Adaptar a atividade física a praticantes com necessidades diferenciadas (UC03659)
- Introdução
- 1. Exercício, atividade física e saúde
- 2. Deficiência, incapacidade e diversidade funcional
- 3. Diversidade funcional: o que muda em cada caso
- 4. Envelhecimento, fases da vida e condições de saúde
- 5. Avaliação do praticante
- 6. Prescrição do exercício adaptado
- 7. Programas de exercício para pessoas com deficiência
- 8. Produtos de apoio, materiais e equipamentos
- 9. Estratégias de adaptação e técnicas de inclusão
- 10. Desporto adaptado: organização, classificação e terminologia
- 11. Regras do Goalball, do voleibol sentado, do futebol para cegos e do Boccia
- 12. Planear, executar e avaliar o treino adaptado
- Objetivos gerais do treino
- Objetivos de preparação técnica, tática, física e psicológica
- Planear: macrociclo, mesociclo, microciclo e sessão
- Organizar e desenvolver: a sessão adaptada
- Executar: demonstrar, explicar, corrigir
- Identificar e resolver situações críticas
- Avaliar o treino
- Exemplo resolvido · Planear um mesociclo de 6 semanas para uma equipa de voleibol sentado
- 13. Comunicação, adesão, segurança e ética profissional
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.
Introdução
Esta sebenta ensina a adaptar a atividade física a praticantes com necessidades diferenciadas: pessoas com deficiência ou diversidade funcional, pessoas idosas, crianças e jovens em fases especiais do desenvolvimento, grávidas e pessoas com problemas de saúde como a hipertensão, a diabetes, a obesidade ou a osteoporose. O Técnico/a de Desporto que trabalha numa escola, numa Atividade de Enriquecimento Curricular (AEC), num clube ou num ginásio vai encontrar, mais cedo do que tarde, um praticante que não cabe no plano "para toda a gente". A competência que esta unidade desenvolve é saber avaliar, desenhar, planear e conduzir uma sessão em que esse praticante participa com segurança, com sentido e com prazer.
O percurso segue a lógica de trabalho real. Primeiro percebemos porque é que o exercício faz bem e como atua no corpo (estímulo metabólico e biomecânico). Depois conhecemos as pessoas: os tipos de deficiência, a diversidade funcional, as limitações do envelhecimento e das condições de saúde, e os direitos que lhes assistem. A seguir aprendemos a avaliar (rastreio, estratificação de risco, instrumentos de condição física, necessidades e expectativas) e a prescrever (princípios, métodos, programas). Entram então os produtos de apoio, materiais e equipamentos, as estratégias de adaptação, os movimentos de estabilidade, locomotores e manipulativos e as técnicas de inclusão. Segue-se o desporto adaptado, com a terminologia e as regras do Goalball, do voleibol sentado, do futebol para cegos e do Boccia. Fechamos com o planeamento, execução e avaliação do treino adaptado, a comunicação e relação com o praticante, a segurança e a ética profissional.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os princípios, os pressupostos e as técnicas da avaliação e prescrição do exercício adaptado nas diferentes fases do ciclo de vida; avaliar as capacidades, necessidades individuais específicas e expectativas dos participantes; desenhar atividades físicas adaptadas para públicos com limitações do envelhecimento ou de outras condições físicas ou de saúde, e para participantes com limitações ou deficiências motoras, físicas, intelectuais ou do desenvolvimento; planear, organizar e desenvolver o treino adaptado.
Uma nota sobre linguagem, que vale para toda a sebenta: falamos de pessoas antes de falarmos de condições. Dizemos "pessoa com deficiência visual", "praticante cego", "praticante com paralisia cerebral", e não "um deficiente" ou "um paralítico". A linguagem molda a forma como planeamos: quem vê primeiro a pessoa procura o que ela consegue fazer e como o contexto se pode ajustar.
1. Exercício, atividade física e saúde
Definições que convém distinguir
Três termos aparecem constantemente e confundem-se com facilidade:
| Termo | Definição | Exemplo |
|---|---|---|
| Atividade física | Qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que aumenta o gasto de energia acima do repouso | Subir escadas, passear o cão, jardinar, jogar à bola no recreio |
| Exercício físico | Atividade física planeada, estruturada e repetida, com o objetivo de melhorar ou manter uma ou mais componentes da condição física | Uma sessão de hidroginástica às terças e quintas, um circuito de força de 30 minutos |
| Desporto | Atividade física com regras, normalmente competitiva ou com objetivo de desempenho | Um jogo de voleibol sentado, um torneio de Boccia |
| Condição (aptidão) física | O conjunto de atributos que a pessoa tem ou adquire e que lhe permitem realizar atividade física | Capacidade cardiorrespiratória, força, flexibilidade, equilíbrio, composição corporal |
A atividade física formal é a que acontece em contexto organizado, com horário, local e orientação: uma aula, um treino, um programa de reabilitação. A atividade física informal é a que acontece no dia a dia, sem estrutura, e que também conta: caminhar para o trabalho, brincar, fazer tarefas domésticas, deslocar-se de cadeira de rodas. Para muitos praticantes com necessidades diferenciadas, a atividade informal é a maior fatia do movimento diário, e um bom técnico pergunta por ela na avaliação inicial, porque pode ser aproveitada e potenciada.
Vantagens da atividade física no ser humano
A atividade física regular, adaptada a cada pessoa, tem benefícios em várias dimensões:
- Cardiovasculares e metabólicos: melhora a função do coração e dos vasos, ajuda a controlar a pressão arterial, melhora a sensibilidade à insulina e o perfil lipídico, e ajuda a gerir o peso.
- Músculo-esqueléticos: aumenta a força e a massa muscular, mantém ou melhora a densidade óssea, preserva a mobilidade articular e reduz o risco de quedas.
- Funcionais: melhora o equilíbrio, a coordenação e a autonomia nas tarefas diárias (levantar-se, vestir-se, subir um degrau, fazer transferências).
- Psicológicos e cognitivos: reduz sintomas de ansiedade e depressão, melhora o sono, a autoestima e a atenção.
- Sociais: cria ligação a um grupo, sentimento de pertença e oportunidades de participação na comunidade.
Para uma pessoa com deficiência ou com doença crónica, estes ganhos têm um peso acrescido. Uma pessoa que usa cadeira de rodas depende da força dos membros superiores e do tronco para a vida inteira, e preservá-la é preservar autonomia. Uma pessoa idosa com um pouco mais de força nas pernas levanta-se da cadeira sozinha, e isso muda o dia.
Quanto movimento? Recomendações gerais
As recomendações da Organização Mundial da Saúde para a atividade física servem de ponto de partida e aplicam-se, com adaptações, a quase todas as populações:
- Crianças e adolescentes (5 a 17 anos): em média, pelo menos 60 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa, sobretudo aeróbia, com atividades de reforço muscular e ósseo pelo menos três dias por semana.
- Adultos (18 a 64 anos): entre 150 e 300 minutos por semana de atividade aeróbia de intensidade moderada (ou 75 a 150 minutos de intensidade vigorosa), mais reforço muscular dos grandes grupos musculares em dois ou mais dias por semana.
- Adultos com 65 ou mais anos: o mesmo que os adultos, e acrescentando uma atividade de equilíbrio e de treino funcional multicomponente em três ou mais dias por semana, para prevenir quedas.
- Pessoas com deficiência e com doenças crónicas: as mesmas orientações, adaptadas à capacidade de cada pessoa. A mensagem central é "mexer mais e sentar menos": qualquer quantidade é melhor do que nenhuma, e começa-se pouco a pouco.
- Grávidas e puérperas saudáveis: pelo menos 150 minutos de atividade aeróbia moderada por semana, com reforço muscular e treino de assoalho pélvico, salvo contraindicação médica.
Estas metas são o horizonte. Na prática, uma pessoa sedentária que começa com 10 minutos de caminhada por dia já está a ganhar saúde, e o papel do técnico é desenhar o caminho de progressão para as metas, sem saltar degraus.
O exercício como estímulo metabólico
Cada sessão de exercício é, antes de mais, um desafio energético. O músculo precisa de ATP (adenosina trifosfato) para contrair, e o corpo tem três vias para o produzir:
- Via dos fosfagénios (ATP-PCr): energia imediata, muito potente e muito curta (cerca de 10 segundos). Dominante num lançamento de Boccia ou num sprint de poucos metros.
- Via glicolítica (anaeróbia láctica): energia rápida a partir da glicose, dominante em esforços intensos de 30 segundos a 2 minutos, com acumulação de lactato.
- Via oxidativa (aeróbia): energia a partir de glicose e gorduras com oxigénio, dominante em esforços prolongados e de intensidade moderada, como uma caminhada ou uma sessão de hidroginástica.
Na vida real as três vias funcionam em simultâneo; muda apenas a contribuição relativa de cada uma, consoante a intensidade e a duração. O estímulo metabólico é a razão pela qual o exercício melhora a captação de glicose pelo músculo (útil na diabetes), aumenta o gasto energético (útil na obesidade) e melhora a capacidade do coração e dos pulmões de fornecer oxigénio (útil quase sempre).
