Sebenta · Montagem e ensaio de dispositivos mecânicos em moldes de injeção (UC03947)
- Introdução
- 1. Desenho técnico e dispositivos mecânicos em moldes
- 2. Tipos de dispositivos mecânicos em moldes
- 3. Fundamentos de pneumática e hidráulica
- 4. Produção e tratamento do ar comprimido
- 5. Redes de distribuição e aplicações do ar comprimido
- 6. Componentes de circuitos pneumáticos e conversão de unidades
- 7. Montagem, interligação e deteção de avarias em pneumática
- 8. Hidráulica em moldes: campos de aplicação, componentes e acessórios
- 9. Lubrificantes e fluidos hidráulicos
- 10. Montagem, interligação e deteção de avarias em hidráulica
- 11. Componentes e dispositivos elétricos para moldes
- 12. Elementos de ligação, vedação, fixação, travagem e tubagens
- 13. Ensaio de funcionamento
- 14. Manutenção, avarias, tolerâncias e retificações
- 15. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a montar e ensaiar dispositivos mecânicos em moldes de injeção: gavetas, sistemas de extração, desenroscadores e os circuitos pneumáticos, hidráulicos e elétricos que os fazem funcionar. É uma UC de aplicação prática, mas assente em cálculo (forças, pressões, áreas, binários) e em leitura rigorosa de esquemas.
O percurso segue as três realizações do referencial: primeiro analisar especificações e documentação técnica (desenhos de conjunto, esquemas pneumáticos/hidráulicos/elétricos, tolerâncias); depois executar a montagem dos dispositivos mecânicos, interligando-os aos sistemas de fluido e elétricos; por fim ensaiar e validar o funcionamento, retificando o que não cumpre a especificação. A segurança e a proteção ambiental atravessam as três etapas, do início ao fim.
Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar desenho técnico e esquemas de circuitos pneumáticos, hidráulicos e elétricos; selecionar, montar e interligar componentes pneumáticos, hidráulicos e elétricos em moldes; aplicar procedimentos de ensaio de funcionamento e retificar avarias; executar a manutenção de um conjunto; e cumprir as normas de segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental.
1. Desenho técnico e dispositivos mecânicos em moldes
Nenhuma montagem começa na bancada: começa na leitura do desenho de conjunto do molde e dos desenhos esquemáticos de circuitos pneumáticos, hidráulicos e elétricos. É a primeira realização desta UC: analisar especificações e documentação técnica.
O desenho de conjunto mostra como as placas, as gavetas, os extratores e os sistemas auxiliares se encaixam. As fichas técnicas de cilindros, válvulas e sensores completam a informação, com as cotas e os limites de funcionamento de cada componente.
Tolerâncias e ajustamentos
As cotas mecânicas trazem, com frequência, uma tolerância dimensional do sistema ISO. Um furo Ø20 H7 admite um desvio entre 0 e +0,021 mm face à cota nominal de 20 mm.
| Tipo de ajustamento | Relação veio/furo | Aplicação típica no molde |
|---|---|---|
| Com folga | veio sempre menor que o furo | guias de extratores (têm de deslizar) |
| Apertado (de transição) | veio e furo quase coincidem | componentes fixos sem folga |
| Com aperto | veio maior que o furo | ligação forçada por prensagem |
Exemplo resolvido · ler uma cota tolerada
Um desenho especifica o furo de uma guia como Ø20 H7. Pergunta: qual é a gama de diâmetros aceitável?
Resolução: H7, para esta gama de diâmetros, corresponde a um desvio de 0 a +0,021 mm. A gama aceitável do furo é, portanto, 20,000 mm a 20,021 mm. Um furo medido a 19,995 mm está fora de tolerância (abaixo do mínimo); um furo a 20,015 mm está dentro.
Escolher o ajustamento errado (aperto onde o desenho pede folga) é um dos erros de montagem mais caros: gripa componentes que têm de deslizar em cada ciclo.
2. Tipos de dispositivos mecânicos em moldes
O segundo conhecimento do referencial cobre os tipos de dispositivos mecânicos que resolvem geometrias que impedem a peça de sair em linha reta do molde.
