínimos para operações de preparação do terreno: botas com biqueira de aço (proteção contra impactos e perfurações), luvas adequadas à tarefa, óculos ou viseira de proteção em operações com máquinas rotativas, proteção auditiva junto de motores e máquinas ruidosas, e máscara respiratória em operações com poeira ou produtos fitofarmacêuticos. O uso de EPI é uma obrigação legal do trabalhador e do empregador, não uma opção.
Legislação e normas
- DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária): entidade nacional que regula os produtos fitofarmacêuticos, incluindo os eventualmente usados na desinfeção do solo.
- Lei n.º 26/2013: regime jurídico da distribuição, venda e aplicação de produtos fitofarmacêuticos para uso profissional; exige que quem os aplica seja aplicador habilitado, com formação certificada para o efeito.
- APA (Agência Portuguesa do Ambiente): enquadra a gestão de resíduos gerados pela atividade, embalagens de produtos, restos de poda, óleos usados de máquinas.
- Legislação de segurança e saúde no trabalho: exige avaliação de riscos por tarefa e disponibilização e uso de EPI adequado ao risco identificado.
Cumprir estas normas, e as de gestão de resíduos e de qualidade, é o último critério de desempenho explícito desta UC.
Erros comuns
- Mobilizar o solo húmido: destrói a estrutura granular, forma torrões duros ao secar e, no caso da lavoura, cria um "pé de lavoura" compactado à profundidade de trabalho.
- Amostrar junto a caminhos, muros ou monos de material: enviesa o resultado, sobretudo o pH.
- Fertilizar sem análise prévia: contraria diretamente a lei do mínimo e pode desperdiçar recurso ou provocar excessos.
- Incorporar matéria orgânica fresca junto às raízes: provoca competição temporária por azoto e pode prejudicar plantas recém-instaladas.
- Aplicar corretivo com base num valor genérico: as doses corretas dependem sempre da textura, do poder tampão e do boletim de análise concreto, nunca de uma tabela copiada de outra situação.
- Deixar solo recém-mobilizado a descoberto por meses: expõe o terreno a erosão hídrica e eólica.
- Desengatar uma alfaia do trator com este em movimento, ou sem a pousar primeiro no solo: risco grave de acidente.
- Escolher controlo químico como primeira opção de desinfeção do solo: deve ponderar-se primeiro alternativas físicas, como a solarização.
Glossário
- Amostra composta: mistura de várias subamostras recolhidas num terreno, representativa da zona.
- Calagem: aplicação de corretivo calcário para corrigir a acidez do solo.
- Capacidade de campo: quantidade de água que o solo retém depois de o excesso ter drenado por gravidade.
- Capacidade de troca catiónica (CTC): capacidade do solo reter e libertar iões nutritivos.
- Complexo argilo-húmico: conjunto formado pela argila e pela matéria orgânica humificada, responsável pela CTC do solo.
- Escarificação: mobilização primária que rompe camadas compactadas sem inverter o solo.
- Estrutura do solo: forma como as partículas minerais se organizam em agregados.
- Gradagem: mobilização secundária que desfaz torrões com a grade de discos.
- Horizonte: camada horizontal do perfil do solo, com propriedades próprias.
- Húmus: matéria orgânica estável resultante da humificação.
- Humificação: transformação da matéria orgânica em húmus.
- Lavoura: mobilização primária que corta e vira o solo com a charrua.
- Lei do mínimo: princípio segundo o qual o crescimento da planta é limitado pelo nutriente menos disponível.
- Mineralização: transformação da matéria orgânica em nutrientes minerais disponíveis.
- pH: medida da acidez ou alcalinidade do solo.
- Poder tampão: resistência do solo a alterações bruscas de pH.
- Ponto de emurchecimento: limite de água a partir do qual a planta já não consegue extrair água do solo.
- Solarização: desinfeção do solo pelo calor, cobrindo-o com plástico transparente.
- Textura: proporção das frações de areia, limo e argila no solo.
- Tomada de força (TDF): mecanismo que transmite força do motor do trator a uma alfaia.
- Triângulo textural: diagrama que classifica o solo em classes texturais a partir das percentagens de areia, limo e argila.
Síntese
Preparar o terreno para instalar espécies vegetais segue sempre a mesma lógica: conhecer o solo (formação, perfil, textura, estrutura, química, matéria orgânica, água) → amostrar com rigor e interpretar o boletim → planear a sequência de operações → corrigir e fertilizar com base na análise, nunca por rotina → mobilizar o solo com o equipamento adequado, da operação mais grosseira à mais fina → conservar o solo contra a erosão → cumprir EPI, legislação (DGAV, Lei n.º 26/2013, APA) e boas práticas ao longo de todo o processo. Este é o percurso das três realizações do referencial: recolher, planear, executar e monitorizar.
Exercícios resolvidos
1. Uma amostra de solo tem 60% de areia, 30% de limo e 10% de argila. Que classe textural aproximada é esta, e que implicações tem para a rega?
Resolução: com predominância de areia, a classe é próxima de franco-arenoso. Implica boa drenagem e aeração, mas pouca retenção de água e de nutrientes, exigindo regas mais frequentes e fertilização mais fracionada.
2. O boletim de análise mostra pH 5,0. Que corretivo se aplica e porquê?
Resolução: aplica-se calcário (calagem), para subir o pH até ao intervalo desejado pela espécie a instalar. A dose exata depende da recomendação do boletim e da textura do solo, incorporando-se nos primeiros 15 a 20 cm, com antecedência suficiente em relação à plantação.
3. Um técnico vai preparar um terreno de obra recente, com sinais evidentes de compactação em profundidade. Que operação de mobilização primária escolhe, e porquê não escolhe lavoura?
Resolução: escolhe a escarificação (com escarificador ou subsolador), porque rompe a compactação em profundidade sem inverter as camadas do solo. A lavoura mistura e inverte a camada superficial, mas não é a ferramenta certa para compactação profunda.
4. Preciso de aplicar 20 kg de fósforo por hectare, usando um fertilizante com 18% de P₂O₅. Quantos kg de produto por hectare são necessários?
Resolução: 20 ÷ 0,18 ≈ 111,1 kg de produto por hectare, seguindo o mesmo raciocínio de dividir a dose pretendida pela concentração do produto.
5. Porque é que a ordem "corrigir o pH antes de fertilizar" é importante, e não o contrário?
Resolução: porque a disponibilidade de muitos nutrientes para a planta depende do pH do solo. Fertilizar num solo com pH desadequado reduz a eficácia do adubo aplicado, já que parte dos nutrientes fica menos disponível para as raízes.