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UC · Unidade de Competência · UC03948

Sebenta · Montagem e ajustes de moldes em bancada (UC03948)

Do desenho técnico à validação em bancada, sistema a sistema, até ao molde pronto a ensaiar
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Produção e Gestão de Mo ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um molde de injeção é uma máquina de precisão feita de dezenas de peças que têm de encaixar, deslizar e alinhar-se ao centésimo de milímetro. Antes de o molde ir para a injetora, alguém tem de o montar: receber os blocos moldantes, os elementos normalizados e a estrutura, seguir o desenho técnico e a lista de materiais, e ajustar cada superfície e cada folga até o conjunto funcionar como um relógio. É esse trabalho, feito em bancada, com ferramenta manual e instrumentos de medição, que esta unidade curricular ensina.

Portugal tem um dos clusters de moldes mais respeitados do mundo, centrado na região de Marinha Grande e Leiria, a fornecer moldes para a indústria automóvel, de embalagem e de eletrodomésticos em toda a Europa. O técnico que monta e afina moldes em bancada é a última linha de controlo de qualidade antes do molde entrar em produção: um erro de montagem custa horas de máquina parada e material desperdiçado.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar as especificações da montagem e a documentação técnica de moldes; montar e ajustar os componentes e acessórios de moldes; e validar o funcionamento de moldes em bancada, cumprindo sempre as normas de segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental.

1. O molde de injeção e o trabalho em bancada

Um molde de injeção transforma plástico fundido numa peça sólida com a forma exata do produto final. É constituído por várias metades e sistemas que têm de trabalhar em conjunto:

Sistema Função
Estrutura (placas de base, colunas de fixação) suporta e alinha todo o conjunto na injetora
Sistema moldante (cavidade e núcleo) dá a forma à peça
Sistema de guiamento (colunas e casquilhos) garante o alinhamento entre as duas metades
Sistema de alimentação (bucha, gito, canais, ataques) leva o plástico fundido até à cavidade
Sistema de extração (extratores, placas, aros) desmolda a peça no fim do ciclo
Sistema de refrigeração e hidráulica/pneumática controla a temperatura e aciona mecanismos móveis

A cinemática do molde é a sequência de movimentos de um ciclo completo: fecho e aperto das duas metades, injeção do plástico, arrefecimento, abertura, avanço do conjunto de extração para desmoldar a peça, e regresso do conjunto de extração antes do fecho seguinte. Entender esta cinemática é o primeiro passo para montar um molde: cada peça só faz sentido quando se sabe em que momento do ciclo ela atua.

Montagem em bancada é o trabalho de reunir estes sistemas fora da injetora, numa bancada de trabalho, usando ferramenta manual, uma fresadora convencional para pequenos ajustes, e instrumentos de medição. O objetivo é entregar um molde que abre, fecha e extrai corretamente antes de subir à máquina para o primeiro ensaio de injeção. Um molde que chega à máquina mal montado gera paragens, avarias e, no pior caso, danifica a própria injetora.

2. Desenho técnico, esquema e lista de materiais

Nenhuma montagem começa sem ler a documentação. Três documentos guiam o trabalho:

O desenho de conjunto mostra o molde montado, com todas as peças na sua posição relativa, cortes que revelam o interior (canais, extratores, circuitos de água) e as cotas críticas de funcionamento: folgas, tolerâncias de ajustamento e alturas fechada e aberta. Segue as normas de desenho técnico (cortes, vistas, escalas, cotagem) tal como qualquer desenho mecânico, mas com simbologia própria de moldes para elementos normalizados (colunas, casquilhos, molas).

O desenho de definição (ou de fabrico) é o desenho individual de cada peça, com todas as cotas, tolerâncias, rugosidades e tratamentos térmicos exigidos.

O desenho esquemático representa a cinemática do molde de forma simplificada, normalmente por blocos e setas, mostrando a sequência de movimentos (fecho, injeção, abertura, extração, retorno) sem o detalhe geométrico de cada peça. Serve para perceber o que acontece e por que ordem, antes de perceber como cada peça é feita. É especialmente útil em moldes com mecanismos hidráulicos ou corrediças, onde a sequência de acionamento tem de estar sincronizada com o movimento de abertura.

