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UC · Unidade de Competência · UC03884

Sebenta · Implementar circuitos de controlo de motores elétricos (UC03884)

PWM, ponte H, variadores de frequência, malha aberta e fechada, encoders e sensores
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Eletrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um motor ligado diretamente a uma fonte só tem uma velocidade: a nominal. Esta sebenta ensina a controlar eletronicamente motores de corrente contínua e de corrente alternada, variando velocidade, direção e posição com precisão, através de circuitos e dispositivos de eletrónica de potência.

O percurso segue a lógica de um técnico de eletrónica e automação: primeiro os componentes que fazem a comutação de potência (díodos, BJT, MOSFET, IGBT), depois a técnica de PWM que controla motores de corrente contínua, a ponte H que acrescenta o controlo de sentido, os sistemas de malha aberta e fechada com encoders e sensores, e por fim o controlo de motores de corrente alternada com variadores eletrónicos de velocidade (VEV), incluindo motores síncronos e motores de passo.

Objetivos de aprendizagem (referencial): desenvolver e executar circuitos de controlo para motores de corrente contínua através de PWM; desenvolver e executar circuitos de controlo baseados em VEV para motores de corrente alternada; executar sistemas de monitorização e controlo da posição e velocidade de motores elétricos.

1. Semicondutores de potência

O controlo eletrónico de um motor assenta em componentes que funcionam como interruptores comandados, capazes de ligar e desligar correntes elevadas milhares de vezes por segundo.

Componentes base

Componente Característica-chave Papel no controlo de motores
Resistência limita corrente polarização, medição
Condensador armazena carga filtragem do barramento DC
Díodo conduz numa só direção proteção, roda livre
Transístor interruptor/amplificador comandado comuta a potência do motor

O díodo de roda livre

Um motor é uma carga indutiva. Quando um transístor corta subitamente a corrente numa bobina, esta gera um pico de tensão que pode destruir o componente de comutação. O díodo de roda livre (flyback diode), ligado em antiparalelo com o motor, dá um caminho seguro a essa corrente no momento do corte.

⚠️ Todo o circuito com uma bobina comutada (motor, relé, solenoide) leva um díodo de roda livre. É o erro nº1 em montagens de laboratório.

BJT, MOSFET e IGBT

Os três funcionam como interruptores comandados, mas diferem no modo de comando, na velocidade de comutação e nas perdas:

BJT MOSFET IGBT
Comando corrente de base tensão de gate tensão de gate
Velocidade de comutação média alta média-alta
Perdas em condução maiores baixas (Rds baixo) baixas a alta tensão
Uso típico circuitos simples PWM de motores DC andares de potência de VEV

Regra prática desta UC: MOSFET para PWM de motores DC de baixa/média potência; IGBT nos inversores dos variadores de frequência, onde as tensões e potências são maiores.

Exemplo resolvido: escolher entre MOSFET e IGBT

Um motor DC de 12 V e 3 A precisa de um transístor de comutação para PWM a 10 kHz.

  1. A tensão (12 V) e a corrente (3 A) são baixas para os padrões industriais: dispensa-se o IGBT.
  2. O MOSFET tem Rds(on) baixo e comuta bem a 10 kHz, com perdas reduzidas nesta gama.
  3. Escolhe-se um MOSFET com Id máximo bem acima de 3 A (margem para picos de arranque) e Vds acima de 12 V com folga.

Conclusão: MOSFET é a escolha correta; o IGBT só se justificaria com tensões de dezenas/centenas de volts, típicas de um VEV.

2. PWM: modulação por largura de impulso

O que é PWM

PWM (Pulse Width Modulation) liga e desliga a alimentação do motor rapidamente, variando a percentagem de tempo ligado em cada período (o duty cycle).

$$V_{med} \approx D \times V_{alim}$$

Exemplo resolvido: tensão média e duty cycle

Um motor DC de 12 V é controlado por PWM.

