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UC · Unidade de Competência · UC04013

Sebenta · Assistir o médico dentista em prostodontia fixa (UC04013)

Avaliação e planeamento, impressões, etapas clínicas, cimentação, tecnologia digital e cuidados ao paciente
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Assistente Dentário ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara-te para uma das áreas mais técnicas do trabalho do/a Técnico/a Assistente Dentário: apoiar o médico dentista em prostodontia fixa, a reabilitação de dentes ausentes ou muito destruídos com próteses cimentadas, que o paciente não remove. É trabalho de precisão, feito quase sempre a quatro mãos, em que cada gesto do/a assistente influencia diretamente o resultado final entregue ao paciente.

O percurso segue a lógica do próprio tratamento: começamos por clarificar o que é a prostodontia fixa e os seus tipos, passamos pela avaliação e planeamento (anamnese, exame oral, meios auxiliares de diagnóstico), entramos no coração técnico da UC, a preparação de materiais, as impressões, o fio de retração e as etapas clínicas do tratamento, avançamos para a cimentação, o manuseamento de trabalhos protésicos e os avanços tecnológicos, e terminamos nos cuidados ao paciente, nos problemas mais comuns e na limpeza, higienização e segurança no trabalho.

Todo o conteúdo desta sebenta pressupõe um princípio que não se negoceia: o/a Técnico/a Assistente Dentário atua sempre sob orientação do médico dentista. Não diagnostica, não prescreve, não decide o tratamento e não executa atos clínicos (como preparar um dente, colocar o fio de retração no sulco ou cimentar uma prótese): esses atos são sempre do médico dentista. O seu valor está em coadjuvar com competência, preparar com rigor, manusear com segurança e comunicar com clareza.

Objetivos de aprendizagem (referencial): coadjuvar o médico dentista na reabilitação fixa e próteses; identificar as novas tecnologias aplicadas à prostodontia fixa; enunciar cuidados específicos aplicáveis às próteses fixas e os problemas associados; preparar materiais e equipamentos de acordo com as normas de boas práticas e segurança; coadjuvar durante o exame oral e os exames complementares de diagnóstico; manusear e acondicionar corretamente impressões e trabalhos protésicos; promover estratégias de educação para a saúde e higiene oral; manusear equipamentos, instrumentos e materiais com destreza e segurança; e garantir a limpeza e higienização de equipamentos, instrumentos, materiais e do consultório.

1. Prostodontia fixa: conceito, tipos e componentes

O que distingue a prostodontia fixa

A prostodontia (ou protesodontia) é a área da medicina dentária dedicada à reabilitação de dentes ausentes ou muito danificados, através de próteses. Divide-se em duas grandes famílias, conforme quem controla a remoção da peça:

A escolha entre uma e outra depende do número e da posição dos dentes ausentes, do estado dos dentes vizinhos, das expectativas do paciente e da avaliação clínica, sempre feita pelo médico dentista.

Objetivos da reabilitação fixa

Uma prótese fixa bem planeada devolve, em simultâneo, três dimensões que raramente se conseguem isolar uma da outra:

Tipos de reabilitação fixa

Tipo O que repõe Observação
Coroa unitária reveste um único dente muito destruído ou desvitalizado não substitui um dente ausente
Ponte fixa (prótese parcial fixa) um ou mais dentes ausentes apoia-se em dentes ou implantes vizinhos
Inlay / onlay / overlay parte da coroa de um dente restauração indireta, feita em laboratório ou por CAD-CAM, mais conservadora do que uma coroa completa; o inlay fica dentro das cúspides, o onlay cobre uma ou mais cúspides, o overlay cobre toda a face oclusal
Faceta a face vestibular (visível) de um dente lâmina fina, em regra de cerâmica, cimentada com técnica adesiva, sobretudo por razões estéticas
Prótese fixa sobre implantes coroa ou ponte cimentada ou aparafusada os pilares são implantes, não dentes naturais
Provisório protege temporariamente o dente preparado usado entre a preparação e a colocação da peça definitiva (ver capítulo 9)

Componentes de uma ponte fixa

Uma ponte fixa organiza-se sempre em torno de quatro componentes, cujo nome aparece em qualquer ficha de trabalho protésico ou conversa clínica:

Compreender estes componentes ajuda a interpretar qualquer prescrição do médico dentista e a antecipar o que o laboratório vai precisar de receber.

Materiais das próteses fixas

O material da prótese é escolhido pelo médico dentista, mas condiciona quase tudo o que o/a assistente prepara a seguir: o tipo de impressão, o cimento provisório, o cimento definitivo e os instrumentos de ajuste.

