Sebenta · Assistir o médico dentista em oclusão (UC04006)
- Introdução
- 1. O sistema estomatognático: anatomia funcional e biomecânica
- 2. A articulação temporomandibular: estrutura e movimentos
- 3. Movimentos mandibulares e biomecânica
- 4. Critérios de oclusão funcional ideal
- 5. Classificação de Angle
- 6. Anomalias de oclusão
- 7. Dor orofacial e etiologia das disfunções temporomandibulares
- 8. Tipos de disfunções temporomandibulares (DTM)
- 9. Bruxismo e apneia do sono
- 10. A consulta de oclusão dentária: história, exame e tratamentos
- História clínica
- Exame clínico extraoral
- Exames auxiliares de diagnóstico
- Tratamentos das DTM
- Tipos de intervenções nas estruturas da ATM
- O papel do/a assistente nas intervenções minimamente invasivas
- A goteira oclusal: tipos, confeção e entrega
- Instruções de higiene da goteira a reforçar
- O papel do/a técnico/a assistente dentário
- Exemplo resolvido · Preparar o material para um registo com arco facial
- 11. Materiais, registos e articuladores na consulta de oclusão
- 12. Segurança, controlo de infeção e normas na consulta de oclusão
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara-te para apoiar o médico dentista numa área muito específica e muito transversal da saúde oral: a oclusão, ou seja, a forma como as arcadas dentárias, os músculos da mastigação e a articulação temporomandibular (ATM) trabalham em conjunto. Vais estudar a anatomia funcional desse sistema, os critérios que definem uma oclusão ideal, a classificação de Angle, as principais anomalias de oclusão, as disfunções temporomandibulares (DTM) e a sua etiologia, o bruxismo e a apneia do sono, e por fim a própria consulta de oclusão: como se avalia, que exames se pedem e como se trata.
Ao longo de todo o percurso, um princípio não muda: o/a técnico/a assistente dentário atua sob supervisão do médico dentista. Não diagnostica, não prescreve e não executa atos clínicos invasivos. A tua função é reconhecer estruturas e sinais, coadjuvar com destreza e segurança, manter tudo limpo e organizado, e reportar de imediato qualquer situação fora do previsto. Sempre que este texto descrever um sinal, uma classificação ou um tratamento, lê-o como informação para reconheceres e apoiares, nunca como uma indicação para decidires sozinho/a.
Objetivos de aprendizagem (referencial): reconhecer os tipos de intervenções nas estruturas da articulação temporomandibular; caracterizar os critérios de oclusão ideal e as classes de Angle; reconhecer os tipos de disfunções temporomandibulares e a sua etiologia; coadjuvar o médico dentista ou estomatologista na consulta de oclusão; e coadjuvar o médico dentista ou estomatologista nos principais tratamentos das disfunções temporomandibulares.
1. O sistema estomatognático: anatomia funcional e biomecânica
O sistema estomatognático é o conjunto de estruturas responsáveis pela mastigação, pela deglutição, pela fonação e por parte da respiração. Não é apenas "a boca": inclui a maxila e a mandíbula, a articulação temporomandibular, os dentes e o periodonto, os músculos da mastigação, a língua, os lábios, as bochechas, as glândulas salivares e o sistema neuromuscular que coordena todas estas peças em tempo real.
A ideia central desta primeira unidade é que o sistema estomatognático funciona como um todo. Um dente perdido, um músculo tenso, uma articulação desgastada, tudo isto se reflete no funcionamento das restantes partes. Por isso a "oclusão" não é apenas o encaixe dos dentes: é o resultado do trabalho conjunto entre dentes, músculos e articulação.
Os músculos da mastigação
Quatro pares de músculos controlam os movimentos da mandíbula e são a base de qualquer exame de palpação:
| Músculo | Ação principal | Onde se palpa |
|---|---|---|
| Masséter | Eleva a mandíbula (fecha a boca) | Face lateral do ângulo da mandíbula |
| Temporal | Eleva e retrai a mandíbula | Fossa temporal, acima e à frente da orelha |
| Pterigoideu medial | Eleva a mandíbula, auxilia a lateralidade | Face interna do ângulo da mandíbula (difícil de palpar externamente) |
| Pterigoideu lateral | Abre e protrai a mandíbula, orienta o disco articular | Não é diretamente palpável por via externa |
Repara que o pterigoideu lateral é o único músculo deste grupo que abre a boca por contração direta; os restantes fecham-na. É também o músculo mais associado ao movimento e à posição do disco articular, o que o torna relevante quando se estuda o deslocamento do disco, no capítulo 8.
Funções do sistema estomatognático
| Função | O que envolve |
|---|---|
| Mastigação | Trituração dos alimentos, com dentes, músculos e ATM a trabalhar em ciclos coordenados |
| Deglutição | Passagem do bolo alimentar da boca para a faringe, com participação da língua e dos músculos supra-hioideus |
| Fonação | Articulação dos sons da fala, com participação dos dentes, dos lábios e da língua |
| Respiração | Participação parcial, sobretudo quando a via nasal está comprometida |
Estas quatro funções dependem todas do mesmo conjunto de estruturas. Por isso, uma alteração na oclusão ou na ATM pode repercutir-se, por exemplo, na mastigação e na fonação ao mesmo tempo, e não apenas numa delas.
2. A articulação temporomandibular: estrutura e movimentos
A articulação temporomandibular (ATM) é uma articulação sinovial bilateral, formada entre o côndilo da mandíbula e a fossa mandibular (glenóide) e a eminência articular do osso temporal. É uma das poucas articulações do corpo humano a funcionar sempre em par: as duas ATM, direita e esquerda, trabalham sempre em simultâneo, e um movimento de um lado condiciona sempre o outro.
Componentes da ATM
- Cápsula articular: envolve e protege toda a articulação.
- Disco articular: estrutura fibrocartilagínea bicôncava, interposta entre o côndilo e a fossa, que acompanha o côndilo em todos os movimentos, em vez de ficar parado.
- Líquido sinovial: lubrifica e nutre as superfícies articulares.
- Ligamentos: temporomandibular lateral, estilomandibular e esfenomandibular, que limitam a amplitude dos movimentos.
- Tecido retrodiscal (zona bilaminar): situa-se atrás do disco, é muito vascularizado e inervado, e por isso é particularmente sensível quando o disco se desloca para trás dele.
Inervação e dor referida
A ATM é inervada sobretudo pelo nervo auriculotemporal, ramo do nervo trigémeo, que também inerva parte da região temporal e do meato acústico externo. É por esta partilha de inervação que uma disfunção da ATM pode manifestar-se como dor no ouvido ou na têmpora, sem que exista qualquer problema otológico. Esta é uma das razões pelas quais a dor orofacial, estudada no capítulo 7, exige sempre um raciocínio cuidadoso sobre a sua origem, antes de qualquer conclusão.
