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UC · Unidade de Competência · UC04000

Sebenta · Identificar as estruturas da cavidade oral e da articulação temporo-mandibular (UC04000)

Anatomia dentária, nomenclatura, dentição temporária e permanente, relações anatómicas e ATM
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Assistente Dentário ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara-te para uma das bases mais importantes da tua formação como técnico/a assistente dentário: conhecer, com rigor e terminologia correta, a anatomia da cavidade oral e da articulação temporo-mandibular (ATM). Sem esta base, nada do que vier depois (registos clínicos, apoio ao diagnóstico, comunicação com o dentista e com o paciente) tem alicerces sólidos.

O objetivo não é decorar nomes por decorar. É conseguires, num consultório real, reconhecer a anatomia e a função das peças dentárias, utilizar a Nomina Anatomica e a terminologia adequada e identificar a função das estruturas da articulação temporo-mandibular, três critérios de desempenho que vais encontrar repetidamente ao longo do curso e da tua vida profissional. Um assistente dentário que domina esta linguagem trabalha com mais autonomia, comete menos erros de registo e comunica com mais confiança.

O percurso desta sebenta segue a lógica do próprio referencial: começamos pela cavidade oral como espaço anatómico, avançamos para a nomenclatura e numeração dos dentes, entramos no dente propriamente dito (tecidos e periodonto), estudamos a morfologia de cada arcada e de cada dentição, olhamos para as relações anatómicas entre peças dentárias e para a função mastigatória, e terminamos na articulação temporo-mandibular, a estrutura que torna possível falar, comer e engolir.

Objetivos de aprendizagem (referencial): reconhecer a anatomia das peças dentárias (temporárias e permanentes, superiores e inferiores); relacionar a estrutura da peça dentária com a função mastigatória; avaliar a posição das peças dentárias e as suas relações anatómicas; reconhecer a anatomia da articulação temporo-mandibular; aplicar a técnica de descrição com terminologia adequada; identificar as estruturas da cavidade oral e as suas relações; analisar o modo de funcionamento da cavidade oral; e descrever a estrutura e a função da articulação temporo-mandibular.

1. A cavidade oral: constituição anatómica

A cavidade oral (a boca) é o ponto de entrada do sistema digestivo e um espaço central para a fonação, a mastigação e a respiração acessória. Antes de falarmos de dentes, é preciso conhecer o espaço onde eles estão.

Limites da cavidade oral

A cavidade oral tem cinco limites principais (seis, se contares as duas bochechas em separado):

Dois espaços dentro da boca

A cavidade oral divide-se em dois espaços separados pelas arcadas dentárias:

Espaço Localização O que contém
Vestíbulo da boca entre lábios/bochechas e as arcadas dentárias face externa dos dentes e da gengiva
Cavidade oral propriamente dita dentro das arcadas dentárias língua, palato, soalho da boca

As estruturas principais

Estrutura Função ou característica
Lábios selam a boca, articulam a fala, expressam emoções
Bochechas limites laterais, contêm o bucinador (auxilia a mastigação)
Palato duro separa a cavidade oral da cavidade nasal
Palato mole e úvula fecha a via nasal durante a deglutição
Língua mastigação, deglutição, fala, perceção do gosto
Soalho da boca contém as glândulas sublinguais e o freio da língua
Gengiva tecido mucoso que envolve o colo dos dentes
Arcadas dentárias conjunto ordenado de dentes, superior e inferior
Amígdalas palatinas tecido linfoide de defesa, junto ao istmo das fauces
Glândulas salivares parótida, submandibular e sublingual, produzem saliva

Glândulas salivares: onde desaguam

As três glândulas salivares maiores são pares e cada uma lança a saliva num ponto preciso da boca. Saber onde ficam estas aberturas ajuda-te a posicionar rolos de algodão e a ponta do aspirador sem as tapar nem as confundir com lesões.

