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UC · Unidade de Competência · UC03946

Sebenta · Aplicar as tolerâncias e acabamento superficial na maquinação (UC03946)

ISO 286, ajustamentos, ISO 1101, rugosidade ISO 21920 e ensaios de maquinação em protótipo
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Produção e Gestão de Mo, T. Produção de Cunhos e Co ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um molde só funciona se as suas peças encaixarem exatamente como foram pensadas: a coluna-guia tem de deslizar no casquilho sem folga percetível nem gripar, o macho tem de fechar sobre a cavidade sem rebarbar, o ejetor tem de correr livre no seu alojamento. Nada disto acontece por acaso. Acontece porque, antes de qualquer peça ser maquinada, alguém decidiu quanto pode variar cada cota e que qualidade de superfície cada uma precisa, e depois confirmou, com peças reais medidas, que a máquina e o processo cumprem essa decisão.

Esta sebenta ensina exatamente isso: a ler, calcular e verificar tolerâncias dimensionais segundo a norma ISO 286, a especificar tolerâncias geométricas segundo a ISO 1101, a indicar e justificar rugosidade segundo a ISO 21920, e a validar um processo de maquinação através de ensaios em protótipo, com os instrumentos de metrologia adequados.

O fio condutor é um exemplo real da indústria de moldes: o conjunto de guiamento de um molde de injeção, formado por uma coluna-guia (o veio) e um casquilho de guiamento (o furo em que a coluna desliza). É um par de peças copulativas simples de entender e ao mesmo tempo exigente o suficiente para ilustrar toda a matéria: tolerância dimensional apertada, forma geométrica controlada, acabamento superficial fino e um ensaio de maquinação real para validar o processo.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os requisitos dimensionais e de acabamento superficial de peças a maquinar; efetuar o controlo das tolerâncias em protótipo; efetuar ensaios de maquinação em protótipo de peças copulativas; e analisar resultados para validar o processo, sempre com organização do posto de trabalho, cumprimento das normas de segurança, ambiente e qualidade.

1. Desenho técnico, documentação de fabrico e tecnologia dos materiais

O desenho técnico é o contrato entre o projetista do molde e quem maquina a peça. Nele constam a cota nominal (a dimensão de referência), a tolerância (quanto essa cota pode variar) e o acabamento superficial exigido, todos apoiados em normas: ISO 286 para tolerâncias dimensionais, ISO 1101 para tolerâncias geométricas, ISO 21920 para rugosidade.

Antes de arrancar a máquina, o critério de desempenho "organizar o posto de trabalho em função do cenário, das ferramentas e instrumentos a utilizar" exige três documentos de apoio:

Documento Contém
Ficha de fabrico sequência de operações, máquina a usar, tempos previstos
Ficha de ferramentas ferramentas de corte necessárias, parâmetros de corte previstos
Ficha de controlo cotas a verificar, instrumentos a usar, registo dos resultados

Ler estas três fichas antes de montar a primeira peça no torno ou na fresadora é o que separa um posto de trabalho organizado de um posto que descobre, a meio do lote, que a cota crítica nunca foi verificada.

A tecnologia dos materiais também condiciona o processo: um aço temperado exige velocidades de corte mais baixas e ferramentas mais resistentes do que um aço macio ou uma liga de alumínio, e os materiais mais duros aceleram o desgaste da aresta, o que agrava a deriva da cota ao longo do lote e obriga a intervalos de troca ou de afiação mais curtos. A escolha da qualidade de fabrico e do acabamento superficial tem sempre de ser compatível com o material e com o processo disponível.

Exemplo do sector: numa oficina de moldes, a coluna-guia é normalmente maquinada em aço-liga cementado e temperado (dureza elevada na superfície, núcleo mais dúctil), precisamente porque a superfície de guiamento sofre atrito constante ao longo de milhares de ciclos de abertura e fecho do molde. O casquilho, em bronze ou aço temperado, é escolhido para minimizar o coeficiente de atrito com a coluna.

2. Tolerâncias gerais (ISO 2768) e tolerâncias individuais (ISO 286)

Nem todas as cotas de um desenho levam uma tolerância escrita ao lado. Há duas normas complementares, com propósitos diferentes:

Regra prática de projeto: cotar individualmente (ISO 286) só o que é funcional; deixar o resto sob a classe geral (ISO 2768), indicada uma única vez no desenho (por exemplo, "ISO 2768-m"). Isto evita cotar uma a uma dezenas de cotas irrelevantes para a função da peça, sem deixar nenhuma sem controlo.

