Sebenta · Assistir o médico dentista em implantologia (UC04011)
- Introdução
- 1. O implante dentário e o papel do técnico assistente dentário
- 2. Anatomia aplicada e estruturas de risco
- 3. Planeamento da reabilitação com implantes
- 4. Fases clínicas da cirurgia de implantes
- 5. Sistemas de implantes e componentes protéticos
- 6. Instrumentos, motor de implantologia e kit cirúrgico
- 7. Preparação da consulta e do campo cirúrgico estéril
- 8. Coadjuvação durante a cirurgia
- 9. Pós-operatório, cicatrização e osteointegração
- 10. Consultas de controlo
- 11. Fase protética
- 12. Comunicação com o laboratório de prótese
- 13. Complicações e sinais de alarme
- 14. Higiene, segurança no trabalho e reprocessamento em implantologia
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara-te para assistir o médico dentista/estomatologista em implantologia: uma das áreas mais técnicas e mais exigentes da prática dentária. Vais aprender a preparar equipamentos, instrumentos e material, a coadjuvar diretamente nas diferentes etapas clínicas (planeamento, cirurgia, controlo e prótese) e a garantir uma comunicação eficaz com os laboratórios de prótese, sempre sob orientação e supervisão médica.
O fio condutor de toda a UC é um limite que não muda: o técnico assistente dentário (TAD) não diagnostica, não prescreve e não executa atos clínicos invasivos. O que faz, e faz com rigor, é preparar o terreno para que o médico possa trabalhar com segurança e eficiência, do primeiro exame de imagem à entrega da prótese definitiva. Esta UC apoia-se em conhecimentos já trabalhados noutras unidades curriculares do curso, nomeadamente a anatomia da cavidade oral (identificação das estruturas), a manutenção de equipamentos e a gestão de consumíveis, e o controlo de infeção nos vários circuitos do consultório. Vamos recuperar esses conhecimentos e aplicá-los ao contexto específico da implantologia.
Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar os equipamentos, instrumentos e materiais necessários à implantologia e à reabilitação sobre implantes; coadjuvar o médico dentista/estomatologista nas intervenções realizadas em implantologia; garantir comunicação eficaz com os laboratórios de prótese; e aplicar as normas de higiene e segurança no trabalho ao longo de todo o processo.
1. O implante dentário e o papel do técnico assistente dentário
Um implante dentário é uma solução para substituir a raiz de um dente perdido, permitindo depois colocar uma coroa ou uma prótese com função e aspeto semelhantes aos de um dente natural. É composto por três peças distintas, que convém distinguir desde o início:
- Fixture (ou corpo do implante): um parafuso, normalmente em titânio ou em zircónia, colocado cirurgicamente no osso.
- Pilar (abutment): a peça intermédia que liga a fixture à prótese, podendo ser pré-fabricada ou personalizada.
- Coroa ou prótese: a peça visível na boca, que devolve a função mastigatória e o aspeto estético.
A fixture não fica apenas "encaixada" no osso: fica integrada através de um processo biológico chamado osteointegração, descrito pela primeira vez pelo investigador sueco Per-Ingvar Brånemark, que a definiu como uma ligação estrutural e funcional direta entre o osso vivo e organizado e a superfície de um implante sujeito a carga. É esta integração direta entre o osso e a superfície do implante, sem tecido fibroso interposto, que permite ao implante suportar as forças da mastigação de forma estável e duradoura.
O que faz e o que não faz o técnico assistente dentário
A implantologia é um dos domínios em que os limites de atuação do TAD são mais evidentes, precisamente porque envolve cirurgia. A tabela seguinte resume a divisão de responsabilidades:
| Tarefa | Quem executa |
|---|---|
| Avaliar a necessidade de implante e decidir o plano de tratamento | médico dentista/estomatologista |
| Preparar o processo clínico, os exames e os modelos | técnico assistente dentário |
| Anestesiar, incisar, fresar, colocar a fixture, suturar | médico dentista/estomatologista |
| Preparar o tabuleiro, o motor, o campo estéril e coadjuvar à cadeira | técnico assistente dentário |
| Avaliar complicações e decidir o tratamento | médico dentista/estomatologista |
| Reconhecer e comunicar sinais de alarme | técnico assistente dentário |
| Prescrever medicação e dar instruções clínicas | médico dentista/estomatologista |
| Reforçar e entregar por escrito as instruções já dadas | técnico assistente dentário |
| Fazer a impressão ou o registo digital da posição do implante | médico dentista/estomatologista |
| Preparar o material de impressão ou o scanner e comunicar com o laboratório | técnico assistente dentário (sob orientação) |
Nenhuma parte desta UC deve ser lida como "o TAD também pode fazer isto se souber". A fronteira entre preparação/coadjuvação e ato clínico invasivo é legal e profissional, não uma questão de destreza pessoal.
Ao longo desta sebenta vais ver este limite repetido em cada fase, porque é ele que estrutura todo o trabalho do TAD em implantologia.
Materiais da fixture: titânio e zircónia
A grande maioria das fixtures atuais é feita em titânio ou em ligas de titânio, um material com longo histórico de utilização em implantologia, boa resistência mecânica e capacidade comprovada de se integrar no osso. Mais recentemente, surgiram também fixtures em zircónia, uma cerâmica de elevada resistência, usada sobretudo por razões estéticas (cor branca em vez do cinzento metálico) ou em utentes com sensibilidade a metais.
O TAD não escolhe o material da fixture, mas deve saber identificá-lo na embalagem e na prescrição, porque condiciona diretamente os instrumentos, os componentes protéticos e, por vezes, o próprio motor e as fresas a preparar.
2. Anatomia aplicada e estruturas de risco
Antes de qualquer intervenção, o médico avalia com cuidado a anatomia da zona a tratar. Retomando o que já estudaste na UC de identificação das estruturas da cavidade oral e da articulação temporo-mandibular, há quatro estruturas que ganham particular relevância em implantologia:
- Osso alveolar: a sua altura, largura e densidade determinam se há espaço suficiente para colocar um implante com segurança e estabilidade.
- Seio maxilar: uma cavidade de ar no maxilar superior, cuja proximidade condiciona a colocação de implantes nos dentes posteriores superiores.
- Nervo alveolar inferior: percorre o interior da mandíbula; uma colocação demasiado profunda ou mal posicionada pode lesá-lo.
- Forame mentoniano: o ponto onde o ramo mentoniano do nervo sai do osso, na zona dos pré-molares inferiores.
O TAD não interpreta clinicamente estas estruturas, nem decide sobre elas, mas precisa de as reconhecer para preparar corretamente os exames de imagem, os modelos de estudo e as guias cirúrgicas que o médico vai utilizar no planeamento.