Para quantificar a intensidade usa-se o equivalente metabólico (MET): 1 MET é o gasto de energia em repouso, cerca de 3,5 ml de oxigénio por kg de peso por minuto. Uma atividade de 3 a 6 METs é considerada moderada (caminhar a bom ritmo), e acima de 6 METs, vigorosa (correr). As tabelas de METs foram feitas com pessoas sem deficiência, por isso, para um praticante em cadeira de rodas ou com um padrão de marcha alterado, o mesmo gesto pode custar mais ou menos energia, e convém complementar com a perceção subjetiva de esforço, que veremos adiante.
O exercício como estímulo biomecânico
O corpo também responde às forças mecânicas. O osso, o músculo, o tendão e a cartilagem adaptam-se à carga a que são sujeitos:
- Osso: carga mecânica e impacto estimulam a formação óssea (princípio de Wolff: o osso remodela-se em função das forças que recebe). Por isso o treino de força e as atividades com suporte do peso do corpo são aliados contra a osteoporose. Por outro lado, a ausência de carga, como na imobilização prolongada ou em pessoas que não se põem de pé, leva à perda de massa óssea.
- Músculo: a tensão repetida e progressiva provoca hipertrofia e ganhos de força; a falta de uso provoca atrofia.
- Tendões, ligamentos e cartilagem: adaptam-se mais devagar do que o músculo, o que explica as lesões de quem progride depressa demais.
- Articulações: o movimento controlado lubrifica e nutre a cartilagem; o excesso de impacto sobre uma articulação já fragilizada (anca, joelho) pode agravar a dor.
Em qualquer prescrição, o técnico equilibra os dois estímulos: o metabólico (quanta energia, que sistema) e o biomecânico (que cargas, em que articulações, com que impacto). Uma pessoa com obesidade e dor no joelho precisa de estímulo metabólico elevado com baixo impacto articular, e a solução pode ser hidroginástica ou bicicleta, em vez de corrida.
Exercício como fator de intervenção primária e secundária
A prevenção classifica-se por níveis, e o exercício atua em todos:
| Nível | Objetivo | Exemplo de exercício |
|---|---|---|
| Primária | Evitar que a doença apareça | Programa de caminhada em adultos sedentários para prevenir diabetes tipo 2 |
| Secundária | Detetar cedo e travar a progressão | Treino aeróbio e de força em pessoa com hipertensão ligeira, em complemento ao tratamento |
| Terciária | Reduzir incapacidade e complicações de doença instalada | Programa de reabilitação funcional após AVC |
O técnico de desporto trabalha sobretudo na prevenção primária e na secundária (em articulação com os profissionais de saúde) e apoia a manutenção funcional da terciária. Fora do seu âmbito ficam o diagnóstico e a prescrição de tratamento, que pertencem a médicos e a profissionais de saúde.
Exemplo resolvido · Quanto mexe realmente a Rosa?
A Rosa tem 62 anos, está reformada e tem a tensão arterial ligeiramente elevada. Inscreve-se num programa municipal de atividade física. O técnico quer saber se ela cumpre as recomendações.
- Perguntar pelo informal: a Rosa caminha 15 minutos para ir ao mercado, 5 dias por semana, e trata do quintal 2 manhãs por semana (cerca de 40 minutos cada).
- Somar a atividade moderada: 15 × 5 = 75 minutos de caminhada; 40 × 2 = 80 minutos de trabalho de jardim. Total: 155 minutos por semana, a intensidade ligeira a moderada.
- Comparar com a recomendação: o mínimo para adultos é 150 minutos moderados; mas o jardim é intensidade variável, e a caminhada ao mercado é ligeira. Considera-se cumprido à justa, e só se o esforço for realmente moderado (a Rosa fala mas não consegue cantar).
- Verificar o que falta: não há reforço muscular estruturado nem treino de equilíbrio, e aos 62 anos o reforço muscular deve estar em dois ou mais dias por semana.
- Conclusão: o programa deve focar força e equilíbrio, em vez de acrescentar caminhada. Resposta a dar à Rosa: "Já se mexe bastante, vamos juntar força e equilíbrio".
A lição: olhar para o informal evita prescrever o que a pessoa já faz e permite concentrar o tempo da sessão onde há lacunas.
2. Deficiência, incapacidade e diversidade funcional
Como se define deficiência
Ao longo do tempo, o modo de pensar a deficiência mudou:
- Modelo médico: a deficiência é um problema do indivíduo, a "curar" ou "corrigir". O foco está no diagnóstico e na limitação.
- Modelo social: a deficiência nasce da interação entre a pessoa e um ambiente com barreiras (físicas, de comunicação, de atitudes). Uma escada é uma barreira; uma rampa não é.
- Modelo biopsicossocial: integra os dois e é o que sustenta a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) da Organização Mundial da Saúde, aprovada em 2001.
A CIF não classifica pessoas, classifica funcionalidade. Descreve a saúde de uma pessoa em quatro dimensões que interagem entre si: funções e estruturas do corpo, atividades, participação e fatores ambientais e pessoais. Na linguagem da CIF:
| Conceito | O que significa | Exemplo |
|---|---|---|
| Deficiência (alteração de função ou estrutura) | Problema numa função ou estrutura do corpo | Perda de uma perna, perda de visão |
| Limitação da atividade | Dificuldade em executar uma tarefa | Dificuldade em correr ou em apanhar uma bola |
| Restrição à participação | Problema em envolver-se em situações da vida | Não poder jogar no recreio porque o jogo não está adaptado |
| Fatores ambientais | Contexto físico, social e de atitudes | Pavimento, presença de rampa, atitude dos colegas |
Esta visão é muito útil para o técnico de desporto. Perante um praticante, em vez de perguntar apenas "que deficiência tem?", pergunta-se "o que consegue fazer, o que quer fazer, e que barreiras do contexto posso remover?". A mesma deficiência pode ter participação plena num contexto bem adaptado e participação nula num contexto que não se ajustou.
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotada pela Organização das Nações Unidas em 2006 e ratificada por Portugal, descreve as pessoas com deficiência como aquelas que têm incapacidades duradouras físicas, mentais, intelectuais ou sensoriais, que em interação com várias barreiras podem impedir a sua participação plena e efetiva na sociedade em condições de igualdade com os outros. A Convenção reconhece expressamente o direito de participar em atividades recreativas, de lazer e desportivas (artigo 30.º) e obriga os Estados a promover essa participação em todos os níveis.
Diversidade funcional e terminologia
A expressão diversidade funcional sublinha que as pessoas funcionam de formas diferentes, sem hierarquia de "normal" e "anormal". É mais usada em contextos de inclusão e comunidade, enquanto "pessoa com deficiência" é o termo jurídico e institucional corrente (é o que se usa na lei e na Convenção). Nesta sebenta usamos ambos, com o mesmo respeito.
Alguns princípios de linguagem profissional:
- Usar "pessoa com..." (pessoa com deficiência visual, pessoa com paralisia cerebral, pessoa com trissomia 21).
- Evitar termos pejorativos ou de piedade ("sofre de", "vítima de", "preso à cadeira de rodas"). A cadeira de rodas liberta, não prende.
- Evitar rótulos que reduzem a pessoa ao diagnóstico ("o cego", "o autista").
- Não falar da pessoa na terceira pessoa na sua presença; dirigir-se diretamente a ela, e não ao acompanhante.
- Perguntar antes de ajudar. "Quer que o ajude?" respeita a autonomia, e o praticante sabe melhor que ninguém como prefere ser apoiado.
Direitos das pessoas com limitações e com deficiência
O técnico deve conhecer o enquadramento dos direitos porque ele é a razão pela qual a adaptação não é um favor, é uma obrigação social e profissional.
- A Constituição da República Portuguesa consagra a igualdade de todos os cidadãos, prevê expressamente os direitos dos cidadãos portadores de deficiência (artigo 71.º) e reconhece o direito à cultura física e ao desporto (artigo 79.º).
- A Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto (Lei n.º 5/2007, na redação em vigor) reconhece o direito de todos à prática desportiva, sem discriminação, e prevê que o Estado promova o desporto para pessoas com deficiência.
- A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência reconhece o direito à participação em atividades desportivas e ao acesso às instalações, e obriga a assegurar adaptações razoáveis.
- A legislação portuguesa de prevenção, habilitação, reabilitação e participação das pessoas com deficiência e a legislação de acessibilidades (edifícios e espaços públicos acessíveis) completam o quadro. O Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), entidade pública responsável pela execução da política desportiva, é a referência institucional do desporto em Portugal, e trabalha em articulação com a Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência e com o Comité Paralímpico de Portugal.
Dois conceitos práticos que decorrem destes direitos:
- Adaptação razoável: ajustamento necessário e adequado, que não imponha encargo desproporcionado, para que uma pessoa com deficiência possa participar em condições de igualdade. Exemplo: ter um professor-auxiliar, mudar o tamanho da bola, adaptar uma regra.
- Não discriminação: recusar uma inscrição, ou deixar a pessoa "de fora" sem justificação técnica válida, pode constituir discriminação. A segurança é uma preocupação legítima, mas deve ser resolvida com adaptação e avaliação individual, não com exclusão automática.
Para o regime de acesso e exercício da atividade de treinador de desporto (Lei n.º 40/2012, na redação em vigor) e para as atribuições do IPDJ, consulta-se sempre o diploma publicado em Diário da República, porque estas matérias foram sendo alteradas.
