Sebenta · Aplicar as tolerâncias e acabamento superficial na maquinação (UC03946)
- Introdução
- 1. Desenho técnico, documentação de fabrico e tecnologia dos materiais
- 2. Tolerâncias gerais (ISO 2768) e tolerâncias individuais (ISO 286)
- 3. Qualidades de fabrico e classes de tolerância na ISO 286
- 4. Cotas máxima, mínima, média e acumulação de tolerâncias
- 5. Ajustamentos: sistema furo-base e tipos de ajustamento
- 6. Toleranciamento geométrico segundo a ISO 1101
- 7. Símbolos modificadores segundo as normas ISO e ASME
- 8. Estados de superfície e rugosidade segundo a ISO 21920
- 9. Metrologia dimensional, instrumentos de medição e verificação
- 10. Preparação e operação de fresadoras e tornos convencionais
- 11. Fatores que afetam a tolerância na maquinação
- 12. Ensaios de maquinação em peças copulativas e validação do processo
- 13. Segurança, ambiente e qualidade no posto de maquinação
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um molde só funciona se as suas peças encaixarem exatamente como foram pensadas: a coluna-guia tem de deslizar no casquilho sem folga percetível nem gripar, o macho tem de fechar sobre a cavidade sem rebarbar, o ejetor tem de correr livre no seu alojamento. Nada disto acontece por acaso. Acontece porque, antes de qualquer peça ser maquinada, alguém decidiu quanto pode variar cada cota e que qualidade de superfície cada uma precisa, e depois confirmou, com peças reais medidas, que a máquina e o processo cumprem essa decisão.
Esta sebenta ensina exatamente isso: a ler, calcular e verificar tolerâncias dimensionais segundo a norma ISO 286, a especificar tolerâncias geométricas segundo a ISO 1101, a indicar e justificar rugosidade segundo a ISO 21920, e a validar um processo de maquinação através de ensaios em protótipo, com os instrumentos de metrologia adequados.
O fio condutor é um exemplo real da indústria de moldes: o conjunto de guiamento de um molde de injeção, formado por uma coluna-guia (o veio) e um casquilho de guiamento (o furo em que a coluna desliza). É um par de peças copulativas simples de entender e ao mesmo tempo exigente o suficiente para ilustrar toda a matéria: tolerância dimensional apertada, forma geométrica controlada, acabamento superficial fino e um ensaio de maquinação real para validar o processo.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os requisitos dimensionais e de acabamento superficial de peças a maquinar; efetuar o controlo das tolerâncias em protótipo; efetuar ensaios de maquinação em protótipo de peças copulativas; e analisar resultados para validar o processo, sempre com organização do posto de trabalho, cumprimento das normas de segurança, ambiente e qualidade.
1. Desenho técnico, documentação de fabrico e tecnologia dos materiais
O desenho técnico é o contrato entre o projetista do molde e quem maquina a peça. Nele constam a cota nominal (a dimensão de referência), a tolerância (quanto essa cota pode variar) e o acabamento superficial exigido, todos apoiados em normas: ISO 286 para tolerâncias dimensionais, ISO 1101 para tolerâncias geométricas, ISO 21920 para rugosidade.
Antes de arrancar a máquina, o critério de desempenho "organizar o posto de trabalho em função do cenário, das ferramentas e instrumentos a utilizar" exige três documentos de apoio:
| Documento | Contém |
|---|---|
| Ficha de fabrico | sequência de operações, máquina a usar, tempos previstos |
| Ficha de ferramentas | ferramentas de corte necessárias, parâmetros de corte previstos |
| Ficha de controlo | cotas a verificar, instrumentos a usar, registo dos resultados |
Ler estas três fichas antes de montar a primeira peça no torno ou na fresadora é o que separa um posto de trabalho organizado de um posto que descobre, a meio do lote, que a cota crítica nunca foi verificada.
A tecnologia dos materiais também condiciona o processo: um aço temperado exige velocidades de corte mais baixas e ferramentas mais resistentes do que um aço macio ou uma liga de alumínio, e os materiais mais duros aceleram o desgaste da aresta, o que agrava a deriva da cota ao longo do lote e obriga a intervalos de troca ou de afiação mais curtos. A escolha da qualidade de fabrico e do acabamento superficial tem sempre de ser compatível com o material e com o processo disponível.
Exemplo do sector: numa oficina de moldes, a coluna-guia é normalmente maquinada em aço-liga cementado e temperado (dureza elevada na superfície, núcleo mais dúctil), precisamente porque a superfície de guiamento sofre atrito constante ao longo de milhares de ciclos de abertura e fecho do molde. O casquilho, em bronze ou aço temperado, é escolhido para minimizar o coeficiente de atrito com a coluna.
2. Tolerâncias gerais (ISO 2768) e tolerâncias individuais (ISO 286)
Nem todas as cotas de um desenho levam uma tolerância escrita ao lado. Há duas normas complementares, com propósitos diferentes:
- ISO 2768 (toleranciamento geral): aplica-se, por defeito, a todas as cotas sem tolerância explícita, segundo uma classe indicada uma única vez no desenho (fina f, média m, grosseira c, muito grosseira v).
- ISO 286 (toleranciamento individual): usa-se apenas nas cotas funcionais, aquelas de que depende diretamente o funcionamento da peça, como os diâmetros de um ajustamento.
Regra prática de projeto: cotar individualmente (ISO 286) só o que é funcional; deixar o resto sob a classe geral (ISO 2768), indicada uma única vez no desenho (por exemplo, "ISO 2768-m"). Isto evita cotar uma a uma dezenas de cotas irrelevantes para a função da peça, sem deixar nenhuma sem controlo.