Exemplo resolvido · porque a anatomia condiciona o plano
Um utente pretende um implante na zona do primeiro molar superior. Nos exames de imagem, o médico verifica que a altura óssea disponível até ao seio maxilar é reduzida.
| Elemento | Papel |
|---|---|
| Seio maxilar | limita a altura óssea disponível na zona posterior superior |
| Exame de imagem | permite ao médico medir a distância exata até ao seio |
| Decisão clínica | cabe exclusivamente ao médico (implante mais curto, técnica adicional, ou outra solução) |
| Papel do TAD | preparar e organizar o exame de imagem com qualidade, sem interpretar o resultado |
Este exemplo mostra porque um exame de imagem mal preparado, desfocado ou incompleto pode comprometer todo o planeamento, mesmo sem qualquer intervenção do TAD na decisão clínica.
Qualidade e quantidade óssea
Além da presença de estruturas de risco, o médico avalia também a qualidade e a quantidade de osso disponível no local. Existem classificações clínicas amplamente usadas para descrever a densidade óssea, que ajudam o médico a prever a estabilidade inicial do implante e a escolher a técnica cirúrgica mais adequada. O TAD não aplica nem interpreta estas classificações, mas deve saber que fazem parte da informação clínica que consta do processo, para organizar corretamente os registos.
3. Planeamento da reabilitação com implantes
O planeamento é sempre da responsabilidade do médico dentista, com apoio de exames de imagem, como a radiografia panorâmica ou a tomografia de feixe cónico, e frequentemente de guias cirúrgicas.
Uma guia cirúrgica é um dispositivo feito à medida, muitas vezes a partir de um planeamento digital, que se coloca na boca do utente durante a cirurgia e orienta a posição, o ângulo e a profundidade da fresagem. Não deve confundir-se com um molde comum: a guia não regista a forma dos dentes, orienta fisicamente os instrumentos cirúrgicos.
O planeamento digital com CBCT
A tomografia computorizada de feixe cónico (CBCT, do inglês cone beam computed tomography) dá ao médico uma imagem tridimensional do osso: permite medir a altura e a largura disponíveis e ver a posição exata do seio maxilar, do canal do nervo alveolar inferior e do forame mentoniano. No fluxo digital, o médico junta a CBCT a uma digitalização dos dentes (scanner intraoral ou modelo digitalizado) num software de planeamento, onde posiciona virtualmente o implante; a partir desse plano, o laboratório ou um centro de fresagem/impressão 3D produz a guia cirúrgica.
Neste fluxo, o TAD:
- Agenda a CBCT e confirma que o utente leva, se o médico o pedir, a guia radiológica ou a prótese de que precisa para o exame.
- Garante que os ficheiros (CBCT, digitalizações, fotografias) ficam associados ao processo clínico certo, com nome e data corretos.
- Recebe a guia cirúrgica do laboratório, confere-a com a identificação do utente e encaminha-a para desinfeção ou esterilização conforme as instruções do fabricante, antes do dia da cirurgia.
- Confirma que o kit de cirurgia guiada, quando existe, é o do sistema indicado no plano (as fresas de cirurgia guiada são próprias e mais compridas).
Quando falta osso: elevação do seio e regeneração óssea guiada
Nem sempre há osso suficiente para colocar o implante. Nesses casos, o médico pode planear técnicas adicionais, que o TAD deve conhecer como conceitos para preparar o material:
- Elevação do seio maxilar: na zona posterior superior, o médico levanta cuidadosamente a membrana que reveste o seio maxilar e coloca material de enxerto por baixo dela, ganhando altura óssea para o implante. Pode ser feita por uma janela lateral no osso ou por via crestal, através do próprio local do implante.
- Regeneração óssea guiada (ROG): o médico coloca material de enxerto no defeito ósseo e cobre-o com uma membrana (reabsorvível ou não reabsorvível), que impede que a gengiva cresça para dentro do defeito e dá tempo ao osso para se formar.
- Materiais de enxerto: osso do próprio utente (autólogo), de dador humano (alógeno), de origem animal (xenógeno) ou sintético (aloplástico).
Para o TAD, estas técnicas significam material extra a preparar e a registar: enxertos e membranas são dispositivos médicos com lote e validade, abrem-se só no momento indicado pelo médico, e as etiquetas vão para o processo clínico, tal como as do implante.
Tarefas do TAD no planeamento
- Agendar e organizar os exames de imagem pedidos pelo médico.
- Preparar modelos de estudo, quando indicados, a partir de impressões ou de digitalizações.
- Apoiar o registo fotográfico clínico, seguindo o protocolo da clínica.
- Organizar e arquivar toda a documentação no processo clínico do utente, de forma acessível para a consulta seguinte.
Um planeamento bem documentado poupa tempo no dia da cirurgia. Um processo clínico desorganizado obriga o médico a perder tempo precioso a reconstituir informação que já devia estar disponível.
O consentimento informado
Antes de qualquer cirurgia de implantes, o médico explica ao utente os riscos, as alternativas e o plano proposto, e recolhe o consentimento informado, geralmente por escrito. O TAD:
- Prepara o documento de consentimento para a consulta em que o médico o vai explicar.
- Confirma que o documento está devidamente assinado e arquivado no processo clínico antes da cirurgia.
- Nunca substitui o médico na explicação clínica dos riscos ou das alternativas, mesmo que já tenha ouvido a explicação muitas vezes.
4. Fases clínicas da cirurgia de implantes
A cirurgia de colocação de um implante, sempre executada pelo médico dentista/estomatologista, segue tipicamente uma sequência de etapas. O TAD coadjuva em todas elas, com tarefas concretas de preparação e apoio.
A sequência típica
- Anestesia local, ato exclusivamente médico.
- Incisão e descolamento do retalho de gengiva, quando o caso o exige.
- Fresagem sequencial: preparação do local no osso com brocas de diâmetro progressivamente maior, sob irrigação constante.
- Colocação da fixture, com controlo do torque de inserção pelo motor de implantologia.
- Colocação de um parafuso de cobertura (protocolo em duas fases) ou de um pilar de cicatrização (protocolo numa fase), seguida da sutura.
Para cada uma destas etapas existe material e instrumentos próprios, que o TAD prepara antecipadamente e disponibiliza à medida que a cirurgia avança, sem que o médico precise de interromper o trabalho para procurar seja o que for.
