Sebenta · Assistir o médico dentista em prostodontia removível (UC04012)
- Introdução
- 1. O papel do/a técnico/a assistente dentário em prostodontia removível
- 2. Anatomia da boca desdentada relevante para a prótese
- 3. Classificação das próteses removíveis
- Prótese total vs prótese parcial removível
- Base acrílica vs esqueleto metálico
- Exemplo resolvido · escolher os materiais certos consoante o tipo de prótese
- Classificação de Kennedy
- Regras de Applegate
- Exemplo resolvido · classificar uma arcada
- Componentes da prótese parcial esquelética
- Sequência clínica e laboratorial da PPR esquelética
- Sobredentaduras
- 4. Consulta inicial, anamnese e plano de tratamento
- 5. Impressões primárias
- 6. Moldeira individual e impressões definitivas
- 7. Registo da relação intermaxilar e montagem em articulador
- 8. Prova em cera e prova estética
- 9. Vazamento e preparação de modelos
- 10. Inclusão e processamento da resina
- 11. Desinclusão, acabamento e polimento
- 12. Entrega, ajustes e revisões
- 13. Instruções ao utente, manutenção e rebasamento
- 14. Normas de higiene e segurança em prostodontia removível
- 15. Comunicação com o laboratório de prótese
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara-te para coadjuvar o médico dentista em todo o percurso de uma prótese removível: desde a anamnese e o plano de tratamento, passando pelas impressões, pelo registo da relação entre as arcadas, pela montagem e prova dos dentes, pelas etapas laboratoriais em gesso, cera e resina, até à entrega da prótese e à sua manutenção ao longo do tempo. É uma das UC mais completas do curso, porque atravessa o consultório e o laboratório na mesma linha de trabalho.
O fio condutor de toda a matéria é o mesmo do referencial: preparar equipamentos, instrumentos e materiais com rigor, coadjuvar o médico dentista nas etapas clínicas, cumprir as normas de higiene e segurança, e reportar sempre que algo sai do esperado. O/a técnico/a assistente dentário nunca diagnostica, nunca prescreve e nunca executa atos clínicos invasivos: o seu valor está na preparação cuidada de cada etapa, que permite ao médico dentista trabalhar com precisão e sem interrupções.
Objetivos de aprendizagem (referencial): executar a preparação dos equipamentos, instrumentos e materiais necessários aos diferentes tratamentos de prostodontia removível; coadjuvar o médico dentista/estomatologista nos diferentes tratamentos; identificar os equipamentos, instrumentos e materiais utilizados; aplicar as normas de higiene e segurança no trabalho.
1. O papel do/a técnico/a assistente dentário em prostodontia removível
A prostodontia removível é a área da medicina dentária que reabilita utentes que perderam alguns ou todos os dentes, através de uma prótese que o próprio utente coloca e retira. Repõe três funções essenciais:
- A função mastigatória, permitindo comer com conforto e eficiência.
- A fonética, já que vários sons da fala dependem do contacto entre a língua, o palato e os dentes.
- A estética e o suporte dos tecidos moles da face, evitando o colapso do terço inferior que acontece com a perda prolongada de dentes.
A perda dentária tem causas diversas: cárie avançada, doença periodontal, traumatismo ou extrações programadas no âmbito de um plano de tratamento mais amplo. Seja qual for a causa, a reabilitação com prótese removível é uma decisão clínica do médico dentista, nunca do/a assistente.
Limites de intervenção do/a técnico/a assistente dentário
O/a técnico/a assistente atua sob orientação e supervisão do médico dentista, dentro de limites claros:
| Compete ao/à técnico/a assistente dentário | Não lhe compete |
|---|---|
| preparar equipamentos, instrumentos e materiais para cada etapa | diagnosticar ou decidir o tipo de prótese a realizar |
| coadjuvar o médico dentista nas etapas clínicas e laboratoriais | executar atos clínicos invasivos (moldar, ajustar oclusão, sozinho/a) |
| manusear equipamentos, instrumentos e materiais com destreza e segurança | prescrever tratamentos ou alterar o plano definido |
| garantir a limpeza e a higienização de equipamentos, instrumentos e do consultório | decidir sozinho/a perante uma queixa clínica do utente |
| reportar dúvidas, queixas e situações fora do esperado | avançar opiniões clínicas ao utente |
Reportar é uma aptidão central deste papel: uma queixa de dor, uma prótese que não assenta como esperado, ou uma dúvida do utente comunicam-se sempre ao médico dentista, com a informação essencial (o quê, quando, em que circunstância).
Atitudes esperadas
O referencial desta UC destaca atitudes que se aplicam em todas as etapas seguintes: responsabilidade, autonomia dentro das próprias funções, sentido crítico, sentido de organização, assertividade, escuta ativa, respeito pelas diferenças individuais, cooperação com a equipa e respeito pelas normas de higiene, segurança e regras definidas. Estas atitudes não são "extras": são avaliadas em cada etapa clínica e laboratorial descrita nesta sebenta.
2. Anatomia da boca desdentada relevante para a prótese
Depois da perda dentária, a prótese assenta sobre estruturas que antes suportavam os dentes naturais. Conhecer estas estruturas ajuda o/a assistente a preparar corretamente cada etapa e a compreender o vocabulário usado pelo médico dentista e pelo laboratório.
Estruturas de suporte
| Estrutura | Localização e relevância |
|---|---|
| Rebordo alveolar (crista óssea) | osso remanescente após a extração; a sua forma e altura condicionam a retenção e a estabilidade da prótese |
| Mucosa mastigatória | reveste o rebordo e o palato duro; suporta a pressão da prótese durante a mastigação |
| Palato duro | base de apoio da prótese total superior, tecido fixo sobre osso |
| Palato mole | zona móvel, posterior ao palato duro; relevante para o selamento posterior da prótese total superior |
| Tuberosidades maxilares | relevos ósseos na extremidade posterior do rebordo superior, de cada lado; a prótese superior cobre-as |
| Papila incisiva | relevo de tecido mole atrás dos incisivos superiores, ponto de referência anatómica |
| Papila piriforme (almofada retromolar) | tecido mole em forma de pera atrás do último molar inferior, sobre o trígono retromolar; a base da prótese total inferior termina sobre ela, cobrindo pelo menos a sua parte da frente |
| Freios labiais, jugais e lingual | pregas de mucosa que ligam o lábio, a bochecha e a língua ao rebordo; têm de ficar livres do bordo da prótese |
Reabsorção óssea
Depois da perda de um dente, o osso à sua volta reabsorve progressivamente, sobretudo nos primeiros meses após a extração, e continua de forma mais lenta ao longo dos anos. Esta reabsorção é, na generalidade dos casos, mais acentuada na mandíbula do que no maxilar superior. As suas consequências práticas:
- Reduz a altura e a largura do rebordo, diminuindo a área de apoio disponível para a prótese.
- Explica por que uma prótese antiga, feita para um rebordo que já não existe na mesma forma, deixa de assentar bem.
- Justifica a necessidade de consultas de controlo periódicas, mesmo sem queixas, e por vezes de rebasamento (ver capítulo 13).
Exemplo resolvido · identificar estruturas num modelo de estudo
Um modelo de estudo de uma arcada superior desdentada chega ao consultório. O médico dentista pede ao/à assistente para identificar, sem interferir, três estruturas relevantes antes da confeção da moldeira individual.
- Tuberosidades maxilares: relevos na zona posterior, que a moldeira e a prótese têm de cobrir sem comprimir em excesso.
- Papila incisiva: relevo na linha média, atrás da futura posição dos incisivos, serve de referência para a montagem dos dentes.
- Freios labial e jugais: pregas de mucosa visíveis quando se traciona o lábio ou a bochecha; o bordo da moldeira e da prótese têm de ficar aquém destas pregas.
Identificar estas estruturas no modelo, sem alterar nada, permite ao/à assistente compreender porque o laboratório desenha a moldeira individual daquela forma específica.
3. Classificação das próteses removíveis
Prótese total vs prótese parcial removível
| Tipo | Quando se usa | Apoio principal |
|---|---|---|
| Prótese total (PT) | ausência de todos os dentes de uma arcada | tecidos moles e osso (suporte mucoso) |
| Prótese parcial removível (PPR) | ausência de alguns dentes, com dentes remanescentes | dentes remanescentes (ganchos/grampos) e/ou mucosa |
A prótese total depende sobretudo da adaptação íntima da base à mucosa, do selamento periférico dos bordos (o chamado "efeito de ventosa") e da anatomia do rebordo para se manter estável. A prótese parcial removível pode ser dento-suportada, muco-suportada ou dento-muco-suportada, conforme o desenho definido pelo médico dentista de acordo com os dentes remanescentes e o estado do rebordo nas zonas desdentadas.
