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UC · Unidade de Competência · UC03659

Adaptar a atividade física a praticantes com necessidades diferenciadas (UC03659)

Avaliação, prescrição e treino adaptado, desporto adaptado, inclusão e segurança
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desporto ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Esta sebenta ensina a adaptar a atividade física a praticantes com necessidades diferenciadas: pessoas com deficiência ou diversidade funcional, pessoas idosas, crianças e jovens em fases especiais do desenvolvimento, grávidas e pessoas com problemas de saúde como a hipertensão, a diabetes, a obesidade ou a osteoporose. O Técnico/a de Desporto que trabalha numa escola, numa Atividade de Enriquecimento Curricular (AEC), num clube ou num ginásio vai encontrar, mais cedo do que tarde, um praticante que não cabe no plano "para toda a gente". A competência que esta unidade desenvolve é saber avaliar, desenhar, planear e conduzir uma sessão em que esse praticante participa com segurança, com sentido e com prazer.

O percurso segue a lógica de trabalho real. Primeiro percebemos porque é que o exercício faz bem e como atua no corpo (estímulo metabólico e biomecânico). Depois conhecemos as pessoas: os tipos de deficiência, a diversidade funcional, as limitações do envelhecimento e das condições de saúde, e os direitos que lhes assistem. A seguir aprendemos a avaliar (rastreio, estratificação de risco, instrumentos de condição física, necessidades e expectativas) e a prescrever (princípios, métodos, programas). Entram então os produtos de apoio, materiais e equipamentos, as estratégias de adaptação, os movimentos de estabilidade, locomotores e manipulativos e as técnicas de inclusão. Segue-se o desporto adaptado, com a terminologia e as regras do Goalball, do voleibol sentado, do futebol para cegos e do Boccia. Fechamos com o planeamento, execução e avaliação do treino adaptado, a comunicação e relação com o praticante, a segurança e a ética profissional.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os princípios, os pressupostos e as técnicas da avaliação e prescrição do exercício adaptado nas diferentes fases do ciclo de vida; avaliar as capacidades, necessidades individuais específicas e expectativas dos participantes; desenhar atividades físicas adaptadas para públicos com limitações do envelhecimento ou de outras condições físicas ou de saúde, e para participantes com limitações ou deficiências motoras, físicas, intelectuais ou do desenvolvimento; planear, organizar e desenvolver o treino adaptado.

Uma nota sobre linguagem, que vale para toda a sebenta: falamos de pessoas antes de falarmos de condições. Dizemos "pessoa com deficiência visual", "praticante cego", "praticante com paralisia cerebral", e não "um deficiente" ou "um paralítico". A linguagem molda a forma como planeamos: quem vê primeiro a pessoa procura o que ela consegue fazer e como o contexto se pode ajustar.

1. Exercício, atividade física e saúde

Definições que convém distinguir

Três termos aparecem constantemente e confundem-se com facilidade:

Termo Definição Exemplo
Atividade física Qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que aumenta o gasto de energia acima do repouso Subir escadas, passear o cão, jardinar, jogar à bola no recreio
Exercício físico Atividade física planeada, estruturada e repetida, com o objetivo de melhorar ou manter uma ou mais componentes da condição física Uma sessão de hidroginástica às terças e quintas, um circuito de força de 30 minutos
Desporto Atividade física com regras, normalmente competitiva ou com objetivo de desempenho Um jogo de voleibol sentado, um torneio de Boccia
Condição (aptidão) física O conjunto de atributos que a pessoa tem ou adquire e que lhe permitem realizar atividade física Capacidade cardiorrespiratória, força, flexibilidade, equilíbrio, composição corporal

A atividade física formal é a que acontece em contexto organizado, com horário, local e orientação: uma aula, um treino, um programa de reabilitação. A atividade física informal é a que acontece no dia a dia, sem estrutura, e que também conta: caminhar para o trabalho, brincar, fazer tarefas domésticas, deslocar-se de cadeira de rodas. Para muitos praticantes com necessidades diferenciadas, a atividade informal é a maior fatia do movimento diário, e um bom técnico pergunta por ela na avaliação inicial, porque pode ser aproveitada e potenciada.

Vantagens da atividade física no ser humano

A atividade física regular, adaptada a cada pessoa, tem benefícios em várias dimensões:

Para uma pessoa com deficiência ou com doença crónica, estes ganhos têm um peso acrescido. Uma pessoa que usa cadeira de rodas depende da força dos membros superiores e do tronco para a vida inteira, e preservá-la é preservar autonomia. Uma pessoa idosa com um pouco mais de força nas pernas levanta-se da cadeira sozinha, e isso muda o dia.

Quanto movimento? Recomendações gerais

As recomendações da Organização Mundial da Saúde para a atividade física servem de ponto de partida e aplicam-se, com adaptações, a quase todas as populações:

Estas metas são o horizonte. Na prática, uma pessoa sedentária que começa com 10 minutos de caminhada por dia já está a ganhar saúde, e o papel do técnico é desenhar o caminho de progressão para as metas, sem saltar degraus.

O exercício como estímulo metabólico

Cada sessão de exercício é, antes de mais, um desafio energético. O músculo precisa de ATP (adenosina trifosfato) para contrair, e o corpo tem três vias para o produzir:

  1. Via dos fosfagénios (ATP-PCr): energia imediata, muito potente e muito curta (cerca de 10 segundos). Dominante num lançamento de Boccia ou num sprint de poucos metros.
  2. Via glicolítica (anaeróbia láctica): energia rápida a partir da glicose, dominante em esforços intensos de 30 segundos a 2 minutos, com acumulação de lactato.
  3. Via oxidativa (aeróbia): energia a partir de glicose e gorduras com oxigénio, dominante em esforços prolongados e de intensidade moderada, como uma caminhada ou uma sessão de hidroginástica.

Na vida real as três vias funcionam em simultâneo; muda apenas a contribuição relativa de cada uma, consoante a intensidade e a duração. O estímulo metabólico é a razão pela qual o exercício melhora a captação de glicose pelo músculo (útil na diabetes), aumenta o gasto energético (útil na obesidade) e melhora a capacidade do coração e dos pulmões de fornecer oxigénio (útil quase sempre).

Para quantificar a intensidade usa-se o equivalente metabólico (MET): 1 MET é o gasto de energia em repouso, cerca de 3,5 ml de oxigénio por kg de peso por minuto. Uma atividade de 3 a 6 METs é considerada moderada (caminhar a bom ritmo), e acima de 6 METs, vigorosa (correr). As tabelas de METs foram feitas com pessoas sem deficiência, por isso, para um praticante em cadeira de rodas ou com um padrão de marcha alterado, o mesmo gesto pode custar mais ou menos energia, e convém complementar com a perceção subjetiva de esforço, que veremos adiante.

O exercício como estímulo biomecânico

O corpo também responde às forças mecânicas. O osso, o músculo, o tendão e a cartilagem adaptam-se à carga a que são sujeitos:

Em qualquer prescrição, o técnico equilibra os dois estímulos: o metabólico (quanta energia, que sistema) e o biomecânico (que cargas, em que articulações, com que impacto). Uma pessoa com obesidade e dor no joelho precisa de estímulo metabólico elevado com baixo impacto articular, e a solução pode ser hidroginástica ou bicicleta, em vez de corrida.

Exercício como fator de intervenção primária e secundária

A prevenção classifica-se por níveis, e o exercício atua em todos:

Nível Objetivo Exemplo de exercício
Primária Evitar que a doença apareça Programa de caminhada em adultos sedentários para prevenir diabetes tipo 2
Secundária Detetar cedo e travar a progressão Treino aeróbio e de força em pessoa com hipertensão ligeira, em complemento ao tratamento
Terciária Reduzir incapacidade e complicações de doença instalada Programa de reabilitação funcional após AVC

O técnico de desporto trabalha sobretudo na prevenção primária e na secundária (em articulação com os profissionais de saúde) e apoia a manutenção funcional da terciária. Fora do seu âmbito ficam o diagnóstico e a prescrição de tratamento, que pertencem a médicos e a profissionais de saúde.

Exemplo resolvido · Quanto mexe realmente a Rosa?

A Rosa tem 62 anos, está reformada e tem a tensão arterial ligeiramente elevada. Inscreve-se num programa municipal de atividade física. O técnico quer saber se ela cumpre as recomendações.

  1. Perguntar pelo informal: a Rosa caminha 15 minutos para ir ao mercado, 5 dias por semana, e trata do quintal 2 manhãs por semana (cerca de 40 minutos cada).
  2. Somar a atividade moderada: 15 × 5 = 75 minutos de caminhada; 40 × 2 = 80 minutos de trabalho de jardim. Total: 155 minutos por semana, a intensidade ligeira a moderada.
  3. Comparar com a recomendação: o mínimo para adultos é 150 minutos moderados; mas o jardim é intensidade variável, e a caminhada ao mercado é ligeira. Considera-se cumprido à justa, e só se o esforço for realmente moderado (a Rosa fala mas não consegue cantar).
  4. Verificar o que falta: não há reforço muscular estruturado nem treino de equilíbrio, e aos 62 anos o reforço muscular deve estar em dois ou mais dias por semana.
  5. Conclusão: o programa deve focar força e equilíbrio, em vez de acrescentar caminhada. Resposta a dar à Rosa: "Já se mexe bastante, vamos juntar força e equilíbrio".

A lição: olhar para o informal evita prescrever o que a pessoa já faz e permite concentrar o tempo da sessão onde há lacunas.

2. Deficiência, incapacidade e diversidade funcional

Como se define deficiência

Ao longo do tempo, o modo de pensar a deficiência mudou:

A CIF não classifica pessoas, classifica funcionalidade. Descreve a saúde de uma pessoa em quatro dimensões que interagem entre si: funções e estruturas do corpo, atividades, participação e fatores ambientais e pessoais. Na linguagem da CIF:

Conceito O que significa Exemplo
Deficiência (alteração de função ou estrutura) Problema numa função ou estrutura do corpo Perda de uma perna, perda de visão
Limitação da atividade Dificuldade em executar uma tarefa Dificuldade em correr ou em apanhar uma bola
Restrição à participação Problema em envolver-se em situações da vida Não poder jogar no recreio porque o jogo não está adaptado
Fatores ambientais Contexto físico, social e de atitudes Pavimento, presença de rampa, atitude dos colegas

Esta visão é muito útil para o técnico de desporto. Perante um praticante, em vez de perguntar apenas "que deficiência tem?", pergunta-se "o que consegue fazer, o que quer fazer, e que barreiras do contexto posso remover?". A mesma deficiência pode ter participação plena num contexto bem adaptado e participação nula num contexto que não se ajustou.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotada pela Organização das Nações Unidas em 2006 e ratificada por Portugal, descreve as pessoas com deficiência como aquelas que têm incapacidades duradouras físicas, mentais, intelectuais ou sensoriais, que em interação com várias barreiras podem impedir a sua participação plena e efetiva na sociedade em condições de igualdade com os outros. A Convenção reconhece expressamente o direito de participar em atividades recreativas, de lazer e desportivas (artigo 30.º) e obriga os Estados a promover essa participação em todos os níveis.

