Sebenta · Prevenir e controlar infeções na prestação de cuidados de saúde oral (UC04002)
- Introdução
- 1. Microrganismos e risco biológico
- 2. Agentes infeciosos relevantes em saúde oral
- 3. Processo infecioso e contágio
- 4. O TAD como hospedeiro e vetor de infeção
- 5. Epidemiologia e cadeia epidemiológica
- 6. Quadro legal e entidades reguladoras
- 7. Equipamentos de Proteção Individual e higiene individual
- 8. Produtos químicos de limpeza e desinfeção
- 9. Boas práticas de prevenção e controlo de infeção
- 10. Sinais de alerta para a disseminação de uma infeção
- 11. Transporte seguro de amostras biológicas
- 12. Ética, deontologia e normas de segurança no trabalho
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara o/a Técnico/a Assistente Dentário (TAD) para prevenir e controlar infeções no consultório dentário, um contexto de risco biológico elevado: sangue, saliva, aerossóis e instrumentos cortantes e perfurantes fazem parte do dia a dia.
O percurso segue a lógica do próprio risco: começamos pela microbiologia básica, pelos agentes mais relevantes em saúde oral e pelo processo infecioso, passamos pela epidemiologia que explica porque existem as normas, olhamos para a estrutura de regulação nacional e local, e chegamos às medidas concretas que quebram a cadeia de transmissão: equipamento de proteção individual, higiene, produtos químicos, boas práticas, sinais de alerta e transporte de amostras. Fechamos com a ética profissional e as normas de segurança no trabalho, que sustentam tudo o resto.
O TAD trabalha sob a orientação do médico dentista: prepara, assiste, limpa, desinfeta, protege e comunica. Não diagnostica nem prescreve. Por isso, ao longo da sebenta, sempre que uma situação exige uma decisão clínica (avaliar um utente, decidir uma profilaxia), o papel do TAD é reconhecer, agir sobre o que lhe compete e comunicar de imediato.
Objetivos de aprendizagem (referencial): diferenciar os microrganismos e o seu grau de patogenicidade; identificar vetor, hospedeiro e cadeia de transmissão; identificar a estrutura de regulação no controlo de infeção (Nacional e Local); adotar boas práticas para prevenção da contaminação e propagação da infeção; e aplicar práticas de prevenção de contaminação durante o transporte de amostras biológicas.
1. Microrganismos e risco biológico
Um microrganismo é um agente biológico microscópico. Os grupos que interessam ao controlo de infeção são as bactérias, os vírus, os fungos e os protozoários. Os parasitas maiores, como os vermes, não são microrganismos, mas estudam-se em conjunto com eles. Nem todos os microrganismos causam doença, e é essa diferença que importa reconhecer.
Tipos de microrganismos
| Tipo | Características principais | Exemplos com interesse em saúde oral |
|---|---|---|
| Bactérias | células sem núcleo, multiplicam-se sozinhas; algumas formam esporos, formas de resistência que sobrevivem ao calor seco, à secagem e a muitos desinfetantes | Streptococcus mutans (cárie), Porphyromonas gingivalis (doença periodontal), Mycobacterium tuberculosis, Legionella pneumophila, Staphylococcus aureus |
| Vírus | não têm metabolismo próprio, só se multiplicam dentro de células vivas; os que têm invólucro lipídico são mais frágeis perante álcool e detergentes do que os vírus sem invólucro | vírus das hepatites B e C, VIH, herpes simplex, vírus da gripe, SARS-CoV-2 |
| Fungos | leveduras e bolores; muitos fazem parte da flora normal | Candida albicans (candidíase oral, "sapinhos") |
| Protozoários | seres unicelulares com núcleo | pouco relevantes na transmissão em consultório |
| Priões | proteínas anómalas, sem material genético, extremamente resistentes à esterilização convencional | doença de Creutzfeldt-Jakob; risco raro, mas exige procedimentos especiais definidos pela instituição |
Patogenicidade, virulência e dose infeciosa
- Patogenicidade é a capacidade de um microrganismo causar doença.
- Virulência é a intensidade dessa capacidade: dois microrganismos patogénicos podem ter virulências muito diferentes.
- Dose infeciosa é a quantidade de microrganismos necessária para causar infeção. O vírus da hepatite B, por exemplo, transmite-se com quantidades mínimas de sangue, muitas vezes invisíveis a olho nu.
Grau de patogenicidade
| Grupo | Definição | Exemplo em saúde oral |
|---|---|---|
| Não patogénico (comensal) | vive no organismo sem causar doença em condições normais | grande parte da flora bacteriana habitual da boca |
| Oportunista | causa doença quando as defesas do hospedeiro estão fragilizadas | Candida albicans |
| Patogénico | causa doença mesmo em pessoas saudáveis | vírus da hepatite B |
A fronteira não é rígida. Alguns membros da flora habitual, como os estreptococos orais, causam cárie quando o equilíbrio da boca se altera, e podem causar endocardite se entrarem na corrente sanguínea de um utente com fatores de risco cardíacos. É por isso que a flora "normal" nunca é tratada como inofensiva fora do seu lugar.
Grupos de risco dos agentes biológicos
A legislação de segurança e saúde no trabalho (Decreto-Lei n.º 84/97, na redação dada pelo Decreto-Lei n.º 102-A/2020) classifica os agentes biológicos em quatro grupos de risco, segundo a gravidade da doença, o risco de propagação à coletividade e a existência de profilaxia ou tratamento eficaz:
| Grupo | Critério | Exemplos |
|---|---|---|
| 1 | pouco provável causar doença | a maioria das bactérias comensais inofensivas |
| 2 | pode causar doença e ser um perigo para os trabalhadores, pouco provável propagar-se à coletividade, existe profilaxia ou tratamento eficaz | Staphylococcus aureus, herpes simplex, Legionella pneumophila, Candida albicans |
| 3 | pode causar doença grave, risco de propagação à coletividade, mas existe em regra profilaxia ou tratamento eficaz | vírus das hepatites B e C, VIH, Mycobacterium tuberculosis, SARS-CoV-2 |
| 4 | causa doença grave, elevado risco de propagação, sem profilaxia ou tratamento eficaz em regra | vírus Ébola (sem relevância na prática dentária corrente) |
Biofilme
Na natureza, a maioria das bactérias não vive isolada: forma biofilmes, comunidades agarradas a uma superfície e protegidas por uma matriz que produzem. A placa bacteriana é um biofilme; o interior das tubagens de água da unidade dentária também. O biofilme protege os microrganismos dos desinfetantes, e por isso a remoção mecânica (escovar, limpar, purgar) é sempre o primeiro passo.
O risco biológico no consultório
O risco biológico é a probabilidade de exposição a um agente capaz de causar infeção. No consultório dentário, as principais vias de entrada são:
- Percutânea: picada ou corte com material contaminado (agulhas, lâminas de bisturi, limas endodônticas, brocas, curetas).
- Mucosa: salpicos para os olhos, boca ou nariz.
- Pele não íntegra: cortes, gretas ou dermatites nas mãos em contacto com fluidos.
- Inalação: aerossóis de água, saliva e sangue gerados por turbinas, contra-ângulos, destartarizadores de ultrassons e seringa ar-água.
Em medicina dentária, a saliva é tratada como potencialmente infeciosa, porque durante os procedimentos se mistura frequentemente com sangue, mesmo quando este não é visível.
O risco é bidirecional: pode ir do utente para a equipa e da equipa para o utente. Reconhecer isto muda a forma como o TAD encara cada procedimento, mesmo os mais rotineiros.
Exemplo resolvido · Classificar o risco de uma situação
Um utente chega para uma consulta de rotina, sem sintomas de doença aparente. Vai ser feita uma destartarização com ultrassons.
- Identificar as fontes de risco: saliva, sangue gengival (frequente numa destartarização), aerossóis do destartarizador.
- Identificar as vias de entrada: mucosas (olhos, boca) e inalação (aerossóis); risco percutâneo baixo, mas presente com as curetas e pontas afiadas.
- Concluir: mesmo sem sintomas visíveis, o risco biológico está presente e exige luvas, máscara, proteção ocular e bata, além de aspiração de alta potência para reduzir o aerossol na origem.