Excerto da tabela ISO 2768
| Gama de cotas (mm) | f (fina) | m (média) | c (grosseira) | v (muito grosseira) |
|---|---|---|---|---|
| 6 a 30 | ±0,10 | ±0,20 | ±0,50 | ±1,00 |
| 30 a 120 | ±0,15 | ±0,30 | ±0,80 | ±1,50 |
Um comprimento de 80 mm sem tolerância indicada, num desenho em classe m, tem afinal tolerância ±0,30 mm. Se o mesmo comprimento fosse funcional (por exemplo, o comprimento total da zona de guiamento da coluna), não ficaria à classe geral: seria cotado individualmente, com um valor pensado para a função, não genérico.
Dica prática: ao ler um desenho, a primeira pergunta é sempre "esta cota tem tolerância própria ou cai na classe geral do desenho?". Sem essa distinção, não se sabe realmente quanto uma peça pode variar.
3. Qualidades de fabrico e classes de tolerância na ISO 286
A ISO 286 organiza a tolerância de uma cota individual em dois eixos independentes:
- Qualidade de fabrico, também chamada grau de tolerância ou IT (International Tolerance): quantifica quanto a cota pode variar. Vai de IT01 (extremamente apertada) a IT18 (muito larga).
- Posição de tolerância: uma letra que indica onde, em relação à cota nominal, se situa essa variação. Maiúscula (A a ZC) para furos, minúscula (a a zc) para veios.
Uma classe de tolerância junta as duas informações: H7 é um furo (H) em qualidade 7; g6 é um veio (g) em qualidade 6. A partir da cota nominal e da classe de tolerância calculam-se sempre a cota máxima e a cota mínima da peça.
Valores de IT por gama de dimensões (excerto usado nesta UC)
| Gama (mm) | IT6 | IT7 | IT8 | IT9 |
|---|---|---|---|---|
| >18 a 30 | 13 µm | 21 µm | 33 µm | 52 µm |
| >30 a 50 | 16 µm | 25 µm | 39 µm | 62 µm |
| >50 a 80 | 19 µm | 30 µm | 46 µm | 74 µm |
Exemplo resolvido: furo Ø40H8
- Identificar a gama: Ø40 está entre 30 e 50 mm → linha ">30 a 50".
- Ler IT8 nessa linha: 39 µm.
- Para um furo, o afastamento inferior é sempre EI = 0 (é a posição H). Logo ES = EI + IT = 0 + 0,039 = +0,039 mm.
- Cota máxima: Dmáx = 40 + 0,039 = 40,039 mm. Cota mínima: Dmín = 40 + 0 = 40,000 mm.
A qualidade pedida no desenho tem de ser atingível pelo processo escolhido:
| Processo | Qualidades típicas |
|---|---|
| Retificação | IT5 a IT7 |
| Torneamento/fresagem de acabamento | IT7 a IT9 |
| Torneamento/fresagem de desbaste | IT10 a IT12 |
| Furação corrente, laminagem, fundição | IT12 a IT16 |
Pedir IT6 a uma operação de desbaste é pedir o impossível: ou se acrescenta uma operação de acabamento (retificação, mandrilagem fina), ou se renegoceia a tolerância com o projetista antes de maquinar.
4. Cotas máxima, mínima, média e acumulação de tolerâncias
Para qualquer cota toleranciada, quatro valores derivam sempre da cota nominal e da classe de tolerância:
- Cota máxima = cota nominal + afastamento superior.
- Cota mínima = cota nominal + afastamento inferior.
- Tolerância (IT) = cota máxima − cota mínima = afastamento superior − afastamento inferior.
- Cota média = (cota máxima + cota mínima) / 2. É o valor a que o operador deve tender ao maquinar, não a cota nominal pura, porque distribui o risco de forma igual para os dois lados da tolerância.
Exemplo resolvido: furo Ø25H7
Gama >18 a 30, IT7 = 21 µm. Posição H: EI = 0 → ES = +0,021 mm.
- Dmáx = 25 + 0,021 = 25,021 mm
- Dmín = 25 + 0 = 25,000 mm
- IT = 25,021 − 25,000 = 0,021 mm (confere com a tabela)
- Dmédia = (25,021 + 25,000) / 2 = 25,0105 mm
Acumulação de tolerâncias numa cadeia de cotas
Quando uma peça é cotada por segmentos sucessivos ao longo do seu comprimento, a tolerância de cada segmento soma-se na cota total, chamada cota de fecho.
Exemplo resolvido: comprimento total da coluna-guia
A coluna-guia é cotada em três troços funcionais, cada um com a sua tolerância:
- L1 (zona de guiamento) = 45 ± 0,10 mm → T1 = 0,20 mm
- L2 (zona de encosto) = 20 ± 0,05 mm → T2 = 0,10 mm
- L3 (zona roscada) = 15 ± 0,05 mm → T3 = 0,10 mm
Usam-se aqui T1, T2 e T3 para as tolerâncias dos troços, e não IT1, IT2, IT3, para não confundir com os graus normalizados IT da ISO 286.
Comprimento total nominal: Lt = L1 + L2 + L3 = 45 + 20 + 15 = 80 mm.
Tolerância total (pior caso, todos os erros no mesmo sentido): T_t = T1 + T2 + T3 = 0,20 + 0,10 + 0,10 = 0,40 mm, ou seja ±0,20 mm.
Verificação pelos limites: Lt_máx = (45,10) + (20,05) + (15,05) = 80,20 mm; Lt_mín = (44,90) + (19,95) + (14,95) = 79,80 mm. Confirma-se: 80,20 − 79,80 = 0,40 mm.