  1. Com duty cycle de 30%: V_med = 0,30 × 12 = 3,6 V.
  2. Para metade da velocidade nominal, é necessário aproximadamente D = 50%: V_med = 0,50 × 12 = 6 V.
  3. Para velocidade máxima: D = 100%, V_med = 12 V.
  4. Para obter 8 V médios a partir de 12 V: D = 8/12 ≈ 67%.

O duty cycle funciona como o "acelerador" eletrónico do motor de corrente contínua.

Gerar PWM em microcontroladores

Os microcontroladores geram PWM por hardware, através de temporizadores (timers) internos ligados a pinos específicos.

Circuito de acionamento

O pino de um microcontrolador não tem corrente para mover um motor diretamente (tipicamente 20 a 40 mA). É necessário um andar de potência:

  1. Transístor (MOSFET) de comutação, dimensionado para a corrente e tensão do motor.
  2. Driver de gate ou resistência de gate, para comutar depressa sem aquecer.
  3. Isolamento galvânico (opto-acoplador), recomendado entre o sinal e a potência.
  4. Díodo de roda livre, sempre em antiparalelo com o motor.

3. Controlo de motores de corrente contínua

Circuito básico

Montagem mínima para controlar a velocidade de um motor DC num só sentido:

+Vmotor ──[Motor DC]──┬──[Dreno MOSFET]
                       
             (Díodo roda livre, antiparalelo com o motor)
                       
                 [Fonte MOSFET] ── GND
Gate MOSFET  sinal PWM (via resistência de gate)

O MOSFET liga e desliga o motor à frequência do PWM; o díodo protege o MOSFET nos cortes; a velocidade é definida apenas pelo duty cycle.

Exemplo resolvido: dimensionar o MOSFET

Motor DC de 12 V, 2 A nominais, controlado por PWM a 10 kHz.

  1. Corrente de pico a considerar: pelo menos 1,5× a nominal, ≈ 3 A.
  2. Escolher MOSFET com Id máximo bem acima de 3 A e Vds com folga (ex. 30 V para uma fonte de 12 V).
  3. Verificar Rds(on) baixo: perda por condução ≈ I² × Rds(on). Com Rds ≈ 0,02 Ω: perda ≈ 2² × 0,02 = 0,08 W (baixa).
  4. Avaliar necessidade de dissipador com base na potência dissipada e na resistência térmica do encapsulamento.

4. A ponte H

O que é e como funciona

A ponte H é um arranjo de quatro interruptores que permite inverter a polaridade aplicada ao motor, controlando o sentido de rotação além da velocidade.

   +V ──┬────────────┬── +V
        S1           S2
        │            │
        ├── Motor ───┤
        │            │
        S3           S4
   GND ─┴────────────┴── GND
Estado Interruptores fechados Efeito no motor
Avançar S1 + S4 roda num sentido
Recuar S2 + S3 roda no sentido inverso
Travagem ativa S1 + S2 (ou S3 + S4) curto-circuita os terminais, trava rápido
Ponto morto (coast) nenhum roda livre por inércia

⚠️ Nunca ligar S1+S3 ou S2+S4 em simultâneo: cria um curto-circuito direto na fonte de alimentação. É o erro mais destrutivo e mais caro num laboratório de eletrónica de potência.

Circuitos integrados de ponte H

Na prática usam-se circuitos integrados dedicados em vez de montar os quatro transístores discretos:

Estes CI incluem tipicamente proteção contra curto-circuito entre braços e, nalguns casos, díodos de roda livre integrados.

Exemplo resolvido: sentido e velocidade combinados

Um sistema usa uma ponte H com PWM aplicado ao par S1/S4. Para inverter o sentido a meia velocidade:

  1. Desligar S1/S4 e aguardar o tempo morto de segurança.
  2. Aplicar PWM (D = 50%) ao par S2/S3.
  3. O motor passa a rodar no sentido inverso a metade da velocidade nominal.