Excerto da tabela ISO 2768

Gama de cotas (mm) f (fina) m (média) c (grosseira) v (muito grosseira)
6 a 30 ±0,10 ±0,20 ±0,50 ±1,00
30 a 120 ±0,15 ±0,30 ±0,80 ±1,50

Um comprimento de 80 mm sem tolerância indicada, num desenho em classe m, tem afinal tolerância ±0,30 mm. Se o mesmo comprimento fosse funcional (por exemplo, o comprimento total da zona de guiamento da coluna), não ficaria à classe geral: seria cotado individualmente, com um valor pensado para a função, não genérico.

Dica prática: ao ler um desenho, a primeira pergunta é sempre "esta cota tem tolerância própria ou cai na classe geral do desenho?". Sem essa distinção, não se sabe realmente quanto uma peça pode variar.

3. Qualidades de fabrico e classes de tolerância na ISO 286

A ISO 286 organiza a tolerância de uma cota individual em dois eixos independentes:

Uma classe de tolerância junta as duas informações: H7 é um furo (H) em qualidade 7; g6 é um veio (g) em qualidade 6. A partir da cota nominal e da classe de tolerância calculam-se sempre a cota máxima e a cota mínima da peça.

Valores de IT por gama de dimensões (excerto usado nesta UC)

Gama (mm) IT6 IT7 IT8 IT9
>18 a 30 13 µm 21 µm 33 µm 52 µm
>30 a 50 16 µm 25 µm 39 µm 62 µm
>50 a 80 19 µm 30 µm 46 µm 74 µm

Exemplo resolvido: furo Ø40H8

  1. Identificar a gama: Ø40 está entre 30 e 50 mm → linha ">30 a 50".
  2. Ler IT8 nessa linha: 39 µm.
  3. Para um furo, o afastamento inferior é sempre EI = 0 (é a posição H). Logo ES = EI + IT = 0 + 0,039 = +0,039 mm.
  4. Cota máxima: Dmáx = 40 + 0,039 = 40,039 mm. Cota mínima: Dmín = 40 + 0 = 40,000 mm.

A qualidade pedida no desenho tem de ser atingível pelo processo escolhido:

Processo Qualidades típicas
Retificação IT5 a IT7
Torneamento/fresagem de acabamento IT7 a IT9
Torneamento/fresagem de desbaste IT10 a IT12
Furação corrente, laminagem, fundição IT12 a IT16

Pedir IT6 a uma operação de desbaste é pedir o impossível: ou se acrescenta uma operação de acabamento (retificação, mandrilagem fina), ou se renegoceia a tolerância com o projetista antes de maquinar.

4. Cotas máxima, mínima, média e acumulação de tolerâncias

Para qualquer cota toleranciada, quatro valores derivam sempre da cota nominal e da classe de tolerância:

Exemplo resolvido: furo Ø25H7

Gama >18 a 30, IT7 = 21 µm. Posição H: EI = 0 → ES = +0,021 mm.

Acumulação de tolerâncias numa cadeia de cotas

Quando uma peça é cotada por segmentos sucessivos ao longo do seu comprimento, a tolerância de cada segmento soma-se na cota total, chamada cota de fecho.

Exemplo resolvido: comprimento total da coluna-guia

A coluna-guia é cotada em três troços funcionais, cada um com a sua tolerância:

Usam-se aqui T1, T2 e T3 para as tolerâncias dos troços, e não IT1, IT2, IT3, para não confundir com os graus normalizados IT da ISO 286.

Comprimento total nominal: Lt = L1 + L2 + L3 = 45 + 20 + 15 = 80 mm.

Tolerância total (pior caso, todos os erros no mesmo sentido): T_t = T1 + T2 + T3 = 0,20 + 0,10 + 0,10 = 0,40 mm, ou seja ±0,20 mm.

Verificação pelos limites: Lt_máx = (45,10) + (20,05) + (15,05) = 80,20 mm; Lt_mín = (44,90) + (19,95) + (14,95) = 79,80 mm. Confirma-se: 80,20 − 79,80 = 0,40 mm.

No desenho, esta cota de fecho aparece entre parênteses e sem tolerância nenhuma inscrita, ou seja (80): os ±0,20 mm são o resultado calculado da cadeia, valor de verificação que vive na memória de cálculo e não se escreve junto da cota. Cotá-la de forma independente seria redundante e podia até contradizer as cotas de que depende.