Glândula Localização Canal excretor e abertura na boca
Parótida (a maior) à frente e abaixo da orelha, sobre o masséter canal de Stensen, abre-se no vestíbulo, na face interna da bochecha, em frente ao 2.º molar superior (papila parotídea)
Submandibular por dentro do corpo da mandíbula canal de Wharton, abre-se no soalho da boca, na carúncula sublingual, de cada lado do freio da língua
Sublingual (a mais pequena) no soalho da boca, por baixo da língua vários canais pequenos que se abrem ao longo da prega sublingual

Nervos e vasos: quem dá sensibilidade e irrigação

A sensibilidade dos dentes, da gengiva e da mucosa oral depende do nervo trigémio (V par craniano), através de dois dos seus três ramos:

Ramo do trigémio Nervos que dele saem O que inerva
Nervo maxilar (V2) nervos alveolares superiores (anterior, médio e posterior), nervos palatinos e nasopalatino dentes superiores, gengiva e palato
Nervo mandibular (V3) nervo alveolar inferior (que sai pelo buraco mentoniano como nervo mentoniano), nervo lingual, nervo bucal dentes inferiores, lábio inferior e mento, 2/3 anteriores da língua (sensibilidade geral), gengiva e bochecha

O nervo mandibular (V3) é também o nervo motor dos músculos da mastigação. Outros pares cranianos completam o quadro: o facial (VII) conduz o gosto dos 2/3 anteriores da língua e comanda os músculos da expressão facial (incluindo o bucinador), o glossofaríngeo (IX) o gosto e a sensibilidade do terço posterior da língua, e o hipoglosso (XII) os movimentos da língua.

A irrigação dos dentes e dos maxilares vem sobretudo da artéria maxilar, ramo da carótida externa: a artéria alveolar inferior acompanha o nervo do mesmo nome dentro da mandíbula, e as artérias alveolares superiores irrigam os dentes superiores.

Estas estruturas explicam situações que vais ver no consultório: a anestesia de um dente inferior posterior faz-se, em regra, junto ao nervo alveolar inferior, e por isso o lábio inferior e parte da língua do mesmo lado ficam "dormentes"; nos dentes superiores, o anestésico é normalmente depositado junto ao dente a tratar.

Exemplo resolvido · Identificar um espaço da cavidade oral

Um paciente refere "sinto uma ferida por dentro da bochecha, perto dos dentes de trás". Como classificas anatomicamente essa localização e que estrutura está provavelmente envolvida?

  1. A queixa "por dentro da bochecha" situa-se entre a bochecha e as arcadas dentárias: é o vestíbulo da boca.
  2. "Perto dos dentes de trás" aponta para a zona dos molares, ainda dentro do vestíbulo.
  3. A estrutura mais provável de estar afetada é a mucosa jugal, o revestimento interno da bochecha, que forma a parede lateral do vestíbulo (por exemplo, por atrito com um dente ou aparelho).
  4. Registas a queixa com terminologia correta: "lesão na mucosa jugal, região dos molares", nunca "ferida na boca" sem localização.

Esta é a competência-chave desta UC: transformar uma descrição comum numa descrição anatomicamente precisa.

2. Nomenclatura e numeração dos dentes

Termos de orientação (Nomina Anatomica)

Para descrever qualquer face ou direção num dente, usa-se sempre a mesma terminologia (a antiga Nomina Anatomica, hoje designada Terminologia Anatomica), nunca expressões como "de lado" ou "para dentro":

Termo Significado
Mesial lado mais próximo da linha média da arcada
Distal lado mais afastado da linha média
Vestibular (ou bucal) face voltada para os lábios/bochechas
Lingual face voltada para a língua (arcada inferior)
Palatino face voltada para o palato (arcada superior)
Oclusal face de contacto entre dentes posteriores antagonistas
Incisal borda de corte dos incisivos e caninos
Cervical zona próxima do colo do dente
Apical zona próxima do ápice da raiz

Sistemas de numeração

Há três sistemas em uso, mas em Portugal e na Europa o sistema de referência é o FDI (Fédération Dentaire Internationale, ISO 3950).

Sistema Lógica Exemplo (1.º molar superior direito)
FDI / ISO 3950 quadrante (1 a 4 nos permanentes, 5 a 8 nos temporários) + posição (1 a 8, ou 1 a 5) 16
Universal (EUA) numeração sequencial de 1 a 32 (permanentes) e letras A a T (temporários) 3
Palmer símbolo gráfico de quadrante + número 6┘

No sistema FDI, os quadrantes numeram-se sempre no sentido horário, a partir do quadrante superior direito do paciente (não do observador):

  1. Quadrante 1: superior direito.
  2. Quadrante 2: superior esquerdo.
  3. Quadrante 3: inferior esquerdo.
  4. Quadrante 4: inferior direito.

Dentro de cada quadrante, a numeração da posição começa no incisivo central (posição 1) e avança até ao 3.º molar (posição 8).

