Sebenta · Aplicar as ferramentas de corte na maquinação (UC03942)
- Introdução
- 1. O posto de trabalho e as operações de maquinação
- 2. Materiais metálicos e não metálicos: classes e normas
- 3. Tratamentos térmicos dos aços e a escolha da ferramenta
- 4. Acabamento superficial e toleranciamento dimensional e geométrico
- 5. Fixação de peças e suportes de ferramentas
- 6. Ferramentas de corte: materiais e a norma ISO 513
- 7. Geometria da ferramenta e tecnologia do corte
- 8. Fórmulas fundamentais: velocidade de corte, rotação e avanço
- 9. Tempo de maquinação e preparação da máquina-ferramenta
- 10. Testes de maquinação e ajuste de parâmetros
- 11. Fluidos de corte, manutenção e vida da ferramenta
- 12. Segurança, EPI e proteção ambiental
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Maquinar é retirar material de uma peça em bruto até obter a forma, a dimensão e o acabamento pedidos no desenho. Nesta UC aprendes a preparar esse processo do princípio ao fim: estudar a peça e o material, escolher o suporte e a ferramenta de corte certos, calcular os parâmetros de maquinação (velocidade de corte, rotação, avanço) e, por fim, testar e ajustar tudo isso no torno e na fresadora.
É a competência central de quem produz moldes, cunhos, cortantes ou qualquer componente maquinado: um técnico que não sabe calcular a rotação certa para o material que tem à sua frente estraga peças, parte ferramentas e perde tempo de máquina, que é o recurso mais caro de uma oficina.
Objetivos de aprendizagem (referencial): efetuar o estudo da peça e das propriedades do material a maquinar; selecionar os suportes e as ferramentas de corte; determinar os parâmetros de maquinação e de corte; e realizar testes de maquinação, cumprindo sempre as normas de segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental.
1. O posto de trabalho e as operações de maquinação
Antes de qualquer cálculo, há um princípio que atravessa toda a UC: o posto de trabalho organiza-se em função das ferramentas e equipamentos a utilizar, um dos critérios de desempenho do referencial. Um posto desarrumado atrasa o trabalho e é a primeira causa de acidentes.
As duas operações de maquinação convencional
- Torneamento: a peça roda (movimento de corte) e a ferramenta, fixa e parada, avança de forma linear. Máquina: torno. Produz sobretudo peças de revolução (veios, casquilhos, buchas de molde).
- Fresagem: a ferramenta roda (movimento de corte) e a peça, fixa na mesa, avança de forma linear ou em trajetórias complexas. Máquina: fresadora. Produz faces planas, ranhuras, cavidades e perfis, como as cavidades de um molde.
A diferença fundamental está em quem roda: no torno é a peça, na fresadora é a ferramenta. Todas as fórmulas desta UC partem desta distinção.
Boas práticas de organização do posto
- Ferramentas e instrumentos de medição dispostos por ordem de uso, ao alcance da mão dominante.
- Peça em bruto, ficha de fabrico e desenho técnico visíveis e limpos de apara e de óleo.
- Caixote de aparas e recipiente de resíduos de fluido de corte separados e identificados.
- Zona de circulação livre, sem cabos, mangueiras ou ferramentas no chão.
2. Materiais metálicos e não metálicos: classes e normas
Antes de escolher uma ferramenta é preciso estudar o material da peça. É a primeira realização do referencial: sem saber o que se vai cortar, não há parâmetro que se calcule com segurança.
Classes de materiais
| Classe | Exemplos | Características gerais para a maquinação |
|---|---|---|
| Aços ao carbono e ligados | C45, 42CrMo4 | resistência média a alta, boa maquinabilidade sem tratamento |
| Aços inoxidáveis | X5CrNi18-10 (austenítico) | tenazes, empastam a ferramenta, geram apara longa e aderente |
| Ferros fundidos | ferro fundido cinzento (FoFo) | quebradiços, apara curta, o grafite lubrifica o corte |
| Ligas de alumínio | Al-Si (moldação) | macias, alta velocidade de corte possível, aderem à aresta a baixa velocidade |
| Superligas | ligas de níquel | muito resistentes ao calor, exigem velocidades de corte baixas |
| Não metálicos | polímeros técnicos (POM, PA), compósitos | maquinabilidade variável, cuidado com o calor de amolecimento |
Normas de designação
Os aços seguem a norma europeia EN 10027: a designação numérica (ex.: 1.0503 para o C45) ou simbólica (C45, indicando 0,45% de carbono médio). A ficha de fabrico da peça indica sempre a norma e a designação do material: é aí que começa o estudo.
