Sebenta · Instalar e reparar fontes de alimentação (UC03898)
- Introdução
- 1. A fonte de alimentação: do C.A. ao C.C.
- 2. Retificação
- 3. Filtragem e ripple
- 4. Tipos de filtro
- 5. Determinar o nível de filtragem
- 6. O regulador série e o díodo Zener
- 7. Estabilizadores com transístores
- 8. Estabilizadores com amplificadores operacionais
- 9. Circuitos integrados reguladores de tensão
- 10. Circuitos multiplicadores de tensão
- 11. Proteções contra sobrecargas e curto-circuitos
- 12. Osciloscópio e multímetro na fonte de alimentação
- 13. Software de simulação de circuitos eletrónicos
- 14. Instalação e deteção de anomalias
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a instalar e a reparar fontes de alimentação, o bloco que está por trás de qualquer equipamento eletrónico: converter a corrente alternada (C.A.) da rede numa tensão contínua (C.C.) estável, dentro dos limites que o circuito a jusante exige.
Percorremos o percurso completo do sinal, da entrada à saída: retificação (converter C.A. em C.C. pulsante), filtragem (reduzir a ondulação, o ripple), estabilização (manter a saída constante com o díodo Zener, transístores, amplificadores operacionais e circuitos integrados), multiplicação de tensão, proteções contra sobrecargas e curto-circuitos, e por fim os instrumentos e procedimentos para instalar e detetar anomalias: multímetro, osciloscópio e software de simulação.
Objetivos de aprendizagem (referencial): determinar o nível de filtragem de uma fonte; instalar fontes de alimentação estabilizadas e não estabilizadas; dimensionar e instalar proteções contra sobrecargas e curto-circuitos; identificar tipos de retificação; analisar os circuitos constituintes de uma fonte; calcular o nível de filtragem em função das correntes e do ripple; utilizar osciloscópio, multímetro e software de simulação; montar estabilizadores com transístores, com amplificadores operacionais e integrados; montar reguladores de tensão; detetar anomalias em fontes de alimentação e nas suas proteções.
1. A fonte de alimentação: do C.A. ao C.C.
Uma fonte de alimentação é o circuito que converte a energia disponível numa forma utilizável pelo resto do equipamento: normalmente, 230 V C.A. a 50 Hz da rede para uma tensão C.C. de valor menor e estável.
A cadeia de blocos da fonte linear
[Rede 230V AC] → [Transformador] → [Retificador] → [Filtro] → [Estabilizador] → [Saída C.C.]
| Bloco | Função |
|---|---|
| Transformador | adapta a tensão e isola galvanicamente a saída da rede |
| Retificador | converte C.A. em C.C. pulsante (com díodos) |
| Filtro | reduz a ondulação (ripple) da tensão retificada |
| Estabilizador/regulador | entrega uma tensão constante, independente da carga e da rede |
Uma fonte pode ficar-se pelo filtro (fonte não estabilizada, mais simples e barata, mas com saída variável) ou incluir o bloco estabilizador (fonte estabilizada, com saída praticamente constante). A UC ensina a instalar e a reparar ambas.
Fonte linear vs fonte comutada
A fonte linear, descrita acima, é simples e de baixo ruído, mas volumosa e pouco eficiente (dissipa o excedente em calor). A fonte comutada (switching) converte a energia por comutação a alta frequência, é muito mais eficiente e compacta, mas de desenho mais complexo. Esta UC foca-se sobretudo nos princípios da fonte linear, que são também a base dos blocos de regulação usados dentro de qualquer fonte comutada.
2. Retificação
Retificar é converter uma tensão alternada, que inverte o sentido periodicamente, numa tensão que só tem um sentido, usando díodos.
Tipos de retificação
| Tipo | Díodos | Semiciclos aproveitados | Frequência do ripple (a 50 Hz) |
|---|---|---|---|
| Meia onda | 1 | apenas um | 50 Hz |
| Onda completa, ponto médio | 2 | os dois, com transformador de derivação central | 100 Hz |
| Onda completa em ponte (Graetz) | 4 | os dois, sem derivação central | 100 Hz |
A ponte de Graetz é a solução mais comum em fontes profissionais: aproveita toda a onda de entrada e não exige um transformador especial com ponto médio. Vem frequentemente encapsulada num único componente de quatro pinos (por exemplo, referências KBU ou W005).