Uma ou duas fases, carga imediata ou diferida
Consoante o caso clínico, o médico escolhe entre diferentes protocolos de tratamento:
| Protocolo | O que significa |
|---|---|
| Uma fase | a fixture fica com um pilar de cicatrização visível na gengiva desde o início |
| Duas fases | a fixture fica coberta pela gengiva, fechada com um parafuso de cobertura; uma pequena intervenção posterior (reabertura) expõe o implante |
| Carga imediata | a prótese (geralmente provisória) é colocada até uma semana após a cirurgia |
| Carga precoce | a prótese é colocada entre uma semana e dois meses após a cirurgia |
| Carga convencional (diferida) | a prótese só é colocada mais de dois meses após a cirurgia, depois de o implante cicatrizar sem carga |
Estes intervalos são os definidos pelas conferências de consenso do International Team for Implantology (ITI) e servem para dar nome aos protocolos; não são um calendário a aplicar por defeito. A escolha depende da qualidade e da quantidade de osso disponível, da posição na arcada dentária, da estabilidade inicial obtida e do critério clínico do médico. Não existe uma opção "melhor" em abstrato: cada protocolo responde a um conjunto diferente de condições clínicas, e o calendário exato de cada caso nunca é decidido pelo TAD.
Evita generalizar prazos ou protocolos de um caso para outro. Cada sistema de implantes e cada situação clínica têm as suas próprias recomendações, definidas pelo fabricante e pelo médico responsável.
Tipos de reabilitação sobre implantes
O número e a disposição dos implantes colocados dependem do tipo de reabilitação planeada pelo médico:
| Reabilitação | Descrição geral |
|---|---|
| Coroa unitária | um único implante substitui um único dente |
| Prótese parcial fixa | vários implantes suportam uma ponte fixa, substituindo vários dentes seguidos |
| Prótese total fixa | um número reduzido de implantes suporta uma arcada dentária completa fixa |
| Prótese removível sobre implantes (overdenture) | uma prótese removível encaixa sobre implantes através de sistemas de retenção próprios |
O TAD não decide qual destas soluções se aplica a cada utente, mas precisa de reconhecer qual está prevista no plano de tratamento, porque isso determina o número de implantes a preparar, os componentes protéticos necessários e a complexidade da fase de impressão.
5. Sistemas de implantes e componentes protéticos
Os diferentes fabricantes de implantes oferecem sistemas próprios, com instrumentos, chaves e componentes específicos. Um dos elementos que distingue os sistemas é o tipo de ligação entre a fixture e o pilar:
- Hexágono externo: uma saliência hexagonal na parte superior da fixture, sobre a qual encaixa o pilar.
- Hexágono interno: um encaixe hexagonal dentro da própria fixture, geralmente mais estável à rotação.
- Cone morse: um encaixe cónico de fricção entre a fixture e o pilar, com boa vedação e elevada estabilidade.
Regra de ouro em implantologia: um kit, um sistema. Nunca se misturam componentes de fabricantes ou sistemas diferentes, mesmo que pareçam compatíveis à vista.
Os componentes protéticos essenciais
| Componente | Função |
|---|---|
| Parafuso de cobertura (tampa) | fecha e protege o interior da fixture enquanto esta fica submersa sob a gengiva |
| Pilar de cicatrização | molda o contorno da gengiva à volta do futuro pilar definitivo |
| Análogo de laboratório | reproduz, no modelo de trabalho, a posição exata do implante na boca |
| Transferente (transfer) | regista a posição exata do implante na impressão, a enviar depois ao laboratório |
| Pilar protético | suporte definitivo sobre o qual assenta a coroa ou a prótese |
| Parafuso protético | fixa o pilar ou a coroa à fixture |
Conhecer com precisão estes nomes é indispensável: são os termos que aparecem nas prescrições, nas guias de trabalho do laboratório e nas embalagens dos componentes, e um erro de identificação pode significar ter de repetir todo um passo clínico.
6. Instrumentos, motor de implantologia e kit cirúrgico
O tabuleiro cirúrgico de implantologia
Um tabuleiro típico de cirurgia de implantes inclui, entre outros elementos:
- Bisturi e lâminas, para a incisão.
- Descolador de periósteo, para afastar cuidadosamente a gengiva do osso.
- Curetas cirúrgicas e afastadores de tecidos moles.
- Kit de fresas de diâmetro crescente, específico do sistema de implantes utilizado.
- Chave dinamométrica (torquímetro), para controlar o torque de inserção da fixture.
- Porta-agulhas, tesoura de sutura e o fio de sutura escolhido para o caso.
- Cânula de aspiração cirúrgica, distinta da cânula usada em dentisteria comum.
A montagem correta do tabuleiro, organizado pela ordem exata em que os instrumentos vão ser usados, é uma das tarefas de preparação mais importantes do TAD antes de qualquer cirurgia de implantes.
O motor de implantologia
O motor de implantologia é um equipamento dedicado, distinto do motor de dentisteria comum, com três características centrais:
- Permite controlar a velocidade de rotação e o torque, ajustados a cada etapa (fresagem ou inserção da fixture).
- Tem irrigação incorporada, geralmente com soro fisiológico estéril e frio, para arrefecer a broca e o osso durante a fresagem.
- Trabalha com uma peça de mão cirúrgica (contra-ângulo redutor), por exemplo de relação 20:1, que reduz a velocidade e aumenta a força de rotação na ponta da fresa.
A razão de tanto cuidado com a temperatura é biológica: os estudos clássicos de Eriksson e Albrektsson mostraram que aquecer o osso a cerca de 47 °C durante cerca de 1 minuto já é suficiente para provocar necrose óssea, o que compromete a osteointegração. Por isso a fresagem faz-se a velocidade baixa, com fresas afiadas, em sequência progressiva de diâmetros e com irrigação abundante. - Regista o torque final de inserção, um dado clínico relevante para avaliar a estabilidade inicial do implante.
Os valores concretos de rotação e de torque para cada etapa vêm sempre das instruções do fabricante do sistema de implantes utilizado, e são definidos pelo médico. O TAD nunca os fixa por si; o que garante é que o equipamento está calibrado, montado e a irrigar corretamente.
Preparar o motor para a consulta
Antes da cirurgia, o TAD confirma:
- Que o motor está calibrado e a funcionar corretamente, conforme o manual do fabricante.
- Que o soro fisiológico e a tubagem de irrigação estão preparados e estéreis.
- Que a peça de mão cirúrgica está montada e a fresa fixa corretamente.
- Que existe uma chave dinamométrica de reserva disponível.
Cuidado e reprocessamento do kit
Os instrumentos de cirurgia de implantes são classificados como material crítico, por entrarem em contacto com osso e tecidos habitualmente estéreis. Isto significa:
- Seguem o circuito de reprocessamento mais exigente, com lavagem, desinfeção e esterilização completa.
- As fresas desgastam-se com o uso e devem ser substituídas de acordo com as indicações do fabricante, nunca "a olho" ou por estimativa própria.
- Devem ser guardadas organizadas por sistema e por diâmetro, para evitar trocas que comprometam a cirurgia.