Base acrílica vs esqueleto metálico
| Característica | Prótese acrílica (resina) | Prótese esquelética (metálica) |
|---|---|---|
| Estrutura | resina acrílica em toda a base | esqueleto em liga metálica, frequentemente crómio-cobalto, com resina nos dentes |
| Espessura | mais espessa | mais fina e rígida |
| Retenção | ganchos em resina ou arame | ganchos metálicos fundidos, mais precisos |
| Indicação típica | próteses totais e soluções mais simples ou provisórias | próteses parciais de uso mais prolongado |
| Etapa laboratorial adicional | nenhuma além do habitual | paralelometria e fundição da estrutura metálica |
A escolha entre estas soluções é sempre clínica, decidida pelo médico dentista em função do caso, do estado dos dentes remanescentes, do orçamento e das preferências do utente. O papel do/a assistente é preparar os materiais certos consoante o tipo de prótese em curso, nunca sugerir ou decidir essa escolha.
Exemplo resolvido · escolher os materiais certos consoante o tipo de prótese
O médico dentista indica que vai iniciar uma PPR esquelética para um utente com dentes remanescentes nos dois lados posteriores da arcada inferior. Que preparação distingue este caso de uma prótese total?
- Vai ser necessário reservar tempo e material para a paralelometria dos modelos, uma etapa que a prótese total não tem.
- Os ganchos metálicos vão desenhar-se sobre os dentes remanescentes; o/a assistente confirma que esses dentes estão bem representados e identificados no modelo.
- A etapa laboratorial inclui fundição da estrutura metálica antes da montagem dos dentes em resina, pelo que os prazos com o laboratório costumam ser mais longos.
Perceber estas diferenças evita atrasos e permite ao/à assistente informar corretamente sobre prazos, dentro do que lhe compete.
Classificação de Kennedy
Para falar da mesma arcada parcialmente desdentada sem ambiguidade, o médico dentista, o/a assistente e o laboratório usam a classificação de Kennedy, que agrupa as arcadas pela posição das zonas desdentadas (as "selas") em relação aos dentes remanescentes:
| Classe | Situação | Suporte típico da PPR |
|---|---|---|
| Classe I | zonas desdentadas posteriores bilaterais, sem dentes atrás delas (extremos livres dos dois lados) | dento-muco-suportada |
| Classe II | zona desdentada posterior unilateral, sem dentes atrás dela (extremo livre de um só lado) | dento-muco-suportada |
| Classe III | zona desdentada unilateral intercalada, com dentes à frente e atrás | dento-suportada |
| Classe IV | zona desdentada anterior única, que cruza a linha média, com dentes remanescentes atrás dela | variável, conforme a extensão |
Chama-se extremo livre a uma sela sem dente pilar na parte de trás: nas classes I e II a prótese apoia-se nos dentes à frente e na mucosa atrás, por isso tende a afundar ligeiramente durante a mastigação e precisa de um desenho que o compense.
As zonas desdentadas que existem além da que define a classe chamam-se modificações, e numeram-se: por exemplo, "Classe II, modificação 1" é uma arcada com um extremo livre de um lado e mais um espaço intercalado.
Regras de Applegate
Para que a classificação seja aplicada sempre da mesma forma, usam-se as regras de Applegate:
- A classificação faz-se depois das extrações previstas no plano de tratamento, porque estas podem mudar a classe.
- Se falta um terceiro molar que não vai ser substituído, essa ausência não conta para a classificação.
- Se o terceiro molar está presente e vai servir de pilar, conta para a classificação.
- Se falta um segundo molar que não vai ser substituído, também não conta.
- A zona desdentada mais posterior determina sempre a classe.
- As outras zonas desdentadas são modificações, designadas pelo seu número.
- Conta-se apenas o número de modificações, não a sua extensão.
- A classe IV não tem modificações: se houver outra zona desdentada mais atrás, é essa que determina a classe.
Exemplo resolvido · classificar uma arcada
Uma arcada inferior perdeu 34, 35, 36, 37 e 46, 47. Os terceiros molares já não existem e não vão ser substituídos; todos os outros dentes estão presentes.
- Do lado esquerdo, depois do 33 não há dentes: é um extremo livre.
- Do lado direito, depois do 45 também não há dentes: segundo extremo livre.
- Dois extremos livres posteriores, um de cada lado: Classe I de Kennedy, sem modificações.
Se, na mesma arcada, também faltasse o 42, essa zona anterior seria uma modificação: "Classe I, modificação 1". O/a assistente não classifica o caso por decisão própria, mas tem de perceber a designação que o médico dentista escreve na ficha, para preparar o material e comunicar com o laboratório.
Componentes da prótese parcial esquelética
A prótese esquelética é uma peça única fundida em liga de crómio-cobalto, à qual se acrescentam as bases em resina e os dentes artificiais. Os nomes dos componentes aparecem na ficha de trabalho e nas conversas com o laboratório:
| Componente | O que é | Exemplos |
|---|---|---|
| Conector maior | peça rígida que une as partes da prótese de um lado ao outro da arcada | barra ou placa palatina (superior); barra ou placa lingual (inferior) |
| Conectores menores | ligam o conector maior aos apoios, aos ganchos e às bases | pequenas hastes metálicas junto aos dentes pilares |
| Apoios | pequenas extensões metálicas que assentam em nichos preparados nos dentes e transmitem a carga ao dente, impedindo a prótese de afundar | apoios oclusais (pré-molares e molares), apoios de cíngulo (caninos) |
| Retentores diretos | seguram a prótese contra a saída | ganchos (grampos) com braço retentivo e braço recíproco |
| Retentores indiretos | impedem que a prótese rode e se levante nos extremos livres | apoios colocados do outro lado da linha de fulcro, o mais longe possível da sela em extremo livre |
| Bases (selas) | zonas em resina sobre o rebordo desdentado, onde se fixam os dentes | selas intercalares ou em extremo livre |
| Dentes artificiais | substituem os dentes em falta | dentes de resina de série |
Os nichos para os apoios e os planos-guia (pequenas superfícies paralelas nos dentes pilares, que orientam a inserção) são preparados pelo médico dentista na preparação da boca, antes da moldagem definitiva. O/a assistente prepara as brocas e o material pedidos, aspira e afasta, mas não intervém no desenho.
Sequência clínica e laboratorial da PPR esquelética
A PPR esquelética segue um percurso próprio, com uma prova a mais do que a prótese acrílica:
- Moldagens preliminares com alginato e modelos de estudo.
- Estudo dos modelos no paralelómetro e desenho da estrutura, pelo médico dentista em articulação com o laboratório.
- Preparação da boca (nichos, planos-guia) pelo médico dentista.
- Moldagem definitiva e modelo de trabalho em gesso de alta resistência.
- Fundição da estrutura metálica no laboratório.
- Prova da estrutura metálica em boca: o médico dentista verifica o assentamento dos apoios, a adaptação dos ganchos e a ausência de báscula.
- Registo intermaxilar sobre a própria estrutura, quando necessário, e prova dos dentes em cera.
- Acabamento em resina, entrega e controlos.
Na prova da estrutura, o/a assistente prepara espelho, sonda, papel de articular, silicone fluido ou pasta indicadora para detetar zonas de pressão, e as pontas de ajuste para metal indicadas pelo médico dentista.
Sobredentaduras
A sobredentadura é uma prótese total (ou quase total) removível que assenta sobre a mucosa e sobre raízes naturais conservadas (com tratamento endodôntico) ou implantes. Estes pilares aumentam a retenção e a estabilidade, sobretudo na mandíbula, e ajudam a travar a reabsorção do osso à volta.
- A ligação à prótese faz-se por sistemas de retenção (por exemplo, esferas, barras ou retentores com cápsulas), cujas peças de desgaste se substituem periodicamente.
- Em sobredentaduras sobre implantes, a preparação inclui os componentes protéticos e as chaves do sistema indicado pelo médico dentista, sem trocar marcas nem medidas.
- A higiene é mais exigente: o utente tem de limpar a prótese e os pilares na boca, com escova e, se indicado, escovilhões ou fio próprio.
O/a assistente prepara os componentes, controla o seu registo (marca, referência, lote quando existe) e reforça as instruções de higiene dos pilares definidas pelo médico dentista.
4. Consulta inicial, anamnese e plano de tratamento
Anamnese e exame clínico
Antes de qualquer prótese, o médico dentista realiza a anamnese (história clínica) e o exame clínico completo:
- Anamnese: motivo da consulta, história médica e dentária, medicação em curso, hábitos relevantes (por exemplo, bruxismo).
- Exame extraoral: face, articulação temporomandibular, tónus muscular.
- Exame intraoral: estado da mucosa, forma dos rebordos, dentes remanescentes, nível de higiene oral.