Diversidade funcional e terminologia

A expressão diversidade funcional sublinha que as pessoas funcionam de formas diferentes, sem hierarquia de "normal" e "anormal". É mais usada em contextos de inclusão e comunidade, enquanto "pessoa com deficiência" é o termo jurídico e institucional corrente (é o que se usa na lei e na Convenção). Nesta sebenta usamos ambos, com o mesmo respeito.

Alguns princípios de linguagem profissional:

Direitos das pessoas com limitações e com deficiência

O técnico deve conhecer o enquadramento dos direitos porque ele é a razão pela qual a adaptação não é um favor, é uma obrigação social e profissional.

Dois conceitos práticos que decorrem destes direitos:

Para o regime de acesso e exercício da atividade de treinador de desporto (Lei n.º 40/2012, na redação em vigor) e para as atribuições do IPDJ, consulta-se sempre o diploma publicado em Diário da República, porque estas matérias foram sendo alteradas.

Os grandes tipos de deficiência ou incapacidade

Para efeitos de planeamento, agrupam-se as deficiências em famílias, sabendo que a mesma pessoa pode ter mais do que uma (deficiência múltipla):

Família Inclui Impacto principal na prática
Visual Cegueira e baixa visão Orientação no espaço, seguimento da bola, segurança em deslocações
Auditiva Surdez e hipoacusia Comunicação, perceção de sinais sonoros, equilíbrio em alguns casos
Motora e músculo-esquelética Lesão vertebro-medular, paralisia cerebral, amputações, distrofias, espinha bífida, sequelas de AVC Mobilidade, força, controlo do movimento, uso de cadeira de rodas ou próteses
Da voz e da fala Perturbações da comunicação oral Interação com o grupo, instruções, confiança
Intelectual e do desenvolvimento Deficiência intelectual, trissomia 21, perturbações do desenvolvimento Compreensão de regras, tempo de aprendizagem, necessidade de rotinas
Espetro do autismo Perturbação do espetro do autismo Comunicação social, sensibilidade sensorial, flexibilidade
Doença crónica com limitação funcional Doença cardíaca, respiratória, neurológica Tolerância ao esforço, fadiga, cuidados médicos

Exemplo resolvido · Do diagnóstico às perguntas úteis

O Tiago, 14 anos, tem paralisia cerebral espástica e desloca-se com andarilho. Entra no grupo de AEC de atividade física.

  1. Evitar partir do rótulo: "paralisia cerebral" é um nome para um conjunto muito variado de situações; dois jovens com o mesmo diagnóstico podem ter capacidades totalmente diferentes.
  2. Perguntar à família e ao próprio Tiago (e, se possível, aos terapeutas): o que consegue fazer sozinho? Quanto tempo aguenta de pé? Tem dor ou fadiga? Medicação? Crises convulsivas? Que atividades gosta?
  3. Perguntar ao contexto: o pavimento é liso? A sala tem espaço para o andarilho? Há uma sala alternativa se fizer calor, já que a espasticidade pode agravar com o cansaço?
  4. Definir uma primeira sessão de observação: jogos simples de equilíbrio e de lançamento, com tempo para descansar.
  5. Registar: o que fez bem, onde precisou de ajuda, o que o motivou.

O resultado desta análise é um perfil funcional, não um rótulo. O perfil funcional é o ponto de partida do plano individual.

3. Diversidade funcional: o que muda em cada caso

Este capítulo percorre os grupos de pessoas com deficiência ou diversidade funcional previstos no referencial. Para cada um, interessa saber o que é, o que muda na prática e que preocupações específicas tem o técnico. O que se descreve são tendências, não regras para cada pessoa: o perfil individual manda sempre.

Pessoas cegas ou com baixa visão

A deficiência visual vai da baixa visão (visão reduzida que não se corrige totalmente com óculos ou lentes) à cegueira (ausência de visão útil). No desporto adaptado, a classificação da federação internacional de desporto para cegos (IBSA) usa três classes, definidas por acuidade visual (escala LogMAR) e campo visual: B1 (acuidade visual pior do que LogMAR 2,6), B2 (acuidade de LogMAR 1,5 a 2,6 e/ou campo visual inferior a 10 graus) e B3 (acuidade de LogMAR 1,4 a 1,0 e/ou campo visual inferior a 40 graus). Os critérios completos constam do regulamento de classificação em vigor.

O que muda na prática: - O espaço deve ser conhecido e estável. O praticante explora-o a pé, com o técnico, antes da atividade, e não se mudam obstáculos sem avisar. - A informação passa do olhar para o som, o tato e a descrição verbal: bolas com guizos, linhas de pista em relevo, fitas táteis, contrastes fortes de cor para quem tem baixa visão. - O técnico fala em vez de apontar: "o cone está a 3 passos à tua direita", e não "ali". - No acompanhamento, usa-se a técnica do guia vidente: o praticante agarra com a mão o cotovelo do guia, ligeiramente acima, e caminha meio passo atrás, sentindo o movimento do corpo do guia. Pergunta-se antes se quer ser guiado. - Cuidados de segurança: pavimento sem obstáculos, equipamentos acolchoados nas zonas de risco, espaço livre à volta, comunicação clara de início e fim de exercício.

Pessoas surdas

A surdez e a hipoacusia variam em grau, em momento de aparição (de nascença ou adquirida) e em forma de comunicação. Há pessoas surdas que comunicam em Língua Gestual Portuguesa (LGP), que a Constituição manda proteger e valorizar (artigo 74.º), outras que fazem leitura labial e usam aparelhos auditivos ou implante coclear, e outras que usam os dois recursos.

O que muda na prática: - A comunicação é visual: colocar-se de frente, com boa luz, falar claro e sem tapar a boca, usar gestos, demonstrações, cartões com imagens e quadros. - Sinais sonoros (apito, música) devem ser acompanhados por sinais visuais (bandeira, luz, gesto) ou táteis (toque no ombro). - Para chamar a atenção, usam-se um toque no ombro, um aceno ou uma luz, nunca gritar nem falar de costas. - Em alguns casos de surdez de origem vestibular pode haver alteração do equilíbrio, que importa observar em exercícios de olhos fechados ou em superfícies instáveis. - Quando há intérprete de LGP, o técnico dirige-se ao praticante, não ao intérprete, e espera pelos tempos da interpretação.

Pessoas com deficiências músculo-esqueléticas e do movimento

É o grupo mais vasto e heterogéneo. Dele fazem parte:

O que muda na prática: transferências seguras (cama, cadeira, tapete), posicionamento, alinhamento postural, cuidados com a pele, controlo da temperatura, pausas, e foco na força do tronco e dos membros superiores em quem usa cadeira de rodas, para preservar a autonomia e proteger os ombros, que são a articulação mais sobrecarregada.

Pessoas com deficiência da voz e da fala

Inclui perturbações de articulação, de fluência (gaguez), de voz, e a ausência de fala oral. Não há necessariamente alteração da compreensão. O técnico dá tempo de resposta, não completa as frases pela pessoa, faz perguntas de resposta curta quando útil, e aceita comunicação alternativa e aumentativa (pranchas de comunicação, tablets, gestos). Evita pressionar a fala perante o grupo.

Pessoas com deficiência intelectual e do desenvolvimento

A deficiência intelectual caracteriza-se por limitações significativas no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo, com início durante o período de desenvolvimento. Inclui situações como a trissomia 21, o síndroma de X frágil ou outras causas, de intensidade ligeira a profunda. O organismo internacional Special Olympics, criado para promover o desporto de pessoas com deficiência intelectual, organiza treino e competição com programas próprios, incluindo o desporto unificado, em que praticantes com e sem deficiência intelectual jogam na mesma equipa.

O que muda na prática: - Instruções curtas, concretas e uma de cada vez; demonstração mais do que explicação; repetição; apoio visual (pictogramas, sequência de fotografias). - Rotinas previsíveis: a sessão tem sempre a mesma estrutura, o que reduz ansiedade e aumenta autonomia. - Reforço positivo imediato e específico ("Muito bem, lançaste com as duas mãos"). - Em pessoas com trissomia 21 há particularidades frequentes, como hipotonia, laxidão ligamentar, problemas cardíacos congénitos e, em alguns casos, instabilidade da articulação entre as duas primeiras vértebras cervicais, pelo que a orientação do médico deve ser consultada antes de atividades com flexão forçada do pescoço, saltos de impacto ou quedas. - Respeitar a idade cronológica: usar materiais e linguagem adequados à idade, nunca infantilizar um adulto.

Pessoas com autismo

A perturbação do espetro do autismo envolve diferenças na comunicação e interação social e padrões de comportamento e interesses mais restritos ou repetitivos, com diferenças sensoriais frequentes. É um espetro: há pessoas com grande apoio necessário e outras muito autónomas.

O que muda na prática: - Previsibilidade: horário visual (agenda com imagens), aviso antes de mudanças, mostrar o espaço antes da primeira sessão. - Gestão sensorial: barulho do apito, luz forte, cheiros e contacto físico inesperado podem ser desconfortáveis. Oferecer protetores auditivos, um canto calmo e permitir pausas. - Linguagem literal e clara: evitar ironia e expressões ambíguas; dizer o que fazer ("põe a bola no cesto") em vez do que não fazer. - Interesses especiais podem ser usados para motivar. - Perante uma crise (sobrecarga sensorial), reduzir estímulos, falar baixo, dar espaço e tempo, sem repreender.

Exemplo resolvido · Adaptar a comunicação de uma sessão de grupo

Um grupo de AEC tem 12 crianças, entre as quais a Inês, surda e utilizadora de LGP, e o Rui, com autismo e sensibilidade a barulhos fortes. O técnico quer introduzir um jogo de perseguição.