Os grandes tipos de deficiência ou incapacidade
Para efeitos de planeamento, agrupam-se as deficiências em famílias, sabendo que a mesma pessoa pode ter mais do que uma (deficiência múltipla):
| Família | Inclui | Impacto principal na prática |
|---|---|---|
| Visual | Cegueira e baixa visão | Orientação no espaço, seguimento da bola, segurança em deslocações |
| Auditiva | Surdez e hipoacusia | Comunicação, perceção de sinais sonoros, equilíbrio em alguns casos |
| Motora e músculo-esquelética | Lesão vertebro-medular, paralisia cerebral, amputações, distrofias, espinha bífida, sequelas de AVC | Mobilidade, força, controlo do movimento, uso de cadeira de rodas ou próteses |
| Da voz e da fala | Perturbações da comunicação oral | Interação com o grupo, instruções, confiança |
| Intelectual e do desenvolvimento | Deficiência intelectual, trissomia 21, perturbações do desenvolvimento | Compreensão de regras, tempo de aprendizagem, necessidade de rotinas |
| Espetro do autismo | Perturbação do espetro do autismo | Comunicação social, sensibilidade sensorial, flexibilidade |
| Doença crónica com limitação funcional | Doença cardíaca, respiratória, neurológica | Tolerância ao esforço, fadiga, cuidados médicos |
Exemplo resolvido · Do diagnóstico às perguntas úteis
O Tiago, 14 anos, tem paralisia cerebral espástica e desloca-se com andarilho. Entra no grupo de AEC de atividade física.
- Evitar partir do rótulo: "paralisia cerebral" é um nome para um conjunto muito variado de situações; dois jovens com o mesmo diagnóstico podem ter capacidades totalmente diferentes.
- Perguntar à família e ao próprio Tiago (e, se possível, aos terapeutas): o que consegue fazer sozinho? Quanto tempo aguenta de pé? Tem dor ou fadiga? Medicação? Crises convulsivas? Que atividades gosta?
- Perguntar ao contexto: o pavimento é liso? A sala tem espaço para o andarilho? Há uma sala alternativa se fizer calor, já que a espasticidade pode agravar com o cansaço?
- Definir uma primeira sessão de observação: jogos simples de equilíbrio e de lançamento, com tempo para descansar.
- Registar: o que fez bem, onde precisou de ajuda, o que o motivou.
O resultado desta análise é um perfil funcional, não um rótulo. O perfil funcional é o ponto de partida do plano individual.
3. Diversidade funcional: o que muda em cada caso
Este capítulo percorre os grupos de pessoas com deficiência ou diversidade funcional previstos no referencial. Para cada um, interessa saber o que é, o que muda na prática e que preocupações específicas tem o técnico. O que se descreve são tendências, não regras para cada pessoa: o perfil individual manda sempre.
Pessoas cegas ou com baixa visão
A deficiência visual vai da baixa visão (visão reduzida que não se corrige totalmente com óculos ou lentes) à cegueira (ausência de visão útil). No desporto adaptado, a classificação da federação internacional de desporto para cegos (IBSA) usa três classes, definidas por acuidade visual (escala LogMAR) e campo visual: B1 (acuidade visual pior do que LogMAR 2,6), B2 (acuidade de LogMAR 1,5 a 2,6 e/ou campo visual inferior a 10 graus) e B3 (acuidade de LogMAR 1,4 a 1,0 e/ou campo visual inferior a 40 graus). Os critérios completos constam do regulamento de classificação em vigor.
O que muda na prática: - O espaço deve ser conhecido e estável. O praticante explora-o a pé, com o técnico, antes da atividade, e não se mudam obstáculos sem avisar. - A informação passa do olhar para o som, o tato e a descrição verbal: bolas com guizos, linhas de pista em relevo, fitas táteis, contrastes fortes de cor para quem tem baixa visão. - O técnico fala em vez de apontar: "o cone está a 3 passos à tua direita", e não "ali". - No acompanhamento, usa-se a técnica do guia vidente: o praticante agarra com a mão o cotovelo do guia, ligeiramente acima, e caminha meio passo atrás, sentindo o movimento do corpo do guia. Pergunta-se antes se quer ser guiado. - Cuidados de segurança: pavimento sem obstáculos, equipamentos acolchoados nas zonas de risco, espaço livre à volta, comunicação clara de início e fim de exercício.
Pessoas surdas
A surdez e a hipoacusia variam em grau, em momento de aparição (de nascença ou adquirida) e em forma de comunicação. Há pessoas surdas que comunicam em Língua Gestual Portuguesa (LGP), que a Constituição manda proteger e valorizar (artigo 74.º), outras que fazem leitura labial e usam aparelhos auditivos ou implante coclear, e outras que usam os dois recursos.
O que muda na prática: - A comunicação é visual: colocar-se de frente, com boa luz, falar claro e sem tapar a boca, usar gestos, demonstrações, cartões com imagens e quadros. - Sinais sonoros (apito, música) devem ser acompanhados por sinais visuais (bandeira, luz, gesto) ou táteis (toque no ombro). - Para chamar a atenção, usam-se um toque no ombro, um aceno ou uma luz, nunca gritar nem falar de costas. - Em alguns casos de surdez de origem vestibular pode haver alteração do equilíbrio, que importa observar em exercícios de olhos fechados ou em superfícies instáveis. - Quando há intérprete de LGP, o técnico dirige-se ao praticante, não ao intérprete, e espera pelos tempos da interpretação.
Pessoas com deficiências músculo-esqueléticas e do movimento
É o grupo mais vasto e heterogéneo. Dele fazem parte:
- Lesão vertebro-medular (paraplegia e tetraplegia): perda de função motora e sensitiva abaixo do nível da lesão. A classificação ASIA (de A a E) descreve a gravidade e o nível. Nas lesões acima da sexta vértebra torácica pode surgir a disreflexia autonómica, uma urgência (subida súbita da tensão arterial, cefaleia intensa, suores acima do nível da lesão, pele pálida abaixo) que obriga a sentar a pessoa, aliviar o desencadeante (por exemplo, uma sonda dobrada ou uma peça apertada) e chamar ajuda médica. Existe ainda a regulação da temperatura comprometida e o risco de úlceras de pressão.
- Paralisia cerebral: perturbação do movimento e da postura resultante de uma lesão do cérebro em desenvolvimento. Pode apresentar espasticidade, movimentos involuntários (atetose) ou alteração da coordenação (ataxia). A fadiga agrava o controlo.
- Amputações e malformações dos membros: uso de prótese ou apenas de apoio. Atenção ao coto (pele, suor, dor) e ao equilíbrio, e à necessidade de tempo de adaptação.
- Espinha bífida, distrofias musculares, esclerose múltipla e sequelas de AVC: cada uma com a sua evolução, mas todas pedem gestão de fadiga e adaptação progressiva. Na esclerose múltipla, o calor agrava os sintomas.
- Nanismo (baixa estatura) e outras condições de morfologia: ajustar alturas, alcance e equipamento.
O que muda na prática: transferências seguras (cama, cadeira, tapete), posicionamento, alinhamento postural, cuidados com a pele, controlo da temperatura, pausas, e foco na força do tronco e dos membros superiores em quem usa cadeira de rodas, para preservar a autonomia e proteger os ombros, que são a articulação mais sobrecarregada.
Pessoas com deficiência da voz e da fala
Inclui perturbações de articulação, de fluência (gaguez), de voz, e a ausência de fala oral. Não há necessariamente alteração da compreensão. O técnico dá tempo de resposta, não completa as frases pela pessoa, faz perguntas de resposta curta quando útil, e aceita comunicação alternativa e aumentativa (pranchas de comunicação, tablets, gestos). Evita pressionar a fala perante o grupo.
Pessoas com deficiência intelectual e do desenvolvimento
A deficiência intelectual caracteriza-se por limitações significativas no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo, com início durante o período de desenvolvimento. Inclui situações como a trissomia 21, o síndroma de X frágil ou outras causas, de intensidade ligeira a profunda. O organismo internacional Special Olympics, criado para promover o desporto de pessoas com deficiência intelectual, organiza treino e competição com programas próprios, incluindo o desporto unificado, em que praticantes com e sem deficiência intelectual jogam na mesma equipa.
O que muda na prática: - Instruções curtas, concretas e uma de cada vez; demonstração mais do que explicação; repetição; apoio visual (pictogramas, sequência de fotografias). - Rotinas previsíveis: a sessão tem sempre a mesma estrutura, o que reduz ansiedade e aumenta autonomia. - Reforço positivo imediato e específico ("Muito bem, lançaste com as duas mãos"). - Em pessoas com trissomia 21 há particularidades frequentes, como hipotonia, laxidão ligamentar, problemas cardíacos congénitos e, em alguns casos, instabilidade da articulação entre as duas primeiras vértebras cervicais, pelo que a orientação do médico deve ser consultada antes de atividades com flexão forçada do pescoço, saltos de impacto ou quedas. - Respeitar a idade cronológica: usar materiais e linguagem adequados à idade, nunca infantilizar um adulto.
Pessoas com autismo
A perturbação do espetro do autismo envolve diferenças na comunicação e interação social e padrões de comportamento e interesses mais restritos ou repetitivos, com diferenças sensoriais frequentes. É um espetro: há pessoas com grande apoio necessário e outras muito autónomas.