A ausência de sintomas visíveis nunca significa ausência de risco: muitas pessoas infetadas pelos vírus das hepatites ou pelo VIH não sabem que estão infetadas. É o princípio das precauções básicas de controlo de infeção.
2. Agentes infeciosos relevantes em saúde oral
Nem todos os microrganismos pesam o mesmo no dia a dia do consultório. Estes são os que justificam a maior parte das regras que o TAD aplica.
| Agente | Transmissão principal | Relevância no consultório | Medidas que mais protegem |
|---|---|---|---|
| Vírus da hepatite B (VHB) | sangue e fluidos com sangue: picada, corte, salpico em mucosa | é o agente com maior risco de transmissão após picada; mantém-se infecioso em superfícies secas durante pelo menos 7 dias | vacinação, luvas, prevenção de picadas, limpeza e desinfeção de superfícies |
| Vírus da hepatite C (VHC) | sangue: sobretudo percutânea | não há vacina; muitos portadores não sabem que estão infetados | prevenção de picadas, uso único do material de uso único, reprocessamento correto |
| Vírus da imunodeficiência humana (VIH) | sangue: percutânea e, com risco menor, mucosa | risco por picada baixo, mas existe profilaxia pós-exposição que tem de começar muito cedo | prevenção de picadas, EPI, resposta rápida à exposição |
| Mycobacterium tuberculosis | via aérea: núcleos de gotículas que ficam suspensos no ar | um utente com tuberculose pulmonar ativa pode transmitir a doença pelo ar da sala | reconhecer sinais de alerta, adiar tratamentos não urgentes, respirador FFP2 quando indicado, ventilação |
| Vírus herpes simplex | contacto direto com lesões (herpes labial) e com saliva | pode causar infeção nos dedos do profissional (panarício herpético) e nos olhos | luvas, proteção ocular, adiar tratamentos eletivos com lesões ativas |
| Vírus respiratórios (gripe, SARS-CoV-2) | gotículas, aerossóis e contacto | os aerossóis dentários aumentam a exposição | etiqueta respiratória, máscara, ventilação, vacinação |
| Legionella pneumophila | inalação de aerossóis de água contaminada; não passa de pessoa para pessoa | pode colonizar as linhas de água da unidade dentária | manutenção e tratamento das linhas de água, purgas |
| Staphylococcus aureus (incluindo MRSA) | contacto, sobretudo através das mãos | exemplo de bactéria com resistência aos antibióticos | higiene das mãos, limpeza e desinfeção |
Os três vírus transmitidos pelo sangue
Após uma picada com uma agulha contaminada com sangue de uma fonte infetada, o risco médio de transmissão descrito na literatura clássica é muito diferente de vírus para vírus:
| Vírus | Risco aproximado após picada | Vacina para o profissional | Profilaxia após exposição |
|---|---|---|---|
| VHB | entre cerca de 6% e 30%, conforme a carga viral da fonte | sim | sim (vacina e/ou imunoglobulina, se o profissional não estiver protegido) |
| VHC | cerca de 1,8% nos estudos clássicos; estimativas mais recentes são inferiores | não | não há profilaxia; faz-se vigilância e tratamento precoce se houver infeção |
| VIH | cerca de 0,3% (e cerca de 0,09% em exposição de mucosas) | não | sim, medicação antirretroviral a iniciar o mais cedo possível |
Exemplo resolvido · Porque é a vacina da hepatite B a medida mais importante para o TAD
- Comparar os riscos: numa picada, o VHB transmite-se com muito maior probabilidade do que o VHC ou o VIH.
- Comparar as defesas disponíveis: para o VHB existe uma vacina eficaz, que protege antes de o acidente acontecer; para o VHC não existe.
- Verificar a proteção: a vacinação completa faz-se em três doses e a resposta confirma-se com uma análise de anticorpos (anti-HBs), considerando-se protegido quem atinge pelo menos 10 mUI/mL.
- Concluir: a vacinação completa e confirmada atua sobre o último elo da cadeia (o hospedeiro suscetível) e protege o TAD mesmo quando todas as outras barreiras falham.
As linhas de água da unidade dentária
As tubagens estreitas que levam água à turbina, ao contra-ângulo, à seringa ar-água e ao destartarizador favorecem a formação de biofilme, sobretudo quando a água fica parada (noites, fins de semana). Esse biofilme liberta bactérias como Legionella e Pseudomonas aeruginosa para a água que chega à boca do utente e para o aerossol que a equipa respira.
Boas práticas nas linhas de água:
- Purgar água e ar durante 20 a 30 segundos, após cada utente, em todos os dispositivos ligados à água que entram na boca (recomendação dos CDC para a prática dentária).
- Aplicar o tratamento químico das linhas definido pelo fabricante da unidade, com o produto e a frequência indicados; a purga sozinha não elimina o biofilme.
- Confirmar que as válvulas antirretorno estão operacionais, para impedir que fluidos da boca do utente sejam aspirados para dentro das tubagens.
- Registar as intervenções e cumprir a monitorização da qualidade da água definida pela clínica. Como referência, os CDC indicam para a água usada em tratamentos dentários não cirúrgicos um máximo de 500 UFC/mL de bactérias heterotróficas.
- Em cirurgia usa-se soro ou água estéril, fornecidos por sistemas próprios, nunca a água da unidade.
3. Processo infecioso e contágio
Contaminação, colonização e infeção
- Contaminação: presença de microrganismos numa superfície, objeto ou na pele, sem que se multipliquem nos tecidos.
- Colonização: os microrganismos multiplicam-se no organismo sem causar doença nem resposta do hospedeiro.
- Infeção: os microrganismos invadem os tecidos, multiplicam-se e provocam uma resposta do hospedeiro, com ou sem sintomas.
- Portador: pessoa que transporta um agente infecioso e o pode transmitir, muitas vezes sem sintomas.
- Período de incubação: tempo entre a entrada do agente e o aparecimento dos sintomas. Durante este período a pessoa pode já transmitir a infeção sem o saber.
Hospedeiro, vetor e cadeia de transmissão
- Hospedeiro: o organismo onde o microrganismo vive e se pode multiplicar.
- Vetor: em sentido estrito, é um ser vivo que transporta o agente e o transmite a um novo hospedeiro, como o mosquito na malária. Em controlo de infeção a palavra usa-se também em sentido lato, para qualquer meio que leva o microrganismo de uma pessoa para outra sem necessariamente ficar doente, incluindo as mãos de um profissional. É neste sentido que o referencial fala do TAD como vetor.
- Fómite (ou veículo inanimado): objeto ou superfície contaminados que transportam o microrganismo, como um instrumento mal reprocessado, o puxador do candeeiro ou o teclado do computador.
- Cadeia de transmissão: o percurso completo que o microrganismo percorre desde a fonte até um novo hospedeiro.
Vias de transmissão
| Via de transmissão | Como acontece | Exemplo no consultório | Medida principal |
|---|---|---|---|
| Contacto direto | contacto físico com sangue, saliva, lesões ou mucosas | tocar numa lesão de herpes labial sem luvas | luvas e higiene das mãos |
| Contacto indireto | através de fómites: superfícies, instrumentos, equipamentos | usar num utente um espelho mal reprocessado | limpeza, desinfeção e esterilização |
| Percutânea (parentérica) | entrada direta de sangue através da pele | picada com a agulha de anestesia após uso | prevenção de picadas, contentores próprios, vacinação |
| Gotículas | partículas maiores expelidas ao falar, tossir ou espirrar, que caem a curta distância | salpico de saliva para a face do TAD | máscara, proteção ocular, etiqueta respiratória |
| Via aérea | partículas muito pequenas que ficam suspensas no ar e viajam mais longe | tuberculose pulmonar; parte do aerossol dentário | respirador FFP2 quando indicado, ventilação, aspiração de alta potência |
| Veículo comum (água) | água contaminada inalada em aerossol | Legionella nas linhas de água da unidade | tratamento e purga das linhas de água |
Exemplo resolvido · Identificar hospedeiro, fómite e vetor numa situação
Um instrumento usado num utente é mal reprocessado e utilizado no utente seguinte, sem sintomas.
- O primeiro utente é o hospedeiro onde o microrganismo vivia e funciona como fonte (reservatório).