  1. Identificar as barreiras de comunicação: o apito de início é inaudível para a Inês e doloroso para o Rui; as regras explicadas só por voz não chegam à Inês.
  2. Escolher sinais alternativos: início e fim com uma bandeira de cor (verde para começar, vermelha para parar) e uma luz, acompanhados de um gesto combinado. O apito é dispensado.
  3. Preparar apoios visuais: cartões com imagens das regras (correr, parar, "casa"), mostrados antes e durante o jogo, e uma agenda visual da sessão afixada na parede.
  4. Posicionar-se: o técnico fala de frente, em zona bem iluminada, e pede a um assistente (ou ao intérprete, quando existe) que apoie a Inês.
  5. Demonstrar antes de jogar: duas crianças voluntárias fazem uma ronda de treino.
  6. Prever uma zona calma para o Rui, sem o isolar, e deixar que decida quando volta.
  7. Avaliar: no fim, perguntar às crianças (com gestos, imagens ou palavras) o que correu bem.

A atividade é a mesma para todos; mudaram os canais de comunicação e o ambiente, o que é o essencial da adaptação.

4. Envelhecimento, fases da vida e condições de saúde

Exercício, desenvolvimento e envelhecimento

O corpo muda ao longo da vida, e as necessidades de movimento mudam com ele. Planear bem exige conhecer cada fase.

Crianças (infância) - Estão em crescimento e a aprender o movimento. A prioridade é o desenvolvimento de competências motoras fundamentais (correr, saltar, lançar, receber) através do jogo, da variedade e do prazer, e não da especialização precoce. - Termorregulação menos eficiente do que a dos adultos: atenção ao calor e à hidratação. - Atenção curta: atividades curtas, variadas e com muita participação. - Os ossos têm zonas de crescimento ainda frágeis; evitar cargas máximas e repetição excessiva do mesmo gesto.

Jovens (adolescência) - Estirão de crescimento, mudanças corporais e emocionais. Podem ter desajustes temporários de coordenação ("desajeitamento" do crescimento). - Podem iniciar treino de força orientado, com técnica supervisionada e cargas adequadas à maturação. - Motivação social é central: pertença ao grupo, estética, desafio. Em adolescentes com deficiência, a inclusão com pares é muito importante.

Adultos - Fase de manutenção. Muitos adultos têm sedentarismo laboral. O foco é cumprir as recomendações, prevenir doenças crónicas e gerir o stress.

Idosos - Com o envelhecimento diminuem, em média, a massa e a força muscular (sarcopenia), a densidade óssea, o equilíbrio, a capacidade cardiorrespiratória e a velocidade de reação. Aumentam o risco de quedas e de fraturas. - A boa notícia é que o treino, mesmo iniciado tarde, produz ganhos mensuráveis de força, de equilíbrio e de autonomia. - A heterogeneidade é enorme: há pessoas de 80 anos muito ativas e pessoas de 65 muito frágeis. A idade cronológica diz pouco; a avaliação funcional diz muito. - Programas multicomponente: força, equilíbrio, marcha, resistência aeróbia e mobilidade, com exercícios funcionais ligados ao dia a dia (levantar da cadeira, subir degraus, carregar um saco).

Principais características, capacidades, necessidades e objetivos nas fases especiais da vida

Fase Capacidades a desenvolver Necessidades principais Objetivos habituais
Crianças Coordenação, habilidades motoras fundamentais Jogo, variedade, segurança Gosto pelo movimento, competências de base
Jovens Força, resistência, desempenho técnico Pertença, desafio, orientação Hábitos duradouros, desempenho, saúde
Idosos Força, equilíbrio, mobilidade, resistência Segurança, autonomia, socialização Prevenir quedas, manter independência

Pessoas grávidas

A gravidez é uma fase especial em que o exercício, salvo contraindicação, é recomendado: melhora o controlo do peso, reduz o risco de diabetes gestacional e de hipertensão, melhora o humor e prepara o corpo para o parto.

Orientações gerais (sempre articuladas com o médico ou enfermeiro especialista): - Preferir atividade de intensidade moderada, em que ainda se consegue conversar. - Evitar atividades com risco de queda ou de impacto abdominal (desportos de contacto, equitação, mergulho com garrafa). - A partir do segundo trimestre, evitar exercícios prolongados em decúbito dorsal (deitada de costas), porque o útero pode comprimir grandes vasos e baixar a tensão. - Evitar calor excessivo e garantir hidratação. - Incluir treino do assoalho pélvico e atenção à zona abdominal (diástase dos músculos retos abdominais). - Sinais para parar e procurar ajuda médica: perda de sangue ou líquido pela vagina, falta de ar antes do esforço, tonturas, cefaleia persistente, dor no peito, dor ou inchaço numa perna, contrações dolorosas regulares e diminuição dos movimentos do bebé.

Pessoas com características físicas excecionais

Inclui, por exemplo, pessoas de estatura muito elevada ou muito baixa, de grande massa corporal, ou com hipermobilidade articular. O desafio é o ajuste do equipamento e das cargas: bancos, bicicletas, halteres, cintos. Um praticante de dois metros e dez, ou de um metro e quarenta, precisa de pegas, alturas e pesos pensados para a sua alavanca e para o seu risco articular.

Hipertensão

Diabetes

Obesidade

Osteoporose

Patologias musculo-esqueléticas

Dor lombar, artrose, tendinopatias, sequelas de fraturas e cirurgias exigem progressão gradual e uso de dor como guia (aceitar desconforto leve e estável, parar com dor aguda ou que persiste após a sessão). A artrose beneficia do exercício regular de baixo impacto e do reforço muscular à volta da articulação. Cada caso deve respeitar as indicações do profissional de saúde que acompanha.

Exemplo resolvido · Adaptar a sessão a uma pessoa hipertensa e com excesso de peso

O Joaquim, 57 anos, tem hipertensão controlada com medicação (incluindo bloqueador beta), IMC de 31 e dor ligeira no joelho direito. Quer entrar num grupo de ginástica de manutenção.

  1. Identificar os riscos: tensão arterial, medicação que limita a frequência cardíaca, peso, joelho.
  2. Antes de começar: confirmar com o médico que está autorizado a fazer exercício e se há restrições; medir a tensão arterial no início da sessão.
  3. Escolher o tipo de exercício: aeróbio de baixo impacto (bicicleta estática, caminhada em plano, hidroginástica), que dá estímulo metabólico sem sobrecarregar o joelho.
  4. Medir a intensidade: como o bloqueador beta limita a frequência cardíaca, usar a perceção subjetiva de esforço (alvo de 12 a 13 na escala de Borg de 6 a 20, "um pouco difícil") e o teste da conversa.
  5. Força: exercícios dinâmicos com cargas ligeiras a moderadas, 12 a 15 repetições, expirando no esforço, sem suster a respiração.
  6. Progressão: começar com 20 minutos de aeróbio, três vezes por semana, e acrescentar 5 minutos por semana se tolerar bem.
  7. Sinais de paragem: tonturas, dor no peito, falta de ar desproporcionada, dor no joelho aguda.

Resultado: o Joaquim participa em segurança no grupo, com ajustes individuais de intensidade, tipo de exercício e monitorização.

5. Avaliação do praticante

Para que serve avaliar

Avaliar não é fazer testes por fazer. A avaliação responde a três perguntas: é seguro começar? (rastreio e risco), de onde parto? (condição física e competências de base) e o que quer e precisa esta pessoa? (necessidades e expectativas). Só depois disto se prescreve.

Os princípios e pressupostos da avaliação adaptada são:

Etapas da avaliação

Etapa O que se faz Exemplo
1. Recolha de informação Questionário de saúde, histórico, medicação, objetivos Perguntar por cirurgias, quedas, medicação, hábitos
2. Rastreio de risco Identificar sinais, sintomas e fatores de risco Questionário de prontidão para a atividade física
3. Avaliação física Medidas e testes de condição física Tensão arterial, perímetro da cintura, teste de marcha
4. Avaliação funcional e das competências-base Observar movimentos fundamentais e autonomia Levantar da cadeira, lançar e receber, transferências
5. Necessidades e expectativas Conversa sobre objetivos, preferências, barreiras "O que gostava de conseguir daqui a 3 meses?"
6. Síntese e decisão Decidir encaminhar, começar, e com que cautelas Perfil e plano inicial

Rastreio pré-participação e estratificação de risco

Antes de iniciar um programa, convém perceber se a pessoa tem doença cardiovascular, metabólica ou renal conhecida, sintomas sugestivos, e se já pratica exercício. Em Portugal e noutros países usa-se muito o questionário de prontidão para a atividade física (PAR-Q+), que identifica quem deve consultar um profissional de saúde antes de começar.

A estratificação de risco de doença cardiovascular ou metabólica organiza as pessoas em níveis com base em três elementos: doença conhecida (cardíaca, metabólica, renal), sinais e sintomas (dor no peito, falta de ar desproporcionada, tonturas, palpitações, edemas) e fatores de risco (idade, tabaco, hipertensão, colesterol elevado, diabetes, obesidade, sedentarismo, história familiar). Em termos práticos:

Situação Atitude do técnico
Sem doença conhecida, sem sintomas, com poucos fatores de risco, e já ativo Pode iniciar e progredir de forma gradual, com atenção
Sem doença conhecida, sem sintomas, sedentário, vários fatores de risco Começar com intensidade leve a moderada, progressão lenta, aconselhar avaliação médica
Doença conhecida ou sintomas Parar e encaminhar para avaliação médica antes de iniciar ou progredir

O técnico de desporto não diagnostica nem decide sobre a aptidão médica; reconhece sinais de alerta, usa os instrumentos de rastreio e encaminha. Esta fronteira é parte da ética profissional.