O que muda na prática: - Previsibilidade: horário visual (agenda com imagens), aviso antes de mudanças, mostrar o espaço antes da primeira sessão. - Gestão sensorial: barulho do apito, luz forte, cheiros e contacto físico inesperado podem ser desconfortáveis. Oferecer protetores auditivos, um canto calmo e permitir pausas. - Linguagem literal e clara: evitar ironia e expressões ambíguas; dizer o que fazer ("põe a bola no cesto") em vez do que não fazer. - Interesses especiais podem ser usados para motivar. - Perante uma crise (sobrecarga sensorial), reduzir estímulos, falar baixo, dar espaço e tempo, sem repreender.
Exemplo resolvido · Adaptar a comunicação de uma sessão de grupo
Um grupo de AEC tem 12 crianças, entre as quais a Inês, surda e utilizadora de LGP, e o Rui, com autismo e sensibilidade a barulhos fortes. O técnico quer introduzir um jogo de perseguição.
- Identificar as barreiras de comunicação: o apito de início é inaudível para a Inês e doloroso para o Rui; as regras explicadas só por voz não chegam à Inês.
- Escolher sinais alternativos: início e fim com uma bandeira de cor (verde para começar, vermelha para parar) e uma luz, acompanhados de um gesto combinado. O apito é dispensado.
- Preparar apoios visuais: cartões com imagens das regras (correr, parar, "casa"), mostrados antes e durante o jogo, e uma agenda visual da sessão afixada na parede.
- Posicionar-se: o técnico fala de frente, em zona bem iluminada, e pede a um assistente (ou ao intérprete, quando existe) que apoie a Inês.
- Demonstrar antes de jogar: duas crianças voluntárias fazem uma ronda de treino.
- Prever uma zona calma para o Rui, sem o isolar, e deixar que decida quando volta.
- Avaliar: no fim, perguntar às crianças (com gestos, imagens ou palavras) o que correu bem.
A atividade é a mesma para todos; mudaram os canais de comunicação e o ambiente, o que é o essencial da adaptação.
4. Envelhecimento, fases da vida e condições de saúde
Exercício, desenvolvimento e envelhecimento
O corpo muda ao longo da vida, e as necessidades de movimento mudam com ele. Planear bem exige conhecer cada fase.
Crianças (infância) - Estão em crescimento e a aprender o movimento. A prioridade é o desenvolvimento de competências motoras fundamentais (correr, saltar, lançar, receber) através do jogo, da variedade e do prazer, e não da especialização precoce. - Termorregulação menos eficiente do que a dos adultos: atenção ao calor e à hidratação. - Atenção curta: atividades curtas, variadas e com muita participação. - Os ossos têm zonas de crescimento ainda frágeis; evitar cargas máximas e repetição excessiva do mesmo gesto.
Jovens (adolescência) - Estirão de crescimento, mudanças corporais e emocionais. Podem ter desajustes temporários de coordenação ("desajeitamento" do crescimento). - Podem iniciar treino de força orientado, com técnica supervisionada e cargas adequadas à maturação. - Motivação social é central: pertença ao grupo, estética, desafio. Em adolescentes com deficiência, a inclusão com pares é muito importante.
Adultos - Fase de manutenção. Muitos adultos têm sedentarismo laboral. O foco é cumprir as recomendações, prevenir doenças crónicas e gerir o stress.
Idosos - Com o envelhecimento diminuem, em média, a massa e a força muscular (sarcopenia), a densidade óssea, o equilíbrio, a capacidade cardiorrespiratória e a velocidade de reação. Aumentam o risco de quedas e de fraturas. - A boa notícia é que o treino, mesmo iniciado tarde, produz ganhos mensuráveis de força, de equilíbrio e de autonomia. - A heterogeneidade é enorme: há pessoas de 80 anos muito ativas e pessoas de 65 muito frágeis. A idade cronológica diz pouco; a avaliação funcional diz muito. - Programas multicomponente: força, equilíbrio, marcha, resistência aeróbia e mobilidade, com exercícios funcionais ligados ao dia a dia (levantar da cadeira, subir degraus, carregar um saco).
Principais características, capacidades, necessidades e objetivos nas fases especiais da vida
| Fase | Capacidades a desenvolver | Necessidades principais | Objetivos habituais |
|---|---|---|---|
| Crianças | Coordenação, habilidades motoras fundamentais | Jogo, variedade, segurança | Gosto pelo movimento, competências de base |
| Jovens | Força, resistência, desempenho técnico | Pertença, desafio, orientação | Hábitos duradouros, desempenho, saúde |
| Idosos | Força, equilíbrio, mobilidade, resistência | Segurança, autonomia, socialização | Prevenir quedas, manter independência |
Pessoas grávidas
A gravidez é uma fase especial em que o exercício, salvo contraindicação, é recomendado: melhora o controlo do peso, reduz o risco de diabetes gestacional e de hipertensão, melhora o humor e prepara o corpo para o parto.
Orientações gerais (sempre articuladas com o médico ou enfermeiro especialista): - Preferir atividade de intensidade moderada, em que ainda se consegue conversar. - Evitar atividades com risco de queda ou de impacto abdominal (desportos de contacto, equitação, mergulho com garrafa). - A partir do segundo trimestre, evitar exercícios prolongados em decúbito dorsal (deitada de costas), porque o útero pode comprimir grandes vasos e baixar a tensão. - Evitar calor excessivo e garantir hidratação. - Incluir treino do assoalho pélvico e atenção à zona abdominal (diástase dos músculos retos abdominais). - Sinais para parar e procurar ajuda médica: perda de sangue ou líquido pela vagina, falta de ar antes do esforço, tonturas, cefaleia persistente, dor no peito, dor ou inchaço numa perna, contrações dolorosas regulares e diminuição dos movimentos do bebé.
Pessoas com características físicas excecionais
Inclui, por exemplo, pessoas de estatura muito elevada ou muito baixa, de grande massa corporal, ou com hipermobilidade articular. O desafio é o ajuste do equipamento e das cargas: bancos, bicicletas, halteres, cintos. Um praticante de dois metros e dez, ou de um metro e quarenta, precisa de pegas, alturas e pesos pensados para a sua alavanca e para o seu risco articular.
Hipertensão
- O que é: pressão arterial persistentemente elevada. Em consultório, considera-se hipertensão quando os valores se mantêm iguais ou acima de 140 mmHg de sistólica e/ou 90 mmHg de diastólica, confirmados por profissionais de saúde.
- Fatores de risco: idade, hereditariedade, excesso de peso, sedentarismo, consumo excessivo de sal e de álcool, stress, tabagismo.
- Efeitos do exercício: o treino aeróbio regular reduz a tensão arterial em repouso em alguns mmHg, e o treino de força de intensidade moderada também contribui.
- Cuidados: evitar a manobra de Valsalva (suster a respiração durante o esforço); preferir exercício dinâmico a isométrico intenso; subida gradual do esforço; atenção à medicação (diuréticos, bloqueadores beta, que limitam a frequência cardíaca, e vasodilatadores, que podem causar tonturas ao mudar de posição). Quando a pessoa toma bloqueadores beta, a frequência cardíaca deixa de ser fiável para medir a intensidade; usa-se a escala de perceção de esforço.
- Pressões muito elevadas em repouso no dia da sessão são motivo para não iniciar e encaminhar para o médico.
Diabetes
- O que é: doença em que o organismo não produz insulina suficiente (tipo 1, autoimune, insulinodependente) ou não a utiliza bem (tipo 2, ligada ao excesso de peso e ao sedentarismo). Diagnostica-se, entre outros, por glicemia em jejum igual ou superior a 126 mg/dl ou hemoglobina glicada igual ou superior a 6,5%.
- Benefícios do exercício: melhora a sensibilidade à insulina, ajuda a controlar a glicemia e o peso, protege o coração.
- Cuidados:
- Hipoglicemia (açúcar baixo): suores, tremores, fome, confusão. O técnico deve saber reconhecê-la e ter à mão hidratos de carbono de ação rápida (sumo, açúcar, gel de glicose). O risco existe durante o exercício e horas depois.
- Hiperglicemia muito elevada ou com cetose: não iniciar exercício intenso e encaminhar.
- Pé diabético: se há neuropatia, inspecionar os pés, usar calçado adequado, preferir exercício com menor impacto.
- Conhecer o plano do praticante (insulina, medição de glicemia antes, durante e depois).
- Retinopatia grave e neuropatia autonómica exigem restrições de exercício definidas pelo médico.
Obesidade
- O que é: excesso de gordura corporal com risco para a saúde. Usa-se com frequência o índice de massa corporal (IMC = peso em kg dividido pelo quadrado da altura em metros): 25 a 29,9 é excesso de peso, 30 ou mais é obesidade. O IMC é uma indicação grosseira, e o perímetro da cintura e a composição corporal acrescentam informação.
- Fatores de risco: balanço energético positivo, sedentarismo, alimentação, fatores genéticos, hormonais, sono e stress.
- Cuidados: foco em baixo impacto (marcha, bicicleta, hidroginástica, elíptica), progressão lenta, atenção à termorregulação, ao equilíbrio e ao conforto articular, equipamento e espaço adequados ao tamanho. A comunicação deve evitar estigma: o objetivo é saúde e funcionalidade, não apenas o peso na balança.