3. Tratamentos térmicos dos aços e a escolha da ferramenta
Um mesmo aço pode comportar-se de forma muito diferente na maquinação consoante o tratamento térmico que já sofreu.
| Tratamento | O que faz | Efeito na maquinação |
|---|---|---|
| Recozimento | amolece e uniformiza a estrutura | maquinabilidade máxima |
| Normalização | uniformiza o grão após forjar/laminar | maquinabilidade boa, dureza moderada |
| Têmpera | aquece e arrefece bruscamente, endurece | dureza elevada (pode passar 50 HRC), exige ferramenta muito mais resistente |
| Revenido | aquece após têmpera para reduzir fragilidade | mantém dureza alta, ganha tenacidade |
| Cementação | endurece só a superfície de peças de baixo teor de carbono | superfície muito dura sobre núcleo dúctil |
Um aço em bruto de laminação ou recozido maquina-se com uma pastilha de metal duro normal. O mesmo aço temperado exige um grupo de ferramenta diferente (cerâmica ou CBN, ver Capítulo 6), velocidades de corte muito mais baixas e avanços reduzidos, porque a dureza elevada desgasta a aresta de corte muito mais depressa.
Nunca se seleciona a ferramenta só pelo nome do material. Um "aço C45" recozido e o mesmo aço temperado a 55 HRC pedem ferramentas de grupos diferentes.
4. Acabamento superficial e toleranciamento dimensional e geométrico
O desenho técnico e a ficha de fabrico não pedem só uma forma: pedem uma forma dentro de limites precisos.
Acabamento superficial
O acabamento mede-se sobretudo pela rugosidade Ra (desvio médio do perfil da superfície, em micrómetros, µm). Uma operação de desbaste deixa Ra elevado (6,3 a 12,5 µm); uma operação de acabamento visa valores baixos (0,8 a 3,2 µm). Consegue-se um Ra mais baixo com avanços menores, maior velocidade de corte e uma aresta de corte em bom estado.
Toleranciamento dimensional e geométrico
- Tolerância dimensional: intervalo admissível para uma medida (ex.: Ø40 h7 significa um diâmetro nominal de 40 mm com um campo de tolerância normalizado ISO h7, sempre abaixo do nominal).
- Tolerância geométrica: limita desvios de forma, orientação, posição ou batimento (ex.: circularidade, perpendicularidade), representada no desenho por símbolos normalizados dentro de um retângulo de controlo.
Quanto mais apertada a tolerância, menor o avanço e maior o cuidado na fixação da peça: são exigências que se refletem diretamente nos parâmetros de corte escolhidos no Capítulo 8.
5. Fixação de peças e suportes de ferramentas
Selecionar suportes e ferramentas de corte é a segunda realização do referencial, e começa por saber como se prende a peça e onde se monta a ferramenta.
Sistemas de fixação de peças
| Máquina | Sistema | Uso típico |
|---|---|---|
| Torno | Placa de 3 grampos (autocentrante) | peças cilíndricas, centragem automática |
| Torno | Placa de 4 grampos (independentes) | peças excêntricas ou irregulares |
| Torno | Pinça de aperto | peças de pequeno diâmetro, alta precisão |
| Torno | Contraponto e luneta | peças longas e esbeltas, evita flexão |
| Fresadora | Mordente / prensa de máquina | peças prismáticas simples |
| Fresadora | Grampos em T na mesa | peças de forma irregular ou grandes |
| Fresadora | Mesa magnética | peças planas em material ferromagnético |
Suportes de ferramentas
- Torno: torre porta-ferramentas (revólver ou de posição fixa) e suporte de pastilha, identificado por um código normalizado (ex.: PCLNR, indicando forma da pastilha, ângulo de posição e sentido de corte).
- Fresadora: cone porta-ferramentas normalizado (ISO 40, ISO 50, BT ou HSK, consoante a máquina), pinça de aperto ER para fresas de haste, e mandril para fresas com furo.