Os dois compartimentos
O disco articular divide a ATM em dois compartimentos, cada um associado a um tipo de movimento:
| Compartimento | Estruturas envolvidas | Movimento predominante |
|---|---|---|
| Superior (temporodiscal) | Disco + fossa/eminência | Translação (deslizamento) |
| Inferior (discocondiliano) | Disco + côndilo | Rotação |
Esta divisão explica a sequência típica da abertura bucal: começa por rotação pura no compartimento inferior, e só depois de uma certa amplitude se junta a translação no compartimento superior. Compreender esta sequência é indispensável para interpretar corretamente o exame clínico de abertura, estudado no capítulo 10.
Exemplo resolvido · Identificar o tipo de movimento numa abertura pequena
Um utente é convidado a abrir ligeiramente a boca, cerca de 15 mm. Nesta fase, o movimento é sobretudo de rotação, porque ainda não atingiu a amplitude a partir da qual se junta a translação (cerca de 20 a 25 mm). É por isso que, numa abertura pequena, o côndilo praticamente não se desloca ao longo da eminência articular, limitando-se a rodar no compartimento inferior.
3. Movimentos mandibulares e biomecânica
A mandíbula move-se em três eixos combinados, sempre com as duas ATM a trabalhar em conjunto: abertura e fecho (depressão e elevação), protrusão e retrusão (para a frente e para trás), e lateralidade (para a direita ou para a esquerda).
Abertura bucal
Na abertura bucal, a fase inicial é de rotação pura do côndilo no compartimento inferior. A partir de cerca de 20 a 25 mm de abertura, junta-se a translação, com o conjunto disco-côndilo a deslizar ao longo da eminência articular. A amplitude de abertura considerada normal é habitualmente de 40 mm ou mais; valores abaixo de 40 mm consideram-se uma abertura limitada. Mede-se com régua milimetrada entre os bordos incisais de um incisivo central superior e do seu antagonista inferior, e nos protocolos de avaliação de DTM soma-se a essa distância o overbite (a sobreposição vertical dos incisivos), registado à parte com a boca fechada. Este valor volta a aparecer no exame clínico extraoral, no capítulo 10, e é sempre interpretado com bom senso: pessoas diferentes, e sobretudo pessoas de estatura diferente, têm amplitudes diferentes.
Lado de trabalho e lado de balanceio
Num movimento lateral, os dois côndilos comportam-se de forma diferente:
- O côndilo do lado para onde a mandíbula se desloca faz um movimento quase de rotação no próprio lugar: é o lado de trabalho (laterotrusão).
- O côndilo do lado oposto desliza para a frente, para dentro e para baixo: é o lado de balanceio (mediotrusão).
Estes movimentos determinam quais os dentes que se tocam durante a função, e são a base para perceber, no capítulo seguinte, o que é guia canina, função de grupo ou uma interferência oclusal. A amplitude lateral de referência é geralmente de 8 a 12 mm para cada lado; abaixo de 8 mm considera-se limitada.
Protrusão e retrusão
Na protrusão, a mandíbula avança, com os dois côndilos a deslizarem para a frente em simultâneo, ao longo da eminência articular; os principais músculos envolvidos são os pterigoideus laterais, ajudados pelo feixe superficial do masséter. Na retrusão, a mandíbula regressa à posição de repouso, sobretudo pela ação das fibras posteriores do temporal. O conjunto de todos os movimentos possíveis da mandíbula, desde a posição de repouso até aos limites de abertura, protrusão e lateralidade, chama-se envelope de movimento, e é usado como referência quando se descreve uma limitação de movimento num exame clínico.
4. Critérios de oclusão funcional ideal
Falar de "oclusão ideal" implica olhar para dois momentos diferentes: a oclusão estática, a posição de intercuspidação máxima, com a mandíbula parada e os dentes encaixados ao máximo, e a oclusão dinâmica, os contactos dentários durante os movimentos mandibulares, como a mastigação, a lateralidade ou a protrusão.
Critérios de referência
A literatura sobre oclusão funcional aponta, entre outros, os seguintes critérios de referência, que descrevem princípios gerais e não medidas absolutas:
- Overjet: distância horizontal entre incisivos superiores e inferiores, geralmente entre 2 e 3 mm.
- Overbite: sobreposição vertical, geralmente entre 2 e 4 mm, cerca de um terço da coroa do incisivo inferior coberto.
- Coincidência das linhas médias dentária e facial.
- Curva de Spee suave, sem inclinações acentuadas.
- Ausência de contactos prematuros ou interferências durante o movimento.
Guias de desoclusão
Durante os movimentos excêntricos, a oclusão ideal protege os dentes posteriores, fazendo com que se separem (desocluam) logo que a mandíbula sai da intercuspidação. Quem faz essa separação são os dentes anteriores, e por isso fala-se de guia anterior:
- Guia incisiva (protrusiva): na protrusão, são os incisivos que guiam a separação dos dentes posteriores.
- Guia canina: na lateralidade, o canino do lado de trabalho separa sozinho todos os outros dentes.
- Função de grupo: alternativa à guia canina, em que vários dentes do lado de trabalho (canino, pré-molares e por vezes a cúspide mesiovestibular do 1.º molar) partilham o contacto durante a lateralidade.
A guia canina e a função de grupo são ambas consideradas aceitáveis; o que nunca se deseja é contacto no lado de balanceio. Ao conjunto "dentes posteriores protegem os anteriores em máxima intercuspidação, dentes anteriores protegem os posteriores nos movimentos" chama-se oclusão mutuamente protegida.
Quando um dente posterior toca de forma indesejada durante estes movimentos, chama-se interferência oclusal. Estas interferências detetam-se frequentemente com papel de articulação, marcando os contactos em diferentes movimentos mandibulares.
Outras referências de oclusão funcional
Além dos critérios já referidos, a literatura sobre oclusão descreve ainda:
- Curva de Spee: curvatura anteroposterior suave que passa pelas cúspides dos dentes posteriores inferiores, vista de perfil.
- Curva de Wilson: curvatura transversal entre as cúspides vestibulares e linguais/palatinas dos dentes posteriores, vista de frente.
- Forma de arcada simétrica, sem rotações acentuadas nem sobreposições que dificultem a limpeza e a função.
Estas curvas e formas descrevem a arcada como um todo, e complementam os critérios pontuais como o overjet e o overbite, que descrevem sobretudo a relação entre os incisivos.
Posições de referência da mandíbula
Na consulta de oclusão ouvem-se sempre os mesmos termos para descrever "onde está" a mandíbula. Convém distingui-los bem, porque cada um corresponde a um registo diferente que tu vais ajudar a preparar.
| Posição | Definida por | Em poucas palavras |
|---|---|---|
| Máxima intercuspidação (MIC) | Os dentes | Posição em que as cúspides encaixam ao máximo; é a "mordida habitual" do utente |
| Relação cêntrica (RC) | A articulação | Posição dos côndilos na fossa, na posição mais estável (anterossuperior, apoiados na vertente posterior da eminência, com o disco bem interposto), independente dos dentes |
| Posição de repouso | Os músculos | Posição que a mandíbula adota com o utente sentado, direito e descontraído, lábios juntos e dentes afastados |
Em muitas pessoas, a MIC e a RC não coincidem exatamente: ao fechar em RC, surge um primeiro contacto (contacto prematuro) e a mandíbula desliza até à MIC. O médico dentista avalia se essa diferença tem significado clínico; a ti cabe perceber porque é que, nesse momento, ele guia a mandíbula do utente com a mão e te pede o material de registo já preparado.