Um instrumento gasto não é apenas menos eficiente: uma fresa desgastada aumenta o atrito e o aquecimento do osso durante a fresagem, com risco direto para a osteointegração.
Manutenção preventiva do motor e do kit
Retomando o que já estudaste sobre manutenção de equipamentos e reposição de consumíveis, a implantologia tem exigências próprias:
- O motor de implantologia e a respetiva peça de mão cirúrgica seguem um calendário de manutenção preventiva definido pelo fabricante, com verificações e revisões periódicas.
- A tubagem de irrigação deve ser inspecionada regularmente quanto a fugas, obstruções ou degradação do material.
- As fresas e as chaves dinamométricas têm uma vida útil limitada, indicada pelo fabricante, e devem ser repostas antes de atingirem o limite recomendado, nunca apenas quando falham.
- O TAD regista qualquer avaria, desgaste anómalo ou funcionamento irregular, e comunica de imediato ao responsável pela manutenção da clínica.
Uma boa gestão de consumíveis em implantologia significa nunca chegar ao dia da cirurgia a descobrir que falta uma fresa do diâmetro necessário. O controlo de stock antecipado evita este tipo de imprevisto.
7. Preparação da consulta e do campo cirúrgico estéril
A cirurgia de implantes exige o nível de assepsia mais elevado entre as consultas típicas de um consultório dentário. Retomando os princípios de controlo de infeção já estudados, aplicam-se aqui ao seu grau máximo de exigência:
- Campos cirúrgicos estéreis, a cobrir a cadeira e toda a zona de trabalho.
- Equipamento de proteção individual cirúrgico: bata, touca, máscara cirúrgica de alta filtração e luvas estéreis.
- Antissepsia da pele e da mucosa junto ao local a operar, feita pelo médico segundo o protocolo.
- Instrumentos e componentes esterilizados, retirados das respetivas embalagens apenas no momento de uso, nunca com antecedência.
Se recordares a cadeia epidemiológica estudada no controlo de infeção, o campo cirúrgico estéril atua precisamente sobre a via de transmissão: impede que qualquer microrganismo presente no ambiente ou nas mãos chegue ao local exposto pela cirurgia. Tudo isto assenta nas Precauções Básicas de Controlo de Infeção (PBCI, Norma da DGS n.º 029/2012), que se aplicam a todos os utentes, com o reforço de assepsia cirúrgica que a implantologia exige.
Quem está estéril e quem circula
Numa cirurgia de implantes a equipa divide-se em dois papéis, que não se misturam durante o ato:
| Papel | O que faz | O que pode tocar |
|---|---|---|
| Elemento estéril (médico e assistente instrumentista) | trabalha dentro do campo: instrumenta, aspira, afasta | apenas superfícies e objetos estéreis |
| Elemento circulante (segundo assistente, quando existe) | abre embalagens para o campo sem lhes tocar por dentro, vai buscar material, opera comandos não cobertos, faz registos | apenas superfícies não estéreis |
Quando há só um assistente, os comandos do motor e da cadeira são cobertos com proteções estéreis ou acionados pelo pedal, e qualquer material em falta obriga a pedir ajuda ou a trocar de luvas depois de sair do campo. Um gesto que toque numa superfície não estéril contamina as luvas: a regra é assumir a contaminação, avisar e trocar, nunca "fazer de conta" que não aconteceu.
A preparação das mãos antes de calçar luvas estéreis segue o protocolo de higiene cirúrgica das mãos da clínica, e as luvas estéreis calçam-se pela técnica fechada ou aberta aprendida no controlo de infeção, sem tocar com a mão nua na face exterior da luva.
A checklist antes de o utente entrar na sala
Uma checklist seguida ponto a ponto evita esquecimentos que possam atrasar ou comprometer a cirurgia:
- Processo clínico e exames de imagem disponíveis e conferidos.
- Tabuleiro cirúrgico completo, esterilizado e organizado pela ordem de uso.
- Motor de implantologia e sistema de irrigação prontos e testados.
- Componentes protéticos e implante(s) confirmados um a um com a prescrição do médico.
- Material de emergência disponível e acessível, conforme o protocolo da clínica.
Numa clínica com vários sistemas de implantes em uso, o TAD confirma sempre a referência exata do implante prescrito, comparando a embalagem selada com a folha de prescrição do médico, antes de a abrir. Um implante trocado, mesmo do mesmo diâmetro aparente, pode não ter os componentes protéticos compatíveis.
8. Coadjuvação durante a cirurgia
Durante a cirurgia propriamente dita, o TAD trabalha em coordenação constante com o médico, num modelo próximo do trabalho a quatro mãos:
- Aspiração: remove sangue, soro fisiológico e detritos, mantendo o campo sempre visível.
- Irrigação de apoio: reforça, quando necessário, a irrigação do motor durante a fresagem.
- Afastamento de tecidos moles, com afastadores, sem forçar nem sair da posição indicada.
- Passagem de instrumentos, pela sequência prevista, de forma a que o médico não tenha de desviar o olhar do campo cirúrgico.
A comunicação nesta fase é sobretudo não-verbal: gestos, posição dos instrumentos e um protocolo previamente combinado com a equipa, que reduz ao mínimo a necessidade de falar durante o ato clínico.
Segurança durante o ato clínico
- Manuseamento cuidadoso de objetos cortoperfurantes: lâminas, agulhas e fresas usadas.
- Nunca reencapar agulhas com as duas mãos; se for preciso reencapar, usar a técnica de uma só mão ou o dispositivo seguro previsto no protocolo da clínica.
- Descarte imediato de material cortoperfurante no contentor rígido próprio, mantido junto ao posto de trabalho e cheio no máximo até 2/3 (ou até à linha indicada pelo fabricante).
- Atenção permanente a sinais de desconforto do utente, comunicados de imediato ao médico.
Um acidente com material cortoperfurante durante uma cirurgia de implantes tem o mesmo protocolo de resposta imediata estudado no controlo de infeção: comunicação, registo e seguimento clínico, sem exceções nem adiamentos.
Exemplo resolvido · a passagem de instrumentos
Durante a fresagem sequencial, o médico estende a mão sem desviar o olhar do campo cirúrgico, esperando a broca seguinte.
| Momento | Ação do TAD |
|---|---|
| Antes da cirurgia | organizar as fresas na ordem exata de utilização |
| Durante a fresagem | ter a fresa seguinte pronta, identificada e ao alcance |
| Na passagem | colocar o instrumento na mão do médico na posição correta de uso, sem contacto desnecessário |
| Depois de cada fresa | recolher o instrumento usado, sem interromper o fluxo da cirurgia |
Uma equipa bem treinada faz esta sequência de forma quase silenciosa, sem hesitações nem pedidos verbais repetidos.
