Sebenta · Montar e executar soldadura MAG/FF, ângulo em chapa nas posições PA, PB, PF e PG em aços temperados e revenidos
- Introdução
- 1. O processo 136: fio fluxado com gás de proteção
- 2. Documentação técnica e a especificação do procedimento (EPS)
- 3. Consumíveis: o fio fluxado (EN ISO 17632)
- 4. Gases de proteção ativos (EN ISO 14175)
- 5. Variáveis do processo
- 6. Modos de transferência metálica
- 7. Equipamentos e acessórios
- 8. Parametrizar o equipamento
- 9. Aços temperados e revenidos: o que muda na soldadura
- 10. Aporte térmico, pré-aquecimento e temperatura entre passes
- 11. Preparar a junta em ângulo (T) e sequenciar os passes
- 12. As quatro posições: PA, PB, PF e PG (EN ISO 6947)
- 13. A posição PG: vertical descendente
- 14. Defeitos, inspeção e critérios de aceitação
- 15. Manutenção, segurança e qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a montar e executar soldadura MAG/FF, ou seja, soldadura por arco elétrico com fio fluxado tubular (FCW) e proteção gasosa ativa, processo 136 da nomenclatura EN ISO 4063. É uma das três UCs de soldadura por arco do curso, a par do SER (elétrodo revestido) e do TIG; esta é especificamente sobre fio fluxado com gás, nunca sobre elétrodo revestido ou tungsténio.
O objeto concreto é a junta de ângulo em T, em chapa, nas posições PA, PB, PF e PG, aplicada a aços temperados e revenidos: aços de alta resistência mecânica, sensíveis ao calor introduzido pela soldadura, usados em estruturas metálicas pesadas, gruas e equipamento de movimentação de terras. A escolha destes aços não é acessória: é o que distingue esta UC de um MAG/FF genérico, porque obriga a controlar o aporte térmico, o pré-aquecimento e a temperatura entre passes com um rigor que um aço macio comum não exige.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar as especificações dos procedimentos de soldadura e a documentação técnica; estabelecer as sequências de operações no posto de trabalho e de fabrico; e executar juntas soldadas para as especificações pretendidas, dominando os consumíveis, as variáveis de processo, a técnica operatória nas quatro posições, a inspeção visual e a manutenção do equipamento.
1. O processo 136: fio fluxado com gás de proteção
O MAG/FF designa a soldadura por arco elétrico com fio fluxado (Flux Cored Wire, FCW) protegida por um gás ativo externo, o processo 136 na EN ISO 4063 (Flux Cored Arc Welding, Gas-shielded, FCAW-G).
O fio é um tubo metálico fino, enrolado a partir de uma fita, com um núcleo de fluxo em pó no interior:
- O invólucro metálico conduz a corrente elétrica e funde para formar o metal de adição.
- O núcleo de fluxo contém desoxidantes, formadores de escória e, consoante o tipo, elementos de liga.
- Ao fundir, o fluxo gera escória que flutua sobre o banho, protegendo-o durante o arrefecimento e ajudando a moldar o cordão.
- Alguns fios libertam ainda gás adicional a partir da decomposição do núcleo, que reforça a proteção do gás externo.
Não confundir com o processo 114 (fio fluxado autoprotegido, sem gás externo, usado em obra ao ar livre com vento) nem com o processo 138 (fio de núcleo metálico, sem formação de escória). Esta UC é sempre e só sobre o 136: fio fluxado com gás de proteção.
Porque se escolhe o FCAW-G em construção metálica
O FCAW-G junta a produtividade do fio contínuo (sem trocar elétrodos, como no MAG com fio maciço) com a qualidade metalúrgica que a escória proporciona, semelhante à do elétrodo revestido:
- Maior taxa de deposição que o fio maciço, à mesma intensidade.
- Melhor tolerância a preparações de junta menos perfeitas, porque a escória sustenta e protege o banho mesmo com folgas maiores.
