Sebenta · Instalar e operar aplicações de gestão comercial e de aprovisionamento (UC03811)
- Introdução
- 1. O que é uma aplicação de gestão comercial e de aprovisionamento
- 2. Instalação, licenciamento e ambiente de trabalho
- 3. Controlo de acesso — perfis e privilégios
- 4. Tabelas base — entidades, armazéns, produtos e preços
- 5. Gestão de clientes e de fornecedores
- 6. Documentos comerciais — o ciclo de compra e de venda
- 7. Gestão de armazém — entradas e saídas de mercadorias
- 8. Gestão de stocks — vigilância e reaprovisionamento
- 9. Ligação à contabilidade e normas contabilísticas
- 10. Bases de dados, backups, atualizações e RGPD
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a instalar, configurar e operar uma aplicação informática de gestão comercial e de aprovisionamento — o tipo de software que quase todas as empresas usam para faturar, comprar, vender e controlar os seus armazéns. Estas aplicações são hoje, em regra, módulos de um ERP (Enterprise Resource Planning, sistema integrado de gestão empresarial), como o PHC, o Primavera, o Sage, o Moloni ou o Vendus. Aprender uma delas é aprender a lógica de todas: mudam os menus, não muda o modelo de dados nem o ciclo comercial.
No fim desta UC deves conseguir três coisas, exatamente como pede o referencial: instalar e configurar a aplicação (licenciamento, ambiente de trabalho, perfis de utilizador e tabelas base); emitir e gerir documentos comerciais (orçamentos, encomendas, guias, faturas, notas de crédito); e controlar o aprovisionamento e a gestão de stocks (entradas e saídas de mercadoria, stock de segurança, ponto de encomenda e quantidade ótima a encomendar). Pelo caminho, tratas ainda de temas transversais que fazem a diferença numa empresa real: cópias de segurança (backups), atualizações, ligação à contabilidade e proteção de dados (RGPD).
Não precisas de saber contabilidade avançada para começar — precisas de método e de rigor, porque numa aplicação de gestão cada documento move stock, move dinheiro e deixa rasto. Vamos construir tudo passo a passo, com exemplos resolvidos e cálculos de stocks incluídos.
Objetivos de aprendizagem (referencial UC03811): instalar e configurar aplicações de gestão comercial e de aprovisionamento; emitir e gerir documentos comerciais; controlar o aprovisionamento e a gestão de stocks. Para isso, vamos interpretar manuais e procedimentos de compra/venda, criar perfis e permissões, registar entidades e artigos, emitir documentos, movimentar armazém, aplicar métodos de vigilância de stocks, respeitar normas contabilísticas e de proteção de dados, e configurar backups e atualizações.
1. O que é uma aplicação de gestão comercial e de aprovisionamento
Uma aplicação de gestão comercial é o software que apoia o ciclo comercial de uma empresa: registar clientes e fornecedores, gerir o catálogo de produtos e preços, emitir documentos (orçamentos, encomendas, faturas) e controlar o que entra e sai do armazém. O aprovisionamento é a função de garantir que há material para vender ou produzir — nem a mais (dinheiro parado), nem a menos (rutura de stock).
Hoje estas funções vivem quase sempre dentro de um ERP — um sistema integrado onde os vários módulos partilham a mesma base de dados:
| Módulo | O que trata |
|---|---|
| Gestão comercial / Vendas | orçamentos, encomendas de clientes, guias, faturas, notas de crédito |
| Compras / Aprovisionamento | encomendas a fornecedores, receção de mercadoria, faturas de compra |
| Stocks / Armazém | inventário, entradas e saídas, transferências entre armazéns |
| Contabilidade | lançamento automático dos documentos, IVA, mapas |
| Tesouraria | recebimentos, pagamentos, contas-correntes |
A grande vantagem do ERP é a integração: quando emites uma fatura de venda, o sistema, num só ato, dá saída da mercadoria do armazém, debita a conta-corrente do cliente e prepara o lançamento contabilístico. Registas uma vez, o efeito propaga-se. É por isso que uma boa parametrização inicial (tabelas certas, contas certas) poupa horas de trabalho e evita erros.