- O instrumento é um fómite: um veículo inanimado que transporta o microrganismo sem "estar doente". Em sentido lato, é o "vetor" desta transmissão.
- O segundo utente torna-se um novo hospedeiro, se a cadeia não for quebrada antes.
A quebra desta cadeia acontece no reprocessamento do instrumento (limpeza, e desinfeção ou esterilização conforme o tipo de instrumento), entre um utente e o outro. É aqui que a boa prática atua.
4. O TAD como hospedeiro e vetor de infeção
O/A Técnico/a Assistente Dentário não está fora da cadeia de transmissão: é, ao mesmo tempo, potencial hospedeiro e potencial vetor.
O TAD como hospedeiro
- Pode ser infetado por exposição a sangue ou saliva contaminados, por exemplo numa picada acidental ou num salpico para os olhos.
- Pode inalar microrganismos presentes no aerossol dentário.
- Protege-se com a vacinação recomendada pela medicina do trabalho (a hepatite B em primeiro lugar), com o EPI adequado e com a prevenção de acidentes com cortantes e perfurantes. Mãos com cortes, gretas ou dermatites aumentam o risco: as feridas cobrem-se com penso impermeável antes de calçar as luvas.
O TAD como vetor
- Transporta microrganismos entre utentes através das mãos, do fardamento, de objetos pessoais (telemóvel, canetas) e de instrumentos mal reprocessados.
- Pode ser ele próprio fonte de infeção quando está doente. Febre, gastroenterite, conjuntivite, infeção respiratória ou lesões de herpes nas mãos ou nos lábios comunicam-se ao responsável, que decide se o profissional se deve afastar dos cuidados diretos até recuperar.
Procedimentos após exposição a risco biológico
Existem procedimentos técnicos e legais associados à exposição de risco biológico, tanto por autoexposição como por exposição do utente. A Norma da DGS sobre precauções básicas considera exposição significativa a picada ou corte com material contaminado, o contacto de sangue ou fluidos com feridas ou pele lesada, e o salpico para as mucosas, incluindo os olhos.
- Primeiros cuidados, de imediato:
- Picada ou corte: lavar com água corrente e sabão, deixando o local sangrar livremente, sem espremer, sem esfregar com força e sem aplicar lixívia ou outros produtos agressivos na pele.
- Salpico nos olhos: irrigar abundantemente com água corrente ou soro fisiológico, retirando antes as lentes de contacto.
- Salpico na boca ou no nariz: enxaguar abundantemente com água, sem engolir.
- Comunicar de imediato ao médico dentista ou ao responsável do consultório. Não se espera pelo fim do turno.
- Avaliação médica urgente, no serviço definido pela clínica (medicina do trabalho ou serviço de urgência). É o médico que avalia o risco, pede análises e decide a profilaxia. No caso do VIH, a profilaxia deve começar o mais cedo possível, idealmente nas primeiras horas, e não tem indicação depois de 72 horas.
- Identificar a fonte, quando possível: o médico dentista pode pedir ao utente, com o seu consentimento, análises aos vírus transmitidos pelo sangue.
- Registar o incidente: data, hora, tipo de exposição, material envolvido, EPI usado no momento e primeiros cuidados prestados. O acidente é participado como acidente de trabalho.
- Seguir o acompanhamento clínico e as análises de controlo marcadas.
A exposição do utente também existe: um utente pode ser atingido por sangue de um profissional que se cortou durante o procedimento, ou por um instrumento que não foi reprocessado. Aplica-se o mesmo princípio: interromper, prestar os primeiros cuidados, comunicar de imediato ao médico dentista e registar, com transparência perante o utente.
Exemplo resolvido · Picada com a agulha da anestesia
Às 10h40, ao arrumar o tabuleiro no fim de uma extração, um TAD pica-se na agulha da seringa de anestesia que ficou destapada.
- 10h40: retira as luvas, lava o local com água corrente e sabão, deixa sangrar sem espremer, seca e cobre com penso.
- 10h45: comunica ao médico dentista, que avalia a situação e, com o consentimento do utente, pede as análises à fonte.
- Nos minutos seguintes: dirige-se ao serviço definido no procedimento da clínica, levando a informação sobre o utente fonte e o seu próprio boletim de vacinas. O relógio conta: a eventual profilaxia do VIH é tanto mais eficaz quanto mais cedo começar.
- No mesmo dia: regista o incidente e é feita a participação do acidente de trabalho.
- Depois: a equipa analisa a causa (agulha deixada destapada no tabuleiro) e corrige o procedimento, por exemplo com um dispositivo de proteção da agulha e a regra de que é quem a usa que a elimina, logo após o uso.
Ignorar um incidente "pequeno" pode transformar-se num problema muito maior mais tarde.
5. Epidemiologia e cadeia epidemiológica
Princípios de epidemiologia
A epidemiologia estuda como as doenças se distribuem e se propagam numa população: onde ocorrem, quando e a quem afetam. É esta ciência que sustenta as normas de prevenção que o TAD aplica todos os dias.
Conceitos essenciais:
| Conceito | Significado |
|---|---|
| Incidência | número de casos novos num período de tempo, numa população |
| Prevalência | número total de casos existentes num dado momento |
| Endemia | doença presente de forma constante numa região, com número de casos esperado |
| Surto | aumento de casos acima do esperado, localizado (um serviço, uma clínica, uma escola) |
| Epidemia | aumento de casos acima do esperado numa região ou país |
| Pandemia | epidemia que se estende a vários continentes |
| Infeção associada aos cuidados de saúde (IACS) | infeção que o utente adquire em consequência dos cuidados prestados, ou que o profissional adquire no trabalho, e que não estava presente nem em incubação antes |
Exemplo resolvido · Calcular e comparar uma taxa
Uma clínica com 8 profissionais expostos registou 2 acidentes por picada em 2025. Outra clínica, com 20 profissionais, registou 3 acidentes no mesmo ano.
- Clínica A: 2 ÷ 8 = 0,25, ou seja, 25 acidentes por 100 profissionais por ano.
- Clínica B: 3 ÷ 20 = 0,15, ou seja, 15 acidentes por 100 profissionais por ano.
- Concluir: embora a clínica B tenha mais acidentes em número absoluto, a clínica A tem uma taxa mais alta. Comparar números absolutos entre equipas de tamanhos diferentes engana; é a taxa que mostra onde o risco é maior.
A cadeia epidemiológica
A cadeia epidemiológica é a sequência de elos que permite a uma infeção propagar-se:
Agente infecioso → Reservatório → Porta de saída → Modo de transmissão →
Porta de entrada → Hospedeiro suscetível
- Agente infecioso: o microrganismo capaz de causar doença.
- Reservatório: onde o agente vive e se multiplica: pessoas (doentes ou portadores), água (biofilme das linhas de água), superfícies e equipamentos contaminados.
- Porta de saída: por onde o agente sai do reservatório: sangue, saliva, secreções respiratórias.
- Modo de transmissão: como passa de um lado para o outro (ver as vias de transmissão no capítulo 3). As mãos são o veículo mais frequente.
- Porta de entrada: por onde entra no novo hospedeiro: pele lesada, picada, mucosas, vias respiratórias.
- Hospedeiro suscetível: pessoa sem defesas suficientes contra aquele agente.
Cada elo pode ser quebrado por uma medida específica:
| Elo | Exemplo de medida que o quebra |
|---|---|
| Agente infecioso | limpeza seguida de desinfeção ou esterilização, que eliminam ou inativam o agente |
| Reservatório | limpeza e desinfeção de superfícies; tratamento das linhas de água; afastamento do profissional doente |
| Porta de saída | etiqueta respiratória, máscara no utente com sintomas respiratórios, aspiração de alta potência |
| Modo de transmissão | higiene das mãos, barreiras de proteção nas superfícies, ventilação, reprocessamento dos instrumentos |
| Porta de entrada | EPI do TAD (luvas, máscara, óculos), prevenção de picadas, feridas cobertas |
| Hospedeiro suscetível | vacinação, boa condição de saúde geral |
Exemplo resolvido · Escolher a medida certa para o elo certo
Situação: identifica-se acumulação de matéria orgânica numa superfície de trabalho entre atendimentos.