- Benefícios: redução do risco cardiovascular e metabólico mesmo com perdas modestas de peso, melhoria da mobilidade e do humor.
Osteoporose
- O que é: doença em que a massa e a qualidade do osso diminuem, tornando-o frágil e com maior risco de fratura (colo do fémur, vértebras, punho). O diagnóstico faz-se por densitometria óssea (em mulheres após a menopausa e em homens com 50 ou mais anos, um T-score igual ou inferior a menos 2,5 indica osteoporose).
- Fatores de risco: idade, sexo feminino após a menopausa, hereditariedade, baixo peso, sedentarismo, tabaco, álcool, carência de cálcio e vitamina D, certos medicamentos.
- Exercício: atividades com suporte do peso do corpo (marcha, subir degraus), treino de força e equilíbrio para prevenir quedas.
- Cuidados: evitar flexão forte e repetida do tronco com carga, torções bruscas e impactos violentos nas vértebras; trabalhar a postura e a extensão. Em caso de osteoporose grave, impacto e movimentos de risco são decididos com o médico.
Patologias musculo-esqueléticas
Dor lombar, artrose, tendinopatias, sequelas de fraturas e cirurgias exigem progressão gradual e uso de dor como guia (aceitar desconforto leve e estável, parar com dor aguda ou que persiste após a sessão). A artrose beneficia do exercício regular de baixo impacto e do reforço muscular à volta da articulação. Cada caso deve respeitar as indicações do profissional de saúde que acompanha.
Exemplo resolvido · Adaptar a sessão a uma pessoa hipertensa e com excesso de peso
O Joaquim, 57 anos, tem hipertensão controlada com medicação (incluindo bloqueador beta), IMC de 31 e dor ligeira no joelho direito. Quer entrar num grupo de ginástica de manutenção.
- Identificar os riscos: tensão arterial, medicação que limita a frequência cardíaca, peso, joelho.
- Antes de começar: confirmar com o médico que está autorizado a fazer exercício e se há restrições; medir a tensão arterial no início da sessão.
- Escolher o tipo de exercício: aeróbio de baixo impacto (bicicleta estática, caminhada em plano, hidroginástica), que dá estímulo metabólico sem sobrecarregar o joelho.
- Medir a intensidade: como o bloqueador beta limita a frequência cardíaca, usar a perceção subjetiva de esforço (alvo de 12 a 13 na escala de Borg de 6 a 20, "um pouco difícil") e o teste da conversa.
- Força: exercícios dinâmicos com cargas ligeiras a moderadas, 12 a 15 repetições, expirando no esforço, sem suster a respiração.
- Progressão: começar com 20 minutos de aeróbio, três vezes por semana, e acrescentar 5 minutos por semana se tolerar bem.
- Sinais de paragem: tonturas, dor no peito, falta de ar desproporcionada, dor no joelho aguda.
Resultado: o Joaquim participa em segurança no grupo, com ajustes individuais de intensidade, tipo de exercício e monitorização.
5. Avaliação do praticante
Para que serve avaliar
Avaliar não é fazer testes por fazer. A avaliação responde a três perguntas: é seguro começar? (rastreio e risco), de onde parto? (condição física e competências de base) e o que quer e precisa esta pessoa? (necessidades e expectativas). Só depois disto se prescreve.
Os princípios e pressupostos da avaliação adaptada são:
- Individualização: o mesmo teste pode não fazer sentido para duas pessoas diferentes; adapta-se o teste ou escolhe-se outro.
- Validade e fiabilidade: medir o que se quer medir e obter resultados repetíveis. Mudar as condições (hora, calçado, superfície) entre avaliações estraga a comparação.
- Segurança: nenhum teste é mais importante do que a integridade da pessoa. Não se avalia quem tem contraindicações; encaminha-se.
- Consentimento informado e privacidade: a pessoa sabe o que vai ser feito, para quê, e concorda; os dados de saúde são confidenciais e só se partilham com autorização.
- Utilidade: cada medida tem de servir uma decisão (para escolher exercícios, para definir intensidade, para acompanhar a evolução).
- Contexto: avalia-se na situação mais próxima da prática real (a cadeira de rodas que a pessoa usa, o calçado que calça).
Etapas da avaliação
| Etapa | O que se faz | Exemplo |
|---|---|---|
| 1. Recolha de informação | Questionário de saúde, histórico, medicação, objetivos | Perguntar por cirurgias, quedas, medicação, hábitos |
| 2. Rastreio de risco | Identificar sinais, sintomas e fatores de risco | Questionário de prontidão para a atividade física |
| 3. Avaliação física | Medidas e testes de condição física | Tensão arterial, perímetro da cintura, teste de marcha |
| 4. Avaliação funcional e das competências-base | Observar movimentos fundamentais e autonomia | Levantar da cadeira, lançar e receber, transferências |
| 5. Necessidades e expectativas | Conversa sobre objetivos, preferências, barreiras | "O que gostava de conseguir daqui a 3 meses?" |
| 6. Síntese e decisão | Decidir encaminhar, começar, e com que cautelas | Perfil e plano inicial |
Rastreio pré-participação e estratificação de risco
Antes de iniciar um programa, convém perceber se a pessoa tem doença cardiovascular, metabólica ou renal conhecida, sintomas sugestivos, e se já pratica exercício. Em Portugal e noutros países usa-se muito o questionário de prontidão para a atividade física (PAR-Q+), que identifica quem deve consultar um profissional de saúde antes de começar.
A estratificação de risco de doença cardiovascular ou metabólica organiza as pessoas em níveis com base em três elementos: doença conhecida (cardíaca, metabólica, renal), sinais e sintomas (dor no peito, falta de ar desproporcionada, tonturas, palpitações, edemas) e fatores de risco (idade, tabaco, hipertensão, colesterol elevado, diabetes, obesidade, sedentarismo, história familiar). Em termos práticos:
| Situação | Atitude do técnico |
|---|---|
| Sem doença conhecida, sem sintomas, com poucos fatores de risco, e já ativo | Pode iniciar e progredir de forma gradual, com atenção |
| Sem doença conhecida, sem sintomas, sedentário, vários fatores de risco | Começar com intensidade leve a moderada, progressão lenta, aconselhar avaliação médica |
| Doença conhecida ou sintomas | Parar e encaminhar para avaliação médica antes de iniciar ou progredir |
O técnico de desporto não diagnostica nem decide sobre a aptidão médica; reconhece sinais de alerta, usa os instrumentos de rastreio e encaminha. Esta fronteira é parte da ética profissional.
Instrumentos e técnicas de avaliação da condição física
A condição física tem componentes ligadas à saúde: capacidade cardiorrespiratória, força e resistência muscular, flexibilidade, equilíbrio e agilidade e composição corporal. Para cada uma existem instrumentos de campo, simples, utilizáveis fora do laboratório:
| Componente | Instrumentos de campo | Observações |
|---|---|---|
| Cardiorrespiratória | Teste de marcha de 6 minutos; teste de 2 minutos de marcha estacionária; teste de passada; teste de vai e vem (crianças); ergómetro de braços (cadeira de rodas) | Em quem usa cadeira, preferir testes de braço |
| Força e resistência muscular | Levantar da cadeira em 30 segundos; flexão do antebraço com peso em 30 segundos; dinamometria de preensão; força isométrica | Adaptar posição e carga |
| Flexibilidade | Sentar e alcançar na cadeira; alcançar atrás das costas | Medir sempre dos dois lados |
| Equilíbrio e agilidade | Teste de levantar, andar 3 m e sentar (Timed Up and Go); equilíbrio unipodal; escala de equilíbrio de Berg | Úteis na previsão do risco de queda |
| Composição corporal | Peso, altura, IMC, perímetro da cintura, pregas cutâneas, bioimpedância | Em amputações ou paralisias, os valores de referência devem ser ajustados |
Os testes de aptidão funcional para pessoas idosas organizados na bateria Senior Fitness Test (levantar da cadeira, flexão do antebraço, marcha de 2 minutos ou de 6 minutos, sentar e alcançar, alcançar atrás das costas, levantar-andar-sentar) são muito usados em programas para seniores. Para crianças e jovens usam-se baterias como a Fitnessgram e a Eurofit. Para a avaliação motora de crianças, existem testes das competências motoras fundamentais, como o Test of Gross Motor Development (TGMD).
Perceção subjetiva de esforço (PSE). Quando medir a frequência cardíaca não é fiável (medicação, alguns tipos de deficiência), a escala de Borg 6 a 20 (6 é nenhum esforço, 20 é esforço máximo) ou a escala CR10 (0 a 10) permite ao praticante dizer como sente o esforço. Moderado corresponde, grosso modo, a 12 a 14 na escala de Borg 6 a 20 e vigoroso a valores acima de 14; na escala CR10 usam-se os valores intermédios, consoante o manual adotado.
Frequência cardíaca. A estimativa clássica da frequência cardíaca máxima (220 menos a idade) é grosseira e tem grande margem de erro. Em pessoas com lesão medular alta, a frequência cardíaca máxima é mais baixa, e esta fórmula não se aplica. A reserva de frequência cardíaca (método de Karvonen) calcula a intensidade-alvo como: FC repouso + percentagem × (FC máxima menos FC repouso).