9. Pós-operatório, cicatrização e osteointegração
Instruções ao utente após a cirurgia
As instruções pós-operatórias são sempre definidas e explicadas pelo médico. O papel do TAD é reforçar essas instruções e entregar o registo escrito, nunca alterá-las nem complementá-las por conta própria. Entre as instruções mais comuns:
- Higiene oral cuidadosa, evitando diretamente a zona operada nos primeiros dias.
- Alimentação mole e fria nas primeiras horas após a cirurgia.
- Aplicação de frio local, quando indicado pelo médico.
- Toma da medicação exatamente como prescrita, sem ajustes por iniciativa própria.
O que é a osteointegração
A osteointegração é a fixação direta e estável do osso à superfície do implante, sem tecido fibroso interposto entre os dois. É a base biológica que permite ao implante suportar, mais tarde, as forças da mastigação.
Este processo demora, tipicamente, algumas semanas a alguns meses, consoante o tipo de osso, a localização na arcada e o sistema de implante utilizado; o calendário exato de cada caso é sempre decidido pelo médico responsável, nunca fixado de antemão pelo TAD. Durante este período, evita-se sobrecarregar o implante antes do tempo indicado.
O sucesso da osteointegração depende também de fatores próprios do utente: hábitos de higiene oral, tabagismo e determinadas doenças sistémicas influenciam significativamente a qualidade e a velocidade da cicatrização óssea.
Um utente fumador é informado pelo médico de que o tabagismo reduz a irrigação sanguínea dos tecidos e pode comprometer a osteointegração. O TAD reforça esta informação, entregando o folheto de instruções, mas não é da sua competência aconselhar sobre cessação tabágica além do que o médico indicou.
10. Consultas de controlo
Nas consultas de controlo, o médico avalia, com apoio direto do TAD na preparação:
- A cicatrização dos tecidos moles à volta do implante ou do pilar de cicatrização.
- A necessidade de remoção de sutura, quando aplicável.
- A estabilidade do implante.
- A necessidade de um exame radiográfico de controlo, para avaliar a integração óssea.
Registo e continuidade do acompanhamento
Cada consulta de controlo fica registada no processo clínico do utente, com data e observações do médico. O calendário destes controlos segue o plano definido caso a caso pelo médico responsável, e o TAD tem um papel ativo em garantir que esse calendário é cumprido:
- Agendar as consultas de controlo conforme o plano definido.
- Preparar a sala e o material necessário para cada tipo de controlo.
- Atualizar o processo clínico com as observações do médico.
- Sinalizar de imediato ao médico qualquer alteração referida pelo utente entre consultas, como dor, inchaço ou sabor estranho na boca.
Mesmo uma consulta de controlo simples se prepara com rigor: material de sutura, se houver pontos a remover, ou apenas o material de observação, se for só uma avaliação visual.
Um percurso típico de controlos, em fases
Sem fixar prazos concretos, que variam sempre por caso e são decididos pelo médico, o acompanhamento de um implante segue tipicamente estas fases:
| Fase de controlo | Foco da avaliação |
|---|---|
| Controlo pós-cirúrgico inicial | cicatrização dos tecidos moles, remoção de sutura se aplicável |
| Controlo intermédio | evolução da cicatrização, ausência de sinais de alarme |
| Controlo antes da fase protética | confirmação da osteointegração, decisão de avançar para a impressão |
| Controlos de manutenção | ao longo de toda a vida do implante, com a periodicidade definida pelo médico |
11. Fase protética
Concluída a osteointegração, inicia-se a fase protética, sempre conduzida clinicamente pelo médico dentista/estomatologista.
O percurso até à coroa definitiva
- Colocação do transferente sobre o implante.
- Impressão, convencional (com material específico numa moldeira) ou digital (com câmara intraoral).
- Remoção do transferente e recolocação do pilar de cicatrização.
- Registo da cor e de outras informações estéticas relevantes.
- Envio do caso, com toda a documentação, ao laboratório de prótese.
Impressão convencional vs digital
| Impressão convencional | Impressão digital | |
|---|---|---|
| Material | pasta específica, aplicada numa moldeira | câmara intraoral (scanner) |
| Registo | físico, transportado ou enviado ao laboratório | ficheiro digital, enviado por rede |
| Vantagem principal | disponível em qualquer consultório | geralmente mais rápida e confortável para o utente |
| Cuidado do TAD | preparar e temporizar corretamente o material | preparar e calibrar corretamente o equipamento digital |
Seja qual for a técnica escolhida, o rigor no registo da posição exata do implante é essencial: um erro nesta fase obriga quase sempre a repetir todo o procedimento, com o incómodo e a perda de tempo que isso implica para o utente.
Moldeira aberta e moldeira fechada
Na impressão convencional sobre implantes há duas técnicas, e cada uma usa um transferente diferente. O TAD tem de saber qual o médico vai usar, porque muda o material a preparar:
| Moldeira fechada | Moldeira aberta | |
|---|---|---|
| Transferente | curto, fica aparafusado ao implante quando se retira a moldeira | mais comprido, com parafuso longo que atravessa a moldeira |
| Moldeira | moldeira comum, sem perfuração | moldeira perfurada (ou individual com janela) na zona do implante |
| Retirar a impressão | a moldeira sai sozinha; o médico desaperta depois o transferente e reposiciona-o na impressão | o médico desaperta o parafuso através da janela e o transferente sai preso dentro do material |
| Onde se usa mais | casos simples, zonas de difícil acesso, abertura de boca reduzida | vários implantes, implantes pouco paralelos, maior exigência de precisão |
Para o TAD, isto traduz-se em: separar os transferentes certos do sistema do implante (e em número igual ao dos implantes), preparar a moldeira adequada (perfurada ou não), ter a chave de aparafusamento do sistema no tabuleiro, preparar o material de impressão (habitualmente um elastómero de precisão, como poliéter ou silicone de adição) respeitando os tempos de trabalho e de presa do fabricante, e, depois de a impressão sair da boca, desinfetá-la segundo o protocolo antes de a enviar ao laboratório, juntamente com os transferentes e os análogos, se o laboratório os pedir.
No fluxo digital, em vez do transferente usa-se um corpo de digitalização (scan body), aparafusado ao implante e lido pelo scanner intraoral. O princípio é o mesmo: registar a posição e a orientação exatas do implante. O TAD confirma que o scan body é do sistema e da plataforma certos e que regressa ao circuito de reprocessamento indicado pelo fabricante.
Prótese provisória e prótese definitiva
Em muitos casos, o utente usa primeiro uma prótese provisória, feita num material mais simples e económico, antes de a prótese definitiva estar pronta. Esta fase intermédia permite:
- Avaliar a estética e a função antes de finalizar a prótese definitiva.