Software comercial vs. faturação certificada
Em Portugal, o software que emite faturas tem de ser certificado pela Autoridade Tributária (AT). Isto significa que os documentos são numerados sequencialmente, não podem ser apagados (só anulados com nota de crédito) e são assinados digitalmente. Guarda esta ideia: numa aplicação de gestão comercial não se apaga um documento fiscal — corrige-se com outro documento.
2. Instalação, licenciamento e ambiente de trabalho
Antes de operar, é preciso instalar e licenciar a aplicação. O primeiro passo profissional é sempre interpretar o manual, o guião de instalação e os tutoriais do fabricante — cada produto tem requisitos próprios.
Modelos de instalação
- On-premises (local) — a aplicação e a base de dados ficam num servidor da empresa. Dá mais controlo, mas obriga a gerir servidor, backups e atualizações.
- Cloud / SaaS — a aplicação corre nos servidores do fabricante e acede-se pelo browser (ex.: Moloni, Vendus). A empresa paga uma subscrição e o fabricante trata da infraestrutura, dos backups e das atualizações.
Requisitos e passos típicos (instalação local)
- Verificar requisitos: sistema operativo, memória, espaço em disco e o motor de base de dados (muitos ERP portugueses assentam em Microsoft SQL Server).
- Instalar o servidor de base de dados e criar a base de dados da empresa.
- Instalar a aplicação (cliente) nos postos de trabalho.
- Licenciar: introduzir a chave/subscrição que ativa o produto e define quantos utilizadores em simultâneo e que módulos estão disponíveis.
- Criar a empresa no sistema: nome, NIF, morada, moeda, taxas de IVA, ano de exercício.
Licenciamento
O licenciamento define o que podes usar e por quanto tempo:
- Licença perpétua — paga-se uma vez; as atualizações e o suporte costumam exigir um contrato de manutenção anual.
- Subscrição — paga-se por mês/ano e por utilizador; inclui atualizações e suporte enquanto se paga.
- Por módulos/utilizadores — o preço varia com os módulos ativos e o n.º de utilizadores concorrentes.
Ambiente de trabalho
Depois de entrar, encontras dois grandes tipos de menus:
- Menus de administração — onde se parametriza o sistema: utilizadores, tabelas base, séries de documentos, contas, backups. Reservado a quem administra.
- Menus de utilização — onde se trabalha no dia a dia: emitir documentos, consultar stocks, ver contas-correntes.
Regra de ouro: primeiro parametriza-se, só depois se opera. Um sistema mal parametrizado produz documentos errados à velocidade da luz.
3. Controlo de acesso — perfis e privilégios
Numa empresa, nem toda a gente pode fazer tudo: o rececionista fatura, mas não deve alterar preços de custo nem ver margens; o gestor de compras faz encomendas a fornecedores; o administrador configura o sistema. Isto consegue-se com controlo de acesso.
Utilizadores, perfis e privilégios
- Utilizador — uma pessoa com credenciais próprias (nome de utilizador + palavra-passe). Nunca se partilham logins: o sistema tem de saber quem fez o quê.
- Perfil (ou grupo/papel) — um conjunto de permissões pré-definido (ex.: "Vendas", "Compras", "Administrador"). Atribui-se o perfil ao utilizador em vez de dar permissão a permissão.
- Privilégio (permissão) — a autorização concreta para uma ação: criar fatura, anular documento, ver preço de custo, fazer backup, alterar tabelas.
O modelo em que se agrupam permissões num perfil e se atribui o perfil ao utilizador chama-se RBAC (Role-Based Access Control, controlo de acesso baseado em papéis). É a boa prática: quando alguém muda de funções, muda-se o perfil, não dezenas de permissões soltas.