Instrumentos e técnicas de avaliação da condição física

A condição física tem componentes ligadas à saúde: capacidade cardiorrespiratória, força e resistência muscular, flexibilidade, equilíbrio e agilidade e composição corporal. Para cada uma existem instrumentos de campo, simples, utilizáveis fora do laboratório:

Componente Instrumentos de campo Observações
Cardiorrespiratória Teste de marcha de 6 minutos; teste de 2 minutos de marcha estacionária; teste de passada; teste de vai e vem (crianças); ergómetro de braços (cadeira de rodas) Em quem usa cadeira, preferir testes de braço
Força e resistência muscular Levantar da cadeira em 30 segundos; flexão do antebraço com peso em 30 segundos; dinamometria de preensão; força isométrica Adaptar posição e carga
Flexibilidade Sentar e alcançar na cadeira; alcançar atrás das costas Medir sempre dos dois lados
Equilíbrio e agilidade Teste de levantar, andar 3 m e sentar (Timed Up and Go); equilíbrio unipodal; escala de equilíbrio de Berg Úteis na previsão do risco de queda
Composição corporal Peso, altura, IMC, perímetro da cintura, pregas cutâneas, bioimpedância Em amputações ou paralisias, os valores de referência devem ser ajustados

Os testes de aptidão funcional para pessoas idosas organizados na bateria Senior Fitness Test (levantar da cadeira, flexão do antebraço, marcha de 2 minutos ou de 6 minutos, sentar e alcançar, alcançar atrás das costas, levantar-andar-sentar) são muito usados em programas para seniores. Para crianças e jovens usam-se baterias como a Fitnessgram e a Eurofit. Para a avaliação motora de crianças, existem testes das competências motoras fundamentais, como o Test of Gross Motor Development (TGMD).

Perceção subjetiva de esforço (PSE). Quando medir a frequência cardíaca não é fiável (medicação, alguns tipos de deficiência), a escala de Borg 6 a 20 (6 é nenhum esforço, 20 é esforço máximo) ou a escala CR10 (0 a 10) permite ao praticante dizer como sente o esforço. Moderado corresponde, grosso modo, a 12 a 14 na escala de Borg 6 a 20 e vigoroso a valores acima de 14; na escala CR10 usam-se os valores intermédios, consoante o manual adotado.

Frequência cardíaca. A estimativa clássica da frequência cardíaca máxima (220 menos a idade) é grosseira e tem grande margem de erro. Em pessoas com lesão medular alta, a frequência cardíaca máxima é mais baixa, e esta fórmula não se aplica. A reserva de frequência cardíaca (método de Karvonen) calcula a intensidade-alvo como: FC repouso + percentagem × (FC máxima menos FC repouso).

Avaliar as competências-base, as necessidades e as expectativas

Além da condição física, o técnico avalia:

Uma técnica útil é a entrevista motivacional de curta duração, com perguntas abertas ("Conta-me um dia típico", "O que te custa mais?", "Como saberás que isto está a correr bem?") e escuta ativa, sem julgar.

Exemplo resolvido · Uma avaliação inicial passo a passo

A Dona Amélia, 74 anos, quer participar num grupo de ginástica sénior. Tomou medicação para a tensão arterial e já caiu duas vezes no último ano.

  1. Recolher informação: questionário de saúde e PAR-Q+. A Amélia refere medicação para tensão arterial, sem dor no peito, sem falta de ar anormal, sem tonturas.
  2. Rastreio: sem doença cardíaca conhecida nem sintomas; com fatores de risco (idade, hipertensão), com baixa atividade. Atitude: pode começar com intensidade ligeira a moderada, com progressão lenta. Pedir autorização médica por precaução, visto ter tido quedas.
  3. Tensão arterial em repouso: 138/82 mmHg. Permite iniciar.
  4. Testes funcionais: levantar da cadeira em 30 segundos: 8 repetições (abaixo do esperado para a idade); Timed Up and Go: 12 segundos (limite para risco de queda); marcha de 2 minutos: valores baixos.
  5. Necessidades e expectativas: "Quero perder o medo de cair e conseguir ir à praia com os netos". Objetivos claros e funcionais.
  6. Síntese: perfil de risco de queda, força de pernas reduzida; prioridades: força dos membros inferiores, equilíbrio e marcha. Plano: duas sessões por semana, multicomponente; reavaliar aos três meses com os mesmos testes.

A avaliação deu ao técnico uma linha de base mensurável e objetivos importantes para a Amélia.

6. Prescrição do exercício adaptado

Conceitos, princípios e pressupostos

Prescrever exercício é definir, com base na avaliação e nos objetivos, o que fazer, com que intensidade, quanto tempo, com que frequência e como progredir. Na prescrição adaptada acrescentam-se as particularidades da condição do praticante.

Os princípios do treino continuam a valer, e a adaptação é uma questão de os aplicar com inteligência:

Princípio Significado Aplicação adaptada
Individualidade Cada pessoa responde de forma diferente O plano parte do perfil, não da média
Especificidade O corpo adapta-se ao que se treina Treinar a tarefa pretendida (levantar-se, empurrar a cadeira)
Sobrecarga É preciso um estímulo acima do habitual Aumentar o desafio, mesmo que pequeno
Progressão O estímulo cresce de forma gradual Pequenos incrementos, avaliação a cada semana
Reversibilidade Os ganhos perdem-se sem treino Garantir regularidade
Variedade Diversificar evita monotonia e sobrecargas Alternar estímulos e jogos
Recuperação A adaptação acontece no descanso Mais tempo de recuperação quando há fadiga ou doença

O modelo FITT-VP

Uma forma simples de organizar a prescrição é o modelo FITT-VP:

Métodos e orientações por componente

Capacidade aeróbia - Frequência: 3 a 5 dias por semana. - Intensidade: moderada (PSE 12 a 14; teste da conversa) para a maioria; leve para quem começa; intervalos curtos podem ser a melhor via para quem não suporta períodos contínuos longos. - Tempo: 20 a 60 minutos por dia, podendo dividir-se em blocos de 10 minutos. - Tipo: marcha, bicicleta, remo, natação, ergómetro de braços, dança, hidroginástica.

Força muscular - Frequência: 2 a 3 dias por semana, não consecutivos, para o mesmo grupo muscular. - Intensidade: para iniciantes, 8 a 12 repetições com carga que permita boa técnica; para idosos e iniciantes ou com doença, 10 a 15 repetições com carga ligeira. - Séries: 1 a 3 por exercício, 6 a 10 exercícios principais. - Tipo: halteres, bandas elásticas, máquinas, peso do corpo, exercícios funcionais. - Cuidados: técnica, respiração (expirar no esforço), amplitude controlada, sem dor aguda.

Flexibilidade e mobilidade - 2 a 3 dias por semana, alongamento de 10 a 30 segundos, 2 a 4 repetições por grupo muscular, com o músculo aquecido, e até ao ponto de ligeira tensão, nunca dor.

Equilíbrio e neuromotor - 2 a 3 dias por semana (idosos, quem tem risco de queda, pessoas com paralisia cerebral ou com algumas deficiências do movimento): progressões desde apoio alargado até apoio reduzido, marcha em tandem, mudanças de direção, tarefas duplas.

Prescrição por população

Objetivos do exercício na prevenção e controlo

O exercício tem objetivos concretos em cada condição:

Condição Objetivos Benefícios esperados
Hipertensão Reduzir a tensão arterial, melhorar a função cardiovascular Redução da pressão em repouso, menor risco cardiovascular
Diabetes Melhorar o controlo da glicemia e a sensibilidade à insulina Menor glicemia, melhor controlo do peso, menos complicações
Obesidade Aumentar o gasto energético, preservar massa magra, melhorar a mobilidade Redução de peso e de perímetro da cintura, melhor condição física
Osteoporose Manter ou aumentar a densidade óssea, melhorar força e equilíbrio Menor risco de queda e de fratura

Exemplo resolvido · Construir a prescrição inicial de uma pessoa com diabetes tipo 2

A Carla, 52 anos, tem diabetes tipo 2 tratada com medicação oral, IMC de 29 e sedentarismo. O médico autoriza exercício.

  1. Objetivos: melhorar controlo da glicemia, reduzir perímetro da cintura, aumentar força e resistência.
  2. Frequência: 3 sessões de aeróbio por semana (não mais de 2 dias seguidos sem exercício) e 2 sessões de força.
  3. Intensidade: aeróbio moderado (PSE de 12 a 13) para começar; força com 12 a 15 repetições com cargas ligeiras.
  4. Tempo: 20 minutos de aeróbio no início, subindo 5 minutos a cada duas semanas até 40 minutos; força 25 a 30 minutos.
  5. Tipo: marcha rápida e bicicleta; força com bandas e halteres.
  6. Segurança: medir glicemia antes se tomar medicação que a possa baixar; levar hidratos de carbono de ação rápida; calçado adequado e verificar os pés; evitar sessão em jejum prolongado.
  7. Progressão: a cada 4 semanas, rever com a Carla e aumentar um parâmetro de cada vez (tempo, depois intensidade).
  8. Reavaliação: ao fim de 12 semanas, repetir testes e perímetro da cintura; trocar impressões com o médico sobre os valores de glicemia.

A prescrição é clara, mensurável e segura, e cada decisão está ligada ao perfil da Carla.

7. Programas de exercício para pessoas com deficiência

Tipos de programas

Um programa de exercício para pessoas com deficiência ou diversidade funcional pode ter objetivos e contextos muito diferentes:

Tipo de programa Objetivo principal Exemplo
Saúde e condição física Manter ou melhorar a saúde, a força e a resistência Treino de circuito adaptado para pessoas em cadeira de rodas
Funcional e de autonomia Melhorar tarefas do quotidiano Transferências, marcha, equilíbrio, subir degraus
Recreativo e social Prazer, convívio, participação Jogos cooperativos, dança, passeios
Educativo Aprender competências motoras na escola ou na AEC Educação física inclusiva
Iniciação desportiva Aprender um desporto adaptado Escola de Boccia ou de voleibol sentado
Competição Rendimento Treino de uma equipa de Goalball
Aquático Baixo impacto, liberdade de movimento Natação adaptada, hidroginástica

Limitações e preocupações específicas por tipo de deficiência

A cada condição correspondem preocupações próprias, que o técnico deve ter à vista como uma lista de verificação:

Condição Preocupações específicas na prática
Deficiência visual Espaço seguro e conhecido; sinais sonoros e táteis; guiar com técnica; proteção contra choques; atenção a descolamento da retina e glaucoma (evitar manobras de Valsalva intensas e impactos na cabeça se indicado pelo oftalmologista)
Deficiência auditiva Comunicação visual; sinais luminosos; equilíbrio; atenção ao uso de aparelhos auditivos perto de água
Lesão medular Disreflexia autonómica, termorregulação, úlceras de pressão, hipotensão postural, ombros, bexiga e intestino
Paralisia cerebral Fadiga, espasticidade, movimentos involuntários, controlo postural, possível epilepsia
Amputações Cuidados do coto, equilíbrio, ajuste de prótese, transpiração, assimetria de cargas
Esclerose múltipla Fadiga, calor, equilíbrio, sessões curtas e frequentes
Deficiência intelectual Compreensão de instruções e regras, supervisão, rotinas, segurança, características associadas à síndrome (cardiopatia, hipotonia, instabilidade cervical em trissomia 21)
Autismo Previsibilidade, sensibilidade sensorial, comunicação clara, gestão de transições
Epilepsia Conhecer o plano de ação em caso de crise; evitar situações de risco como água sem supervisão direta, alturas; atenção à privação de sono
Asma e doenças respiratórias Aquecimento prolongado, medicação de alívio disponível, evitar frio e poluição

Exercício para pessoas que usam cadeira de rodas

O uso da cadeira de rodas altera o modo de treinar. Algumas ideias-chave:

Atividade física em meio aquático

A água reduz o impacto, sustenta o peso do corpo e permite movimentos amplos. É particularmente útil na obesidade, na osteoartrose, na paralisia cerebral, nalgumas lesões medulares e em idosos. Requisitos: salva-vidas ou técnico com formação adequada, relação adequada entre número de praticantes e de monitores, acesso à piscina (rampa, elevador, cadeira de banho), temperatura apropriada (mais quente para quem tem espasticidade), cuidados com a pele e higiene, e atenção a convulsões, feridas, sondas e dispositivos que não podem molhar-se.