Avaliar as competências-base, as necessidades e as expectativas
Além da condição física, o técnico avalia:
- Competências-base: o que a pessoa já consegue fazer ao nível dos movimentos fundamentais (equilíbrio, deslocar-se, lançar, receber, pontapear), das transferências, das regras do jogo, do trabalho em grupo.
- Necessidades individuais específicas: o que exige adaptação (apoios de comunicação, produtos de apoio, supervisão, tempo de recuperação, espaço).
- Expectativas: o que a pessoa espera e deseja. Uma jovem pode querer competir; um idoso pode querer apenas estar com amigos e manter-se independente. Um programa que ignora as expectativas falha na adesão.
Uma técnica útil é a entrevista motivacional de curta duração, com perguntas abertas ("Conta-me um dia típico", "O que te custa mais?", "Como saberás que isto está a correr bem?") e escuta ativa, sem julgar.
Exemplo resolvido · Uma avaliação inicial passo a passo
A Dona Amélia, 74 anos, quer participar num grupo de ginástica sénior. Tomou medicação para a tensão arterial e já caiu duas vezes no último ano.
- Recolher informação: questionário de saúde e PAR-Q+. A Amélia refere medicação para tensão arterial, sem dor no peito, sem falta de ar anormal, sem tonturas.
- Rastreio: sem doença cardíaca conhecida nem sintomas; com fatores de risco (idade, hipertensão), com baixa atividade. Atitude: pode começar com intensidade ligeira a moderada, com progressão lenta. Pedir autorização médica por precaução, visto ter tido quedas.
- Tensão arterial em repouso: 138/82 mmHg. Permite iniciar.
- Testes funcionais: levantar da cadeira em 30 segundos: 8 repetições (abaixo do esperado para a idade); Timed Up and Go: 12 segundos (limite para risco de queda); marcha de 2 minutos: valores baixos.
- Necessidades e expectativas: "Quero perder o medo de cair e conseguir ir à praia com os netos". Objetivos claros e funcionais.
- Síntese: perfil de risco de queda, força de pernas reduzida; prioridades: força dos membros inferiores, equilíbrio e marcha. Plano: duas sessões por semana, multicomponente; reavaliar aos três meses com os mesmos testes.
A avaliação deu ao técnico uma linha de base mensurável e objetivos importantes para a Amélia.
6. Prescrição do exercício adaptado
Conceitos, princípios e pressupostos
Prescrever exercício é definir, com base na avaliação e nos objetivos, o que fazer, com que intensidade, quanto tempo, com que frequência e como progredir. Na prescrição adaptada acrescentam-se as particularidades da condição do praticante.
Os princípios do treino continuam a valer, e a adaptação é uma questão de os aplicar com inteligência:
| Princípio | Significado | Aplicação adaptada |
|---|---|---|
| Individualidade | Cada pessoa responde de forma diferente | O plano parte do perfil, não da média |
| Especificidade | O corpo adapta-se ao que se treina | Treinar a tarefa pretendida (levantar-se, empurrar a cadeira) |
| Sobrecarga | É preciso um estímulo acima do habitual | Aumentar o desafio, mesmo que pequeno |
| Progressão | O estímulo cresce de forma gradual | Pequenos incrementos, avaliação a cada semana |
| Reversibilidade | Os ganhos perdem-se sem treino | Garantir regularidade |
| Variedade | Diversificar evita monotonia e sobrecargas | Alternar estímulos e jogos |
| Recuperação | A adaptação acontece no descanso | Mais tempo de recuperação quando há fadiga ou doença |
O modelo FITT-VP
Uma forma simples de organizar a prescrição é o modelo FITT-VP:
- Frequência: quantas vezes por semana.
- Intensidade: quão difícil.
- Tempo: duração da sessão ou do exercício.
- Tipo: que modalidade de exercício.
- Volume: quantidade total (tempo × intensidade × frequência).
- Progressão: como e quando aumentar.
Métodos e orientações por componente
Capacidade aeróbia - Frequência: 3 a 5 dias por semana. - Intensidade: moderada (PSE 12 a 14; teste da conversa) para a maioria; leve para quem começa; intervalos curtos podem ser a melhor via para quem não suporta períodos contínuos longos. - Tempo: 20 a 60 minutos por dia, podendo dividir-se em blocos de 10 minutos. - Tipo: marcha, bicicleta, remo, natação, ergómetro de braços, dança, hidroginástica.
Força muscular - Frequência: 2 a 3 dias por semana, não consecutivos, para o mesmo grupo muscular. - Intensidade: para iniciantes, 8 a 12 repetições com carga que permita boa técnica; para idosos e iniciantes ou com doença, 10 a 15 repetições com carga ligeira. - Séries: 1 a 3 por exercício, 6 a 10 exercícios principais. - Tipo: halteres, bandas elásticas, máquinas, peso do corpo, exercícios funcionais. - Cuidados: técnica, respiração (expirar no esforço), amplitude controlada, sem dor aguda.
Flexibilidade e mobilidade - 2 a 3 dias por semana, alongamento de 10 a 30 segundos, 2 a 4 repetições por grupo muscular, com o músculo aquecido, e até ao ponto de ligeira tensão, nunca dor.
Equilíbrio e neuromotor - 2 a 3 dias por semana (idosos, quem tem risco de queda, pessoas com paralisia cerebral ou com algumas deficiências do movimento): progressões desde apoio alargado até apoio reduzido, marcha em tandem, mudanças de direção, tarefas duplas.
Prescrição por população
- Crianças e jovens: jogo, variedade, competências motoras fundamentais; evitar especialização precoce e cargas máximas.
- Idosos: multicomponente, funcional, com atenção ao risco de queda, à fragilidade, às doenças associadas e à medicação.
- Hipertensão: aeróbio de intensidade moderada, força dinâmica leve a moderada, sem Valsalva.
- Diabetes: aeróbio e força, regulares; planear à volta da medicação e das refeições; monitorizar glicemia; atenção a hipoglicemia.
- Obesidade: aeróbio de baixo impacto, volume progressivo, força para preservar massa magra.
- Osteoporose: marcha e impacto moderado, força, equilíbrio; evitar flexão forte do tronco com carga.
- Gravidez: aeróbio moderado, força leve, assoalho pélvico, sem risco de queda.
Objetivos do exercício na prevenção e controlo
O exercício tem objetivos concretos em cada condição:
| Condição | Objetivos | Benefícios esperados |
|---|---|---|
| Hipertensão | Reduzir a tensão arterial, melhorar a função cardiovascular | Redução da pressão em repouso, menor risco cardiovascular |
| Diabetes | Melhorar o controlo da glicemia e a sensibilidade à insulina | Menor glicemia, melhor controlo do peso, menos complicações |
| Obesidade | Aumentar o gasto energético, preservar massa magra, melhorar a mobilidade | Redução de peso e de perímetro da cintura, melhor condição física |
| Osteoporose | Manter ou aumentar a densidade óssea, melhorar força e equilíbrio | Menor risco de queda e de fratura |
Exemplo resolvido · Construir a prescrição inicial de uma pessoa com diabetes tipo 2
A Carla, 52 anos, tem diabetes tipo 2 tratada com medicação oral, IMC de 29 e sedentarismo. O médico autoriza exercício.
- Objetivos: melhorar controlo da glicemia, reduzir perímetro da cintura, aumentar força e resistência.
- Frequência: 3 sessões de aeróbio por semana (não mais de 2 dias seguidos sem exercício) e 2 sessões de força.
- Intensidade: aeróbio moderado (PSE de 12 a 13) para começar; força com 12 a 15 repetições com cargas ligeiras.
- Tempo: 20 minutos de aeróbio no início, subindo 5 minutos a cada duas semanas até 40 minutos; força 25 a 30 minutos.
- Tipo: marcha rápida e bicicleta; força com bandas e halteres.
- Segurança: medir glicemia antes se tomar medicação que a possa baixar; levar hidratos de carbono de ação rápida; calçado adequado e verificar os pés; evitar sessão em jejum prolongado.
- Progressão: a cada 4 semanas, rever com a Carla e aumentar um parâmetro de cada vez (tempo, depois intensidade).
- Reavaliação: ao fim de 12 semanas, repetir testes e perímetro da cintura; trocar impressões com o médico sobre os valores de glicemia.
A prescrição é clara, mensurável e segura, e cada decisão está ligada ao perfil da Carla.