- Localizar o elo em risco: a superfície funciona como reservatório ambiental e, se for tocada, como veículo de transmissão.
- Escolher a medida adequada a esse elo: limpeza seguida de desinfeção, não apenas EPI (que atua noutros elos).
- Confirmar que a medida foi aplicada corretamente antes do próximo atendimento.
Escolher a medida certa para o elo certo evita esforço desperdiçado em ações que não resolvem o problema real.
6. Quadro legal e entidades reguladoras
Estrutura de regulação: Nacional e Local
A prevenção e controlo de infeção em Portugal assenta em entidades nacionais, que definem as regras e fiscalizam, e em estruturas locais, onde as regras se aplicam.
| Nível | Entidade | Papel no controlo de infeção |
|---|---|---|
| Nacional | Direção-Geral da Saúde (DGS) | publica normas e orientações técnicas; integra a direção nacional do PPCIRA |
| Nacional | Entidade Reguladora da Saúde (ERS) | licencia e fiscaliza os estabelecimentos de saúde, incluindo clínicas e consultórios dentários |
| Nacional | Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) | inspeciona e fiscaliza a atividade dos serviços de saúde |
| Nacional | INFARMED | autoridade dos medicamentos e dos dispositivos médicos |
| Nacional | Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) | fiscaliza a segurança e saúde no trabalho, incluindo a proteção contra agentes biológicos |
| Nacional | Agência Portuguesa do Ambiente (APA) | regula a gestão de resíduos |
| Nacional | Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) | regula o exercício da medicina dentária e a deontologia do médico dentista |
| Local | Direção clínica do consultório ou clínica | responde pela qualidade dos cuidados, incluindo o controlo de infeção; aprova os protocolos internos |
| Local | Equipa (médicos dentistas, higienistas, TAD) | aplica os protocolos em cada atendimento e comunica falhas |
No plano internacional, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) produzem as recomendações em que as normas nacionais se apoiam.
O PPCIRA
O Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA) é um programa de saúde prioritário desenvolvido pela DGS. A sua organização atual está definida no Despacho n.º 10901/2022, que tem três objetivos gerais: reduzir a incidência de infeções associadas a cuidados de saúde, promover o uso correto e responsável de antimicrobianos e diminuir a taxa de microrganismos com resistência adquirida aos antimicrobianos.
O despacho organiza o programa em três níveis:
| Nível | Estrutura | Onde está |
|---|---|---|
| Central | direção nacional do PPCIRA | integrada na DGS |
| Regional | Unidades Regionais PPCIRA (UR-PPCIRA) | nas estruturas regionais de saúde |
| Local | Unidades Locais PPCIRA (UL-PPCIRA) | nos estabelecimentos do SNS: centros de saúde, hospitais, unidades locais de saúde e unidades de cuidados continuados |
A ligação à resistência aos antimicrobianos é direta: cada infeção evitada é um antibiótico que não se usa, e os antibióticos usados sem necessidade ou de forma incorreta selecionam microrganismos resistentes, tornando as infeções mais difíceis de tratar no futuro. Em medicina dentária, a prescrição de antibióticos é um ato do médico dentista; o contributo do TAD é prevenir as infeções que levariam a essa prescrição.
O nível local num consultório privado
As UL-PPCIRA existem nas unidades do SNS. Um consultório dentário privado não tem uma UL-PPCIRA, mas não fica fora do sistema:
- Para funcionar, é licenciado pela ERS (Decreto-Lei n.º 127/2014) e tem de cumprir os requisitos da Portaria n.º 99/2024/1, específica das clínicas e consultórios dentários. Essa portaria atribui ao diretor clínico a responsabilidade de zelar pela qualidade dos cuidados, "incluindo o controlo de infeção", e de aprovar os protocolos técnicos; exige ainda, por exemplo, dispensador de sabão líquido e de solução antissética de base alcoólica em todos os compartimentos de prestação de cuidados e recipientes para triagem de resíduos nos gabinetes.
- As normas da DGS aplicam-se a todas as unidades prestadoras de cuidados de saúde, públicas ou privadas.
- O consultório traduz tudo isto em protocolos internos escritos (higiene das mãos, EPI, limpeza e desinfeção, reprocessamento, exposição acidental, resíduos) e designa quem acompanha o seu cumprimento.
Documentos de referência
| Documento | Assunto |
|---|---|
| Norma DGS n.º 029/2012, atualizada em 31/10/2013 | Precauções Básicas do Controlo da Infeção (PBCI) |
| Norma DGS n.º 007/2019 | Higiene das mãos nas unidades de saúde |
| Despacho n.º 10901/2022 | Estrutura e objetivos do PPCIRA |
| Portaria n.º 99/2024/1 | Requisitos das clínicas e consultórios dentários |
| Decreto-Lei n.º 84/97 (redação do Decreto-Lei n.º 102-A/2020) | Proteção dos trabalhadores contra agentes biológicos |
| Decreto-Lei n.º 121/2013 | Prevenção de feridas com dispositivos médicos cortantes e perfurantes |
| Lei n.º 102/2009 | Regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho |
| Despacho n.º 242/96 | Classificação dos resíduos hospitalares em quatro grupos |
Exemplo resolvido · A quem recorrer
Num consultório privado, um TAD tem dúvidas sobre o tempo de contacto de um novo desinfetante e, na mesma semana, verifica que a clínica está sem solução antissética de base alcoólica há três dias.
- Dúvida técnica sobre o produto: consultar o rótulo e a ficha técnica e de dados de segurança do fabricante, e confirmar com o responsável da clínica. É uma questão de nível local.
- Falta de material essencial: comunicar por escrito ao superior hierárquico, como prevê a Norma DGS sobre precauções básicas para as falhas de stock de material necessário ao controlo de infeção.
- Se a situação persistir e puser em causa a segurança dos utentes e da equipa, as entidades nacionais (ERS para o funcionamento do estabelecimento, ACT para as condições de trabalho) existem precisamente para isso. O caminho normal, porém, começa sempre no nível local.
7. Equipamentos de Proteção Individual e higiene individual
Tipologia e uso do EPI
| EPI | Protege contra | Quando usar e cuidados |
|---|---|---|
| Luvas de exame (nitrilo ou látex) | contacto com sangue, saliva e mucosas | em todos os procedimentos clínicos; um par por utente; mudar se rasgarem ou perfurarem; nunca lavar nem desinfetar luvas para as reutilizar |
| Luvas cirúrgicas esterilizadas | contaminação do campo cirúrgico e contacto com sangue | cirurgia oral e implantologia |
| Luvas de trabalho resistentes | cortes e produtos químicos | limpeza de instrumentos, superfícies e manuseio de desinfetantes; nunca em atos clínicos |
| Máscara cirúrgica (resistente a salpicos) | salpicos e gotículas para a boca e o nariz | em todos os procedimentos com risco de salpicos ou aerossóis; mudar entre utentes e sempre que estiver húmida |
| Respirador FFP2 | inalação de partículas finas em suspensão | procedimentos geradores de aerossóis em utentes com suspeita de infeção de transmissão aérea, segundo o protocolo da clínica e as orientações da DGS; exige verificação do ajuste à face |
| Óculos com proteção lateral ou viseira | salpicos e fragmentos projetados para os olhos | sempre que há risco de salpicos, e sempre em procedimentos geradores de aerossóis; os óculos graduados pessoais não conferem proteção adequada; a viseira não substitui a máscara |
| Bata ou avental | contaminação do fardamento e da pele | bata de manga comprida quando há risco acrescido de salpicos; substituir quando contaminada e segundo o protocolo |
| Touca | contaminação do cabelo | procedimentos cirúrgicos e procedimentos que gerem muito aerossol |
O utente também se protege: óculos de proteção contra salpicos e fragmentos, e babete descartável.
O EPI escolhe-se de acordo com o nível de exposição e a natureza da tarefa, exatamente como estabelece o critério de desempenho da UC.
Sequência de colocação
- Higienizar as mãos.
- Bata: cobrir o tronco do pescoço aos joelhos e os braços até aos punhos; apertar no pescoço e na cintura.
- Máscara ou respirador: ajustar o clip ao nariz e cobrir boca e queixo; no respirador, verificar o ajuste.