Material Características Uso típico
Metalocerâmica estrutura metálica revestida a cerâmica; resistente, com longo historial clínico; o metal pode tornar-se visível na margem se a gengiva retrair coroas e pontes, sobretudo em zonas posteriores
Zircónia cerâmica policristalina muito resistente; pode ser monolítica (uma só peça) ou revestida a cerâmica; fabricada por CAD-CAM coroas e pontes, incluindo posteriores e sobre implantes
Dissilicato de lítio cerâmica vítrea muito estética, translúcida, com boa resistência; aceita cimentação adesiva coroas unitárias, facetas, inlays e onlays, sobretudo anteriores e pré-molares
Resinas (acrílicas, bis-acrílicas, compósitas) menos resistentes, fáceis de ajustar e reparar provisórios; algumas restaurações indiretas

Duas ideias práticas: as cerâmicas vítreas (como o dissilicato de lítio) ganham resistência quando são cimentadas com técnica adesiva, o que exige isolamento cuidadoso do campo; a zircónia, por ser muito dura, ajusta-se com brocas ou pontas diamantadas próprias e polimento específico, que o/a assistente tem de ter no tabuleiro da prova.

2. Avaliação e planeamento: anamnese e exame oral

A anamnese

Antes de qualquer procedimento de prostodontia fixa, o médico dentista faz a anamnese, a recolha estruturada da história clínica do paciente. O/a assistente apoia a preparação da ficha, o registo e, muitas vezes, a organização da documentação anterior.

A anamnese cobre, tipicamente:

Tudo isto é registado na ficha clínica, de forma legível e completa, antes de se avançar para o exame. Uma anamnese incompleta não é um detalhe administrativo: uma alergia a metais não identificada pode condicionar a escolha do material da futura prótese, e uma medicação anticoagulante pode influenciar decisões sobre procedimentos com risco de hemorragia.

Exame oral

O exame oral, sempre conduzido pelo médico dentista, avalia o estado do paciente antes de planear a reabilitação. Divide-se em três planos:

O/a assistente coadjuva neste exame segurando espelho e sugador, mantendo o campo visível e seco, organizando os instrumentos por ordem de uso previsível, e registando o que o médico dentista dita.

Trabalho a quatro mãos no exame

O exame oral em prostodontia fixa é já uma introdução ao trabalho a quatro mãos que atravessa toda esta UC: o médico dentista foca-se na observação e na decisão clínica, enquanto o/a assistente gere o campo de trabalho, antecipa a próxima necessidade e mantém a comunicação clara, muitas vezes reduzida a gestos ou a palavras curtas.

As posições organizam-se pelas zonas de atividade, descritas como os ponteiros de um relógio com a cabeça do paciente nas 12 horas. Para um médico dentista destro:

Zona Horas O que acontece
Zona do operador das 7 às 12 onde o médico dentista se senta e se movimenta
Zona estática das 12 às 2 carrinhos e equipamento que não circulam entre as mãos
Zona do assistente das 2 às 4 onde o/a assistente se senta, com o sugador e a seringa ar/água
Zona de transferência das 4 às 7 por cima do peito do paciente, onde se passam instrumentos e materiais

Para um médico dentista esquerdino, as zonas espelham-se (operador das 12 às 5, assistente das 8 às 10, transferência das 5 às 8). Os instrumentos e os materiais nunca passam por cima da cara do paciente.

3. Meios auxiliares de diagnóstico

Porque não chega só o exame clínico

Nem tudo o que é preciso saber para planear uma reabilitação fixa é visível a olho nu. Por isso, o médico dentista recorre a meios auxiliares de diagnóstico, que complementam a informação recolhida na anamnese e no exame oral.

Exame Para que serve
Radiografia periapical avalia raiz, osso de suporte e espaço periodontal de um dente concreto
Ortopantomografia visão geral de toda a arcada, seios maxilares e articulação temporomandibular
Fotografias intraorais e extraorais documentam o estado inicial e apoiam a comunicação com o paciente e com o laboratório
Modelos de estudo reproduzem a arcada em gesso ou digitalmente, para análise fora da boca
Scanner intraoral modelo digital tridimensional da superfície dentária, sem material de impressão convencional

Cada exame responde a uma pergunta diferente. Uma ortopantomografia dá uma visão de conjunto, mas não substitui uma radiografia periapical quando é preciso avaliar em detalhe a raiz de um dente concreto. O scanner intraoral capta a forma da superfície visível, mas não substitui uma radiografia quando é preciso avaliar osso ou raiz.

O papel do assistente nos exames complementares

O rigor na preparação evita a necessidade de repetir exames, o que expõe desnecessariamente o paciente a radiação e atrasa o plano de tratamento.

Exemplo resolvido · organizar a documentação de um caso

Um paciente chega para planear uma coroa sobre um dente já tratado endodonticamente. Que documentação é necessária antes de o médico dentista decidir o plano?