Erro a evitar: nunca dar à cota de fecho uma tolerância própria, diferente da que resulta do cálculo. Cada medida da cadeia aparece uma só vez no desenho: se uma cota já está definida por L1, L2 e L3, a cota de fecho é só uma cota auxiliar de verificação, não mais um ponto de controlo independente.

5. Ajustamentos: sistema furo-base e tipos de ajustamento

Um ajustamento é a relação entre um furo e um veio da mesma dimensão nominal, destinados a montar um dentro do outro. A indústria usa quase sempre o sistema furo-base: o furo mantém sempre a posição H (EI = 0, tolerância só para cima da nominal), e é o veio que muda de posição de tolerância consoante o tipo de ajustamento pretendido.

A vantagem é económica: um alargador ou um mandril, ferramentas caras e específicas, produzem sempre o mesmo furo H; só a ferramenta de torneamento do veio, muito mais fácil de ajustar em cada passagem, é que varia consoante o ajustamento. Menos ferramentas dedicadas, menos custo de armazém.

Os três tipos de ajustamento

Tipo Condição Uso típico
Com folga Dmín(furo) ≥ dmáx(veio), sempre positivo peças que deslizam ou rodam entre si
Incerto pode dar folga ou aperto, depende dos valores reais localização com montagem/desmontagem fácil
Com aperto Dmáx(furo) ≤ dmín(veio), sempre negativo peças fixas sem parafuso nem chaveta

A folga (ou o aperto) de um ajustamento calcula-se sempre da mesma forma:

Se as duas derem positivas, é ajustamento com folga. Se as duas derem negativas, é ajustamento com aperto (valor absoluto = aperto). Se uma for positiva e a outra negativa, é incerto.

Fundamentais de posição usados nesta UC (gama >18 a 30 mm)

Posição (veio) Afastamento tabelado
g es = −7 µm
k (até IT7) ei = +2 µm
p ei = +22 µm

Exemplo resolvido: H7/g6, o ajustamento do conjunto de guiamento Ø25

Furo (casquilho) Ø25H7: já calculado no capítulo 4 → Dmáx = 25,021 mm, Dmín = 25,000 mm.

Veio (coluna-guia) Ø25g6: IT6 = 13 µm, es tabelado = −7 µm → ei = es − IT6 = −7 − 13 = −20 µm.

Cálculo da folga:

As duas folgas são positivas: ajustamento com folga. Mesmo no pior caso possível (furo no seu máximo e veio no seu mínimo, ou o inverso), a coluna-guia sempre desliza dentro do casquilho, entre 7 e 41 micrómetros de folga.

Exemplo resolvido: H7/p6, um ajustamento com aperto

Mesmo furo Ø25H7 (Dmáx = 25,021 mm, Dmín = 25,000 mm). Veio Ø25p6: IT6 = 13 µm, ei tabelado = +22 µm → es = ei + IT6 = 22 + 13 = +35 µm.

Cálculo:

As duas são negativas: ajustamento com aperto, entre 1 µm e 35 µm de aperto. Usa-se, por exemplo, para prensar um casquilho de bronze no seu alojamento no corpo do molde, sem necessidade de parafuso de fixação.

Exemplo resolvido: H7/k6, um ajustamento incerto

Furo Ø60H7 (gama >50 a 80, IT7 = 30 µm): Dmáx = 60,030 mm, Dmín = 60,000 mm.

Veio Ø60k6 (IT6 = 19 µm, ei tabelado = +2 µm): es = ei + IT6 = 2 + 19 = +21 µm → dmáx = 60,021 mm, dmín = 60,002 mm.

Uma folga positiva e outra negativa: ajustamento incerto. Consoante as peças reais produzidas, o conjunto pode sair com uma ligeira folga ou com um ligeiro aperto, sempre pequenos o suficiente para montar à mão sem forçar, mas sem folga percetível ao funcionar. Usa-se em localizações que precisam de precisão sem serem fixas de forma definitiva.

6. Toleranciamento geométrico segundo a ISO 1101

Uma cota Ø25 com tolerância dimensional controla o tamanho, mas não garante que o cilindro seja redondo, direito ou perpendicular a uma face de referência. É essa a função da ISO 1101: o toleranciamento geométrico (também chamado GD&T).