A lista de materiais (BOM), associada ao desenho de conjunto, identifica cada peça por um código, a designação, o material, a quantidade e, para peças normalizadas, a referência do catálogo do fabricante (por exemplo, colunas e casquilhos guia, parafusos, molas). Antes de montar, o técnico consulta e valida a lista de materiais contra o que foi efetivamente entregue: confirma quantidades, referências e que não falta nenhuma peça normalizada. É frequente faltar uma peça pequena (uma anilha, um parafuso de uma referência específica) que só se descobre a meio da montagem se a validação não for feita logo no início.

Exemplo resolvido. O desenho de conjunto indica, para o alojamento da coluna guia, a cota "Ø20 H7". A lista de materiais indica "coluna guia Ø20 g6, DME normalizada". Só ao ler os dois documentos juntos se percebe que o ajustamento entre o furo (H7) e a coluna (g6) é um ajustamento com folga garantida, feito de propósito para a coluna deslizar sem gripar. Este cálculo é desenvolvido no capítulo 5.

3. Tecnologia de materiais e tratamentos térmicos

Nem todas as peças de um molde usam o mesmo aço. A escolha depende da função:

Zona do molde Aço típico Estado / dureza típica
Placas de base e estrutura 1.1730 (C45) ou 1.2312 (pré-temperado) 28 a 32 HRC
Blocos moldantes, séries médias 1.2311 / 1.2738 pré-temperado, 280 a 325 HB
Blocos moldantes, séries longas ou material abrasivo 1.2343 / 1.2344 (tipo H11/H13) temperado e revenido, 48 a 52 HRC
Colunas e casquilhos guia aço cementável (ex. 16MnCr5 / 1.7131) núcleo tenaz, superfície cementada a cerca de 60 HRC
Extratores aço-ferramenta temperado e revenido 52 a 56 HRC, ou nitretado

Os tratamentos térmicos alteram estas propriedades:

Confundir a ordem destes tratamentos é um erro caro: nitretar ou temperar uma peça antes do alívio de tensões pode deixar a peça empenada depois da maquinagem final, obrigando a refazer o trabalho.

4. Organização e preparação do trabalho para a montagem

Antes de apertar o primeiro parafuso, o técnico prepara o posto de trabalho:

  1. Confere o desenho de conjunto e a lista de materiais contra as peças recebidas (capítulo 2).
  2. Organiza a bancada: espaço limpo, ferramentas e instrumentos de medição à mão, superfície protegida para não riscar as superfícies moldantes.
  3. Veste o equipamento de proteção individual adequado às operações previstas (capítulo 13).
  4. Define a estratégia de montagem: a ordem em que os sistemas são montados, para que cada passo seja possível sem desmontar o anterior.

A sequência típica de montagem de um molde, do exterior para o interior do ciclo de funcionamento, é:

Estrutura (placas de base) → Sistema de guiamento (colunas/casquilhos)
  → Elementos moldantes (cavidade e núcleo) → Sistema de alimentação
  → Conjunto de extração → Suportes e mecanismos de monitorização
  → Circuitos hidráulicos/pneumáticos → Validação em bancada

Esta ordem não é arbitrária: o guiamento tem de estar montado e verificado antes dos elementos moldantes, porque é ele que garante que a cavidade e o núcleo fecham alinhados. Montar os moldantes antes do guiamento arrisca desalinhá-los sem se dar conta.

Exemplo resolvido. Chega à bancada um molde de duas placas, uma cavidade, com um lote de peças que inclui: placas de base, quatro colunas e quatro casquilhos guia, um bloco de cavidade, um bloco de núcleo, uma bucha de injeção, seis extratores, uma placa extratora e uma placa impulsora. A estratégia de montagem é: (1) fixar as placas de base; (2) montar colunas numa metade e casquilhos na oposta, verificar deslizamento; (3) fixar cavidade e núcleo, verificando o encosto na linha de junção; (4) montar a bucha de injeção e alinhá-la com o furo de entrada; (5) montar os extratores nas suas placas e verificar o curso; (6) fechar o molde em vazio e confirmar que tudo se move sem interferências.