Gavetas e corrediças
As gavetas (ou corrediças, slides) libertam contrassaídas deslocando-se lateralmente antes da abertura do molde:
- Coluna inclinada (angular pin): a própria abertura do molde força o deslizamento da gaveta. Não precisa de energia externa, mas o curso é limitado pelo curso de abertura.
- Came (cam): princípio semelhante, com mais liberdade de curso.
- Cilindro pneumático ou hidráulico: movimento independente da abertura, com controlo e força ajustáveis à geometria da peça.
Extração, desenroscamento e manipulação
- Extração mecânica: pinos, lâminas ou casquilhos extratores, movidos por uma placa extratora.
- Extração assistida por ar: um sopro de ar comprimido separa a peça do macho, útil em peças de parede fina.
- Desenroscamento (unscrewing): cremalheira, motor hidráulico ou motor elétrico faz rodar um macho roscado antes da extração, para peças com rosca interna.
- Elevadores (lifters): combinam extração com um pequeno deslocamento lateral, para contrassaídas simples.
- Dispositivos de manipulação da peça: pinças, retentores ou sistemas de vácuo que seguram a peça ejetada, evitando que caia sobre a bacia do molde.
Cada dispositivo resolve um problema geométrico da peça; uma peça complexa combina vários (por exemplo, rosca interna e contrassaída lateral precisam de desenroscador e gaveta ou elevador).
3. Fundamentos de pneumática e hidráulica
Pneumática e hidráulica usam um fluido sob pressão para transmitir força, mas divergem em pontos que determinam onde se aplicam no molde.
| Pneumática | Hidráulica | |
|---|---|---|
| Fluido | ar comprimido | óleo hidráulico |
| Pressão típica | 4 a 10 bar | 100 a 250 bar |
| Compressibilidade | compressível | praticamente incompressível |
| Força para o mesmo tamanho de cilindro | menor | muito maior |
| Retorno do fluido | escapa para a atmosfera | volta ao depósito (circuito fechado) |
Regra prática: pneumática para funções auxiliares e forças moderadas (travas, sopros, pequenas gavetas); hidráulica para ejeção principal e gavetas de força elevada.
Simbologia ISO 1219-1
A norma ISO 1219-1 normaliza os símbolos de circuitos pneumáticos e hidráulicos:
- Os símbolos representam funções, não a forma física do componente, e desenham-se na posição de repouso.
- Vias identificadas por letras: P (alimentação), A e B (vias de trabalho). Em pneumática, o escape tem via própria (numeração 3 e 5 numa válvula 5/2); em hidráulica, o retorno faz-se sempre para um depósito (T) único.
No símbolo de bomba/motor (círculo com um triângulo), há duas regras independentes, que nunca se misturam:
- O preenchimento do triângulo indica o fluido: triângulo cheio (sólido) = hidráulico; triângulo vazio (só contorno) = pneumático.
- O sentido da ponta do triângulo indica a função: ponta no sentido do fluxo de saída do componente = bomba (gera caudal, converte energia mecânica em energia de fluido); ponta no sentido do fluxo de entrada = motor (é acionado pelo fluido, converte energia de fluido em energia mecânica).
Exemplo resolvido · identificar um componente pelo símbolo
Um esquema mostra um círculo com um triângulo vazio, com a ponta a apontar para fora do círculo, no sentido do caudal.
Resolução: triângulo vazio → fluido pneumático (ar); ponta a apontar para fora, no sentido da saída → é uma bomba/compressor pneumático. Se o mesmo triângulo estivesse cheio, seria hidráulico; se a ponta apontasse para dentro, seria um motor.
4. Produção e tratamento do ar comprimido
O ar comprimido percorre uma cadeia de produção e tratamento antes de chegar ao molde:
- Compressor (de pistão, de parafuso ou de palhetas): aspira ar atmosférico e comprime-o.
- Reservatório: amortece picos de consumo e deixa condensar parte da humidade.
- Secador (frigorífico ou por adsorção): remove a humidade restante.
- Filtro geral de rede: retém partículas e óleo arrastado do compressor.
O ar atmosférico contém sempre vapor de água; comprimi-lo concentra essa água, que corrói válvulas e gripa cilindros se não for removida.