- Registo fotográfico e no processo clínico, conforme o protocolo da clínica.
O/a assistente prepara a ficha clínica, o material de exame (espelho, sonda, luvas, compressas) e o espaço de trabalho, e regista o que lhe for pedido pelo médico dentista. Em nenhum momento interpreta os achados clínicos nem avança um diagnóstico ao utente.
Comunicar o plano de tratamento
Depois de definido o plano de tratamento, o médico dentista explica-o ao utente. O/a assistente apoia esta fase de várias formas:
- Prepara material informativo ou modelos de demonstração, quando existentes na clínica.
- Usa escuta ativa para perceber dúvidas ou receios do utente, sinalizando-os ao médico dentista.
- Mantém uma comunicação clara e calorosa, sem prometer resultados ou prazos que não lhe compete confirmar.
- Regista as próximas consultas e o que o utente precisa de trazer ou preparar (por exemplo, a prótese antiga, a lista da medicação atual ou exames pedidos pelo médico dentista).
Exemplo resolvido · encaminhar uma dúvida clínica
Durante a preparação da consulta, o utente pergunta ao/à assistente: "esta prótese vai doer muito nos primeiros dias?" Como responder de forma assertiva e dentro dos limites da função?
- Acolher a pergunta com escuta ativa, sem a ignorar nem a menorizar: "é uma dúvida muito comum, vou já sinalizar ao doutor/à doutora para lhe explicar com mais detalhe."
- Não avançar uma resposta clínica própria, mesmo que pareça óbvia por experiência de outros casos.
- Reportar a pergunta ao médico dentista antes ou durante a consulta, para que seja ele/ela a esclarecer o utente.
Esta forma de responder respeita simultaneamente o utente (que não fica sem resposta) e os limites de intervenção do/a assistente.
5. Impressões primárias
Moldeiras de série
As impressões primárias (ou de estudo) usam moldeiras de série (stock trays), moldeiras pré-fabricadas em várias formas e tamanhos:
- Existem moldeiras específicas para arcada superior e inferior, dentadas, parcialmente dentadas e desdentadas.
- A escolha do tamanho certo cabe ao médico dentista, mas o/a assistente prepara e disponibiliza as várias opções antes da consulta.
- Uma moldeira mal escolhida, pequena ou grande de mais, compromete a impressão: falta o registo de estruturas relevantes ou causa desconforto ao utente.
Manter as moldeiras organizadas por tamanho e por arcada, limpas e desinfetadas entre utilizações, poupa tempo e evita interrupções a meio da consulta.
Materiais de impressão primária: o alginato
O alginato (hidrocolóide irreversível) é o material mais usado para impressões primárias, pela sua rapidez e custo reduzido.
- Apresenta-se em pó, misturado com água na proporção indicada pelo fabricante na embalagem.
- A espatulação deve ser enérgica e uniforme, eliminando bolhas, dentro do tempo de trabalho definido pelo fabricante daquele produto específico.
- Depois de colocado na boca com a moldeira, o material gelifica (passa de fluido a sólido elástico); o tempo de presa varia por marca e lê-se sempre no rótulo, nunca "de memória".
- A impressão retira-se com um movimento firme e único, no sentido de saída da boca, para não distorcer o material elástico.
Nota: cada marca de alginato tem a sua proporção pó/água e os seus tempos de trabalho e de presa próprios. O/a assistente segue sempre as instruções do fabricante daquele produto concreto, nunca uma regra genérica de outro material.
Estabilidade do alginato e desinfeção da moldagem
O alginato é um gel com muita água, por isso não é dimensionalmente estável depois de sair da boca:
- Se fica ao ar, perde água (evaporação e sinérese, a libertação de líquido à superfície) e contrai.
- Se fica mergulhado em água ou num desinfetante durante demasiado tempo, absorve água (embebição) e expande.
- Em ambos os casos o modelo deixa de corresponder à boca. A regra é vazar o mais cedo possível, dentro do prazo que o fabricante indica; se houver uma espera curta, a moldagem guarda-se envolvida em papel húmido ou num saco fechado, nunca submersa.
Antes de ser vazada ou enviada ao laboratório, qualquer moldagem é desinfetada, porque vem contaminada com saliva e, por vezes, sangue:
- Lavar sob água corrente, sem esfregar com força, para retirar saliva e sangue.
- Desinfetar com um produto compatível com o material de moldagem, por pulverização ou imersão, durante o tempo indicado pelo fabricante do desinfetante (no alginato, evitar imersões longas, pelo risco de embebição).
- Enxaguar para retirar o desinfetante e sacudir o excesso de água.
- Identificar e acondicionar num saco fechado, com a indicação de que foi desinfetada, se seguir para o laboratório.
Exemplo resolvido · preparar uma impressão primária
O médico dentista vai fazer a impressão primária da arcada superior de um utente parcialmente desdentado. Passo a passo da preparação pelo/a assistente:
- Selecionar a moldeira de série adequada ao tamanho da arcada, entre as opções disponíveis, para confirmação do médico dentista.
- Preparar o alginato: medir pó e água na proporção indicada pelo fabricante, usando a taça de borracha e a espátula próprias.
- Espatular de forma enérgica e uniforme, eliminando bolhas, até obter uma mistura homogénea dentro do tempo de trabalho do produto.
- Colocar a mistura na moldeira, entregando-a ao médico dentista dentro do tempo útil antes de o material começar a gelificar.
- Depois da remoção da boca, lavar a impressão sob água corrente para remover saliva e sangue, desinfetá-la com o produto compatível e vazá-la em gesso o mais cedo possível, conforme o protocolo da clínica.
A rapidez entre a preparação e a colocação na boca é essencial: o alginato começa a perder tempo de trabalho assim que a mistura se inicia.
6. Moldeira individual e impressões definitivas
A moldeira individual
A moldeira individual é fabricada em laboratório, a partir do modelo obtido na impressão primária, e ajusta-se exatamente à boca de um utente específico.
- Construída em resina acrílica autopolimerizável ou em material termoplástico, conforme o protocolo do laboratório.
- Tem um espaçador (normalmente uma folha de cera) que garante um espaço uniforme para o material de impressão definitivo, evitando zonas demasiado finas ou grossas.
- Pode incluir orifícios de retenção para o material de impressão aderir melhor, ou um cabo para facilitar a manipulação.
- Antes da impressão definitiva, o médico dentista pode ajustar os bordos com um material de moldagem funcional, que regista os limites musculares em movimento (por exemplo, ao falar ou engolir).
O/a assistente prepara a moldeira individual recebida do laboratório, o material de moldagem funcional e os instrumentos de recorte, deixando tudo pronto antes da sessão.
Materiais de impressão definitiva
As impressões definitivas exigem materiais mais precisos do que o alginato, porque a prótese final depende diretamente do detalhe registado:
| Material | Características | Uso típico |
|---|---|---|
| Silicone de adição (polivinilsiloxano) | elevada precisão e estabilidade dimensional ao longo do tempo | impressões definitivas de alta exigência |
| Silicone de condensação | boa precisão, custo geralmente mais baixo | impressões definitivas gerais |
| Poliéter | boa precisão; hidrófilo, tolera melhor a humidade; muito rígido depois da presa | impressões definitivas em meio húmido; menos indicado com retenções acentuadas, por ser difícil de retirar |
| Godiva / composto de moldagem (compound) | material termoplástico, endurece ao arrefecer | moldagem funcional dos bordos, em prótese total |
A preparação de cada material (mistura manual, pistola automática ou aquecimento em água, conforme o produto) segue sempre as instruções do fabricante quanto a proporções e tempos, que variam de marca para marca.
Exemplo resolvido · preparar godiva para a moldagem funcional
O médico dentista vai realizar a moldagem funcional do bordo de uma moldeira individual, com godiva, antes da impressão definitiva com silicone.
- Preparar o banho de água termostatizado à temperatura indicada pelo fabricante da godiva e a lamparina (tipo Hanau), com o frasco de álcool afastado da chama.
- Amolecer a godiva no banho, sem exceder a temperatura indicada, e entregá-la ao médico dentista, que a aplica no bordo da moldeira e a reaquece localmente na lamparina.
- Disponibilizar um recipiente com água morna para o médico dentista temperar a godiva antes de a levar à boca, para não queimar a mucosa; o médico dentista coloca a moldeira e regista os movimentos musculares dos bordos, zona a zona.
- Depois de a godiva arrefecer e endurecer, preparar o silicone para a impressão definitiva propriamente dita, seguindo a proporção do fabricante.
A godiva exige atenção redobrada à temperatura: quente de mais magoa o utente, fria de mais não regista corretamente os movimentos musculares dos bordos.