O suporte tem de ser rígido: uma fixação frouxa gera vibração, mau acabamento e desgaste acelerado da ferramenta.
6. Ferramentas de corte: materiais e a norma ISO 513
Materiais de corte
| Material da ferramenta | Dureza a quente | Uso típico |
|---|---|---|
| Aço rápido (HSS) | moderada | ferramentas de forma, brocas, baixa velocidade |
| Metal duro (WC-Co), com ou sem revestimento | alta | maioria das operações de torneamento e fresagem |
| Cerâmica | muito alta | acabamento a alta velocidade, materiais duros |
| CBN (nitreto de boro cúbico) | extrema | aços temperados, ferro fundido de alta dureza |
| PCD (diamante policristalino) | extrema (não ferrosos) | alumínio, compósitos, não usar em ferro nem aço |
A norma ISO 513: grupos de aplicação
A ISO 513 classifica as pastilhas de corte por grupo de material a maquinar, cada um com uma cor normalizada, usada em todos os catálogos de ferramentas:
| Grupo ISO 513 | Cor | Materiais |
|---|---|---|
| P | Azul | Aços (exceto inoxidáveis austeníticos) |
| M | Amarelo | Aços inoxidáveis e ligas resistentes à corrosão |
| K | Vermelho | Ferros fundidos |
| N | Verde | Metais não ferrosos (alumínio, cobre, latão) |
| S | Castanho | Superligas termorresistentes e titânio |
| H | Cinzento | Materiais endurecidos (aços temperados acima de 45 HRC) |
Esta tabela é a que consultamos sempre que escolhemos uma ferramenta e a que dá as velocidades de corte de referência usadas em toda a UC (Capítulo 8):
| Material | Grupo ISO 513 | Cor | Vc de referência (m/min) |
|---|---|---|---|
| Aço C45 (não temperado) | P | Azul | 200 |
| Aço temperado (acima de 45 HRC) | H | Cinzento | 80 |
| Aço inoxidável austenítico X5CrNi18-10 | M | Amarelo | 120 |
| Ferro fundido cinzento | K | Vermelho | 150 |
| Liga de alumínio Al-Si | N | Verde | 500 |
| Superliga de níquel | S | Castanho | 40 |
Esta tabela reaparece nos exemplos e exercícios de toda a UC. O mesmo material tem sempre a mesma velocidade de corte de referência: se um dia calculares valores diferentes para o mesmo material, há um erro algures.
7. Geometria da ferramenta e tecnologia do corte
Os ângulos da ferramenta de corte
A aresta de corte de uma ferramenta é definida por três ângulos, medidos num plano perpendicular à aresta, que somam sempre 90°:
- Ângulo de saída (γ): positivo, negativo ou nulo; afeta a facilidade com que a apara sai e o esforço de corte.
- Ângulo de folga / incidência (α): evita que a face de folga da ferramenta roce na peça já maquinada.
- Ângulo de cunha (β): o que sobra entre os dois anteriores; β = 90° − γ − α. É quem dá resistência mecânica à aresta.
Exemplo resolvido: uma pastilha tem ângulo de saída γ = 8° e ângulo de folga α = 6°. O ângulo de cunha é β = 90° − 8° − 6° = 76°. Quanto maior o ângulo de saída, mais "afiada" e frágil a aresta; quanto maior o ângulo de cunha, mais robusta e mais indicada para materiais duros ou desbaste pesado.
Outros dois parâmetros geométricos completam a ferramenta:
- Ângulo de posição (κr): o ângulo entre a aresta principal de corte e a direção de avanço; influencia a espessura da apara e o esforço radial.
- Raio de quina (rε): o arredondamento da ponta da ferramenta; um raio maior melhora o acabamento mas aumenta o esforço de corte.
Profundidade e largura de corte
- Profundidade de corte (ap): a espessura de material removida numa passada, medida perpendicularmente à superfície maquinada, em mm.
- Largura de corte (ae): em fresagem, a penetração lateral (radial) da fresa na peça, em mm.