Exemplo resolvido · Ler um código FDI

O odontograma indica um problema no dente 24. Que dente é, exatamente?

  1. O primeiro dígito é 2: quadrante superior esquerdo.
  2. O segundo dígito é 4: 4.ª posição a partir do incisivo central, ou seja, incisivo central (1), incisivo lateral (2), canino (3), 1.º pré-molar (4).
  3. Conclusão: o dente 24 é o 1.º pré-molar superior esquerdo.
  4. Confirma-se sempre lendo os dois dígitos separadamente ("dois, quatro"), nunca como "vinte e quatro".

3. Constituição do dente: tecidos e periodonto

As três partes do dente

Parte Descrição
Coroa parte revestida a esmalte (coroa anatómica) ou visível na boca (coroa clínica)
Colo (cervical) zona de transição entre coroa e raiz
Raiz parte inserida no osso alveolar, revestida a cemento, termina no ápice

A coroa anatómica e a coroa clínica nem sempre coincidem: com a retração da gengiva, mais coroa anatómica fica exposta e passa a fazer parte da coroa clínica.

Os tecidos dentários

Tecido Localização Característica
Esmalte superfície da coroa tecido mais duro do corpo humano, não se regenera
Dentina por baixo do esmalte e do cemento corpo do dente, sensível, cor amarelada
Polpa câmara pulpar e canais radiculares vasos sanguíneos, nervos, tecido conjuntivo
Cemento superfície da raiz ancora as fibras do ligamento periodontal

O periodonto: o que sustenta o dente

O dente não está fixo diretamente ao osso; está suspenso por um conjunto de tecidos chamado periodonto:

Exemplo resolvido · Distinguir os tecidos num corte longitudinal

Observas um corte longitudinal de um dente (da coroa ao ápice) e vês quatro tecidos diferentes. Como as identificas e as ordenas?

  1. Camada mais externa da coroa: esmalte, branco e brilhante.
  2. Camada seguinte, presente em toda a coroa e raiz: dentina, amarelada.
  3. Camada mais externa da raiz (não da coroa): cemento, fina, amarelada e baça.
  4. Camada mais interna, ao centro: polpa, tecido mole com vasos e nervos.
  5. Ordem correta, de fora para dentro na coroa: esmalte → dentina → polpa; na raiz: cemento → dentina → polpa.

4. Dentição permanente: arcada superior

Grupos dentários e função

A dentição permanente tem 32 dentes, 8 por quadrante, agrupados em quatro tipos com funções distintas:

Grupo N.º por quadrante Função
Incisivos (central e lateral) 2 cortar o alimento
Caninos 1 rasgar o alimento
Pré-molares (1.º e 2.º) 2 esmagar e transicionar para a moagem
Molares (1.º, 2.º e 3.º) 3 triturar e moer

Morfologia dos dentes superiores

O 1.º molar superior é considerado a "chave de oclusão" da arcada: a sua posição correta condiciona o encaixe de toda a dentição.

5. Dentição permanente: arcada inferior

Morfologia dos dentes inferiores

Diferenças entre arcada superior e inferior

Característica Arcada superior Arcada inferior
Raízes do 1.º molar 3 (mesiovestibular, distovestibular, palatina) 2 (mesial, distal)
Cúspides do 1.º molar 4 5
Raiz mais longa da arcada canino superior canino inferior (mais curta do que a superior)
Largura do arco mais amplo, cobre a arcada inferior por vestibular mais estreito, fica por dentro da superior
Face voltada para dentro da boca palatina lingual

Dimensões de referência

O referencial pede que conheças também a dimensão dos dentes. Os valores abaixo são médias de referência das tabelas clássicas de anatomia dentária (Wheeler), em milímetros; cada pessoa tem os seus, mas as proporções entre dentes repetem-se.

Dente permanente Comprimento da coroa Comprimento da raiz Largura mesiodistal da coroa
Incisivo central superior 10,5 13 8,5
Canino superior 10 17 7,5
1.º molar superior 7,5 12 a 13 10
Incisivo central inferior 9 12,5 5
Canino inferior 11 16 7
1.º molar inferior 7,5 14 11

Três leituras úteis: o incisivo central inferior é o dente permanente mais pequeno; o canino superior tem a raiz mais longa (cerca de 17 mm), e o canino inferior compensa uma raiz um pouco mais curta com uma coroa mais alta; o 1.º molar inferior tem a coroa mais larga da boca (cerca de 11 mm).