No desenho, esta cota de fecho aparece entre parênteses e sem tolerância nenhuma inscrita, ou seja (80): os ±0,20 mm são o resultado calculado da cadeia, valor de verificação que vive na memória de cálculo e não se escreve junto da cota. Cotá-la de forma independente seria redundante e podia até contradizer as cotas de que depende.
Erro a evitar: nunca dar à cota de fecho uma tolerância própria, diferente da que resulta do cálculo. Cada medida da cadeia aparece uma só vez no desenho: se uma cota já está definida por L1, L2 e L3, a cota de fecho é só uma cota auxiliar de verificação, não mais um ponto de controlo independente.
5. Ajustamentos: sistema furo-base e tipos de ajustamento
Um ajustamento é a relação entre um furo e um veio da mesma dimensão nominal, destinados a montar um dentro do outro. A indústria usa quase sempre o sistema furo-base: o furo mantém sempre a posição H (EI = 0, tolerância só para cima da nominal), e é o veio que muda de posição de tolerância consoante o tipo de ajustamento pretendido.
A vantagem é económica: um alargador ou um mandril, ferramentas caras e específicas, produzem sempre o mesmo furo H; só a ferramenta de torneamento do veio, muito mais fácil de ajustar em cada passagem, é que varia consoante o ajustamento. Menos ferramentas dedicadas, menos custo de armazém.
Os três tipos de ajustamento
| Tipo | Condição | Uso típico |
|---|---|---|
| Com folga | Dmín(furo) ≥ dmáx(veio), sempre positivo | peças que deslizam ou rodam entre si |
| Incerto | pode dar folga ou aperto, depende dos valores reais | localização com montagem/desmontagem fácil |
| Com aperto | Dmáx(furo) ≤ dmín(veio), sempre negativo | peças fixas sem parafuso nem chaveta |
A folga (ou o aperto) de um ajustamento calcula-se sempre da mesma forma:
- Folga (ou aperto) máxima = Dmáx(furo) − dmín(veio)
- Folga (ou aperto) mínima = Dmín(furo) − dmáx(veio)
Se as duas derem positivas, é ajustamento com folga. Se as duas derem negativas, é ajustamento com aperto (valor absoluto = aperto). Se uma for positiva e a outra negativa, é incerto.
Fundamentais de posição usados nesta UC (gama >18 a 30 mm)
| Posição (veio) | Afastamento tabelado |
|---|---|
| g | es = −7 µm |
| k (até IT7) | ei = +2 µm |
| p | ei = +22 µm |
Exemplo resolvido: H7/g6, o ajustamento do conjunto de guiamento Ø25
Furo (casquilho) Ø25H7: já calculado no capítulo 4 → Dmáx = 25,021 mm, Dmín = 25,000 mm.
Veio (coluna-guia) Ø25g6: IT6 = 13 µm, es tabelado = −7 µm → ei = es − IT6 = −7 − 13 = −20 µm.
- dmáx = 25 − 0,007 = 24,993 mm
- dmín = 25 − 0,020 = 24,980 mm
Cálculo da folga:
- Folga máxima = Dmáx − dmín = 25,021 − 24,980 = 0,041 mm
- Folga mínima = Dmín − dmáx = 25,000 − 24,993 = 0,007 mm
As duas folgas são positivas: ajustamento com folga. Mesmo no pior caso possível (furo no seu máximo e veio no seu mínimo, ou o inverso), a coluna-guia sempre desliza dentro do casquilho, entre 7 e 41 micrómetros de folga.
Exemplo resolvido: H7/p6, um ajustamento com aperto
Mesmo furo Ø25H7 (Dmáx = 25,021 mm, Dmín = 25,000 mm). Veio Ø25p6: IT6 = 13 µm, ei tabelado = +22 µm → es = ei + IT6 = 22 + 13 = +35 µm.
- dmín = 25 + 0,022 = 25,022 mm
- dmáx = 25 + 0,035 = 25,035 mm
Cálculo:
- Folga máxima = Dmáx − dmín = 25,021 − 25,022 = −0,001 mm
- Folga mínima = Dmín − dmáx = 25,000 − 25,035 = −0,035 mm
As duas são negativas: ajustamento com aperto, entre 1 µm e 35 µm de aperto. Usa-se, por exemplo, para prensar um casquilho de bronze no seu alojamento no corpo do molde, sem necessidade de parafuso de fixação.
Exemplo resolvido: H7/k6, um ajustamento incerto
Furo Ø60H7 (gama >50 a 80, IT7 = 30 µm): Dmáx = 60,030 mm, Dmín = 60,000 mm.
Veio Ø60k6 (IT6 = 19 µm, ei tabelado = +2 µm): es = ei + IT6 = 2 + 19 = +21 µm → dmáx = 60,021 mm, dmín = 60,002 mm.
- Folga máxima = 60,030 − 60,002 = +0,028 mm (positiva)
- Folga mínima = 60,000 − 60,021 = −0,021 mm (negativa)
Uma folga positiva e outra negativa: ajustamento incerto. Consoante as peças reais produzidas, o conjunto pode sair com uma ligeira folga ou com um ligeiro aperto, sempre pequenos o suficiente para montar à mão sem forçar, mas sem folga percetível ao funcionar. Usa-se em localizações que precisam de precisão sem serem fixas de forma definitiva.
6. Toleranciamento geométrico segundo a ISO 1101
Uma cota Ø25 com tolerância dimensional controla o tamanho, mas não garante que o cilindro seja redondo, direito ou perpendicular a uma face de referência. É essa a função da ISO 1101: o toleranciamento geométrico (também chamado GD&T).