7. Programas de exercício para pessoas com deficiência
Tipos de programas
Um programa de exercício para pessoas com deficiência ou diversidade funcional pode ter objetivos e contextos muito diferentes:
| Tipo de programa | Objetivo principal | Exemplo |
|---|---|---|
| Saúde e condição física | Manter ou melhorar a saúde, a força e a resistência | Treino de circuito adaptado para pessoas em cadeira de rodas |
| Funcional e de autonomia | Melhorar tarefas do quotidiano | Transferências, marcha, equilíbrio, subir degraus |
| Recreativo e social | Prazer, convívio, participação | Jogos cooperativos, dança, passeios |
| Educativo | Aprender competências motoras na escola ou na AEC | Educação física inclusiva |
| Iniciação desportiva | Aprender um desporto adaptado | Escola de Boccia ou de voleibol sentado |
| Competição | Rendimento | Treino de uma equipa de Goalball |
| Aquático | Baixo impacto, liberdade de movimento | Natação adaptada, hidroginástica |
Limitações e preocupações específicas por tipo de deficiência
A cada condição correspondem preocupações próprias, que o técnico deve ter à vista como uma lista de verificação:
| Condição | Preocupações específicas na prática |
|---|---|
| Deficiência visual | Espaço seguro e conhecido; sinais sonoros e táteis; guiar com técnica; proteção contra choques; atenção a descolamento da retina e glaucoma (evitar manobras de Valsalva intensas e impactos na cabeça se indicado pelo oftalmologista) |
| Deficiência auditiva | Comunicação visual; sinais luminosos; equilíbrio; atenção ao uso de aparelhos auditivos perto de água |
| Lesão medular | Disreflexia autonómica, termorregulação, úlceras de pressão, hipotensão postural, ombros, bexiga e intestino |
| Paralisia cerebral | Fadiga, espasticidade, movimentos involuntários, controlo postural, possível epilepsia |
| Amputações | Cuidados do coto, equilíbrio, ajuste de prótese, transpiração, assimetria de cargas |
| Esclerose múltipla | Fadiga, calor, equilíbrio, sessões curtas e frequentes |
| Deficiência intelectual | Compreensão de instruções e regras, supervisão, rotinas, segurança, características associadas à síndrome (cardiopatia, hipotonia, instabilidade cervical em trissomia 21) |
| Autismo | Previsibilidade, sensibilidade sensorial, comunicação clara, gestão de transições |
| Epilepsia | Conhecer o plano de ação em caso de crise; evitar situações de risco como água sem supervisão direta, alturas; atenção à privação de sono |
| Asma e doenças respiratórias | Aquecimento prolongado, medicação de alívio disponível, evitar frio e poluição |
Exercício para pessoas que usam cadeira de rodas
O uso da cadeira de rodas altera o modo de treinar. Algumas ideias-chave:
- A cadeira é uma extensão do corpo: o técnico trata-a como tal, não a empurra nem se encosta sem perguntar.
- Os ombros, os cotovelos e os punhos suportam a carga de toda a mobilidade. O treino deve fortalecer os músculos posteriores do ombro e do dorso (remadas, rotações externas) para compensar o domínio dos músculos anteriores usados no empurrar.
- O tronco é fundamental para o equilíbrio e para jogar. Em quem tem controlo parcial de tronco usam-se cintas ou apoios, e adaptam-se os exercícios.
- O aquecimento é mais longo e inclui mobilidade do ombro.
- Há pausas para alívio de pressão (elevar-se ou inclinar-se para aliviar o peso) em sessões longas.
- O ergómetro de manivela (braço) é o equivalente ao ciclismo para o membro superior.
Atividade física em meio aquático
A água reduz o impacto, sustenta o peso do corpo e permite movimentos amplos. É particularmente útil na obesidade, na osteoartrose, na paralisia cerebral, nalgumas lesões medulares e em idosos. Requisitos: salva-vidas ou técnico com formação adequada, relação adequada entre número de praticantes e de monitores, acesso à piscina (rampa, elevador, cadeira de banho), temperatura apropriada (mais quente para quem tem espasticidade), cuidados com a pele e higiene, e atenção a convulsões, feridas, sondas e dispositivos que não podem molhar-se.
Exemplo resolvido · Programa de circuito para um grupo misto
Um clube local quer criar um circuito de condição física para um grupo de 8 adultos, incluindo duas pessoas que usam cadeira de rodas e uma pessoa com baixa visão.
- Ver o perfil: nível de força, resistência, preferências e limitações de cada elemento.
- Escolher 6 estações que podem ser feitas por todos com pequenas adaptações:
- Remada com banda elástica (sentado ou de pé).
- Elevação de bola medicinal acima da cabeça.
- Empurrar e puxar com banda (peito).
- Rotação de tronco com bola, sentado.
- Transferência de cones de uma mesa para outra, em estações seguidas.
- Ergómetro de braço ou bicicleta, conforme a pessoa.
- Adaptar por pessoa: cargas diferentes, cores contrastantes e sinais sonoros para a pessoa com baixa visão, posição de cada estação com espaço livre de 1,5 m para cadeiras (a largura de manobra).
- Tempo e ritmo: 40 segundos de trabalho, 20 segundos de transição, 3 voltas; ritmo ajustável (cada um escolhe o número de repetições possíveis).
- Segurança: aquecimento de 10 minutos, supervisão, hidratação, observar sinais de fadiga e de dor no ombro.
- Avaliar: perguntar quem gostou, quem achou difícil, o que ajustar para a próxima sessão.
O circuito é inclusivo porque a estrutura é a mesma e as adaptações são individuais e discretas.
8. Produtos de apoio, materiais e equipamentos
Produtos de apoio e ajudas técnicas
Os produtos de apoio (termo hoje preferido, que substitui "ajudas técnicas") são dispositivos, equipamentos, instrumentos ou software, fabricados especialmente ou disponíveis no mercado, usados para prevenir, compensar, aliviar ou neutralizar uma deficiência ou limitação. Existe uma norma internacional de classificação (ISO 9999), e em Portugal funciona o Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio (SAPA), que apoia o acesso das pessoas a estes produtos. Os produtos de apoio não são "ajudas" para o técnico: são parte do corpo funcional do praticante, e usá-los bem é um direito.
Alguns exemplos relevantes no desporto e na atividade física:
| Categoria | Exemplos | Função |
|---|---|---|
| Mobilidade pessoal | Cadeira de rodas manual ou elétrica, andarilho, canadianas, bengala, muletas | Deslocação |
| Cadeiras desportivas | Cadeira de rodas de basquetebol, de ténis, de corrida (handbike, cadeira de atletismo) | Desempenho com estabilidade, inclinação lateral, baixo peso |
| Próteses e ortóteses | Prótese desportiva de lâmina, ortótese de tornozelo | Substituir ou apoiar função |
| Visão | Bengala branca, óculos de proteção, bolas sonoras, guizos, tapa-olhos (olhos vendados) | Orientação e igualdade de condições |
| Audição | Aparelhos auditivos, implante coclear, sistemas de sinalização luminosa | Comunicação e segurança |
| Comunicação | Pranchas de comunicação, tablets com símbolos, quadros de pictogramas | Compreender e ser compreendido |
| Postura e fixação | Cintas de tronco, almofadas, apoios laterais | Estabilidade |
| Tecnologia de acesso | Rampa para Boccia (para jogadores com comprometimento muito severo), ponteiras de cabeça, interruptores | Participação em desportos |
Materiais e equipamentos adaptados
Além dos produtos de apoio pessoais, o técnico usa materiais e equipamentos da atividade que podem ser modificados para facilitar a prática:
- Bolas: mais leves, maiores, mais macias, com sinal sonoro (guizo ou sensor), coloridas, mais lentas (bolas de espuma, de borracha, balões).
- Alvos e cestos: mais baixos ou mais altos, maiores, com cores fortes, com sinal sonoro.
- Redes e balizas: altura reduzida (como no voleibol sentado), baliza maior ou menor.
- Bastões e raquetes: cabos mais grossos, mais curtos ou mais leves, com fixação à mão para quem não consegue agarrar.
- Marcações no chão: linhas em relevo, fitas texturadas, cores contrastantes.
- Superfícies: pavimento liso e firme para cadeiras, tapetes antiderrapantes.
- Equipamentos de proteção: capacetes, joelheiras e cotoveleiras (por exemplo, no Goalball), óculos de proteção, calçado adequado.
Como escolher e usar
Para escolher produtos e materiais, o técnico segue alguns critérios:
- Funcionalidade: ajuda realmente a pessoa a participar?
- Segurança: tem arestas, peças soltas, risco de entalar?
- Facilidade de uso e manutenção: a pessoa e o técnico sabem usar? É fácil de limpar?
- Dignidade e aceitação: a pessoa gosta e usa de livre vontade? Um produto que estigmatiza acaba na gaveta.
- Custo e disponibilidade: é acessível? Há alternativas de baixo custo (uma bola dentro de um saco com guizos, fita-cola colorida no chão)?
Boas práticas: perguntar ao praticante como prefere o produto montado; verificar o estado das rodas, travões, fixações; limpar e guardar o material; não forçar o uso quando a pessoa se sente incomodada.
Exemplo resolvido · Adaptar o equipamento para um jogo de lançamento
Num torneio da escola, o jogo é lançar bolas para um cesto a 3 metros. Participam o Gonçalo (cadeira de rodas), a Teresa (baixa visão) e o Miguel (mobilidade reduzida de mãos).
- Identificar barreiras: o cesto está a 2,2 m de altura (demasiado alto para o Gonçalo); a Teresa não vê o cesto; o Miguel tem dificuldade em agarrar bolas pequenas.
- Ajustar o alvo: três cestos, a 80 cm, 1,2 m e 1,8 m de altura, escolhidos pelo praticante; o cesto da Teresa tem fita fluorescente e um sino por trás, para orientar o lançamento.
- Ajustar a bola: bola de espuma maior e macia para o Miguel; bola com guizo para a Teresa.
- Ajustar a distância: três marcações diferentes (2, 3 e 4 m), escolhidas livremente.