Na dimensão vertical usam-se três conceitos ligados entre si:
- Dimensão vertical de oclusão (DVO): altura da face inferior (por exemplo, entre um ponto no nariz e um ponto no mento) com os dentes em MIC.
- Dimensão vertical de repouso (DVR): a mesma altura, com a mandíbula em posição de repouso.
- Espaço livre (espaço funcional livre): diferença entre as duas, habitualmente de cerca de 2 a 4 mm na zona dos incisivos.
A DVO ganha importância quando há muito desgaste dentário (por exemplo, por bruxismo) ou perda de dentes posteriores, e em reabilitações extensas. A decisão sobre a manter ou alterar é sempre do médico dentista.
Exemplo resolvido · Ler uma marcação de papel de articulação
Um médico dentista pede a um utente para morder papel de articulação e depois fazer um movimento de lateralidade. Aparecem marcas nos caninos do lado de trabalho e também num molar do lado de balanceio.
- Confirma-se qual foi o movimento realizado, neste caso, lateralidade.
- Localiza-se cada marca: caninos do lado de trabalho, molar do lado de balanceio.
- Interpreta-se: no lado de trabalho, a marca nos caninos é esperada (guia canina). No lado de balanceio, esse dente deveria estar desocluído, sem contacto.
- Conclusão: a marca no molar do lado de balanceio é uma interferência oclusal, um achado a registar e a comunicar ao médico dentista.
5. Classificação de Angle
A classificação de Angle organiza a relação anteroposterior entre as arcadas, com base na posição da cúspide mesiovestibular do primeiro molar superior face ao sulco vestibular do primeiro molar inferior.
| Classe | Relação molar | Também chamada |
|---|---|---|
| I | Cúspide mesiovestibular do 1.º molar superior encaixa no sulco do 1.º molar inferior | Neutroclusão |
| II | Sulco do 1.º molar inferior posicionado atrás dessa cúspide | Distoclusão |
| III | Sulco do 1.º molar inferior posicionado à frente dessa cúspide | Mesioclusão |
Uma pessoa com Classe I molar pode, ainda assim, ter apinhamento, diastemas ou outra anomalia de oclusão: a classificação de Angle descreve a relação entre arcadas, não garante uma oclusão perfeita nem esgota os critérios do capítulo anterior.
Classe II: divisões 1 e 2
A Classe II subdivide-se de acordo com a posição dos incisivos superiores:
- Divisão 1: incisivos superiores inclinados para a frente (vestibularizados), com overjet aumentado.
- Divisão 2: incisivos centrais superiores inclinados para trás (palatinizados), geralmente associada a mordida profunda (overbite aumentado).
A Classe III associa-se muitas vezes a um aspeto de prognatismo mandibular relativo ou a uma mordida cruzada anterior, com os incisivos inferiores posicionados à frente dos superiores.
Subdivisão e limites da classificação
Quando a relação molar é diferente dos dois lados (por exemplo, Classe II do lado direito e Classe I do lado esquerdo), fala-se de subdivisão, indicando o lado afetado: "Classe II, divisão 1, subdivisão direita". Por isso a relação molar observa-se e regista-se sempre dos dois lados.
A classificação de Angle tem limites que convém conhecer:
- Descreve apenas o plano anteroposterior; não diz nada sobre problemas verticais (mordida aberta, mordida profunda) nem transversais (mordida cruzada posterior), que se registam à parte.
- Descreve a posição dos dentes, não a dos ossos; uma Classe II ou III dentária pode ter origem esquelética ou não, e essa distinção faz-se com a análise clínica e radiográfica do médico dentista ou do ortodontista.
- Exige os primeiros molares permanentes presentes e pouco alterados; quando faltam ou foram muito restaurados, recorre-se à relação canina.
Classificação canina
De forma semelhante à relação molar, também se pode descrever a relação canina, com base na posição da ponta do canino superior face ao espaço entre o canino e o primeiro pré-molar inferiores. As três classes seguem a mesma lógica das classes molares (I, II e III), e servem para confirmar ou complementar a informação dada pela relação molar, sobretudo quando existem dentes perdidos ou muito desgastados que dificultam a leitura dos molares.
Exemplo resolvido · Classificar uma relação molar
Num exame, observa-se que o sulco vestibular do primeiro molar inferior está posicionado à frente da cúspide mesiovestibular do primeiro molar superior.
- Compara-se com as três classes: em Classe I, a cúspide encaixa exatamente no sulco; em Classe II, o sulco fica atrás; em Classe III, o sulco fica à frente.
- Neste caso, o sulco está à frente, logo trata-se de uma relação de Classe III (mesioclusão).
- Este achado é registado e comunicado ao médico dentista, que decide se são necessários exames complementares.
6. Anomalias de oclusão
As anomalias de oclusão dividem-se, de forma prática, em anomalias do número, forma e posição dos dentes, e anomalias da relação entre arcadas.
Anomalias do número, forma e posição
| Anomalia | O que é |
|---|---|
| Supranumerários | Dentes a mais, além do número normal da dentição |
| Anodontia / hipodontia | Ausência congénita de dentes (agenésia), total ou parcial |
| Diastema | Espaço entre dois dentes vizinhos |
| Apinhamento | Falta de espaço na arcada, com dentes sobrepostos ou rodados |
A agenésia de terceiros molares e de incisivos laterais superiores está entre as mais frequentes na população. Os dentes supranumerários surgem com maior frequência na zona anterior da maxila.
Anomalias da relação entre arcadas
| Anomalia | Descrição |
|---|---|
| Mordida cruzada | Um ou mais dentes superiores ocluem por dentro dos inferiores; pode ser anterior, posterior, unilateral ou bilateral |
| Sobremordida aumentada (mordida profunda) | Overbite excessivo, os incisivos superiores cobrem demasiado os inferiores, por vezes até tocarem a gengiva palatina ou vestibular |
| Mordida aberta | Ausência de contacto vertical entre dentes antagonistas numa zona da arcada |
| Desvio da linha média | A linha média dentária não coincide com a linha média facial |
Estas anomalias podem coexistir com qualquer classe de Angle. O/a técnico/a assistente dentário deve saber reconhecê-las, para apoiar corretamente o registo clínico, sem nunca decidir o diagnóstico nem o plano de tratamento: essa decisão é sempre do médico dentista.
Exemplo resolvido · Reconhecer uma mordida cruzada posterior
Durante um exame de rotina, o/a técnico/a assistente dentário repara que, do lado esquerdo, os dentes posteriores superiores de um utente ocluem por dentro dos inferiores, ao contrário do lado direito.