Regra prática usada nesta UC: a tolerância de forma deve ficar abaixo da tolerância dimensional (IT) da mesma cota, tipicamente entre 30% e 50% dela. Se a tolerância de forma for igual ou maior do que o IT, a forma sozinha pode consumir toda a tolerância de tamanho disponível, mesmo com a peça "dentro da cota".
A norma organiza as tolerâncias geométricas em quatro grupos:
Forma (sem referência/datum)
| Símbolo (descrição) | Nome | Controla |
|---|---|---|
| linha reta | Retitude | desvio de uma linha em relação à reta ideal |
| paralelogramo | Planeza | desvio de uma superfície em relação ao plano ideal |
| círculo | Circularidade | desvio de uma secção transversal em relação ao círculo ideal |
| círculo com duas tangentes | Cilindricidade | circularidade + retitude combinadas ao longo de todo o eixo |
Orientação (com referência)
| Símbolo (descrição) | Nome | Controla |
|---|---|---|
| duas linhas paralelas | Paralelismo | desvio em relação a um plano/eixo de referência, mantendo-se equidistante |
| ângulo reto | Perpendicularidade | desvio a 90° em relação à referência |
| ângulo qualquer | Inclinação | desvio a um ângulo diferente de 90° em relação à referência |
Posição (com referência)
| Símbolo (descrição) | Nome | Controla |
|---|---|---|
| círculo com cruz | Posição | localização de um elemento em relação a referências |
| dois círculos concêntricos | Concentricidade/coaxialidade | coincidência de eixos ou de centros |
| três linhas paralelas | Simetria | centragem em relação a um plano de referência |
Batimento (com referência)
Compara a variação de um elemento com a rotação em torno de um eixo de referência: batimento circular (numa única secção) e batimento total (em toda a superfície ao longo da rotação, mais exigente porque combina forma e posição numa só medição).
Erro a evitar: planeza e perfil de uma superfície não são a mesma coisa. A planeza é sempre uma tolerância de forma, sem referência, e aplica-se só a superfícies planas. O perfil de uma superfície é uma família à parte que pode controlar uma forma qualquer (não necessariamente plana) e pode ser usado como tolerância de forma (sem referência) ou de orientação/posição (com referência), consoante o desenho o defina. São símbolos, conceitos e usos diferentes: não se trocam.
Exemplo resolvido: cilindricidade da coluna-guia
A coluna-guia Ø25g6 tem IT6 = 0,013 mm. Aplica-se uma tolerância de cilindricidade de 0,005 mm ao longo de toda a zona de guiamento.
Verificação da regra prática: 0,005 / 0,013 ≈ 38% da tolerância dimensional, dentro do intervalo recomendado de 30% a 50%. Isto garante que, mesmo com o diâmetro dentro da cota em cada secção medida, a peça continua suficientemente cilíndrica (sem ovalização nem conicidade) para deslizar sem gripar em toda a sua extensão dentro do casquilho.
Exemplo resolvido: perpendicularidade e posição no casquilho
A face de encosto do flange do casquilho recebe perpendicularidade de 0,02 mm em relação ao eixo do furo (referência A): garante que o casquilho assenta esquadrejado no corpo do molde, sem inclinar a coluna-guia que nele desliza.
Os furos de fixação do flange recebem posição de 0,10 mm em relação às referências A (eixo) e B (face): garante que os parafusos de fixação entram sem forçar o alinhamento entre o casquilho e o corpo do molde.
7. Símbolos modificadores segundo as normas ISO e ASME
Os modificadores alteram o significado de uma tolerância geométrica consoante a dimensão real da peça produzida, e não apenas a sua posição ou forma nominal.
| Conceito | Símbolo ISO | Sigla ASME | Significado |
|---|---|---|---|
| Máximo de matéria | Ⓜ | MMC | mais material na peça: furo no seu diâmetro mínimo, veio no seu diâmetro máximo |
| Mínimo de matéria | Ⓛ | LMC | menos material: furo no diâmetro máximo, veio no diâmetro mínimo |
| Estado livre | Ⓕ | n/a | peça medida sem estar fixa, aplicável a peças flexíveis |
As duas normas (ISO e ASME) usam símbolos quase idênticos para os mesmos conceitos, mas divergem noutras convenções de cotagem e nas siglas usadas em texto (MMC/LMC no ASME); nunca se misturam as duas normas no mesmo desenho.
Com o modificador de máximo de matéria (Ⓜ), a tolerância de posição pode crescer à medida que a peça real se afasta do máximo de matéria: é a chamada tolerância adicional (bonus tolerance).
Exemplo resolvido: tolerância adicional por máximo de matéria
Um furo de fixação do flange do casquilho está especificado como Ø9 (+0,090/0), com posição ⊕0,10 Ⓜ em relação às referências A e B.
- Máximo de matéria (MMC) para um furo é o menor diâmetro: Ø9,000 mm.
- Se o furo real sair produzido a Ø9,04 mm, afastou-se do máximo de matéria em 9,04 − 9,00 = 0,04 mm.
- Tolerância de posição efetiva = tolerância especificada + afastamento do MMC = 0,10 + 0,04 = 0,14 mm.
Ou seja, quanto mais o furo real se afasta do seu máximo de matéria (fica maior), mais folga de posição é permitida, porque sobra mais espaço para o parafuso de fixação passar mesmo com algum desalinhamento.
8. Estados de superfície e rugosidade segundo a ISO 21920
A ISO 21920 define os parâmetros e a forma de indicar rugosidade nos desenhos técnicos, tendo substituído as normas antigas ISO 4287 (parâmetros) e ISO 1302 (indicação em desenho).
- Ra (rugosidade média aritmética): a média dos desvios absolutos do perfil em relação à linha média. É o parâmetro mais usado na indústria, por ser estável e fácil de comparar.