7. Registo da relação intermaxilar e montagem em articulador
Bases e roletes de cera
Antes de montar os dentes definitivos, é preciso saber como as duas arcadas se relacionam entre si. Para isso usam-se bases de prova com roletes de cera:
- A base assenta sobre o modelo de trabalho, reproduzindo a futura base da prótese.
- O rolete de cera, colocado sobre a base, simula o volume dos dentes ausentes e ajuda a definir o plano de orientação (futuro plano oclusal), que o médico dentista acerta com a régua de Fox: à frente, paralelo à linha que une as pupilas (linha bipupilar); de lado, paralelo ao plano de Camper (da asa do nariz ao trágus da orelha).
- Com os roletes em boca, o médico dentista determina a dimensão vertical de oclusão, a altura do terço inferior da face com os roletes em contacto. Parte da dimensão vertical de repouso (mandíbula relaxada, lábios a tocar) e subtrai o espaço livre, habitualmente de cerca de 2 a 4 mm, medindo entre dois pontos da face com um compasso ou régua própria.
- Regista também a relação cêntrica (a posição relativa entre maxilar e mandíbula usada como referência) e marca no rolete superior as linhas de referência para o laboratório: linha média, linhas dos caninos e linha do sorriso, que orientam a largura e a altura dos dentes anteriores.
O/a assistente prepara as bases e roletes recebidos do laboratório (desinfetados), a cera de registo, as espátulas de cera, a lamparina ou outra fonte de calor controlada, a régua de Fox, o compasso ou régua de medição, o lápis dermográfico e o material para fixar os roletes entre si, deixando tudo pronto para a sessão de registo.
Arco facial e montagem em articulador
O arco facial é um instrumento que regista a posição do maxilar superior em relação à articulação temporomandibular do utente. Este registo permite transferir a relação real da boca para o articulador, um aparelho de laboratório que reproduz os movimentos mandibulares fora da boca.
- Os modelos de gesso são montados no articulador de acordo com o registo do arco facial e da relação intermaxilar obtidos na consulta.
- O articulador permite ao laboratório montar os dentes artificiais e simular a oclusão sem o utente estar fisicamente presente.
- Um registo impreciso ou uma montagem descuidada no articulador refletem-se, mais tarde, em ajustes mais difíceis na boca do utente.
O/a assistente prepara o arco facial, o gesso de montagem e o próprio articulador para a sessão, e apoia a sua limpeza e desinfeção entre utilizações, como qualquer outro equipamento partilhado entre utentes.
Exemplo resolvido · da consulta ao articulador, passo a passo
Depois de registada a relação cêntrica com os roletes de cera, como é que essa informação chega ao laboratório e ao articulador?
- O médico dentista regista a relação cêntrica e a dimensão vertical diretamente nas bases de prova, em boca.
- O/a assistente identifica e acondiciona as bases registadas, junto com o registo do arco facial, para envio ao laboratório sem se perder informação.
- No laboratório, o modelo superior é montado no articulador de acordo com o arco facial, e o modelo inferior é fixado usando o registo da relação cêntrica como referência.
- Só depois desta montagem correta é que o laboratório pode avançar para a montagem dos dentes em cera, com a certeza de que reproduz a relação real da boca do utente.
Qualquer erro de identificação ou de transporte destes registos obriga a repetir a consulta, com perda de tempo para a clínica e para o utente.
8. Prova em cera e prova estética
Montagem dos dentes em cera
Em laboratório, os dentes artificiais (em resina ou porcelana, conforme a indicação clínica) são montados sobre a base de cera, seguindo o registo da relação intermaxilar e os planos definidos no capítulo anterior.
- A cor, a forma e o tamanho dos dentes escolhem-se com base em características do próprio utente: idade, formato da face, cor da pele e preferência pessoal.
- A seleção da cor faz-se normalmente com escalas de cor comerciais, à luz natural sempre que possível, antes de o utente estar sob a luz intensa do foco, que altera a perceção da cor.
- O/a assistente pode preparar as escalas de cor e o material de registo fotográfico, sempre sob orientação do médico dentista, que é quem decide a seleção final.
A prova clínica
Antes do acabamento definitivo, o utente experimenta a prótese ainda com os dentes montados em cera, numa etapa reversível em que ainda é possível corrigir posição, cor ou forma sem grande custo:
- Verifica-se a estética, muitas vezes pedindo a opinião do próprio utente.
- Testa-se a fonética: pedir ao utente para pronunciar determinadas palavras revela se a posição dos dentes interfere na fala.
- Confirma-se a oclusão e o contacto entre as arcadas com os dentes já montados.
- Só depois de esta prova ser aprovada pelo médico dentista é que a prótese segue para as etapas laboratoriais finais, descritas nos capítulos seguintes.
O/a assistente prepara a sala e o material necessário à prova, e regista com rigor as alterações pedidas pelo médico dentista, para que sejam comunicadas com exatidão ao laboratório.
Exemplo resolvido · corrigir a posição de um dente na prova
Durante a prova em cera, o médico dentista nota que um dos incisivos centrais superiores está ligeiramente rodado, alterando a estética do sorriso. O que acontece a seguir?
- O médico dentista marca e explica a correção pretendida diretamente na cera, com o utente ainda presente para confirmar visualmente a alteração.
- O/a assistente regista por escrito e, se possível, por fotografia, a alteração pedida, evitando depender apenas da memória.
- A peça em cera regressa ao laboratório com as instruções precisas, para reposicionar o dente antes de qualquer etapa irreversível.
- Só depois de confirmada a correção é que se avança para a etapa seguinte: o enceramento final da base e a inclusão em mufla.
Corrigir nesta fase é rápido e barato; corrigir depois da prótese processada em resina exigiria refazer etapas inteiras.
9. Vazamento e preparação de modelos
Gesso odontológico e vazamento
As impressões, primárias ou definitivas, são preenchidas com gesso odontológico para obter os modelos de estudo e de trabalho. Esta etapa aparece aqui agrupada, mas na prática acontece logo a seguir a cada moldagem: o modelo de estudo sai da moldagem preliminar, o modelo de trabalho sai da moldagem definitiva, e só depois se fazem as bases, os roletes e a montagem dos dentes. Na clínica, vazar e recortar modelos é das tarefas laboratoriais que o/a assistente mais vezes executa.
A norma ISO 6873 classifica os gessos dentários por tipos:
| Tipo | Designação corrente | Uso típico em prostodontia removível | Relação água/pó de referência |
|---|---|---|---|
| I | gesso de impressão | praticamente em desuso | segundo o fabricante |
| II | gesso comum (de Paris) | modelos de estudo simples, inclusão em mufla, montagem em articulador | cerca de 0,45 a 0,50 mL/g |
| III | gesso pedra | modelos de estudo e de trabalho de prótese total e PPR acrílica | cerca de 0,28 a 0,30 mL/g |
| IV | gesso pedra de alta resistência e baixa expansão | modelos de trabalho de PPR esquelética, troquéis | cerca de 0,22 a 0,24 mL/g |
| V | gesso pedra de alta resistência e alta expansão | troquéis em prótese fixa, pouco usado em removível | segundo o fabricante |
Os valores da relação água/pó são ordens de grandeza dos manuais de materiais dentários; o valor que se usa é sempre o do fabricante daquele produto. Por exemplo, para 100 g de um gesso pedra com relação 0,30 mL/g medem-se 30 mL de água. Quanto mais água, mais fácil de vazar, mas menos resistente e mais poroso fica o modelo.
- A mistura de pó e água segue sempre a proporção indicada pelo fabricante daquele produto específico; misturas fora da proporção alteram a resistência final e a precisão dimensional do modelo.
- A mistura de pó e água segue sempre a proporção indicada pelo fabricante daquele produto específico; misturas fora da proporção alteram a resistência final e a precisão dimensional do modelo.
- O vibrador elimina bolhas de ar durante o vazamento, um passo essencial para não deixar falhas na superfície do modelo, sobretudo nas zonas de detalhe.
O/a assistente prepara o gesso, o vibrador e o espaço de trabalho, mantendo tudo limpo entre vazamentos sucessivos e identificando corretamente cada impressão antes de a vazar.
Recorte e preparação dos modelos
Depois de o gesso presar e de a impressão ser removida, o modelo segue para preparação:
- É recortado com um recortador de gesso próprio, ganhando uma base regular e estável.
- Identifica-se e protege-se a área correspondente à futura prótese, para não desgastar por engano zonas relevantes durante o recorte.
- Nos modelos de trabalho destinados a uma prótese parcial removível esquelética, procede-se depois à paralelometria, uma análise que estuda a melhor direção de inserção da futura estrutura metálica e a posição dos ganchos.
- Os modelos ficam sempre identificados com o nome do utente e a data, conforme o protocolo da clínica.