Exemplo resolvido · Programa de circuito para um grupo misto

Um clube local quer criar um circuito de condição física para um grupo de 8 adultos, incluindo duas pessoas que usam cadeira de rodas e uma pessoa com baixa visão.

  1. Ver o perfil: nível de força, resistência, preferências e limitações de cada elemento.
  2. Escolher 6 estações que podem ser feitas por todos com pequenas adaptações:
  3. Remada com banda elástica (sentado ou de pé).
  4. Elevação de bola medicinal acima da cabeça.
  5. Empurrar e puxar com banda (peito).
  6. Rotação de tronco com bola, sentado.
  7. Transferência de cones de uma mesa para outra, em estações seguidas.
  8. Ergómetro de braço ou bicicleta, conforme a pessoa.
  9. Adaptar por pessoa: cargas diferentes, cores contrastantes e sinais sonoros para a pessoa com baixa visão, posição de cada estação com espaço livre de 1,5 m para cadeiras (a largura de manobra).
  10. Tempo e ritmo: 40 segundos de trabalho, 20 segundos de transição, 3 voltas; ritmo ajustável (cada um escolhe o número de repetições possíveis).
  11. Segurança: aquecimento de 10 minutos, supervisão, hidratação, observar sinais de fadiga e de dor no ombro.
  12. Avaliar: perguntar quem gostou, quem achou difícil, o que ajustar para a próxima sessão.

O circuito é inclusivo porque a estrutura é a mesma e as adaptações são individuais e discretas.

8. Produtos de apoio, materiais e equipamentos

Produtos de apoio e ajudas técnicas

Os produtos de apoio (termo hoje preferido, que substitui "ajudas técnicas") são dispositivos, equipamentos, instrumentos ou software, fabricados especialmente ou disponíveis no mercado, usados para prevenir, compensar, aliviar ou neutralizar uma deficiência ou limitação. Existe uma norma internacional de classificação (ISO 9999), e em Portugal funciona o Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio (SAPA), que apoia o acesso das pessoas a estes produtos. Os produtos de apoio não são "ajudas" para o técnico: são parte do corpo funcional do praticante, e usá-los bem é um direito.

Alguns exemplos relevantes no desporto e na atividade física:

Categoria Exemplos Função
Mobilidade pessoal Cadeira de rodas manual ou elétrica, andarilho, canadianas, bengala, muletas Deslocação
Cadeiras desportivas Cadeira de rodas de basquetebol, de ténis, de corrida (handbike, cadeira de atletismo) Desempenho com estabilidade, inclinação lateral, baixo peso
Próteses e ortóteses Prótese desportiva de lâmina, ortótese de tornozelo Substituir ou apoiar função
Visão Bengala branca, óculos de proteção, bolas sonoras, guizos, tapa-olhos (olhos vendados) Orientação e igualdade de condições
Audição Aparelhos auditivos, implante coclear, sistemas de sinalização luminosa Comunicação e segurança
Comunicação Pranchas de comunicação, tablets com símbolos, quadros de pictogramas Compreender e ser compreendido
Postura e fixação Cintas de tronco, almofadas, apoios laterais Estabilidade
Tecnologia de acesso Rampa para Boccia (para jogadores com comprometimento muito severo), ponteiras de cabeça, interruptores Participação em desportos

Materiais e equipamentos adaptados

Além dos produtos de apoio pessoais, o técnico usa materiais e equipamentos da atividade que podem ser modificados para facilitar a prática:

Como escolher e usar

Para escolher produtos e materiais, o técnico segue alguns critérios:

  1. Funcionalidade: ajuda realmente a pessoa a participar?
  2. Segurança: tem arestas, peças soltas, risco de entalar?
  3. Facilidade de uso e manutenção: a pessoa e o técnico sabem usar? É fácil de limpar?
  4. Dignidade e aceitação: a pessoa gosta e usa de livre vontade? Um produto que estigmatiza acaba na gaveta.
  5. Custo e disponibilidade: é acessível? Há alternativas de baixo custo (uma bola dentro de um saco com guizos, fita-cola colorida no chão)?

Boas práticas: perguntar ao praticante como prefere o produto montado; verificar o estado das rodas, travões, fixações; limpar e guardar o material; não forçar o uso quando a pessoa se sente incomodada.

Exemplo resolvido · Adaptar o equipamento para um jogo de lançamento

Num torneio da escola, o jogo é lançar bolas para um cesto a 3 metros. Participam o Gonçalo (cadeira de rodas), a Teresa (baixa visão) e o Miguel (mobilidade reduzida de mãos).

  1. Identificar barreiras: o cesto está a 2,2 m de altura (demasiado alto para o Gonçalo); a Teresa não vê o cesto; o Miguel tem dificuldade em agarrar bolas pequenas.
  2. Ajustar o alvo: três cestos, a 80 cm, 1,2 m e 1,8 m de altura, escolhidos pelo praticante; o cesto da Teresa tem fita fluorescente e um sino por trás, para orientar o lançamento.
  3. Ajustar a bola: bola de espuma maior e macia para o Miguel; bola com guizo para a Teresa.
  4. Ajustar a distância: três marcações diferentes (2, 3 e 4 m), escolhidas livremente.
  5. Pontuação equilibrada: pontos por acertar, mais um bónus por escolher uma distância mais exigente.
  6. Segurança: todos ficam atrás de uma linha; o técnico verifica o espaço à volta das cadeiras.

Todos jogam o mesmo jogo, com o mesmo objetivo, e cada um desafia-se ao seu nível.

9. Estratégias de adaptação e técnicas de inclusão

Estratégias de adaptação: o modelo STEP

Adaptar uma atividade não é "baixar o nível". É mudar as condições para que a tarefa tenha o desafio certo. Um quadro prático é o STEP, da sigla inglesa de quatro dimensões que o técnico pode ajustar: Espaço, Tarefa, Equipamento e Pessoas.

Dimensão O que ajustar Exemplos
Espaço Tamanho, formato, superfície, iluminação, ruído Campo mais pequeno ou maior; zona de segurança; linhas em relevo
Tarefa Regras, objetivos, número de passos, tempo Mais toques antes de passar a bola; deixar a bola bater no chão; pontuação diferente
Equipamento Tamanho, peso, cor, som, altura Bola maior, rede mais baixa, bola sonora
Pessoas Agrupamento, papéis, apoios Pares, trabalho cooperativo, apoio de colega, assistente

Regras práticas: ajusta-se uma coisa de cada vez; começa-se pela adaptação mais simples e menos visível; testa-se; e retira-se o apoio quando já não é necessário. O objetivo é sempre máxima participação com mínima adaptação.

Espetro de inclusão

Nem toda a atividade se faz com todos juntos da mesma maneira. Um espetro de opções ajuda a escolher a mais adequada em cada momento:

  1. Atividade aberta: todos fazem a mesma coisa, sem alterações (o jogo já é inclusivo por natureza).
  2. Atividade modificada: a mesma atividade com adaptações para todos ou para alguns.
  3. Atividade paralela: cada um trabalha no seu nível, no mesmo espaço e ao mesmo tempo (por exemplo, estações com diferentes dificuldades).
  4. Atividade específica: uma atividade pensada para um grupo (ex.: Goalball, que todos podem jogar de olhos vendados).
  5. Atividade separada: um grupo faz uma atividade diferente, por necessidade pontual (por exemplo, treino de uma técnica específica), com regresso ao grupo logo que possível.

O princípio é: incluir por defeito, separar só por razões justificadas e temporárias.

Técnicas de inclusão

Movimentos de estabilidade, locomotores e manipulativos

As competências motoras fundamentais organizam-se em três famílias, que servem para avaliar e para construir atividades:

Família Exemplos Adaptação possível
Estabilidade (equilíbrio) Equilibrar-se parado e em movimento, rodar, dobrar, esticar, torcer, apoiar-se, aterrar Sentado em bola, em banco, em cadeira; com apoio de barra; no chão para quem não se mantém de pé
Locomotores Andar, correr, saltar, saltitar, galopar, deslizar, rastejar, rolar, deslocar-se em cadeira de rodas Deslocar-se de gatas, em cadeira, com andarilho, rolar no tapete; distâncias adaptadas
Manipulativos Lançar, receber, rolar, pontapear, driblar, bater, apanhar Bola maior, menor ou mais lenta; alvo maior; lançar de sentado; usar bastão

A progressão faz-se da estabilidade para a locomoção e daí para a manipulação, e de gestos simples para combinados (correr e lançar). Em qualquer fase, observa-se o gesto e dão-se indicações curtas sobre os pontos-chave ("olha o alvo, braço atrás, lança ao alto").

