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UC · Unidade de Competência · UC03811

Sebenta · Instalar e operar aplicações de gestão comercial e de aprovisionamento (UC03811)

ERP de gestão comercial, tabelas base, documentos de compra e venda, armazém, gestão de stocks, backups e RGPD
—h · — pontos crédito Curso: T. Inform. Gestão ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a instalar, configurar e operar uma aplicação informática de gestão comercial e de aprovisionamento — o tipo de software que quase todas as empresas usam para faturar, comprar, vender e controlar os seus armazéns. Estas aplicações são hoje, em regra, módulos de um ERP (Enterprise Resource Planning, sistema integrado de gestão empresarial), como o PHC, o Primavera, o Sage, o Moloni ou o Vendus. Aprender uma delas é aprender a lógica de todas: mudam os menus, não muda o modelo de dados nem o ciclo comercial.

No fim desta UC deves conseguir três coisas, exatamente como pede o referencial: instalar e configurar a aplicação (licenciamento, ambiente de trabalho, perfis de utilizador e tabelas base); emitir e gerir documentos comerciais (orçamentos, encomendas, guias, faturas, notas de crédito); e controlar o aprovisionamento e a gestão de stocks (entradas e saídas de mercadoria, stock de segurança, ponto de encomenda e quantidade ótima a encomendar). Pelo caminho, tratas ainda de temas transversais que fazem a diferença numa empresa real: cópias de segurança (backups), atualizações, ligação à contabilidade e proteção de dados (RGPD).

Não precisas de saber contabilidade avançada para começar — precisas de método e de rigor, porque numa aplicação de gestão cada documento move stock, move dinheiro e deixa rasto. Vamos construir tudo passo a passo, com exemplos resolvidos e cálculos de stocks incluídos.

Objetivos de aprendizagem (referencial UC03811): instalar e configurar aplicações de gestão comercial e de aprovisionamento; emitir e gerir documentos comerciais; controlar o aprovisionamento e a gestão de stocks. Para isso, vamos interpretar manuais e procedimentos de compra/venda, criar perfis e permissões, registar entidades e artigos, emitir documentos, movimentar armazém, aplicar métodos de vigilância de stocks, respeitar normas contabilísticas e de proteção de dados, e configurar backups e atualizações.


1. O que é uma aplicação de gestão comercial e de aprovisionamento

Uma aplicação de gestão comercial é o software que apoia o ciclo comercial de uma empresa: registar clientes e fornecedores, gerir o catálogo de produtos e preços, emitir documentos (orçamentos, encomendas, faturas) e controlar o que entra e sai do armazém. O aprovisionamento é a função de garantir que há material para vender ou produzir — nem a mais (dinheiro parado), nem a menos (rutura de stock).

Hoje estas funções vivem quase sempre dentro de um ERP — um sistema integrado onde os vários módulos partilham a mesma base de dados:

Módulo O que trata
Gestão comercial / Vendas orçamentos, encomendas de clientes, guias, faturas, notas de crédito
Compras / Aprovisionamento encomendas a fornecedores, receção de mercadoria, faturas de compra
Stocks / Armazém inventário, entradas e saídas, transferências entre armazéns
Contabilidade lançamento automático dos documentos, IVA, mapas
Tesouraria recebimentos, pagamentos, contas-correntes

A grande vantagem do ERP é a integração: quando emites uma fatura de venda, o sistema, num só ato, dá saída da mercadoria do armazém, debita a conta-corrente do cliente e prepara o lançamento contabilístico. Registas uma vez, o efeito propaga-se. É por isso que uma boa parametrização inicial (tabelas certas, contas certas) poupa horas de trabalho e evita erros.

Software comercial vs. faturação certificada

Em Portugal, o software que emite faturas tem de ser certificado pela Autoridade Tributária (AT). Isto significa que os documentos são numerados sequencialmente, não podem ser apagados (só anulados com nota de crédito) e são assinados digitalmente. Guarda esta ideia: numa aplicação de gestão comercial não se apaga um documento fiscal — corrige-se com outro documento.


2. Instalação, licenciamento e ambiente de trabalho

Antes de operar, é preciso instalar e licenciar a aplicação. O primeiro passo profissional é sempre interpretar o manual, o guião de instalação e os tutoriais do fabricante — cada produto tem requisitos próprios.