Exemplo resolvido · da impressão ao modelo pronto para o laboratório
Uma impressão definitiva em silicone chega da sala de consulta para a zona de vazamento. Passo a passo:
- Desinfetar a impressão conforme o protocolo da clínica, antes de qualquer manuseamento posterior.
- Preparar o gesso na proporção indicada pelo fabricante e vazar sobre o vibrador, em camadas sucessivas, para não prender bolhas de ar.
- Aguardar o tempo de presa indicado pelo fabricante do gesso antes de manusear ou recortar o modelo.
- Recortar o modelo, dando-lhe uma base regular, e identificar com o nome do utente e a data.
- Registar a entrega ao laboratório ou ao médico dentista, conforme o fluxo de trabalho da clínica.
Um modelo com bolhas, mal identificado ou recortado antes do tempo de presa compromete todas as etapas laboratoriais seguintes, incluindo a paralelometria e a montagem dos dentes.
10. Inclusão e processamento da resina
Inclusão em mufla
Depois de aprovada a montagem em cera na prova clínica, a peça segue para inclusão numa mufla, um molde metálico em duas partes que prepara a substituição da cera por resina definitiva:
- O modelo com a prótese encerada é incluído em gesso na primeira metade da mufla; depois de isolado, enche-se a segunda metade (contramufla), cujo gesso envolve os dentes e a cera, e os dentes ficam presos a essa metade.
- Depois de o gesso presar, a mufla é aquecida e aberta, e a cera é eliminada (deceragem), deixando um espaço vazio com a forma exata dos dentes e da base.
- Aplica-se um isolante entre o gesso e o espaço onde vai entrar a resina, para que as duas superfícies não colem uma à outra durante a polimerização.
Cada fase, inclusão, deceragem e isolamento, tem de estar completa e verificada antes de avançar para a seguinte: um resíduo de cera esquecido, ou um isolante mal aplicado, compromete todo o resultado final.
Polimerização da resina acrílica
O espaço deixado pela cera é preenchido com resina acrílica, que passa por um processo de polimerização para endurecer na forma definitiva:
- A resina termopolimerizável processa-se com calor controlado, normalmente num banho de água termostatizado (polimerizadora) ou, com resinas e muflas próprias, em micro-ondas, seguindo sempre o ciclo de tempo e temperatura indicado pelo fabricante daquela resina específica. É a resina habitual das bases de próteses novas.
- A resina autopolimerizável presa à temperatura ambiente, sem necessidade de calor, e usa-se sobretudo em reparações, rebasamentos e moldeiras individuais, por ser mais rápida. Nas reparações e rebasamentos em laboratório, costuma polimerizar numa panela de pressão (polimerizadora sob pressão) com água morna, o que reduz a porosidade.
- O tempo e a temperatura exatos do ciclo de polimerização variam por marca e por equipamento; consultam-se sempre as instruções do fabricante, nunca um valor "de memória" usado noutra resina.
A inclusão, a polimerização e o acabamento de uma prótese nova são executados pelo técnico de prótese dentária, no laboratório. O/a assistente precisa de conhecer esta sequência para perceber os prazos, interpretar o que o laboratório comunica e explicar ao utente, em termos gerais, porque é que a prótese não fica pronta de um dia para o outro. Na clínica, pode preparar e manusear a panela de pressão e a resina autopolimerizável em reparações e rebasamentos feitos no consultório, sempre segundo as instruções do médico dentista e do fabricante.
Exemplo resolvido · da mufla ao ciclo de polimerização
A peça em cera já foi aprovada na prova clínica e está pronta para seguir para a fase de resina definitiva. Esta é a sequência que o técnico de prótese dentária segue no laboratório:
- Incluir o modelo com os dentes em cera na mufla, com gesso, garantindo que a peça fica bem estabilizada e sem bolhas.
- Aquecer a mufla conforme o protocolo do laboratório e abrir para remover a cera derretida (deceragem), limpando bem todos os resíduos.
- Aplicar o isolante em toda a superfície de gesso que vai contactar com a resina.
- Preparar a resina acrílica na proporção pó/líquido indicada pelo fabricante, e preencher o espaço deixado pela cera.
- Fechar a mufla e colocá-la a polimerizar, seguindo rigorosamente o ciclo de tempo e temperatura definido pelo fabricante daquela resina.
Interromper o ciclo antes do tempo indicado, ou alterar a temperatura sem seguir a ficha técnica do produto, pode deixar monómero residual na prótese, o que pode irritar a mucosa do utente quando a prótese for usada.
11. Desinclusão, acabamento e polimento
Desinclusão e ajuste no articulador
Depois de a resina polimerizar e de a mufla arrefecer o suficiente para ser manuseada:
- A mufla é aberta e o gesso de inclusão é removido com cuidado, sem danificar a prótese ainda em bruto.
- A prótese é limpa dos resíduos de gesso e verificada quanto a bolhas, poros ou outras falhas na resina.
- Volta a montar-se no articulador para um primeiro ajuste oclusal, corrigindo pequenos desvios que podem surgir durante o processo de polimerização.
Esta verificação em articulador evita que pequenos desvios só sejam detetados já na boca do utente, na consulta de entrega, o que obrigaria a ajustes mais demorados nesse momento.
Acabamento e polimento
Antes de a prótese poder ser entregue ao utente, segue-se uma etapa de acabamento e polimento:
- Remoção de rebarbas e excessos de resina, com fresas e discos próprios para este material.
- Contorno da base da prótese, respeitando sempre os limites definidos na prova clínica anterior.
- Polimento progressivo, de uma granulometria mais grossa para uma mais fina, até se obter uma superfície lisa e brilhante.
- Uma superfície mal polida retém mais placa bacteriana e é claramente mais desconfortável para os tecidos moles do utente.
O/a assistente prepara as fresas, discos e pastas de polimento, e mantém o posto de trabalho limpo e seguro durante este processo, com proteção ocular e aspiração de poeiras, uma vez que o pó de resina não deve ser inalado.
Exemplo resolvido · sequência de acabamento de uma prótese total
Uma prótese total superior sai da mufla com pequenas rebarbas nos bordos e uma superfície ainda fosca. Qual a sequência correta de acabamento?
- Remover rebarbas grosseiras com uma fresa apropriada, sempre com proteção ocular e aspiração ativa.
- Ajustar o contorno da base, comparando com os limites marcados na prova clínica, sem remover mais material do que o necessário.
- Polir progressivamente, começando por um disco ou pasta mais abrasiva e terminando com uma pasta fina, até obter brilho uniforme.
- Verificar a superfície final ao tato e à vista, confirmando ausência de arestas vivas ou zonas ainda foscas.
- Limpar e desinfetar a prótese e enviá-la para a clínica identificada e acondicionada, pronta para a consulta de entrega.
Avançar diretamente para uma pasta fina de polimento, sem passar pelas etapas mais abrasivas, não remove eficazmente as rebarbas maiores e prolonga desnecessariamente o trabalho.
12. Entrega, ajustes e revisões
Entrega e verificação da adaptação
Na consulta de entrega, o médico dentista verifica se a prótese assenta corretamente na boca do utente:
- Adaptação aos tecidos: sem zonas de pressão excessiva nem espaços largos entre a base e a mucosa.
- Estabilidade e retenção: a prótese não se desloca durante funções simples, como falar, sorrir ou engolir.
- Oclusão: contacto uniforme entre as arcadas, sem interferências localizadas.
- Identificação dos contactos oclusais com papel de articular e das zonas de pressão da base com pasta indicadora de pressão ou silicone fluido, para o médico dentista desgastar o necessário antes de o utente sair da consulta.
O/a assistente prepara o material de verificação (espelho, papel de articular e pinça de Miller, pasta indicadora de pressão, fresas de ajuste para resina, peça de mão de baixa rotação) e apoia o médico dentista durante os pequenos ajustes que costumam ser necessários logo na primeira entrega.
Sessões de revisão e queixas comuns
Nos dias seguintes à entrega, é normal e esperado que o utente regresse para pequenos ajustes. Reconhecer os sinais mais comuns ajuda o/a assistente a preparar melhor cada consulta de revisão:
| Queixa comum | Causa provável |
|---|---|
| Dor localizada ou úlcera na mucosa | ponto de pressão da prótese ainda por ajustar |
| Prótese solta ao falar ou mastigar | falta de retenção, adaptação a rever com o médico dentista |
| Dificuldade em pronunciar certos sons | posição dos dentes ou espessura da base a reavaliar |
| Náusea, sobretudo com a prótese superior | extensão excessiva da base na zona posterior |
O/a assistente prepara cada sessão de revisão, regista a queixa relatada pelo utente com rigor (localização, quando ocorre, em que circunstância) e reporta essa informação ao médico dentista, sem tentar resolver a situação por conta própria.