- Óculos ou viseira: ajustar à face.
- Luvas: por último, cobrindo o punho da bata.
Sequência de remoção
A remoção é o momento de maior risco de autocontaminação. A ordem não é simplesmente a inversa da colocação: retira-se primeiro o que está mais contaminado, e a máscara, que protege as vias respiratórias, sai em último lugar.
- Luvas: agarrar a face externa de uma luva com a outra mão enluvada e puxar, virando-a do avesso; segurá-la na mão ainda enluvada; deslizar os dedos da mão livre por dentro do punho da segunda luva e retirá-la por cima da primeira. Eliminar.
- Higienizar as mãos.
- Óculos ou viseira: retirar pelas hastes ou pelo elástico, sem tocar na parte da frente; colocar no local de reprocessamento ou eliminar, se forem descartáveis.
- Bata: desapertar, afastar do pescoço e dos ombros tocando só no interior, virar do avesso e enrolar. Eliminar ou colocar no saco de roupa usada.
- Máscara ou respirador: retirar pelos atilhos ou elásticos, sem tocar na parte da frente. Eliminar.
- Higienizar as mãos de novo. Se as mãos se contaminarem em qualquer passo intermédio, higienizam-se nesse momento.
Higiene individual
A higiene das mãos é uma das medidas mais importantes na prevenção de infeção. A Norma DGS n.º 007/2019 adota o modelo da OMS dos cinco momentos:
| Momento | Exemplo no consultório |
|---|---|
| 1. Antes do contacto com o utente | antes de ajudar o utente a sentar-se ou de lhe colocar o babete |
| 2. Antes de um procedimento limpo ou assético | antes de calçar as luvas para preparar o material de uma cirurgia |
| 3. Após risco de exposição a fluidos orgânicos | logo após retirar as luvas no fim do procedimento |
| 4. Após o contacto com o utente | depois de acompanhar o utente à receção |
| 5. Após o contacto com o ambiente envolvente do utente | depois de tocar na cadeira ou no candeeiro, mesmo sem ter tocado no utente |
Técnicas e tempos segundo a mesma norma:
- Fricção com solução antissética de base alcoólica (SABA): é a técnica de eleição quando as mãos não estão visivelmente sujas. Friccionar todas as superfícies das mãos durante 20 a 30 segundos, até secar. Não se usa SABA em mãos visivelmente sujas, incluindo com pó de luvas.
- Lavagem com água e sabão: quando as mãos estão visivelmente sujas ou contaminadas com matéria orgânica. O procedimento completo demora 40 a 60 segundos e termina com a secagem com toalhete de uso único.
- O uso de luvas não dispensa a higiene das mãos, antes de as calçar e depois de as retirar.
Condições para uma higiene eficaz: unhas naturais, curtas e limpas, sem verniz, gel nem unhas artificiais; sem anéis (incluindo a aliança), pulseiras nem relógio; cortes e abrasões cobertos com penso impermeável; antebraços expostos. Nas pausas e no fim do turno aplica-se creme dermoprotetor, porque pele gretada acumula microrganismos e é uma porta de entrada.
Outros cuidados de higiene individual: fardamento próprio e limpo, trocado com regularidade e nunca usado fora do local de trabalho; cabelo preso; não comer, beber nem usar o telemóvel com o EPI colocado ou na área clínica.
Exemplo resolvido · Sequência completa antes e depois de um atendimento
- Higienizar as mãos antes de preparar a área de trabalho.
- Colocar bata, máscara, óculos e luvas, por esta ordem.
- Prestar a assistência, mantendo o EPI durante todo o procedimento e sem tocar em superfícies não protegidas com as luvas contaminadas.
- No fim, retirar as luvas, higienizar as mãos, retirar os óculos pelas hastes, a bata (se for de uso único ou estiver contaminada) e a máscara pelos elásticos.
- Higienizar as mãos de novo, limpar e desinfetar a área e os óculos reutilizáveis, e só depois preparar o atendimento seguinte.
A sequência tem de se repetir por completo em cada utente, sem exceções.
8. Produtos químicos de limpeza e desinfeção
Limpeza, desinfeção e esterilização
- Limpeza: remove sujidade visível e matéria orgânica com água e detergente; é sempre o passo prévio, porque a matéria orgânica protege os microrganismos e inativa muitos desinfetantes.
- Desinfeção: reduz o número de microrganismos a um nível seguro com um produto químico ou com calor, mas não elimina necessariamente os esporos bacterianos.
- Esterilização: elimina todas as formas de vida microbiana, incluindo os esporos. No consultório faz-se no esterilizador a vapor (autoclave).
Classificação de Spaulding
O nível de tratamento que um objeto precisa depende do contacto que tem com o utente:
| Categoria | Contacto com o utente | Tratamento | Exemplos em medicina dentária |
|---|---|---|---|
| Crítico | penetra tecidos moles ou osso, ou entra em contacto com a corrente sanguínea | limpeza e esterilização | instrumentos cirúrgicos, curetas e destartarizadores periodontais, brocas cirúrgicas, limas endodônticas |
| Semicrítico | contacta com mucosas ou pele não íntegra, sem as penetrar | limpeza e esterilização sempre que o material o permita; senão, desinfeção de alto nível | espelhos, condensadores, moldeiras reutilizáveis; as peças de mão esterilizam-se entre utentes |
| Não crítico | contacta só com pele íntegra | limpeza e desinfeção de nível baixo ou intermédio | cabeça do aparelho de raios X, braçadeira de tensão arterial, oxímetro |
As superfícies do ambiente dividem-se em superfícies de contacto clínico (puxadores do candeeiro, comandos da cadeira, bancada de trabalho), que se protegem com barreiras de uso único ou se limpam e desinfetam entre utentes, e superfícies de limpeza geral (chão, paredes), limpas com a frequência definida no plano da clínica.
Níveis de desinfeção e famílias de produtos
| Nível | O que inativa | Famílias de produtos (exemplos) | Uso típico |
|---|---|---|---|
| Alto | todos os microrganismos, exceto grandes quantidades de esporos | ácido peracético, peróxido de hidrogénio concentrado, glutaraldeído, ortoftalaldeído | material semicrítico que não tolera o calor |
| Intermédio | bactérias, incluindo o bacilo da tuberculose, a maioria dos vírus e fungos; não os esporos | álcoois (etanol ou isopropanol, tipicamente a 70%), compostos de cloro (hipoclorito de sódio), alguns fenólicos | superfícies de contacto clínico, sobretudo se houve sangue |
| Baixo | a maioria das bactérias, alguns vírus e fungos | compostos de amónio quaternário | superfícies de limpeza geral |
Características que o TAD precisa de conhecer:
- Álcool: atua depressa, mas evapora antes de cumprir tempos de contacto longos, é inflamável e perde eficácia sobre matéria orgânica.
- Hipoclorito de sódio (lixívia): largo espetro e barato, mas corrosivo para metais, inativado por matéria orgânica e instável depois de diluído (prepara-se no próprio dia). Nunca se mistura com ácidos (liberta cloro gasoso) nem com amoníaco (liberta cloraminas), ambos tóxicos quando inalados.
- Aldeídos: eficazes, mas tóxicos e irritantes para a pele e as vias respiratórias; exigem ventilação e EPI próprio, e muitas clínicas substituíram-nos por alternativas menos tóxicas.
O rótulo, a ficha técnica e a ficha de dados de segurança
Cada produto tem uma concentração, um tempo de contacto e uma finalidade definidos pelo fabricante. Antes de usar um produto, o TAD confirma:
- A finalidade: superfícies, dispositivos médicos, instrumentos ou pele; um produto de superfícies não serve para instrumentos, nem vice-versa.
- O espetro de ação: bactericida, fungicida (ou levuricida), virucida, tuberculocida ou micobactericida, esporicida. Os produtos para uso em saúde indicam as normas europeias de ensaio que cumprem, por exemplo EN 13727 (bactérias), EN 13624 (fungos e leveduras), EN 14476 (vírus) e EN 14348 (micobactérias).
- A diluição e o tempo de contacto: a superfície tem de ficar húmida durante todo o tempo indicado.
- A compatibilidade com os materiais do equipamento, segundo o fabricante do equipamento (alguns estofos e plásticos degradam-se com álcool ou cloro).