  1. Anamnese atualizada, com atenção a alergias a metais e ao historial do tratamento endodôntico.
  2. Radiografia periapical recente do dente em causa, para avaliar a raiz e o osso de suporte.
  3. Fotografias intraorais, para documentar o estado atual e apoiar a escolha da cor.
  4. Modelo de estudo ou scanner intraoral, para analisar o espaço interoclusal disponível.

Com esta documentação reunida, o médico dentista tem a base necessária para decidir o tipo de coroa e o material mais adequado.

4. Coadjuvar o médico dentista

O que significa coadjuvar

Coadjuvar é apoiar ativamente o médico dentista durante todo o procedimento, antecipando necessidades sem nunca ultrapassar os limites da função. É uma das realizações centrais desta UC: coadjuvar o médico dentista na reabilitação fixa e próteses.

O trabalho organiza-se, quase sempre, a quatro mãos: o médico dentista concentra-se no procedimento clínico, enquanto o/a assistente gere o sugador, o espelho, a luz, a sequência de instrumentos e os materiais. Esta forma de trabalhar exige atenção constante, conhecimento da sequência clínica típica de cada procedimento, e comunicação clara, muitas vezes reduzida a gestos.

Coadjuvar bem tem impacto direto e mensurável: reduz o tempo de cadeira do paciente, reduz o cansaço de toda a equipa e reduz o risco de erro por confusão ou atraso na passagem de instrumentos.

Atitudes que sustentam a coadjuvação

O referencial desta UC nomeia atitudes específicas, e todas se tornam concretas no dia a dia da prostodontia fixa:

Onde termina a coadjuvação

Coadjuvar não é decidir. O/a Técnico/a Assistente Dentário nunca diagnostica, nunca prescreve, nunca decide o tipo de prótese ou o material, e nunca executa atos clínicos como preparar um dente, colocar o fio de retração no sulco, cimentar uma prótese ou ajustar a oclusão: prepara, instrumenta, aspira, afasta, regista e informa. A autonomia da função exerce-se sobre a execução de tarefas já definidas pelo médico dentista, nunca sobre a decisão clínica.

5. Preparar materiais e equipamentos

Preparar o tabuleiro de prostodontia fixa

Preparar os materiais e equipamentos, de acordo com as normas de boas práticas e segurança, é o primeiro critério de desempenho explícito desta UC. Um tabuleiro típico para uma sessão de preparação dentária e impressão inclui:

Cada item é preparado, verificado e organizado antes de o paciente se sentar na cadeira. Montar o tabuleiro "à medida que se vai precisando" é um erro comum que quebra o ritmo do procedimento e aumenta o risco de esquecimentos.

Verificação de equipamentos antes do procedimento

Preparar não é só reunir materiais: é confirmar que tudo está em condições de uso.

Um equipamento verificado à partida evita interrupções a meio de um procedimento, com o paciente já preparado e o médico dentista à espera.

6. Materiais de impressão em prostodontia fixa

Porque a impressão é uma etapa crítica

A impressão regista, com rigor tridimensional, a forma dos dentes preparados e dos tecidos vizinhos, informação que o laboratório usa para fabricar a prótese. Um erro nesta etapa propaga-se por todas as seguintes: uma preparação mal registada dá origem a uma prótese que não assenta corretamente, obrigando a repetir trabalho e a novas consultas.

Famílias de materiais de impressão

Material Características Uso típico
Alginato (hidrocoloide irreversível) económico, prático, menos preciso e menos estável ao longo do tempo modelos de estudo, não para prótese fixa definitiva
Silicone de condensação boa precisão, mas contrai com o tempo impressões que se vazam cedo
Silicone de adição (polivinilsiloxano, PVS) alta precisão e grande estabilidade dimensional referência para impressões definitivas de prostodontia fixa
Poliéter muito rígido, hidrófilo, capta detalhe mesmo com alguma humidade casos com controlo de humidade mais difícil

A escolha do material cabe sempre ao médico dentista, conforme o tipo de prótese, o número de elementos e as condições do campo clínico. O/a assistente conhece as características de cada família para preparar corretamente o material indicado e para antecipar os cuidados de manuseamento que cada um exige.

Técnicas de impressão

Cuidados de manipulação que estragam uma impressão

O papel do assistente na manipulação

O/a assistente prepara e manipula o material dentro do tempo de trabalho indicado pelo fabricante, e cronometra o tempo de presa. Estes dois tempos são propriedades do material, indicadas na bula ou na embalagem, e variam entre marcas e formulações: por isso não se inventam nem se estimam de memória, seguem sempre a indicação do fabricante para o material concreto em uso.