Regra geral: no desbaste, usa-se ap (e ae) elevados e avanço elevado, para remover material depressa; no acabamento, ap e avanço baixos, para garantir dimensão e rugosidade.
| Operação | ap típico (torneamento) | Avanço f típico |
|---|---|---|
| Desbaste | 2 a 3 mm | 0,30 a 0,40 mm/rot |
| Acabamento | 0,3 a 0,5 mm | 0,10 a 0,25 mm/rot |
8. Fórmulas fundamentais: velocidade de corte, rotação e avanço
Esta é a terceira realização do referencial: determinar os parâmetros de maquinação e de corte. É também o núcleo de cálculo de toda a UC. Vamos fixar a regra de arredondamento antes de qualquer exemplo.
Regra de arredondamento usada em toda a UC: calcula-se sempre primeiro a rotação em bruto (não arredondada); depois escolhe-se, na gama de rotações disponível na máquina, a rotação imediatamente abaixo desse valor bruto (nunca acima, para não ultrapassar a velocidade de corte de referência da ferramenta e do material). Todos os cálculos seguintes (avanço de trabalho, tempo de maquinação) usam sempre essa rotação real, escolhida, e não o valor bruto.
Velocidade de corte (Vc)
A velocidade de corte é a velocidade linear do ponto da aresta de corte em contacto com a peça, em metros por minuto (m/min). Relaciona-se com o diâmetro D (mm) e a rotação n (rpm) por:
Vc = π · D · n / 1000
Rotação (n)
Isolando n na fórmula anterior:
n = (Vc · 1000) / (π · D)
Exemplo resolvido (torneamento): tornear um veio de aço C45 (não temperado) com D = 40 mm, em acabamento. Da tabela do Capítulo 6, Vc = 200 m/min para o grupo P.
- n em bruto = (200 × 1000) / (π × 40) = 200 000 / 125,66 ≈ 1 591,5 rpm.
- O torno disponível tem, na sua gama de rotações, o escalão de 1 550 rpm, imediatamente abaixo do valor bruto. Escolhe-se este.
- Velocidade de corte real com essa rotação: Vc real = π × 40 × 1 550 / 1 000 = 194,8 m/min (ligeiramente abaixo dos 200 m/min de referência, como é suposto pela regra de arredondamento).
Avanço (f) e avanço de trabalho (Vf)
Em torneamento, o avanço f (mm/rot) é o deslocamento da ferramenta por cada rotação da peça. O avanço de trabalho (velocidade de avanço), em mm/min, é:
Vf = f · n
Continuação do exemplo: com acabamento, f = 0,25 mm/rot. Vf = 0,25 × 1 550 = 387,5 mm/min.
Em fresagem, o avanço define-se por dente (fz, mm/dente), porque cada dente da fresa corta uma vez por rotação. O avanço por rotação é fn = fz · z (z = número de dentes/arestas), e o avanço de trabalho:
Vf = fz · z · n
Exemplo resolvido (fresagem): fresar de topo uma placa de liga de alumínio com uma fresa de D = 50 mm e z = 4 dentes. Da tabela, Vc = 500 m/min (grupo N).
- n em bruto = (500 × 1000) / (π × 50) = 500 000 / 157,08 ≈ 3 183,1 rpm.
- Rotação disponível na máquina, imediatamente abaixo: 3 000 rpm.
- Vc real = π × 50 × 3 000 / 1 000 = 471,2 m/min.
- Com fz = 0,15 mm/dente: avanço por rotação fn = 0,15 × 4 = 0,6 mm/rot.
- Avanço de trabalho: Vf = 0,15 × 4 × 3 000 = 1 800 mm/min.
9. Tempo de maquinação e preparação da máquina-ferramenta
Tempo de maquinação (tm)
Conhecido o avanço de trabalho Vf e o percurso L (comprimento a percorrer pela ferramenta, incluindo uma pequena entrada/saída de segurança), o tempo de uma passada é:
tm = L / Vf
Continuação do exemplo de torneamento: peça com 120 mm de comprimento útil, mais 3 mm de entrada de segurança: L = 123 mm.
tm (1 passada) = 123 / 387,5 = 0,317 min (≈ 19,0 s).
Se for preciso remover 3 mm de profundidade total em passadas de 1 mm cada (3 passadas):
tm total = 0,317 × 3 = 0,952 min (≈ 57,1 s).