Modelos de instalação

Requisitos e passos típicos (instalação local)

  1. Verificar requisitos: sistema operativo, memória, espaço em disco e o motor de base de dados (muitos ERP portugueses assentam em Microsoft SQL Server).
  2. Instalar o servidor de base de dados e criar a base de dados da empresa.
  3. Instalar a aplicação (cliente) nos postos de trabalho.
  4. Licenciar: introduzir a chave/subscrição que ativa o produto e define quantos utilizadores em simultâneo e que módulos estão disponíveis.
  5. Criar a empresa no sistema: nome, NIF, morada, moeda, taxas de IVA, ano de exercício.

Licenciamento

O licenciamento define o que podes usar e por quanto tempo:

Ambiente de trabalho

Depois de entrar, encontras dois grandes tipos de menus:

Regra de ouro: primeiro parametriza-se, só depois se opera. Um sistema mal parametrizado produz documentos errados à velocidade da luz.


3. Controlo de acesso — perfis e privilégios

Numa empresa, nem toda a gente pode fazer tudo: o rececionista fatura, mas não deve alterar preços de custo nem ver margens; o gestor de compras faz encomendas a fornecedores; o administrador configura o sistema. Isto consegue-se com controlo de acesso.

Utilizadores, perfis e privilégios

O modelo em que se agrupam permissões num perfil e se atribui o perfil ao utilizador chama-se RBAC (Role-Based Access Control, controlo de acesso baseado em papéis). É a boa prática: quando alguém muda de funções, muda-se o perfil, não dezenas de permissões soltas.

Princípios de segurança

Exemplo — desenhar perfis

Perfil Pode Não pode
Balcão/Vendas criar orçamentos e faturas de venda, consultar stock ver preço de custo, anular faturas, mexer em tabelas
Compras criar encomendas e receções de fornecedor emitir faturas de venda, configurar o sistema
Gestor tudo em vendas e compras, ver margens e relatórios administração técnica (backups, utilizadores)
Administrador tudo, incluindo utilizadores, séries, backups

4. Tabelas base — entidades, armazéns, produtos e preços

As tabelas base (ou "ficheiros mestres") são a fundação do sistema: os dados que se registam uma vez e que todos os documentos usam. Se estas tabelas estiverem bem feitas, o resto corre bem.

Entidades (clientes e fornecedores)

Cada entidade tem uma ficha com, no mínimo: nome, NIF, morada, contactos, condições de pagamento (a pronto, 30/60 dias), desconto, conta contabilística associada e, muitas vezes, o limite de crédito. Uma boa ficha evita erros repetidos em cada documento.

Armazéns

Uma empresa pode ter vários armazéns (loja, armazém central, viatura). Cada artigo pode ter stock em cada armazém, e há transferências entre eles. Definir bem os armazéns permite saber onde está cada produto.

Produtos (artigos)

A ficha de artigo é a mais importante do sistema:

Campo Para que serve
Código / referência identifica o artigo de forma única
Código de barras (EAN) leitura rápida no balcão e no armazém
Descrição nome do produto
Família/categoria agrupa artigos (para relatórios e preços)
Unidade un., kg, litro, caixa
Taxa de IVA normal 23%, intermédia 13%, reduzida 6%
Preço de custo quanto custa comprar (base da margem)
Preço de venda quanto se vende (com ou sem IVA)
Stock atual / mínimo / máximo controlo de aprovisionamento
Fornecedor preferencial a quem se costuma comprar

Preços

Os preços raramente são um só. Uma aplicação de gestão comercial suporta, tipicamente:

Exemplo: um artigo custa 8 € e vende-se a 12 € (sem IVA). Margem = 12 − 8 = 4 €; margem sobre o custo = 4 / 8 = 50%. Com IVA a 23%, o preço ao público é 12 × 1,23 = 14,76 €.


5. Gestão de clientes e de fornecedores

Registadas as entidades, o sistema mantém para cada uma uma conta-corrente: o histórico do que devem (clientes) ou do que lhes devemos (fornecedores).

Ciclo do cliente

  1. Pedido / orçamento.
  2. Encomenda do cliente.
  3. Entrega com guia de remessa/transporte.
  4. Fatura (a conta-corrente do cliente fica a débito — ele passa a dever).
  5. Recebimento (a conta-corrente fica a crédito — a dívida extingue-se).