- Rz (altura máxima do perfil): a média das maiores distâncias pico-vale, medidas em vários comprimentos de amostragem ao longo do perfil. É mais sensível a defeitos pontuais, como um risco isolado, que o Ra pode não revelar.
- Relação prática (não uma fórmula exata da norma): numa superfície maquinada normal, Rz ronda 4 a 6 vezes o valor de Ra.
O valor de Ra indica-se no desenho junto ao símbolo de estado de superfície, associado à(s) superfície(s) a que se aplica.
Rugosidade e função da superfície
Quanto mais apertada a tolerância dimensional de uma cota, mais fina tem de ser a rugosidade da sua superfície: regra prática, Ra ≤ IT / 10 aproximadamente. Caso contrário, as próprias irregularidades da superfície consomem parte da tolerância dimensional disponível.
| Superfície do conjunto de guiamento | Ra recomendado | Processo típico |
|---|---|---|
| Furo H7 e veio g6 (guiamento, superfícies em deslizamento) | 0,8 µm | retificação ou torneamento de acabamento fino |
| Face de encosto do flange | 1,6 µm | torneamento/fresagem de acabamento |
| Corpo geral, superfícies não funcionais | 3,2 µm | torneamento/fresagem corrente |
| Furos de fixação (só passagem de parafuso) | 6,3 µm | furação corrente |
Verificação da regra prática: para o furo Ø25H7 (IT7 = 21 µm), a regra dá 21 / 10 ≈ 2,1 µm. O Ra = 0,8 µm escolhido para a superfície de guiamento fica bem dentro do limite, com margem de segurança adequada a uma superfície de deslizamento contínuo.
9. Metrologia dimensional, instrumentos de medição e verificação
Regra geral de metrologia: a resolução do instrumento usado deve ser claramente inferior à tolerância que se quer controlar, idealmente próxima de 10% dela.
| Instrumento | Resolução típica | Serve para |
|---|---|---|
| Paquímetro | 0,02 a 0,05 mm | cotas gerais, qualidades IT10 e mais largas |
| Micrómetro | 0,01 a 0,001 mm | ajustamentos, qualidades IT6 a IT9 |
| Calibre passa-não-passa | fixo, sem leitura de valor | controlo rápido "está ou não está" em produção de série |
| Relógio comparador | 0,01 ou 0,001 mm | forma, alinhamento, batimento |
| Rugosímetro | conforme o parâmetro (Ra, Rz) | acabamento superficial |
Um paquímetro, com resolução de 0,02 mm, não é adequado para controlar um furo H7 com tolerância de 0,021 mm: a incerteza do próprio instrumento seria quase do tamanho da tolerância a medir. É preciso um micrómetro, ou um calibre passa-não-passa fabricado especificamente para essa cota.
Incerteza de medição e calibração
Nenhuma medição é exata. Todo o resultado é acompanhado de uma incerteza de medição (U), que combina a resolução do instrumento, a temperatura, o desgaste do próprio instrumento e o operador. Um resultado exprime-se sempre como valor ± incerteza, nunca como um número absoluto.
Calibração é a comparação periódica do instrumento contra padrões rastreáveis (em Portugal, ligados ao IPQ, Instituto Português da Qualidade), da qual resulta um certificado com data e validade. Um instrumento sem calibração em dia não é fiável, mesmo que pareça a funcionar normalmente: a deriva de precisão é lenta e não se nota a olho.
Exemplo resolvido: o micrómetro é adequado?
Um micrómetro tem incerteza de calibração U = ±0,002 mm. Vai medir um veio com IT6 = 0,013 mm.
Razão U/IT = 0,002 / 0,013 ≈ 15%.
Está próximo do limite prático de 10%, mas ainda aceitável para trabalho de oficina. Para qualidades mais apertadas (IT5 ou inferiores), seria preciso um instrumento com menor incerteza, ou recorrer a um relógio comparador de alta resolução ou a metrologia de sala climatizada.
10. Preparação e operação de fresadoras e tornos convencionais
Fresadora ferramenteira ou universal
Etapas de preparação, por esta ordem:
- Verificar e limpar a mesa, o mandril e os acessórios de fixação.
- Montar e alinhar o sistema de fixação da peça (morsa, grampos).
- Montar a ferramenta de corte adequada ao material e à operação.
- Definir a origem peça (referenciamento) e os parâmetros de corte (velocidade de corte, avanço, profundidade de passe).
- Fazer um teste em vazio e uma primeira passagem de controlo antes do lote completo.
Modos de operação: fresagem concordante (a ferramenta corta a favor do sentido de avanço da peça) versus discordante (a ferramenta corta contra o avanço), com diferenças no acabamento obtido e na força de corte exercida.
Torno mecânico paralelo
Etapas equivalentes:
- Verificar e limpar o cabeçote, o carro e o sistema de fixação (placa de 3 ou 4 grampos, pinça, entre-pontos).
- Montar a peça e verificar a concentricidade.
- Montar a ferramenta de torneamento à altura exata do eixo da máquina.
- Definir os parâmetros de corte para o material a maquinar.
- Executar um passe de desbaste, medir, e só depois o passe de acabamento à cota final.
O torneamento exterior é a operação natural para produzir o veio Ø25g6 da coluna-guia. É a operação de acabamento final (não o desbaste) que determina se a qualidade IT6 pedida é atingível: deve deixar-se sempre uma margem de material (tipicamente 0,2 a 0,5 mm no raio) para essa última passagem.
Dica prática: nunca tentar atingir a cota final numa única passagem de desbaste. O desbaste liberta material rapidamente mas com qualidade larga (IT10-IT12); é a passagem de acabamento, mais lenta e com parâmetros de corte diferentes, que atinge a qualidade fina exigida pelo ajustamento.