5. Elementos de fixação, centramento e posicionamento

Fixação. As peças fixas de um molde prendem-se sobretudo com parafusos de cabeça cilíndrica (tipo Allen) e alinham-se com cavilhas (pinos cilíndricos calibrados) que impedem qualquer deslocamento lateral. A cavilha faz o posicionamento fino; o parafuso só garante que a peça não se solta.

O aperto dos parafusos segue um binário calculado, não "à mão de sorte": um parafuso mal apertado pode desprender-se com a vibração da máquina; um parafuso apertado a mais pode partir ou deformar a peça.

Exemplo resolvido. Um parafuso M12, classe 8.8 (tensão limite elástico 640 MPa), com área de tensão normalizada As = 84,3 mm², vai fixar um bloco moldante. Para uma união não permanente usa-se, em regra, uma pré-carga de 75% da carga de prova:

Fp = 0,75 × 640 × 84,3 = 40 464 N (40,5 kN)

Com um coeficiente de atrito K = 0,2 (parafuso ligeiramente lubrificado), o binário de aperto é:

T = K × Fp × d = 0,2 × 40 464 × 0,012 = 97,1 N·m

Os parafusos de fixação de uma placa apertam-se sempre em padrão cruzado (em estrela, nunca em sequência ao longo de um lado), em duas ou três passagens de binário crescente, para que a placa assente uniformemente sem empenar.

Centramento e posicionamento. As colunas guia e os casquilhos guia garantem que a cavidade e o núcleo se encontram sempre na mesma posição relativa, ciclo após ciclo. Como a coluna tem de deslizar livremente dentro do casquilho, sem nunca gripar, usa-se um ajustamento com folga, normalizado pela ISO 286: tipicamente H7 no furo do casquilho e g6 no veio da coluna.

Exemplo resolvido. Para uma coluna guia Ø20 mm, com ajustamento H7/g6 (faixa 18-30 mm da ISO 286):

A folga entre os dois varia entre:

Folga mínima = 20,000 - 19,993 = 0,007 mm (7 μm) Folga máxima = 20,021 - 19,980 = 0,041 mm (41 μm)

Uma folga sempre positiva, entre 7 e 41 μm, garante que a coluna nunca fica apertada no casquilho (não há risco de gripagem), mas também não é tão larga que comprometa o alinhamento da cavidade com o núcleo.

As anilhas centradoras cumprem uma função semelhante à escala da máquina: encaixam num furo do prato da injetora e garantem que o molde fica centrado com o bico de injeção antes de ser apertado. Em bancada verifica-se que estão montadas e que o seu diâmetro corresponde ao furo do prato indicado no desenho.

6. Ferramentas, equipamentos e instrumentos de medição

A montagem em bancada combina ferramenta manual, uma fresadora convencional para retoques pontuais, e um conjunto de instrumentos de medição que confirmam, a cada passo, que a peça está dentro da tolerância.

Instrumento Mede Resolução típica
Paquímetro comprimentos, diâmetros, profundidades 0,02 mm
Micrómetro diâmetros e espessuras de precisão 0,01 mm ou 0,001 mm
Calibres (tampão e anel) verificação passa/não passa de furos e veios conforme a tolerância da peça
Relógio comparador desvios de paralelismo, perpendicularidade e planeza 0,01 mm ou 0,001 mm
Rugosímetro rugosidade superficial (Ra) 0,01 μm

O relógio comparador, montado num suporte magnético sobre uma base de referência, é o instrumento que verifica se uma placa extratora se desloca em paralelo com a placa de base ao longo de todo o curso, ou se uma face da cavidade está perpendicular ao plano de fixação. Uma leitura total (TIR, total indicator reading) acima do valor admitido no desenho indica desalinhamento a corrigir.

As escalas de rugosidade são padrões físicos comparativos (por toque e vista) usados quando não há rugosímetro disponível, para uma avaliação rápida do acabamento. Como referência: uma superfície obtida por eletroerosão (EDM) fica normalmente entre Ra 0,8 μm e Ra 3,2 μm; uma superfície polida (para peças de aspeto, como lentes ou embalagens transparentes) desce a menos de Ra 0,1 μm.

