Sebenta · Assistir o médico dentista em atos de cirurgia oral (UC04010)
- Introdução
- 1. O papel do/a técnico/a assistente dentário na cirurgia oral
- 2. Tipos de intervenções de cirurgia oral
- 3. Procedimentos pré-operatórios
- 4. Preparar o consultório e a sala para o ato cirúrgico
- 5. Instrumentos e materiais de exodontia
- 6. Instrumentos de tecidos moles, hemostasia e biópsia
- 7. A técnica a quatro mãos: coadjuvar o médico dentista
- 8. Exodontia simples e complexa
- 9. Exérese de tecidos moles e duros
- 10. Biópsia: acondicionamento e preservação de peças
- 11. Cuidados pós-operatórios imediatos e instruções ao doente
- 12. Normas de higiene e segurança no trabalho
- 13. Emergências médicas durante a cirurgia
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara-te para assistir o médico dentista em atos de cirurgia oral: exodontias simples e complexas, exérese de tecidos moles e duros, e biópsias. É uma UC de coordenação e rigor, mais do que de conhecimento teórico isolado: aprende-se a preparar tudo antes do ato, a acompanhar o médico dentista durante a intervenção sem nunca ultrapassar os limites da profissão, e a garantir que uma peça de biópsia chega ao laboratório em condições de dar um diagnóstico fiável.
O fio condutor de todos os blocos é sempre o mesmo: o/a técnico/a assistente dentário prepara, coadjuva, acondiciona e reporta. Nunca diagnostica, nunca prescreve e nunca executa atos clínicos invasivos. Este limite não é uma restrição arbitrária, é o que distingue uma profissão técnica de uma profissão clínica, e aparece referido explicitamente no referencial desta UC.
O contexto de trabalho é o consultório dentário, com o médico dentista ou estomatologista a decidir e a executar o ato, e o/a técnico/a assistente dentário a garantir que tudo funciona à volta desse ato: instrumentos certos, sequência certa, campo operatório visível, e o destino correto de cada peça de tecido que sai da boca do doente.
Objetivos de aprendizagem (referencial): executar todos os procedimentos pré-operatórios; preparar equipamentos, instrumentos e materiais adequados a cada intervenção cirúrgica; coadjuvar o médico dentista/estomatologista nas etapas de uma intervenção cirúrgica; e acondicionar e preservar peças de biópsia para análise laboratorial.
1. O papel do/a técnico/a assistente dentário na cirurgia oral
A cirurgia oral reúne os atos cirúrgicos realizados na cavidade oral no âmbito do consultório dentário: exodontias, pequenas exéreses de tecidos moles e duros, e biópsias. É diferente da cirurgia oral e maxilofacial, uma especialidade médica que trata intervenções mais complexas, muitas vezes em meio hospitalar. Esta UC cobre o primeiro conjunto, o que se faz habitualmente num consultório dentário.
O/a técnico/a assistente dentário atua sempre sob orientação e supervisão do médico dentista. A sua atuação enquadra-se em quatro realizações do referencial: executar procedimentos pré-operatórios, preparar equipamentos e materiais, coadjuvar o médico dentista durante o ato, e acondicionar peças de biópsia. Nenhuma destas realizações inclui decidir, diagnosticar ou operar.
Limites da intervenção
| Compete ao/à técnico/a assistente dentário | Não lhe compete |
|---|---|
| preparar o consultório, os instrumentos e os materiais | diagnosticar a necessidade do ato cirúrgico |
| coadjuvar o médico dentista durante o ato, seguindo os procedimentos internos | prescrever medicação ou escolher a técnica cirúrgica |
| acondicionar e preservar peças de biópsia para análise | executar atos clínicos invasivos |
| aplicar as normas de higiene e segurança no trabalho | decidir sozinho/a alterar um procedimento em curso |
| reportar de imediato qualquer situação de risco | interpretar resultados de exames laboratoriais |
Reportar é uma aptidão exigida pelo referencial, tal como noutras UC deste curso: um instrumento avariado, um espécime mal identificado, uma reação inesperada do doente ou uma dúvida sobre um procedimento comunicam-se de imediato ao médico dentista, nunca se resolvem sozinho/a "para não incomodar".
A equipa cirúrgica
Numa intervenção de cirurgia oral, a equipa mínima é o médico dentista (decide e executa) e o/a técnico/a assistente dentário (coadjuva). Em intervenções mais longas ou complexas pode existir um segundo elemento de apoio. A comunicação entre a equipa segue procedimentos internos definidos pela clínica, muitas vezes reduzidos a sinais combinados, para não interromper o ato com frases longas.
2. Tipos de intervenções de cirurgia oral
O referencial agrupa as intervenções desta UC em quatro grandes tipos, que se repetem ao longo dos blocos seguintes:
| Intervenção | O que é | Exemplo típico |
|---|---|---|
| Exodontia simples | extração de um dente sem incisão de retalho nem remoção de osso | dente com raiz íntegra e acessível |
| Exodontia complexa (cirúrgica) | extração com incisão de retalho, remoção de osso ou secção do dente | raiz fraturada, dente incluso ou impactado |
| Exérese de tecidos moles | remoção cirúrgica de uma lesão ou estrutura de tecido mole | frenectomia, lesão da mucosa oral |
| Exérese de tecidos duros | remoção cirúrgica de tecido ósseo | torus, exostose |
A biópsia não é um quinto tipo separado: é o destino que se dá a um tecido removido em qualquer um dos atos anteriores, sempre que é necessário confirmar em laboratório o que aquele tecido é. Por isso a biópsia atravessa toda a UC, em vez de ficar confinada a um único bloco.
Exemplo resolvido · classificar uma intervenção
O médico dentista vai remover um torus palatino que incomoda o doente ao usar uma prótese. Que tipo de intervenção é esta, e porquê?
É uma exérese de tecidos duros: o alvo é tecido ósseo (o torus), não um dente nem uma lesão de tecido mole. A preparação do assistente aproxima-se da de uma exodontia complexa (retalho, instrumentos de osso, sutura), mas o instrumento primário e o critério clínico são diferentes.
Quando uma lesão justifica biópsia
A decisão de enviar tecido para biópsia é sempre do médico dentista, mas o/a técnico/a assistente dentário beneficia de conhecer os sinais gerais que costumam motivar essa decisão, para se antecipar na preparação do material:
- uma lesão que não cicatriza no tempo esperado após a causa aparente ter sido removida;
- uma lesão com aspeto, cor ou textura fora do habitual para a zona onde surge;
- uma lesão persistente, que se mantém ao longo de várias consultas de controlo;
- qualquer situação em que o médico dentista, pelo seu critério clínico, considere prudente confirmar o diagnóstico em laboratório.
Nenhum destes sinais é, por si só, motivo para o assistente sugerir uma biópsia: a lista serve apenas para que a preparação do material não apanhe ninguém desprevenido quando o médico dentista a pede.
3. Procedimentos pré-operatórios
Executar todos os procedimentos pré-operatórios é uma realização explícita do referencial, e o ponto de partida de qualquer ato cirúrgico. Antes de o doente entrar no gabinete:
- Confirmar que o processo clínico está atualizado e disponível, com os exames complementares (por exemplo, radiografias) anexados.
- Verificar que existe consentimento informado assinado pelo doente para o ato previsto.
- Confirmar a identificação do doente e do ato agendado, evitando qualquer ambiguidade.
- Organizar o gabinete e a bandeja de acordo com o tipo de intervenção agendada, seguindo o que se detalha no bloco seguinte.
Nada disto é decisão clínica: é verificação e organização, para que o médico dentista comece o ato sem interrupções nem imprevistos evitáveis.
Preparar o doente
Com o gabinete pronto, prepara-se o doente:
- Posicionar o doente na cadeira, conforme a zona a intervencionar.
- Colocar babete e, se indicado pelo protocolo, proteção ocular.
- Dar bochecho com solução antissética, quando o protocolo da clínica o previr.