- Boa aptidão para chapa espessa e aço de alta resistência, exatamente o caso dos aços temperados e revenidos desta UC.
2. Documentação técnica e a especificação do procedimento (EPS)
Antes de acender o arco, o soldador analisa a documentação técnica, a primeira realização do referencial desta UC.
| Documento | O que fixa |
|---|---|
| Desenho técnico | geometria da junta, cotas, símbolo de soldadura, dimensão do cordão |
| EPS/WPS (EN ISO 15609-1) | processo (136), consumível, gás, posição, parâmetros elétricos, pré-aquecimento, temperatura entre passes |
| Certificado do material de base | composição química e propriedades mecânicas reais do lote de chapa |
| Certificado do material de adição | composição química e classificação real do lote de fio fluxado |
A Especificação do Procedimento de Soldadura (EPS), seguindo a EN ISO 15609-1, é o documento central: define de forma vinculativa todos os parâmetros que garantem que a soldadura executada tem as propriedades exigidas ao componente. O soldador que ignora a EPS não está apenas a improvisar, está a produzir uma junta cujas propriedades deixaram de estar garantidas.
Ligado a isto está a qualificação do soldador, conforme a EN ISO 9606-1: o soldador só está autorizado a executar o processo, o material e as posições em que foi qualificado. Um soldador qualificado em PA e PF não pode, sem nova qualificação, assinar como responsável por um cordão em PG.
Estabelecer a sequência de operações
A segunda realização do referencial é estabelecer a sequência de operações no posto de trabalho e no fabrico:
- Ordem de preparação da junta, ponteamento, soldadura e acabamento.
- Sequência de cordões em multipasse, que influencia diretamente a distorção final da peça e o aporte térmico acumulado.
- Estimativa de materiais e recursos: quantidade de fio, consumo de gás, tempo de arco aberto.
- Necessidade de pré-aquecimento e de meios para o controlar (maçarico, giz térmico, termómetro de contacto).
3. Consumíveis: o fio fluxado (EN ISO 17632)
A EN ISO 17632 classifica os fios fluxados tubulares para aços não ligados e de grão fino, definindo a resistência mecânica do metal depositado, a composição do gás de ensaio e o tipo de escória.
Tipos de escória: rutilo vs básico
| Tipo | Arco e projeções | Escória | Hidrogénio difusível | Uso típico |
|---|---|---|---|---|
| Rutilo | suave, poucas projeções | fácil de remover, autodestacável | mais elevado | uso geral, todas as posições |
| Básico | mais penetrante | mais aderente, remoção cuidada | mais baixo | aços de alta resistência, aços temperados e revenidos |
Um fio fluxado rutilo dá um cordão liso e é fácil de escoriar, ideal para produção corrente em aço macio. Já num chassis de grua em aço temperado e revenido, a EPS prescreve quase sempre um fio básico de baixo hidrogénio, mesmo sabendo que a escória exige limpeza mais cuidada entre passes: a prioridade passa a ser reduzir o risco de fissuração a frio (capítulo 6), não a facilidade de uso.
Acondicionamento e escorificação
- Os fios devem ser acondicionados secos; humidade no fluxo introduz hidrogénio no banho, agravando o risco de fissuração a frio.
- Em multipasse, a escória tem de ser removida por completo entre passes, com escova metálica e martelo de picar. Escória retida gera inclusões de escória, um dos defeitos típicos do processo.