5. Malha aberta e malha fechada

As duas arquiteturas

Malha aberta:  Comando → Controlador → Motor → (sem realimentação)

Malha fechada: Comando → Controlador → Motor → Sensor
                     ▲                            │
                     └──────── realimentação ──────┘

Quando escolher cada uma

Malha aberta Malha fechada
Custo e complexidade baixo mais alto
Precisão sob carga variável baixa alta
Exemplos ventoinha simples, misturadora braço robótico, impressora 3D, elevador
Reage a perturbações não sim, em tempo real

A escolha é um exercício de adequar componentes e configurações à função do circuito: não se usa sempre a solução mais sofisticada.

6. Encoders e sensores de feedback

Encoders

Um encoder converte o movimento de rotação do eixo do motor em sinais elétricos contáveis:

Exemplo resolvido: calcular velocidade a partir do encoder

Um encoder de 360 pulsos/volta está acoplado ao eixo do motor. Em 0,5 segundos, o controlador conta 900 pulsos.

  1. Rotações no intervalo: 900 / 360 = 2,5 voltas.
  2. Velocidade em rotações por segundo: 2,5 / 0,5 = 5 rps.
  3. Velocidade em rpm: 5 × 60 = 300 rpm.

Outros sensores de feedback

Sensor Princípio Uso típico
Efeito Hall campo magnético encoders de baixo custo, motores BLDC
Tacómetro tensão proporcional à velocidade leitura direta de velocidade
Resolver sinal analógico de posição angular ambientes exigentes (industrial, automóvel)

A escolha do sensor depende da precisão exigida, do custo e do ambiente (vibração, temperatura, ruído elétrico).

7. Motores de corrente alternada e variadores de frequência

Porque um motor CA não se controla por PWM simples

Num motor de indução (CA), a velocidade síncrona depende essencialmente da frequência da tensão de alimentação:

$$n_s = \frac{120 \times f}{p}$$

onde f é a frequência (Hz) e p o número de polos. Para variar a velocidade sem trocar o motor, é preciso variar a frequência que o alimenta: essa é a função do Variador Eletrónico de Velocidade (VEV), também chamado drive ou VFD.

Exemplo resolvido: velocidade síncrona

Motor de indução de 4 polos, alimentado a 50 Hz.

$$n_s = \frac{120 \times 50}{4} = 1500 \text{ rpm}$$

Se o VEV reduzir a frequência para 25 Hz, a nova velocidade síncrona é 750 rpm: metade da velocidade, para metade da frequência.

Blocos internos de um VEV

Rede CA  [Retificador]  [Barramento DC + filtro]  [Inversor IGBT]  Motor CA

⚠️ O barramento DC de um VEV pode manter tensão perigosa durante minutos após o corte da alimentação de rede, devido à energia armazenada nos condensadores.

8. Configurar o variador de frequência

Parâmetros essenciais

Parâmetro Função
Frequência mínima / máxima limites de velocidade permitidos
Tempo de aceleração (rampa) rapidez até à referência
Tempo de desaceleração (rampa) rapidez a desacelerar ou travar
Curva V/f (tensão/frequência) mantém o binário do motor ao longo da gama
Corrente nominal do motor proteção contra sobrecarga

Rampas mal ajustadas causam arranques bruscos (desgaste mecânico) ou paragens demasiado lentas para a aplicação.

Exemplo resolvido: procedimento de arranque de um VEV

Colocar em funcionamento um VEV a controlar o motor de indução de uma bomba.

  1. Confirmar a placa de características do motor (tensão, corrente, frequência, polos) e introduzi-la nos parâmetros do VEV.
  2. Definir frequência mínima (ex. 20 Hz) e máxima (ex. 50 Hz, nominal).
  3. Definir rampas de aceleração/desaceleração adequadas à inércia da carga (ex. 5 s).
  4. Ligar em vazio, se possível, e verificar o sentido de rotação antes de acoplar à carga.
  5. Aumentar gradualmente a referência e verificar o funcionamento face às especificações definidas.