Exemplo resolvido · preparar uma consulta de revisão
Um utente liga para a clínica a queixar-se de dor num ponto específico da gengiva, três dias depois de ter recebido a prótese inferior. Como prepara o/a assistente esta consulta de revisão?
- Regista a queixa com o máximo de detalhe possível: localização aproximada, se dói ao mastigar ou constantemente, se já tentou retirar a prótese para aliviar.
- Agenda a consulta o mais rapidamente possível dentro da disponibilidade da clínica, sem prometer ao utente uma solução ou um prazo que não lhe compete garantir.
- Prepara o material habitual de ajuste (espelho, papel de articular, pasta indicadora de pressão, fresas), antecipando que o médico dentista poderá fazer um pequeno desgaste localizado.
- Durante a consulta, apoia o médico dentista na identificação do ponto de pressão (pasta indicadora na base, papel de articular na oclusão), aspira o pó de resina durante o desgaste e desinfeta a prótese antes de voltar à boca.
Uma queixa bem registada antes da consulta poupa tempo ao médico dentista e transmite confiança ao utente, que sente que a sua situação foi levada a sério desde o primeiro contacto.
13. Instruções ao utente, manutenção e rebasamento
Higiene da prótese
O/a técnico/a assistente tem um papel importante a explicar e a reforçar as instruções de higiene, sempre em articulação com o que o médico dentista já indicou ao utente:
- Escovar a prótese fora da boca, pelo menos uma vez por dia, com escova própria e sabão neutro ou produto indicado, sobre uma superfície acolchoada ou uma bacia com água, para não partir a prótese em caso de queda.
- Não usar pasta dentífrica abrasiva, que risca a resina polida e facilita a acumulação de placa.
- Nunca usar água a ferver para a desinfetar, porque a temperatura elevada deforma a resina acrílica de forma irreversível.
- Não usar lixívia (hipoclorito) nas próteses esqueléticas: corrói e escurece a liga metálica e enfraquece os ganchos. Nas próteses só em resina, qualquer produto à base de hipoclorito só se usa se o médico dentista o indicar, na diluição e no tempo indicados.
- Usar soluções de imersão próprias para próteses, conforme indicado pelo médico dentista ou pelo fabricante do produto, e enxaguar bem antes de recolocar a prótese na boca.
- Nas próteses esqueléticas, dar atenção especial à limpeza dos ganchos metálicos, zonas onde se acumula mais placa bacteriana.
Uma prótese mal higienizada favorece infeções da mucosa, mau odor e desgaste mais rápido dos materiais.
Uso da prótese e controlos periódicos
- Recomenda-se, em regra geral, retirar a prótese durante a noite, para dar descanso aos tecidos moles, salvo indicação diferente do médico dentista para o caso concreto.
- Fora da boca, o utente deve guardar a prótese em água ou em solução própria, para evitar que seque e se deforme.
- Sinais de alarme a comunicar de imediato à clínica: feridas na mucosa que não cicatrizam, dor persistente sem melhoria, ou fratura da prótese.
- As consultas de controlo periódicas permitem detetar sinais de reabsorção óssea e a eventual necessidade de rebasamento ou de ajuste, mesmo quando o utente não relata queixas.
Rebasamento e manutenção a longo prazo
Com o tempo, a reabsorção óssea (capítulo 2) altera a forma do rebordo, e a base da prótese deixa de se adaptar tão bem como no início. Quando isso acontece, o médico dentista pode indicar um rebasamento:
- O rebasamento acrescenta uma nova camada de resina à base já existente, adaptando-a à forma atual do rebordo, sem substituir toda a prótese.
- Pode ser feito com resina autopolimerizável, de forma mais rápida, ou reenviado ao laboratório para um processo mais cuidado, conforme a indicação clínica.
- É diferente de fazer uma prótese nova: o rebasamento aproveita a estrutura e os dentes existentes, só corrigindo a adaptação à base óssea.
O/a assistente prepara os materiais para o rebasamento da mesma forma cuidada que para uma prótese nova, e reforça junto do utente a importância de não adiar indefinidamente estas manutenções.
Exemplo resolvido · explicar a um utente porque precisa de rebasamento
Um utente com uma prótese total inferior, feita há vários anos, comenta que a prótese "sempre foi assim, um pouco solta". Como explicar, dentro dos seus limites, a situação ao utente?
- Acolher o comentário sem minimizar nem alarmar: "vamos falar com o doutor/a doutora sobre isso, pode haver uma solução simples."
- Não diagnosticar nem explicar a causa clínica exata (reabsorção óssea, necessidade de rebasamento); essa avaliação cabe ao médico dentista.
- Reportar a queixa antes da consulta, para que o médico dentista já chegue preparado para avaliar a adaptação da prótese.
- Depois de o médico dentista confirmar a necessidade de rebasamento, o/a assistente prepara os materiais necessários, tal como faria para qualquer outra etapa laboratorial descrita nesta sebenta.
Explicar ao utente que a prótese pode precisar de ajustes ao longo dos anos, sem entrar em diagnóstico, ajuda-o a perceber que voltar à clínica não é sinal de "defeito", mas parte natural da manutenção.
14. Normas de higiene e segurança em prostodontia removível
A prostodontia removível tem um risco próprio: objetos que vão à boca circulam entre o consultório e o laboratório (moldagens, bases de prova, provas em cera, estruturas metálicas, próteses para reparar). Se não forem desinfetados em cada passagem, levam microrganismos da boca do utente para o laboratório e de volta. Por isso, a cadeia de controlo de infeção tem de estar fechada nos dois sentidos.
Precauções Básicas de Controlo de Infeção
As Precauções Básicas de Controlo de Infeção (PBCI), definidas na Norma n.º 029/2012 da Direção-Geral da Saúde, aplicam-se a todos os utentes, sem exceção, porque não é possível saber quem é portador de uma infeção. Em prostodontia, traduzem-se em:
- Higiene das mãos antes e depois de cada utente, antes de calçar e depois de descalçar as luvas, e depois de manusear moldagens ou próteses vindas da boca.
- Equipamento de proteção individual (EPI): luvas, máscara, óculos ou viseira e bata, sobretudo ao misturar materiais, ao lavar moldagens (salpicos) e ao desgastar resina ou metal (partículas projetadas).
- Descontaminação do ambiente: superfícies da unidade, bancada e pegas limpas e desinfetadas entre utentes; barreiras descartáveis nas zonas difíceis de limpar.
- Manuseamento seguro de cortoperfurantes: lâminas de bisturi usadas no recorte de moldagens ou bases e agulhas vão logo para o contentor rígido, que se fecha quando atinge 2/3 da capacidade ou a linha indicada pelo fabricante. Agulhas nunca se reencapam com as duas mãos: usa-se a técnica de uma só mão ou um dispositivo próprio.
- Etiqueta respiratória, colocação dos utentes, gestão da roupa e gestão de resíduos, conforme os procedimentos da clínica.
Classificação de Spaulding aplicada à prostodontia
O nível de reprocessamento de cada artigo depende do risco de infeção que representa (classificação de Spaulding):
| Categoria | Contacto | Reprocessamento | Exemplos em prostodontia removível |
|---|---|---|---|
| Crítico | penetra tecidos ou osso | esterilização | instrumentos cirúrgicos usados em extrações ou na colocação de implantes de sobredentaduras |
| Semicrítico | contacta com mucosa, sem a penetrar | esterilização ou desinfeção de alto nível | moldeiras metálicas reutilizáveis, espelhos, garfo do arco facial, peças de mão |
| Não crítico | contacta só com pele intacta | limpeza e desinfeção de nível baixo ou intermédio | arco facial (exceto o garfo), régua de Fox, escala de cores, articulador, superfícies |
Na prática, os instrumentos semicríticos que toleram calor esterilizam-se em autoclave, depois de limpos e embalados. As moldeiras de plástico de uso único descartam-se depois de usadas, nunca se reprocessam.
Circuito consultório-laboratório
Tudo o que sai da boca é tratado como contaminado até ser desinfetado:
- Moldagens: lavar, desinfetar com produto compatível com o material, enxaguar e acondicionar em saco fechado (ver capítulo 5).
- Bases de prova, provas em cera e estruturas metálicas: desinfetar depois de cada prova em boca, antes de voltarem ao laboratório; desinfetar também quando chegam do laboratório, antes de irem à boca.
- Próteses para reparar ou rebasar: limpar (retirar restos de alimentos e cálculo), desinfetar e só depois enviar.
- Ajustes à cadeira: usar fresas limpas e reprocessadas para cada utente; a pedra-pomes de polimento usa-se em porção individual, com desinfetante, e descarta-se no fim; os discos e escovas do torno limpam-se ou substituem-se entre utentes.