Regra prática usada nesta UC: a tolerância de forma deve ficar abaixo da tolerância dimensional (IT) da mesma cota, tipicamente entre 30% e 50% dela. Se a tolerância de forma for igual ou maior do que o IT, a forma sozinha pode consumir toda a tolerância de tamanho disponível, mesmo com a peça "dentro da cota".

A norma organiza as tolerâncias geométricas em quatro grupos:

Forma (sem referência/datum)

Símbolo (descrição) Nome Controla
linha reta Retitude desvio de uma linha em relação à reta ideal
paralelogramo Planeza desvio de uma superfície em relação ao plano ideal
círculo Circularidade desvio de uma secção transversal em relação ao círculo ideal
círculo com duas tangentes Cilindricidade circularidade + retitude combinadas ao longo de todo o eixo

Orientação (com referência)

Símbolo (descrição) Nome Controla
duas linhas paralelas Paralelismo desvio em relação a um plano/eixo de referência, mantendo-se equidistante
ângulo reto Perpendicularidade desvio a 90° em relação à referência
ângulo qualquer Inclinação desvio a um ângulo diferente de 90° em relação à referência

Posição (com referência)

Símbolo (descrição) Nome Controla
círculo com cruz Posição localização de um elemento em relação a referências
dois círculos concêntricos Concentricidade/coaxialidade coincidência de eixos ou de centros
três linhas paralelas Simetria centragem em relação a um plano de referência

Batimento (com referência)

Compara a variação de um elemento com a rotação em torno de um eixo de referência: batimento circular (numa única secção) e batimento total (em toda a superfície ao longo da rotação, mais exigente porque combina forma e posição numa só medição).

Erro a evitar: planeza e perfil de uma superfície não são a mesma coisa. A planeza é sempre uma tolerância de forma, sem referência, e aplica-se só a superfícies planas. O perfil de uma superfície é uma família à parte que pode controlar uma forma qualquer (não necessariamente plana) e pode ser usado como tolerância de forma (sem referência) ou de orientação/posição (com referência), consoante o desenho o defina. São símbolos, conceitos e usos diferentes: não se trocam.

Exemplo resolvido: cilindricidade da coluna-guia

A coluna-guia Ø25g6 tem IT6 = 0,013 mm. Aplica-se uma tolerância de cilindricidade de 0,005 mm ao longo de toda a zona de guiamento.

Verificação da regra prática: 0,005 / 0,013 ≈ 38% da tolerância dimensional, dentro do intervalo recomendado de 30% a 50%. Isto garante que, mesmo com o diâmetro dentro da cota em cada secção medida, a peça continua suficientemente cilíndrica (sem ovalização nem conicidade) para deslizar sem gripar em toda a sua extensão dentro do casquilho.

Exemplo resolvido: perpendicularidade e posição no casquilho

A face de encosto do flange do casquilho recebe perpendicularidade de 0,02 mm em relação ao eixo do furo (referência A): garante que o casquilho assenta esquadrejado no corpo do molde, sem inclinar a coluna-guia que nele desliza.

Os furos de fixação do flange recebem posição de 0,10 mm em relação às referências A (eixo) e B (face): garante que os parafusos de fixação entram sem forçar o alinhamento entre o casquilho e o corpo do molde.

7. Símbolos modificadores segundo as normas ISO e ASME

Os modificadores alteram o significado de uma tolerância geométrica consoante a dimensão real da peça produzida, e não apenas a sua posição ou forma nominal.

Conceito Símbolo ISO Sigla ASME Significado
Máximo de matéria MMC mais material na peça: furo no seu diâmetro mínimo, veio no seu diâmetro máximo
Mínimo de matéria LMC menos material: furo no diâmetro máximo, veio no diâmetro mínimo
Estado livre n/a peça medida sem estar fixa, aplicável a peças flexíveis

As duas normas (ISO e ASME) usam símbolos quase idênticos para os mesmos conceitos, mas divergem noutras convenções de cotagem e nas siglas usadas em texto (MMC/LMC no ASME); nunca se misturam as duas normas no mesmo desenho.

Com o modificador de máximo de matéria (Ⓜ), a tolerância de posição pode crescer à medida que a peça real se afasta do máximo de matéria: é a chamada tolerância adicional (bonus tolerance).

Exemplo resolvido: tolerância adicional por máximo de matéria

Um furo de fixação do flange do casquilho está especificado como Ø9 (+0,090/0), com posição ⊕0,10 Ⓜ em relação às referências A e B.