Nas operações de acabamento surgem também elementos que não devem ser confundidos: um chanfro é um corte angular numa aresta, indicado por uma nota como "C1" (1 mm a 45°), obtido por uma passagem simples de ferramenta; um escareado é um furo cónico, obtido com uma broca escareadora, destinado a alojar a cabeça cónica de um parafuso escareado, indicado no desenho com o seu próprio símbolo de escareado, diâmetro e ângulo. São operações e indicações diferentes, ainda que ambas envolvam uma superfície angular.
11. Fatores que afetam a tolerância na maquinação
Vários fatores, durante a própria maquinação, afastam a peça real da cota programada:
- Desgaste da ferramenta: no torneamento exterior, a aresta de corte recua progressivamente e a peça tende a sair, ao longo do lote, cada vez maior.
- Forças de corte e vibração: deformam ligeiramente a peça e a ferramenta durante o corte, mais notório em peças esbeltas como a coluna-guia.
- Temperatura: o aquecimento por atrito dilata a peça durante a maquinação; medida a quente, a cota parece maior do que fica depois de arrefecer à temperatura ambiente.
- Fixação: um aperto excessivo no torno ou na fresadora deforma a peça, que "volta" à forma original depois de solta, fora da tolerância prevista.
Calcular e verificar os parâmetros de corte
Antes de rever um parâmetro de corte, é preciso saber calculá-lo. No torno, a velocidade de corte (Vc), em m/min, não se lê diretamente no mostrador: converte-se em rotação (n, em rot/min) através de
n = 1000 · Vc / (π · D)
onde D é o diâmetro da peça, em mm, na secção que está a ser maquinada.
O avanço por rotação (f), em mm/rot, é o deslocamento axial da ferramenta a cada volta da peça, e a profundidade de passe (ap), em mm no raio, é a espessura de material retirada em cada passagem. Os três parâmetros afetam a peça de forma diferente: um avanço por rotação maior deixa uma rugosidade mais grosseira (o Ra sobe); a profundidade de passe não altera diretamente a rugosidade, mas um passe grande aumenta a força de corte e a vibração, o que degrada o acabamento de forma indireta. É por isto que o passe de acabamento usa sempre avanços pequenos e a margem reduzida já referida no capítulo 10 (0,2 a 0,5 mm no raio), enquanto o desbaste aceita avanços e profundidades maiores para remover material depressa, sacrificando o acabamento.
Valores indicativos de Vc e de avanço
| Material | Operação | Vc (m/min) | f (mm/rot) |
|---|---|---|---|
| Aço-liga (cementado/temperado) | Desbaste | 80 a 120 | 0,20 a 0,35 |
| Aço-liga (cementado/temperado) | Acabamento | 120 a 160 | 0,05 a 0,15 |
| Alumínio | Desbaste | 200 a 300 | 0,20 a 0,35 |
| Alumínio | Acabamento | 300 a 400 | 0,05 a 0,10 |
Valores indicativos: o catálogo do fabricante da ferramenta manda sempre. Servem para uma primeira escolha; o valor real de cada operação depende da ferramenta, do revestimento e da refrigeração usados.
Exemplo resolvido: rotação para o passe de acabamento do Ø25 da coluna-guia
A coluna-guia é maquinada em aço-liga cementado e temperado (capítulo 1). Para o passe de acabamento do veio Ø25g6, escolhe-se, dentro do intervalo indicativo de acabamento em aço-liga, Vc = 140 m/min e f = 0,10 mm/rot, com a profundidade de passe de 0,2 a 0,5 mm no raio já referida no capítulo 10.
n = 1000 × 140 / (π × 25) = 140 000 / 78,54 ≈ 1783 rot/min
É este o valor a programar no torno para a passagem que atinge a cota final e a qualidade IT6 do ajustamento H7/g6.
Corrigir os parâmetros de corte
| Sintoma observado | Parâmetro a rever | Sentido da correção |
|---|---|---|
| Peça sistematicamente maior (torneamento exterior) | avanço radial da ferramenta, desgaste da aresta | avançar a ferramenta radialmente (metade do excesso diametral) e/ou afiar ou indexar a aresta |
| Má rugosidade | velocidade de corte, avanço por rotação | aumentar a velocidade de corte e/ou reduzir o avanço por rotação, dentro dos valores indicativos |
| Vibração ou marcas periódicas | velocidade de corte, fixação, saliência da ferramenta | reduzir a velocidade de corte, reforçar a fixação e reduzir a saliência da ferramenta |
| Deriva progressiva ao longo do lote | intervalo de troca ou afiação da ferramenta | encurtar o intervalo de troca ou afiação da ferramenta |
No torneamento, a correção do diâmetro faz-se sempre sobre o raio, nunca diretamente sobre o valor do diâmetro: um excesso de 0,010 mm no diâmetro medido corrige-se com 0,005 mm de avanço radial extra da ferramenta, porque cada milímetro que a ferramenta avança no raio retira o dobro no diâmetro.
12. Ensaios de maquinação em peças copulativas e validação do processo
Antes de libertar um processo para produção em série, maquina-se um pequeno protótipo e avalia-se se as peças copulativas (peças destinadas a encaixar umas nas outras, como a coluna-guia e o casquilho) cumprem o previsto. É um ensaio real, com peças físicas medidas, não apenas um cálculo em papel.
Passos do ensaio de maquinação
- Maquinar um pequeno lote (por exemplo, 5 peças) segundo o programa e os parâmetros de corte definidos.
- Medir cada peça com o instrumento adequado à qualidade de fabrico pedida.