Exemplo resolvido: verificar uma ponte retificadora
Uma placa antiga tem uma ponte retificadora de quatro pinos sem marcação legível. Com o multímetro em modo díodo, cada um dos quatro braços internos deve conduzir (mostrar uma queda entre 0,4 V e 0,7 V) num sentido e bloquear (mostrar "OL" ou infinito) no sentido oposto. Se algum braço conduzir nos dois sentidos, está em curto-circuito; se não conduzir em nenhum, está aberto. Este teste, feito fora de circuito, é o primeiro passo antes de substituir a peça.
A tensão de saída de uma ponte é sempre inferior ao pico do secundário em cerca de 1,4 V (duas quedas de díodo de silício em série, porque a corrente atravessa sempre dois díodos por semiciclo).
3. Filtragem e ripple
À saída do retificador, a tensão é C.C. pulsante: nunca é negativa, mas varia entre um valor mínimo e o pico, com uma cadência regular. Essa variação residual chama-se ripple (ondulação).
- Amplitude do ripple: diferença entre o valor máximo e o mínimo da tensão, normalmente medida pico a pico.
- Frequência do ripple: o dobro da frequência da rede numa retificação de onda completa (100 Hz a partir de 50 Hz); igual à da rede numa retificação de meia onda.
- Para o mesmo filtro, quanto maior a corrente consumida pela carga, maior o ripple residual.
Filtrar não elimina o ripple, reduz a sua amplitude a um nível aceitável para o circuito seguinte, o critério de desempenho central desta UC.
Medir o ripple com o osciloscópio
- Ligar a sonda à saída C.C. com acoplamento AC, para eliminar o nível contínuo e ampliar só a componente variável.
- Ajustar a escala vertical (mV/div) até a ondulação preencher bem o ecrã.
- Ler a amplitude pico a pico diretamente sobre a grelha do ecrã.
- Confirmar a frequência (100 Hz numa fonte de onda completa a 50 Hz de rede).
4. Tipos de filtro
| Filtro | Composição | Vantagem | Melhor aplicação |
|---|---|---|---|
| Capacitivo | condensador em paralelo com a carga | simples, barato, eficaz | uso geral, correntes baixas a médias |
| Indutivo | bobina em série com a carga | opõe-se a variações bruscas de corrente | correntes elevadas |
| LC (choke input) | bobina em série + condensador em paralelo | ripple muito baixo, boa regulação | fontes de qualidade, correntes médias/altas |
| RC | resistência em série + condensador em paralelo | mais barato que o LC | correntes baixas, dissipa mais energia |
O filtro capacitivo carrega-se rapidamente ao pico da tensão retificada e descarrega lentamente sobre a carga entre picos, suavizando a ondulação; é de longe o mais usado em fontes de baixa potência. O filtro LC combina a bobina (que limita o pico de corrente na ponte retificadora) com o condensador (que achata a tensão), sendo a escolha para fontes de maior qualidade. O filtro RC troca a bobina por uma resistência, mais barato mas que desperdiça energia em calor, só sendo viável com correntes de carga pequenas.
5. Determinar o nível de filtragem
O procedimento para determinar o nível de filtragem segue sempre esta sequência, tal como definido no referencial da UC:
- Analisar as correntes não estabilizadas: levantar o perfil de corrente exigido pela carga.
- Determinar amplitude e frequência do ripple presentes à entrada do filtro.
- Especificar a tensão desejada e o ripple residual aceitável na saída.
- Escolher o tipo de filtro (capacitivo, indutivo, LC ou RC) de acordo com a corrente e o ripple alvo.
- Calcular a capacitância necessária e, se aplicável, a indutância.
Fórmula do filtro capacitivo
Para um filtro capacitivo com retificação de onda completa:
C = I / (f × Vripple)
onde I é a corrente da carga em ampere, f a frequência do ripple em hertz (100 Hz em onda completa a 50 Hz) e Vripple a ondulação pico a pico admitida, em volt.
Exemplo resolvido
Fonte de 12 V, corrente de carga I = 0,5 A, ripple máximo admitido 1 V pp, retificação de onda completa (f = 100 Hz):
C = I / (f × Vripple) = 0,5 / (100 × 1) = 0,005 F = 5000 µF
Como o valor calculado raramente coincide com um valor comercial, escolhe-se o valor imediatamente acima: por exemplo, 6800 µF. Nunca se escolhe um valor abaixo do calculado, porque isso deixaria o ripple residual acima do especificado.