Exemplo resolvido · Identificar um dente por descrição

Um relatório clínico descreve: "dente com cinco cúspides, duas raízes (mesial e distal), na arcada inferior, posição 6 do quadrante 3". Que dente é?

  1. Cinco cúspides e duas raízes (mesial/distal) correspondem ao 1.º molar.
  2. Posição 6 do quadrante 3 confirma: quadrante 3 é inferior esquerdo, posição 6 é o 1.º molar (incisivo central=1, lateral=2, canino=3, 1.º pré-molar=4, 2.º pré-molar=5, 1.º molar=6).
  3. Código FDI correspondente: 36.
  4. Conclusão: é o 1.º molar inferior esquerdo, confirmado tanto pela morfologia como pelo código.

6. Dentição temporária

A dentição decídua

A dentição temporária (decídua ou "de leite") tem 20 dentes, 5 por quadrante, sem pré-molares e sem 3.º molar:

Grupo N.º por quadrante
Incisivo central 1
Incisivo lateral 1
Canino 1
1.º molar temporário 1
2.º molar temporário 1

Morfologia dos dentes temporários

Os dentes temporários não são "miniaturas" dos permanentes. Têm características próprias que te permitem distingui-los num modelo ou numa radiografia:

Dente temporário Superior Inferior
Incisivo central coroa mais larga do que alta (o único incisivo assim) pequeno e simétrico, o mais pequeno da dentição temporária
Incisivo lateral mais pequeno e estreito do que o central um pouco maior do que o central inferior
Canino coroa com cúspide aguçada, raiz única e longa mais estreito do que o superior, raiz única
1.º molar forma própria, sem equivalente na dentição permanente; três raízes forma própria, com saliência cervical mesiovestibular muito marcada; duas raízes
2.º molar semelhante ao 1.º molar permanente superior; três raízes semelhante ao 1.º molar permanente inferior (cinco cúspides); duas raízes

A regra das raízes é a mesma da dentição permanente: molares superiores com três raízes, inferiores com duas.

Numeração da dentição temporária

No sistema FDI, os quadrantes temporários numeram-se de 5 a 8: 51-55 (superior direito), 61-65 (superior esquerdo), 71-75 (inferior esquerdo), 81-85 (inferior direito). No sistema Universal, usam-se as letras A a T.

Cronologia de erupção e esfoliação

Fase Idade aproximada
Erupção da dentição temporária (do primeiro ao último dente) dos 6 meses até cerca dos 3 anos
Início da esfoliação (queda dos dentes de leite) por volta dos 6 anos
Erupção dos primeiros dentes permanentes (1.º molar, incisivos) 6 a 8 anos
Dentição mista (temporários + permanentes em simultâneo) 6 a 12 anos
Dentição permanente completa, sem 3.os molares 12 a 13 anos
Erupção dos 3.os molares 17 a 21 anos (muito variável; alguns nunca erupcionam)

A tabela seguinte detalha as idades médias de erupção de cada dente, segundo a tabela de referência da American Dental Association (ADA):

Dente Temporário superior Temporário inferior Permanente superior Permanente inferior
Incisivo central 8 a 12 meses 6 a 10 meses 7 a 8 anos 6 a 7 anos
Incisivo lateral 9 a 13 meses 10 a 16 meses 8 a 9 anos 7 a 8 anos
Canino 16 a 22 meses 17 a 23 meses 11 a 12 anos 9 a 10 anos
1.º molar temporário / 1.º pré-molar 13 a 19 meses 14 a 18 meses 10 a 11 anos 10 a 12 anos
2.º molar temporário / 2.º pré-molar 25 a 33 meses 23 a 31 meses 10 a 12 anos 11 a 12 anos
1.º molar permanente não existe não existe 6 a 7 anos 6 a 7 anos
2.º molar permanente não existe não existe 12 a 13 anos 11 a 13 anos
3.º molar permanente não existe não existe 17 a 21 anos 17 a 21 anos

Repara em três padrões: o primeiro dente a erupcionar é, em regra, o incisivo central temporário inferior; o 1.º molar permanente erupciona por volta dos 6 anos, atrás do 2.º molar temporário, sem substituir nenhum dente; e, nos dentes temporários, o 1.º molar erupciona antes do canino.