- Confirmar com o doente alergias e medicação já registadas no processo, sem alterar nem validar clinicamente essa informação: confirmar é reler em voz alta e verificar que o doente concorda, não é reavaliar.
- Garantir que o doente está confortável e informado sobre os passos seguintes, em linguagem simples e sem detalhes técnicos que só ao médico dentista compete transmitir.
Exemplo resolvido · checklist antes de uma exodontia simples agendada
O/a técnico/a assistente dentário confirma, em cinco minutos, antes de o doente entrar:
- Processo clínico aberto no ecrã, com a radiografia do dente a extrair visível.
- Consentimento informado assinado, com a data de hoje.
- Bandeja de exodontia simples montada e conferida (ver bloco 5).
- Aspirador e luz operacional, testados no arranque do dia.
- Cadeira limpa e desinfetada, com barreiras descartáveis colocadas.
Só depois de confirmados estes cinco pontos é que o doente é chamado ao gabinete. Se algum falhar, resolve-se antes, nunca durante o ato já em curso.
4. Preparar o consultório e a sala para o ato cirúrgico
Preparar o consultório para o ato cirúrgico é, ao mesmo tempo, uma realização e um critério de desempenho explícitos do referencial. As regras de higiene e controlo de infeção estudadas noutra UC deste curso aplicam-se aqui na íntegra, com uma exigência acrescida: um ato cirúrgico expõe tecidos internos, e por isso o consultório tem de estar num nível de assepsia superior ao de uma consulta de rotina.
Antes do ato:
- Limpar e desinfetar as superfícies de contacto direto (cadeira, unidade dentária, tabuleiro, foco).
- Colocar barreiras de proteção descartáveis nos pontos de maior manuseamento (pega do foco, botões da unidade, cabo da seringa ar/água).
- Confirmar que os instrumentos esterilizados estão disponíveis, na embalagem intacta e dentro do prazo ou das condições definidas pelo protocolo da clínica, e que o material de apoio clínico está reposto.
- Verificar o funcionamento do aspirador cirúrgico, da luz e, quando aplicável, da unidade cirúrgica dedicada a cirurgia.
O princípio que orienta toda esta fase é simples de enunciar e exigente de cumprir: está tudo pronto antes de o doente entrar, nunca a montar-se material a meio do ato.
Organizar a bandeja por sequência de uso
A bandeja organiza-se pela ordem em que os instrumentos vão ser usados, e não ao acaso nem por tamanho:
[Diagnóstico/anestesia] → [Sindesmotomia/luxação] → [Extração/exérese] → [Hemostasia/sutura]
- Instrumentos de diagnóstico e anestesia ficam mais próximos do início da sequência de uso.
- Instrumentos de extração ou exérese ficam disponíveis para a fase intermédia do ato.
- Material de hemostasia e sutura fica pronto para o fecho, sem precisar de ser procurado a meio da intervenção.
Uma bandeja bem organizada facilita metade do trabalho de coadjuvação: o assistente já sabe, sem pensar, o que vem a seguir, e o médico dentista não precisa de esperar.
Exemplo resolvido · montar a bandeja de uma exodontia simples
Pela sequência de uso: espelho e sonda (observação inicial), material de anestesia montado pelo assistente (seringa tipo carpule, agulha e cartucho do anestésico que o médico dentista indicar), sindesmótomo, dois elevadores de tamanhos diferentes, o boticão correspondente ao dente a extrair, cureta alveolar, compressas estéreis, e um kit de sutura de reserva, mesmo que não previsto.
A reserva de sutura não é excesso de zelo: se a extração se complicar a meio, o assistente já tem o material pronto, sem interromper o ato para ir buscar mais.
O campo estéril e as barreiras de proteção
Além da bandeja de instrumentos, um ato de cirurgia oral pede um campo estéril à volta da zona de trabalho: campos cirúrgicos estéreis (de tecido ou descartáveis) colocados sobre o peito e os ombros do doente, e por vezes sobre o apoio de cabeça, delimitando visualmente a área que se mantém livre de contaminação durante o ato. O assistente coloca este campo antes de o médico dentista iniciar, e mantém-se atento para que ninguém o toque com as mãos não esterilizadas ao longo da intervenção.
As barreiras descartáveis nos pontos de maior manuseamento (pega do foco, botões da unidade dentária, cabo da seringa ar/água) completam este cuidado: numa cirurgia, o número de vezes que a equipa toca nestes pontos com as luvas contaminadas de sangue é maior do que numa consulta de rotina, o que torna estas barreiras ainda mais relevantes.
A cadeia asséptica: zona estéril, zona não estéril, instrumentista e circulante
Num ato cirúrgico, a sala divide-se mentalmente em duas zonas que nunca se misturam:
- Zona estéril: o campo cirúrgico sobre o doente, a bandeja aberta, os instrumentos, as compressas, o fio de sutura e as mãos enluvadas de quem está "desinfetado" para o ato. Só se toca com material estéril.
- Zona não estéril: tudo o resto, incluindo a unidade dentária, o foco, os armários, o teclado, o processo clínico e a embalagem exterior dos materiais.
Quando existem dois elementos de apoio, as funções dividem-se:
| Função | Veste | O que faz |
|---|---|---|
| Instrumentista | higiene cirúrgica das mãos, bata e luvas estéreis, máscara, touca e proteção ocular | trabalha dentro da zona estéril: organiza a bandeja, transfere instrumentos, aspira, afasta tecidos |
| Circulante | EPI de consulta (luvas de exame, máscara, proteção ocular) | fica na zona não estéril: abre as embalagens deixando cair o conteúdo sobre o campo sem lhe tocar, fornece soro e material extra, ajusta o foco e o equipamento, atende o telefone e regista |
Quando o/a técnico/a assistente dentário trabalha sozinho/a com o médico dentista, assume a função de instrumentista e prepara antes do início tudo o que um circulante lhe passaria, precisamente para não ter de sair da zona estéril a meio.
Regras que sustentam a cadeia asséptica:
- As luvas estéreis calçam-se depois da higiene das mãos, sem tocar na face exterior da luva com a mão nua.
- Mãos enluvadas estéreis ficam acima da cintura e à frente do corpo, longe de superfícies não estéreis.
- Uma embalagem abre-se afastando as abas do corpo, e só se o indicador de esterilização tiver virado e o invólucro estiver seco e intacto.
- Material estéril que caia ao chão, que toque numa superfície não estéril ou cuja esterilidade suscite dúvida considera-se contaminado e substitui-se, sem discussão.
- Se a luva estéril for tocada por algo não estéril ou se rasgar, o/a instrumentista informa o médico dentista e troca de luvas antes de voltar a tocar no campo.
Este cuidado é a tradução prática do critério de desempenho "de acordo com as boas práticas e procedimentos internos em vigor": uma única quebra da cadeia asséptica pode transformar uma cirurgia bem executada numa infeção pós-operatória.
Exemplo resolvido · checklist de sala para uma exérese de tecido duro
Antes de uma exérese de torus palatino, o assistente confirma:
- Superfícies de contacto direto limpas, desinfetadas e com barreiras descartáveis colocadas.
- Campo estéril colocado sobre o doente depois de este estar sentado e posicionado na cadeira já preparada, e bandeja estéril aberta só no momento de iniciar, para não ficar exposta.
- Kit alargado disponível: instrumentos de osteotomia, afastador, porta-agulhas e sutura, além do material de exodontia.
- Aspirador cirúrgico testado, com ponta fina disponível para trabalho junto ao osso.
- Frasco de biópsia preparado com antecedência, caso o médico dentista decida enviar a peça óssea para análise.
O quinto ponto ilustra bem o princípio da UC: preparar para a hipótese mais exigente, mesmo quando a intervenção pode não a confirmar.