Continuação do exemplo de fresagem: percurso da fresa de 300 mm mais 50 mm de entrada/saída (aproximadamente o raio da fresa em cada lado): L = 350 mm.
tm = 350 / 1 800 = 0,194 min (≈ 11,7 s).
Estes tempos são só de corte. O tempo total de uma operação numa oficina real inclui ainda a preparação (fixar a peça, montar a ferramenta, medir a origem) e as trocas de ferramenta, que em produção de moldes pesam tanto ou mais do que o tempo de corte propriamente dito.
Preparação e operação da máquina-ferramenta
Antes de correr o programa ou a passada manual:
- Montar e apertar a peça no sistema de fixação escolhido (Capítulo 5), verificando o batimento com um comparador quando a tolerância o exigir.
- Montar a ferramenta no suporte, com o balanço (saliência) mínimo indispensável, para reduzir a vibração.
- Definir a origem de peça (zero-peça) no torno ou fresadora, referenciando-a ao desenho.
- Introduzir os parâmetros calculados (n, f ou Vf, ap) no comando da máquina.
- Testar em vazio (sem contacto) o percurso programado, antes do primeiro corte real.
10. Testes de maquinação e ajuste de parâmetros
A quarta realização do referencial, realizar testes de maquinação, existe porque o cálculo teórico é sempre um ponto de partida, não a palavra final. O comportamento real da ferramenta corrige a teoria.
Sinais a observar num teste
| Sinal observado | Causa provável | Ajuste |
|---|---|---|
| Apara azulada, cheiro a queimado | Vc demasiado alta | reduzir Vc |
| Vibração e ruído (chatter) | fixação frouxa, ou f/ap excessivos, ou balanço da ferramenta grande | reduzir f ou ap; reforçar fixação |
| Superfície riscada ou rugosa | avanço elevado ou raio de quina desadequado | reduzir f; rever rε |
| Desgaste rápido da aresta | Vc alta para o material/ferramenta | reduzir Vc; confirmar o grupo ISO 513 |
| Apara em pó ou muito curta e abrasiva | normal em ferro fundido; anómalo noutros materiais | comparar com o esperado para o material |
Técnicas de teste específicas
- Torneamento: corre-se uma passada curta de teste, mede-se a peça e o acabamento, e ajusta-se f e Vc antes da passada de produção completa.
- Fresagem: testa-se primeiro com uma penetração ae reduzida, sobretudo em cavidades fechadas, porque o contacto da fresa é maior e o risco de vibração e de quebra da aresta é mais elevado.
O ajuste é sempre iterativo: medir, comparar com o previsto, corrigir um parâmetro de cada vez, para se perceber qual foi realmente a causa.
11. Fluidos de corte, manutenção e vida da ferramenta
Fluidos lubrificantes e refrigerantes
| Fluido | Função principal | Uso típico |
|---|---|---|
| Emulsão (óleo solúvel em água) | refrigeração e alguma lubrificação | aços, uso geral |
| Óleo de corte integral | lubrificação forte | operações severas, roscagem |
| MQL (mínima quantidade de lubrificante) | lubrificação com pouco fluido, pulverizado | alumínio, produção mais limpa |
| Corte a seco | nenhum fluido | ferro fundido (o grafite já lubrifica; o fluido cria pasta abrasiva) |
A escolha depende do material: em alumínio, o corte a seco ou com MQL evita a aderência da apara à aresta; em ferro fundido, evita-se o fluido líquido, porque mistura com o pó de grafite e forma uma pasta abrasiva que acelera o desgaste.
Manutenção de suportes e ferramentas
- Limpar suportes e pastilhas no fim de cada turno; verificar folgas nos porta-ferramentas.
- Substituir a pastilha ou afiar a ferramenta ao primeiro sinal de desgaste visível na aresta, não só quando a peça já sai fora de tolerância.
- Guardar as ferramentas identificadas, por grupo ISO 513, evitando misturas que levem a um erro de seleção.
Vida da ferramenta
A vida da ferramenta (T), o tempo de corte até à aresta deixar de cumprir o critério de desgaste aceite, relaciona-se com a velocidade de corte pela equação de Taylor:
Vc · T^n = C
em que n é um expoente característico do par ferramenta/material (valor de catálogo do fabricante da pastilha) e C uma constante do mesmo par.