Exemplo resolvido. Numa afinação pontual com a fresadora convencional, o desenho pede uma velocidade de corte Vc = 90 m/min para uma fresa de acabamento com D = 10 mm em aço-ferramenta pré-temperado. A rotação a programar é:

n = (1000 × Vc) / (π × D) = (1000 × 90) / (π × 10) = 2865 rpm (arredondado)

7. Montagem dos elementos moldantes principais e acabamento superficial

Os elementos moldantes principais são a cavidade (a parte fêmea, que dá a forma exterior da peça) e o núcleo (a parte macho, que dá a forma interior). Fixam-se cada um na sua placa de suporte, com parafusos e cavilhas de posicionamento, seguindo sempre a orientação indicada no desenho: um bloco moldante montado ao contrário, ou rodado 180°, só se descobre a meio do fecho, quando já é tarde.

Depois de montados, verifica-se:

Exemplo resolvido. Um canal de escape de gases tem 40 mm de largura útil e uma profundidade de 0,025 mm (valor típico para polímeros de baixa viscosidade, como o polipropileno). A área de secção disponível para o ar escapar é:

Área = largura × profundidade = 40 × 0,025 = 1,00 mm²

Uma profundidade a mais deixaria sair o próprio plástico fundido (rebarba); a mais de menos não deixa sair o ar a tempo, e a peça fica com queimados ou por encher.

8. O sistema de alimentação do molde

O sistema de alimentação leva o plástico fundido, vindo do bico da injetora, até cada cavidade. Tem três elementos, do exterior para o interior, e é essencial não confundir os seus nomes:

Na montagem em bancada, verifica-se que a bucha de injeção está corretamente alinhada com o furo de entrada da placa, que o raio esférico da ponta da bucha corresponde ao raio do bico da injetora indicado no desenho (para não haver fuga de material nesse encontro), e que o gito tem ângulo de saída suficiente para se soltar sozinho ao abrir o molde.

9. O conjunto de extração

Depois de a peça arrefecer, tem de sair do molde sem se danificar. É essa a função do conjunto de extração:

Estas placas precisam de espaço para se deslocar dentro da estrutura do molde. Esse espaço é aberto por calços (blocos espaçadores) colocados entre a placa de suporte da cavidade e a placa de base.

Exemplo resolvido. O curso de extração necessário (definido pelo comprimento da peça a desmoldar mais uma margem de segurança) é de 35 mm. O conjunto placa impulsora + contraplaca tem 40 mm de espessura (duas placas de 20 mm). Deixando ainda 5 mm de folga de segurança para o conjunto não bater no fundo do curso, a altura mínima dos calços é:

Calço = curso + espessura das placas + folga de segurança = 35 + 40 + 5 = 80 mm

Depois de montado, verifica-se com um relógio comparador que os extratores ficam exatamente à face da superfície moldante quando em repouso (nem salientes, o que marcaria a peça, nem recuados, o que deixaria a peça presa).

10. Afinação de superfícies de ajustamento e tolerâncias de funcionamento

Mesmo com peças maquinadas dentro da tolerância de fabrico, o encontro entre a cavidade e o núcleo na linha de junção raramente fica perfeito à primeira. É aqui que entra a afinação de superfícies de ajustamento:

  1. Pinta-se uma das superfícies com azul-da-prússia e fecha-se o molde suavemente.
  2. Abre-se e observa-se onde a tinta marcou: são os pontos de contacto real.
  3. Raspa-se (com uma raspadeira manual) apenas os pontos altos marcados, nunca a superfície toda.
  4. Repete-se o processo até a marca de tinta cobrir toda a linha de junção de forma uniforme.