Estes valores são médias, não regras fixas: a variação individual de alguns meses é normal e não deve ser comunicada como problema aos encarregados de educação sem avaliação clínica.

Exemplo resolvido · Distinguir dentição temporária de mista

Uma criança de 8 anos tem, na mesma arcada inferior, um dente pequeno e claro ao lado de um dente maior e mais amarelado, já erupcionado atrás dos dois. Como interpretas esta situação?

  1. Aos 8 anos é esperado estar em dentição mista: dentes temporários e permanentes coexistem.
  2. O dente pequeno e claro é provavelmente temporário (esmalte mais fino, coroa mais pequena).
  3. O dente maior, mais atrás, corresponde ao 1.º molar permanente, um dos primeiros a erupcionar, geralmente sem substituir nenhum dente de leite (erupciona "a mais", atrás dos temporários).
  4. Conclusão: não há motivo de alarme; é o padrão esperado da dentição mista nesta idade.

7. Relações anatómicas das peças dentárias

Arcadas, pontos de contacto e ameias

Os dentes de cada arcada organizam-se numa curva chamada arco dentário, mantendo relações precisas entre si:

Quando falta um ponto de contacto (por exemplo, por cárie ou desgaste), a ameia aumenta e o alimento passa a acumular-se ali, favorecendo doença periodontal.

A posição do ponto de contacto muda ao longo da arcada: nos incisivos fica no terço incisal, perto do bordo; à medida que se avança para os molares, desce para cervical e fica aproximadamente na junção entre o terço oclusal e o terço médio da coroa. Por baixo do ponto de contacto, a ameia cervical é ocupada pela papila gengival (gengiva interdentária).

Relações com as outras estruturas da cavidade oral

As peças dentárias não se relacionam só entre si. As raízes e as coroas estão próximas de estruturas que o assistente dentário deve saber nomear, porque condicionam radiografias, anestesias e cirurgias:

Oclusão: a classificação de Angle

Oclusão é o encaixe entre a arcada superior e a inferior quando a boca fecha. A referência clínica é a classificação de Angle, baseada na posição do 1.º molar permanente:

Classe Relação molar Descrição
Classe I neutroclusão (relação molar normal) a cúspide mesiovestibular do 1.º molar superior encaixa no sulco vestibular do 1.º molar inferior
Classe II distoclusão a arcada inferior está recuada: a cúspide mesiovestibular superior fica à frente (mesial) do sulco vestibular inferior
Classe III mesioclusão a arcada inferior está avançada: a cúspide mesiovestibular superior fica atrás (distal) do sulco vestibular inferior

Numa oclusão normal, a arcada superior é ligeiramente mais ampla e cobre a inferior: por vestibular nos dentes posteriores e por diante nos incisivos. Cada dente oclui com dois antagonistas (o do mesmo número e o vizinho), com duas exceções: o incisivo central inferior e o 3.º molar superior, que ocluem só com um.

Dois conceitos complementam a classificação de Angle:

Em ambos os casos, o valor considerado normal é de poucos milímetros (tipicamente 2 a 3 mm). Um overjet aumentado é típico da Classe II; um overjet negativo (incisivos inferiores à frente dos superiores) chama-se mordida cruzada anterior e aparece com frequência na Classe III.

Exemplo resolvido · Classificar uma relação molar

Num modelo de estudo, a cúspide mesiovestibular do 1.º molar superior encaixa atrás (distalmente) do sulco vestibular do 1.º molar inferior. Que classe de Angle é esta?

  1. Na Classe I, a cúspide mesiovestibular superior cai exatamente no sulco vestibular do 1.º molar inferior.
  2. Se o sulco inferior aparece à frente da cúspide superior, é porque o molar inferior (e com ele a arcada inferior) está avançado em relação ao superior.
  3. Conclusão: é uma relação de Classe III (mesioclusão). O inverso (cúspide superior à frente do sulco, arcada inferior recuada) seria Classe II.
  4. Este dado é só uma peça da avaliação; o diagnóstico completo cabe ao dentista, mas o assistente deve saber descrever a observação com este vocabulário.