- Descreve-se o que se viu, com precisão e sem rótulos definitivos: do lado esquerdo, os dentes posteriores superiores parecem ocluir por dentro dos inferiores.
- Reporta-se ao médico dentista antes ou durante a consulta, sem avançar uma causa nem um plano de correção.
- O médico dentista confirma ou não o achado (por exemplo, uma mordida cruzada posterior unilateral) e decide se são necessários exames complementares ou um encaminhamento; o/a assistente regista na ficha clínica o que o médico dentista confirmar ou ditar.
7. Dor orofacial e etiologia das disfunções temporomandibulares
Dor orofacial
A dor orofacial é a dor sentida na boca, na face, na cabeça ou no pescoço, com origens muito diversas: dentária (por exemplo uma cárie ou uma pulpite), muscular ou articular (associada a uma DTM), neuropática (relacionada com o nervo trigémeo) ou neurovascular (como a enxaqueca). É um sintoma, não um diagnóstico: a mesma queixa de dor pode ter causas muito diferentes, e o diagnóstico diferencial é sempre feito pelo médico dentista ou por outro médico competente.
A dor orofacial costuma organizar-se, de forma simplificada, em quatro grandes grupos:
| Origem | Exemplos |
|---|---|
| Dentária | Cárie, pulpite, abcesso |
| Musculoesquelética | DTM muscular ou articular |
| Neuropática | Relacionada com o nervo trigémeo |
| Neurovascular | Enxaqueca, cefaleias em salvas |
O/a técnico/a assistente dentário deve saber reconhecer, para reportar de forma organizada, sinais como: dor à palpação dos músculos da mastigação ou da ATM, dor que agrava com a mastigação ou a abertura bucal, dor irradiada para o ouvido ou a têmpora (explicada, como se viu no capítulo 2, pela partilha de inervação com o nervo auriculotemporal), e dor acompanhada de sons articulares ou de limitação da abertura.
Etiologia geral das DTM
A etiologia das disfunções temporomandibulares (DTM) é multifatorial: não existe uma causa única. O modelo atualmente aceite é o biopsicossocial, que combina três tipos de fatores:
- Biomecânicos: trauma direto (um golpe na face) ou indireto (por exemplo, uma chicotada cervical), e hábitos parafuncionais.
- Fisiopatológicos: alterações inflamatórias ou degenerativas na articulação ou nos músculos.
- Psicossociais: stress e ansiedade, que aumentam hábitos parafuncionais como o bruxismo.
Uma malposição dentária isolada já não é considerada, por si só, causa suficiente de DTM: pode ser um fator entre vários, mas nunca a explicação completa.
Fatores de risco a levantar na história clínica
- Hábitos parafuncionais: bruxismo, roer as unhas, mascar pastilha elástica em excesso.
- Trauma facial ou cervical, recente ou antigo.
- Hipermobilidade articular generalizada.
- Fatores hormonais, com maior prevalência de DTM em mulheres.
- Fatores posturais e ocupacionais.
Predisponentes, desencadeantes e perpetuantes
Outra forma útil de arrumar os fatores etiológicos é pelo momento em que atuam:
| Tipo de fator | O que faz | Exemplos |
|---|---|---|
| Predisponente | Aumenta a probabilidade de a DTM surgir | Hipermobilidade articular, alterações do crescimento, doenças sistémicas (artrite reumatoide), fatores genéticos |
| Desencadeante | Faz surgir os sintomas | Trauma, abertura bucal prolongada (por exemplo, num tratamento dentário longo), bocejo muito amplo, episódio de apertamento intenso |
| Perpetuante | Impede a melhoria | Bruxismo mantido, stress crónico, má qualidade do sono, hábitos como mascar pastilha elástica |
Esta tabela explica uma situação prática: uma consulta dentária longa, com a boca muito aberta, pode ser o fator desencadeante de dor na ATM num utente predisposto. É uma das razões pelas quais, em tratamentos longos, o médico dentista pode pedir pausas, e o/a assistente está atento/a a sinais de desconforto do utente para os comunicar.
8. Tipos de disfunções temporomandibulares (DTM)
As DTM organizam-se em três grandes grupos: articulares, musculares e outras. Na prática clínica e na investigação, os médicos dentistas usam critérios padronizados internacionais, os DC/TMD (Critérios de Diagnóstico para as Disfunções Temporomandibulares), que definem como se fazem as perguntas, a palpação e as medições, para que os diagnósticos sejam comparáveis entre clínicas. Não precisas de os aplicar, mas vais reconhecer o nome nas fichas de exame.
DTM articulares
O deslocamento do disco é a DTM articular mais frequente:
- Com redução: o disco desloca-se da posição normal em repouso, mas regressa a essa posição durante a abertura, produzindo um estalido (click).
- Sem redução: o disco fica permanentemente deslocado e não regressa à posição normal, podendo limitar de forma súbita a abertura, um quadro conhecido como bloqueio articular.
Outras condições articulares:
| Condição | Característica |
|---|---|
| Doença articular degenerativa | Desgaste das superfícies articulares, com crepitação (som semelhante a areia) à palpação |
| Luxação / subluxação | O côndilo ultrapassa a eminência articular e não regressa sozinho (luxação) ou regressa sozinho (subluxação) |
| Inflamação (sinovite, capsulite) | Dor localizada na articulação, por vezes com edema associado |
Um estalido isolado, sem dor nem limitação, é frequente e nem sempre exige tratamento; a decisão é sempre do médico dentista. É importante não confundir estalido, geralmente benigno, com crepitação, associada a desgaste articular.
DTM musculares
Afetam os músculos da mastigação, e não a articulação em si:
- Mialgia local: dor limitada à zona do músculo palpado.
- Dor miofascial: dor que se espalha para além do local palpado, por vezes com pontos-gatilho.
- Contratura muscular: limitação persistente e mecânica da abertura, sem dor obrigatoriamente associada.
A limitação de abertura de origem muscular tende a ser mais gradual e "elástica" à palpação do que a limitação de origem articular, que costuma ser mais súbita e associada a um obstáculo mecânico.
Outras DTM
- Hipomobilidade crónica mandibular: limitação persistente da abertura, por anquilose (fusão articular), fibrose ou alongamento do processo coronoide.
- Disfunções de crescimento: hiperplasia ou hipoplasia condilar, que podem gerar assimetria facial visível.
Nem toda a limitação de abertura tem origem funcional, reversível: pode ter origem estrutural, e requer sempre avaliação médica especializada.
Distinguir origem muscular de origem articular
Uma tabela simples ajuda a organizar o que se observa no exame, sempre a título de registo e nunca de diagnóstico:
| Sinal | Mais sugestivo de origem muscular | Mais sugestivo de origem articular |
|---|---|---|
| Instalação da limitação | Gradual | Pode ser súbita |
| Sensação à palpação | Dor difusa no músculo | Dor localizada à articulação |
| Sons associados | Geralmente ausentes | Estalido ou crepitação |
| Tipo de limitação | "Elástica", cede com insistência | Bloqueio mecânico |
Esta distinção orienta o registo do/a técnico/a assistente dentário, mas a confirmação clínica é sempre do médico dentista, que pode ainda recorrer aos exames auxiliares descritos no capítulo 10.