5. Instrumentos e materiais de exodontia
Preparar equipamentos, instrumentos e materiais adequados a cada intervenção é uma realização central desta UC, e começa por conhecer bem cada instrumento e a sua função.
| Instrumento | Função |
|---|---|
| Sindesmótomo | rompe as fibras gengivais e a porção superficial do ligamento periodontal à volta do dente, antes da luxação |
| Alavanca/elevador | luxa o dente, alargando o espaço no alvéolo |
| Boticão/fórceps | agarra a coroa ou a raiz e completa a extração |
| Cureta cirúrgica (alveolar) | limpa o alvéolo após a extração, removendo restos de tecido; a mais conhecida é a cureta de Lucas |
Os boticões variam por grupo dentário e arcada: existe um desenho próprio para incisivos, para caninos, para pré-molares e para molares superiores e inferiores, entre outros. Usar o boticão errado para o grupo dentário dificulta a preensão e aumenta o risco de fratura da raiz.
Preparar o kit de exodontia
O assistente confirma, antes do ato, que o kit de exodontia tem:
- Espelho intraoral e sonda, para observação inicial.
- Sindesmótomo, elevadores de tamanhos diferentes e boticões adequados ao dente previsto.
- Cureta cirúrgica e compressas estéreis.
- Material de sutura, disponível mesmo quando a intervenção não o prevê à partida.
Instrumentos adicionais de exodontia complexa e de exérese de tecido duro
Quando o dente ou a estrutura a remover exige acesso ao osso, o kit de exodontia simples não chega. Juntam-se:
| Instrumento | Função |
|---|---|
| Bisturi | incisão do retalho de tecido mole, para expor o osso |
| Descolador de periósteo | separa o periósteo do osso, sem o rasgar, ao levantar o retalho |
| Cinzel e martelo cirúrgico, ou peça de mão cirúrgica | remoção controlada de osso, conforme o equipamento da clínica |
| Lima óssea | alisa arestas ósseas depois da remoção, evitando irritar o tecido mole ao fechar |
| Seringa de irrigação | aplica soro fisiológico estéril durante o corte de osso, para arrefecer e limpar a zona (nunca a água da unidade dentária) |
O assistente prepara este material com antecedência sempre que existe qualquer suspeita de que a intervenção possa exigir acesso ósseo, ainda que a decisão final seja do médico dentista.
Instrumentos em pormenor: os nomes que vais ouvir no consultório
Os médicos dentistas pedem muitas vezes os instrumentos pelo nome do modelo. Conhecer estes nomes poupa segundos preciosos durante o ato:
| Nome que vais ouvir | O que é | Para que serve |
|---|---|---|
| Alavanca de Bein | elevador reto, com ponta em goiva | luxação inicial, introduzido entre a raiz e o osso |
| Alavancas de Winter | par de elevadores em cruz, com ponta triangular (esquerda e direita) | remoção de raízes, sobretudo em molares inferiores, apoiando no alvéolo vizinho |
| Boticões superiores | bicos no prolongamento dos cabos, retos ou em baioneta, alguns em forma de "S" | dentes da arcada superior; os de molares superiores são próprios para o lado direito ou esquerdo |
| Boticões inferiores | bicos em ângulo aproximadamente reto com os cabos | dentes da arcada inferior |
| Boticão de raízes | bicos estreitos e finos | restos radiculares |
| Cureta de Lucas | cureta alveolar de dupla ponta | limpeza do alvéolo depois da extração |
| Pinça goiva | pinça cortante de osso, com cabos de mola | recortar e regularizar rebordos ósseos |
| Lima de osso | lima de dupla ponta | alisar arestas ósseas antes da sutura |
| Cabo de bisturi n.º 3 com lâminas 15, 15C ou 12 | a 15 é a lâmina de trabalho mais usada; a 15C é mais estreita, para zonas de acesso difícil; a 12, em forma de foice, serve incisões por distal dos últimos dentes | incisão do retalho |
| Descolador de periósteo (por exemplo, de Molt) | instrumento de ponta romba e larga | levantar o retalho mucoperiósteo |
| Afastador de Minnesota | afastador curvo, com recorte | afastar bochecha, lábio e retalho em simultâneo |
| Afastador de Farabeuf | afastador em forma de "L", com duas extremidades | afastar lábio e comissuras |
| Porta-agulhas (por exemplo, de Mayo-Hegar) | pinça com cremalheira que trava | segurar a agulha de sutura com firmeza |
| Pinça de dissecção (Adson) | pinça fina, com ou sem dentes | segurar o bordo do retalho durante a sutura |
| Cânula de aspiração cirúrgica | cânula fina e estéril | aspirar sangue no alvéolo e sob o retalho |
Os boticões e as alavancas escolhem-se sempre em função do dente que o médico dentista vai extrair: confirmar na marcação e na radiografia qual é o dente (em notação FDI, por exemplo 36, primeiro molar inferior esquerdo, ou 18, terceiro molar superior direito) permite pôr em cima da bandeja o boticão certo, e não apenas "um de molares".
Exemplo resolvido · escolher o boticão pela notação FDI
A marcação do dia indica "exodontia do 46" e, a seguir, "exodontia do 55" numa criança. Que boticões se preparam?
- O 46 é o primeiro molar inferior direito (quadrante 4, dente 6): prepara-se um boticão de molares inferiores, com bicos em ângulo com os cabos, e, como reserva, alavancas de Winter para o caso de a coroa fraturar e ficarem raízes.
- O 55 é o segundo molar decíduo superior direito (quadrante 5, decíduo superior direito, dente 5): prepara-se um boticão infantil para molares superiores, de dimensões mais pequenas.
A escolha do boticão a usar é do médico dentista; o assistente garante que as opções certas estão na bandeja antes de o doente se sentar.
6. Instrumentos de tecidos moles, hemostasia e biópsia
Para exérese de tecidos moles e para fechar qualquer ferida cirúrgica, o instrumentário muda de família:
| Instrumento | Função |
|---|---|
| Bisturi e lâmina | incisão dos tecidos moles |
| Tesoura cirúrgica | corte de tecidos e de fio de sutura |
| Pinça de dissecção | segura e afasta o tecido sem o esmagar |
| Porta-agulhas | segura a agulha de sutura com firmeza |
| Fio de sutura | aproxima os bordos da ferida |
| Afastador | mantém o campo visível, afastando bochecha ou língua |
Hemostasia
- Compressas e gaze estéril: absorvem sangue e aplicam-se com pressão para controlar hemorragia.
- Agentes hemostáticos locais: usados pelo médico dentista quando a compressão simples não é suficiente; o assistente prepara-os e disponibiliza-os, nunca decide quando aplicá-los.
Suturas: absorvíveis e não absorvíveis
O fio de sutura vem numa embalagem estéril com a agulha já montada. O rótulo indica o material, o calibre e o tipo de agulha, e é por esse rótulo que o assistente confirma que abre o fio que o médico dentista pediu.
| Tipo | Exemplos de material | O que acontece depois |
|---|---|---|
| Absorvível | poliglactina 910, ácido poliglicólico, catgut crómico | o organismo degrada o fio ao longo de dias ou semanas; muitas vezes não precisa de ser removido |
| Não absorvível | seda, poliamida (nylon), polipropileno, PTFE | o fio mantém-se até ser removido pelo médico dentista na consulta de controlo |
- O calibre indica-se em zeros: quanto mais zeros, mais fino o fio. Em cirurgia oral são frequentes os calibres 3/0, 4/0 e 5/0, mas a escolha é sempre do médico dentista.
- A agulha mais usada na boca é curva (por exemplo, 3/8 de círculo), presa no porta-agulhas na transição entre o terço médio e o terço posterior (o lado do fio), longe da ponta.
- O assistente abre a embalagem para o campo estéril, entrega o porta-agulhas já com a agulha montada se essa for a regra da clínica, afasta os tecidos e corta o fio no comprimento pedido.
- A remoção dos pontos é feita pelo médico dentista na consulta de controlo, habitualmente alguns dias depois, na data que ele marcar. O assistente prepara a tesoura e a pinça e regista a remoção no processo.