8. Oclusão e função mastigatória

Os músculos da mastigação

A mastigação depende de quatro pares de músculos que movem a mandíbula:

Músculo Ação principal
Masséter eleva a mandíbula, o mais potente dos quatro
Temporal eleva e retrai a mandíbula
Pterigoideu medial eleva a mandíbula e apoia os movimentos laterais
Pterigoideu lateral protrai a mandíbula e inicia a abertura da boca

Todos são inervados pelo nervo mandibular (V3). Os movimentos laterais resultam da contração do pterigoideu lateral e do medial de um só lado, que leva a mandíbula para o lado oposto. Na abertura da boca, o pterigoideu lateral trabalha em conjunto com os músculos supra-hióideos (digástrico, milo-hióideo e genio-hióideo), que puxam a mandíbula para baixo. A língua e o bucinador não movem a mandíbula, mas recolocam continuamente o alimento sobre as faces oclusais.

Da forma à função: cúspides de suporte e de corte

A estrutura de cada peça dentária explica o seu papel na mastigação. Nos dentes posteriores:

O ciclo mastigatório

A mastigação organiza-se em fases sucessivas, com um grupo dentário protagonista em cada uma:

  1. Incisão: os incisivos cortam o alimento em pedaços mais pequenos.
  2. Trituração: caninos e pré-molares rasgam e fragmentam.
  3. Moagem: os molares trituram o alimento entre as superfícies oclusais.
  4. Formação do bolo alimentar: a saliva humedece e liga as partículas trituradas.
  5. Deglutição: a língua empurra o bolo alimentar para a faringe.

A saliva não é só lubrificante: contém enzimas (como a amílase) que iniciam a digestão dos hidratos de carbono ainda na boca.

Exemplo resolvido · Relacionar anatomia e função

Um paciente perdeu os dois 1.os molares inferiores. Que impacto é de esperar na mastigação, e porquê?

  1. Os molares são responsáveis pela fase de moagem, a mais exigente mecanicamente.
  2. Sem os 1.os molares inferiores, falta a superfície de trituração mais eficiente de cada lado inferior.
  3. O paciente tende a compensar mastigando mais do lado onde ainda tem molares, ou usando mais os pré-molares, que trituram com menos eficiência.
  4. Consequência provável: mastigação mais lenta, bolo alimentar menos triturado e possível sobrecarga dos dentes remanescentes.

9. A articulação temporo-mandibular: estrutura

Anatomia da ATM

A articulação temporo-mandibular (ATM) é uma articulação sinovial bilateral, que liga a mandíbula ao osso temporal, imediatamente à frente do ouvido.

Componente Descrição
Côndilo mandibular superfície convexa da mandíbula, o "encaixe móvel"
Fossa mandibular (glenoide) cavidade do osso temporal onde o côndilo se aloja
Tubérculo (eminência) articular saliência óssea anterior à fossa, guia o deslizamento do côndilo
Disco articular (menisco) disco fibrocartilagíneo entre o côndilo e a fossa
Cápsula articular envolve toda a articulação, contém o líquido sinovial
Ligamentos temporomandibular, estilomandibular e esfenomandibular

Duas particularidades distinguem a ATM das outras articulações sinoviais: as superfícies articulares estão revestidas por fibrocartilagem (e não por cartilagem hialina), e a zona central do disco não tem vasos nem nervos, o que lhe permite suportar carga. Atrás do disco fica a zona retrodiscal (tecido bilaminar), rica em vasos e nervos. A sensibilidade da ATM chega sobretudo pelo nervo auriculotemporal, ramo do nervo mandibular (V3).

Os dois compartimentos articulares

O disco articular divide a ATM em dois compartimentos, cada um com a sua membrana sinovial própria:

Esta divisão em dois compartimentos é o que torna a ATM uma articulação especial: combina, na mesma estrutura, um movimento de charneira e um movimento de deslizamento.

Exemplo resolvido · Relacionar o momento da queixa com o movimento

Um paciente refere um estalido logo nos primeiros graus de abertura da boca, antes de a mandíbula avançar visivelmente. Que movimento e que compartimento da ATM estão ativos nesse momento, e como registas a queixa?

  1. Os primeiros graus de abertura correspondem à rotação pura do côndilo, que ocorre no compartimento inferior (entre côndilo e disco).
  2. A translação (côndilo e disco a deslizar para a frente, no compartimento superior) só se junta numa abertura maior.
  3. Registo: "estalido na ATM [direita/esquerda] no início da abertura, na fase de rotação", indicando o lado e o momento.
  4. Nota importante: esta é uma descrição anatómica da queixa, não um diagnóstico. Os estalidos da ATM estão muitas vezes ligados à posição do disco articular em relação ao côndilo, mas a avaliação e o tratamento cabem sempre ao médico dentista.