Tratamento local: a unidade FRL
Junto de cada máquina ou molde, monta-se uma unidade de tratamento (FRL), sempre nesta ordem:
| Elemento | Função |
|---|---|
| F · Filtro | remove partículas sólidas e condensados finais |
| R · Regulador de pressão | ajusta e estabiliza a pressão de trabalho |
| L · Lubrificador | névoa de óleo, só quando o fabricante o exige |
Inverter a ordem (por exemplo, lubrificar antes de filtrar) compromete o filtro. Muitos componentes atuais têm vedantes autolubrificados e dispensam o L.
5. Redes de distribuição e aplicações do ar comprimido
Desenhar a rede
- Anel fechado em vez de linha aberta: alimenta cada ponto por dois lados, reduzindo a queda de pressão em picos de consumo.
- Inclinação das tubagens (1 a 2%) no sentido do escoamento, com purgadores nos pontos baixos.
- Tomadas de derivação pelo topo do tubo principal: evita que a água acumulada no fundo entre no ramal.
- Diâmetro dimensionado ao caudal simultâneo real, não ao "que sobra".
Aplicações no molde
- Atuação de cilindros (travas, pequenas gavetas, prensa-fios).
- Extração assistida por sopro.
- Limpeza do molde entre ciclos.
- Alimentação de ferramentas pneumáticas de montagem e manutenção.
- Comando de válvulas piloto de outros sistemas.
Exemplo resolvido · dimensionar pelo consumo simultâneo
Um molde tem três dispositivos pneumáticos: uma trava (nunca atua ao mesmo tempo que os outros dois) e duas gavetas que atuam em simultâneo no mesmo instante do ciclo.
Resolução: o dimensionamento da linha que alimenta as duas gavetas soma os dois consumos, porque atuam ao mesmo tempo. O consumo da trava não se soma a esses dois, porque nunca ocorre no mesmo instante; dimensiona-se apenas para o seu próprio pico, na sua própria derivação.
6. Componentes de circuitos pneumáticos e conversão de unidades
Materiais e componentes
- Cilindros: simples efeito (mola de retorno) ou duplo efeito (ar nos dois sentidos).
- Válvulas direcionais: por exemplo, 5/2 (5 vias, 2 posições): via 1 = P, vias 2 e 4 = trabalho (A/B), vias 3 e 5 = escapes.
- Válvulas reguladoras de caudal, muitas vezes com anti-retorno, para controlar a velocidade.
- Tubagem: poliuretano (PU) ou nylon, com racords de aperto rápido.
- Vedantes: NBR (uso geral) ou poliuretano (mais resistente ao desgaste).
Calcular a força de um cilindro pneumático
A força é pressão × área: F = P × A, com A = π/4 × D².
Exemplo resolvido · cilindro de uma gaveta. Êmbolo D = 32 mm, haste d = 12 mm, pressão de trabalho P = 6 bar (6 × 10⁵ Pa).
| Grandeza | Cálculo | Resultado |
|---|---|---|
| Área do êmbolo (A) | π/4 × 32² | 804,25 mm² (8,04 cm²) |
| Área da haste (Ar) | π/4 × 12² | 113,10 mm² (1,13 cm²) |
| Área anelar (A − Ar) | 804,25 − 113,10 | 691,15 mm² (6,91 cm²) |
| Força de avanço | 6×10⁵ Pa × 8,0425×10⁻⁴ m² | 482,5 N (≈ 49,2 kgf) |
| Força de recuo | 6×10⁵ Pa × 6,9115×10⁻⁴ m² | 414,7 N (≈ 42,3 kgf) |
A força de recuo é sempre menor do que a de avanço no mesmo cilindro, porque a haste ocupa área do lado da câmara de recuo: nunca se calcula o recuo com a área total do êmbolo.
Conversão de unidades
| Grandeza | Equivalência |
|---|---|
| Pressão | 1 bar = 100 kPa = 0,1 MPa ≈ 14,50 psi ≈ 1,02 kgf/cm² |
| Caudal | 1 m³/h = 16,67 L/min |
| Força | 1 kgf = 9,81 N; 1 kN = 1000 N ≈ 101,97 kgf |
| Binário | 1 N·m ≈ 10,20 kgf·cm |
Exemplo resolvido · converter uma leitura de pressão
Um manómetro antigo lê 4,5 bar. Que valor é isso em kPa, em psi (catálogo americano) e em kgf/cm² (catálogo europeu antigo)?