- A agulha de sutura, depois de usada, é um cortoperfurante: sai do campo com o porta-agulhas e vai diretamente para o contentor rígido, nunca fica solta sobre a bandeja nem se "arruma" à mão.
Material de biópsia
- Pinça de biópsia: remove ou segura a peça de tecido a enviar para análise.
- Frasco com solução fixadora: recebe de imediato a peça, evitando a sua degradação até chegar ao laboratório. O acondicionamento detalha-se no bloco 10.
Preparar este material é sempre uma tarefa do assistente. A decisão clínica de o usar, e quando, é sempre do médico dentista.
O aspirador cirúrgico e as suas cânulas
O aspirador é, ao lado da bandeja de instrumentos, o equipamento mais usado pelo assistente durante todo o ato. Existem cânulas diferentes para situações diferentes:
- Cânula larga de alto volume: para aspirar grandes volumes de saliva, água e sangue, a mesma que se usa em qualquer consulta; numa cirurgia usa-se na versão esterilizada ou descartável estéril.
- Cânula cirúrgica fina (tipo Frazier): para aspirar sangue e fluidos junto de um campo cirúrgico pequeno, dentro do alvéolo ou sob o retalho, sem tapar a visão do médico dentista nem tocar em tecido que não deve ser tocado.
Escolher a cânula certa para o momento certo é parte de "manusear os equipamentos, instrumentos e materiais com destreza e segurança", um critério de desempenho explícito do referencial.
7. A técnica a quatro mãos: coadjuvar o médico dentista
Coadjuvar o médico dentista nos diferentes procedimentos realizados durante os atos cirúrgicos é, junto com a preparação, a realização mais transversal desta UC. A técnica a quatro mãos organiza o trabalho de forma a que médico dentista e assistente atuem em simultâneo, sem se atrapalharem:
- Cada um ocupa uma posição fixa à volta da cadeira, definida pelo tipo de procedimento e pelos procedimentos internos da clínica.
- O assistente mantém o campo operatório visível: aspira fluidos, afasta tecidos moles, ajusta a luz sempre que necessário.
- A transferência de instrumentos faz-se de forma direta e previsível, sem obrigar o médico dentista a desviar o olhar do campo operatório.
O objetivo não é apenas conforto: reduzir o tempo do ato reduz também o desconforto do doente e o cansaço acumulado da equipa ao longo do dia.
Transferir instrumentos e manter o campo
- O instrumento passa-se na zona de transferência, sobre a parte superior do peito do doente, abaixo do queixo, e nunca por cima da face do doente.
- O assistente entrega o instrumento já orientado para uso imediato, na posição correta da mão de quem o vai usar.
- A aspiração acompanha sempre de perto o instrumento em uso, sem tapar a visão do médico dentista sobre o campo operatório.
- Sinais combinados, verbais curtos ou gestuais, substituem frases longas durante o ato, reduzindo interrupções.
Exemplo resolvido · sequência de transferência numa exodontia simples
O médico dentista termina a anestesia e estende a mão sem olhar para o tabuleiro. O assistente:
- Já retirou o sindesmótomo do tabuleiro, orientado corretamente.
- Entrega-o na zona de transferência, sem obrigar o médico dentista a procurar a pega.
- Enquanto o médico dentista trabalha, prepara já o elevador seguinte, na mão livre ou pronto a alcançar.
- Mantém a aspiração próxima da ponta ativa, sem a interpor entre o olhar do médico dentista e o dente.
Nenhum destes passos exige que o assistente fale: a antecipação substitui a conversa.
Posições de trabalho à volta da cadeira
As posições da equipa à volta da cadeira descrevem-se com a analogia de um mostrador de relógio, visto de cima, com a cabeça do doente no centro e as 12 horas atrás da cabeça. Para um médico dentista destro:
| Zona | Horas | O que acontece |
|---|---|---|
| Zona do operador | das 7 às 12 | onde o médico dentista se senta e se movimenta, conforme a zona da boca |
| Zona estática | das 12 às 2 | carrinho ou móvel com material que não circula entre as mãos |
| Zona do assistente | das 2 às 4 | onde o assistente se senta, ligeiramente mais alto, com a aspiração e a seringa ar/água |
| Zona de transferência | das 4 às 7 | sobre o peito do doente, abaixo do queixo, onde passam instrumentos e materiais |
Para um médico dentista canhoto, as zonas espelham-se: operador das 12 às 5, zona estática das 10 às 12, assistente das 8 às 10 e transferência das 5 às 8.
Estas posições não são rígidas: adaptam-se ao procedimento concreto e aos procedimentos internos de cada clínica, mas o princípio mantém-se, cada elemento da equipa tem uma zona própria, para que os movimentos de ambos sejam previsíveis um para o outro.
8. Exodontia simples e complexa
Etapas de uma exodontia simples
- Anestesia, administrada pelo médico dentista; o assistente prepara o material e aspira quando necessário.
- Sindesmotomia: rompe as fibras gengivais à volta do dente.
- Luxação: com o elevador, alarga o espaço no alvéolo.
- Extração: com o boticão, remove-se o dente.
- Cureta: limpa o alvéolo de restos ósseos ou de tecido de granulação.
- Hemostasia: compressão com compressa estéril, o doente morde para manter a pressão.
O assistente acompanha cada etapa, aspirando, afastando tecidos moles e tendo pronto o instrumento seguinte, na sequência descrita no bloco 4.
A anestesia local: o que o assistente prepara e o que não faz
A anestesia local é um ato clínico: quem escolhe o anestésico e quem anestesia é sempre o médico dentista. O papel do assistente é preparar o material e garantir que a seringa circula com segurança.
- Confirmar com o médico dentista qual o anestésico a usar (com ou sem vasoconstritor) e verificar no cartucho o nome, a concentração, o prazo de validade e a integridade: sem fissuras, sem êmbolo saliente, sem turvação nem bolhas grandes. Um cartucho duvidoso põe-se de lado e informa-se.
- Montar a seringa tipo carpule: introduzir o cartucho, engatar o arpão no êmbolo (nas seringas aspirativas) e enroscar a agulha descartável do comprimento que o médico dentista indicar, curta ou longa conforme a técnica.
- Afrouxar a tampa da agulha sem a retirar, para que o médico dentista a remova no momento de usar.
- Transferir a seringa abaixo do queixo do doente, fora do seu campo de visão, para não aumentar a ansiedade, e nunca por cima da face.
- Depois da injeção, a agulha nunca se reencapa com as duas mãos: usa-se a técnica de uma só mão (a agulha "pesca" a tampa pousada na bandeja) ou um dispositivo porta-tampas. A agulha é desenroscada com o próprio dispositivo ou com uma pinça, e vai diretamente para o contentor de cortoperfurantes.
- Registar no processo o anestésico e o número de cartuchos usados, conforme o médico dentista indicar.
Se o doente referir, durante ou depois da anestesia, palpitações, tonturas, falta de ar, comichão ou inchaço, o assistente informa de imediato o médico dentista e prepara o material de emergência (ver bloco 13).
Corte de osso e odontossecção: irrigação e peça de mão
Sempre que o médico dentista corta osso ou divide um dente, o calor produzido pela broca pode lesar o osso. Por isso:
- A irrigação faz-se com soro fisiológico estéril, em seringa ou em sistema de irrigação do motor cirúrgico, e nunca com a água da unidade dentária, que não é estéril.
- O assistente irriga o local de corte de forma contínua e aspira em simultâneo, com a cânula fina, sem tapar a visão do médico dentista.
- Em cirurgia com retalho usa-se um motor cirúrgico ou peça de mão cirúrgica que não expele ar para o campo operatório. As turbinas convencionais, que libertam ar comprimido junto à broca, podem forçar ar para dentro dos tecidos e provocar enfisema subcutâneo (inchaço súbito com crepitação ao toque). Se o assistente notar um inchaço súbito da face durante o ato, informa de imediato o médico dentista.