4. Gases de proteção ativos (EN ISO 14175)
No processo 136 o gás de proteção é sempre ativo: participa quimicamente no arco e no banho, ao contrário dos gases inertes usados no TIG.
| Gás | Classificação EN ISO 14175 | Penetração | Projeções | Aspeto do cordão |
|---|---|---|---|---|
| CO2 puro | C1 | maior, mais profunda | mais projeções | mais convexo, mais rugoso |
| Ar + 15-20% CO2 | M21 | boa, mais controlada | poucas projeções | liso, bem molhado, favorece o spray |
O CO2 puro dissocia-se no calor do arco e liberta oxigénio, o que aumenta a penetração central mas torna o arco mais instável e gerador de projeções. A mistura Ar+CO2 (M21), a mais comum em fabrico com fio fluxado, dá um arco mais estável, um cordão mais estético e permite atingir transferência spray em chapa espessa (capítulo 5).
O caudal de gás típico ronda os 15 a 20 l/min. Caudal insuficiente não protege o banho; caudal excessivo cria turbulência que suga ar para dentro da zona protegida, com o mesmo efeito final: porosidade.
A proteção gasosa só funciona sem perturbações. Correntes de ar (janelas, ventoinhas, vento em estaleiro) arrastam o gás e deixam o banho exposto ao ar antes de solidificar, causando porosidade. É a principal fragilidade do MAG/FF face ao SER ou ao fio fluxado autoprotegido, mais tolerantes ao vento. Usa-se écran/biombo de proteção sempre que há corrente de ar.
5. Variáveis do processo
Tensão, VAF e intensidade
O equipamento MAG/FF é de tensão constante. O soldador regula a tensão e a velocidade de alimentação do fio (VAF); a intensidade resulta desse par, num efeito autorregulador do arco.
- VAF (m/min): quanto mais rápido o fio avança, maior a intensidade resultante e maior a taxa de deposição.
- Tensão (V): controla o comprimento do arco. Tensão baixa dá arco curto, cordão estreito e convexo; tensão alta alarga e achata o cordão.
- Existe sempre uma janela VAF/tensão coerente para cada diâmetro de fio e gás; sair dela produz projeções, porosidade ou falta de fusão.
Stick-out e indutância
- Stick-out (extensão livre): distância entre o bocal de contacto e a peça, tipicamente 15 a 25 mm no FCAW-G, maior do que no MAG com fio maciço, porque pré-aquece o fio por efeito Joule antes de este chegar ao arco, aumentando a deposição. Stick-out excessivo instabiliza o arco e reduz a penetração; stick-out curto demais provoca salpicos no bocal e o seu sobreaquecimento.
- Indutância: regula a rapidez de subida da corrente nos curto-circuitos da transferência por curto-circuito. Mais indutância suaviza a transferência e reduz projeções; menos indutância dá um arco mais penetrante mas mais "duro".
Exemplo resolvido · ler o arco
Um soldador nota que o cordão de ensaio projeta em excesso e o som do arco é irregular, "estala" sem constância. As causas mais prováveis, por ordem de verificação: (1) desequilíbrio entre tensão e VAF, provavelmente tensão baixa para a VAF escolhida; (2) gás CO2 puro sem mistura, que por natureza projeta mais; (3) indutância baixa demais para o tipo de transferência. A correção começa por reajustar a tensão dentro da janela recomendada pelo fabricante do fio, e só depois, se persistir, rever gás e indutância.
6. Modos de transferência metálica
| Modo | Energia | Estabilidade | Posições possíveis |
|---|---|---|---|
| Curto-circuito | baixa | boa, banho pequeno e controlável | PA, PB, PF, PG (todas) |
| Globular | intermédia | instável, muitas projeções | nenhuma (regime a evitar) |
| Spray | alta | muito boa, poucas projeções, banho grande | apenas PA e PB |
- O curto-circuito é o modo usado nas quatro posições desta UC, porque produz um banho pequeno que não escorre nem em PF nem em PG.
- O globular é uma transição instável entre curto-circuito e spray, com gotas grandes e irregulares; não é um modo de trabalho válido, é sinal de parâmetros mal escolhidos entre as duas zonas estáveis, e deve corrigir-se ajustando tensão e VAF.