Princípios de segurança
- Menor privilégio — cada um recebe só o que precisa para o seu trabalho.
- Segregação de funções — quem regista uma compra não deve ser quem a paga; separar funções reduz erros e fraude.
- Palavras-passe fortes e mudança periódica; sempre que possível, autenticação em dois fatores.
- Registo de auditoria (log) — o sistema guarda quem criou/alterou cada documento e quando.
Exemplo — desenhar perfis
| Perfil | Pode | Não pode |
|---|---|---|
| Balcão/Vendas | criar orçamentos e faturas de venda, consultar stock | ver preço de custo, anular faturas, mexer em tabelas |
| Compras | criar encomendas e receções de fornecedor | emitir faturas de venda, configurar o sistema |
| Gestor | tudo em vendas e compras, ver margens e relatórios | administração técnica (backups, utilizadores) |
| Administrador | tudo, incluindo utilizadores, séries, backups | — |
4. Tabelas base — entidades, armazéns, produtos e preços
As tabelas base (ou "ficheiros mestres") são a fundação do sistema: os dados que se registam uma vez e que todos os documentos usam. Se estas tabelas estiverem bem feitas, o resto corre bem.
Entidades (clientes e fornecedores)
Cada entidade tem uma ficha com, no mínimo: nome, NIF, morada, contactos, condições de pagamento (a pronto, 30/60 dias), desconto, conta contabilística associada e, muitas vezes, o limite de crédito. Uma boa ficha evita erros repetidos em cada documento.
Armazéns
Uma empresa pode ter vários armazéns (loja, armazém central, viatura). Cada artigo pode ter stock em cada armazém, e há transferências entre eles. Definir bem os armazéns permite saber onde está cada produto.
Produtos (artigos)
A ficha de artigo é a mais importante do sistema:
| Campo | Para que serve |
|---|---|
| Código / referência | identifica o artigo de forma única |
| Código de barras (EAN) | leitura rápida no balcão e no armazém |
| Descrição | nome do produto |
| Família/categoria | agrupa artigos (para relatórios e preços) |
| Unidade | un., kg, litro, caixa |
| Taxa de IVA | normal 23%, intermédia 13%, reduzida 6% |
| Preço de custo | quanto custa comprar (base da margem) |
| Preço de venda | quanto se vende (com ou sem IVA) |
| Stock atual / mínimo / máximo | controlo de aprovisionamento |
| Fornecedor preferencial | a quem se costuma comprar |
Preços
Os preços raramente são um só. Uma aplicação de gestão comercial suporta, tipicamente:
- Vários níveis de preço (particular, revendedor, grossista).
- Descontos por cliente, por família ou por quantidade.
- Promoções com data de início e fim.
- Cálculo da margem:
Margem = Preço de venda − Preço de custo. Em percentagem sobre o custo:Margem % = (PV − PC) / PC × 100.
Exemplo: um artigo custa 8 € e vende-se a 12 € (sem IVA). Margem = 12 − 8 = 4 €; margem sobre o custo = 4 / 8 = 50%. Com IVA a 23%, o preço ao público é 12 × 1,23 = 14,76 €.
5. Gestão de clientes e de fornecedores
Registadas as entidades, o sistema mantém para cada uma uma conta-corrente: o histórico do que devem (clientes) ou do que lhes devemos (fornecedores).
Ciclo do cliente
- Pedido / orçamento.
- Encomenda do cliente.
- Entrega com guia de remessa/transporte.
- Fatura (a conta-corrente do cliente fica a débito — ele passa a dever).
- Recebimento (a conta-corrente fica a crédito — a dívida extingue-se).
Ciclo do fornecedor
- Encomenda ao fornecedor.
- Receção da mercadoria (entra no armazém).
- Fatura de compra (a conta-corrente do fornecedor fica a crédito — passamos a dever).