- As brocas cirúrgicas são estéreis e contam-se no fim: uma broca partida ou em falta reporta-se ao médico dentista antes de o doente sair.
Quando a exodontia se torna complexa
Uma exodontia é complexa (cirúrgica) quando exige, por exemplo:
- Incisão de retalho, para aceder à raiz ou ao osso.
- Osteotomia, remoção de uma pequena porção de osso.
- Odontossecção, divisão do dente em partes para facilitar a remoção.
- Sutura, para reaproximar o retalho no final.
Situações típicas: raiz fraturada durante a exodontia, dente incluso ou impactado, raízes muito curvas ou divergentes.
O papel do assistente numa exodontia complexa
- Preparar o kit alargado: bisturi, afastador, material de osteotomia, porta-agulhas e sutura, além do kit de exodontia simples.
- Afastar o retalho com o afastador, mantendo o campo visível durante toda a intervenção.
- Manter a aspiração contínua, especialmente relevante quando há mais sangramento e uso de irrigação.
- Apoiar a sutura final: cortar o fio no comprimento indicado pelo médico dentista, sem decidir o número ou o tipo de pontos.
Aviso. A decisão de classificar uma exodontia como simples ou complexa é sempre clínica, do médico dentista. O assistente prepara-se para ambas as hipóteses sempre que existe incerteza prévia, em vez de assumir a mais simples "para poupar trabalho".
Situações inesperadas e o papel do assistente
Mesmo numa exodontia planeada como simples, pode surgir um imprevisto: uma raiz que fratura, uma hemorragia mais persistente do que o habitual, ou um doente que reage de forma inesperada à anestesia. Nestes momentos, o papel do assistente não muda de natureza, apenas de intensidade:
- Manter a calma e continuar a fornecer o instrumento seguinte que a nova situação exigir, mesmo que não estivesse na sequência inicial prevista.
- Reforçar a aspiração e a visibilidade do campo, que se tornam ainda mais críticas quando algo corre fora do esperado.
- Reportar de imediato ao médico dentista qualquer sinal preocupante que note no doente, sem esperar que lhe perguntem.
- Nunca tentar resolver sozinho/a a situação nem sugerir ao médico dentista que "experimente" uma técnica alternativa: a decisão clínica em situações inesperadas exige ainda mais concentração do médico dentista, e cabe inteiramente a ele.
9. Exérese de tecidos moles e duros
Exérese de tecidos moles
A exérese de tecidos moles remove cirurgicamente uma estrutura ou lesão da mucosa oral. Exemplos frequentes:
- Frenectomia: remoção ou reposicionamento de um freio labial ou lingual demasiado curto ou inserido de forma inadequada.
- Exérese de lesão da mucosa: remoção de uma lesão para tratamento e, muitas vezes, também para diagnóstico, através de uma biópsia excisional.
O assistente prepara bisturi, afastador, pinça de dissecção, aspiração e material de sutura, e coadjuva como em qualquer intervenção de tecidos moles descrita no bloco 7.
Exérese de tecidos duros
A exérese de tecidos duros remove tecido ósseo excedente ou alterado. Exemplos frequentes:
- Torus: uma saliência óssea benigna, frequente no palato ou na face interna da mandíbula.
- Exostose: crescimento ósseo localizado na superfície de um osso.
A preparação assemelha-se à de uma exodontia complexa (retalho, instrumentos de osso, sutura), mas o alvo é o osso, não um dente. O assistente mantém o mesmo papel de sempre: campo visível, aspiração contínua e instrumentos disponíveis na sequência certa.
Aviso. Uma exérese de tecido duro produz hemorragia tão relevante como uma exodontia, por vezes mais. A hemostasia não se descura só porque o alvo é osso e não um dente.
10. Biópsia: acondicionamento e preservação de peças
Assim que uma peça de tecido é removida pelo médico dentista, acondicionar e preservar peças de biópsia para análise laboratorial é uma realização explícita do referencial, e um dos momentos em que um erro do assistente pode invalidar toda a cirurgia.
Tipos de biópsia
- Biópsia incisional: remove-se apenas uma parte da lesão, suficiente para diagnóstico.
- Biópsia excisional: remove-se a lesão na totalidade, com finalidade diagnóstica e terapêutica ao mesmo tempo.
O primeiro passo crítico
Assim que a peça é removida, deve entrar de imediato no recipiente com solução fixadora indicada pelo laboratório de anatomia patológica, para não se degradar antes da análise. Quanto mais tempo a peça fica fora da solução fixadora, mais se compromete o resultado.
Onde não houver certeza sobre a concentração, o volume ou o tipo exato de solução fixadora a usar, segue-se sempre o rótulo do frasco fornecido pelo laboratório ou o protocolo escrito da clínica, nunca um valor decorado ou "de memória". Estas indicações variam entre laboratórios e mudam ao longo do tempo, e é o rótulo do frasco fornecido que tem sempre a versão correta.
O fixador e os cuidados com a peça
Na grande maioria das biópsias orais, o fixador fornecido pelo laboratório é formol tamponado a 10%, em frasco de boca larga já cheio. Regras gerais, sempre subordinadas às instruções do laboratório:
- O volume de fixador deve ser muito superior ao da peça, habitualmente 10 a 20 vezes o volume do tecido, para que a fixação chegue a todo o fragmento.
- A peça não se esmaga com a pinça, não se deixa secar em cima de uma compressa e não se coloca em soro, água ou álcool "só por uns minutos": qualquer destes erros altera o tecido e pode tornar a análise impossível.
- Se o médico dentista marcar a orientação da peça (por exemplo, com um ponto de sutura num dos bordos), a marcação vai registada na requisição tal como ele a indicar.
- Quando o médico dentista pede um estudo especial (por exemplo, imunofluorescência), o formol pode ser o fixador errado: nesse caso o laboratório indica um meio de transporte próprio, que se confirma antes do ato.
- O frasco guarda-se à temperatura ambiente, bem fechado e na vertical, até à recolha. Não se congela nem se coloca no frigorífico, salvo indicação expressa do laboratório.
O formol é uma substância perigosa: irritante para os olhos, a pele e as vias respiratórias, e classificado como cancerígeno. Manuseia-se com luvas e proteção ocular, com o frasco aberto o menor tempo possível e em local ventilado. Um derrame limpa-se de acordo com a ficha de dados de segurança do produto, e os frascos vazios ou com restos seguem o circuito de resíduos químicos definido pela clínica, nunca o lavatório.
Identificação, requisição e envio
Uma peça de biópsia sem identificação inequívoca não serve para nada, por melhor que tenha sido a cirurgia que a produziu. O acondicionamento inclui sempre:
- Etiqueta no frasco: identificação do doente, local anatómico da peça e data.
- Requisição de anatomia patológica preenchida com os dados clínicos relevantes, exatamente como o médico dentista os indicar.
- Confirmação de que o frasco está bem fechado, sem fugas da solução fixadora.
- Registo do envio, conforme os procedimentos internos, até à entrega ao laboratório ou ao estafeta responsável pelo transporte.
Exemplo resolvido · acondicionar corretamente uma peça de biópsia excisional
O médico dentista remove uma lesão da mucosa jugal e entrega a peça ao assistente. Sequência correta:
- Colocar a peça de imediato no frasco com a solução fixadora já preparada antes do ato (ver bloco 6).
- Fechar bem o frasco e confirmar que não há fugas.
- Etiquetar com o nome do doente, o local anatómico ("mucosa jugal esquerda") e a data.
- Preencher a requisição de anatomia patológica com os dados clínicos que o médico dentista indicar.
- Registar o envio e guardar o frasco em local seguro até à recolha ou entrega ao laboratório.
Se duas biópsias forem colhidas no mesmo dia, cada uma tem o seu frasco e a sua etiqueta próprios, preenchidos imediatamente a seguir à recolha, nunca "todas ao mesmo tempo no fim do dia": é precisamente nesse intervalo que as trocas acontecem.