- Os perigos e o EPI necessário, descritos na ficha de dados de segurança, que acompanha obrigatoriamente os produtos químicos perigosos, e nos pictogramas de perigo do rótulo.
Regras de armazenamento e manuseio: produtos na embalagem original e bem fechada, longe da luz e do calor; nunca trasfegar para garrafas de bebidas; soluções preparadas identificadas com o nome do produto, a concentração, a data e a hora de preparação; luvas de trabalho e proteção ocular ao diluir.
Exemplo resolvido · Preparar uma diluição de lixívia
O protocolo de uma clínica indica, para uma determinada superfície, uma solução de hipoclorito de sódio a 1000 ppm (0,1%). A lixívia disponível tem 5% de cloro ativo, ou seja, 50 000 ppm. É preciso preparar 1 litro.
- Calcular o fator de diluição: 50 000 ÷ 1000 = 50. A lixívia tem de ficar 50 vezes mais diluída.
- Calcular o volume de lixívia: 1000 mL ÷ 50 = 20 mL.
- Calcular a água: 1000 mL menos 20 mL = 980 mL.
- Verificar: 20 mL × 50 000 ppm ÷ 1000 mL = 1000 ppm. Certo.
- Preparar em segurança: com luvas e óculos, deitar primeiro a água e depois a lixívia, em recipiente identificado com produto, concentração, data e hora.
Exemplo resolvido · Desinfetar a bancada entre dois utentes
- Ler o rótulo e confirmar a finalidade (desinfeção de superfícies), o espetro e o tempo de contacto indicado.
- Retirar as barreiras de uso único com as luvas ainda calçadas, e eliminar.
- Remover sujidade visível com um toalhete ou pano e, se necessário, um produto de limpeza. Muitos produtos de superfícies atuais são detergentes e desinfetantes ao mesmo tempo; mesmo assim, usa-se um primeiro toalhete para limpar e um segundo para desinfetar.
- Aplicar o desinfetante, do mais limpo para o mais sujo, respeitando a diluição indicada pelo fornecedor.
- Respeitar o tempo de contacto antes de secar ou reutilizar a superfície, e colocar barreiras novas.
Aplicar os produtos químicos de acordo com as indicações do fornecedor não é uma sugestão: é um critério de desempenho explícito da UC, e é o que garante a eficácia real do produto.
9. Boas práticas de prevenção e controlo de infeção
As Precauções Básicas do Controlo da Infeção (PBCI)
As boas práticas aplicam-se a todos os utentes, independentemente do estado de saúde aparente ou conhecido. Em Portugal chamam-se Precauções Básicas do Controlo da Infeção (PBCI) e estão definidas na Norma DGS n.º 029/2012 (atualizada em 2013). Resultam da evolução das antigas "precauções universais" e partem de um princípio simples: não há utentes de risco, há procedimentos de risco.
As PBCI têm dez componentes:
| Componente da PBCI | Aplicação no consultório dentário |
|---|---|
| 1. Colocação de doentes | utente com sintomas respiratórios não fica na sala de espera cheia; marcar para o fim do dia ou adiar o tratamento eletivo, segundo decisão do médico dentista |
| 2. Higiene das mãos | cinco momentos, SABA ou água e sabão, sem adornos |
| 3. Etiqueta respiratória | tossir para o antebraço ou para um lenço de uso único; oferecer máscara a utentes com sintomas |
| 4. Utilização de EPI | luvas, máscara, proteção ocular e bata adequadas ao procedimento |
| 5. Descontaminação do equipamento clínico | material de uso único nunca se reutiliza; o reutilizável é reprocessado entre utentes |
| 6. Controlo ambiental | limpeza e desinfeção de superfícies, derrames de sangue removidos de imediato |
| 7. Manuseamento seguro da roupa | toda a roupa usada é considerada contaminada; sacos cheios no máximo até 2/3 |
| 8. Recolha segura de resíduos | triagem no local de produção; sacos e contentores cheios no máximo até 2/3 |
| 9. Práticas seguras na preparação e administração de injetáveis | técnica assética; carpules e agulhas de anestesia nunca partilhados entre utentes |
| 10. Exposição a agentes microbianos no local de trabalho | todos conhecem o procedimento após exposição significativa |
A sequência completa de prevenção
| Fase | Ação principal |
|---|---|
| Antes | higienizar as mãos; limpar e desinfetar a área; colocar barreiras nas superfícies de contacto clínico; purgar as linhas de água; preparar apenas o material necessário; colocar o EPI |
| Durante | manter a técnica correta; aspiração de alta potência junto da fonte de aerossol; não tocar em superfícies não protegidas com as luvas contaminadas; passar os instrumentos cortantes de forma segura |
| Depois | eliminar os cortoperfurantes no contentor próprio pelo próprio utilizador; retirar o EPI pela ordem correta; encaminhar os instrumentos para reprocessamento; limpar e desinfetar; eliminar resíduos; repor consumíveis |
Uma boa prática isolada não chega: é a sequência completa, do início ao fim do atendimento, que garante a prevenção da contaminação e da propagação.
Instrumentos: do utente ao armário
Os instrumentos reutilizáveis seguem um circuito num só sentido, da zona suja para a zona limpa, sem cruzamentos: recolha em tabuleiro fechado, limpeza (manual, em ultrassons ou em máquina de lavar e desinfetar), secagem e inspeção, embalagem, esterilização a vapor, e armazenamento protegido. O banho de ultrassons limpa, mas não desinfeta nem esteriliza. A esterilização é controlada com indicadores químicos, que mudam de cor e acompanham as embalagens e as cargas, e periodicamente com indicadores biológicos, que contêm esporos de Geobacillus stearothermophilus; um embalado só se usa se estiver íntegro, seco e com o indicador conforme. O reprocessamento em detalhe é tratado numa unidade própria do curso; aqui importa perceber que cada etapa quebra a cadeia de transmissão.
Resíduos e cortoperfurantes
Os resíduos hospitalares classificam-se em quatro grupos (Despacho n.º 242/96):
| Grupo | Conteúdo | Acondicionamento |
|---|---|---|
| I | equiparados a urbanos (papel, embalagens da receção) | saco preto |
| II | hospitalares não perigosos (material sem contaminação biológica, como embalagens vazias de soros) | saco preto |
| III | de risco biológico (material contaminado com sangue ou fluidos: gazes, rolos de algodão, luvas, babetes contaminados) | saco branco, com o símbolo de risco biológico |
| IV | específicos, de incineração obrigatória, incluindo os cortoperfurantes (agulhas, lâminas, limas, brocas) | saco vermelho; os cortoperfurantes em contentor rígido e imperfurável |
Regras de segurança: a triagem faz-se no local de produção; o que entrou no saco já não se manipula; contentores cheios no máximo até 2/3; os cortoperfurantes eliminam-se logo após o uso, por quem os usou. O reencapsulamento manual de agulhas é uma das causas clássicas de picadas: quando o médico dentista precisa de reutilizar a agulha de anestesia no mesmo utente, usa-se um dispositivo de proteção ou a técnica de uma só mão, conforme o protocolo da clínica. Os resíduos de amálgama, que contêm mercúrio, são resíduos perigosos com recolha própria, e as unidades que a usam têm de ter separador de amálgama (Regulamento (UE) 2017/852).
10. Sinais de alerta para a disseminação de uma infeção
Reconhecer sinais de alerta precoces permite agir antes de uma infeção se disseminar. O TAD não diagnostica: reconhece, protege e comunica ao médico dentista ou ao responsável.
- Sinais no utente, antes do tratamento: febre, tosse, espirros ou outros sintomas respiratórios; tosse persistente durante semanas com febre, suores noturnos ou perda de peso (sinais que levantam a suspeita de tuberculose); lesões de herpes labial ativas; conjuntivite.
- Sinais no utente, depois do tratamento: febre, inchaço, dor crescente, pus ou dificuldade em abrir a boca na zona tratada; queixas fora do habitual.
- Sinais no profissional: febre, diarreia ou vómitos, conjuntivite, infeção respiratória, lesões de herpes ou feridas infetadas nas mãos.
- Sinais organizacionais: aumento de casos semelhantes num curto período de tempo, no mesmo consultório.