- Pagamento (a conta-corrente fica a débito — extingue a dívida).
Ferramentas úteis
- Contas-correntes e extratos por entidade.
- Antiguidade de saldos (aging): quanto está por receber e há quanto tempo — essencial para cobrar a tempo.
- Limite de crédito: o sistema avisa/bloqueia quando um cliente ultrapassa o crédito concedido.
6. Documentos comerciais — o ciclo de compra e de venda
Emitir e gerir documentos é o coração do dia a dia. Convém perceber cada documento e a sua função.
Documentos de venda
| Documento | O que faz | Move stock? | É fiscal? |
|---|---|---|---|
| Orçamento / Proposta | preço para o cliente decidir | Não | Não |
| Encomenda de cliente | compromisso de compra do cliente | Não (reserva) | Não |
| Guia de remessa / transporte | acompanha a mercadoria na entrega | Sim (saída) | Comunicada à AT |
| Fatura | documenta a venda e o IVA | Sim (se não houve guia) | Sim |
| Fatura-recibo | fatura + prova de pagamento | Sim | Sim |
| Nota de crédito | corrige/anula uma fatura (devoluções) | Sim (entrada) | Sim |
Documentos de compra
- Encomenda a fornecedor — o que pedimos.
- Guia/Nota de receção — o que chegou (dá entrada em stock).
- Fatura de compra — o que pagamos; alimenta a conta-corrente do fornecedor e a contabilidade.
Encadeamento (transformação de documentos)
A grande vantagem do software é transformar um documento no seguinte sem reescrever: o orçamento vira encomenda, a encomenda vira guia, a guia vira fatura. Cada passo herda os dados do anterior e evita erros de transcrição.
Anular vs. corrigir
Repete-se, por ser central: um documento fiscal não se apaga. Uma venda errada corrige-se com uma nota de crédito; se ainda não foi finalizado, alguns documentos internos (orçamentos, encomendas) podem ser editados ou anulados. É esta disciplina que torna o software certificado.
7. Gestão de armazém — entradas e saídas de mercadorias
O stock só é fiável se todos os movimentos passarem pelo sistema. Há dois grandes tipos de movimento:
- Entradas — compras (receção de fornecedor), devoluções de clientes, transferências recebidas, acertos de inventário para cima.
- Saídas — vendas, devoluções a fornecedores, transferências enviadas, quebras/perdas, acertos para baixo.
Valorização do stock
Quando o mesmo artigo é comprado a preços diferentes ao longo do tempo, é preciso decidir a que custo sai do armazém. Os métodos mais comuns:
- FIFO (First In, First Out) — sai primeiro o que entrou primeiro. Ideal para produtos com prazo de validade.
- Custo Médio Ponderado (CMP) — recalcula um custo médio a cada entrada. Muito usado nos ERP.
Exemplo (CMP): tenho 100 un. compradas a 5 € (=500 €). Compro mais 100 un. a 7 € (=700 €). Stock = 200 un., valor = 1 200 €. Custo médio = 1 200 / 200 = 6 €/un. As próximas saídas custam 6 € cada até nova entrada alterar a média.
Inventário
Periodicamente faz-se inventário físico: conta-se o que existe e acerta-se com o que o sistema diz. As diferenças (quebras, roubos, erros) geram acertos. Um sistema bem operado tem poucas diferenças.
8. Gestão de stocks — vigilância e reaprovisionamento
Aqui está o núcleo técnico da UC: como evitar ruturas sem imobilizar dinheiro a mais. É preciso vigiar o nível de stock e decidir quando e quanto encomendar.
Conceitos-chave
- Stock máximo — o nível que não se quer ultrapassar (custo de posse).
- Stock mínimo / de segurança (Ss) — a "almofada" para aguentar atrasos ou picos de procura sem rutura.
- Ponto de encomenda (PE) — o nível que, quando atingido, dispara uma nova encomenda.