Corrigir os erros mais frequentes de base

Os erros mais comuns nos gestos fundamentais são, por exemplo: lançar sem rodar o tronco, não olhar para o alvo, receber com os braços rígidos, não flexionar os joelhos na aterragem. Para corrigir:

  1. Observar o gesto várias vezes antes de intervir.
  2. Escolher uma só correção (a mais importante).
  3. Dar o feedback de forma curta, concreta e positiva ("dobra os joelhos como quem se vai sentar").
  4. Demonstrar ou guiar o movimento (com autorização para tocar).
  5. Repetir e voltar a observar. Elogiar a melhoria, mesmo pequena.

Exemplo resolvido · Do jogo cooperativo ao espetro de inclusão

O técnico prepara uma sessão de 45 minutos para 14 crianças, incluindo uma com paralisia cerebral que se desloca em cadeira de rodas e outra com deficiência intelectual ligeira.

  1. Objetivo da sessão: lançar e receber (manipulativos), com deslocação.
  2. Atividade principal: "Ponte de bolas". Duas equipas fazem passar bolas de mão em mão ao longo de uma linha, até um contentor; vence a equipa que enche primeiro, mas ambas recebem pontos pelo número de bolas.
  3. Aplicar STEP:
  4. Espaço: corredor largo de 2 m, sem obstáculos, pavimento liso.
  5. Tarefa: passar com as duas mãos ou com uma mão, à escolha; pode rolar ou lançar.
  6. Equipamento: bolas macias de três tamanhos; contentor a duas alturas.
  7. Pessoas: as equipas são misturadas; a criança com deficiência intelectual tem um colega tutor e um cartão com imagens dos passos.
  8. Nível do espetro: atividade modificada, com todos juntos.
  9. Papéis: a criança em cadeira de rodas tem a posição central, onde tem mais alcance. Cada criança experimenta todas as posições na ronda seguinte.
  10. Avaliação: observar quem recebeu e passou com sucesso, quem precisou de ajuda, e ajustar a próxima sessão.

Neste exemplo, a inclusão não vem de um material especial, e sim de uma organização pensada.

10. Desporto adaptado: organização, classificação e terminologia

O que é desporto adaptado

O desporto adaptado é a prática desportiva que é modificada, ou criada de raiz, para ser praticada por pessoas com deficiência ou com limitações, respeitando as suas capacidades. Há duas formas de o entender:

O desporto adaptado cumpre funções diferentes: reabilitação e saúde, recreação e inclusão social, educação e rendimento (alto nível). Em qualquer delas, o princípio é a igualdade de oportunidades de competir e de participar.

Organização internacional e nacional

Entidade Âmbito
Comité Paralímpico Internacional (IPC) Movimento paralímpico mundial; organiza os Jogos Paralímpicos e coordena a classificação
IBSA (Federação Internacional de Desporto para Cegos) Desportos para pessoas com deficiência visual: Goalball, futebol para cegos, judo e outros
World Abilitysport (antiga IWAS, Federação Internacional de Desporto em Cadeira de Rodas e de Amputados) Desportos em cadeira de rodas e de pessoas amputadas
CP-ISRA (Associação Internacional de Desporto e Recreação para a Paralisia Cerebral) Referência histórica no desporto para pessoas com paralisia cerebral
Special Olympics Treino e competição para pessoas com deficiência intelectual, em todos os níveis, com o desporto unificado
Deaflympics (ICSD) Desporto de pessoas surdas, com regras que dispensam sinais sonoros
Federações internacionais de modalidade Por exemplo, World ParaVolley (voleibol sentado), World Boccia (antiga BISFed)
Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência e Comité Paralímpico de Portugal Organização e representação em Portugal
Special Olympics Portugal Programa nacional de desporto para pessoas com deficiência intelectual
IPDJ Entidade pública responsável pela política desportiva nacional

As entidades e os regulamentos evoluem. Quando se prepara uma competição, consultam-se sempre os regulamentos em vigor da federação respetiva.

Classificação funcional

No desporto adaptado de competição, nem todos os atletas têm a mesma limitação. Para que o resultado dependa da capacidade desportiva e não do grau de deficiência, as pessoas são agrupadas em classes desportivas por um processo de classificação:

Modalidade Público habitual Principal adaptação
Goalball deficiência visual tapa-olhos para todos e bola sonora
Boccia comprometimento motor severo rampa e assistente (BC3)
Voleibol sentado deficiência locomotora jogo no chão e rede baixa
Futebol para cegos deficiência visual bola sonora e chamador
Basquetebol em cadeira de rodas deficiência locomotora cadeira desportiva
Natação paralímpica várias deficiências classes desportivas

Classes do Boccia, como exemplo: BC1 e BC2 jogam lançando, com a mão ou o pé, sendo a BC1 a de maior limitação do controlo do tronco e das extremidades; BC3 inclui atletas que não conseguem lançar com a mão ou o pé e que usam uma rampa com um assistente; BC4 inclui atletas com deficiência de origem não cerebral, com limitações semelhantes, mas capazes de lançar sem rampa.

Terminologia específica do desporto adaptado

Termo Significado
Desporto adaptado Desporto modificado ou criado para pessoas com deficiência
Paralímpico Relativo aos Jogos Paralímpicos e ao movimento paralímpico
Classificação / classe desportiva Agrupamento de atletas segundo o impacto funcional da deficiência no desporto
Elegibilidade Condição de deficiência que dá acesso a um desporto ou classe
Atleta Praticante em contexto competitivo; no recreativo diz-se "praticante"
Desporto unificado Equipas com participantes com e sem deficiência intelectual
Guia / chamador Pessoa que apoia atletas cegos (corredor-guia, chamador no futebol para cegos)
Assistente Pessoa que ajuda um atleta (por exemplo, no Boccia BC3, que posiciona a rampa)
Produto de apoio Equipamento que compensa uma limitação
Adaptação razoável Ajuste que garante a participação sem encargo desproporcionado
Acessibilidade Qualidade de um espaço ou serviço poder ser usado por todos
Inclusão Participação plena e em igualdade num contexto comum
Integração Presença no mesmo espaço, sem mudanças ao contexto
Segregação Separação sistemática por deficiência
Tapa-olhos (olhos vendados) Máscara usada em Goalball para igualar a condição visual de todos
Bola de guizo / sonora Bola com sinal sonoro para orientação

Distinguir integração de inclusão é central: na integração a pessoa está no mesmo espaço, mas é ela que se tem de adaptar; na inclusão é o contexto que se ajusta.

Exemplo resolvido · Escolher uma modalidade para um grupo

Uma associação tem um grupo de 10 jovens: 4 com deficiência visual, 3 em cadeira de rodas e 3 com deficiência intelectual ligeira. Quer propor uma modalidade para um torneio interno.

  1. Listar objetivos: participação de todos, diversão, segurança.
  2. Avaliar modalidades:
  3. Goalball: igualiza a condição visual com tapa-olhos, por isso é justo para quem não vê e para quem vê. O jogo faz-se no chão, o que exige mobilidade de transferência; para os três jovens em cadeira de rodas só é viável se conseguirem passar para o chão em segurança, com apoio.
  4. Voleibol sentado: todos jogam sentados no chão, igualando a condição de quem usa cadeira; dificuldade para quem tem baixa visão em apanhar a bola, mitigável com bola mais colorida.
  5. Boccia: participação de todos com poucos requisitos físicos; acessível a quem tem pouca mobilidade.
  6. Decisão: um torneio em formato de estações com Boccia (equipas mistas) e voleibol sentado com bola leve, e uma sessão de experimentação de Goalball para todos.
  7. Regras de equipa: equipas equilibradas por nível de funcionalidade e não por diagnóstico.
  8. Segurança: espaço livre, superfície adequada, árbitros e assistentes formados.

A escolha respeitou o princípio de que a modalidade se ajusta às pessoas e não o contrário.

11. Regras do Goalball, do voleibol sentado, do futebol para cegos e do Boccia

Este capítulo apresenta as regras essenciais das quatro modalidades previstas no referencial. As regras oficiais são revistas periodicamente pelas federações internacionais, por isso, para competir ou arbitrar, consulta-se o regulamento em vigor. O que se descreve aqui é o necessário para ensinar, treinar e jogar com segurança.

Goalball

Origem e público. Criado depois da Segunda Guerra Mundial para a reabilitação de veteranos cegos, está nos Jogos Paralímpicos desde 1976. Joga-se com todos os atletas de olhos tapados (tapa-olhos), qualquer que seja o seu resto visual, para igualar as condições. Tutelado pela IBSA.

Princípios do jogo - Equipas de três jogadores em campo (mais suplentes), num campo retangular de 18 × 9 m, com baliza de 9 m de largura em cada topo, que ocupa toda a largura do campo. - A bola pesa cerca de 1,25 kg e tem guizos no interior, para que os jogadores a ouçam. - O objetivo é lançar a bola rasteira (a rolar ou a quicar no chão) para marcar na baliza adversária, e defender a própria baliza com o corpo, deitado ou em movimento lateral. - O campo tem linhas táteis em relevo (fita com cordel por baixo), para os jogadores se orientarem ao toque. - O jogo tem duas partes de 12 minutos, com intervalo. - O silêncio do público e dos treinadores durante o jogo é fundamental: o som da bola é a informação principal.

Regras importantes - O jogador tem um tempo limitado (cerca de 10 segundos para a equipa) para lançar a bola depois de a controlar. - O lançamento tem de respeitar a trajetória rasteira e as zonas de contacto com o campo; lançamentos que não cumprem (por exemplo, "bola alta" ou "bola longa") são sancionados com uma penalização. - Os jogadores não podem tocar no tapa-olhos durante o jogo, a não ser em pausa autorizada. - Penalizações: quando há uma falta, um jogador da equipa infratora fica sozinho para defender um lançamento do adversário. - Segurança: os jogadores usam proteção (cotoveleiras, joelheiras e protetores de anca), pois defendem lançamentos rápidos com o corpo.

Ensino. Começar com orientação no campo: explorar as linhas, o tamanho da baliza e a posição dos companheiros. Ensinar a defesa (deitar-se lateralmente com o corpo alongado e braços estendidos) antes do lançamento potente. Praticar o lançamento rasteiro com técnica (passada e rotação) e a comunicação por voz entre colegas.

Voleibol sentado

Origem e público. Surgiu da combinação do voleibol com um jogo alemão (Sitzball), nos anos 1950, e está nos Jogos Paralímpicos. É praticado por atletas com deficiência locomotora (amputados, lesões medulares, paralisia cerebral, outras). Tutelado pela World ParaVolley.