Exemplo resolvido · escolher o material de impressão

O médico dentista vai fazer uma coroa de dissilicato de lítio sobre um dente já preparado e pede ao/à assistente para preparar o material de impressão definitiva.

  1. Identificar o objetivo: impressão definitiva, para prótese fixa, com necessidade de alta precisão marginal.
  2. Excluir o alginato: não tem a estabilidade dimensional exigida para uma impressão definitiva.
  3. Selecionar silicone de adição (PVS), a referência para este tipo de caso, salvo indicação diferente do médico dentista.
  4. Preparar a moldeira e a pistola misturadora, confirmando pontas novas e cartucho dentro da validade.
  5. Manipular dentro do tempo de trabalho indicado na embalagem, e cronometrar o tempo de presa antes de remover a moldeira.

Seguir esta sequência reduz o risco de ter de repetir a impressão por distorção ou por presa incompleta.

7. Fio de retração gengival

Para que serve o afastamento gengival

Antes de uma impressão definitiva, é frequentemente necessário afastar temporariamente a gengiva do preparação dentária, para que o material de impressão consiga registar a margem com nitidez, sem interferência dos tecidos moles.

O afastamento gengival tem duas funções em simultâneo:

O fio é colocado pelo médico dentista; o/a assistente prepara o fio, corta-o no comprimento indicado, e apoia a manipulação, incluindo a cronometragem do tempo em que o fio permanece no sulco.

Técnicas de afastamento

Técnica Descrição
Fio único um fio impregnado colocado no sulco gengival, retirado imediatamente antes da impressão
Duplo fio um primeiro fio fica no fundo do sulco durante todo o procedimento; um segundo fio, mais fino, é colocado por cima e retirado apenas antes da impressão
Pasta retratora alternativa ao fio, aplicada com seringa, sem necessidade de compactação mecânica no sulco

A técnica de duplo fio é geralmente escolhida quando se prevê maior dificuldade em controlar a hemorragia ou o fluido sulcular, por exemplo em preparações mais profundas ou em gengivas mais reativas.

Agentes hemostáticos e cuidados na compactação

Os fios de retração podem vir impregnados com agentes hemostáticos, como sulfato de alumínio ou cloreto de alumínio, que ajudam a controlar pequenas hemorragias durante o procedimento. A escolha do fio, do agente e da técnica é sempre do médico dentista, de acordo com o caso clínico.

A compactação do fio no sulco é feita com um instrumento próprio, de forma suave e controlada: uma força excessiva pode lesar o periodonto de suporte, causando dor e, nalguns casos, recessão gengival a prazo. O/a assistente, quando apoia esta manipulação, mantém sempre o campo visível e seco para o médico dentista trabalhar com precisão.

8. Etapas clínicas do tratamento

Da primeira consulta à prova

O tratamento em prostodontia fixa segue uma sequência clínica com etapas bem definidas, e o/a assistente coadjuva em cada uma delas:

  1. Registo da cor, com escala de cor, antes da preparação e com os dentes ainda hidratados, e matriz de silicone para o futuro provisório.
  2. Preparação dentária: o médico dentista desgasta o dente pilar na forma e na dimensão necessárias para receber a futura coroa ou retentor.
  3. Afastamento gengival e impressão, convencional ou digital, com scanner intraoral, e registo oclusal, para reproduzir com fidelidade o encaixe entre as arcadas.
  4. Confeção do provisório, para proteger a preparação e manter função e estética até à peça definitiva estar pronta.
  5. Envio da informação ao laboratório: impressão física ou ficheiro digital, registos de cor e de oclusão, e a ficha de trabalho protésico completa.

Tomada de cor

A cor regista-se no início da consulta, antes de isolar ou preparar o dente: com o isolamento e a boca aberta, os dentes desidratam em poucos minutos e ficam mais claros e opacos, o que leva a escolher uma cor errada. Cuidados que o/a assistente garante:

Provisórios

O provisório protege a dentina exposta e a polpa, mantém a gengiva estável, evita que os dentes vizinhos e antagonistas se desloquem, e devolve estética e função enquanto a peça definitiva é fabricada. O método mais comum no consultório é a técnica da matriz:

  1. Antes da preparação, faz-se uma impressão de silicone (a matriz) do dente ainda intacto ou de um enceramento feito pelo laboratório.
  2. Depois da preparação, a matriz é carregada com resina bis-acrílica em cartucho de automistura e reposta na boca pelo médico dentista.
  3. Após a presa indicada pelo fabricante, retira-se, recorta-se, ajusta-se e pule-se o provisório, que é depois cimentado com cimento provisório.

O/a assistente prepara a matriz, o cartucho e as pontas, cronometra os tempos e tem prontos os instrumentos de acabamento e o cimento provisório. O ajuste e a cimentação do provisório na boca são do médico dentista.