- Prazo de entrega (lead time) — dias entre encomendar e receber.
- Consumo médio — quanto se gasta por dia/semana/mês.
- Rutura de stock — ficar a zero e não poder vender: perde-se a venda e, às vezes, o cliente.
Stock de segurança
Protege contra a incerteza (o fornecedor atrasa, a procura sobe). Uma forma simples e muito usada nas escolas:
$$Ss = \text{consumo médio diário} \times \text{dias de margem de segurança}$$
Ponto de encomenda
Quando o stock cai a este nível, encomenda-se — para que a mercadoria nova chegue antes de esgotar:
$$PE = (\text{consumo médio diário} \times \text{prazo de entrega}) + Ss$$
Nível (stock) médio
$$\text{Stock médio} = Ss + \dfrac{Q}{2}$$
onde Q é a quantidade encomendada de cada vez. (Sem stock de segurança, é simplesmente Q/2.)
Quantidade Económica de Encomenda (QEE / modelo de Wilson)
Encomendar muitas vezes pouca coisa aumenta o custo de fazer encomendas; encomendar poucas vezes muita coisa aumenta o custo de posse (armazenar). A QEE é a quantidade que minimiza o custo total:
$$QEE = \sqrt{\dfrac{2 \times D \times C_e}{C_p}}$$
D= procura (consumo) anual em unidades.Ce= custo de fazer uma encomenda (€/encomenda).Cp= custo de posse por unidade por ano (€/un./ano).
Exemplo resolvido 1 · Ponto de encomenda e stock de segurança
Dados: consumo médio = 20 un./dia; prazo de entrega = 5 dias; queremos margem de segurança para 3 dias.
Ss = 20 × 3 = 60 unidades
Consumo durante o prazo = 20 × 5 = 100 unidades
PE = 100 + 60 = 160 unidades
Leitura: quando o stock chegar a 160 un., faz-se a encomenda. Nos 5 dias até chegar, gastam-se ~100 un.; sobram as 60 de segurança para imprevistos.
Exemplo resolvido 2 · Quantidade económica de encomenda
Dados: procura anual D = 3 600 un.; custo por encomenda Ce = 50 €; custo de posse Cp = 4 €/un./ano.
QEE = √( (2 × 3600 × 50) / 4 )
= √( 360 000 / 4 )
= √ 90 000
= 300 unidades
Número de encomendas por ano = D / QEE = 3 600 / 300 = 12 (uma por mês).
Exemplo resolvido 3 · Stock médio
Com QEE = 300 e Ss = 60 do exemplo anterior:
Stock médio = Ss + Q/2 = 60 + 300/2 = 60 + 150 = 210 unidades
É o stock que, em média, está no armazém — útil para estimar o custo de posse anual (210 × 4 € = 840 €).
Na prática, a aplicação de gestão calcula tudo isto automaticamente a partir dos mínimos/máximos e do histórico de consumo, e pode até sugerir encomendas aos fornecedores.
9. Ligação à contabilidade e normas contabilísticas
Num ERP integrado, os documentos comerciais geram contabilidade de forma automática — desde que as tabelas estejam ligadas às contas certas.
- Uma fatura de venda lança: cliente a débito (classe 2), vendas a crédito (classe 7) e IVA liquidado a crédito (classe 2 — Estado).
- Uma fatura de compra lança: compras/inventário a débito (classe 3/6), IVA dedutível a débito (classe 2) e fornecedor a crédito (classe 2).
- O IVA é liquidado nas vendas e dedutível nas compras; o software prepara o apuramento periódico.
Para isto funcionar, cada família de artigos, cada taxa de IVA e cada entidade aponta para uma conta do SNC. Aplicar as normas contabilísticas (SNC, Código de Contas) na parametrização é o que permite que a gestão comercial "fale" com a contabilidade sem digitar duas vezes.