- Dar tempo aos tecidos moles para assentarem à volta da prótese.
- Fazer ajustes que seriam mais difíceis ou mais caros de corrigir já na prótese definitiva.
O TAD prepara o material necessário para a colocação da prótese provisória e reforça junto do utente os cuidados específicos desta fase (por exemplo, evitar alimentos muito duros), sempre de acordo com as indicações dadas pelo médico.
Prótese aparafusada ou cimentada
A prótese sobre implantes pode ficar presa de duas formas, escolhidas pelo médico no plano de tratamento:
| Prótese aparafusada | Prótese cimentada | |
|---|---|---|
| Como fica presa | um parafuso protético fixa a coroa (ou a ponte) diretamente ao implante ou a um pilar intermédio | a coroa é cimentada sobre um pilar, que por sua vez está aparafusado ao implante |
| Vantagem principal | pode ser retirada pelo médico para manutenção ou reparação, sem destruir a prótese | não tem orifício visível na face da coroa |
| Cuidado principal | o orifício de acesso ao parafuso tem de ser fechado | os excessos de cimento têm de ser totalmente removidos, porque cimento esquecido junto da mucosa é um fator de risco de inflamação peri-implantar |
A consulta de entrega da prótese definitiva
Na consulta de colocação, o médico retira o pilar de cicatrização, experimenta a prótese, verifica os contactos com os dentes vizinhos e a oclusão, e aperta o parafuso protético com a chave dinamométrica, ao torque indicado pelo fabricante para aquele componente. O TAD prepara:
- A prótese recebida do laboratório, já conferida com a guia de trabalho e desinfetada segundo o protocolo.
- As chaves do sistema, a chave dinamométrica protética e o parafuso protético novo que acompanha a prótese (o parafuso definitivo não se usa nas provas).
- Papel de articulação e pinça, para o médico verificar a oclusão.
- Na prótese aparafusada: o material para fechar o orifício de acesso, habitualmente uma camada de fita de PTFE (teflon) ou algodão sobre o parafuso e uma resina composta por cima, conforme o protocolo do médico.
- Na prótese cimentada: o cimento escolhido pelo médico, preparado no momento, fio dentário e instrumentos para remoção de excessos.
No fim, o TAD regista no processo clínico o que foi colocado (referências dos componentes protéticos e, quando o médico o indicar, o torque aplicado) e agenda a primeira consulta de controlo e de higiene.
12. Comunicação com o laboratório de prótese
A guia de trabalho
Cada caso enviado ao laboratório de prótese é acompanhado de uma guia de trabalho, com informação que o TAD confirma estar completa antes do envio:
- Identificação do utente e do médico responsável pelo caso.
- Sistema e referência exatos do implante e dos componentes protéticos utilizados.
- Registo de cor, forma e outras indicações estéticas fornecidas pelo médico.
- Prazo de entrega combinado e instruções específicas do caso.
Boas práticas na relação com o laboratório
- Confirmar a receção do caso pelo laboratório e o prazo acordado.
- Manter um canal direto para esclarecer dúvidas rapidamente, por telefone, email ou plataforma própria da clínica.
- Verificar, à chegada da prótese, que corresponde exatamente ao que foi prescrito.
- Arquivar toda a correspondência e as guias de trabalho de cada caso, para consulta futura.
Uma boa comunicação com o laboratório de prótese não é apenas cortesia profissional: evita atrasos, repetições de trabalho e custos extra, tanto para a clínica como para o utente.
Exemplo resolvido · um caso devolvido pelo laboratório
O laboratório de prótese devolve um caso porque a guia de trabalho não especificava o tipo de ligação do implante (hexágono interno ou cone morse).
| Elemento | Análise |
|---|---|
| Causa do problema | informação incompleta na guia de trabalho enviada |
| Consequência | o laboratório não consegue selecionar o análogo correto, obrigando a esclarecer antes de continuar |
| Correção imediata | o TAD confirma a informação em falta junto do processo clínico e reenvia a guia completa |
| Prevenção futura | usar sempre um modelo de guia de trabalho com campos obrigatórios, conferidos antes do envio |
Este tipo de atraso é evitável na quase totalidade dos casos, com uma simples verificação antes de fechar o envio.
13. Complicações e sinais de alarme
O TAD não diagnostica complicações, mas deve reconhecer sinais de alarme e comunicá-los de imediato ao médico. Entre os sinais mais relevantes:
- Dor persistente ou crescente, fora do esperado para a fase de cicatrização.
- Inchaço anormal, vermelhidão ou calor local excessivos.
- Mobilidade do implante ou do pilar de cicatrização.
- Deiscência (abertura da sutura) ou hemorragia fora do previsto.
- Sinais de infeção, como exsudado local ou febre referida pelo utente.
Do sinal à ação do TAD
| Sinal observado | Ação imediata do TAD |
|---|---|
| Dor persistente ou crescente | registar e comunicar ao médico de imediato |
| Inchaço, calor ou vermelhidão excessivos | comunicar ao médico, sem aplicar qualquer tratamento próprio |
| Mobilidade do implante ou do pilar | comunicar de imediato, mesmo fora do horário de consulta de controlo |
| Deiscência ou hemorragia fora do previsto | comunicar de imediato ao médico presente na clínica |
| Exsudado ou febre referida | registar e comunicar ao médico, sem aguardar pela próxima marcação |
Em todos os casos, a ação do TAD é a mesma: observar, registar e comunicar. A avaliação clínica e a decisão terapêutica pertencem sempre ao médico.
Mucosite peri-implantar e peri-implantite
A classificação das doenças periodontais e peri-implantares de 2017 (World Workshop da Academia Americana de Periodontologia e da Federação Europeia de Periodontologia) distingue duas situações, ambas associadas à placa bacteriana:
| Mucosite peri-implantar | Peri-implantite | |
|---|---|---|
| O que é | inflamação da mucosa à volta do implante | inflamação da mucosa à volta do implante com perda progressiva do osso de suporte |
| Sinais típicos | vermelhidão, inchaço, sangramento à sondagem suave | os mesmos sinais, por vezes com supuração e aumento da profundidade de sondagem; perda óssea visível na radiografia |
| Evolução | reversível com controlo da placa | não regride sozinha; exige tratamento pelo médico |
A mucosite é considerada a precursora da peri-implantite, tal como a gengivite o é da periodontite nos dentes naturais. Os fatores de risco mais reconhecidos são a má higiene oral, a história de periodontite e a falta de consultas de manutenção; o tabagismo, a diabetes mal controlada e os excessos de cimento esquecidos junto do implante são também apontados como fatores a vigiar. O TAD tem um papel ativo na prevenção:
- Reforça, sob orientação do médico, as instruções de higiene específica para implantes: escovagem cuidadosa, uso de fio ou escovilhão interdentário adequado.