- O spray exige intensidade e tensão elevadas acima de um limiar de transição, e só é viável nas posições planas (PA e PB), onde o banho grande não é arrastado pela gravidade; é impraticável em PF e sobretudo em PG.
7. Equipamentos e acessórios
| Componente | Função | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Fonte de tensão constante | fornece corrente contínua, normalmente CC+ | polaridade correta para penetração e estabilidade |
| Devanadeira/alimentador | impõe a VAF | roletos com perfil próprio para fio tubular (nunca roletos em V de fio maciço, que esmagam o fio) |
| Tocha (porta-elétrodo) | conduz fio, corrente e gás até ao arco | bocal de contacto, difusor e bico de gás, todos consumíveis de desgaste |
| Mangueiras | ligam tocha, devanadeira, fonte e garrafa de gás | verificar fugas e ligações |
| Rebarbadora | acabamento e preparação de bordos | remoção de escória aderente sem danificar o metal base |
O bocal de contacto desgasta-se e alarga com o uso, aumentando o stick-out efetivo de forma descontrolada; o difusor de gás obstruído por projeções cria turbulência e porosidade; o bico de gás acumula respingos e deve ser limpo com regularidade. A inspeção destas peças faz parte da rotina diária do posto de trabalho, antes de qualquer soldadura de produção.
8. Parametrizar o equipamento
Exemplo resolvido · sequência de parametrização
Antes de soldar um cordão de ângulo em T, aço temperado e revenido, espessura 10 mm, posição PA, a EPS indica: fio fluxado básico Ø 1,2 mm, gás M21 (Ar+18%CO2), 26-29 V, VAF correspondente a 200-230 A, caudal de gás 18 l/min.
- Confirmar na EPS o processo (136), o fio, o gás e a posição.
- Montar roletos e bocal de contacto para Ø 1,2 mm de fio tubular.
- Abrir o gás a 18 l/min e verificar estanquidade das ligações.
- Ajustar VAF e tensão dentro da gama 26-29 V / 200-230 A.
- Regular a indutância para um arco estável em curto-circuito ou spray, consoante o passe.
- Soldar um cordão de ensaio em sucata do mesmo lote e espessura, e só depois soldar a peça real.
Ler o arco: sinais de parâmetros corretos
| Sinal observado | Parâmetro provavelmente a corrigir |
|---|---|
| Som agudo e irregular, muitas projeções | tensão baixa ou desequilíbrio VAF/tensão |
| Arco longo, cordão largo e achatado | tensão alta demais |
| Penetração excessiva, reforço grande | VAF/intensidade alta demais |
| Cordão estreito, mal molhado, falta de fusão nas laterais | VAF/intensidade baixa demais, ou ângulo de tocha incorreto |
9. Aços temperados e revenidos: o que muda na soldadura
Os aços temperados e revenidos recebem um tratamento térmico prévio: a têmpera (aquecimento e arrefecimento rápido, gerando estrutura martensítica dura) seguida do revenido (reaquecimento controlado a temperatura moderada, que reduz a fragilidade e ajusta a dureza final). O resultado é um aço de alta resistência mecânica e boa tenacidade, usado em estruturas metálicas pesadas, gruas e equipamento de movimentação de terras.
A soldadura reintroduz calor localmente, e este calor pode desfazer o equilíbrio metalúrgico que o tratamento térmico criou. Dois riscos, opostos entre si, dominam a soldadura destes aços:
Amaciamento da zona termicamente afetada (ZTA): um aporte térmico excessivo sobreaquece a ZTA além da temperatura original de revenido, reduzindo localmente a dureza e a resistência da junta.
Fissuração a frio (fissuração por hidrogénio): surge horas ou dias depois de soldar, quando coexistem hidrogénio difusível no cordão, microestrutura dura de arrefecimento rápido e tensões residuais. Um aporte térmico insuficiente e um arrefecimento demasiado rápido aumentam este risco.