Exemplo resolvido: filtro LC
Para a mesma corrente de 0,5 A, um técnico pretende reduzir ainda mais o ripple usando um filtro LC. Ao acrescentar uma bobina em série antes do condensador, a corrente na ponte retificadora deixa de ter picos tão elevados (a bobina opõe-se à variação brusca de corrente) e o condensador pode ser de valor mais baixo para o mesmo ripple final. Este é o principal ganho do filtro LC sobre o capacitivo puro: menos stress nos díodos e no transformador.
6. O regulador série e o díodo Zener
Um estabilizador de tensão mantém a saída praticamente constante, mesmo com variações da entrada ou da corrente da carga. A arquitetura mais comum é o regulador série: um elemento de controlo (normalmente um transístor) fica em série entre a entrada não regulada e a saída, dissipando o excedente de tensão em calor.
Três elementos compõem um regulador série completo:
- Elemento de referência: fixa uma tensão estável, tipicamente um díodo Zener.
- Elemento de controlo: em série com a carga, ajusta a queda de tensão para manter a saída constante.
- Malha de realimentação: compara a saída com a referência e corrige o elemento de controlo.
O díodo Zener
O díodo Zener, polarizado inversamente na zona de avalanche, mantém aos seus terminais uma tensão praticamente constante (Vz), mesmo com variações razoáveis da corrente que o atravessa. É o elemento de referência mais simples: uma resistência limitadora fixa a corrente no Zener, e a tensão aos terminais deste serve de referência estável.
Exemplo resolvido: resistência limitadora do Zener
Fonte não regulada de 15 V, Zener de Vz = 6,2 V, corrente de teste Iz = 20 mA:
R = (Vin − Vz) / Iz = (15 − 6,2) / 0,020 = 8,8 / 0,020 = 440 Ω
Escolhe-se o valor comercial imediatamente inferior, para garantir que Iz não fica abaixo do mínimo especificado mesmo com quedas de tensão na entrada: por exemplo, 390 Ω. Deve confirmar-se sempre a potência dissipada, P = Vz × Iz = 6,2 × 0,02 = 124 mW, e escolher um Zener com margem de potência.
Características de um regulador série
- Regulação de linha: manter a saída estável quando a entrada varia.
- Regulação de carga: manter a saída estável quando a corrente da carga varia.
- Tensão de dropout: a diferença mínima entre entrada e saída necessária para o regulador continuar a funcionar.
- Dissipação térmica, proporcional a (Ventrada − Vsaída) × Icarga, exigindo muitas vezes um dissipador.
7. Estabilizadores com transístores
Para correntes de carga superiores às que o Zener sozinho suporta, usa-se um transístor como elemento de controlo em série, comandado pela referência Zener.
Numa configuração simples, o transístor conduz a corrente da carga e a sua base é fixada pela tensão do Zener: Vout ≈ Vz − VBE, com a queda base-emissor a rondar 0,7 V. O Zener passa a controlar apenas a corrente de base do transístor, muito menor do que a corrente da carga, o que aumenta bastante a capacidade de corrente do estabilizador face ao Zener isolado.
Exemplo resolvido
Um estabilizador usa um Zener de 5,6 V para alimentar a base de um transístor NPN de potência. Qual a tensão de saída aproximada?
Vout ≈ Vz − VBE = 5,6 − 0,7 = 4,9 V
Um regulador série mais evoluído acrescenta um transístor de erro, que compara a saída com a referência através de um divisor resistivo e ajusta a base do transístor de potência, formando uma malha de realimentação negativa. Isto melhora significativamente a regulação de carga, sendo o princípio interno de muitos circuitos integrados reguladores.
8. Estabilizadores com amplificadores operacionais
Um amplificador operacional (AmpOp) pode substituir o transístor de erro discreto, comparando a referência com uma amostra da saída, com muito maior precisão.
- A entrada não inversora (+) recebe a tensão de referência (Zener ou referência de precisão).
- A entrada inversora (−) recebe uma amostra da saída, obtida por um divisor resistivo.
- O AmpOp amplifica a diferença entre as duas entradas (o erro) e comanda o transístor de potência até essa diferença ser praticamente nula.
O divisor resistivo na entrada inversora permite ajustar a tensão de saída apenas mudando o valor de duas resistências, o que torna este princípio muito mais flexível do que a configuração fixa com Zener e um único transístor. Este é também o princípio de funcionamento interno dos reguladores integrados ajustáveis, como o LM317.