Resolução: - kPa: 4,5 × 100 = 450 kPa. - psi: 4,5 × 14,50 ≈ 65,27 psi. - kgf/cm²: 4,5 × 1,02 ≈ 4,59 kgf/cm².
Confundir psi com bar é um erro caro: 6 bar correspondem a quase 87 psi. Regular um sistema europeu "para 6" à escala americana deixaria o circuito muito subalimentado.
Exemplo resolvido · consumo de ar de um cilindro em ciclo
O cilindro do exemplo anterior (D = 32 mm, d = 12 mm, curso = 100 mm) faz 10 ciclos por minuto, a 6 bar.
Resolução: - Volume de avanço por ciclo: 804,25 mm² × 100 mm = 80 425 mm³ ≈ 80,42 cm³. - Volume de recuo por ciclo: 691,15 mm² × 100 mm = 69 115 mm³ ≈ 69,12 cm³. - Volume total por ciclo: 80,42 + 69,12 ≈ 149,5 cm³ (0,1495 L). - Razão de compressão (simplificando a pressão atmosférica a 1 bar): (6 + 1) / 1 = 7. - Caudal de ar livre: 0,1495 L × 10 ciclos/min × 7 ≈ 10,47 L/min ≈ 0,63 m³/h.
Este é o caudal (em ar livre, à pressão atmosférica) que o compressor tem de fornecer só para este cilindro, e é o valor que entra no dimensionamento da rede do capítulo 5.
7. Montagem, interligação e deteção de avarias em pneumática
Selecionar, montar e interligar
- Selecionar cilindro, válvula e acessórios a partir do esquema e das forças/cursos calculados.
- Selecionar e utilizar as ferramentas de montagem corretas: chave dinamométrica para racords, ferramenta de corte a esquadria para o tubo.
- Montar e manusear respeitando o sentido de fluxo indicado no corpo da válvula.
- Interligar os elementos mecânicos (a gaveta, o pino) aos componentes pneumáticos (o cilindro), sem forçar a haste lateralmente.
- Testar as ligações com ar a baixa pressão antes de subir à pressão nominal.
Detetar e solucionar avarias
| Sintoma | Causa provável | Solução |
|---|---|---|
| Cilindro não se move | falta de pressão, válvula sem comando, ar bloqueado | verificar manómetro, comando elétrico, purgas |
| Movimento lento ou irregular | reguladora mal ajustada, fuga interna | reajustar caudal, testar estanquicidade |
| Fuga audível num racord | tubo mal cortado ou não inserido até ao fundo | recortar e reinserir |
| Cilindro "afunda" parado | vedante do êmbolo degradado | substituir o kit de vedantes |
O diagnóstico segue sempre a mesma lógica: da fonte de pressão para o dispositivo, verificando cada elemento até encontrar o que falha.
8. Hidráulica em moldes: campos de aplicação, componentes e acessórios
Onde se usa hidráulica
A hidráulica aplica-se onde a pneumática não tem força suficiente: ejeção principal de peças grandes ou moldes com muitos pontos de extração, gavetas de grande força, núcleos móveis (core-pulls) complexos e sistemas de desenroscamento por motor hidráulico de binário elevado.
Componentes de um circuito hidráulico
- Grupo hidráulico: motor elétrico + bomba (engrenagens, palhetas ou pistões) + depósito.
- Válvulas direcionais: tipicamente 4/2 ou 4/3 (4 vias: P, T, A, B): o retorno faz-se por uma única via de tanque (T), ao contrário dos dois escapes da pneumática.
- Válvulas limitadoras de pressão (proteção contra sobrepressão) e reguladoras de caudal (velocidade).
- Acumulador: reserva de energia para picos de consumo.
- Filtros de alta pressão: essenciais, porque a contaminação do óleo é a principal causa de avaria hidráulica.
Equipamentos e acessórios do molde
- Central hidráulica dedicada ou ligação à central da injetora.
- Mangueiras de alta pressão com reforço metálico e uniões roscadas próprias (não intermutáveis com racords pneumáticos, mesmo com diâmetro parecido).
- Manómetros e transdutores de pressão para monitorização.
- Permutador de calor: o óleo aquece com o trabalho da bomba e precisa de ser arrefecido.