9. Bruxismo e apneia do sono
Bruxismo
O bruxismo é uma atividade parafuncional dos músculos mastigatórios, caracterizada por apertar ou ranger os dentes.
- Bruxismo do sono: ocorre durante o sono, associado a microdespertares.
- Bruxismo em vigília: ocorre acordado, geralmente por apertamento associado a stress ou concentração.
Consequências possíveis: desgaste dentário (atrição), fraturas de dentes ou de restaurações, hipertrofia do masséter, sobrecarga da ATM, e dores de cabeça ao acordar. Muitas vezes o próprio utente não se apercebe do hábito, e é um familiar que o reporta.
Bruxismo e apneia obstrutiva do sono
A apneia obstrutiva do sono (AOS) caracteriza-se por episódios repetidos de obstrução das vias aéreas superiores durante o sono. Existe uma associação frequente entre bruxismo do sono e AOS: o episódio de bruxismo pode surgir como um mecanismo de reativação da via aérea obstruída.
- O diagnóstico de AOS é feito por polissonografia, pelo médico competente.
- Em casos ligeiros a moderados, uma opção terapêutica é o dispositivo de avanço mandibular, um aparelho oral confecionado com participação da equipa dentária, sempre sob prescrição médica.
Um bruxismo intenso e inexplicado pode, por isso, justificar uma pergunta adicional na anamnese sobre a qualidade do sono, e o registo dessa informação para o médico dentista avaliar.
10. A consulta de oclusão dentária: história, exame e tratamentos
História clínica
A anamnese de uma consulta de oclusão reúne, entre outros, os seguintes elementos: motivo da consulta, características da dor (início, localização, tipo, fatores de alívio e de agravamento), hábitos parafuncionais, história médica geral e dentária, incluindo tratamentos anteriores, e fatores de stress associados ao quadro atual. O/a técnico/a assistente dentário pode apoiar o registo organizado desta informação; a interpretação clínica é sempre do médico dentista.
Exame clínico extraoral
- Observação da simetria facial.
- Palpação dos músculos da mastigação (masséter, temporal) e da ATM, tanto por via pré-auricular como no meato acústico externo.
- Registo de sons articulares durante a abertura e o fecho.
- Medição da amplitude de abertura e dos movimentos laterais, com régua milimetrada, comparando com os valores de referência do capítulo 3 (abertura de 40 mm ou mais, lateralidade de 8 a 12 mm para cada lado).
Exames auxiliares de diagnóstico
| Exame | Utilidade |
|---|---|
| Ortopantomografia (radiografia panorâmica) | Visão geral das estruturas dentárias e ósseas |
| Radiografia transcraniana da ATM | Avaliação básica da articulação em diferentes posições |
| Tomografia computorizada de feixe cónico (CBCT) | Detalhe ósseo tridimensional da articulação |
| Ressonância magnética (RM) | Avaliação dos tecidos moles, incluindo a posição do disco articular |
Além da imagem, a consulta recorre a impressões ou digitalização intraoral para obter modelos de estudo, ao registo do arco facial e à montagem em articulador semiajustável, que reproduz fora da boca os movimentos mandibulares, e a fotografias clínicas para documentação. O/a técnico/a assistente dentário coadjuva na preparação dos materiais e do equipamento necessários, e na sua correta identificação e arquivo.
Tratamentos das DTM
A maioria das DTM melhora com medidas conservadoras e reversíveis: educação do utente e autocuidado (dieta mole, evitar aberturas bucais muito amplas, aplicação de calor ou frio), fisioterapia orofacial, goteira oclusal (splint) de uso noturno ou diurno, gestão do stress e técnicas de relaxamento, e tratamento farmacológico quando prescrito pelo médico dentista ou por outro médico assistente. Procedimentos minimamente invasivos ou cirúrgicos ficam reservados a casos raros e refratários às medidas conservadoras, sempre decididos e executados pelo médico dentista ou estomatologista.
Tipos de intervenções nas estruturas da ATM
As intervenções organizam-se numa escada, do menos invasivo e reversível para o mais invasivo e irreversível. Só se sobe um degrau quando o anterior não resultou, e a decisão é sempre clínica.
| Nível | Exemplos | Quem decide e executa |
|---|---|---|
| Conservador e reversível | Educação e autocuidado, fisioterapia orofacial, goteira oclusal, gestão do stress, fármacos prescritos | Médico dentista (fisioterapia por fisioterapeuta, por indicação clínica) |
| Minimamente invasivo | Artrocentese (lavagem do compartimento superior da ATM com soro, através de agulhas), infiltrações intra-articulares (por exemplo, corticoide ou ácido hialurónico), infiltração de toxina botulínica em músculos da mastigação | Médico dentista, estomatologista ou cirurgião maxilofacial com formação específica |
| Cirúrgico fechado | Artroscopia da ATM (observação e tratamento por uma câmara muito fina) | Cirurgião maxilofacial ou estomatologista, em meio hospitalar ou bloco |
| Cirúrgico aberto | Reposicionamento ou remoção do disco, cirurgia do côndilo, prótese total da ATM em casos graves (por exemplo, anquilose) | Cirurgião maxilofacial, em meio hospitalar |
Há ainda intervenções sobre os dentes, que alteram a oclusão de forma irreversível: o ajuste oclusal por desgaste seletivo, a ortodontia e as reabilitações protéticas. Não são tratamento de primeira linha das DTM; o médico dentista pode indicá-las por outras razões (por exemplo, repor dentes perdidos) ou em casos muito concretos.
Uma situação de urgência merece referência: na luxação da ATM, o utente fica com a boca aberta e não a consegue fechar. A redução é uma manobra clínica feita pelo médico dentista ou em urgência hospitalar. O papel do/a assistente é chamar de imediato o médico dentista, tranquilizar o utente, não forçar o fecho e preparar o que for pedido (por exemplo, gazes para proteger os polegares do operador).
O papel do/a assistente nas intervenções minimamente invasivas
Quando uma artrocentese ou uma infiltração se faz em consultório, o/a assistente coadjuva como em qualquer procedimento com agulhas: prepara o campo e o material estéril indicado pelo médico dentista, instrumenta e aspira quando pedido, mantém a cadeia asséptica, e no fim elimina as agulhas sem as reencapar com as duas mãos (técnica de uma mão ou dispositivo próprio), diretamente para o contentor rígido de cortoperfurantes. Os fármacos são escolhidos, preparados sob indicação e administrados pelo médico dentista; o/a assistente nunca administra.