Ciclo do fornecedor

  1. Encomenda ao fornecedor.
  2. Receção da mercadoria (entra no armazém).
  3. Fatura de compra (a conta-corrente do fornecedor fica a crédito — passamos a dever).
  4. Pagamento (a conta-corrente fica a débito — extingue a dívida).

Ferramentas úteis


6. Documentos comerciais — o ciclo de compra e de venda

Emitir e gerir documentos é o coração do dia a dia. Convém perceber cada documento e a sua função.

Documentos de venda

Documento O que faz Move stock? É fiscal?
Orçamento / Proposta preço para o cliente decidir Não Não
Encomenda de cliente compromisso de compra do cliente Não (reserva) Não
Guia de remessa / transporte acompanha a mercadoria na entrega Sim (saída) Comunicada à AT
Fatura documenta a venda e o IVA Sim (se não houve guia) Sim
Fatura-recibo fatura + prova de pagamento Sim Sim
Nota de crédito corrige/anula uma fatura (devoluções) Sim (entrada) Sim

Documentos de compra

Encadeamento (transformação de documentos)

A grande vantagem do software é transformar um documento no seguinte sem reescrever: o orçamento vira encomenda, a encomenda vira guia, a guia vira fatura. Cada passo herda os dados do anterior e evita erros de transcrição.

Anular vs. corrigir

Repete-se, por ser central: um documento fiscal não se apaga. Uma venda errada corrige-se com uma nota de crédito; se ainda não foi finalizado, alguns documentos internos (orçamentos, encomendas) podem ser editados ou anulados. É esta disciplina que torna o software certificado.


7. Gestão de armazém — entradas e saídas de mercadorias

O stock só é fiável se todos os movimentos passarem pelo sistema. Há dois grandes tipos de movimento:

Valorização do stock

Quando o mesmo artigo é comprado a preços diferentes ao longo do tempo, é preciso decidir a que custo sai do armazém. Os métodos mais comuns:

Exemplo (CMP): tenho 100 un. compradas a 5 € (=500 €). Compro mais 100 un. a 7 € (=700 €). Stock = 200 un., valor = 1 200 €. Custo médio = 1 200 / 200 = 6 €/un. As próximas saídas custam 6 € cada até nova entrada alterar a média.

Inventário

Periodicamente faz-se inventário físico: conta-se o que existe e acerta-se com o que o sistema diz. As diferenças (quebras, roubos, erros) geram acertos. Um sistema bem operado tem poucas diferenças.


8. Gestão de stocks — vigilância e reaprovisionamento

Aqui está o núcleo técnico da UC: como evitar ruturas sem imobilizar dinheiro a mais. É preciso vigiar o nível de stock e decidir quando e quanto encomendar.

Conceitos-chave

Stock de segurança

Protege contra a incerteza (o fornecedor atrasa, a procura sobe). Uma forma simples e muito usada nas escolas:

$$Ss = \text{consumo médio diário} \times \text{dias de margem de segurança}$$

Ponto de encomenda

Quando o stock cai a este nível, encomenda-se — para que a mercadoria nova chegue antes de esgotar:

$$PE = (\text{consumo médio diário} \times \text{prazo de entrega}) + Ss$$

Nível (stock) médio

$$\text{Stock médio} = Ss + \dfrac{Q}{2}$$

onde Q é a quantidade encomendada de cada vez. (Sem stock de segurança, é simplesmente Q/2.)

Quantidade Económica de Encomenda (QEE / modelo de Wilson)

Encomendar muitas vezes pouca coisa aumenta o custo de fazer encomendas; encomendar poucas vezes muita coisa aumenta o custo de posse (armazenar). A QEE é a quantidade que minimiza o custo total:

$$QEE = \sqrt{\dfrac{2 \times D \times C_e}{C_p}}$$

Exemplo resolvido 1 · Ponto de encomenda e stock de segurança

Dados: consumo médio = 20 un./dia; prazo de entrega = 5 dias; queremos margem de segurança para 3 dias.

Ss = 20 × 3 = 60 unidades
Consumo durante o prazo = 20 × 5 = 100 unidades
PE = 100 + 60 = 160 unidades

Leitura: quando o stock chegar a 160 un., faz-se a encomenda. Nos 5 dias até chegar, gastam-se ~100 un.; sobram as 60 de segurança para imprevistos.