- Em consultas de controlo, sinaliza ao médico sangramento à sondagem ou acumulação visível de placa bacteriana.
- Nunca decide nem inicia qualquer tratamento por conta própria: o diagnóstico e o plano de tratamento são sempre do médico.
Um implante não é imune a problemas por não ser um dente natural. Pelo contrário, exige cuidados de manutenção específicos e regulares, exatamente como qualquer outra reabilitação dentária.
A consulta de manutenção peri-implantar
As consultas de manutenção repetem-se ao longo de toda a vida do implante, com a periodicidade que o médico define para cada utente (mais curta em quem tem história de periodontite ou higiene deficiente). Numa consulta típica, o médico ou o higienista oral observa a mucosa, sonda à volta do implante, avalia a placa e a oclusão e, quando o médico o indica, pede uma radiografia de controlo para comparar o nível ósseo com o registo anterior. O TAD:
- Prepara o processo clínico com a radiografia de referência anterior, para comparação.
- Prepara os instrumentos próprios para implantes indicados pelo médico (por exemplo, curetas de titânio ou de plástico, que não riscam a superfície do implante nem do pilar) e a sonda periodontal.
- Reforça, com o utente, as técnicas de higiene que o médico ou o higienista ensinaram: escova macia, escovilhões interdentários do tamanho indicado, fio próprio para implantes ou irrigador oral, quando recomendados.
- Regista a data da próxima consulta e confirma o contacto do utente, para que a manutenção não se perca.
14. Higiene, segurança no trabalho e reprocessamento em implantologia
A implantologia reúne, num único procedimento, praticamente todas as exigências de higiene e segurança já estudadas nas UC de controlo de infeção e de reprocessamento de dispositivos médicos, elevadas ao seu grau máximo.
Reprocessamento do material crítico
Todo o instrumental que contacta com osso, sangue ou tecidos normalmente estéreis é classificado como material crítico e segue o circuito de reprocessamento mais exigente:
- Pré-lavagem e lavagem, manual ou automática, imediatamente após o uso.
- Desinfeção, quando aplicável ao tipo de material.
- Acondicionamento em embalagem própria, com indicador de esterilização.
- Esterilização, geralmente em autoclave a vapor, seguindo o ciclo indicado pelo fabricante do equipamento e do instrumento.
- Armazenamento em local limpo e seco, com controlo do prazo de validade da esterilização.
O TAD acompanha todo este circuito, regista os ciclos de esterilização realizados e confirma, antes de cada cirurgia, que o material disponível está dentro do prazo de validade da esterilização.
Equipamento de proteção individual
Para uma cirurgia de implantes, o EPI da equipa é mais completo do que numa consulta de rotina:
| Equipamento | Função |
|---|---|
| Bata cirúrgica estéril | barreira contra contacto com sangue e fluidos |
| Touca | contenção de cabelo, evita contaminação do campo |
| Máscara cirúrgica de alta filtração | proteção respiratória e do campo estéril |
| Luvas estéreis | contacto direto com o campo cirúrgico |
| Proteção ocular ou facial | proteção contra salpicos e aerossóis |
Gestão de resíduos da cirurgia
Os resíduos hospitalares, incluindo os de uma clínica dentária, classificam-se em quatro grupos pelo Despacho n.º 242/96: os grupos I e II são equiparados a urbanos (não perigosos), o grupo III é o dos resíduos de risco biológico e o grupo IV o dos resíduos específicos, que inclui os cortoperfurantes.
- Os resíduos cortoperfurantes (lâminas, agulhas, fresas inutilizadas) são do grupo IV e vão para o contentor rígido próprio, cheio no máximo até 2/3 (ou até à linha do fabricante), nunca para o lixo comum.
- Os resíduos biológicos (gaze e compressas com sangue, campos descartáveis contaminados) são do grupo III e seguem o circuito de risco biológico definido pelo protocolo da clínica.
- O material de proteção individual usado é descartado de acordo com o mesmo protocolo, no final de cada intervenção.
Nenhuma destas exigências é opcional "por falta de tempo". Uma cirurgia de implantes só é segura quando cada elo deste circuito, do reprocessamento ao descarte final, é cumprido sem exceções.
Rastreabilidade do implante
Um implante dentário é um dispositivo médico implantável, abrangido pelo Regulamento (UE) 2017/745, relativo aos dispositivos médicos, executado em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 29/2024; a autoridade competente é o INFARMED. Isto traz obrigações de rastreabilidade que passam diretamente pelas mãos do TAD:
- Etiquetas no processo clínico: cada embalagem de implante (e, habitualmente, de enxertos, membranas e componentes protéticos) traz etiquetas autocolantes com a referência, o lote, a validade e o identificador único do dispositivo (UDI). O TAD cola-as na folha de registo cirúrgico do processo clínico logo que a embalagem é aberta, identificando o local (por exemplo, "implante na posição 36").
- Cartão do implante: o artigo 18.º do Regulamento obriga o fabricante a fornecer um cartão do implante, e a clínica a entregá-lo ao utente preenchido com a identificação do utente, da clínica e a data da colocação. Obturações, coroas e parafusos isolados estão entre os dispositivos dispensados deste cartão, mas os implantes dentários e os seus pilares não.
- Porque importa: se um lote vier a ser alvo de alerta ou recolha, a clínica tem de saber em que utentes foi colocado, e o utente tem de poder mostrar a outro médico que implante tem na boca (sistema, plataforma, diâmetro e comprimento), por exemplo para uma reparação anos depois.
Um implante aberto e não utilizado (por exemplo, porque o médico mudou de diâmetro durante a cirurgia) também se regista, e a embalagem segue as instruções do fabricante; não volta à caixa como se nada fosse.
Erros comuns
- Achar que "preparar" e "coadjuvar" incluem alguma margem para pequenas decisões clínicas por conta própria. Não incluem.
- Misturar componentes de sistemas de implantes diferentes, por parecerem compatíveis visualmente.
- Reutilizar fresas gastas para poupar, ignorando o risco de sobreaquecimento do osso.
- Abrir embalagens estéreis com antecedência, "para adiantar trabalho", comprometendo a esterilidade.
- Confiar apenas na memória para o calendário de consultas de controlo, sem registo nem agenda.
- Aconselhar o utente sobre medicação ou instruções pós-operatórias além do que o médico já explicou.
- Enviar ao laboratório de prótese uma guia de trabalho incompleta ou com a referência do implante mal identificada.
- Ignorar ou "gerir sozinho" um sinal de alarme, em vez de o comunicar de imediato ao médico.
- Deixar passar o prazo de validade da esterilização de um kit sem verificar antes de o abrir.