O objetivo da EPS é definir uma janela de aporte térmico (mínimo e máximo) que evite os dois riscos em simultâneo, nunca maximizar ou minimizar um extremo sem olhar ao outro.
10. Aporte térmico, pré-aquecimento e temperatura entre passes
O aporte térmico (heat input, em kJ/mm) quantifica a energia introduzida por unidade de comprimento de cordão:
Q (kJ/mm) = η × V × I × 60 / (1000 × v)
Onde V é a tensão (V), I a intensidade (A), v a velocidade de soldadura (mm/min) e η o rendimento térmico do processo (≈ 0,8 para MAG/FF).
Exemplo resolvido · calcular e verificar o aporte térmico
Tensão 28 V, intensidade 220 A, velocidade de soldadura 350 mm/min:
Q = 0,8 × 28 × 220 × 60 / (1000 × 350) = 295.680 / 350.000 ≈ 0,845 kJ/mm.
Se a EPS exigir um aporte entre 0,7 e 1,2 kJ/mm, este cordão está dentro da janela. Se a velocidade de soldadura descesse para 200 mm/min (soldador mais lento, com os mesmos V e I), o aporte subiria para cerca de 1,48 kJ/mm, já fora da janela e a arriscar amaciamento da ZTA.
Pré-aquecimento e temperatura entre passes
- Pré-aquecimento: aquece a peça antes de soldar, reduzindo a velocidade de arrefecimento e o risco de fissuração a frio. Aplica-se com maçarico, mantas de resistência ou fornos, e confirma-se com giz térmico ou termómetro de contacto, medido junto à junta.
- Temperatura entre passes: em multipasse, cada passe seguinte não pode encontrar a peça acima de um máximo definido na EPS, para não acumular aporte térmico e amaciar excessivamente a ZTA.
- Consumíveis de baixo hidrogénio (fio básico, bem acondicionado e seco) reduzem a quantidade de hidrogénio disponível para fissurar, complementando o controlo de temperatura.
11. Preparar a junta em ângulo (T) e sequenciar os passes
O referencial centra-se na junta de ângulo em T (uma chapa perpendicular a outra), soldada com cordão de ângulo (filete), em espessuras entre 6 e 13 mm.
Preparação
- Limpeza de óxidos, tinta, gordura e humidade nos bordos, numa faixa de pelo menos 20 mm.
- Ponteamento: pontos curtos e bem distribuídos, refundidos e incorporados no cordão final, nunca deixados como defeito à parte.
- Verificação do esquadro entre as duas chapas antes de soldar.
- Garganta e perna do cordão conforme o desenho técnico, verificadas com calibre de soldadura após a execução.
Monopasse vs multipasse
- Monopasse: um único cordão cobre a garganta exigida; usado em espessuras próximas dos 6 mm, quando a EPS o permite.
- Multipasse: passe de raiz, passes de enchimento e passe de acabamento; necessário perto dos 13 mm ou sempre que o aporte térmico por passe tenha de ser limitado. Escoriar por completo entre passes, controlar a temperatura entre passes e manter a sequência definida, para gerir a distorção da peça.
12. As quatro posições: PA, PB, PF e PG (EN ISO 6947)
A EN ISO 6947 define as posições de soldadura pela orientação da peça e do cordão:
| Posição | Nome | Orientação | Efeito da gravidade sobre o banho |
|---|---|---|---|
| PA | Plana (ao baixo) | cordão horizontal, soldador por cima | a favor, a mais favorável |
| PB | Horizontal em ângulo | junta em T horizontal | tende a puxar o banho para a chapa inferior |
| PF | Vertical ascendente | progressão de baixo para cima | opõe-se ao banho, que só se segura pela tensão superficial e pela prateleira já solidificada abaixo |
| PG | Vertical descendente | progressão de cima para baixo | empurra o banho à frente do arco |
Cada posição exige ajuste de parâmetros e de técnica:
- PA: intensidades mais altas, banho maior, permite mesmo transferência spray em chapa espessa.