Comparação
| Critério | Só transístor | Com AmpOp |
|---|---|---|
| Precisão da regulação | moderada | alta |
| Velocidade de resposta a variações | mais lenta | mais rápida |
| Ajuste da tensão de saída | mais limitado | fácil, via divisor resistivo |
9. Circuitos integrados reguladores de tensão
Os circuitos integrados reguladores concentram numa única pastilha o Zener de referência, o amplificador de erro e o transístor de potência, com apenas três terminais.
Reguladores fixos: a família 78xx / 79xx
| Referência | Saída | Polaridade |
|---|---|---|
| 7805 | +5 V | positiva |
| 7812 | +12 V | positiva |
| 7905 | −5 V | negativa |
| 7912 | −12 V | negativa |
Terminais: entrada, saída e massa (GND). Precisam de condensadores de desacoplamento (tipicamente 0,33 µF na entrada e 0,1 µF na saída) para estabilidade em alta frequência, e incluem proteção térmica e limitação de corrente internas.
Reguladores ajustáveis: o LM317
O LM317 é ajustável, com apenas três terminais (entrada, saída, ajuste). A tensão de saída obtém-se com duas resistências:
Vout = Vref × (1 + R2/R1), com Vref = 1,25 V (referência interna).
Exemplo resolvido
Pretende-se Vout = 9 V, escolhendo R1 = 240 Ω:
R2 = R1 × (Vout/Vref − 1) = 240 × (9/1,25 − 1) = 240 × 6,2 = 1488 Ω → usa-se o valor comercial 1,5 kΩ
A vantagem do LM317 sobre a família 78xx é que uma única referência cobre qualquer tensão de saída dentro da gama do componente, bastando ajustar R2.
10. Circuitos multiplicadores de tensão
Um circuito multiplicador de tensão usa díodos e condensadores para obter, a partir de uma entrada C.A., uma saída C.C. superior ao pico dessa entrada, sem recorrer a um transformador elevador.
- Duplicador de meia onda: dois díodos e dois condensadores; a saída aproxima-se de 2 × Vpico.
- Duplicador de onda completa: aproveita os dois semiciclos, com menos ripple do que o de meia onda.
- Multiplicador de Cockcroft-Walton: cascata de células de duplicação, permitindo triplicar, quadruplicar ou mais a tensão de entrada.
Aplicações típicas: fontes de alta tensão e baixa corrente, como as usadas em alguns geradores de iões ou tubos de imagem antigos. Pela conservação de energia, a corrente disponível na saída diminui proporcionalmente ao ganho de tensão.
Segurança: os condensadores destes circuitos permanecem carregados mesmo depois de a alimentação ser desligada. Devem ser sempre descarregados com uma resistência de sangria antes de qualquer manuseamento, e todos os componentes devem ter tensão nominal com margem folgada acima da tensão de trabalho de cada andar.
11. Proteções contra sobrecargas e curto-circuitos
Dimensionar e instalar proteções é uma das realizações centrais desta UC.
- Fusível: elemento sacrificial que se funde acima de uma corrente definida; escolhido pela corrente nominal do circuito com margem de segurança, nunca pelo valor "disponível na gaveta".
- Limitação de corrente eletrónica: um transístor (ou circuito dedicado) reduz a corrente de saída ao ultrapassar um limiar, protegendo o circuito sem se destruir.
- Limitação foldback: além de limitar a corrente, reduz também a tensão de saída em sobrecarga, diminuindo a potência dissipada no elemento de controlo. Usada em fontes de bancada profissionais.
Os reguladores integrados (78xx, LM317) já incluem limitação de corrente e proteção térmica internas, mas isso não substitui um fusível de entrada bem dimensionado. Testar a proteção, curto-circuitando propositadamente a saída de uma fonte limitada e confirmando o comportamento esperado, faz parte do procedimento de instalação, não é um passo opcional.
12. Osciloscópio e multímetro na fonte de alimentação
Multímetro
- Tensão C.C. na saída, em vazio e em carga, para confirmar a regulação.
- Corrente, medida em série com a carga.
- Modo díodo, para testar pontes retificadoras e Zeners fora de circuito.
- Continuidade, para localizar curto-circuitos em pistas ou componentes.
Regra de segurança essencial: para medir corrente o multímetro entra em série; para medir tensão entra em paralelo. Trocar os dois curto-circuita a fonte através do multímetro (ou funde o seu fusível interno).
Osciloscópio
- Confirma visualmente a forma pulsante da retificação, antes do filtro.
- Mede a amplitude e a frequência do ripple, depois do filtro.