- Válvulas de segurança e de bloqueio manual, essenciais para a despressurização antes de intervir.
Exemplo resolvido · calcular a força de um cilindro hidráulico
Cilindro do ejetor principal: êmbolo D = 40 mm, haste d = 20 mm, pressão de trabalho P = 160 bar.
| Grandeza | Cálculo | Resultado |
|---|---|---|
| Área do êmbolo (A) | π/4 × 40² | 1256,64 mm² (12,57 cm²) |
| Área da haste (Ar) | π/4 × 20² | 314,16 mm² (3,14 cm²) |
| Área anelar (A − Ar) | 1256,64 − 314,16 | 942,48 mm² (9,42 cm²) |
| Força de avanço | 160×10⁵ Pa × 12,5664×10⁻⁴ m² | ≈ 20 106 N ≈ 20,1 kN |
| Força de recuo | 160×10⁵ Pa × 9,4248×10⁻⁴ m² | ≈ 15 080 N ≈ 15,1 kN |
Mesma fórmula da pneumática, mas pressões 20 a 30 vezes maiores: por isso as forças hidráulicas se expressam em kN, não em N.
9. Lubrificantes e fluidos hidráulicos
O fluido hidráulico
O óleo hidráulico transmite força, mas também lubrifica, veda folgas internas e dissipa calor.
- Viscosidade (ISO VG): por exemplo VG 32, VG 46, VG 68, quanto maior o número, mais viscoso. Escolhe-se pela temperatura de trabalho e pelas recomendações da bomba.
- Aditivos: antidesgaste, anticorrosão, antiespuma.
- Contaminação: a principal causa de avaria hidráulica é a sujidade no óleo (partículas, água); a filtragem e a limpeza no enchimento são críticas.
- Vida útil: o óleo degrada-se com o tempo e o calor; análises periódicas ou troca programada evitam avarias em cascata.
Lubrificantes dos elementos mecânicos
Os elementos móveis do molde (guias, colunas inclinadas, gavetas) usam lubrificantes próprios, diferentes do fluido hidráulico do circuito:
- Massa lubrificante (grease) resistente a pressão e temperatura, aplicada em colunas de guia e superfícies de deslizamento.
- Plano de lubrificação: pontos, quantidade e periodicidade definidos no manual do molde.
Lubrificar a mais também é defeito: o excesso atrai partículas e pode migrar para a cavidade, marcando a peça. Usar sempre o produto especificado, nunca "o óleo hidráulico que já está ali".
10. Montagem, interligação e deteção de avarias em hidráulica
Montar e interligar
- Selecionar os componentes a partir do esquema e das forças calculadas.
- Montar e manusear com o binário de aperto especificado: pouco aperta a mais foge; a mais, esmaga o vedante.
- Interligar os elementos mecânicos e componentes hidráulicos, verificando o alinhamento da haste com a carga.
- Purgar o ar do circuito antes do primeiro ensaio: ar retido causa movimento "elástico" e impreciso.
- Confirmar a posição de repouso definida no esquema antes de aplicar pressão pela primeira vez.
Detetar e solucionar avarias
| Sintoma | Causa provável | Solução |
|---|---|---|
| Movimento lento, força fraca | filtro colmatado, bomba a desgastar, fuga interna | verificar filtro, pressão na bomba, vedantes |
| Movimento "aos saltos" | ar no circuito | purgar |
| Sobreaquecimento do óleo | válvula limitadora mal regulada, radiador sujo | verificar regulação, limpar permutador |
| Cilindro deriva sozinho, sem comando | válvula direcional com fuga interna | testar e substituir a válvula |
Nunca se procura uma fuga de alta pressão com a mão ou com um cartão perto do ponto suspeito: um jato invisível a alta pressão pode injetar fluido sob a pele. O procedimento de emergência está detalhado no capítulo 15.
Exemplo resolvido · tempo de curso a partir do caudal da bomba
A bomba entrega 8 L/min ao cilindro do ejetor do capítulo 8 (área do êmbolo A = 12,566 cm²), para um curso de 15 cm no avanço.
Resolução: - Caudal em cm³/s: 8 L/min = 8000 cm³ / 60 s ≈ 133,33 cm³/s. - Velocidade de avanço: v = Q / A = 133,33 / 12,566 ≈ 10,61 cm/s. - Tempo de curso: t = curso / v = 15 / 10,61 ≈ 1,41 s.