- PB: controlo do ângulo de tocha para equilibrar a fusão entre a chapa vertical e a horizontal, evitando que o banho escorra para a face inferior.
- PF (ascendente): parâmetros mais baixos que em PA, movimento oscilante para controlar a penetração sem deixar o banho cair.
- PG (descendente): técnica própria, tratada em detalhe no capítulo 13.
Técnica operatória comum às quatro posições
- Ângulo de trabalho: normalmente 45° entre as duas faces da junta em T.
- Ângulo de deslocamento: em curto-circuito, um ligeiro ângulo de arrasto favorece a penetração e a visibilidade do banho.
- Movimento: retilíneo em cordões estreitos e de raiz; oscilante em passes de enchimento largos, com pausa breve nas laterais para garantir a fusão total dos bordos, o que evita a falta de fusão lateral.
13. A posição PG: vertical descendente
A PG é a particularidade mais delicada desta UC. O soldador progride de cima para baixo, e a gravidade empurra o banho à frente do arco. Na PF (ascendente) a gravidade também joga contra, mas de outra maneira: puxa o banho para baixo, e o que o segura é a tensão superficial mais a prateleira de metal já solidificado imediatamente abaixo do arco, que serve de apoio ao cordão que se vai construindo.
Se o banho avançar mais depressa do que o arco funde a raiz da junta, o metal fundido cobre a zona ainda por fundir, criando falta de fusão oculta sob um cordão de aspeto aceitável. Este defeito pode não ser visível à inspeção visual, só surgindo em ensaio não destrutivo (radiografia ou ultrassons).
Técnica correta em PG
- Velocidade de deslocamento rápida e constante, sem paragens: em PG solda-se mais depressa do que em PF, precisamente para que o arco vá à frente do banho e não o contrário.
- Parâmetros (tensão e VAF) ligeiramente mais baixos, com transferência por curto-circuito, para manter o banho pequeno.
- Ângulo de tocha em arrasto acentuado, apontando ligeiramente contra o sentido de progressão, para o arco atacar a raiz antes de o banho a cobrir.
- A PG só se usa até uma espessura moderada; para gargantas maiores, a EPS pode limitar o número de passes ou exigir mudança de posição.
Exemplo resolvido · diagnosticar um erro em PG
Um cordão de ângulo em T, soldado em PG, aprova na inspeção visual (aspeto liso, sem poros à superfície), mas é reprovado em ultrassons por falta de fusão lateral. O que aconteceu, provavelmente?
Resolução: o soldador terá progredido devagar demais, com a mesma cadência da PF. O banho, empurrado pela gravidade, avançou mais depressa do que a fusão real da raiz e cobriu as laterais ainda não fundidas, escondendo o defeito sob uma superfície aparentemente lisa. A correção é aumentar a velocidade de deslocamento e reforçar o ângulo de arrasto, não "soldar com mais cuidado e devagar" como a intuição sugeriria.
14. Defeitos, inspeção e critérios de aceitação
Defeitos típicos do processo 136
| Defeito | Causa típica |
|---|---|
| Falta de fusão nas laterais | velocidade excessiva, ângulo errado, sem pausa lateral no movimento, energia insuficiente |
| Projeções (spatter) | tensão/VAF desequilibradas, transferência globular, CO2 puro em excesso |
| Porosidade | corrente de ar, caudal de gás incorreto, bocal ou difusor obstruído |
| Inclusões de escória | remoção incompleta da escória entre passes |
| Amaciamento da ZTA / fissuração a frio | aporte térmico ou pré-aquecimento fora da janela da EPS |
Cada defeito desta tabela tem uma causa rastreável a uma variável de processo, não é "azar" nem falta de sorte do soldador.