- Deteta oscilações indesejadas num estabilizador mal compensado.
- Compara a saída em vazio e em carga no mesmo ecrã, para avaliar a regulação de carga.
Antes de qualquer medição, confirmar a ponta de prova (x1 ou x10), o acoplamento (AC ou DC) e a ligação da massa da sonda ao GND do circuito.
13. Software de simulação de circuitos eletrónicos
Antes de montar em bancada, simula-se o circuito da fonte para validar o dimensionamento sem gastar componentes reais.
- Ferramentas comuns: LTspice, Proteus, Multisim, Tinkercad Circuits.
- Fluxo típico: desenhar o esquema → introduzir os valores calculados (C do filtro, R do Zener, R1/R2 do LM317) → correr análise transitória → observar a forma de onda de saída e o ripple.
- Permite testar cenários de risco em segurança: curto-circuito na saída, sobretensão na entrada, variação brusca de carga.
Exemplo resolvido
Simulação de uma fonte 7805: transformador de 12 V eficazes, ponte retificadora, filtro de 2200 µF, regulador 7805. Colocam-se sondas de tensão antes e depois do regulador e corre-se uma análise transitória de cerca de 40 ms (vários ciclos de ripple a 100 Hz). Resultado esperado: ripple visível de alguns volts antes do 7805, e tensão praticamente constante de 5,0 V depois dele, desde que a entrada nunca desça abaixo do mínimo de dropout do componente.
14. Instalação e deteção de anomalias
Procedimentos de instalação
- Confirmar o esquema e a lista de materiais antes de soldar.
- Montar por blocos (transformador/retificador → filtro → estabilizador), testando cada bloco antes de avançar.
- Verificar polaridades (condensadores eletrolíticos, díodos, Zener) antes de ligar a alimentação.
- Ligar pela primeira vez com uma fonte de bancada limitada em corrente, nunca diretamente à rede sem proteção.
- Medir a saída em vazio e em carga, comparando com os valores calculados.
Procedimentos de deteção de anomalias
- Confirmar os sintomas: sem saída, saída errada, ripple excessivo, aquecimento anormal, fusível a fundir.
- Medir do fim para o início da cadeia de blocos: saída → estabilizador → filtro → retificador → transformador, até localizar o bloco onde o sinal deixa de fazer sentido.
- Isolar o bloco suspeito (desligar a carga, testar o bloco sozinho).
- Confirmar a hipótese com multímetro e osciloscópio antes de substituir qualquer componente.
- Testar de novo depois da reparação, incluindo as proteções contra sobrecarga e curto-circuito.
Exemplo resolvido
Uma fonte 7805 deixou de dar saída. Sintoma: 0 V à saída, fusível intacto. Seguindo a metodologia: mede-se a entrada do 7805, que apresenta 12 V (bloco anterior está bem); mede-se a saída, 0 V. Testa-se o 7805 em vazio (sem carga ligada) e continua sem saída. Conclusão: o regulador está avariado e deve ser substituído, sem necessidade de mexer em mais nenhum componente.
Erros comuns
- Esquecer a queda de tensão da ponte retificadora (cerca de 1,4 V) ao calcular o pico disponível para o filtro.
- Confundir a frequência do ripple: usar 50 Hz numa fonte de onda completa em vez dos 100 Hz corretos, o que dá metade da capacitância necessária.
- Escolher um condensador de filtro com tensão nominal igual ao pico esperado, sem margem de segurança.
- Esquecer a queda VBE (≈ 0,7 V) ao calcular a saída de um regulador série com transístor.
- Montar um regulador integrado (78xx, LM317) sem os condensadores de desacoplamento de entrada e saída.
- Dimensionar um fusível "para não fundir", anulando a proteção que devia dar.
- Mexer num circuito multiplicador de tensão sem descarregar os condensadores primeiro.
- Substituir componentes por tentativa e erro, sem confirmar o diagnóstico com o multímetro e o osciloscópio.
Glossário
- Retificação: conversão de tensão alternada em tensão contínua pulsante, com díodos.
- Ponte de Graetz: retificador de onda completa com quatro díodos, sem derivação central.
- Ripple: ondulação residual sobre a tensão C.C. após a retificação e a filtragem.
- Filtro capacitivo, indutivo, LC, RC: circuitos que reduzem o ripple, cada um com composição e aplicação próprias.
- Regulador série: estabilizador em que o elemento de controlo está em série com a carga.