- Registo: a ficha de trabalho indica que o trabalho foi desinfetado, com que produto e em que data, para o laboratório não ter de repetir nem ficar na dúvida.
Segurança com os materiais e os equipamentos
| Risco | Onde aparece | Medidas |
|---|---|---|
| Pó (gesso, alginato, resina, metal) | mistura de pós, recorte de modelos, desgaste e polimento | aspiração, máscara, óculos; abrir as embalagens de alginato sem levantar pó |
| Monómero de metilmetacrilato | resinas acrílicas, sobretudo autopolimerizáveis | frasco fechado, boa ventilação, evitar contacto com a pele (pode causar dermatite de contacto e alergia), longe de chamas por ser inflamável |
| Calor e chama | lamparina, godiva, banho de cera, polimerizadora | frasco de álcool afastado da chama, nunca deixar a lamparina acesa sem vigilância, testar temperaturas antes de irem à boca |
| Rotação | peça de mão, motor e torno de polimento | óculos, cabelo preso, peça bem segura, sem roupa solta junto ao torno |
| Ruído e vibração | recortador de modelos, vibrador | uso por períodos curtos, manutenção em dia |
Resíduos
Os resíduos da atividade separam-se segundo o Despacho n.º 242/96, que os agrupa em quatro grupos:
| Grupo | Tipo | Exemplos em prostodontia |
|---|---|---|
| I | equiparados a urbanos | embalagens de papel e cartão, restos sem contacto com utentes |
| II | hospitalares não perigosos | gesso e cera sem contaminação biológica, embalagens de materiais já vazias |
| III | hospitalares de risco biológico | compressas, luvas e barreiras contaminadas com saliva ou sangue, moldagens contaminadas |
| IV | hospitalares específicos | cortoperfurantes (lâminas, agulhas, fresas partidas), sempre no contentor rígido |
A separação faz-se no local onde o resíduo é produzido, para o contentor certo, e o/a assistente não volta a abrir sacos nem contentores para "arrumar melhor".
Exemplo resolvido · uma prova em cera que chega do laboratório
Uma prova de dentes em cera chega do laboratório numa caixa, sem indicação de ter sido desinfetada. O que faz o/a assistente?
- Não a leva diretamente à boca. Sem registo de desinfeção, trata-a como contaminada.
- Com luvas, desinfeta-a com um produto compatível com cera e resina, por pulverização, respeitando o tempo de contacto do fabricante, e enxagua-a em água à temperatura ambiente (água quente deforma a cera).
- Guarda-a num local fresco, longe de fontes de calor, até à consulta.
- Depois da prova, volta a desinfetá-la antes de a devolver ao laboratório, e regista-o na ficha de trabalho.
- Reporta ao médico dentista a falta de registo de desinfeção, para que o assunto seja tratado com o laboratório.
15. Comunicação com o laboratório de prótese
O laboratório não vê o utente. Tudo o que sabe sobre o caso chega pela ficha de trabalho (requisição) e pelos modelos e registos que a acompanham. Uma ficha incompleta traduz-se numa prótese errada, numa prova repetida ou num atraso.
A ficha de trabalho
A ficha é preenchida e assinada pelo médico dentista; o/a assistente ajuda a preparar a informação, confirma que nada falta e trata do envio. Deve conter:
- Identificação da clínica e do médico dentista e identificação do utente apenas pelo necessário (por exemplo, iniciais ou número de processo), em respeito pela proteção de dados.
- Tipo de trabalho (prótese total, PPR acrílica, PPR esquelética, sobredentadura, reparação, rebasamento), arcada e dentes a substituir, em notação FDI.
- Etapa pedida: moldeira individual, bases e roletes, montagem para prova, acabamento, reparação.
- Cor dos dentes, com a referência da escala usada (a mesma escala na clínica e no laboratório), forma e tamanho quando definidos, e observações estéticas (linha média, linha do sorriso marcadas no rolete).
- Materiais indicados pelo médico dentista (por exemplo, resina da base, tipo de ganchos).
- Data da próxima consulta do utente e data de entrega pedida, com margem para o transporte.
- Registo de desinfeção dos elementos enviados.
- Lista do que segue na caixa: modelos, moldagens, registos de mordida, arco facial, fotografias.
Prazos e rastreabilidade
- O/a assistente marca as consultas de acordo com os prazos do laboratório: não se marca uma prova para o dia seguinte se o laboratório precisa de uma semana.
- Tudo o que entra e sai regista-se (o quê, quando, para quem), para se saber sempre onde está cada trabalho.
- A prótese é um dispositivo médico feito por medida, abrangido pelo Regulamento (UE) 2017/745, aplicado em Portugal com o Decreto-Lei n.º 29/2024, sob supervisão do INFARMED. O laboratório, como fabricante, acompanha cada prótese com a declaração prevista para os dispositivos feitos por medida; a clínica arquiva-a no processo do utente, conforme o seu procedimento.
Equipamentos, instrumentos e materiais por etapa
| Etapa | Equipamentos e instrumentos | Materiais |
|---|---|---|
| Moldagem preliminar | moldeiras de série, taça de borracha, espátula de alginato, doseadores | alginato, água, desinfetante de moldagens |
| Moldagem definitiva | moldeira individual, lamparina, banho termostatizado, pistola de mistura, pontas misturadoras | godiva ou silicone de moldagem funcional, silicone de adição ou condensação, poliéter, adesivo de moldeira |
| Registo intermaxilar | régua de Fox, compasso ou régua de medição, espátula de cera, lamparina, arco facial, articulador | bases e roletes de cera, cera de registo, lápis dermográfico |
| Prova | espelho, escala de cores, câmara fotográfica | prova em cera ou estrutura metálica, silicone fluido ou pasta indicadora |
| Modelos | vibrador, recortador, espátula de gesso, taça de gesso | gesso tipo II, III ou IV, conforme a etapa |
| Entrega e ajustes | peça de mão de baixa rotação, fresas para resina, pinça de Miller, torno de polimento | papel de articular, pasta indicadora de pressão, pedra-pomes, pasta de polir |
| Reparação e rebasamento | panela de pressão, espátulas, frasco de mistura | resina autopolimerizável, isolante, material de rebasamento |
Exemplo resolvido · preparar o envio de uma moldagem definitiva
O médico dentista acabou a moldagem definitiva superior para uma PPR esquelética de um utente com perda de 14, 15, 16 e 24, 25. Como prepara o/a assistente o envio?
- Lava, desinfeta e enxagua a moldagem, segundo o protocolo e o fabricante.
- Vaza o modelo, se esse for o procedimento da clínica, ou acondiciona a moldagem para o laboratório vazar, no prazo que o material permite.
- Prepara a ficha: PPR esquelética superior, dentes a substituir 14, 15, 16, 24, 25 em notação FDI, cor e desenho indicados pelo médico dentista, data da consulta de prova da estrutura, registo de desinfeção.
- Confirma com o médico dentista qualquer campo em branco antes de fechar a caixa.
- Regista o envio e a data de regresso prevista, e marca a consulta seguinte de acordo com esse prazo.
Erros comuns
- Avançar uma opinião clínica ao utente sobre diagnóstico, prazos ou resultados, em vez de reportar ao médico dentista.
- Escolher ou preparar uma moldeira sem confirmar o tamanho certo com o médico dentista.
- Espatular o alginato devagar ou por pouco tempo, deixando bolhas que depois aparecem no modelo em gesso.
- Esquecer o espaçador na moldeira individual, o que deixa pouco espaço para o material de impressão definitivo.
- Aquecer a godiva a uma temperatura que arrisca queimar o utente, por pressa ou falta de verificação prévia.
- Vazar o gesso de uma só vez, sem vibração, prendendo bolhas de ar visíveis no modelo final.
- Esquecer o isolante na inclusão, o que cola a resina ao gesso e destrói a peça ao tentar desincluir.
- Interromper o ciclo de polimerização antes do tempo indicado pelo fabricante da resina.
- Polir diretamente com pasta fina, sem passar pelas etapas mais abrasivas, prolongando o trabalho sem remover bem as rebarbas.
- Menorizar uma queixa do utente após a entrega da prótese ("já passa"), em vez de a reportar de imediato.
- Deixar o utente higienizar a prótese com água a ferver ou pasta dentífrica abrasiva.
- Explicar ao utente a causa clínica exata de um desconforto (por exemplo, atribuir a reabsorção óssea), em vez de reportar e deixar o diagnóstico ao médico dentista.
Glossário
- Prostodontia removível: área da medicina dentária que reabilita a ausência de dentes com próteses que o utente coloca e retira.
- Prótese total (PT): prótese removível que substitui todos os dentes de uma arcada, apoiada nos tecidos moles e no osso.
- Prótese parcial removível (PPR): prótese removível que substitui alguns dentes, apoiada nos dentes remanescentes e/ou na mucosa.