Prova e ajuste final

Antes da cimentação definitiva, a estrutura ou a prótese devolvida pelo laboratório passa sempre por uma prova:

Só depois de aprovada na prova é que a prótese avança para a cimentação definitiva. Nunca se cimenta em definitivo sem prova prévia, mesmo sob pressão de tempo: um problema não detetado a tempo torna-se muito mais difícil, ou impossível, de corrigir depois de cimentado.

Exemplo resolvido · o percurso completo de uma coroa unitária

Um paciente vai reabilitar um dente tratado endodonticamente com uma coroa cerâmica. Descreve as etapas clínicas principais, da preparação à cimentação definitiva.

  1. Registo da cor com a escala de cor, antes da preparação, com o dente hidratado.
  2. Preparação dentária pelo médico dentista, reduzindo o dente na forma necessária para a coroa.
  3. Afastamento gengival com fio de retração, para expor a margem da preparação.
  4. Impressão definitiva com silicone de adição (ou digitalização com scanner intraoral), e registo oclusal.
  5. Confeção e cimentação do provisório, para proteger o dente até a coroa definitiva estar pronta.
  6. Envio ao laboratório, com a ficha de trabalho protésico completa.
  7. Prova da coroa definitiva, verificando ajuste marginal, proximal e oclusal.
  8. Cimentação definitiva, com o cimento escolhido conforme o material da coroa.

Cada etapa depende da anterior ter corrido bem: um erro na impressão (etapa 4) compromete diretamente o resultado da prova (etapa 7).

Particularidades de cada tipo de tratamento

A sequência base aplica-se a todos os tratamentos, mas cada tipo pede cuidados próprios ao/à assistente:

Tratamento O que muda na coadjuvação
Coroa unitária sequência base; atenção à matriz do provisório e ao cimento previsto para o material da coroa
Ponte fixa vários pilares preparados na mesma sessão; a impressão tem de registar todas as margens de uma vez; o provisório é também uma ponte; na prova verifica-se o assentamento simultâneo nos pilares e o espaço de higiene sob o pôntico
Inlay / onlay / overlay preparação mais conservadora, muitas vezes sem margem subgengival; cimentação adesiva, com isolamento absoluto (dique de borracha) frequente; kits de condicionamento do dente e da peça prontos
Facetas cor e fotografias com especial cuidado, porque o resultado é sobretudo estético; preparação mínima em esmalte; prova com pastas de prova (try-in) da cor do cimento; cimentação adesiva com cimento resinoso fotopolimerizável e isolamento rigoroso
Coroa ou ponte sobre implante não há preparação do dente: a impressão usa transferentes (pilares de impressão) aparafusados ao implante, ou scan bodies no fluxo digital; o laboratório recebe também o análogo do implante; a peça pode ser aparafusada (o médico dentista aperta o parafuso com a chave dinamométrica, no binário indicado pelo fabricante do implante) ou cimentada sobre um pilar

Em todos os casos, o/a assistente confirma com o médico dentista, antes de o paciente se sentar, que tipo de tratamento vai ser feito naquela sessão, porque o tabuleiro de uma faceta, de uma ponte ou de uma coroa sobre implante não é o mesmo.

9. Cimentação provisória e definitiva

Cimentação provisória

O provisório protege a preparação entre a consulta de impressão e a consulta de cimentação definitiva, e mantém função e estética durante esse período. É cimentado com cimentos temporários, pensados para permitirem remoção fácil e sem esforço na consulta seguinte.

Estes cimentos são frequentemente à base de óxido de zinco, com ou sem eugenol, conforme a indicação do médico dentista. Esta escolha não é indiferente: o eugenol pode interferir na presa de alguns cimentos resinosos definitivos, por isso o cimento provisório escolhe-se sempre a pensar no cimento definitivo previsto para a etapa seguinte.

O/a assistente prepara o cimento provisório na proporção e no tempo indicados pelo fabricante, aplica-o no interior do provisório quando o médico dentista o pede, e tem prontos a sonda, o fio dentário e o sugador para a remoção dos excessos, que o médico dentista faz no momento indicado pelo fabricante. Deixar excesso de cimento no sulco gengival é um erro comum, que pode provocar inflamação até à consulta seguinte.