Este valor de referência é o que se compara com o tempo medido no ensaio: um tempo muito maior aponta para perda de caudal (fuga, filtro colmatado); muito menor aponta para erro no comando.
11. Componentes e dispositivos elétricos para moldes
Elétrica de comando e deteção
- Sensores de fim de curso (indutivos, magnéticos ou mecânicos): confirmam se a gaveta ou o ejetor está avançado ou recuado.
- Eletroválvulas: a bobina elétrica comanda a válvula pneumática/hidráulica, fazendo a ponte entre o comando elétrico e a força do fluido.
- Contactores e relés: comandam motores, como o do desenroscador elétrico.
- Interligação com o PLC da injetora: o molde só avança para o ciclo seguinte quando os sensores confirmam a posição correta de cada dispositivo.
Selecionar, montar e interligar componentes elétricos
- Interpretar o esquema elétrico (simbologia normalizada, numeração de bornes).
- Selecionar cabo, secção e proteção adequados à corrente do atuador.
- Montar e manusear: fixar o sensor à distância de deteção especificada na ficha técnica, apertar os bornes ao binário correto.
- Interligar sensores e eletroválvulas ao quadro/PLC, respeitando a numeração do esquema.
- Testar cada sinal isoladamente (forçar o sensor à mão, confirmar o LED) antes do teste integrado com pneumática/hidráulica.
Um sensor mal posicionado "engana" o PLC: o dispositivo está na posição errada, mas o sistema acredita que está correto, e pode autorizar o fecho do molde com um dispositivo fora de posição.
12. Elementos de ligação, vedação, fixação, travagem e tubagens
Ligação, vedação e fixação
- Elementos de ligação: parafusos, cavilhas e uniões roscadas.
- Elementos de vedação: O-rings, retentores e juntas planas; o material (NBR, viton, poliuretano) escolhe-se pela compatibilidade com o fluido e a temperatura.
- Elementos de fixação: buchas, anilhas de encosto e flanges que impedem o deslocamento sob carga.
- Elementos de travagem: anilhas de segurança, contraporcas e travamento químico, contra o desaperto por vibração.
Sistemas e ligações de tubagens
- Tubo rígido (aço, cobre): instalações fixas de alta pressão.
- Mangueira: absorve vibração e movimento, com uniões próprias por pressão de trabalho.
- Tubo de plástico (PU/nylon): pneumática de baixa pressão, com racords de aperto rápido.
- Boas práticas de traçado: raio de curvatura mínimo respeitado, fixação a cada troço, identificação (etiqueta) de cada linha.
Recomendações de montagem para elementos de ligação e transmissão
- Chave dinamométrica ao binário do fabricante: pouco aperto causa folga e vibração; aperto a mais danifica a rosca ou parte o parafuso.
- Sequência em cruz e por etapas em fixações com vários parafusos, nunca um parafuso de cada vez até ao fim.
- Elementos de transmissão (acoplamentos, cremalheiras, fusos): alinhamento verificado com relógio comparador antes do aperto definitivo.
Exemplo resolvido · calcular um binário de aperto
Uma chave dinamométrica aplica uma força de 150 N a um braço de 0,2 m.
Resolução: T = F × braço = 150 × 0,2 = 30 N·m. Em kgf·cm: 30 × 10,20 ≈ 305,9 kgf·cm.
Se, em vez disso, a força fosse 200 N a um braço de 0,25 m: T = 200 × 0,25 = 50 N·m, um binário maior exige braço e/ou força maiores, nunca se obtém "a mais" sem alterar um dos dois fatores.
13. Ensaio de funcionamento
Preparar e sequenciar
Ensaiar é a terceira realização desta UC: aplicar procedimentos de ensaio a sistemas do molde e validar (ou retificar) o resultado.
- Verificação visual: montagem completa, sem ferramentas esquecidas, ligações apertadas.
- Pressurização gradual: subir a pressão em degraus, verificando fugas a cada patamar.
- Teste em vazio, ciclo a ciclo, cada dispositivo isolado, a baixa velocidade.
- Teste sequencial integrado: a sequência completa do ciclo, com os sensores a confirmar cada posição.