- Registar os valores numa folha de cálculo, comparando com as cotas máxima e mínima previstas.
- Montar o conjunto de peças copulativas e verificar se desliza (ou aperta) como previsto pelo cálculo do ajustamento.
- Analisar os resultados e propor correções e melhorias ao processo, se necessário, antes de validar.
Exemplo resolvido: analisar um lote de colunas-guia e corrigir
Coluna-guia Ø25g6 (dmáx = 24,993 mm, dmín = 24,980 mm). Cinco peças de um protótipo, medidas com micrómetro:
| Peça | Medida (mm) | Dentro de tolerância? |
|---|---|---|
| 1 | 24,985 | sim |
| 2 | 24,988 | sim |
| 3 | 24,991 | sim, mas já próxima de dmáx |
| 4 | 24,995 | não, acima de dmáx (24,993) |
| 5 | 24,997 | não, acima de dmáx (24,993) |
Os valores mostram uma tendência crescente clara: o diâmetro sobe peça a peça. É a assinatura típica do desgaste progressivo da aresta de corte no torneamento exterior, que recua e reduz a profundidade de corte real.
Correção: o excesso da peça 5 face à cota média (24,987 mm) é de 24,997 − 24,987 = 0,010 mm no diâmetro. Como a correção se faz no raio, avança-se a ferramenta radialmente cerca de 0,005 mm, e reafia-se ou indexa-se a aresta de corte antes de continuar o lote. Só depois desta correção, e com um novo grupo de peças medidas dentro de tolerância, se pode considerar o processo validado.
Analisar resultados e validar o processo
Validar um processo é confirmar, com dados reais e não apenas com o cálculo teórico do ajustamento, que ele produz peças dentro da especificação de forma consistente:
- Todas as cotas críticas dentro de Dmáx/Dmín (ou dmáx/dmín).
- Tolerâncias geométricas (forma, orientação, posição) cumpridas.
- Rugosidade dentro do Ra especificado.
- O conjunto de peças copulativas monta e funciona como previsto (folga ou aperto do tipo certo).
- Sem tendência de deriva não controlada ao longo do lote.
Só depois de validado o processo é que se propõem correções finais e se liberta a produção de pequenas séries. Um lote com diâmetros perfeitos mas cilindricidade fora de especificação, por exemplo, continua a não passar no ensaio de montagem, mesmo cumprindo a tolerância dimensional.
13. Segurança, ambiente e qualidade no posto de maquinação
O torno e a fresadora são máquinas de risco elevado: aparas projetadas, órgãos em rotação, líquidos de corte.
- Equipamentos de proteção individual (EPI): óculos de proteção, calçado de segurança, fato justo ao corpo, cabelo preso, sem anéis nem pulseiras.
- Normas de segurança e saúde no trabalho: paragem de emergência acessível, proteções da máquina sempre no lugar, nunca medir com a peça em rotação.
- Normas de proteção ambiental: recolha e destino correto de aparas, óleos de corte e fluidos de refrigeração, nunca despejados no esgoto comum.
- Normas da qualidade: registo rastreável de medições (a ficha de controlo preenchida é evidência de qualidade), calibração de instrumentos em dia, ações corretivas documentadas sempre que um lote falha.
A responsabilidade, o rigor e o sentido crítico exigidos nesta UC aplicam-se tanto ao cálculo de uma tolerância como à forma como se descarta uma apara ou se regista o resultado de uma medição.
Erros comuns
- Trocar a gama de tabela: usar a linha de IT errada porque a cota está na fronteira entre duas gamas.
- Esquecer que uma cota "sem tolerância" tem sempre a tolerância da classe geral do desenho (ISO 2768), nunca é uma cota livre.
- Dar à cota de fecho, numa cadeia de cotas, uma tolerância própria diferente da que resulta da soma das cotas de que depende.
- Confundir H maiúsculo (furo, EI = 0) com h minúsculo (veio, es = 0): têm papéis diferentes no ajustamento.
- Aplicar uma tolerância de forma igual ou maior do que a tolerância dimensional da mesma cota, deixando a forma "consumir" a tolerância de tamanho.
- Confundir planeza (forma, sem referência, só superfícies planas) com perfil de uma superfície (pode ter referência e controla uma forma qualquer).
- Confundir chanfro (corte angular numa aresta, nota "C" + valor) com escareado (furo cónico para cabeça de parafuso, símbolo próprio de escareado).
- Usar um instrumento com resolução demasiado larga para a tolerância a controlar, por exemplo um paquímetro num ajustamento H7.
- Validar um processo com base numa única peça medida, ignorando a tendência do lote inteiro.
- Corrigir o diâmetro de uma peça torneada como se fosse igual ao valor a compensar no raio, esquecendo o fator de dois.
Glossário
- Cota nominal: dimensão de referência da peça, antes de aplicar qualquer tolerância.
- Afastamento (ES/EI para furos, es/ei para veios): diferença entre a cota limite (máxima ou mínima) e a cota nominal.
- IT (qualidade de fabrico): valor numérico da tolerância dimensional, crescente de IT01 a IT18.
- Posição de tolerância: letra que indica onde, em relação à nominal, se situa a tolerância (maiúscula em furos, minúscula em veios).
- Sistema furo-base: convenção em que o furo mantém sempre a posição H e só o veio varia consoante o ajustamento.
- Ajustamento com folga, incerto, com aperto: os três resultados possíveis do encontro entre um furo e um veio.
- Cadeia de cotas: sequência de cotas em série cujas tolerâncias se somam na cota de fecho.
- Cota de fecho: cota auxiliar, entre parênteses, resultante da soma ou diferença de outras cotas da cadeia, sem tolerância própria.