Exemplo resolvido: uma pastilha de metal duro revestido, a cortar aço C45, tem uma vida de referência T1 = 20 min a Vc1 = 200 m/min, com um expoente de catálogo n = 0,25.
- Constante: C = Vc1 · T1^n = 200 × 20^0,25 = 200 × 2,1147 ≈ 422,9.
- Se aumentarmos a velocidade de corte 25%, para Vc2 = 250 m/min, a nova vida é: T2 = (C / Vc2)^(1/n) = (422,9 / 250)^4 ≈ 8,2 min.
- A vida caiu de 20 min para 8,2 min: uma queda de (20 − 8,2) / 20 × 100 ≈ 59%, para um aumento de apenas 25% na velocidade de corte.
Este exemplo mostra porque não se "ganha tempo" a aumentar a velocidade de corte sem critério: a vida da ferramenta cai muito mais depressa do que a velocidade sobe. O tempo poupado no corte perde-se, e mais, nas trocas de ferramenta.
12. Segurança, EPI e proteção ambiental
O último critério de desempenho do referencial resume tudo o que se segue: cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho e de proteção ambiental, em todas as fases anteriores.
Enquadramento legal
- Lei n.º 102/2009: regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho; obriga o empregador a avaliar riscos e o trabalhador a cumprir os procedimentos e a usar o EPI fornecido.
- Decreto-Lei n.º 50/2005: prescrições mínimas de segurança e de saúde na utilização de equipamentos de trabalho (transpõe a diretiva europeia sobre máquinas), aplicável diretamente a tornos e fresadoras.
EPI por exposição concreta
| Exposição na maquinação | EPI |
|---|---|
| Projeção de apara e partículas | óculos de proteção ou viseira |
| Ruído da máquina em funcionamento | protetores auriculares |
| Manuseamento de peças e ferramentas com arestas | luvas resistentes ao corte, retiradas antes de operar a máquina em rotação |
| Contacto com fluidos de corte | luvas impermeáveis específicas, ao manusear o fluido (não junto de partes em rotação) |
| Queda de peças ou ferramentas | calçado de proteção com biqueira |
| Cabelo, roupa larga, fato desapertado | cabelo preso/touca, fato justo sem mangas soltas nem fios pendentes |
Nunca se usam luvas junto de um veio ou mandril em rotação: o tecido pode ser agarrado pela peça e arrastar a mão. As luvas servem para manusear peças e ferramentas paradas, não para operar a máquina.
Remoção de apara e limpeza
A apara, sobretudo em torneamento, sai frequentemente quente e cortante. Nunca se remove com a mão: usa-se um gancho ou ancinho de apara, uma escova de cerdas rígidas, ou aspiração, sempre com a máquina parada e óculos de proteção postos (a apara pode saltar ao ser deslocada). A limpeza do posto de trabalho faz parte da própria operação, não é uma tarefa à parte.
Emergência
Todo o posto tem de ter um botão de paragem de emergência acessível e identificado. Em caso de acidente: parar a máquina de imediato, prestar os primeiros socorros possíveis, e contactar o 112. Reportar sempre o incidente, mesmo sem lesão aparente, para se corrigir a causa.
Proteção ambiental
- Fluidos de corte usados, óleos e aparas contaminadas são resíduos perigosos: recolhem-se em recipientes próprios e identificados, nunca no lixo comum nem no esgoto.
- Reduzir o consumo de fluido (MQL, corte a seco quando aplicável) diminui também o resíduo a tratar.
- Cumprir os procedimentos internos de separação e encaminhamento de resíduos para operadores licenciados.
Erros comuns
- Escolher a ferramenta só pelo nome do material, ignorando se está temperado ou não (Capítulo 3).
- Arredondar a rotação para cima, ultrapassando a velocidade de corte de referência e encurtando drasticamente a vida da ferramenta (Capítulos 8 e 11).
- Confundir avanço por dente (fz) com avanço por rotação (fn) em fresagem: fn = fz × z, não são o mesmo valor.
- Ignorar sinais de teste (apara azulada, vibração) e continuar com os mesmos parâmetros até partir a ferramenta ou estragar a peça.
- Usar fluido de corte líquido em ferro fundido, criando pasta abrasiva com o pó de grafite.