- Descartar material cortoperfurante fora do contentor próprio, ou reencapar agulhas com as duas mãos.
- Adiar a manutenção preventiva do motor de implantologia "porque ainda está a funcionar".
Glossário
- Fixture: o corpo do implante, colocado cirurgicamente no osso.
- Pilar (abutment): peça intermédia entre a fixture e a prótese.
- Osteointegração: fixação direta e estável do osso à superfície do implante.
- Carga imediata / precoce / convencional: colocação da prótese até uma semana após a cirurgia, entre uma semana e dois meses, ou mais de dois meses depois (definições do ITI).
- Parafuso de cobertura: tampa aparafusada que fecha a fixture enquanto fica submersa sob a gengiva (protocolo em duas fases).
- Mucosite peri-implantar: inflamação da mucosa à volta do implante, sem perda de osso de suporte; reversível.
- Cartão do implante: documento entregue ao utente com a identificação do implante colocado (Regulamento (UE) 2017/745, artigo 18.º).
- Fresagem sequencial: preparação progressiva do local ósseo com brocas de diâmetro crescente.
- Chave dinamométrica (torquímetro): instrumento que controla o torque de inserção do implante.
- Análogo de laboratório: peça que reproduz, no modelo, a posição do implante na boca.
- Transferente (transfer): peça usada para registar a posição do implante na impressão.
- Peri-implantite: inflamação dos tecidos à volta do implante, com perda óssea associada.
- Guia cirúrgica: dispositivo feito à medida que orienta a posição e o ângulo da fresagem.
- Guia de trabalho: documento que acompanha um caso enviado ao laboratório de prótese.
- Material crítico: instrumental que contacta com osso, sangue ou tecidos estéreis e exige esterilização completa.
- Overdenture: prótese removível que encaixa sobre implantes através de sistemas de retenção próprios.
- Deiscência: abertura ou separação de uma sutura antes da cicatrização completa.
Síntese
A implantologia percorre um circuito contínuo: planeamento (com apoio de exames de imagem e, por vezes, guia cirúrgica) → cirurgia (fresagem sequencial, colocação da fixture, sutura, sempre com coadjuvação direta do TAD) → cicatrização e osteointegração (acompanhada em consultas de controlo) → fase protética (impressão, comunicação com o laboratório, entrega da prótese definitiva) → manutenção (higiene específica e controlos regulares ao longo da vida do implante). Em todas as fases, o TAD prepara, coadjuva e comunica, sob supervisão médica constante, sem nunca diagnosticar, prescrever ou executar atos clínicos invasivos.
Exercícios resolvidos
1. Um utente pergunta ao TAD, durante uma consulta de controlo, se pode voltar a fumar normalmente. Como deve responder o TAD?
Resolução: o TAD não dá aconselhamento clínico próprio sobre o tema. Deve informar que essa é uma questão a colocar diretamente ao médico, e sinalizar a dúvida na consulta seguinte ou, se relevante, comunicar de imediato ao médico presente na clínica.
2. Durante a montagem do tabuleiro cirúrgico, o TAD repara que a chave dinamométrica não está disponível. Qual é o procedimento correto?
Resolução: avisar de imediato o médico e procurar uma chave dinamométrica de reserva antes do início da cirurgia. Sem este instrumento não é possível controlar o torque de inserção da fixture, um dado clínico essencial para a estabilidade inicial do implante.
3. Explica a diferença entre carga imediata e carga convencional (diferida), e indica quem decide qual aplicar num caso concreto.
Resolução: na carga imediata, a prótese (geralmente provisória) é colocada até uma semana após a cirurgia; na carga convencional, a prótese só é colocada mais de dois meses depois, quando o implante já cicatrizou sem carga. Entre as duas fica a carga precoce (entre uma semana e dois meses). A escolha depende da estabilidade inicial obtida, da qualidade óssea e do critério clínico, e é sempre decidida pelo médico dentista/estomatologista.
4. Um implante enviado ao laboratório tem uma referência diferente da prescrita pelo médico. Que consequência prática tem este erro?
Resolução: como cada sistema de implantes tem componentes protéticos específicos e não compatíveis entre marcas, uma referência errada obriga normalmente a repetir o registo (impressão) e a guia de trabalho, atrasando a entrega da prótese e obrigando a novo contacto com o laboratório.
5. Numa consulta de controlo, o TAD nota que a gengiva à volta de um implante sangra facilmente ao contacto e tem alguma acumulação de placa. Que deve fazer?
Resolução: sinalizar de imediato o achado ao médico, sem emitir diagnóstico próprio. O sangramento à sondagem e a acumulação de placa são sinais associados ao risco de peri-implantite, cuja avaliação e tratamento cabem exclusivamente ao médico.
6. Antes de uma cirurgia de implantes, o TAD verifica que um kit esterilizado ultrapassou o prazo de validade da esterilização. Que deve fazer?
Resolução: não utilizar o kit em nenhuma circunstância. Deve substituí-lo por outro dentro do prazo de validade e, se necessário, reprocessar e reesterilizar o material antes de uma próxima utilização, registando a ocorrência conforme o protocolo da clínica.
7. Que diferença existe entre um análogo de laboratório e um transferente, e em que momento se usa cada um?
Resolução: o transferente é colocado sobre o implante, na boca do utente, para registar a sua posição exata durante a impressão. O análogo de laboratório é depois inserido no modelo de trabalho, reproduzindo essa mesma posição para que o laboratório construa a prótese com precisão.
8. O médico acabou de colocar um implante na posição 46 e pede ao TAD que "trate da papelada do implante". Que deve o TAD fazer?
Resolução: colar as etiquetas da embalagem do implante (referência, lote, validade, UDI) na folha de registo cirúrgico do processo clínico, indicando a posição 46 (primeiro molar inferior direito); fazer o mesmo com as etiquetas de enxertos ou membranas, se tiverem sido usados; preencher o cartão do implante com os dados do utente, da clínica e a data, e entregá-lo ao utente, explicando que o deve guardar e mostrar a qualquer médico dentista que o venha a tratar.
9. O médico indica que vai fazer uma impressão de dois implantes pouco paralelos com a técnica de moldeira aberta. O que muda na preparação do TAD, em relação a uma moldeira fechada?
Resolução: o TAD separa dois transferentes de moldeira aberta do sistema e da plataforma certos (com os parafusos longos), prepara uma moldeira perfurada ou com janela na zona dos implantes, tem no tabuleiro a chave de aparafusamento do sistema e prepara o material de impressão respeitando os tempos do fabricante. Depois de a impressão sair, com os transferentes presos no material, desinfeta-a segundo o protocolo e envia-a ao laboratório com a guia de trabalho e os análogos, se pedidos.