10. Bases de dados, backups, atualizações e RGPD
Toda a informação da aplicação vive numa base de dados. Protegê-la e mantê-la é parte do trabalho.
Tipologias de bases de dados
- Relacionais (SQL) — as mais comuns em ERP: dados em tabelas ligadas por chaves (ex.: Microsoft SQL Server, MySQL, PostgreSQL). Garantem integridade (não há fatura sem cliente).
- Não relacionais (NoSQL) — documentos/chave-valor, para dados menos estruturados; menos usadas no núcleo de faturação.
- Locais vs. cloud — no servidor da empresa ou geridas pelo fabricante.
Backups (cópias de segurança)
Uma base de dados sem backup é um acidente à espera de acontecer. Boas práticas:
- Regra 3-2-1 — 3 cópias, em 2 suportes diferentes, 1 delas fora do local (off-site/cloud).
- Automáticos e agendados (ex.: diário à noite) — configurar no menu de administração.
- Testar o restauro — um backup só vale se restaura. Testa periodicamente.
- Retenção — guardar histórico (diários, semanais, mensais).
Atualizações
- Corretivas — corrigem erros e falhas de segurança.
- Legais — obrigatórias quando muda a lei (taxas de IVA, formato de comunicação à AT, SAF-T).
- Funcionais — novas funcionalidades.
Antes de atualizar: fazer backup, ler as notas de versão e, se possível, testar num ambiente separado. Manter a aplicação atualizada é também manter a certificação válida.
RGPD e segurança da informação
Estas aplicações guardam dados pessoais de clientes e trabalhadores (nome, NIF, morada, contactos), logo aplica-se o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD):
- Minimização — recolher só os dados necessários.
- Finalidade — usá-los só para o fim previsto (faturar, contactar).
- Segurança — acessos por perfil, palavras-passe, encriptação, backups protegidos.
- Direitos do titular — acesso, retificação e apagamento ("direito ao esquecimento"), respeitando os prazos legais de conservação fiscal (regra geral, 10 anos para documentos contabilísticos).
- Registo de tratamentos e cuidado com quem tem acesso (o tal menor privilégio).
Erros comuns
- Operar sem parametrizar — começar a faturar com tabelas (IVA, contas, séries) por definir gera documentos errados difíceis de corrigir.
- Apagar documentos fiscais — não se apaga; corrige-se com nota de crédito.
- Fichas de artigo incompletas — sem IVA, custo ou unidade certos, todos os documentos saem mal.
- Movimentar stock por fora do sistema — o inventário deixa de bater certo.
- Confundir guia com fatura — a guia move mercadoria; a fatura documenta a venda e o IVA.
- Somar o IVA às vendas na contabilidade — o IVA liquidado é dívida ao Estado, não rendimento.
- Não ter backups (ou nunca testar o restauro) — perda de dados irrecuperável.
- Partilhar logins — perde-se a rastreabilidade e viola-se o RGPD e a segregação de funções.
- Ignorar o stock de segurança — ruturas frequentes e vendas perdidas.
Glossário
- ERP — Enterprise Resource Planning; sistema integrado de gestão empresarial.
- Gestão comercial — módulo que trata de vendas, compras e faturação.
- Aprovisionamento — função de garantir materiais disponíveis (compras + gestão de stocks).
- Tabelas base / ficheiros mestres — dados registados uma vez (entidades, artigos, armazéns, preços).
- Entidade — cliente ou fornecedor.
- RBAC — controlo de acesso baseado em perfis/papéis.
- Privilégio / permissão — autorização para uma ação concreta.
- Documento fiscal — documento certificado (fatura, nota de crédito) que não se apaga.
- Guia de remessa/transporte — documento que acompanha a mercadoria e move stock.
- Nota de crédito — documento que corrige/anula uma fatura.
- Conta-corrente — histórico de dívidas/créditos de uma entidade.
- FIFO — método de valorização "primeiro a entrar, primeiro a sair".