Cimentação definitiva

A cimentação definitiva fixa a prótese de forma permanente. O cimento escolhido depende do material da prótese e do tipo de preparação:

Cimento Uso típico
Fosfato de zinco cimentação convencional, com longo historial clínico
Ionómero de vidro / ionómero de vidro modificado por resina adesão química à estrutura dentária e libertação de flúor; muito usados em metalocerâmica e em zircónia
Cimento resinoso adesivo (com sistema adesivo) maior resistência e adesão; indispensável em cerâmicas vítreas finas, como facetas, inlays e onlays, e a opção habitual no dissilicato de lítio
Cimento resinoso autoadesivo adere sem aplicação separada de adesivo no dente; muito usado em zircónia e em metalocerâmica

A zircónia, ao contrário do dissilicato de lítio, não precisa obrigatoriamente de cimento resinoso: pode ser cimentada com ionómero modificado por resina ou com cimento resinoso autoadesivo, conforme a retenção da preparação e a decisão do médico dentista. O tratamento da superfície interna também difere (o dissilicato é condicionado com ácido fluorídrico e silano; a zircónia não reage ao ácido fluorídrico e recebe jateamento e um primer próprio), e o/a assistente tem de saber qual dos kits preparar.

O/a assistente prepara o cimento, apoia o isolamento do campo (afastar saliva e humidade, especialmente crítico com cimentos resinosos), aspira, e passa ao médico dentista a sonda, o fio dentário e as gazes para a remoção dos excessos, no momento indicado pelo fabricante (muitas vezes numa fase em gel, antes da presa completa). No fim, o médico dentista confirma a oclusão com papel articular, que o/a assistente prepara na pinça de Miller, e ajusta os contactos que o papel marcar em excesso.

10. Manuseamento e envio de trabalhos protésicos

Cuidados com impressões e modelos

Manusear e acondicionar corretamente as impressões e os trabalhos protésicos é um critério de desempenho explícito desta UC, e um dos pontos onde um pequeno descuido tem maior impacto no resultado final.

Uma impressão bem cuidada, mas mal identificada, pode ser trocada com a de outro paciente, um erro grave e inteiramente evitável com um simples cuidado de rotulagem.

A ficha de trabalho protésico

A ficha de trabalho protésico acompanha sempre a impressão física, ou o ficheiro digital, enviado ao laboratório, e contém a prescrição do médico dentista para aquele caso concreto.

Campos típicos de uma ficha de trabalho protésico: identificação do paciente e do médico dentista, dente ou dentes a reabilitar, tipo de prótese, material pretendido, cor selecionada, prazo de entrega e instruções específicas para o técnico de prótese.

Há também uma razão legal para esta ficha. Uma coroa, uma ponte ou uma faceta feita para um paciente concreto é um dispositivo médico feito por medida, ao abrigo do Regulamento (UE) 2017/745, relativo aos dispositivos médicos, aplicado em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 29/2024, com o INFARMED como autoridade competente. Um dispositivo feito por medida só pode ser fabricado a partir de uma prescrição escrita de um profissional autorizado, que aqui é o médico dentista; o laboratório, como fabricante, emite a respetiva declaração para esse dispositivo. A ficha de trabalho protésico, assinada pelo médico dentista, é essa prescrição, e a declaração do laboratório que acompanha o trabalho é arquivada com o processo do paciente, conforme o procedimento da clínica.

Na receção do trabalho já pronto, confere-se: se corresponde ao que foi pedido, se não tem danos, e se a cor e o acabamento correspondem ao esperado. Qualquer desconformidade regista-se e comunica-se ao médico dentista antes da prova no paciente, para não se perder tempo de consulta com um problema já identificável antes de o paciente se sentar na cadeira.

O envio digital, feito a partir de um scanner intraoral, elimina a etapa da impressão física e da respetiva desinfeção e acondicionamento, mas a ficha de trabalho protésico mantém-se sempre obrigatória, seja qual for o formato do envio.

11. Avanços tecnológicos: scanners e CAD-CAM

O fluxo digital em prostodontia fixa

Identificar as novas tecnologias aplicadas à prostodontia fixa é uma das realizações desta UC. O fluxo digital está a substituir, cada vez mais, algumas das etapas tradicionais em cera e gesso, sem no entanto tornar obsoletas as técnicas convencionais descritas nos capítulos anteriores.

CAD e CAM são duas fases distintas do mesmo processo, desenho e fabrico, e nem todo o fluxo CAD termina necessariamente em fresagem: também há materiais e casos resolvidos por impressão 3D.

Vantagens e limites da tecnologia digital

O fluxo digital traz vantagens claras, mas também limites que o/a assistente deve conhecer para acompanhar as escolhas do médico dentista:

O papel do/a assistente inclui acompanhar estes avanços tecnológicos, saber operá-los quando fazem parte do equipamento da unidade, sem nunca substituir a decisão clínica sobre quando e como usá-los.

12. Higiene e educação para a saúde oral

Cuidados de higiene com próteses fixas

Promover as estratégias de educação para a saúde e higiene oral durante o uso de próteses fixas é um critério de desempenho central desta UC. Uma prótese fixa não dispensa os cuidados de higiene habituais, exige até mais atenção nalgumas zonas específicas.