Ou seja, quanto mais o furo real se afasta do seu máximo de matéria (fica maior), mais folga de posição é permitida, porque sobra mais espaço para o parafuso de fixação passar mesmo com algum desalinhamento.

8. Estados de superfície e rugosidade segundo a ISO 21920

A ISO 21920 define os parâmetros e a forma de indicar rugosidade nos desenhos técnicos, tendo substituído as normas antigas ISO 4287 (parâmetros) e ISO 1302 (indicação em desenho).

O valor de Ra indica-se no desenho junto ao símbolo de estado de superfície, associado à(s) superfície(s) a que se aplica.

Rugosidade e função da superfície

Quanto mais apertada a tolerância dimensional de uma cota, mais fina tem de ser a rugosidade da sua superfície: regra prática, Ra ≤ IT / 10 aproximadamente. Caso contrário, as próprias irregularidades da superfície consomem parte da tolerância dimensional disponível.

Superfície do conjunto de guiamento Ra recomendado Processo típico
Furo H7 e veio g6 (guiamento, superfícies em deslizamento) 0,8 µm retificação ou torneamento de acabamento fino
Face de encosto do flange 1,6 µm torneamento/fresagem de acabamento
Corpo geral, superfícies não funcionais 3,2 µm torneamento/fresagem corrente
Furos de fixação (só passagem de parafuso) 6,3 µm furação corrente

Verificação da regra prática: para o furo Ø25H7 (IT7 = 21 µm), a regra dá 21 / 10 ≈ 2,1 µm. O Ra = 0,8 µm escolhido para a superfície de guiamento fica bem dentro do limite, com margem de segurança adequada a uma superfície de deslizamento contínuo.

9. Metrologia dimensional, instrumentos de medição e verificação

Regra geral de metrologia: a resolução do instrumento usado deve ser claramente inferior à tolerância que se quer controlar, idealmente próxima de 10% dela.

Instrumento Resolução típica Serve para
Paquímetro 0,02 a 0,05 mm cotas gerais, qualidades IT10 e mais largas
Micrómetro 0,01 a 0,001 mm ajustamentos, qualidades IT6 a IT9
Calibre passa-não-passa fixo, sem leitura de valor controlo rápido "está ou não está" em produção de série
Relógio comparador 0,01 ou 0,001 mm forma, alinhamento, batimento
Rugosímetro conforme o parâmetro (Ra, Rz) acabamento superficial

Um paquímetro, com resolução de 0,02 mm, não é adequado para controlar um furo H7 com tolerância de 0,021 mm: a incerteza do próprio instrumento seria quase do tamanho da tolerância a medir. É preciso um micrómetro, ou um calibre passa-não-passa fabricado especificamente para essa cota.

Incerteza de medição e calibração

Nenhuma medição é exata. Todo o resultado é acompanhado de uma incerteza de medição (U), que combina a resolução do instrumento, a temperatura, o desgaste do próprio instrumento e o operador. Um resultado exprime-se sempre como valor ± incerteza, nunca como um número absoluto.

Calibração é a comparação periódica do instrumento contra padrões rastreáveis (em Portugal, ligados ao IPQ, Instituto Português da Qualidade), da qual resulta um certificado com data e validade. Um instrumento sem calibração em dia não é fiável, mesmo que pareça a funcionar normalmente: a deriva de precisão é lenta e não se nota a olho.

Exemplo resolvido: o micrómetro é adequado?

Um micrómetro tem incerteza de calibração U = ±0,002 mm. Vai medir um veio com IT6 = 0,013 mm.

Razão U/IT = 0,002 / 0,013 ≈ 15%.

Está próximo do limite prático de 10%, mas ainda aceitável para trabalho de oficina. Para qualidades mais apertadas (IT5 ou inferiores), seria preciso um instrumento com menor incerteza, ou recorrer a um relógio comparador de alta resolução ou a metrologia de sala climatizada.

10. Preparação e operação de fresadoras e tornos convencionais

Fresadora ferramenteira ou universal

Etapas de preparação, por esta ordem:

  1. Verificar e limpar a mesa, o mandril e os acessórios de fixação.
  2. Montar e alinhar o sistema de fixação da peça (morsa, grampos).
  3. Montar a ferramenta de corte adequada ao material e à operação.
  4. Definir a origem peça (referenciamento) e os parâmetros de corte (velocidade de corte, avanço, profundidade de passe).
  5. Fazer um teste em vazio e uma primeira passagem de controlo antes do lote completo.