- ISO 1101: norma de toleranciamento geométrico (forma, orientação, posição, batimento).
- Referência (datum): elemento identificado por uma letra, usado como base de comparação nas tolerâncias de orientação, posição e batimento.
- Máximo/mínimo de matéria (Ⓜ/Ⓛ, MMC/LMC): modificadores que ligam a tolerância geométrica ao tamanho real da peça produzida.
- Ra: rugosidade média aritmética, o parâmetro de rugosidade mais usado.
- Rz: altura máxima do perfil de rugosidade, mais sensível a defeitos pontuais que o Ra.
- Peças copulativas: peças destinadas a encaixar umas nas outras, como a coluna-guia e o casquilho de guiamento.
- Incerteza de medição: margem inevitável associada a qualquer resultado de medição.
- Calibração: comparação periódica de um instrumento contra padrões rastreáveis, com certificado.
Síntese
Uma peça maquinada cumpre a sua função quando três decisões, tomadas ainda no desenho, se confirmam depois na peça real: quanto pode variar o seu tamanho (ISO 2768 para o geral, ISO 286 para o funcional, com qualidade de fabrico e posição de tolerância), que forma exata tem de manter (ISO 1101, com a tolerância de forma sempre abaixo da dimensional) e que qualidade de superfície precisa (ISO 21920, Ra coerente com o IT). O par furo-veio de um ajustamento, no sistema furo-base, resulta num ajustamento com folga, incerto ou com aperto, calculável a partir das tabelas de IT e dos afastamentos fundamentais. Nenhuma destas decisões vale nada sem um ensaio de maquinação em protótipo: medir peças reais com o instrumento certo, detetar tendências (como o desgaste da ferramenta), corrigir os parâmetros de corte e só então validar o processo para produção em série, sempre com segurança, ambiente e qualidade como pano de fundo.
Exercícios resolvidos
1. Um furo tem cota nominal Ø60 e classe de tolerância H7. Calcula Dmáx, Dmín e o IT em micrómetros.
Resolução: Ø60 está na gama >50 a 80 mm, IT7 = 30 µm. Posição H → EI = 0, ES = +0,030 mm. Dmáx = 60,030 mm; Dmín = 60,000 mm; IT = 0,030 mm = 30 µm.
2. Um veio Ø40g6 vai montar num furo Ø40H7. Calcula a folga máxima e mínima e classifica o ajustamento.
Resolução: gama >30 a 50: IT7 = 25 µm, IT6 = 16 µm, es(g) tabelado = −9 µm. Furo: Dmáx = 40,025, Dmín = 40,000. Veio: es = −0,009, ei = es − IT6 = −0,009 − 0,016 = −0,025 → dmáx = 39,991, dmín = 39,975. Folga máxima = 40,025 − 39,975 = 0,050 mm; folga mínima = 40,000 − 39,991 = 0,009 mm. As duas são positivas: ajustamento com folga.
3. Uma cadeia de cotas tem os troços 30 ± 0,05 mm e 25 ± 0,05 mm, montados em série. Qual é a cota de fecho e a sua tolerância?
Resolução: nominal: 30 + 25 = 55 mm. Tolerância total: (2×0,05) + (2×0,05) = 0,20 mm, ou seja ±0,10 mm. Cota de fecho: no desenho escreve-se (55), entre parênteses e sem tolerância inscrita; os ±0,10 mm são o resultado da cadeia, valor de verificação que não acompanha a cota.
4. Porque é que a tolerância de cilindricidade de um veio deve ser inferior à sua tolerância dimensional (IT)?
Resolução: porque a tolerância de forma controla um aspeto diferente (a forma geométrica ao longo da peça) que se sobrepõe ao controlo dimensional. Se a tolerância de forma fosse igual ou maior que o IT, a peça podia estar sempre "dentro da cota" em cada secção medida e, ainda assim, não ser suficientemente cilíndrica para funcionar (por exemplo, ovalizada ou cónica), consumindo por si só toda a margem de tamanho disponível.
5. Um furo de fixação Ø9 (+0,090/0) tem posição ⊕0,08 Ⓜ. Se o furo real sair a Ø9,05, qual é a tolerância de posição efetiva?
Resolução: máximo de matéria do furo (MMC) = menor diâmetro = Ø9,000. Afastamento do furo real face ao MMC = 9,05 − 9,00 = 0,05 mm. Tolerância de posição efetiva = 0,08 + 0,05 = 0,13 mm.
6. Um lote de furos H7 está a ser controlado com um paquímetro de resolução 0,02 mm. É uma escolha adequada para uma tolerância de 0,021 mm? Justifica e propõe alternativa.
Resolução: não é adequada. A resolução do paquímetro (0,02 mm) é quase do mesmo tamanho que a própria tolerância a controlar (0,021 mm), o que não deixa margem para distinguir uma peça no limite de uma peça fora de tolerância. Deve usar-se um micrómetro (resolução 0,01 ou 0,001 mm) ou um calibre passa-não-passa fabricado especificamente para essa cota.
7. Num lote de 5 colunas-guia, as três primeiras medem 24,985, 24,988 e 24,991 mm (tolerância dmín 24,980 a dmáx 24,993) e a tendência é crescente. Que decisão tomar antes de maquinar as duas últimas peças?
Resolução: a tendência crescente é sinal de desgaste progressivo da ferramenta de torneamento exterior. Mesmo sem nenhuma peça ainda fora de tolerância, deve corrigir-se o processo antes de continuar: avançar ligeiramente a ferramenta no sentido radial e/ou reafiar ou indexar a aresta de corte, para travar a deriva antes que as próximas peças ultrapassem dmáx = 24,993 mm.