- Remover apara à mão ou operar o torno com luvas vestidas.
- Misturar ferramentas de grupos ISO 513 diferentes sem etiquetagem, provocando seleções erradas.
Glossário
- Vc: velocidade de corte, em metros por minuto (m/min).
- n: rotação do fuso, em rotações por minuto (rpm).
- f: avanço em torneamento, em mm por rotação da peça.
- fz: avanço por dente em fresagem, em mm por dente.
- fn: avanço por rotação em fresagem, fn = fz × z.
- Vf: avanço de trabalho (velocidade de avanço), em mm/min.
- ap: profundidade de corte, em mm.
- ae: largura de corte (penetração radial em fresagem), em mm.
- tm: tempo de maquinação de uma passada.
- T: vida da ferramenta, tempo de corte até ao critério de desgaste aceite.
- ISO 513: norma que agrupa as ferramentas de corte por material a maquinar (grupos P, M, K, N, S, H).
- Ra: rugosidade média, medida do acabamento superficial, em micrómetros (µm).
- HRC: dureza Rockwell C, usada para aços tratados termicamente.
- CBN: nitreto de boro cúbico, material de ferramenta para materiais muito duros.
- PCD: diamante policristalino, material de ferramenta para não ferrosos.
- MQL: mínima quantidade de lubrificante.
- Chatter: vibração de maquinação, visível e audível, que degrada o acabamento.
Síntese
Aplicar as ferramentas de corte na maquinação segue sempre a mesma sequência: estudar a peça e o material (classe, tratamento térmico, tolerâncias) → selecionar o suporte e a ferramenta (fixação, ISO 513, geometria) → calcular os parâmetros (Vc, n, f, Vf, tm, com a regra de arredondamento) → preparar a máquina → testar e ajustar com base no comportamento real da ferramenta → manter suportes e ferramentas e cumprir segurança e proteção ambiental em cada etapa. Este ciclo repete-se sempre que muda o material, a operação ou a ferramenta, e é a espinha dorsal de qualquer oficina de maquinação de moldes.
Exercícios resolvidos
1. Um veio em aço C45 recozido, D = 60 mm, vai ser torneado em desbaste. Da tabela do Capítulo 6, Vc = 200 m/min. Calcula a rotação a usar.
Resolução: n bruto = (200 × 1000) / (π × 60) = 200 000 / 188,50 ≈ 1 061,0 rpm. Escolhendo, na gama da máquina, a rotação imediatamente abaixo, por exemplo 1 000 rpm, a Vc real fica em π × 60 × 1 000 / 1 000 = 188,5 m/min, dentro da regra de nunca ultrapassar a referência.
2. Uma fresa de topo com D = 32 mm e z = 3 dentes maquina ferro fundido cinzento (Vc = 150 m/min, grupo K). Escolhida a rotação de 1 400 rpm (abaixo do valor bruto), com fz = 0,1 mm/dente, calcula fn e Vf.
Resolução: fn = fz × z = 0,1 × 3 = 0,3 mm/rot. Vf = fz × z × n = 0,1 × 3 × 1 400 = 420 mm/min.
3. Com os dados do exercício anterior, e um percurso de fresagem de 250 mm (já incluindo entrada e saída), calcula o tempo de maquinação.
Resolução: tm = L / Vf = 250 / 420 ≈ 0,595 min (≈ 35,7 s).
4. Numa passada de teste em aço inoxidável austenítico, a apara sai azulada e com cheiro a queimado. O que se conclui e o que se ajusta?
Resolução: conclui-se que a velocidade de corte está demasiado alta para o material e a ferramenta (a apara azulada indica excesso de calor de corte). Ajusta-se reduzindo Vc (e recalculando n) antes de repetir o teste.
5. Explica porque uma pastilha de metal duro revestido não deve ser usada, sem mais, num aço temperado a 55 HRC.
Resolução: o metal duro convencional foi pensado para materiais na gama de dureza do grupo P (aços não temperados). A 55 HRC, a dureza do próprio material aproxima-se da dureza da ferramenta, desgastando a aresta muito depressa. Para aços temperados usa-se o grupo H, tipicamente com cerâmica ou CBN, capazes de manter dureza a temperaturas de corte mais altas.