Aviso. Qualquer dúvida sobre a identificação de uma peça reporta-se de imediato ao médico dentista, antes de a enviar. Trocar a identificação de duas biópsias significa atribuir um diagnóstico ao doente errado, uma consequência muito grave para um erro de organização evitável.
11. Cuidados pós-operatórios imediatos e instruções ao doente
Depois do ato, o assistente continua a apoiar, sempre sem prescrever:
- Reforça as instruções escritas que o médico dentista já deu ao doente: morder a compressa o tempo indicado, aplicar frio local, alimentação mole nas primeiras horas, evitar bochecho vigoroso e sucção (palhinha, cigarro).
- Observa o doente até a hemostasia estar confirmada, antes de o deixar sair da cadeira.
- Reporta de imediato ao médico dentista qualquer sinal fora do esperado: hemorragia persistente, mal-estar súbito, reação inesperada ao anestésico ou a outro procedimento.
- Regista e arruma: instrumentos usados encaminham-se para o circuito de reprocessamento, resíduos são triados conforme o protocolo, e o consultório fica pronto para o doente seguinte.
O assistente nunca prescreve nem altera as instruções dadas pelo médico dentista, mesmo quando o doente insiste em pedir um conselho adicional: a resposta correta é encaminhar a dúvida ao médico dentista, não improvisar.
Sinais que justificam reportar de imediato
| Sinal observado no doente | Ação do assistente |
|---|---|
| Hemorragia que não para com a compressão simples | reportar de imediato ao médico dentista, sem tentar outra solução por conta própria |
| Mal-estar súbito, tonturas ou palidez acentuada | reportar de imediato e manter o doente confortável, sem o deixar sozinho |
| Inchaço ou dor que o doente descreve como muito superior ao esperado | reportar ao médico dentista antes de o doente sair do consultório |
| Dúvida do doente sobre a medicação ou os cuidados a ter | encaminhar a dúvida ao médico dentista, nunca responder com uma indicação própria |
Esta tabela não substitui o critério clínico do médico dentista: é uma referência para que o assistente nunca hesite em reportar por achar que "talvez não seja nada".
Exemplo resolvido · acompanhar a saída de um doente após exodontia complexa
O doente terminou uma exodontia complexa com sutura, e prepara-se para sair. O assistente confirma, antes de o deixar ir:
- A compressão com compressa mantém-se firme e a hemorragia está controlada.
- As instruções escritas foram entregues e lidas em voz alta com o doente, com espaço para perguntas.
- O doente sabe identificar os sinais que justificam voltar à clínica ou contactar de imediato.
- A marcação da consulta de controlo, se aplicável, ficou confirmada.
Só depois destes quatro pontos confirmados é que o doente sai do consultório, nunca antes.
O conteúdo habitual das instruções escritas
As instruções pós-operatórias são do médico dentista e entregam-se por escrito. O assistente conhece o conteúdo típico destas folhas para as poder reler com o doente, sem acrescentar nem retirar nada:
| Tema | Indicação habitual |
|---|---|
| Compressa | manter a compressa mordida com pressão firme cerca de 30 minutos; se voltar a sangrar, repetir com uma compressa limpa |
| Frio | aplicar frio no exterior da face, de forma intermitente, nas primeiras horas, com um pano entre o gelo e a pele |
| Bochechos | não bochechar nem cuspir com força nas primeiras 24 horas, para não deslocar o coágulo |
| Sucção | não usar palhinha e não fumar, porque a sucção e o tabaco perturbam o coágulo e a cicatrização |
| Alimentação | alimentos moles e frios ou mornos no primeiro dia, mastigando do lado oposto |
| Esforço | evitar esforço físico intenso no dia da cirurgia e dormir com a cabeça ligeiramente elevada |
| Higiene | escovar os restantes dentes com cuidado, evitando a zona operada no primeiro dia |
| Medicação | tomar apenas a medicação prescrita pelo médico dentista, nas doses e horários da receita |
| Controlo | comparecer na consulta marcada, incluindo a remoção de pontos quando existam |
Sinais de alarme e alveolite
A folha de instruções indica também os sinais que justificam contactar a clínica. Os mais frequentes:
- hemorragia que não para após repetir a compressão com compressa;
- inchaço que aumenta muito depois do segundo ou terceiro dia, febre ou pus;
- dificuldade em abrir a boca, em engolir ou em respirar;
- dor intensa que aparece ou piora dois a quatro dias depois da extração, muitas vezes com mau hálito e mau sabor, e com o alvéolo sem coágulo visível.
Este último quadro é típico da alveolite (osteíte alveolar), uma complicação em que o coágulo se perde ou se desfaz e o osso do alvéolo fica exposto. É mais frequente em fumadores e em exodontias de molares inferiores. O tratamento é decidido e executado pelo médico dentista; o assistente, quando um doente telefona com estas queixas, regista os dados e marca a consulta conforme o médico dentista indicar, sem aconselhar medicação nem bochechos.
Exemplo resolvido · o doente que telefona no terceiro dia
Um doente liga à clínica três dias depois da extração do 38: diz que a dor, que estava a melhorar, piorou muito e que sente mau gosto na boca. O que faz o assistente?
- Regista o nome, o dente operado, a data da cirurgia e as queixas, tal como o doente as descreve.
- Não sugere medicação, bochechos nem remédios caseiros.
- Informa de imediato o médico dentista, referindo que o quadro coincide com os sinais de alarme da folha de instruções.
- Marca a consulta com a urgência que o médico dentista indicar e confirma com o doente a hora.
O assistente reconhece o padrão para não deixar passar o aviso, mas quem diagnostica uma alveolite é o médico dentista.
12. Normas de higiene e segurança no trabalho
A prevenção e controlo de infeção e as normas de segurança e saúde no trabalho, estudadas noutra UC deste curso, aplicam-se a toda a cirurgia oral, do início ao fim:
- Equipamento de proteção individual completo durante o ato, escolhido conforme o risco do procedimento.
- Higiene das mãos nos momentos definidos, incluindo sempre depois da remoção das luvas.
- Reprocessamento correto dos instrumentos usados: lavagem, desinfeção e/ou esterilização conforme a classificação de Spaulding de cada instrumento.
- Triagem de resíduos por grupo de risco, incluindo os cortoperfurantes usados numa cirurgia (agulhas, lâminas de bisturi).
- Reporte imediato de qualquer exposição acidental a sangue ou saliva durante o ato.
A cirurgia oral é, dos contextos do consultório, um dos que mais expõe a equipa a sangue e a aerossóis, por isso é também um dos que mais exige rigor nestas normas.
Reprocessamento do instrumentário cirúrgico
No fim de cada ato, todo o instrumentário usado (boticões, elevadores, curetas, bisturi, porta-agulhas, afastadores) é considerado crítico, na classificação de Spaulding, por ter contactado com tecido mole ou osso: segue sempre para esterilização, nunca apenas para desinfeção. O circuito de reprocessamento, do sujo para o limpo, é o mesmo estudado noutra UC deste curso, e aplica-se aqui sem exceções, mesmo quando o dia está cheio e o instrumentário parece "pouco sujo".
Precauções Básicas de Controlo de Infeção em cirurgia
A base de todas estas normas são as Precauções Básicas de Controlo de Infeção (PBCI), definidas pela Direção-Geral da Saúde na Norma n.º 029/2012. Aplicam-se a todos os doentes, independentemente do diagnóstico conhecido, porque qualquer doente pode ser portador de uma infeção sem o saber. Na cirurgia oral, as PBCI traduzem-se em:
- Higiene das mãos antes e depois de cada doente, antes de calçar luvas e depois de as retirar, e higiene cirúrgica das mãos antes de calçar luvas estéreis.
- EPI adequado ao risco: máscara, proteção ocular ou viseira, bata ou avental e luvas; luvas estéreis e bata estéril para quem trabalha no campo cirúrgico.