Inspeção visual e níveis de qualidade (EN ISO 5817)
A inspeção visual verifica geometria e dimensões do cordão (garganta, perna), regularidade, ausência de fissuras superficiais, mordeduras, poros visíveis e salpicos excessivos. A EN ISO 5817 define níveis de qualidade (B o mais exigente, C intermédio, D o mais tolerante), com limites dimensionais próprios para cada tipo de imperfeição consoante o nível exigido pelo projeto. A simbologia de soldadura no desenho técnico indica o tipo, dimensão e acabamento do cordão exigido, e articula-se com a qualificação do soldador (EN ISO 9606-1).
15. Manutenção, segurança e qualidade
Manutenção preventiva
- Diária: verificar bocal de contacto, difusor e bico de gás; limpar projeções; confirmar caudal e estanquidade do gás.
- Periódica: verificar roletos e guia de fio, mangueiras, ligações elétricas, estado geral da fonte.
- Diagnóstico de avarias simples: arco instável ou VAF irregular apontam muitas vezes para roletos gastos, bocal alargado ou fio mal acondicionado, antes de suspeitar da fonte.
- Registar as verificações mantém a rastreabilidade exigida pelas normas da qualidade do fabrico.
Segurança e ambiente
- EPI: máscara de soldar com filtro adequado, luvas, avental, proteção respiratória contra fumos (o fluxo do fio fluxado liberta mais fumos do que o fio maciço).
- EPC: extração localizada de fumos, biombos contra radiação e contra corrente de ar (que também protege o gás).
- Ambiente: gestão de escória e resíduos de fio; ventilação em espaços confinados.
- Segurança elétrica: isolamento de cabos verificado antes de ligar a fonte; nunca trocar consumíveis com a fonte ligada.
Erros comuns
- Confundir o processo 136 (fio fluxado com gás) com o 114 (autoprotegido, sem gás) ou com os processos de SER e TIG das UCs irmãs.
- Manter o mesmo stick-out curto do fio maciço ao mudar para fio fluxado, perdendo o pré-aquecimento do fio que aumenta a deposição.
- Deixar o cordão trabalhar em transferência globular sem perceber que é um regime instável a corrigir, não uma característica normal do processo.
- Soldar junto a portas, janelas ou ventoinhas sem écran de proteção, gerando porosidade sistemática por corrente de ar.
- Não remover a escória por completo entre passes "porque o passe seguinte cobre tudo", criando inclusões.
- Aplicar em PG a mesma velocidade lenta e cuidadosa da PF, deixando o banho escorrer à frente do arco e esconder falta de fusão.
- Ignorar a temperatura de pré-aquecimento ou entre passes da EPS em aço temperado e revenido, arriscando fissuração a frio ou amaciamento da ZTA.
- Aceitar um cordão "porque está bonito" sem medir garganta e perna contra o nível de qualidade exigido pela EN ISO 5817.
Glossário
- MAG/FF: soldadura MAG (Metal Active Gas) com fio fluxado, processo 136.
- FCW (Flux Cored Wire): fio fluxado tubular com núcleo de fluxo.
- Stick-out: extensão livre do fio entre o bocal de contacto e a peça.
- VAF: velocidade de alimentação do fio.
- Indutância: parâmetro que regula a rapidez de subida da corrente na transferência por curto-circuito.
- Transferência curto-circuito, globular e spray: os três modos de passagem do metal fundido do fio para o banho.
- Aporte térmico (heat input): energia introduzida por unidade de comprimento de cordão, em kJ/mm.
- ZTA: zona termicamente afetada, a região do metal base alterada pelo calor da soldadura sem fundir.
- Fissuração a frio: fissuração por hidrogénio, que surge horas ou dias após a soldadura.
- EPS/WPS: Especificação do Procedimento de Soldadura.
- PA, PB, PF, PG: posições de soldadura conforme a EN ISO 6947, plana, horizontal em ângulo, vertical ascendente e vertical descendente.