Exemplo resolvido 2 · Quantidade económica de encomenda

Dados: procura anual D = 3 600 un.; custo por encomenda Ce = 50 €; custo de posse Cp = 4 €/un./ano.

QEE = √( (2 × 3600 × 50) / 4 )
    = √( 360 000 / 4 )
    = √ 90 000
    = 300 unidades

Número de encomendas por ano = D / QEE = 3 600 / 300 = 12 (uma por mês).

Exemplo resolvido 3 · Stock médio

Com QEE = 300 e Ss = 60 do exemplo anterior:

Stock médio = Ss + Q/2 = 60 + 300/2 = 60 + 150 = 210 unidades

É o stock que, em média, está no armazém — útil para estimar o custo de posse anual (210 × 4 € = 840 €).

Na prática, a aplicação de gestão calcula tudo isto automaticamente a partir dos mínimos/máximos e do histórico de consumo, e pode até sugerir encomendas aos fornecedores.


9. Ligação à contabilidade e normas contabilísticas

Num ERP integrado, os documentos comerciais geram contabilidade de forma automática — desde que as tabelas estejam ligadas às contas certas.

Para isto funcionar, cada família de artigos, cada taxa de IVA e cada entidade aponta para uma conta do SNC. Aplicar as normas contabilísticas (SNC, Código de Contas) na parametrização é o que permite que a gestão comercial "fale" com a contabilidade sem digitar duas vezes.


10. Bases de dados, backups, atualizações e RGPD

Toda a informação da aplicação vive numa base de dados. Protegê-la e mantê-la é parte do trabalho.

Tipologias de bases de dados

Backups (cópias de segurança)

Uma base de dados sem backup é um acidente à espera de acontecer. Boas práticas:

Atualizações

Antes de atualizar: fazer backup, ler as notas de versão e, se possível, testar num ambiente separado. Manter a aplicação atualizada é também manter a certificação válida.

RGPD e segurança da informação

Estas aplicações guardam dados pessoais de clientes e trabalhadores (nome, NIF, morada, contactos), logo aplica-se o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD):


Erros comuns


Glossário


Síntese


Exercícios resolvidos

1) Perfis e permissões. Um funcionário de balcão precisa de emitir faturas e consultar stock, mas não deve ver preços de custo nem anular documentos. Que perfil lhe atribuis e que princípio aplicas?

Atribui-se o perfil "Balcão/Vendas" com permissão para criar faturas e consultar stock, sem ver preço de custo nem anular documentos. Aplica-se o princípio do menor privilégio (só o necessário) e a segregação de funções.

2) Margem e preço ao público. Um artigo custa 15 € e quer-se uma margem de 40% sobre o custo. Qual o preço de venda sem IVA e o preço ao público (IVA 23%)?

Margem = 15 × 0,40 = 6 €. Preço sem IVA = 15 + 6 = 21 €. Ao público = 21 × 1,23 = 25,83 €.

3) Custo médio ponderado. Há 50 un. em stock a 4 €. Compram-se mais 150 un. a 6 €. Qual o novo custo médio?

Valor total = (50×4) + (150×6) = 200 + 900 = 1 100 €. Quantidade = 200 un. Custo médio = 1 100 / 200 = 5,50 €/un.

4) Ponto de encomenda. Consumo médio = 30 un./dia; prazo de entrega = 4 dias; margem de segurança = 2 dias. Calcula o stock de segurança e o ponto de encomenda.

Ss = 30 × 2 = 60 un. Consumo no prazo = 30 × 4 = 120 un. PE = 120 + 60 = 180 un. Encomenda-se quando o stock chega a 180.

5) Quantidade económica de encomenda. Procura anual = 4 500 un.; custo por encomenda = 40 €; custo de posse = 5 €/un./ano. Calcula a QEE e o n.º de encomendas por ano.

QEE = √( (2×4500×40) / 5 ) = √( 360 000 / 5 ) = √ 72 000 ≈ 268 un. N.º de encomendas = 4 500 / 268 ≈ 17 por ano.

6) Documento certo. Um cliente devolve mercadoria que já tinha sido faturada. Que documento emites e o que acontece ao stock?

Emite-se uma nota de crédito (corrige a fatura e devolve o valor/IVA). O stock dá entrada (a mercadoria voltou ao armazém) e a conta-corrente do cliente reduz-se.