- Sinais no material e no equipamento: indicadores de esterilização falhados; embalagens rasgadas, húmidas ou abertas; água da unidade turva ou com mau cheiro; falta de SABA, luvas ou máscaras.
A notificação das doenças de declaração obrigatória às autoridades de saúde (sistema SINAVE) é feita pelo médico. O dever do TAD é que a informação chegue ao médico dentista sem demora.
Exemplo resolvido · Reagir a um indicador de esterilização falhado
- Identificar o indicador que mostra falha no processo de esterilização.
- Isolar todo o material desse ciclo, sem o usar em nenhum utente.
- Comunicar o incidente ao responsável do consultório e registá-lo.
- Rever o processo de esterilização (carga, embalagem, funcionamento do equipamento) e reprocessar o material antes de o repor em uso.
Um sinal de alerta ignorado hoje pode transformar-se num surto identificado tarde de mais.
Exemplo resolvido · Um utente com tosse na sala de espera
Um utente com marcação para uma destartarização chega com febre e tosse.
- Proteger os outros de imediato: oferecer uma máscara cirúrgica e SABA, e indicar-lhe um lugar afastado dos outros utentes.
- Comunicar ao médico dentista antes de o utente entrar no gabinete.
- Aplicar a decisão clínica: provavelmente reagendar um tratamento eletivo gerador de aerossóis; se for urgente, preparar o gabinete e o EPI segundo o protocolo.
- Depois: limpar e desinfetar as superfícies em que o utente tocou na sala de espera.
11. Transporte seguro de amostras biológicas
Quando é necessário enviar amostras biológicas para análise (por exemplo, um fragmento de biópsia em formol ou uma zaragatoa para cultura), há precauções específicas a cumprir, previstas explicitamente no referencial da UC. As amostras de diagnóstico de utentes transportam-se habitualmente como "Substância biológica, categoria B" (UN 3373), em embalagem tripla:
| Camada | Função |
|---|---|
| Recipiente primário | estanque, bem fechado e identificado, contém a amostra |
| Embalagem secundária | estanque, com material absorvente suficiente para absorver todo o conteúdo em caso de fuga |
| Embalagem exterior | rígida, com a marcação UN 3373 e os contactos do remetente e do destinatário |
A requisição e os documentos seguem entre a embalagem secundária e a exterior, nunca em contacto com o recipiente primário, para não se contaminarem.
Passos a cumprir:
- Acondicionar a amostra no recipiente primário próprio, fechado e identificado corretamente (nome do utente, tipo de amostra, data).
- Proteger o recipiente com a embalagem secundária estanque e o material absorvente.
- Etiquetar e colocar a requisição sem contaminar a etiqueta nem os papéis com a própria amostra; retirar as luvas antes de preencher documentos.
- Transportar o mais depressa possível, respeitando a temperatura indicada pelo laboratório.
- Registar o envio (amostra, data, hora, transportador) para garantir a rastreabilidade.
Moldagens e trabalhos protéticos
Em medicina dentária, o transporte mais frequente não é para um laboratório de análises, mas para o laboratório de prótese. Moldagens, registos de mordida e próteses que estiveram na boca estão contaminados com saliva e, por vezes, sangue:
- Lavar em água corrente logo após a remoção da boca, para retirar saliva e sangue.
- Desinfetar com o produto e o tempo indicados, compatíveis com o material de moldagem (o alginato e as silicones reagem de forma diferente a imersão e a pulverização).
- Enxaguar e acondicionar em saco fechado, identificado como desinfetado.
- Fazer o mesmo no sentido inverso: o que regressa do laboratório de prótese também é tratado antes de entrar na boca do utente.
Exemplo resolvido · Preparar uma biópsia para transporte
O médico dentista retirou uma lesão da mucosa que tem de seguir hoje para o laboratório de anatomia patológica.
- Com luvas, colocar o fragmento no frasco com formol fornecido pelo laboratório e fechar bem a tampa.
- Limpar e desinfetar o exterior do frasco, identificá-lo e colocá-lo num saco estanque com material absorvente.
- Retirar as luvas, higienizar as mãos e preencher a requisição, colocando-a na bolsa exterior.
- Colocar tudo na embalagem exterior rígida, confirmar a marcação e registar a hora de recolha pelo transportador.
Garantir a ausência de contaminação durante o transporte protege quem recolhe, quem transporta e quem analisa a amostra.
12. Ética, deontologia e normas de segurança no trabalho
Ética e deontologia profissional
A prevenção e controlo de infeção depende também de atitudes profissionais:
- Responsabilidade: assumir as consequências das próprias ações e omissões, incluindo reconhecer e comunicar um erro próprio.
- Rigor: cumprir os procedimentos sempre da mesma forma, sem atalhos, mesmo quando ninguém está a ver.
- Sentido crítico: identificar e comunicar situações de risco, mesmo quando envolvem colegas.
- Não discriminação: todos os utentes recebem as mesmas precauções e o mesmo respeito. Recusar ou adiar cuidados a um utente por ter hepatite ou VIH não tem fundamento técnico, porque as PBCI já protegem de igual forma, e a lei portuguesa proíbe a discriminação em razão de risco agravado de saúde (Lei n.º 46/2006).
- Sigilo profissional: o estado de saúde de um utente, incluindo uma infeção, é informação de saúde protegida (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados); partilha-se só com quem precisa dela para cuidar do utente.
- Respeito pela ética e deontologia profissional: colocar a segurança do utente e da equipa acima da conveniência pessoal.
Normas de segurança e saúde no trabalho
- Deveres do empregador (Lei n.º 102/2009 e Decreto-Lei n.º 84/97): avaliar os riscos, incluindo o biológico; fornecer EPI adequado sem custos para o trabalhador; dar formação; organizar a vigilância da saúde e disponibilizar as vacinas indicadas.
- Deveres do trabalhador: cumprir as instruções de segurança, usar corretamente o EPI, comunicar de imediato acidentes e situações de perigo.
- Prevenção de acidentes com cortoperfurantes (Decreto-Lei n.º 121/2013): dispositivos com mecanismos de segurança sempre que possível, contentores junto do local de uso, formação e registo de todos os incidentes.
- Riscos químicos: produtos manuseados segundo a ficha de dados de segurança, com ventilação e EPI.
- Autonomia e organização: gerir o próprio espaço e tempo cumprindo sempre as normas, mesmo sob pressão.
- Cooperação com a equipa: comunicar riscos e apoiar colegas no cumprimento das boas práticas.
A prevenção de infeção e a segurança no trabalho partilham as mesmas atitudes de base: rigor, responsabilidade e sentido crítico.
Erros comuns
- Reduzir o cuidado com utentes conhecidos ou aparentemente saudáveis, ignorando o princípio das precauções básicas.
- Confundir hospedeiro com vetor, esquecendo que um vetor ou um fómite podem transmitir infeção sem estarem doentes.
- Usar EPI incompleto, esquecendo a proteção ocular ou a máscara em procedimentos com aerossóis.
- Retirar a máscara antes da bata e das luvas, ou tirar as luvas tocando na parte externa contaminada, contaminando as próprias mãos.
- Aplicar desinfetante sem limpar primeiro a sujidade visível, reduzindo a eficácia do produto.
- Não respeitar o tempo de contacto indicado pelo fabricante do produto de desinfeção.
- Espremer o local de uma picada ou adiar a comunicação para o fim do turno.
- Transportar amostras biológicas sem embalagem tripla, arriscando fugas ou contaminação.
- Ignorar sinais de alerta por parecerem pouco importantes ou isolados.
Glossário
- Microrganismo: agente biológico microscópico, como bactérias, vírus, fungos e protozoários.
- Patogenicidade: capacidade de um microrganismo causar doença.
- Virulência: intensidade da capacidade de causar doença.
- Esporo: forma de resistência de algumas bactérias, eliminada pela esterilização.
- Biofilme: comunidade de microrganismos agarrada a uma superfície e protegida por uma matriz, como a placa bacteriana ou o interior das linhas de água.
- Colonização: presença e multiplicação de microrganismos no organismo sem doença.
- Infeção: invasão e multiplicação de microrganismos nos tecidos, com resposta do hospedeiro.