Exemplo resolvido. Depois de medir com o relógio comparador, verifica-se que uma zona da linha de junção está 0,08 mm mais alta do que deveria. Trabalhando em passagens de raspagem de 0,01 mm de cada vez (o máximo recomendado por passagem, para não ultrapassar o alvo):

Número de passagens = 0,08 / 0,01 = 8 passagens

As tolerâncias de funcionamento resumem-se numa tabela de referência, para consulta rápida em bancada:

Aplicação Ajustamento Tipo de encaixe
Coluna guia / casquilho guia H7/g6 folga garantida (deslizamento livre)
Pino extrator / furo da placa extratora H7/f7 folga garantida, maior tolerância de fabrico
Cavilha de posicionamento / furo H7/m6 ligeiramente apertado, sem folga
Linha de junção cavidade/núcleo contacto controlado sem folga nem interferência (afinado por raspagem)

11. Hidráulica e pneumática no molde

Muitos moldes têm mecanismos móveis além da abertura/fecho e da extração: corrediças para desmoldar reentrâncias laterais, ou núcleos móveis (core-pulls) acionados por cilindros. Estes cilindros podem ser hidráulicos (mais força, para peças grandes) ou pneumáticos (mais rápidos, para peças pequenas), e o desenho esquemático do capítulo 2 é o que mostra em que momento do ciclo cada um atua.

O molde também tem circuitos de refrigeração (água) e, nalguns casos, circuitos de óleo para aquecer moldantes que trabalham a temperaturas elevadas. Antes de o molde subir à máquina, testa-se a estanquidade destes circuitos com um ensaio de pressão superior à pressão de trabalho, para detetar fugas que só se manifestariam sob pressão real.

Exemplo resolvido. Um circuito de refrigeração trabalha, em produção, a 6 bar. A norma da oficina pede um ensaio hidrostático a 1,5 vezes a pressão de trabalho:

Pressão de ensaio = 6 × 1,5 = 9 bar

O circuito mantém-se a 9 bar durante alguns minutos, sem perda de pressão nem sinais de fuga nas uniões, antes de ser aprovado.

Os mecanismos de monitorização de posição são sensores (normalmente interruptores de fim-de-curso) que confirmam, à máquina, que o conjunto de extração regressou totalmente antes de autorizar o fecho seguinte. Em bancada, monta-se e regula-se a posição destes sensores para que disparem exatamente no ponto certo do curso, nem antes nem depois.

Os suportes são blocos ou colunas colocados sob a placa de suporte da cavidade, para que esta não flita (não se deforme) sob a pressão de injeção. A sua posição tem de deixar livre o espaço por onde a placa extratora se desloca.

12. Validação do funcionamento em bancada, encerramento e proteção do molde

Antes de o molde sair da bancada, valida-se a sequência de funcionamento em vazio, ou seja, sem material plástico: abrir, avançar o conjunto de extração até ao fim do curso, recuá-lo, fechar, e repetir o ciclo várias vezes à mão (ou acionado lentamente, se a bancada tiver esse recurso), verificando que:

Só depois de validado em vazio o molde segue para o primeiro ensaio de injeção na máquina.

Encerramento e proteção do molde. O trabalho de bancada não termina na validação: antes do transporte ou do armazenamento,

Descurar esta etapa é uma causa comum de acidentes: um molde que se abre a meio de um transporte, ou que chega à máquina seguinte já com corrosão, anula o trabalho de afinação feito em bancada.

13. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental

O enquadramento legal de referência é a Lei n.º 102/2009 (regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho) e o Decreto-Lei n.º 50/2005 (prescrições mínimas de segurança e saúde na utilização de equipamentos de trabalho, incluindo fresadoras e equipamentos de elevação).

Movimentação de cargas com ponte rolante e olhais. Um molde pesa, com frequência, várias centenas de quilogramas. Regras que não se negoceiam:

Olhal Carga admissível
M8 140 kg
M10 230 kg
M12 340 kg
M16 620 kg
M20 970 kg
M24 1500 kg

Exemplo resolvido. Um molde de 850 kg vai ser suspenso por dois pontos, com as duas lingas da ponte rolante a formar 45° com a vertical em cada perna (90° entre si). A carga por perna é:

Carga por perna = peso / (2 × cos 45°) = 850 / (2 × 0,7071) = 601,0 kg

Escolhe-se o olhal M20 (970 kg de carga admissível), que fica acima da carga por perna com margem de segurança. Nunca se escolhe um olhal "à justa": a folga entre a carga real e a carga admissível absorve erros de ângulo e desgaste.

Entalamento entre placas. Durante os testes de abertura e fecho, nunca se colocam as mãos entre as duas metades do molde, nem entre a placa extratora e a placa de base, mesmo com o movimento a ser lento e manual. É uma das causas mais comuns de acidente em bancada de moldes.