Princípios do jogo - Duas equipas de seis jogadores em campo, num campo de 10 × 6 m, com a rede a 1,15 m (masculino) ou 1,05 m (feminino). - Os jogadores jogam sentados no chão: em todas as ações de jogo, uma parte do corpo entre as nádegas e os ombros tem de estar em contacto com o chão. Podem deslocar-se com as mãos e as pernas, mas pôr-se de pé, levantar o corpo ou dar passos é proibido. - A linha de ataque fica a 2 metros da rede. - Os sets disputam-se até 25 pontos (com diferença mínima de 2), em melhor de cinco sets; o quinto set é a 15 pontos. - Tal como no voleibol, cada equipa pode dar até três toques antes de passar a bola, e o jogador não pode tocar duas vezes seguidas, com exceção do bloco. - Ao contrário do voleibol de pé, é permitido bloquear o serviço.

Regras importantes - Falta: levantar o corpo do chão ao atacar a bola (na defesa, com a bola não inteiramente acima do topo da rede, é permitido), interferir com o jogo do adversário ao tocar na rede ou ao invadir o seu espaço, ou fazer toque duplo. Tocar na rede ou passar a linha central sem interferir com o adversário não é falta. - Nas competições oficiais, o regulamento limita o número de jogadores com deficiência mínima em campo, para manter o equilíbrio entre equipas.

Ensino. Começar com deslocações sentadas (arrastar com as mãos e pernas), depois passe de dedos e manchete, serviço e ataque. Usar uma rede mais baixa ou bola mais leve no início. Preparar o chão (superfície lisa e antiderrapante), proteger as mãos e ombros do desgaste.

Futebol para cegos (futebol 5)

Origem e público. Adaptação do futebol para atletas com deficiência visual, nos Jogos Paralímpicos desde 2004. Tutelado pela IBSA em articulação com a FIFA.

Princípios do jogo - Duas equipas de cinco jogadores: quatro jogadores de campo cegos (com tapa-olhos) e um guarda-redes com visão (ou com resto visual). - O jogo decorre num campo de 40 × 20 m (aproximadamente), de piso liso, com bandas laterais que evitam que a bola saia e orientam a equipa. - A bola tem guizos e produz som ao rolar. - A duração é de duas partes de 20 minutos, com intervalo. - Um chamador (guia), atrás da baliza adversária, dá indicações à equipa que ataca, sobre a posição da baliza e a distância. - Um treinador orienta do meio-campo, e o guarda-redes orienta a defesa.

Regras importantes - Os jogadores de campo têm de dizer "voy" (em espanhol, "vou") quando vão disputar a bola, para evitar choques. Não dizer é falta. - Não existe fora de jogo. - O guarda-redes só pode jogar dentro da sua área. - As faltas e os livres seguem os princípios do futsal, com adaptações.

Ensino. Começar com orientação sonora e confiança nas deslocações, depois condução da bola de pé com controlo, passe com som, remate e jogo reduzido. Insistir no uso do "voy" e na comunicação com o chamador.

Boccia

Origem e público. Jogo de precisão, derivado de jogos de bolas europeus, criado para pessoas com paralisia cerebral e, hoje, aberto a outras deficiências com grande comprometimento motor. Está nos Jogos Paralímpicos desde 1984. Joga-se de sentado, geralmente em cadeira de rodas. Tutelado pela World Boccia.

Princípios do jogo - Joga-se num campo retangular de cerca de 12,5 × 6 m, com caixas de lançamento numeradas. - Cada lado tem seis bolas (vermelhas ou azuis): no individual, seis por jogador; nos pares, três por atleta; nas equipas de três atletas, duas por atleta. Há uma bola alvo branca (o jack). - O objetivo é lançar, rolar ou, no caso de BC3, empurrar por uma rampa as bolas o mais perto possível do jack. - Joga-se em partidas por parciais (ends): em individual e pares, quatro parciais; em equipas, seis. No fim de cada parcial, ganha pontos a equipa cujas bolas estão mais perto do jack, um ponto por cada bola mais perto do que a melhor bola adversária. - Há um tempo limite por jogador em cada parcial.

Regras importantes - O primeiro lançamento é o do jack, feito pelo jogador ou equipa que joga com bolas vermelhas; a seguir lança-se a primeira bola vermelha, depois a azul, e joga a seguir quem estiver mais longe do jack. - O jogador deve manter a posição na caixa (por exemplo, pelo menos uma nádega em contacto com a cadeira) durante o lançamento. - Atletas BC3 usam a rampa e o assistente, que deve estar de costas para o campo, e só ajuda a posicionar a rampa e a entregar a bola, sem influenciar a decisão. - Atletas BC1 podem ter assistência para ajustar a cadeira e entregar bolas. - Faltas: invadir a linha, tocar nas bolas, ultrapassar o tempo, o assistente olhar para o campo.

Ensino. Introduzir com precisão (rolar uma bola a um alvo), depois a escolha de estratégia (aproximar ou empurrar a bola adversária), a noção de distância e a gestão do tempo. Adaptar as bolas (peso, textura) e a posição da cadeira. A Boccia é muito apropriada para jogos inclusivos de equipas mistas.

Exemplo resolvido · Preparar a primeira aula de Goalball

Uma turma de 12 jovens, entre os quais 3 com deficiência visual e 9 sem, vai fazer a primeira aula de Goalball.

  1. Preparar o espaço: campo de 18 × 9 m, ou mais pequeno se necessário, com linhas táteis feitas de fita larga sobre cordel; piso liso e limpo; sem equipamento solto. Tapetes junto às paredes.
  2. Material: duas bolas com guizos, tapa-olhos para todos (lavados ou individuais), proteções para joelhos e cotovelos.
  3. Aquecimento e sensibilização (10 minutos): exploração do espaço de olhos tapados, em pares, com o colega a dar indicações de voz; depois sozinhos.
  4. Aprendizagem da defesa (10 minutos): deitar-se de lado e levantar-se; rolar a bola lentamente e a turma ouve e interceta.
  5. Aprender o lançamento (10 minutos): lançamento rasteiro, de pé, com passada, contra uma baliza sem defesa.
  6. Jogo reduzido (10 minutos): 3 contra 3, durante dois períodos de 4 minutos, com silêncio na sala.
  7. Regras essenciais: lançamentos rasteiros; silêncio durante o jogo; não tocar no tapa-olhos.
  8. Regresso à calma e reflexão (5 minutos): o que sentiram, o que aprenderam sobre ouvir e comunicar.

Ao tapar os olhos de todos, a aula converte uma limitação em condição comum e valoriza a competência de quem já vive sem visão.

12. Planear, executar e avaliar o treino adaptado

Objetivos gerais do treino

Todo o plano começa com objetivos claros, formulados com a pessoa. Os objetivos gerais do treino adaptado cobrem:

Cada objetivo deve ser específico, mensurável, realista e com prazo. "Melhorar" é vago; "levantar-se da cadeira 10 vezes em 30 segundos até ao fim de março" é mensurável.

Objetivos de preparação técnica, tática, física e psicológica

No treino de uma modalidade, planeiam-se quatro dimensões de preparação, que se articulam:

Preparação O que visa Exemplos no desporto adaptado
Técnica Aprender e automatizar os gestos Lançamento rasteiro de Goalball, manchete no voleibol sentado, condução da bola no futebol para cegos, lançamento no Boccia
Tática Tomar decisões em jogo Posicionamento e comunicação na defesa de Goalball, escolha entre aproximar e empurrar no Boccia, organização da equipa no voleibol sentado
Física Desenvolver capacidades Força de braços e tronco, resistência, velocidade, equilíbrio, mobilidade
Psicológica Gerir emoções, motivação, concentração Controlo da ansiedade, confiança, trabalho em equipa, resiliência à derrota

Cada sessão não precisa de trabalhar tudo; o plano distribui o foco por sessões e ciclos.

Planear: macrociclo, mesociclo, microciclo e sessão

O plano organiza-se em escalas de tempo:

Uma boa sessão tem uma estrutura em três partes:

  1. Parte inicial (aquecimento): ativar o corpo, mobilidade, preparação específica, 10 a 15 minutos; apresentar os objetivos.
  2. Parte fundamental: o trabalho principal (técnica, tática, força, resistência, jogo).
  3. Parte final (retorno à calma): baixar a intensidade, alongamentos suaves, balanço da sessão, hidratação.

Organizar e desenvolver: a sessão adaptada

Para organizar o treino adaptado, o técnico considera:

Executar: demonstrar, explicar, corrigir

A condução da sessão assenta em quatro gestos pedagógicos:

  1. Apresentar a atividade (curta e clara, com demonstração).
  2. Organizar o grupo (formações simples, tempos de espera curtos).
  3. Observar (posição do técnico que permite ver todos).
  4. Dar feedback (curto, positivo, específico).

Aplicam-se também as técnicas do treino adaptado: tarefas por estações com diferentes níveis, instruções multissensoriais, exemplos por pares, e tempo de recuperação ajustado.

Identificar e resolver situações críticas

Chama-se situação crítica a um acontecimento que ameaça a segurança, a participação ou o desenvolvimento normal da sessão. Alguns exemplos e respostas:

Situação Resposta
Queda de um praticante Parar, avaliar sem mover se houver suspeita de lesão grave, pedir ajuda; se necessário, ligar 112
Sinais de hipoglicemia Sentar, dar hidratos de carbono de ação rápida, reavaliar, informar a família
Crise epilética Proteger a cabeça, afastar objetos, não conter nem colocar nada na boca, cronometrar; se durar mais de 5 minutos, ligar 112
Disreflexia autonómica Sentar a pessoa direita, aliviar roupa apertada e verificar sonda, medir tensão, ligar 112 se persistir
Crise de sobrecarga sensorial Reduzir estímulos, levar para um espaço calmo, dar tempo
Conflito no grupo Parar o jogo, ouvir, reformular regras, valorizar respeito
Paragem cardiorrespiratória Ligar 112, iniciar compressões e usar o DAE

Resolver situações críticas começa por prevenir: conhecer o historial de saúde, ter planos de ação, ensaiar procedimentos.

Avaliar o treino

Avalia-se a sessão (correu como planeado? Todos participaram? Houve problemas de segurança?), o praticante (progrediu nos testes? Está motivado?) e o plano (os objetivos estão a ser atingidos?). Usam-se:

Com a avaliação, ajusta-se o plano: aumenta-se a carga se está fácil, mantém-se ou reduz-se se há fadiga, muda-se o conteúdo se falta motivação.