A goteira oclusal: tipos, confeção e entrega
A goteira oclusal (placa oclusal, splint) é um dispositivo removível, geralmente em resina acrílica, que cobre as superfícies oclusais de uma arcada. Os tipos mais comuns:
| Tipo | Características | Uso habitual |
|---|---|---|
| Goteira de estabilização (rígida, de cobertura total) | Resina acrílica dura; contactos uniformes de todos os dentes antagonistas; guia canina incorporada | Bruxismo do sono e muitas DTM musculares e articulares; é a mais usada |
| Goteira de reposicionamento anterior | Mantém a mandíbula ligeiramente avançada | Casos articulares selecionados, por períodos curtos, por decisão do médico dentista |
| Goteira mole ou resiliente | Material flexível | Proteção temporária; não é a primeira escolha para bruxismo |
| Dispositivo de avanço mandibular | Duas peças ligadas, que avançam a mandíbula durante o sono | Ressonar e apneia obstrutiva do sono, por prescrição médica |
O circuito típico de uma goteira de estabilização é:
- Registos: moldagens das duas arcadas (ou digitalização intraoral), registo interoclusal e, se o médico dentista o pedir, arco facial. O/a assistente prepara e coadjuva.
- Laboratório: o/a assistente desinfeta moldagens e registos, identifica-os e preenche a guia de envio com as indicações do médico dentista.
- Prova e ajuste: o médico dentista coloca a goteira, verifica a retenção e ajusta os contactos com papel de articulação; o/a assistente passa o papel na pinça de Miller, aspira e recolhe as limalhas de resina.
- Entrega e instruções: o médico dentista explica o uso prescrito; o/a assistente reforça as instruções de higiene e confirma que o utente as compreendeu.
- Controlos: consultas de seguimento, em que o/a assistente regista queixas, sinais de desgaste ou fratura da goteira, para o médico dentista avaliar.
Instruções de higiene da goteira a reforçar
- Escovar a goteira depois de cada uso, com escova macia e sabão neutro ou produto próprio, e água fria ou morna, nunca quente, porque o calor deforma a resina.
- Evitar pasta dentífrica abrasiva, que risca a superfície e acumula placa.
- Escovar os dentes antes de colocar a goteira.
- Guardar a goteira na caixa própria, limpa e seca ou conforme indicação, longe de fontes de calor (carro ao sol, aquecedor) e de animais de estimação.
- Não embrulhar em guardanapo ou lenço de papel, a causa mais frequente de goteiras deitadas fora por engano.
- Trazer a goteira, na caixa, a todas as consultas de controlo.
- Informar a clínica se a goteira ficar apertada, larga, fraturada ou causar dor; nunca a ajustar em casa.
O papel do/a técnico/a assistente dentário
Na consulta e no tratamento das DTM, o/a técnico/a assistente dentário prepara o material e o ambiente, coadjuva o médico dentista durante os procedimentos de acordo com as boas práticas e os procedimentos internos da clínica, garante a limpeza e a higienização de equipamentos, instrumentos e materiais utilizados, bem como do consultório, reporta de imediato qualquer situação de risco ou defeito num instrumento, e nunca decide nem altera o plano de tratamento.
Exemplo resolvido · Preparar o material para um registo com arco facial
O médico dentista vai fazer um registo com arco facial a um utente com suspeita de interferência oclusal.
- O/a assistente confirma, com a lista de material da clínica, o que é necessário: arco facial, garfo de mordida, material de registo, luvas e demais EPI.
- Prepara e organiza o material por ordem de utilização, junto à cadeira.
- Verifica se o material está limpo e em condições de uso; se algum item estiver danificado, reporta de imediato ao médico dentista, sem o substituir por conta própria caso a substituição não esteja prevista no protocolo da clínica.
- Durante o procedimento, apoia o médico dentista conforme solicitado, sem decidir sobre a técnica ou o resultado do registo.
11. Materiais, registos e articuladores na consulta de oclusão
Grande parte do teu trabalho na consulta de oclusão é ter o material certo, pronto e na ordem certa. Este capítulo reúne os materiais e equipamentos que vais preparar e manusear.
Papel e fita de articulação
- O papel de articulação é uma tira de papel ou película com tinta, com várias espessuras (as mais finas marcam só contactos reais; as mais grossas marcam também zonas próximas). Usa-se seguro numa pinça de Miller (porta-papel), que o/a assistente prepara e passa ao médico dentista.
- A fita shimstock é uma película metálica muito fina, que não marca: serve para o médico dentista verificar se um contacto "segura" a fita.
- Os dentes devem estar secos para a marcação ser nítida; o/a assistente seca com ar da seringa tríplice quando pedido.
- É comum usar duas cores: uma para os contactos em máxima intercuspidação e outra para os movimentos (lateralidades e protrusão), para os distinguir na leitura.
- O papel de articulação é de uso único: descarta-se após cada utente.
Registos interoclusais
Um registo interoclusal (registo de mordida) regista a relação entre as arcadas numa posição escolhida pelo médico dentista (por exemplo, relação cêntrica), para depois montar os modelos no articulador nessa posição.
| Material | Notas para o/a assistente |
|---|---|
| Cera de registo | Amolece com calor; barata, mas pode deformar com a temperatura e com o tempo |
| Silicone de registo (polivinilsiloxano de presa rígida) | Pistola doseadora com ponteira de mistura; estável e preciso; respeitar o tempo de presa indicado pelo fabricante |
| Pasta de óxido de zinco e eugenol | Usada em algumas técnicas; atenção a utentes com sensibilidade ao eugenol, informação que consta da história clínica |
Às vezes o médico dentista usa um pequeno dispositivo anterior (por exemplo, um jig de Lucia) para "desprogramar" os músculos antes do registo. O/a assistente prepara-o se fizer parte do protocolo.
Moldagens com alginato e modelos de estudo
Os modelos de estudo de uma consulta de oclusão obtêm-se, muitas vezes, a partir de moldagens em alginato (ou por digitalização intraoral).
- O/a assistente escolhe com o médico dentista as moldeiras do tamanho adequado e doseia pó e água na proporção indicada pelo fabricante, com água à temperatura recomendada (água mais quente acelera a presa, mais fria atrasa-a).
- Espatula até obter uma massa homogénea e carrega a moldeira; o médico dentista faz a moldagem.
- Depois de retirada, a moldagem é lavada em água corrente e desinfetada com um desinfetante compatível com alginato, pelo tempo indicado pelo fabricante.
- Vaza-se em gesso o mais depressa possível: o alginato perde água para o ar (sinérese) e contrai, ou absorve água se ficar mergulhado (embebição) e expande; nos dois casos o modelo sai distorcido. Seguir sempre o tempo máximo indicado pelo fabricante.