Síntese
O MAG/FF (processo 136) solda com fio fluxado tubular protegido por gás ativo (CO2 ou mistura Ar+CO2), controlando VAF, tensão, stick-out e indutância para manter a transferência em curto-circuito ou spray, evitando sempre o globular. Em aços temperados e revenidos, o aporte térmico, o pré-aquecimento e a temperatura entre passes têm de se manter dentro de uma janela que evite simultaneamente a fissuração a frio e o amaciamento da ZTA. A junta de ângulo em T executa-se nas quatro posições PA, PB, PF e PG, cada uma com técnica própria, sendo a PG descendente a mais exigente por obrigar a velocidade de deslocamento rápida para não esconder falta de fusão. A qualidade final confirma-se por inspeção visual contra os níveis da EN ISO 5817, sustentada por manutenção preventiva e segurança no posto.
Exercícios resolvidos
1. Um soldador está a preparar um cordão de ângulo em T em aço temperado e revenido, PG, e escolhe um fio fluxado rutilo em vez de básico "porque é mais fácil de escoriar". É uma boa escolha?
Resolução: não. Em aços temperados e revenidos a prioridade é reduzir o hidrogénio difusível para evitar fissuração a frio, e os fios básicos de baixo hidrogénio são superiores nesse aspeto, mesmo exigindo remoção de escória mais cuidada. A facilidade de escorificação do rutilo não compensa o risco metalúrgico acrescido.
2. Calcula o aporte térmico de um cordão soldado a 27 V, 210 A, velocidade de soldadura 300 mm/min, com rendimento térmico 0,8. Está dentro de uma janela de 0,7 a 1,1 kJ/mm?
Resolução: Q = 0,8 × 27 × 210 × 60 / (1000 × 300) = 272.160 / 300.000 ≈ 0,907 kJ/mm. Está dentro da janela de 0,7 a 1,1 kJ/mm.
3. Porque é que o spray não se usa em PG?
Resolução: o spray exige alta energia e produz um banho de fusão grande e muito fluido; em PG, a gravidade empurra esse banho fluido à frente do arco de forma descontrolada, arrastando-o para fora da junta antes de solidificar. Só a transferência por curto-circuito, com banho pequeno, é praticável nas posições fora da plana, incluindo a PG.
4. Um cordão foi reprovado por porosidade e o soldador garante que a garrafa de gás estava cheia e o caudal certo. Que outras causas deves verificar?
Resolução: corrente de ar no local de trabalho (janela, ventoinha, vento em estaleiro), difusor de gás obstruído por projeções, distância bocal-peça (stick-out) excessiva que afasta o gás do banho, e mangueira ou ligação de gás com fuga entre a garrafa e a tocha.
5. Distingue amaciamento da ZTA e fissuração a frio quanto à causa e ao momento em que aparecem.
Resolução: o amaciamento da ZTA resulta de aporte térmico excessivo, que sobreaquece a zona termicamente afetada além da temperatura de revenido original, reduzindo a dureza; é uma alteração metalúrgica presente desde o fim da soldadura. A fissuração a frio resulta de aporte térmico insuficiente combinado com hidrogénio difusível e arrefecimento rápido, e só se manifesta horas ou dias depois de soldar, à medida que o hidrogénio se difunde e as tensões residuais atuam sobre a microestrutura dura.
6. Que técnica distingue a soldadura em PF da soldadura em PG, e porquê?
Resolução: em PF (ascendente) o soldador solda a subir, com parâmetros mais contidos e movimento oscilante, porque a gravidade puxa o banho para baixo e o que o segura é a tensão superficial mais a prateleira já solidificada abaixo do arco: daí os parâmetros contidos, para que o banho não fique maior do que essa prateleira consegue suportar. Em PG (descendente) o soldador solda a descer, e tem de o fazer mais depressa e com ângulo de arrasto acentuado, porque a gravidade empurra o banho à frente do arco; se for lento, o banho cobre a raiz ainda não fundida e esconde falta de fusão.