9. Motores síncronos e motores de passo

Motores síncronos

No motor síncrono, o rotor roda exatamente à velocidade do campo girante, sem escorregamento. A velocidade depende apenas da frequência de alimentação e do número de polos, tal como no motor de indução, mas sem a folga do escorregamento. Um VEV controla a velocidade de um motor síncrono da mesma forma: ajustando a frequência. É usado onde é preciso velocidade muito estável e precisa (servo-acionamentos).

Motores de passo

O motor de passo (stepper) roda em incrementos fixos e discretos, controlados diretamente por sequências de pulsos:

Exemplo resolvido: pulsos para um ângulo dado

Motor de passo de 1,8° por passo. Quantos pulsos são precisos para rodar 90°?

$$\frac{90}{1{,}8} = 50 \text{ pulsos}$$

10. Monitorização e controlo de posição e velocidade

Sistema completo

[Referência de posição] → [Controlador] → [Ponte H + PWM] → [Motor DC + Encoder]
                                 ▲                                    │
                                 └──────── posição/velocidade real ────┘

O controlador lê continuamente o encoder, compara com a referência, e ajusta o duty cycle e o sentido na ponte H. É o padrão usado em braços robóticos, eixos de máquinas CNC e plataformas motorizadas.

Monitorizar vs controlar

Um sistema profissional normalmente faz as duas coisas: monitoriza para diagnóstico e histórico, e controla em tempo real para manter o desempenho pedido.

11. Segurança e boas práticas profissionais

Segurança no laboratório de eletrónica de potência

Circuitos de controlo de motores envolvem correntes elevadas, tensões de rede (nos VEV) e trabalho de soldadura, pelo que a segurança acompanha todo o processo, do desenho ao teste final:

Boas práticas de trabalho

Estas práticas não são um extra opcional: fazem parte das atitudes avaliadas nesta UC, nomeadamente o rigor, o sentido crítico e o respeito pelas regras e normas definidas.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O controlo eletrónico de motores segue sempre a mesma lógica: componentes de potência (díodo, BJT, MOSFET, IGBT) → PWM para variar a tensão média de um motor DC → ponte H para acrescentar o sentido → malha aberta ou fechada, com encoders e sensores a fechar a malha → para motores CA, um VEV faz o mesmo trabalho variando a frequência, com a mesma lógica aplicada a motores síncronos e adaptada nos motores de passo. Tudo isto assenta em rigor, segurança e verificação sistemática face às especificações definidas.

Exercícios resolvidos

1. Um motor DC de 24 V é controlado por PWM com duty cycle de 40%. Qual a tensão média aplicada?

Resolução: V_med = D × V_alim = 0,40 × 24 = 9,6 V.

2. Que componente falta num circuito que liga um MOSFET diretamente a um motor DC, sem mais nada, e porquê?

Resolução: falta o díodo de roda livre em antiparalelo com o motor. Sem ele, o corte da corrente na bobina do motor gera um pico de tensão que pode destruir o MOSFET.

3. Numa ponte H, que combinação de interruptores nunca se deve fechar em simultâneo?

Resolução: S1+S3 ou S2+S4 (os dois interruptores do mesmo lado da fonte). Cria um curto-circuito direto entre +V e GND.

4. Um motor de indução de 6 polos é alimentado a 50 Hz por um VEV. Qual a velocidade síncrona?

Resolução: n_s = (120 × 50) / 6 = 1000 rpm.

5. Um encoder de 500 pulsos/volta conta 250 pulsos em 0,1 segundos. Qual a velocidade em rpm?

Resolução: rotações = 250/500 = 0,5 volta; em rps = 0,5/0,1 = 5 rps; em rpm = 5 × 60 = 300 rpm.

6. Explica a diferença entre malha aberta e malha fechada com um exemplo de cada.

Resolução: em malha aberta define-se o comando (ex. duty cycle) sem medir o resultado, como numa ventoinha simples. Em malha fechada um sensor (ex. encoder) mede o resultado real e o controlador ajusta o comando para corrigir o erro, como num braço robótico de precisão.