- Portador: pessoa que transporta e pode transmitir um agente infecioso, muitas vezes sem sintomas.
- Hospedeiro: organismo onde o microrganismo vive e se multiplica.
- Vetor: ser vivo que transporta um agente infecioso até um novo hospedeiro; em sentido lato, qualquer meio de transporte do microrganismo entre pessoas.
- Fómite: objeto ou superfície contaminados que transportam microrganismos.
- Cadeia de transmissão: percurso do microrganismo desde a fonte até um novo hospedeiro.
- Epidemiologia: ciência que estuda a distribuição e a propagação das doenças numa população.
- Cadeia epidemiológica: sequência de elos (agente, reservatório, porta de saída, modo de transmissão, porta de entrada, hospedeiro suscetível) que permite a propagação de uma infeção.
- Incidência: número de casos novos numa população, num período de tempo.
- Surto: aumento localizado de casos acima do esperado.
- IACS: infeção associada aos cuidados de saúde.
- PPCIRA: Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos, programa de saúde prioritário da DGS.
- PBCI: Precauções Básicas do Controlo da Infeção, aplicadas a todos os utentes (Norma DGS n.º 029/2012).
- EPI: Equipamento de Proteção Individual, usado de acordo com o nível de exposição e a tarefa.
- SABA: solução antissética de base alcoólica, para a fricção das mãos.
- Desinfeção: redução do número de microrganismos numa superfície ou equipamento a um nível seguro.
- Esterilização: eliminação de todas as formas de vida microbiana, incluindo os esporos.
- Contaminação cruzada: passagem de microrganismos de um utente, superfície ou instrumento para outro.
- Exposição significativa: picada ou corte com material contaminado, ou contacto de sangue ou fluidos com mucosas ou pele lesada.
Síntese
A prevenção e controlo de infeção segue sempre a mesma lógica: conhecer o risco (microrganismos, agentes relevantes em saúde oral, hospedeiro, vetor, cadeia de transmissão) → entender porque existem as normas (epidemiologia, cadeia epidemiológica) → saber quem regula (DGS e PPCIRA, ERS e as restantes entidades nacionais, direção clínica no nível local) → aplicar medidas concretas (PBCI, EPI com a sequência correta, higiene das mãos, produtos químicos segundo o fabricante) → estar atento (sinais de alerta, exposição acidental, transporte seguro de amostras) → sustentar tudo em atitudes profissionais (ética, deontologia, segurança no trabalho). Este fluxo repete-se em cada utente, em cada dia de trabalho no consultório dentário.
Exercícios resolvidos
1. Um utente sem sintomas visíveis chega para uma consulta de rotina. É preciso usar o EPI adequado ao procedimento?
Resolução: sim. As precauções básicas de controlo de infeção exigem o mesmo cuidado com todos os utentes, independentemente do estado de saúde aparente. Muitas pessoas infetadas pelos vírus das hepatites ou pelo VIH não sabem que o estão, e a ausência de sintomas não elimina o risco biológico presente na saliva, no sangue e nos aerossóis.
2. Um instrumento é mal reprocessado entre dois utentes. Identifica o hospedeiro original, o meio de transmissão e o novo hospedeiro em risco.
Resolução: o primeiro utente é o hospedeiro original, que funciona como fonte; o instrumento é um fómite (veículo inanimado, "vetor" em sentido lato), pois transporta o microrganismo sem estar "doente"; o segundo utente é o novo hospedeiro em risco, caso a cadeia não seja quebrada pelo reprocessamento correto.
3. Que elo da cadeia epidemiológica é quebrado pela higiene das mãos antes de colocar as luvas?
Resolução: principalmente o modo de transmissão. As mãos são o veículo mais frequente de transmissão por contacto, e a higiene reduz os microrganismos que levariam de um utente, ou de uma superfície, para o seguinte. Contribui ainda para proteger a porta de entrada do próprio TAD, porque as luvas têm microperfurações e as mãos podem contaminar-se ao retirá-las.
4. Um colega retira as luvas puxando pela parte externa e toca-as com as mãos nuas. Depois tira a máscara antes da bata. O que fez mal e qual o risco?
Resolução: removeu o EPI de forma incorreta. Ao tocar na parte externa das luvas com as mãos nuas, contaminou as mãos que se pretendia proteger; a remoção correta faz-se virando a luva do avesso, luva dentro de luva, sem tocar na superfície exterior. Além disso, a máscara é a última peça a sair, depois das luvas, da proteção ocular e da bata, retirada pelos elásticos; tirá-la antes aproxima mãos e bata contaminadas da boca e do nariz. O risco é a autocontaminação.
5. Que diferença existe entre o nível de regulação Nacional e o nível Local no controlo de infeção, e como se relacionam?
Resolução: o nível Nacional define e fiscaliza: a DGS publica as normas e dirige o PPCIRA, a ERS licencia e fiscaliza os consultórios, a ACT fiscaliza as condições de trabalho. O nível Local aplica: no consultório, a direção clínica responde pelo controlo de infeção e aprova os protocolos internos, e a equipa cumpre-os em cada atendimento. Um define, o outro executa e verifica.
6. Uma amostra biológica precisa de ser enviada para análise. Descreve a embalagem e os passos que garantem o transporte seguro.
Resolução: usa-se embalagem tripla: recipiente primário estanque e identificado, embalagem secundária estanque com material absorvente, e embalagem exterior rígida com a marcação UN 3373. Os passos são (1) acondicionar no recipiente primário, fechado e identificado; (2) proteger com a embalagem secundária e o absorvente; (3) etiquetar e colocar a requisição entre a secundária e a exterior, sem a contaminar; (4) transportar sem demora, à temperatura indicada; (5) registar o envio.
7. Um instrumento apresenta um indicador de esterilização falhado, mas a agenda do dia está muito cheia. Um colega sugere usá-lo "só desta vez". Que resposta dás, e com que fundamento?
Resolução: o instrumento não pode ser usado, seja qual for a pressão da agenda. Um indicador falhado é um sinal de alerta explícito de que o processo de esterilização não garantiu a segurança do material; usá-lo "só desta vez" transformaria um risco identificado num risco assumido. O procedimento correto é isolar todo o material desse ciclo, comunicar ao responsável e rever o ciclo de esterilização antes de repor qualquer material em uso. Cumprir a norma sob pressão é precisamente o que distingue o rigor profissional da conveniência do momento.
8. Explica, com um exemplo, porque a higiene das mãos continua a ser necessária mesmo quando se vai colocar luvas a seguir.
Resolução: as luvas protegem durante o procedimento, mas não eliminam os microrganismos já presentes na pele antes de as calçar. Se as mãos não forem higienizadas antes, os microrganismos que ficam dentro da luva podem passar para o utente através de microperfurações ou de pequenos rasgões, e contaminam também a face externa das luvas ao calçá-las. Por isso a higiene das mãos acontece antes de colocar as luvas e depois de as remover, nunca apenas uma das duas vezes.
9. O protocolo indica uma solução de hipoclorito a 1000 ppm e a lixívia disponível tem 5% de cloro ativo. Quanto se mede para preparar 2 litros?
Resolução: 5% corresponde a 50 000 ppm, pelo que o fator de diluição é 50 000 ÷ 1000 = 50. Para 2000 mL: 2000 ÷ 50 = 40 mL de lixívia, completados com 1960 mL de água. Verificação: 40 × 50 000 ÷ 2000 = 1000 ppm. A solução prepara-se com luvas e óculos, identifica-se com data e hora, e não se mistura com nenhum outro produto.
10. Um TAD salpica os olhos com saliva e sangue durante uma extração. Que deve fazer, e porque não pode esperar pelo fim do turno?
Resolução: interromper, retirar as luvas, irrigar os olhos abundantemente com água corrente ou soro fisiológico (retirando antes as lentes de contacto, se as usar) e comunicar de imediato ao médico dentista, que encaminha para avaliação médica urgente e, com consentimento, pede análises ao utente fonte. É uma exposição significativa de mucosa. Não se espera porque, se houver indicação para profilaxia do VIH, ela é tanto mais eficaz quanto mais cedo começar e não tem indicação depois de 72 horas. No fim, regista-se o incidente e participa-se como acidente de trabalho.