10. A articulação temporo-mandibular: movimentos e disfunções

Os movimentos da ATM

A ATM permite os seguintes movimentos, sempre coordenados entre os dois lados:

Movimento Descrição
Depressão abertura da boca
Elevação fecho da boca
Protrusão avanço da mandíbula
Retrusão recuo da mandíbula
Lateralidade (diducção) deslocamento da mandíbula para um dos lados

A abertura da boca combina, em sequência, rotação (compartimento inferior) e translação (compartimento superior), o que permite uma amplitude de abertura muito maior do que uma simples articulação em charneira. A rotação pura dá, sozinha, cerca de 20 a 25 mm de abertura entre os bordos incisais; o resto vem da translação. Num adulto, uma abertura máxima inferior a cerca de 40 mm é geralmente considerada limitada.

Disfunções temporomandibulares (DTM)

As disfunções temporomandibulares (DTM) são um conjunto de problemas que afetam a ATM e os músculos da mastigação, com sinais como dor, estalidos, limitação de abertura e desvio da mandíbula ao abrir a boca. Podem confundir-se com dor de origem dentária, o que reforça a importância de o assistente dentário conhecer bem esta articulação.

Porque importa esta anatomia no dia a dia do consultório

Erros comuns

Glossário

Síntese

A anatomia da cavidade oral e da ATM segue sempre a mesma lógica: espaço (cavidade oral, vestíbulo) → nomenclatura e numeração (Nomina Anatomica, FDI) → o dente (coroa, colo, raiz, tecidos, periodonto) → as duas dentições (permanente e temporária, cada uma com a sua morfologia) → as relações entre dentes (pontos de contacto, oclusão de Angle) → a função (mastigação, músculos, ciclo mastigatório) → a ATM (estrutura, compartimentos, movimentos). Domina este fluxo e serás capaz de descrever, com terminologia correta, qualquer situação clínica que envolva dentes, arcadas ou a articulação da mandíbula.

Exercícios resolvidos

1. Um dentista pede-te para anotares "dente 46 apresenta desgaste oclusal". Que dente é e onde se localiza a face desgastada?

Resolução: o código 46 tem quadrante 4 (inferior direito) e posição 6 (1.º molar). É o 1.º molar inferior direito, e a face desgastada é a oclusal, a superfície de contacto com o dente antagonista superior.

2. Porque é que a dentição temporária não tem pré-molares?

Resolução: a dentição temporária tem apenas 5 dentes por quadrante (incisivo central, incisivo lateral, canino e dois molares temporários). Os pré-molares só existem na dentição permanente, e são eles que substituem os molares temporários quando estes esfoliam.

3. Um paciente tem a arcada inferior avançada em relação à superior. Que classe de Angle é esta e como se chama esta relação?

Resolução: é a Classe III, chamada mesioclusão. Contrasta com a Classe II (distoclusão, arcada inferior recuada) e com a Classe I (relação normal).

4. Que tecidos e estruturas o assistente dentário deve conseguir nomear ao observar uma radiografia com uma raiz exposta?

Resolução: deve identificar a raiz, com a dentina e o canal radicular (onde está a polpa) ao centro, o espaço do ligamento periodontal (linha escura fina à volta da raiz), a lâmina dura e o osso alveolar, e o ápice, onde entram os vasos e o nervo. O cemento também reveste a raiz, mas é tão fino que não se distingue da dentina na radiografia.

5. Explica, por fases, o que acontece do momento em que um dente incisa um alimento até este ser engolido.

Resolução: incisão (incisivos cortam) → trituração (caninos e pré-molares rasgam e fragmentam) → moagem (molares trituram) → formação do bolo alimentar (saliva humedece e liga as partículas) → deglutição (a língua empurra o bolo para a faringe).

6. Um paciente sente dor à frente do ouvido quando abre muito a boca, mas não quando fala normalmente. Que estrutura anatómica fica nessa região, e que movimento só acontece nas aberturas amplas?

Resolução: à frente do ouvido fica a articulação temporo-mandibular (ATM). Nas aberturas pequenas, como ao falar, predomina a rotação do côndilo (compartimento inferior); só nas aberturas amplas se junta a translação do côndilo e do disco para a frente, sobre o tubérculo articular (compartimento superior). Registas a queixa associando-a a esse momento da abertura; se a origem é articular ou muscular, é o médico dentista que avalia.