O papel do assistente na educação do paciente

Instruir o paciente sobre estes cuidados é, muitas vezes, tarefa do/a assistente, sob orientação do médico dentista:

Um paciente bem instruído prolonga de forma significativa a vida útil da sua prótese fixa, e reduz o número de intercorrências entre consultas.

13. Problemas com próteses fixas e resolução

Problemas frequentes

Enunciar cuidados específicos e os problemas associados às próteses fixas é outra realização explícita desta UC. Reconhecer estes sinais cedo permite ao/à assistente notificar rapidamente o médico dentista, antes de o problema se agravar.

Problema Sinal típico
Descimentação a prótese solta-se, parcial ou totalmente, do dente pilar
Fratura de cerâmica (chipping) lasca, fenda ou destacamento visível na superfície da prótese
Sensibilidade pós-operatória dor ao frio, ao quente ou à mastigação, mais frequente nos primeiros dias após a cimentação
Inflamação gengival na margem gengiva vermelha, inchada e por vezes sangrante junto à prótese
Cárie secundária na margem descoloração ou cavidade visível junto ao bordo da prótese
Impacção alimentar comida presa entre a prótese e o dente vizinho, sinal de contacto proximal aberto
Interferência oclusal "a coroa está alta", dor ao morder, desconforto na articulação ou desgaste do antagonista
Parafuso solto (prótese sobre implante aparafusada) prótese com mobilidade ou ruído ao mastigar, sem dor
Inflamação à volta do implante gengiva vermelha, sangramento ou supuração junto a um implante, que o médico dentista avalia como possível mucosite ou peri-implantite

O papel do assistente perante um problema

O valor do/a assistente perante estes problemas está sobretudo na deteção precoce e na comunicação clara, nunca na resolução técnica ou na decisão sobre a causa:

Um exemplo comum: um paciente liga a dizer que "a coroa caiu". Antes de marcar a consulta, o/a assistente regista os detalhes relatados (quando aconteceu, se há dor, se guardou a peça) e agenda com prioridade, sem dar qualquer indicação clínica ao telefone sobre o que o paciente deve fazer à peça ou ao dente.

14. Limpeza, higienização e segurança no trabalho

Limpeza e higienização do consultório e do instrumental

Garantir a limpeza e higienização dos equipamentos, instrumentos, materiais e do próprio consultório é o último critério de desempenho explícito desta UC, e aplica-se a toda a prostodontia fixa, da preparação do tabuleiro ao envio de um trabalho protésico.

Normas de higiene e segurança no trabalho

Estas normas não são exclusivas da prostodontia fixa, mas aplicam-se a cada um dos procedimentos descritos nesta sebenta:

Os resíduos hospitalares separam-se nos quatro grupos do Despacho n.º 242/96: grupos I e II (equiparados a urbanos, sem risco biológico), grupo III (risco biológico) e grupo IV (específicos, incluindo todos os cortoperfurantes, que vão para o contentor rígido). Um fio de retração usado ou uma moldeira descartável com vestígios de sangue seguem para o grupo III, mesmo não sendo objetos cortantes ou perfurantes: o critério de destino do resíduo não é a forma do objeto, é o risco biológico que representa. Já uma moldeira metálica reutilizável não é resíduo: limpa-se do material de impressão e segue o circuito de esterilização.

O respeito por estas normas protege, em simultâneo, o paciente, toda a equipa clínica e o próprio/a Técnico/a Assistente Dentário.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A prostodontia fixa organiza-se numa sequência que atravessa toda esta sebenta: avaliar e planear (anamnese, exame oral, meios auxiliares de diagnóstico) antes de qualquer decisão de tratamento; preparar materiais e equipamentos com rigor; registar a preparação através de impressões de qualidade, apoiadas quando necessário em fio de retração gengival; percorrer as etapas clínicas da preparação à prova; cimentar, primeiro em provisório, depois em definitivo, com o cimento certo para cada material; manusear e enviar impressões e trabalhos protésicos sem erros de identificação ou de comunicação; acompanhar os avanços tecnológicos do fluxo digital, sem substituir a decisão clínica; e fechar o ciclo com educação do paciente, reconhecimento precoce de problemas e limpeza, higienização e segurança no trabalho. Em todas estas etapas, o/a Técnico/a Assistente Dentário coadjuva com competência, comunica com clareza e nunca ultrapassa os limites da sua função.

Exercícios resolvidos

1. Distingue prostodontia fixa de prostodontia removível, e dá um exemplo de cada.

Resolução: na prostodontia fixa, a prótese é cimentada e só o médico dentista a remove (por exemplo, uma coroa unitária ou uma ponte fixa); na prostodontia removível, o paciente coloca e retira a prótese para higienizar (por exemplo, uma prótese parcial removível com ganchos).