Os gessos dentários classificam-se (norma ISO 6873) em cinco tipos:
| Tipo | Designação | Uso típico |
|---|---|---|
| 1 | Gesso de moldagem | Hoje pouco usado |
| 2 | Gesso de modelos (gesso "paris") | Montagem em articulador, modelos pouco exigentes |
| 3 | Gesso pedra | Modelos de estudo e de trabalho |
| 4 | Gesso pedra de alta resistência e baixa expansão | Troquéis e modelos de precisão |
| 5 | Gesso pedra de alta resistência e alta expansão | Trabalhos protéticos específicos |
Os modelos são identificados (nome ou código do utente, data) e guardados de forma a não se partirem nem se trocarem.
Arco facial
O arco facial regista a posição do maxilar superior em relação às ATM e a um plano de referência do crânio, para que o modelo superior seja montado no articulador na posição correspondente à do utente. Componentes principais:
- Garfo de mordida, coberto com material de registo (cera ou silicone), que o utente morde.
- Olivas auriculares, colocadas na entrada dos meatos acústicos externos, que servem de referência aproximada para as ATM.
- Apoio nasal (násio) ou ponteiro de referência anterior.
O/a assistente prepara o arco e o garfo, ajuda a estabilizar o conjunto quando o médico dentista pede, e no fim trata o garfo como material que contactou com a boca.
Articuladores
Um articulador é um aparelho que reproduz, fora da boca, a relação entre as arcadas e parte dos movimentos mandibulares.
| Tipo | O que reproduz |
|---|---|
| Charneira (oclusor simples) | Só abertura e fecho, sem relação com as ATM do utente |
| Não ajustável (de valores médios) | Movimentos com valores médios da população, iguais para todos |
| Semiajustável | Aceita o arco facial e alguns registos individuais (por exemplo, inclinação da trajetória condilar); é o mais usado na consulta de oclusão |
| Totalmente ajustável | Reproduz com grande detalhe os movimentos individuais, a partir de registos gráficos ou eletrónicos dos movimentos |
Montagem dos modelos: o modelo superior monta-se com o arco facial; o inferior monta-se em relação ao superior, com o registo interoclusal. Usa-se gesso de montagem de baixa expansão, conforme o protocolo da clínica ou do laboratório. O/a assistente pode preparar o gesso e manter o articulador limpo e identificado; a análise dos modelos montados é do médico dentista.
Trabalho a quatro mãos na consulta de oclusão
A organização é a de qualquer procedimento a quatro mãos, com as zonas de atividade definidas pelo relógio imaginário centrado na cabeça do utente. Para um operador destro:
| Zona | Horas | Para quê |
|---|---|---|
| Operador | 7 às 12 | Movimentação do médico dentista |
| Estática | 12 às 2 | Tabuleiro e equipamento que não circula |
| Assistente | 2 às 4 | Posição do/a assistente |
| Transferência | 4 às 7 | Passagem de instrumentos e materiais, abaixo do queixo do utente |
Para um operador esquerdino, as zonas espelham-se. Na consulta de oclusão, a transferência mais frequente é a da pinça de Miller com o papel já colocado e a da pistola de silicone com a ponteira pronta.
12. Segurança, controlo de infeção e normas na consulta de oclusão
Controlo de infeção
Aplicam-se as Precauções Básicas de Controlo de Infeção (PBCI), definidas na Norma n.º 029/2012 da Direção-Geral da Saúde: higiene das mãos, equipamento de proteção individual adequado ao risco, descontaminação do equipamento clínico, controlo ambiental, manuseamento seguro da roupa, gestão de resíduos, práticas seguras na preparação e administração de injetáveis, e etiqueta respiratória, entre outras. São aplicadas a todos os utentes, em todos os procedimentos.
O reprocessamento dos dispositivos segue a classificação de Spaulding:
| Categoria | Contacto | Tratamento | Exemplos na consulta de oclusão |
|---|---|---|---|
| Crítico | Penetra tecidos estéreis ou corrente sanguínea | Esterilização | Agulhas e material de artrocentese ou infiltração (geralmente de uso único) |
| Semicrítico | Contacta com mucosas ou pele não íntegra | Esterilização (preferível, se o material a suportar) ou desinfeção de alto nível | Pinça de Miller, garfo de mordida, moldeiras reutilizáveis, régua reutilizável usada na boca |
| Não crítico | Contacta só com pele íntegra | Limpeza e desinfeção de nível baixo ou intermédio | Olivas auriculares e arco facial, superfícies da cadeira, articulador |
As moldagens e registos interoclusais são lavados e desinfetados antes de sair do gabinete para o laboratório, e as goteiras que regressam do laboratório são desinfetadas antes de irem à boca, sempre com produtos compatíveis com cada material.
Resíduos e cortoperfurantes
Os resíduos hospitalares seguem os grupos do Despacho n.º 242/96: grupos I e II (equiparados a urbanos, não perigosos), grupo III (risco biológico, por exemplo material contaminado com sangue) e grupo IV (resíduos específicos, incluindo cortoperfurantes como agulhas). Os cortoperfurantes vão para contentor rígido, cheio no máximo até 2/3 da capacidade (ou até à linha indicada pelo fabricante), e as agulhas nunca se reencapam com as duas mãos. Cada clínica tem o seu plano de gestão de resíduos, que prevalece no detalhe.
Dispositivos médicos
Goteiras, dispositivos de avanço mandibular e materiais como alginatos e silicones são dispositivos médicos, regulados pelo Regulamento (UE) 2017/745 e, em Portugal, pelo Decreto-Lei n.º 29/2024; a autoridade competente é o INFARMED. Na prática, para ti isto significa: usar só material dentro do prazo de validade e nas condições do fabricante, guardar as instruções de utilização, e reportar ao médico dentista qualquer defeito ou incidente com um dispositivo.
Saúde e segurança no trabalho
- Ergonomia: sentar-se com as costas apoiadas, os pés assentes e o/a assistente ligeiramente acima do operador (cerca de 10 a 15 cm, para ter visão do campo), evitando torções repetidas do tronco.
- Proteção ocular do utente e da equipa, sobretudo durante o ajuste de goteiras com peça de mão, que projeta partículas de resina.
- Aspiração durante o ajuste de resina, para reduzir as partículas no ar.
- Gessos e alginatos: dosear sem levantar pó, com a embalagem fechada logo a seguir.
- Radiação: nos exames de imagem feitos na clínica, respeitar as regras de proteção radiológica e sair da sala durante a exposição, salvo indicação do protocolo.
Regras e normas definidas
Cada clínica tem procedimentos internos (listas de material, protocolos de desinfeção, circuito do laboratório, registos). Aplicá-los com rigor, e perguntar quando algo não está claro, faz parte da competência desta UC, tal como está escrito no referencial: "Aplicar as regras e normas definidas."
Erros comuns
- Reduzir "oclusão" a "os dentes estarem alinhados", esquecendo os músculos e a ATM.
- Achar que a Classe I de Angle significa, por si só, uma oclusão perfeita.
- Confundir a Classe II divisão 1 com a divisão 2.
- Usar "anodontia" para qualquer falta de dentes, sem distinguir da hipodontia parcial.
- Atribuir uma DTM a uma única causa, ignorando o modelo biopsicossocial.