- Díodo Zener: díodo que, polarizado inversamente, fixa uma tensão de referência estável.
- Realimentação negativa: malha que compara a saída com a referência e corrige o erro.
- Circuito integrado regulador: pastilha que integra referência, amplificador de erro e transístor de potência (ex.: 78xx, LM317).
- Dropout: diferença mínima entre entrada e saída para um regulador continuar a funcionar.
- Multiplicador de tensão: circuito de díodos e condensadores que eleva a tensão C.C. acima do pico de entrada.
- Foldback: limitação de corrente que também reduz a tensão de saída em sobrecarga.
- Fusível: elemento de proteção sacrificial contra sobrecorrente.
Síntese
Instalar e reparar uma fonte de alimentação segue sempre a mesma lógica: seguir a cadeia transformador → retificador → filtro → estabilizador, dimensionando cada bloco com cálculo (capacitância do filtro, resistência do Zener, resistências do LM317) e confirmando cada valor com o instrumento certo, multímetro para tensões e correntes, osciloscópio para formas de onda e ripple, software de simulação antes de soldar. As proteções contra sobrecargas e curto-circuitos não são um extra, são parte do dimensionamento. E quando algo falha, a mesma cadeia de blocos serve de mapa para diagnosticar, medindo do fim para o início até isolar a avaria.
Exercícios resolvidos
1. Uma fonte não estabilizada usa retificação de meia onda a partir da rede de 50 Hz. Qual a frequência do ripple à saída?
Resolução: na retificação de meia onda, só um semiciclo é aproveitado por período da rede, logo a frequência do ripple é igual à da rede: 50 Hz. Numa retificação de onda completa (ponto médio ou ponte), seria o dobro, 100 Hz.
2. Calcula a capacitância mínima de filtro para uma fonte de onda completa, corrente de carga de 1,2 A e ripple máximo admitido de 0,5 V pp.
Resolução: C = I / (f × Vripple) = 1,2 / (100 × 0,5) = 1,2 / 50 = 0,024 F = 24 000 µF. Escolhe-se o valor comercial imediatamente acima, por exemplo 27 000 µF.
3. Um Zener de Vz = 4,7 V deve ser polarizado a Iz = 15 mA a partir de uma fonte não regulada de 12 V. Calcula a resistência limitadora e a potência dissipada no Zener.
Resolução: R = (Vin − Vz) / Iz = (12 − 4,7) / 0,015 = 7,3 / 0,015 ≈ 487 Ω (usar 470 Ω ou 510 Ω, consoante a série). Potência no Zener: P = Vz × Iz = 4,7 × 0,015 ≈ 70,5 mW.
4. Dimensiona R2 de um LM317 para obter Vout = 15 V, com R1 = 220 Ω.
Resolução: R2 = R1 × (Vout/Vref − 1) = 220 × (15/1,25 − 1) = 220 × 11 = 2420 Ω, usa-se o valor comercial mais próximo, 2,4 kΩ.
5. Uma fonte com um 7812 aquece muito e desliga-se sozinha ao fim de alguns minutos. A entrada tem 24 V. O que está a acontecer e como reduzir o problema?
Resolução: o 7812 está a dissipar (24 − 12) × Icarga em calor; com corrente apreciável, isto ultrapassa a capacidade térmica do encapsulamento e ativa a proteção térmica interna. Solução: reduzir a tensão de entrada (aproximá-la dos 12 V, respeitando o dropout) ou instalar um dissipador maior para escoar o calor.
6. Numa fonte com proteção foldback, o técnico curto-circuita a saída para testar a proteção. Que comportamento deve observar se a proteção estiver a funcionar corretamente?
Resolução: a corrente deve ficar limitada ao valor máximo definido e a tensão de saída deve cair (foldback), reduzindo a potência dissipada no elemento de controlo. Se a corrente disparar sem limite ou a fonte não recuperar ao remover o curto, a proteção não está a funcionar e não deve ser considerada segura para uso.
7. Uma fonte deixou de dar saída, mas o fusível está intacto. Descreve os primeiros três passos do diagnóstico.
Resolução: primeiro, medir a entrada do bloco final (regulador) para confirmar que os blocos anteriores (transformador, retificador, filtro) estão a entregar tensão. Segundo, medir a saída do regulador. Terceiro, se a entrada estiver correta e a saída a zero, testar o regulador em vazio (sem carga) para confirmar se a avaria está no próprio regulador ou é induzida por uma carga em curto-circuito a jusante.