- Prática segura com cortoperfurantes: agulhas, lâminas de bisturi, agulhas de sutura e brocas nunca se passam de mão em mão soltas, nunca se reencapam com as duas mãos e descartam-se de imediato, por quem as usou, no contentor rígido.
- Controlo ambiental: limpeza e desinfeção das superfícies entre doentes.
- Etiqueta respiratória e colocação adequada dos doentes.
- Gestão correta de roupa, resíduos e equipamento clínico.
Cortoperfurantes e lâmina de bisturi
- O contentor de cortoperfurantes é rígido, resistente à perfuração, com tampa, e fica ao alcance de quem trabalha, na vertical. Enche-se no máximo até 2/3 da capacidade ou até à linha indicada pelo fabricante, e fecha-se definitivamente antes de ser retirado.
- A lâmina de bisturi monta-se e desmonta-se com o porta-agulhas ou com um removedor de lâminas próprio, nunca com os dedos, e com a ponta virada para longe do corpo.
- Numa exposição acidental (picada, corte ou salpico de sangue para os olhos ou a boca): lavar de imediato a zona com água e sabão (ou irrigar abundantemente a mucosa com água ou soro), não espremer a ferida, informar logo o médico dentista e o responsável da clínica, e seguir o protocolo interno de encaminhamento, que exige avaliação médica rápida, nas primeiras horas.
Triagem de resíduos
Os resíduos hospitalares, que incluem os de uma clínica dentária, classificam-se em quatro grupos (Despacho n.º 242/96):
| Grupo | O que é | Exemplos numa cirurgia oral | Acondicionamento |
|---|---|---|---|
| I | equiparados a urbanos | embalagens de papel e plástico não contaminadas | saco preto |
| II | hospitalares não perigosos | material não contaminado sem risco biológico | saco preto |
| III | hospitalares de risco biológico | compressas, luvas, campos e cânulas contaminados com sangue | saco branco com indicativo de risco biológico |
| IV | hospitalares específicos, de incineração obrigatória | cortoperfurantes (agulhas, lâminas, agulhas de sutura), fármacos rejeitados | contentor rígido para cortoperfurantes; restantes em saco vermelho |
Limpeza e higienização depois do ato
Garantir a limpeza e higienização dos equipamentos, instrumentos e materiais, e do consultório, é um critério de desempenho explícito do referencial. No fim de cada cirurgia, e ainda de luvas e EPI:
- Descartar os cortoperfurantes no contentor rígido, antes de qualquer outra tarefa.
- Separar os resíduos por grupo e retirar as barreiras descartáveis.
- Colocar o instrumentário usado num contentor fechado para transporte à zona de reprocessamento, sem o separar à mão, e iniciar a pré-lavagem conforme o protocolo (por exemplo, imersão em detergente enzimático).
- Aspirar uma solução própria pelo sistema de aspiração, para o limpar, conforme o fabricante.
- Limpar e desinfetar as superfícies de contacto (cadeira, unidade, foco, tabuleiro, pegas), com o desinfetante e o tempo de contacto indicados no rótulo.
- Retirar o EPI pela ordem correta, fazer a higiene das mãos, e só então colocar novas barreiras e preparar o doente seguinte.
No reprocessamento, os instrumentos críticos seguem para esterilização em autoclave de vapor, depois de lavados, inspecionados, secos e embalados, com o ciclo validado do equipamento (por exemplo, 134 °C durante pelo menos 3 minutos de tempo de patamar, ou 121 °C durante pelo menos 15 minutos, conforme o fabricante). Cada embalagem leva o indicador químico e a identificação do ciclo, para garantir a rastreabilidade.
13. Emergências médicas durante a cirurgia
A ansiedade, o jejum, a dor e os fármacos tornam a cirurgia oral um dos momentos em que é mais provável um doente sentir-se mal na cadeira. As decisões clínicas numa emergência são do médico dentista; o assistente tem, ainda assim, um papel decisivo: reconhecer cedo, avisar, ligar para o 112 quando lhe for pedido, trazer o material de emergência e o DAE, e registar.
| Situação | Sinais que o assistente pode notar | Papel do assistente |
|---|---|---|
| Síncope vasovagal (desmaio) | palidez, suores, tonturas, náuseas, perda de consciência breve | avisar o médico dentista; retirar da boca o que estiver solto; ajudar a colocar o doente deitado de costas com as pernas elevadas; desapertar a roupa; ficar junto do doente |
| Hipoglicemia (em diabéticos, jejum prolongado) | suores, tremores, confusão, irritabilidade, fome | avisar o médico dentista; se o doente estiver consciente e conseguir engolir, dar açúcar por via oral (sumo, pacote de açúcar) conforme o médico dentista indicar; nunca dar nada pela boca a um doente inconsciente |
| Reação alérgica grave (anafilaxia) | comichão, manchas vermelhas, inchaço dos lábios ou da língua, falta de ar, pieira, queda da tensão | avisar de imediato; ligar para o 112; trazer o kit de emergência; a adrenalina intramuscular é administrada pelo médico dentista, nunca pelo assistente |
| Paragem cardiorrespiratória | não responde e não respira normalmente | ligar para o 112, trazer o DAE e iniciar ou apoiar o suporte básico de vida |
Suporte básico de vida com DAE no adulto
Segundo as recomendações do European Resuscitation Council (ERC 2021, mantidas nas recomendações de 2025 quanto a estes pontos):
- Garantir a segurança e avaliar se a vítima responde.
- Se não responde, permeabilizar a via aérea e verificar se respira normalmente, durante no máximo 10 segundos.
- Se não respira normalmente, ligar 112 (em alta voz) e pedir o DAE.
- Iniciar compressões torácicas: centro do tórax, profundidade de 5 a 6 cm, ritmo de 100 a 120 por minuto.
- Alternar 30 compressões com 2 insuflações, se treinado para as fazer.
- Assim que o DAE chegar, ligá-lo e seguir as instruções de voz, reduzindo ao mínimo as pausas nas compressões.
Numa cadeira dentária, o doente deita-se na horizontal, com o encosto totalmente reclinado; se a cadeira não der apoio firme, coloca-se o doente no chão. O SBV só deve ser praticado por quem teve formação certificada: esta secção não substitui essa formação, que a clínica deve garantir a toda a equipa.
O kit de emergência
O assistente conhece a localização do kit de emergência, do oxigénio e do DAE, e verifica-os com a periodicidade definida pela clínica: prazos de validade dos fármacos, carga da bateria e elétrodos do DAE, pressão da garrafa de oxigénio, máscaras e insufladores de vários tamanhos. Um kit incompleto descoberto num dia normal é uma nota no registo; descoberto numa emergência pode custar uma vida.
Erros comuns
- Achar que "coadjuvar" inclui tomar decisões clínicas em situações urgentes ou inesperadas.
- Confundir exérese (termo geral para remoção cirúrgica de tecido) com exodontia (especificamente, extração de um dente).
- Montar a bandeja sem confirmar antes qual é exatamente a intervenção agendada.
- Deixar de preparar material de sutura numa exodontia "simples" só porque em teoria não vai ser preciso.
- Entregar um instrumento ao médico dentista virado na direção errada, obrigando-o a reorientá-lo.
- Retirar a aspiração cedo demais, antes de o campo estar limpo o suficiente para o médico dentista continuar.
- Atrasar a preparação do frasco de biópsia por achar que "se calhar não vai ser preciso".
- Etiquetar várias peças de biópsia todas juntas no fim do dia, em vez de cada uma logo a seguir à recolha.
- Acrescentar conselhos próprios às instruções pós-operatórias que o médico dentista já deu ao doente.
- Não reportar uma situação de risco por parecer "pouco grave" ou por receio de incomodar.
Glossário
- Cirurgia oral: conjunto de atos cirúrgicos realizados na cavidade oral no consultório dentário, como exodontias, exéreses e biópsias.