- Registo dos resultados: tempos de curso, pressões, comparados com a especificação.
Validar, retificar e documentar
- Comparar com o esperado: tempos, forças, posições.
- Atuar de acordo com o resultado: retificar (reajustar caudal/pressão, corrigir alinhamento) antes de repetir o ensaio, se não cumpre a especificação.
- Documentar: valores medidos, ajustes feitos, assinatura de validação, é a prova de que o molde saiu qualificado.
- Um ensaio só termina quando o sistema funciona de forma repetível, não apenas uma vez.
14. Manutenção, avarias, tolerâncias e retificações
Manutenção de um conjunto
- Preventiva: lubrificação programada, verificação de folgas, substituição de vedantes por ciclos/tempo.
- Corretiva: reparar após avaria, com diagnóstico prévio (capítulos 7 e 10) antes de desmontar.
- Registo de avarias: histórico por dispositivo, para identificar causas raiz repetidas.
- Peças de desgaste programado: vedantes, guias, buchas, substituídas por plano.
Exemplo resolvido · verificar um desgaste contra a tolerância
Um veio de guia com cota nominal Ø20 H7 (limites 20,000 a 20,021 mm) é medido após uso e regista 20,035 mm.
Resolução: o valor medido está acima do limite superior: 20,035 − 20,021 = 0,014 mm fora de tolerância. A peça já não garante o ajustamento previsto e deve ser retificada ou substituída (nunca montada "na mesma" à espera que funcione).
Se a medição fosse 20,010 mm, estaria dentro da tolerância (entre 20,000 e 20,021) e a peça continuaria em serviço.
15. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental
Energia armazenada: despressurizar e consignar
- Parar o equipamento e desligar o comando.
- Despressurizar o circuito (válvulas de alívio, deixar os cilindros descarregar).
- Consignar (LOTO): bloquear a fonte de energia com cadeado pessoal e etiqueta.
- Confirmar energia zero antes de abrir qualquer união ou desmontar qualquer componente.
Esta sequência aplica-se sempre, mesmo para "uma verificação rápida", ao abrigo da Lei 102/2009 (regime jurídico da segurança e saúde no trabalho) e do DL 50/2005 (equipamentos de trabalho).
Riscos específicos
- Injeção de fluido sob pressão: uma fuga fina de alta pressão pode injetar óleo ou ar sob a pele sem dor imediata visível. Em caso de suspeita: nunca esperar, ligar de imediato o 112 e dizer à triagem que é lesão por injeção a alta pressão, é uma emergência cirúrgica.
- Nunca procurar fugas de alta pressão com a mão ou com um cartão perto do ponto suspeito.
- Entalamento entre placas: mãos e ferramentas fora da zona de fecho do molde durante testes automáticos.
- Movimentação de cargas: meios de elevação apropriados, nunca improvisação.
- EPI ancorado à exposição: luvas resistentes a corte, óculos sempre que há projeção (ar, partículas), calçado de proteção sempre.
Proteção ambiental
- Óleos e lubrificantes usados: recolha em recipiente próprio, nunca no esgoto ou no solo; encaminhamento para operador licenciado.
- Filtros e vedantes contaminados: resíduo perigoso, separado do lixo comum.
- Fugas: conter de imediato com material absorvente, nunca lavar com água.
- Dimensionar sem excesso (capítulos 5 e 6) reduz também o impacto ambiental do sistema.
Erros comuns
- Montar um ajustamento com aperto onde o desenho pede folga (ou vice-versa), gripando ou deixando jogo excessivo num componente móvel.
- Calcular a força de recuo de um cilindro usando a área total do êmbolo, sem descontar a área da haste.
- Confundir psi com bar ao ler um catálogo ou manómetro estrangeiro.
- Desenhar (ou montar) um circuito hidráulico com dois escapes separados, como se fosse uma válvula pneumática 5/2, em vez do retorno único ao tanque (T).
- Ligar a pressão nominal logo no primeiro ensaio, sem subida gradual e sem testar cada dispositivo isoladamente antes do ciclo integrado.
- Procurar uma fuga de alta pressão com a mão ou com um cartão, arriscando uma injeção de fluido sob a pele.
- Reaproveitar um racord pneumático numa ligação hidráulica só porque "encaixa", ignorando a diferença de pressão de rutura.