Modos de operação: fresagem concordante (a ferramenta corta a favor do sentido de avanço da peça) versus discordante (a ferramenta corta contra o avanço), com diferenças no acabamento obtido e na força de corte exercida.

Torno mecânico paralelo

Etapas equivalentes:

  1. Verificar e limpar o cabeçote, o carro e o sistema de fixação (placa de 3 ou 4 grampos, pinça, entre-pontos).
  2. Montar a peça e verificar a concentricidade.
  3. Montar a ferramenta de torneamento à altura exata do eixo da máquina.
  4. Definir os parâmetros de corte para o material a maquinar.
  5. Executar um passe de desbaste, medir, e só depois o passe de acabamento à cota final.

O torneamento exterior é a operação natural para produzir o veio Ø25g6 da coluna-guia. É a operação de acabamento final (não o desbaste) que determina se a qualidade IT6 pedida é atingível: deve deixar-se sempre uma margem de material (tipicamente 0,2 a 0,5 mm no raio) para essa última passagem.

Dica prática: nunca tentar atingir a cota final numa única passagem de desbaste. O desbaste liberta material rapidamente mas com qualidade larga (IT10-IT12); é a passagem de acabamento, mais lenta e com parâmetros de corte diferentes, que atinge a qualidade fina exigida pelo ajustamento.

Nas operações de acabamento surgem também elementos que não devem ser confundidos: um chanfro é um corte angular numa aresta, indicado por uma nota como "C1" (1 mm a 45°), obtido por uma passagem simples de ferramenta; um escareado é um furo cónico, obtido com uma broca escareadora, destinado a alojar a cabeça cónica de um parafuso escareado, indicado no desenho com o seu próprio símbolo de escareado, diâmetro e ângulo. São operações e indicações diferentes, ainda que ambas envolvam uma superfície angular.

11. Fatores que afetam a tolerância na maquinação

Vários fatores, durante a própria maquinação, afastam a peça real da cota programada:

Calcular e verificar os parâmetros de corte

Antes de rever um parâmetro de corte, é preciso saber calculá-lo. No torno, a velocidade de corte (Vc), em m/min, não se lê diretamente no mostrador: converte-se em rotação (n, em rot/min) através de

n = 1000 · Vc / (π · D)

onde D é o diâmetro da peça, em mm, na secção que está a ser maquinada.

O avanço por rotação (f), em mm/rot, é o deslocamento axial da ferramenta a cada volta da peça, e a profundidade de passe (ap), em mm no raio, é a espessura de material retirada em cada passagem. Os três parâmetros afetam a peça de forma diferente: um avanço por rotação maior deixa uma rugosidade mais grosseira (o Ra sobe); a profundidade de passe não altera diretamente a rugosidade, mas um passe grande aumenta a força de corte e a vibração, o que degrada o acabamento de forma indireta. É por isto que o passe de acabamento usa sempre avanços pequenos e a margem reduzida já referida no capítulo 10 (0,2 a 0,5 mm no raio), enquanto o desbaste aceita avanços e profundidades maiores para remover material depressa, sacrificando o acabamento.

Valores indicativos de Vc e de avanço

Material Operação Vc (m/min) f (mm/rot)
Aço-liga (cementado/temperado) Desbaste 80 a 120 0,20 a 0,35
Aço-liga (cementado/temperado) Acabamento 120 a 160 0,05 a 0,15
Alumínio Desbaste 200 a 300 0,20 a 0,35
Alumínio Acabamento 300 a 400 0,05 a 0,10

Valores indicativos: o catálogo do fabricante da ferramenta manda sempre. Servem para uma primeira escolha; o valor real de cada operação depende da ferramenta, do revestimento e da refrigeração usados.

Exemplo resolvido: rotação para o passe de acabamento do Ø25 da coluna-guia

A coluna-guia é maquinada em aço-liga cementado e temperado (capítulo 1). Para o passe de acabamento do veio Ø25g6, escolhe-se, dentro do intervalo indicativo de acabamento em aço-liga, Vc = 140 m/min e f = 0,10 mm/rot, com a profundidade de passe de 0,2 a 0,5 mm no raio já referida no capítulo 10.

n = 1000 × 140 / (π × 25) = 140 000 / 78,54 ≈ 1783 rot/min

É este o valor a programar no torno para a passagem que atinge a cota final e a qualidade IT6 do ajustamento H7/g6.