- Exodontia: extração de um dente.
- Exodontia complexa (cirúrgica): exodontia com incisão de retalho, remoção de osso ou secção do dente.
- Exérese: remoção cirúrgica de um tecido ou de uma estrutura.
- Sindesmótomo: instrumento que rompe as fibras gengivais e a porção superficial do ligamento periodontal antes da luxação de um dente.
- Elevador/alavanca: instrumento que luxa o dente, alargando o espaço no alvéolo.
- Boticão/fórceps: instrumento que agarra o dente e completa a extração.
- Cureta cirúrgica: instrumento usado para limpar o alvéolo após a extração.
- Retalho: porção de tecido mole descolada cirurgicamente para aceder ao osso ou à raiz.
- Osteotomia: remoção cirúrgica de uma porção de osso.
- Odontossecção: divisão de um dente em partes, para facilitar a sua remoção.
- Frenectomia: remoção ou reposicionamento cirúrgico de um freio labial ou lingual.
- Torus: saliência óssea benigna, frequente no palato ou na mandíbula.
- Exostose: crescimento ósseo localizado na superfície de um osso.
- Biópsia incisional: remoção de parte de uma lesão, para diagnóstico.
- Biópsia excisional: remoção total de uma lesão, com finalidade diagnóstica e terapêutica.
- Solução fixadora: líquido em que se coloca de imediato uma peça de biópsia, para a preservar até à análise.
- Requisição de anatomia patológica: documento com os dados clínicos que acompanha a peça de biópsia até ao laboratório.
- Técnica a quatro mãos: método de trabalho coordenado entre médico dentista e assistente, com posições e transferências de instrumentos definidas.
- Zona de transferência: espaço sobre o peito do doente, abaixo do queixo (das 4 às 7 horas para um médico dentista destro), onde se passam os instrumentos, nunca por cima da face.
- Hemostasia: conjunto de procedimentos para controlar uma hemorragia.
- Instrumentista: elemento da equipa que trabalha dentro da zona estéril, com bata e luvas estéreis.
- Circulante: elemento da equipa que fica na zona não estéril e fornece material ao campo sem lhe tocar.
- Alveolite: complicação pós-extração em que o coágulo se perde e o osso do alvéolo fica exposto, com dor intensa que surge alguns dias depois.
- Enfisema subcutâneo: entrada de ar nos tecidos moles, por exemplo por uma turbina que expele ar para o campo cirúrgico.
- PBCI: Precauções Básicas de Controlo de Infeção, aplicáveis a todos os doentes (Norma DGS n.º 029/2012).
- Formol tamponado a 10%: fixador mais usado nas biópsias orais; substância perigosa, manuseada com luvas e proteção ocular.
Síntese
Assistir o médico dentista em atos de cirurgia oral segue sempre a mesma lógica: preparar tudo antes do ato, do consultório à bandeja organizada por sequência de uso, coadjuvar durante a intervenção através da técnica a quatro mãos, mantendo o campo visível e antecipando o instrumento seguinte, e acondicionar com rigor qualquer peça enviada para biópsia, com identificação inequívoca desde o primeiro segundo. Os quatro tipos de intervenção (exodontia simples, exodontia complexa, exérese de tecidos moles, exérese de tecidos duros) partilham este mesmo ciclo, com variações no instrumentário e no grau de exigência. Ao longo de tudo isto, o/a técnico/a assistente dentário mantém-se dentro dos seus limites de intervenção, aplica as normas de higiene e segurança, e reporta de imediato qualquer situação de risco, em vez de decidir sozinho/a.
Exercícios resolvidos
1. Distingue exodontia simples de exodontia complexa, com um exemplo de cada.
Resolução: a exodontia simples extrai o dente sem incisão de retalho nem remoção de osso, por exemplo um dente com raiz íntegra e acessível. A exodontia complexa (cirúrgica) exige incisão de retalho, remoção de osso ou secção do dente, por exemplo na extração de um dente incluso ou de uma raiz fraturada.
2. Um colega monta a bandeja de uma exodontia colocando todos os instrumentos ao acaso, para depois "ir escolhendo". O que está errado?
Resolução: a bandeja deve organizar-se pela sequência de uso (diagnóstico e anestesia, sindesmotomia e luxação, extração, hemostasia e sutura), não ao acaso. Montá-la sem ordem obriga o assistente a procurar o instrumento certo durante o ato, atrasando a intervenção e aumentando o desconforto do doente.
3. Explica o princípio da técnica a quatro mãos e porque é que a aspiração nunca deve tapar a visão do médico dentista.
Resolução: a técnica a quatro mãos organiza o trabalho de médico dentista e assistente em simultâneo, com posições fixas e transferência direta de instrumentos pela zona de transferência. A aspiração acompanha de perto o instrumento em uso precisamente para manter o campo limpo e visível; se tapar a visão, atrapalha o próprio objetivo que serve.
4. O médico dentista remove uma lesão da mucosa jugal para biópsia excisional. Descreve os passos corretos de acondicionamento da peça.
Resolução: colocar a peça de imediato na solução fixadora já preparada, fechar bem o frasco e confirmar que não há fugas, etiquetar com o nome do doente, o local anatómico e a data, preencher a requisição de anatomia patológica com os dados clínicos indicados pelo médico dentista, e registar o envio até à entrega ao laboratório.
5. Porque é que se prepara sempre material de sutura numa exodontia classificada como "simples"?
Resolução: porque uma exodontia pode complicar-se durante o ato (por exemplo, com fratura da raiz), passando a exigir sutura mesmo que não estivesse prevista à partida. Ter o material pronto evita interromper o ato para o ir buscar, reduzindo o tempo de exposição do campo operatório e o desconforto do doente.
6. Um/a técnico/a assistente dentário nota que uma peça de biópsia não tem etiqueta legível. O que deve fazer?
Resolução: deve reportar de imediato a situação ao médico dentista, e não enviar a peça para o laboratório sem identificação corrigida. Uma peça sem identificação inequívoca compromete o diagnóstico e pode ser atribuída ao doente errado.
7. Que diferença existe entre exérese de tecidos moles e exérese de tecidos duros, e o que têm em comum na preparação do assistente?
Resolução: a exérese de tecidos moles remove uma lesão ou estrutura da mucosa (por exemplo, uma frenectomia); a exérese de tecidos duros remove tecido ósseo (por exemplo, um torus). Em ambas, o assistente mantém o mesmo papel: preparar o instrumentário certo, manter o campo visível, garantir aspiração contínua e apoiar a hemostasia e a sutura finais.
8. O médico dentista acabou de anestesiar o doente e devolve-te a seringa. Como a tratas?
Resolução: a agulha não se reencapa com as duas mãos. Reencapa-se com a técnica de uma só mão (a agulha "pesca" a tampa pousada na bandeja) ou com um dispositivo porta-tampas, e pousa-se a seringa na bandeja em posição segura se o médico dentista ainda a for usar. No fim, a agulha desenrosca-se com o dispositivo ou com uma pinça e vai diretamente para o contentor rígido de cortoperfurantes, que se enche no máximo até 2/3.
9. Durante uma odontossecção, o médico dentista pede irrigação. Com quê, e porquê?
Resolução: com soro fisiológico estéril, em seringa ou no sistema do motor cirúrgico, nunca com a água da unidade dentária, que não é estéril. A irrigação arrefece o osso e a broca e limpa o campo; o assistente aspira em simultâneo com a cânula fina, sem tapar a visão do médico dentista.
10. Um doente fica pálido, suado e diz que vai desmaiar logo depois da anestesia. O que faz o assistente?
Resolução: avisa de imediato o médico dentista, retira da boca o que estiver solto, ajuda a colocar o doente deitado de costas com as pernas elevadas, desaperta a roupa e fica junto dele. Se o médico dentista pedir, liga para o 112 e traz o kit de emergência e o DAE. Não administra qualquer fármaco: essa decisão é do médico dentista.