- Dar o ensaio por concluído ao primeiro ciclo correto, sem confirmar repetibilidade.
Glossário
- Gaveta / corrediça (slide) · dispositivo que se desloca lateralmente para libertar uma contrassaída.
- Contrassaída · geometria da peça que impede a saída direta do molde.
- Ejetor · dispositivo que expulsa a peça do molde após a abertura.
- Desenroscador (unscrewing) · dispositivo que roda um macho roscado antes da extração.
- FRL · unidade pneumática de Filtro, Regulador e Lubrificador.
- Válvula direcional · componente que comanda o sentido do fluxo (ex.: pneumática 5/2, hidráulica 4/3).
- Área anelar · área do êmbolo menos a área da haste, usada no cálculo da força de recuo.
- ISO 1219-1 · norma de simbologia gráfica para circuitos pneumáticos e hidráulicos.
- LOTO (Lockout/Tagout) · consignação: bloqueio físico e etiquetagem de uma fonte de energia antes de intervir.
- Área projetada · área da peça vista no sentido de abertura do molde, usada para dimensionar forças de fecho e de gaveta.
- PLC · autómato programável que comanda o ciclo da injetora e confirma as posições dos dispositivos.
- Viscosidade ISO VG · classificação da viscosidade do óleo hidráulico (ex.: VG 32, VG 46).
- Ajustamento H7 · classe de tolerância normalizada de um furo, com desvio 0 a +0,021 mm nas gamas típicas do molde.
Síntese
Montar e ensaiar dispositivos mecânicos num molde de injeção segue sempre a mesma ordem: ler o desenho e os esquemas → identificar o tipo de dispositivo (gaveta, ejetor, desenroscador) → calcular as forças e caudais necessários (F = P × A, com a área da haste sempre descontada no recuo) → selecionar e montar os componentes pneumáticos, hidráulicos e elétricos, com o binário e o alinhamento corretos → ensaiar de forma gradual e sequencial → validar com repetibilidade ou retificar → manter dentro de tolerância ao longo da vida do molde. A segurança (despressurizar, consignar, nunca procurar fugas com a mão) e a proteção ambiental acompanham cada etapa, do início ao fim.
Exercícios resolvidos
1. Um cilindro pneumático de duplo efeito tem êmbolo D = 20 mm e haste d = 8 mm, a trabalhar a 5 bar. Calcula a força de avanço e de recuo.
Resolução: A = π/4 × 20² = 314,16 mm²; Ar = π/4 × 8² = 50,27 mm²; A_anel = 263,89 mm². F_avanço = 5×10⁵ × 314,16×10⁻⁶ ≈ 157,1 N. F_recuo = 5×10⁵ × 263,89×10⁻⁶ ≈ 131,9 N.
2. Um técnico encontra uma fuga fina numa mangueira hidráulica de alta pressão. Qual é o procedimento correto?
Resolução: nunca aproximar a mão ou um cartão do ponto de fuga. Despressurizar e consignar o circuito (LOTO) antes de qualquer intervenção. Se houver suspeita de que alguém foi atingido pelo jato, ligar de imediato ao 112 e informar a triagem de que se trata de uma lesão por injeção de fluido a alta pressão.
3. Um esquema pneumático mostra uma válvula com 5 vias e 2 posições. Quantas vias de escape tem e como se identificam?
Resolução: uma válvula pneumática 5/2 tem duas vias de escape, numeradas 3 e 5; a via 1 é a alimentação (P) e as vias 2 e 4 são as vias de trabalho (A e B). Um circuito hidráulico equivalente (4/2 ou 4/3) tem, em vez disso, uma única via de retorno ao tanque (T).
4. Um veio de guia com cota Ø20 H7 (20,000 a 20,021 mm) é medido a 20,012 mm. Está dentro de tolerância?
Resolução: sim. 20,012 mm situa-se entre 20,000 e 20,021 mm, portanto está dentro da tolerância H7 e a peça continua em serviço.
5. Uma bomba hidráulica entrega 6 L/min a um cilindro cuja área do êmbolo é 12,566 cm². Qual a velocidade de avanço, em cm/s?
Resolução: Q = 6 L/min = 6000/60 = 100 cm³/s. v = Q/A = 100/12,566 ≈ 7,96 cm/s.