Corrigir os parâmetros de corte

Sintoma observado Parâmetro a rever Sentido da correção
Peça sistematicamente maior (torneamento exterior) avanço radial da ferramenta, desgaste da aresta avançar a ferramenta radialmente (metade do excesso diametral) e/ou afiar ou indexar a aresta
Má rugosidade velocidade de corte, avanço por rotação aumentar a velocidade de corte e/ou reduzir o avanço por rotação, dentro dos valores indicativos
Vibração ou marcas periódicas velocidade de corte, fixação, saliência da ferramenta reduzir a velocidade de corte, reforçar a fixação e reduzir a saliência da ferramenta
Deriva progressiva ao longo do lote intervalo de troca ou afiação da ferramenta encurtar o intervalo de troca ou afiação da ferramenta

No torneamento, a correção do diâmetro faz-se sempre sobre o raio, nunca diretamente sobre o valor do diâmetro: um excesso de 0,010 mm no diâmetro medido corrige-se com 0,005 mm de avanço radial extra da ferramenta, porque cada milímetro que a ferramenta avança no raio retira o dobro no diâmetro.

12. Ensaios de maquinação em peças copulativas e validação do processo

Antes de libertar um processo para produção em série, maquina-se um pequeno protótipo e avalia-se se as peças copulativas (peças destinadas a encaixar umas nas outras, como a coluna-guia e o casquilho) cumprem o previsto. É um ensaio real, com peças físicas medidas, não apenas um cálculo em papel.

Passos do ensaio de maquinação

  1. Maquinar um pequeno lote (por exemplo, 5 peças) segundo o programa e os parâmetros de corte definidos.
  2. Medir cada peça com o instrumento adequado à qualidade de fabrico pedida.
  3. Registar os valores numa folha de cálculo, comparando com as cotas máxima e mínima previstas.
  4. Montar o conjunto de peças copulativas e verificar se desliza (ou aperta) como previsto pelo cálculo do ajustamento.
  5. Analisar os resultados e propor correções e melhorias ao processo, se necessário, antes de validar.

Exemplo resolvido: analisar um lote de colunas-guia e corrigir

Coluna-guia Ø25g6 (dmáx = 24,993 mm, dmín = 24,980 mm). Cinco peças de um protótipo, medidas com micrómetro:

Peça Medida (mm) Dentro de tolerância?
1 24,985 sim
2 24,988 sim
3 24,991 sim, mas já próxima de dmáx
4 24,995 não, acima de dmáx (24,993)
5 24,997 não, acima de dmáx (24,993)

Os valores mostram uma tendência crescente clara: o diâmetro sobe peça a peça. É a assinatura típica do desgaste progressivo da aresta de corte no torneamento exterior, que recua e reduz a profundidade de corte real.

Correção: o excesso da peça 5 face à cota média (24,987 mm) é de 24,997 − 24,987 = 0,010 mm no diâmetro. Como a correção se faz no raio, avança-se a ferramenta radialmente cerca de 0,005 mm, e reafia-se ou indexa-se a aresta de corte antes de continuar o lote. Só depois desta correção, e com um novo grupo de peças medidas dentro de tolerância, se pode considerar o processo validado.

Analisar resultados e validar o processo

Validar um processo é confirmar, com dados reais e não apenas com o cálculo teórico do ajustamento, que ele produz peças dentro da especificação de forma consistente:

Só depois de validado o processo é que se propõem correções finais e se liberta a produção de pequenas séries. Um lote com diâmetros perfeitos mas cilindricidade fora de especificação, por exemplo, continua a não passar no ensaio de montagem, mesmo cumprindo a tolerância dimensional.

13. Segurança, ambiente e qualidade no posto de maquinação

O torno e a fresadora são máquinas de risco elevado: aparas projetadas, órgãos em rotação, líquidos de corte.

A responsabilidade, o rigor e o sentido crítico exigidos nesta UC aplicam-se tanto ao cálculo de uma tolerância como à forma como se descarta uma apara ou se regista o resultado de uma medição.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Uma peça maquinada cumpre a sua função quando três decisões, tomadas ainda no desenho, se confirmam depois na peça real: quanto pode variar o seu tamanho (ISO 2768 para o geral, ISO 286 para o funcional, com qualidade de fabrico e posição de tolerância), que forma exata tem de manter (ISO 1101, com a tolerância de forma sempre abaixo da dimensional) e que qualidade de superfície precisa (ISO 21920, Ra coerente com o IT). O par furo-veio de um ajustamento, no sistema furo-base, resulta num ajustamento com folga, incerto ou com aperto, calculável a partir das tabelas de IT e dos afastamentos fundamentais. Nenhuma destas decisões vale nada sem um ensaio de maquinação em protótipo: medir peças reais com o instrumento certo, detetar tendências (como o desgaste da ferramenta), corrigir os parâmetros de corte e só então validar o processo para produção em série, sempre com segurança, ambiente e qualidade como pano de fundo.