2. Identifica, numa ponte fixa de três elementos que substitui um incisivo lateral ausente, o pilar, o retentor, o pôntico e o conector.

Resolução: os pilares são os dois dentes vizinhos preparados (o incisivo central e o canino); os retentores são as coroas cimentadas sobre esses dois pilares; o pôntico é o elemento do meio, que substitui o incisivo lateral ausente, sem apoio direto no osso; os conectores são as zonas de união entre cada retentor e o pôntico.

3. Porque razão não se usa alginato para uma impressão definitiva de uma coroa cerâmica?

Resolução: o alginato é um material menos preciso e com pior estabilidade dimensional ao longo do tempo, adequado sobretudo a modelos de estudo. Uma impressão definitiva exige alta precisão marginal, garantida por materiais como o silicone de adição (PVS), escolhido pelo médico dentista para este tipo de caso.

4. Um colega retira a moldeira de impressão assim que "acha que já deu tempo". O que está errado, e o que deveria fazer?

Resolução: está errado por não respeitar o tempo de presa indicado pelo fabricante, que é uma propriedade específica de cada material e não se estima a olho. Deveria cronometrar o tempo exato indicado na embalagem ou na bula, e só depois remover a moldeira, para evitar distorções na impressão.

5. Que cuidado deve ter na escolha de um cimento provisório, a pensar na cimentação definitiva seguinte?

Resolução: deve ter em conta se o cimento provisório contém eugenol, porque este pode interferir na presa de alguns cimentos resinosos definitivos. A escolha entre um provisório com ou sem eugenol faz-se sempre a pensar no cimento definitivo previsto para a etapa seguinte, por indicação do médico dentista.

6. Um paciente relata que a prótese "sabe estranho e está a soltar-se um pouco". O que faz o/a assistente?

Resolução: regista com objetividade o que o paciente relatou (quando começou, se há dor, se há mobilidade percetível), comunica de imediato ao médico dentista, e prepara o material que provavelmente vai ser necessário para reavaliar o caso, sem decidir sozinho sobre a causa (por exemplo, descimentação) nem sobre a solução.

7. Explica a diferença entre CAD e CAM no fluxo digital de prostodontia fixa.

Resolução: o CAD (desenho assistido por computador) é a fase em que o técnico de prótese desenha a peça sobre o modelo digital captado pelo scanner intraoral; o CAM (fabrico assistido por computador) é a fase seguinte, em que a peça desenhada é fabricada, por fresagem de um bloco ou por impressão 3D, conforme o material.

8. Que instrução específica deve dar a um paciente com uma ponte fixa, para além da escovagem normal?

Resolução: deve instruir o paciente a usar fio dentário com passador (superfloss) para limpar por baixo do pôntico, a zona onde a prótese assenta sobre a gengiva e onde a escova normal não chega, além de reforçar a importância das consultas de manutenção regulares.

9. Um fio de retração usado, com vestígios de sangue, para onde deve ser encaminhado, e porquê?

Resolução: deve ser encaminhado para os resíduos de risco biológico, mesmo não sendo um objeto cortante nem perfurante. O critério para o destino do resíduo é o risco biológico que representa, não a forma física do objeto.

10. Qual a diferença prática entre a técnica de impressão de um só passo e a de dois passos, e quando o/a assistente precisa de estar mais atento aos tempos do fabricante?

Resolução: na técnica de um só passo, aplicam-se em simultâneo duas viscosidades de material, uma seringa fina sobre a preparação e uma viscosidade mais espessa na moldeira; na de dois passos, faz-se primeiro uma impressão prévia mais espessa (putty) e só depois uma camada fina (wash) sobre a preparação, com a moldeira reposicionada. Em ambas, mas sobretudo na de dois passos, o/a assistente tem de gerir dois tempos de trabalho e dois tempos de presa distintos, sem os confundir, porque cada camada de material pode ter uma formulação e uma cinética de presa diferentes.

11. Porque razão a escolha entre impressão convencional e digitalização com scanner intraoral não é apenas uma questão de preferência ou de moda?

Resolução: porque cada abordagem tem indicações e limites próprios. O scanner intraoral traz mais conforto e menos distorção em muitos casos, mas depende de o consultório ter o equipamento e a formação necessários, e pode ser mais difícil de aplicar em situações como margens muito subgengivais ou pacientes com dificuldade em manter a boca aberta e seca durante a captura. A impressão convencional continua atual e válida, e a escolha entre uma e outra é sempre uma decisão clínica do médico dentista, feita caso a caso.