- Rebordo alveolar: osso remanescente da arcada depois da perda dentária, onde assenta a base da prótese.
- Reabsorção óssea: perda progressiva de altura e largura do rebordo alveolar depois da extração dos dentes.
- Moldeira de série (stock tray): moldeira pré-fabricada, usada nas impressões primárias.
- Moldeira individual: moldeira feita à medida da boca de um utente, usada nas impressões definitivas.
- Alginato: material de impressão primária, do tipo hidrocolóide irreversível.
- Silicone de adição / condensação, poliéter: materiais de impressão definitiva, de maior precisão que o alginato.
- Godiva (compound): material termoplástico usado na moldagem funcional dos bordos da prótese total.
- Relação cêntrica: posição de referência entre maxilar e mandíbula, registada antes da montagem dos dentes.
- Dimensão vertical de oclusão: distância entre as arcadas usada como referência na montagem da prótese.
- Arco facial: instrumento que regista a posição do maxilar superior em relação à articulação temporomandibular.
- Articulador: aparelho de laboratório que reproduz os movimentos mandibulares fora da boca.
- Prova em cera: etapa em que o utente experimenta os dentes ainda montados em cera, antes do acabamento final.
- Paralelometria: análise da direção de inserção de uma prótese esquelética, feita sobre o modelo de trabalho.
- Mufla: molde metálico em duas partes usado na inclusão e no processamento da resina.
- Deceragem: eliminação da cera dentro da mufla, antes de a substituir por resina.
- Polimerização: processo pelo qual a resina acrílica endurece na forma definitiva, a calor ou à temperatura ambiente.
- Rebasamento: adição de nova resina à base de uma prótese existente, para a adaptar a um rebordo que mudou de forma.
- Papila piriforme (almofada retromolar): tecido mole atrás do último molar inferior, onde termina a base da prótese total inferior.
- Classificação de Kennedy: classificação das arcadas parcialmente desdentadas em quatro classes, segundo a posição das zonas desdentadas.
- Extremo livre: zona desdentada sem dente pilar na parte de trás (classes I e II de Kennedy).
- Conector maior: parte rígida da PPR esquelética que une os seus componentes de um lado ao outro da arcada.
- Apoio: extensão metálica que assenta num nicho do dente pilar e impede a prótese de afundar.
- Retentor direto / indireto: gancho que segura a prótese contra a saída / apoio que impede a rotação da prótese nos extremos livres.
- Sobredentadura: prótese removível total que assenta na mucosa e em raízes conservadas ou implantes.
- Sinérese e embebição: perda e absorção de água pelo alginato depois de sair da boca, que o deformam.
- Espaço livre: diferença entre a dimensão vertical de repouso e a dimensão vertical de oclusão.
- PBCI: Precauções Básicas de Controlo de Infeção (Norma DGS n.º 029/2012), aplicadas a todos os utentes.
- Ficha de trabalho: requisição escrita que acompanha cada trabalho enviado ao laboratório de prótese.
- Coadjuvar: apoiar ativamente o médico dentista na execução de um procedimento, sem o substituir.
Síntese
Assistir o médico dentista em prostodontia removível percorre um único fluxo, do consultório ao laboratório e de volta ao utente: anamnese e plano de tratamento → impressões primárias (moldeira de série, alginato) → moldeira individual e impressões definitivas (silicones, poliéter, godiva) → registo da relação intermaxilar (bases e roletes de cera, arco facial, articulador) → montagem em cera e prova clínica (estética, fonética, oclusão) → vazamento e preparação de modelos (gesso, paralelometria) → inclusão e polimerização da resina (mufla, deceragem, isolante) → desinclusão, acabamento e polimento → entrega, ajustes e revisões → instruções de higiene, uso e controlos periódicos, com o rebasamento como manutenção a longo prazo. Nas PPR, a classificação de Kennedy e os componentes da estrutura esquelética dão o vocabulário comum com o médico dentista e o laboratório; em todas as próteses, a desinfeção em cada passagem entre a boca e o laboratório e uma ficha de trabalho completa fecham o circuito. Em cada etapa, o/a técnico/a assistente prepara, coadjuva, cumpre normas de higiene e segurança, e reporta, sempre sob orientação do médico dentista, nunca diagnosticando nem executando atos clínicos invasivos.
Exercícios resolvidos
1. Um utente pergunta ao/à assistente se a prótese que vai receber "vai ficar igual aos dentes naturais". Como deve responder?
Resolução: acolhe a pergunta com escuta ativa, sem dar uma resposta clínica definitiva, e encaminha-a para o médico dentista, que é quem pode explicar as expectativas realistas de estética e função daquele caso concreto.
2. Distingue prótese total de prótese parcial removível quanto ao apoio principal.
Resolução: a prótese total apoia-se nos tecidos moles e no osso (suporte mucoso), por não existirem dentes remanescentes. A prótese parcial removível apoia-se nos dentes remanescentes, através de ganchos, e/ou na mucosa, conforme o desenho definido pelo médico dentista.
3. Porque é que a impressão de alginato tem de seguir rapidamente para vazamento em gesso?
Resolução: o alginato perde precisão dimensional com o tempo depois de retirado da boca; quanto mais tempo passa até ao vazamento, maior o risco de o modelo não reproduzir fielmente a anatomia registada.
4. Qual a função do espaçador numa moldeira individual?
Resolução: garante um espaço uniforme entre a moldeira e os tecidos, onde vai entrar o material de impressão definitivo, evitando zonas demasiado finas (com risco de rasgar) ou demasiado grossas (com perda de detalhe).
5. Explica porque a prova em cera é considerada uma etapa reversível e a inclusão em mufla não.
Resolução: na prova em cera, ainda é possível corrigir a posição, a cor ou a forma dos dentes sem grande custo, porque a cera é facilmente remodelável. Depois da inclusão em mufla e da polimerização da resina, qualquer correção significativa implica repetir etapas laboratoriais inteiras.
6. Um utente liga a queixar-se de que a prótese nova "sai" sempre que fala. Que informação deve o/a assistente registar antes da consulta de revisão?
Resolução: em que situações a prótese se solta (só ao falar, também ao comer), há quanto tempo tem a prótese, se é a arcada superior ou inferior, e se há alguma dor associada. Esta informação ajuda o médico dentista a chegar preparado para o ajuste.
7. Porque é que a resina autopolimerizável é preferida em reparações rápidas, mas não na confeção de próteses novas?
Resolução: presa à temperatura ambiente, sem precisar de calor, o que a torna mais rápida a usar. No entanto, tem geralmente menor resistência e maior alteração dimensional a longo prazo do que a resina termopolimerizável, pelo que não é a opção preferida para uma prótese nova.
8. Um utente com uma prótese total de vários anos refere que ela está cada vez mais solta, sem nenhuma queixa de dor. O que pode estar a acontecer e qual é o papel do/a assistente?
Resolução: pode indicar reabsorção óssea progressiva, que altera a forma do rebordo e reduz a adaptação da base da prótese, podendo ser necessário um rebasamento. O papel do/a assistente é reportar a queixa ao médico dentista, sem diagnosticar, e preparar os materiais necessários assim que o médico dentista confirmar o plano a seguir.
9. Uma arcada superior perdeu 15, 16, 17 e 25, 26. O 18 e o 27 estão presentes e o 18 vai servir de pilar. Classifica segundo Kennedy.
Resolução: do lado direito, a zona 15 a 17 tem o 18 atrás (pilar, conta pela regra de Applegate): é intercalada. Do lado esquerdo, a zona 25 e 26 tem o 27 atrás: também intercalada. Não há extremos livres nem zona anterior: é Classe III; a segunda zona intercalada é uma modificação, logo Classe III, modificação 1.
10. Uma moldagem de alginato ficou 40 minutos em cima da bancada, ao ar, antes de ser vazada. O que pode ter acontecido e como se evita?
Resolução: o alginato perdeu água por evaporação e sinérese e contraiu, pelo que o modelo pode não corresponder à boca. Evita-se lavando e desinfetando a moldagem logo que sai da boca e vazando-a o mais cedo possível, dentro do prazo do fabricante; numa espera curta, guarda-se envolvida em papel húmido num saco fechado, nunca mergulhada em água.
11. Um utente com uma PPR esquelética diz que deixa a prótese de molho em lixívia todas as noites. Que deve fazer o/a assistente?
Resolução: reforçar a instrução já dada pelo médico dentista: a lixívia corrói e escurece a liga de crómio-cobalto e enfraquece os ganchos, por isso não se usa nas esqueléticas; a higiene faz-se com escova própria e sabão neutro ou produto de limpeza indicado. Reporta a situação ao médico dentista, para que avalie o estado da estrutura na próxima consulta.