Exercícios resolvidos

1. Um furo tem cota nominal Ø60 e classe de tolerância H7. Calcula Dmáx, Dmín e o IT em micrómetros.

Resolução: Ø60 está na gama >50 a 80 mm, IT7 = 30 µm. Posição H → EI = 0, ES = +0,030 mm. Dmáx = 60,030 mm; Dmín = 60,000 mm; IT = 0,030 mm = 30 µm.

2. Um veio Ø40g6 vai montar num furo Ø40H7. Calcula a folga máxima e mínima e classifica o ajustamento.

Resolução: gama >30 a 50: IT7 = 25 µm, IT6 = 16 µm, es(g) tabelado = −9 µm. Furo: Dmáx = 40,025, Dmín = 40,000. Veio: es = −0,009, ei = es − IT6 = −0,009 − 0,016 = −0,025 → dmáx = 39,991, dmín = 39,975. Folga máxima = 40,025 − 39,975 = 0,050 mm; folga mínima = 40,000 − 39,991 = 0,009 mm. As duas são positivas: ajustamento com folga.

3. Uma cadeia de cotas tem os troços 30 ± 0,05 mm e 25 ± 0,05 mm, montados em série. Qual é a cota de fecho e a sua tolerância?

Resolução: nominal: 30 + 25 = 55 mm. Tolerância total: (2×0,05) + (2×0,05) = 0,20 mm, ou seja ±0,10 mm. Cota de fecho: no desenho escreve-se (55), entre parênteses e sem tolerância inscrita; os ±0,10 mm são o resultado da cadeia, valor de verificação que não acompanha a cota.

4. Porque é que a tolerância de cilindricidade de um veio deve ser inferior à sua tolerância dimensional (IT)?

Resolução: porque a tolerância de forma controla um aspeto diferente (a forma geométrica ao longo da peça) que se sobrepõe ao controlo dimensional. Se a tolerância de forma fosse igual ou maior que o IT, a peça podia estar sempre "dentro da cota" em cada secção medida e, ainda assim, não ser suficientemente cilíndrica para funcionar (por exemplo, ovalizada ou cónica), consumindo por si só toda a margem de tamanho disponível.

5. Um furo de fixação Ø9 (+0,090/0) tem posição ⊕0,08 Ⓜ. Se o furo real sair a Ø9,05, qual é a tolerância de posição efetiva?

Resolução: máximo de matéria do furo (MMC) = menor diâmetro = Ø9,000. Afastamento do furo real face ao MMC = 9,05 − 9,00 = 0,05 mm. Tolerância de posição efetiva = 0,08 + 0,05 = 0,13 mm.

6. Um lote de furos H7 está a ser controlado com um paquímetro de resolução 0,02 mm. É uma escolha adequada para uma tolerância de 0,021 mm? Justifica e propõe alternativa.

Resolução: não é adequada. A resolução do paquímetro (0,02 mm) é quase do mesmo tamanho que a própria tolerância a controlar (0,021 mm), o que não deixa margem para distinguir uma peça no limite de uma peça fora de tolerância. Deve usar-se um micrómetro (resolução 0,01 ou 0,001 mm) ou um calibre passa-não-passa fabricado especificamente para essa cota.

7. Num lote de 5 colunas-guia, as três primeiras medem 24,985, 24,988 e 24,991 mm (tolerância dmín 24,980 a dmáx 24,993) e a tendência é crescente. Que decisão tomar antes de maquinar as duas últimas peças?

Resolução: a tendência crescente é sinal de desgaste progressivo da ferramenta de torneamento exterior. Mesmo sem nenhuma peça ainda fora de tolerância, deve corrigir-se o processo antes de continuar: avançar ligeiramente a ferramenta no sentido radial e/ou reafiar ou indexar a aresta de corte, para travar a deriva antes que as próximas peças ultrapassem dmáx = 24,993 mm.