Bancada e ferramenta manual. Limas, raspadeiras e chaves são afiadas e usadas com a peça bem fixa; nunca se segura a peça com uma mão enquanto se raspa com força na direção da outra.

Solventes e óleos. A limpeza de peças com solvente e o manuseamento de óleos de corte e conservantes expõem a pele e as vias respiratórias. Trabalha-se com ventilação adequada, evitando o contacto direto e prolongado.

Equipamento de proteção individual, ancorado à exposição real:

Operação EPI
Manuseamento de blocos de aço em bruto ou com rebarba luvas anticorte
Retificação, lapidação ou raspagem óculos de proteção (projeção de limalha)
Limpeza com solventes luvas resistentes a químicos, ventilação da zona
Movimentação com ponte rolante capacete e calçado com biqueira de aço
Ensaio de funcionamento em vazio mãos fora da zona de fecho, sem exceção

Em caso de emergência, o número nacional é o 112. Procedimentos concretos:

Proteção ambiental. Óleos usados, solventes e panos contaminados são resíduos perigosos: armazenam-se em recipientes próprios, identificados, e nunca se despejam no esgoto. Aparas e resíduos metálicos separam-se para reciclagem. Consulta-se sempre a ficha de dados de segurança de qualquer produto químico novo antes de o usar.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Montar um molde em bancada segue sempre a mesma lógica: ler a documentação técnica e validar a lista de materiais, organizar o trabalho e definir a sequência, fixar e alinhar a estrutura e o guiamento, montar os elementos moldantes e o sistema de alimentação, montar e afinar o conjunto de extração, ligar os mecanismos hidráulicos, pneumáticos e de monitorização, verificar acabamentos, folgas e escape de gases, validar o funcionamento em vazio, e só depois encerrar e proteger o molde para transporte. Cada passo cumpre normas de segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental, do primeiro parafuso ao último olhal de suspensão.

Exercícios resolvidos

1. Um casquilho guia mede Ø20,015 mm e a coluna guia mede Ø19,985 mm. Estes valores estão dentro do ajustamento H7/g6 estudado no capítulo 5?

Resolução: o furo H7 vai de 20,000 a 20,021 mm; 20,015 mm está dentro do intervalo. O veio g6 vai de 19,980 a 19,993 mm; 19,985 mm também está dentro do intervalo. Sim, ambos cumprem o ajustamento, com uma folga real de 20,015 - 19,985 = 0,030 mm, dentro da gama de 7 a 41 μm calculada.

2. Porque é que a bucha de injeção tem sempre um ângulo de saída no furo cónico onde se forma o gito?

Resolução: o gito solidifica dentro desse furo cónico. Sem ângulo de saída, o gito ficaria preso na bucha de injeção ao abrir o molde, em vez de se soltar sozinho com a coluna guia do lado da extração. O ângulo garante que o gito acompanha a metade móvel do molde.

3. Um canal de escape de gases foi maquinado com 0,08 mm de profundidade em vez dos 0,025 mm previstos para um polímero de baixa viscosidade. Qual o efeito mais provável?

Resolução: uma profundidade quatro vezes superior ao previsto deixa passar o próprio plástico fundido pelo canal, em vez de só deixar sair o ar. O resultado é rebarba na linha de junção, exatamente na zona do canal de escape.

4. Depois de fechar o molde com azul-da-prússia, a marca aparece só numa faixa estreita de um dos lados da linha de junção. O que se faz a seguir?

Resolução: raspa-se apenas essa faixa marcada, em passagens de cerca de 0,01 mm, repetindo o ensaio com azul-da-prússia até a marca cobrir toda a linha de junção de forma uniforme. Nunca se raspa a superfície toda de forma indiscriminada.

5. Um molde de 620 kg vai ser suspenso por um único olhal central. Qual o olhal mínimo da tabela do capítulo 13 a usar?

Resolução: com um único ponto de suspensão, o olhal recebe a carga total, 620 kg. O olhal M16 (620 kg de carga admissível) fica exatamente no limite, sem qualquer margem de segurança; a boa prática é subir para o M20 (970 kg), que garante uma margem real.