Exemplo resolvido · Planear um mesociclo de 6 semanas para uma equipa de voleibol sentado

Uma equipa de 8 atletas inicia a época. Têm níveis diferentes e duas sessões por semana de 90 minutos.

  1. Objetivos do mesociclo: melhorar o passe de dedos e a manchete (técnica), a comunicação em campo (tática), a força de ombros e tronco (física) e a coesão da equipa (psicológica).
  2. Microciclo tipo (duas sessões):
  3. Sessão A: aquecimento (10 minutos), técnica de passe e manchete (35 minutos), jogo reduzido 3 contra 3 (20 minutos), força de ombros e tronco (15 minutos), retorno à calma (10 minutos). Total: 90 minutos.
  4. Sessão B: aquecimento (10 minutos), serviço e receção (30 minutos), organização defensiva e comunicação (25 minutos), jogo (15 minutos), retorno à calma (10 minutos). Total: 90 minutos.
  5. Progressão: semanas 1 e 2 com cargas baixas e foco na técnica; semanas 3 e 4 aumentam repetições e dificuldade; semana 5 é a de maior exigência; semana 6 é de descarga e de reavaliação.
  6. Aquecimento específico: mobilidade de ombros, punhos, tronco e ancas; ativação sentado.
  7. Segurança: atenção a sobrecarga de ombro, pausas, hidratação, superfície do pavimento.
  8. Avaliação: contagem de passes corretos em 20 tentativas na semana 1 e na semana 6; perceção de esforço registada; conversa com os atletas.

O mesociclo está desenhado de forma coerente: objetivos, estrutura, progressão e avaliação alinhados.

13. Comunicação, adesão, segurança e ética profissional

Estabelecer uma relação positiva com os praticantes

A relação com o praticante é a base da adesão. Alguns princípios:

Promover a adesão ao exercício

A taxa de abandono é alta em todos os programas, mais ainda em populações com barreiras. Para aumentar a adesão:

Comunicação adaptada e feedback

O feedback eficaz é contínuo, construtivo, específico e imediato. A estrutura "o que está bem, o que melhorar, como" ajuda: "Mantiveste a cabeça erguida (bem). Falta rodar mais o tronco (melhorar). Pensa em mostrar a bola ao teu lado antes de lançares (como)." Adapta-se ao canal de cada pessoa:

Pessoa Canal preferencial
Cega ou com baixa visão Verbal descritivo, tátil (com autorização), auditivo
Surda Visual, gestual, escrito, LGP
Com deficiência intelectual Curto, concreto, demonstração, imagens
Com autismo Literal, visual, previsível
Com dificuldade de fala Tempo, perguntas fechadas, comunicação alternativa

Segurança dos participantes

Garantir a segurança é critério central do desempenho profissional. Isto inclui:

Princípio-chave: na dúvida, parar e pedir ajuda. Um técnico competente sabe reconhecer os limites da sua intervenção.

Responsabilidade, ética e limites de atuação

O desempenho profissional exige:

Normas e regras definidas

O técnico aplica regras e normas em três níveis: as da instalação (regulamento de utilização, segurança, evacuação), as da entidade (clube, escola, ginásio: protocolos, autorizações, comunicação com famílias) e as da modalidade (regulamentos das federações). Interpretar um regulamento envolve ler com atenção o texto, identificar o que é obrigatório, o que é permitido e o que é proibido, e perguntar à entidade competente em caso de dúvida.

Exemplo resolvido · Gerir uma situação crítica numa sessão de grupo

Durante uma sessão de circuito, o Pedro, de 61 anos, com diabetes tipo 2 e medicação para a diabetes, começa a suar muito, tremer e a ficar confuso.

  1. Reconhecer o padrão: suores, tremor e confusão num praticante com diabetes sugerem hipoglicemia.
  2. Parar a atividade do Pedro e sentá-lo num local seguro. Pedir a um colega que mantenha o grupo ocupado com outra tarefa.
  3. Dar hidratos de carbono de ação rápida (por exemplo, sumo ou açúcar), se está consciente e consegue engolir. Se possível, medir a glicemia.
  4. Reavaliar ao fim de 10 a 15 minutos: se melhora, descansa e come algo; se não melhora, ou se perde a consciência, ligar 112 e não dar nada pela boca.
  5. Informar a família ou a pessoa de contacto, e registar o incidente.
  6. Rever o plano: pedir ao Pedro que meça a glicemia antes da sessão, trazer sempre hidratos de carbono, e falar com o médico sobre a medicação em dias de exercício.

A boa gestão resulta de reconhecer cedo, agir com calma e proteger o participante.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Adaptar a atividade física começa por perceber porque é que o exercício faz bem: é um estímulo metabólico e biomecânico que protege a saúde em todas as idades e condições. Depois, olha-se para a pessoa e não para o diagnóstico: a CIF e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência mostram que a participação depende tanto da condição como das barreiras do contexto. Conhecem-se as particularidades da deficiência visual, auditiva, motora, da voz e da fala, intelectual e do autismo, e das limitações do envelhecimento, da gravidez e de condições como a hipertensão, a diabetes, a obesidade e a osteoporose.

O trabalho segue uma cadeia: avaliar (rastreio, estratificação de risco, instrumentos de condição física, competências-base, necessidades e expectativas), prescrever (princípios, FITT-VP, métodos por componente e por população), adaptar (produtos de apoio, materiais, STEP, espetro de inclusão, movimentos de estabilidade, locomotores e manipulativos) e planear, executar e avaliar o treino (objetivos gerais, preparação técnica, tática, física e psicológica, estrutura da sessão, resolução de situações críticas). O desporto adaptado acrescenta classificação, terminologia e regras próprias, como as do Goalball, do voleibol sentado, do futebol para cegos e do Boccia. Em todo o processo, contam a relação positiva e a adesão, a comunicação adaptada, a segurança, a ética e o respeito pelos limites de atuação e pelas normas definidas. Quem domina esta cadeia consegue acolher qualquer praticante com segurança, respeito e sentido.

Exercícios resolvidos

1. A Maria, 66 anos, pratica 100 minutos por semana de caminhada moderada. Cumpre as recomendações da OMS para a sua idade? O que falta?

Resolução: o mínimo para adultos é de 150 minutos por semana de atividade aeróbia moderada, por isso fica abaixo (faltam 50 minutos). Faltam também o reforço muscular em dois ou mais dias por semana e, por ter mais de 65 anos, o treino de equilíbrio e funcional multicomponente em três ou mais dias. O plano deve aumentar gradualmente a caminhada e acrescentar força e equilíbrio.

2. Explica a diferença entre deficiência, limitação da atividade e restrição à participação, com um exemplo de um jovem com amputação de uma perna.

Resolução: a deficiência é a alteração de estrutura (falta de uma perna). A limitação da atividade é a dificuldade em executar uma tarefa (correr rápido sem prótese). A restrição à participação é o problema em envolver-se numa situação da vida (não jogar no recreio porque o jogo exige correr e ninguém adaptou as regras). Esta última depende do contexto, e pode eliminar-se adaptando o jogo.

3. Uma pessoa com lesão medular alta, em cadeira de rodas, fica com dor de cabeça intensa, suores acima da cintura e pele pálida abaixo, a meio da sessão. O que fazes?

Resolução: é sugestivo de disreflexia autonómica, uma urgência. Sentar a pessoa direita (se estiver deitada), aliviar roupa ou faixas apertadas, verificar sonda ou outro desencadeante, medir a tensão arterial se possível e, se os sintomas persistirem, ligar o 112. Não retomar o exercício.

4. O Rui, 55 anos, hipertenso e medicado com bloqueador beta, vai fazer 30 minutos de bicicleta. Como controlas a intensidade?

Resolução: o bloqueador beta limita a frequência cardíaca, por isso a frequência cardíaca não é fiável. Usa-se a perceção subjetiva de esforço, com alvo de 12 a 13 na escala de Borg 6 a 20 ("um pouco difícil"), e o teste da conversa: deve conseguir falar, mas não cantar. Medir a tensão arterial antes e evitar a manobra de Valsalva.

5. Num jogo de passes, um jovem com baixa visão perde constantemente a bola. Aplica o modelo STEP para propor duas adaptações.

Resolução: Equipamento: bola de cor forte e contrastante com o piso, ou com guizo. Espaço: zona de jogo mais pequena e boa iluminação, sem reflexos. Pode ainda ajustar-se a tarefa (passes com bola rolada, anunciando o nome do colega) e as pessoas (par fixo que fala antes de passar). Muda-se um parâmetro de cada vez e observa-se o resultado.

6. Calcula o intervalo de frequência cardíaca-alvo, entre 60% e 70% da reserva, para uma pessoa de 40 anos com frequência cardíaca de repouso de 70 bpm, usando 220 menos a idade para a máxima. Que limitação tem este cálculo?

Resolução: FC máxima estimada = 220 menos 40 = 180 bpm. Reserva = 180 menos 70 = 110 bpm. A 60%: 70 + 0,6 × 110 = 70 + 66 = 136 bpm. A 70%: 70 + 0,7 × 110 = 70 + 77 = 147 bpm. Intervalo: 136 a 147 bpm. Limitação: a fórmula é uma estimativa com grande margem de erro individual e não se aplica a quem toma bloqueadores beta ou tem lesão medular alta; nestes casos usa-se a perceção subjetiva de esforço.

7. Descreve os pontos essenciais do jogo de voleibol sentado que o distinguem do voleibol de pé.

Resolução: campo de 10 × 6 m, rede a 1,15 m (masculino) e 1,05 m (feminino), jogadores sentados no chão com uma parte do corpo entre as nádegas e os ombros em contacto com o solo em todas as ações de jogo, linha de ataque a 2 m da rede, e bloqueio do serviço permitido. Os sets vão a 25 pontos, em melhor de cinco sets.

8. Numa partida de Boccia, quem joga com a rampa e o assistente, e qual a regra essencial para o assistente?

Resolução: jogam com rampa os atletas da classe BC3, que não conseguem lançar a bola com a mão ou o pé. O assistente posiciona a rampa e entrega as bolas seguindo as indicações do atleta, mas deve permanecer de costas para o campo, sem olhar para o jogo nem influenciar a decisão.