- Confundir um estalido articular, geralmente benigno, com uma crepitação, associada a desgaste.
- Tratar toda a limitação de abertura como um problema articular, esquecendo a origem muscular ou estrutural.
- Achar que o médico dentista diagnostica a apneia do sono sozinho, sem articulação com outros médicos.
- Registar os achados da palpação feita pelo médico dentista só de um lado, sem indicar sempre o lado (direito ou esquerdo) e o músculo ou a articulação em causa.
- O/a assistente decidir ou opinar sobre o plano de tratamento, em vez de reportar e coadjuvar.
Glossário
- Sistema estomatognático: conjunto de estruturas responsáveis pela mastigação, deglutição, fonação e parte da respiração.
- ATM: articulação temporomandibular, entre o côndilo mandibular e o osso temporal.
- Disco articular: estrutura fibrocartilagínea que divide a ATM em dois compartimentos e acompanha os movimentos do côndilo.
- Rotação: movimento do côndilo dentro do compartimento inferior da ATM.
- Translação: deslizamento do conjunto disco-côndilo ao longo da eminência articular.
- Overjet: distância horizontal entre os incisivos superiores e inferiores.
- Overbite: sobreposição vertical entre os incisivos superiores e inferiores.
- Guia canina: separação dos dentes posteriores pelo canino do lado de trabalho, durante a lateralidade.
- Função de grupo: separação dos dentes posteriores partilhada por vários dentes do lado de trabalho.
- Interferência oclusal: contacto dentário indesejado durante um movimento mandibular.
- Classificação de Angle: sistema de classificação da relação anteroposterior das arcadas, baseado na relação molar.
- Neutroclusão, distoclusão, mesioclusão: designações alternativas para as Classes I, II e III de Angle.
- Mordida cruzada: um ou mais dentes superiores ocluem por dentro dos inferiores.
- Sobremordida aumentada (mordida profunda): overbite excessivo.
- Mordida aberta: ausência de contacto vertical entre dentes antagonistas numa zona da arcada.
- DTM: disfunção temporomandibular, articular, muscular ou de outro tipo.
- Deslocamento do disco: alteração da posição normal do disco articular, com ou sem redução.
- Crepitação: som semelhante a areia, associado a desgaste articular.
- Mialgia: dor localizada num músculo.
- Bruxismo: apertar ou ranger os dentes, do sono ou em vigília.
- Apneia obstrutiva do sono (AOS): obstrução repetida das vias aéreas superiores durante o sono.
- Polissonografia: exame que diagnostica distúrbios do sono, incluindo a apneia.
- Goteira oclusal: dispositivo removível usado no tratamento do bruxismo e de algumas DTM.
- Articulador semiajustável: aparelho que reproduz fora da boca os movimentos mandibulares registados clinicamente.
- Máxima intercuspidação (MIC): posição de encaixe máximo das cúspides, definida pelos dentes.
- Relação cêntrica (RC): posição dos côndilos na fossa, definida pela articulação e independente dos dentes.
- Dimensão vertical de oclusão (DVO): altura da face inferior com os dentes em máxima intercuspidação.
- Espaço livre: diferença entre a dimensão vertical de repouso e a de oclusão, habitualmente de 2 a 4 mm.
- Arco facial: dispositivo que transfere para o articulador a posição do maxilar superior em relação às ATM.
- Registo interoclusal: registo, em cera ou silicone, da relação entre as arcadas numa posição definida.
- Pinça de Miller: porta-papel usado para levar o papel de articulação à boca.
- Sinérese e embebição: perda e ganho de água do alginato, que distorcem a moldagem se não for vazada a tempo.
- Artrocentese: lavagem do compartimento superior da ATM através de agulhas, procedimento minimamente invasivo.
- Coadjuvar: apoiar e colaborar com o médico dentista na execução de um procedimento, sem decidir sobre ele.
Síntese
A oclusão resulta do trabalho conjunto entre dentes, músculos da mastigação e ATM, uma articulação bilateral com disco articular e dois compartimentos de movimento. Uma oclusão funcional ideal combina critérios estáticos (overjet, overbite, linhas médias) e dinâmicos (guia anterior, ausência de interferências); a classificação de Angle descreve a relação molar, mas não esgota esses critérios. As disfunções temporomandibulares têm etiologia multifatorial, segundo o modelo biopsicossocial, e dividem-se em articulares, musculares e outras, incluindo hipomobilidade crónica e disfunções de crescimento. O bruxismo e a apneia do sono relacionam-se com frequência, e ambos respondem, na maioria dos casos, a medidas conservadoras. A consulta de oclusão combina história clínica, exame extraoral e exames auxiliares de diagnóstico, e o/a técnico/a assistente dentário coadjuva em todas estas etapas, reconhecendo estruturas e sinais, preparando material, garantindo a limpeza e a segurança, e reportando sempre que necessário, sem nunca diagnosticar nem decidir o tratamento.
Exercícios resolvidos
1. Um utente tem a cúspide mesiovestibular do primeiro molar superior a ocluir exatamente no sulco vestibular do primeiro molar inferior. Que classe de Angle é esta?
Resolução: trata-se da Classe I (neutroclusão), a relação molar de referência da classificação de Angle. Isto não significa, por si só, que a oclusão está isenta de outras anomalias, como apinhamento ou diastemas.
2. Distingue um estalido articular com redução de um bloqueio articular sem redução.
Resolução: no estalido com redução, o disco desloca-se em repouso mas regressa à posição normal durante a abertura, produzindo o som. No bloqueio sem redução, o disco fica permanentemente deslocado e não regressa, podendo limitar de forma súbita a abertura da boca.
3. Que fatores compõem o modelo biopsicossocial da etiologia das DTM?
Resolução: fatores biomecânicos (trauma, hábitos parafuncionais), fisiopatológicos (alterações inflamatórias ou degenerativas) e psicossociais (stress, ansiedade). Nenhum destes fatores, isoladamente, explica por completo o aparecimento de uma DTM.
4. Um utente refere que o parceiro ouve ranger de dentes durante a noite. Que hábito é este, e que pergunta adicional se justifica na anamnese?
Resolução: trata-se de bruxismo do sono. Justifica-se perguntar sobre a qualidade do sono, dada a associação frequente entre bruxismo do sono e apneia obstrutiva do sono.
5. Durante o exame extraoral, mede-se uma abertura bucal de 32 mm. Como interpretas este valor à luz do capítulo 3?
Resolução: está abaixo do valor de referência habitual (40 mm ou mais), o que é um achado a registar e a comunicar ao médico dentista para avaliação, sem que o/a assistente tire conclusões diagnósticas sobre a causa.
6. Um instrumento usado no registo oclusal aparenta um pequeno defeito, mas a consulta está atrasada. Qual é a atuação correta do/a técnico/a assistente dentário?
Resolução: reportar de imediato o defeito ao médico dentista, independentemente do atraso na consulta. Decidir usar o instrumento "só desta vez" excede os limites de intervenção do/a técnico/a assistente dentário.