- CMP — custo médio ponderado.
- Stock de segurança (Ss) — nível-almofada contra atrasos e picos.
- Ponto de encomenda (PE) — nível que dispara nova encomenda.
- Lead time — prazo de entrega do fornecedor.
- QEE / Wilson — quantidade económica de encomenda (minimiza o custo total).
- SAF-T — ficheiro normalizado de contabilidade/faturação para a AT.
- RGPD — Regulamento Geral de Proteção de Dados.
- Backup 3-2-1 — 3 cópias, 2 suportes, 1 fora do local.
Síntese
- Uma aplicação de gestão comercial e aprovisionamento é, hoje, um módulo de ERP com base de dados partilhada; primeiro parametriza-se, só depois se opera.
- Instalar e licenciar define módulos e utilizadores; o ambiente separa administração de utilização.
- O controlo de acesso por perfis (RBAC), com menor privilégio e segregação de funções, protege dados e evita fraude.
- As tabelas base (entidades, armazéns, artigos, preços) são a fundação: bem feitas, tudo corre bem.
- Os documentos encadeiam-se (orçamento → encomenda → guia → fatura); documentos fiscais não se apagam — corrigem-se com nota de crédito.
- O stock só é fiável se todos os movimentos passarem pelo sistema; valoriza-se por FIFO ou CMP.
- Gestão de stocks:
PE = consumo×prazo + Ss,Stock médio = Ss + Q/2,QEE = √(2·D·Ce/Cp). - O ERP gera contabilidade automática se as tabelas apontarem às contas do SNC.
- Backups (3-2-1), atualizações e RGPD são parte do trabalho, não extras.
Exercícios resolvidos
1) Perfis e permissões. Um funcionário de balcão precisa de emitir faturas e consultar stock, mas não deve ver preços de custo nem anular documentos. Que perfil lhe atribuis e que princípio aplicas?
Atribui-se o perfil "Balcão/Vendas" com permissão para criar faturas e consultar stock, sem ver preço de custo nem anular documentos. Aplica-se o princípio do menor privilégio (só o necessário) e a segregação de funções.
2) Margem e preço ao público. Um artigo custa 15 € e quer-se uma margem de 40% sobre o custo. Qual o preço de venda sem IVA e o preço ao público (IVA 23%)?
Margem = 15 × 0,40 = 6 €. Preço sem IVA = 15 + 6 = 21 €. Ao público = 21 × 1,23 = 25,83 €.
3) Custo médio ponderado. Há 50 un. em stock a 4 €. Compram-se mais 150 un. a 6 €. Qual o novo custo médio?
Valor total = (50×4) + (150×6) = 200 + 900 = 1 100 €. Quantidade = 200 un. Custo médio = 1 100 / 200 = 5,50 €/un.
4) Ponto de encomenda. Consumo médio = 30 un./dia; prazo de entrega = 4 dias; margem de segurança = 2 dias. Calcula o stock de segurança e o ponto de encomenda.
Ss = 30 × 2 = 60 un. Consumo no prazo = 30 × 4 = 120 un. PE = 120 + 60 = 180 un. Encomenda-se quando o stock chega a 180.
5) Quantidade económica de encomenda. Procura anual = 4 500 un.; custo por encomenda = 40 €; custo de posse = 5 €/un./ano. Calcula a QEE e o n.º de encomendas por ano.
QEE = √( (2×4500×40) / 5 ) = √( 360 000 / 5 ) = √ 72 000 ≈ 268 un. N.º de encomendas = 4 500 / 268 ≈ 17 por ano.
6) Documento certo. Um cliente devolve mercadoria que já tinha sido faturada. Que documento emites e o que acontece ao stock?
Emite-se uma nota de crédito (corrige a fatura e devolve o valor/IVA). O stock dá entrada (a mercadoria voltou ao armazém) e a conta-corrente do cliente reduz-se.