- Pontuação equilibrada: pontos por acertar, mais um bónus por escolher uma distância mais exigente.
- Segurança: todos ficam atrás de uma linha; o técnico verifica o espaço à volta das cadeiras.
Todos jogam o mesmo jogo, com o mesmo objetivo, e cada um desafia-se ao seu nível.
9. Estratégias de adaptação e técnicas de inclusão
Estratégias de adaptação: o modelo STEP
Adaptar uma atividade não é "baixar o nível". É mudar as condições para que a tarefa tenha o desafio certo. Um quadro prático é o STEP, da sigla inglesa de quatro dimensões que o técnico pode ajustar: Espaço, Tarefa, Equipamento e Pessoas.
| Dimensão | O que ajustar | Exemplos |
|---|---|---|
| Espaço | Tamanho, formato, superfície, iluminação, ruído | Campo mais pequeno ou maior; zona de segurança; linhas em relevo |
| Tarefa | Regras, objetivos, número de passos, tempo | Mais toques antes de passar a bola; deixar a bola bater no chão; pontuação diferente |
| Equipamento | Tamanho, peso, cor, som, altura | Bola maior, rede mais baixa, bola sonora |
| Pessoas | Agrupamento, papéis, apoios | Pares, trabalho cooperativo, apoio de colega, assistente |
Regras práticas: ajusta-se uma coisa de cada vez; começa-se pela adaptação mais simples e menos visível; testa-se; e retira-se o apoio quando já não é necessário. O objetivo é sempre máxima participação com mínima adaptação.
Espetro de inclusão
Nem toda a atividade se faz com todos juntos da mesma maneira. Um espetro de opções ajuda a escolher a mais adequada em cada momento:
- Atividade aberta: todos fazem a mesma coisa, sem alterações (o jogo já é inclusivo por natureza).
- Atividade modificada: a mesma atividade com adaptações para todos ou para alguns.
- Atividade paralela: cada um trabalha no seu nível, no mesmo espaço e ao mesmo tempo (por exemplo, estações com diferentes dificuldades).
- Atividade específica: uma atividade pensada para um grupo (ex.: Goalball, que todos podem jogar de olhos vendados).
- Atividade separada: um grupo faz uma atividade diferente, por necessidade pontual (por exemplo, treino de uma técnica específica), com regresso ao grupo logo que possível.
O princípio é: incluir por defeito, separar só por razões justificadas e temporárias.
Técnicas de inclusão
- Jogo cooperativo: o objetivo é comum e ninguém é eliminado (todos marcam pontos para a equipa).
- Papéis múltiplos: além de jogador, há árbitro, treinador, marcador, fotógrafo. Todos têm um papel valorizado.
- Pares e colegas tutores: um colega ajuda, sob orientação, sem fazer pelo outro.
- Regras flexíveis combinadas com o grupo: por exemplo, o jogador em cadeira recebe a bola, o jogador sem cadeira joga com uma mão.
- Desporto unificado: equipas mistas de jogadores com e sem deficiência.
- Ensino diferenciado: diferentes níveis da mesma tarefa (fácil, médio, difícil), com escolha livre.
- Comunicação multimodal: mostrar, dizer, tocar e usar imagens.
- Sensibilização do grupo: conversa com o grupo sobre diferenças, sem expor o praticante contra a sua vontade.
Movimentos de estabilidade, locomotores e manipulativos
As competências motoras fundamentais organizam-se em três famílias, que servem para avaliar e para construir atividades:
| Família | Exemplos | Adaptação possível |
|---|---|---|
| Estabilidade (equilíbrio) | Equilibrar-se parado e em movimento, rodar, dobrar, esticar, torcer, apoiar-se, aterrar | Sentado em bola, em banco, em cadeira; com apoio de barra; no chão para quem não se mantém de pé |
| Locomotores | Andar, correr, saltar, saltitar, galopar, deslizar, rastejar, rolar, deslocar-se em cadeira de rodas | Deslocar-se de gatas, em cadeira, com andarilho, rolar no tapete; distâncias adaptadas |
| Manipulativos | Lançar, receber, rolar, pontapear, driblar, bater, apanhar | Bola maior, menor ou mais lenta; alvo maior; lançar de sentado; usar bastão |
A progressão faz-se da estabilidade para a locomoção e daí para a manipulação, e de gestos simples para combinados (correr e lançar). Em qualquer fase, observa-se o gesto e dão-se indicações curtas sobre os pontos-chave ("olha o alvo, braço atrás, lança ao alto").
Corrigir os erros mais frequentes de base
Os erros mais comuns nos gestos fundamentais são, por exemplo: lançar sem rodar o tronco, não olhar para o alvo, receber com os braços rígidos, não flexionar os joelhos na aterragem. Para corrigir:
- Observar o gesto várias vezes antes de intervir.
- Escolher uma só correção (a mais importante).
- Dar o feedback de forma curta, concreta e positiva ("dobra os joelhos como quem se vai sentar").
- Demonstrar ou guiar o movimento (com autorização para tocar).
- Repetir e voltar a observar. Elogiar a melhoria, mesmo pequena.
Exemplo resolvido · Do jogo cooperativo ao espetro de inclusão
O técnico prepara uma sessão de 45 minutos para 14 crianças, incluindo uma com paralisia cerebral que se desloca em cadeira de rodas e outra com deficiência intelectual ligeira.
- Objetivo da sessão: lançar e receber (manipulativos), com deslocação.
- Atividade principal: "Ponte de bolas". Duas equipas fazem passar bolas de mão em mão ao longo de uma linha, até um contentor; vence a equipa que enche primeiro, mas ambas recebem pontos pelo número de bolas.
- Aplicar STEP:
- Espaço: corredor largo de 2 m, sem obstáculos, pavimento liso.
- Tarefa: passar com as duas mãos ou com uma mão, à escolha; pode rolar ou lançar.
- Equipamento: bolas macias de três tamanhos; contentor a duas alturas.
- Pessoas: as equipas são misturadas; a criança com deficiência intelectual tem um colega tutor e um cartão com imagens dos passos.
- Nível do espetro: atividade modificada, com todos juntos.
- Papéis: a criança em cadeira de rodas tem a posição central, onde tem mais alcance. Cada criança experimenta todas as posições na ronda seguinte.
- Avaliação: observar quem recebeu e passou com sucesso, quem precisou de ajuda, e ajustar a próxima sessão.
Neste exemplo, a inclusão não vem de um material especial, e sim de uma organização pensada.
10. Desporto adaptado: organização, classificação e terminologia
O que é desporto adaptado
O desporto adaptado é a prática desportiva que é modificada, ou criada de raiz, para ser praticada por pessoas com deficiência ou com limitações, respeitando as suas capacidades. Há duas formas de o entender:
- Desportos adaptados a partir de um desporto existente: basquetebol em cadeira de rodas, ténis em cadeira de rodas, voleibol sentado, natação paralímpica.
- Desportos próprios, criados para uma deficiência concreta: o Goalball (para pessoas cegas ou com baixa visão), o Boccia (para pessoas com comprometimento motor severo).
O desporto adaptado cumpre funções diferentes: reabilitação e saúde, recreação e inclusão social, educação e rendimento (alto nível). Em qualquer delas, o princípio é a igualdade de oportunidades de competir e de participar.
Organização internacional e nacional
| Entidade | Âmbito |
|---|---|
| Comité Paralímpico Internacional (IPC) | Movimento paralímpico mundial; organiza os Jogos Paralímpicos e coordena a classificação |
| IBSA (Federação Internacional de Desporto para Cegos) | Desportos para pessoas com deficiência visual: Goalball, futebol para cegos, judo e outros |
| World Abilitysport (antiga IWAS, Federação Internacional de Desporto em Cadeira de Rodas e de Amputados) | Desportos em cadeira de rodas e de pessoas amputadas |
| CP-ISRA (Associação Internacional de Desporto e Recreação para a Paralisia Cerebral) | Referência histórica no desporto para pessoas com paralisia cerebral |
| Special Olympics | Treino e competição para pessoas com deficiência intelectual, em todos os níveis, com o desporto unificado |
| Deaflympics (ICSD) | Desporto de pessoas surdas, com regras que dispensam sinais sonoros |
| Federações internacionais de modalidade | Por exemplo, World ParaVolley (voleibol sentado), World Boccia (antiga BISFed) |
| Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência e Comité Paralímpico de Portugal | Organização e representação em Portugal |
| Special Olympics Portugal | Programa nacional de desporto para pessoas com deficiência intelectual |
| IPDJ | Entidade pública responsável pela política desportiva nacional |
As entidades e os regulamentos evoluem. Quando se prepara uma competição, consultam-se sempre os regulamentos em vigor da federação respetiva.
Classificação funcional
No desporto adaptado de competição, nem todos os atletas têm a mesma limitação. Para que o resultado dependa da capacidade desportiva e não do grau de deficiência, as pessoas são agrupadas em classes desportivas por um processo de classificação:
- Cada desporto tem as suas classes (por exemplo, T11 a T13 no atletismo para deficiência visual; B1, B2, B3 na classificação de IBSA; BC1 a BC4 no Boccia).
- Algumas modalidades distinguem-se pelo público habitual e pela principal adaptação:
| Modalidade | Público habitual | Principal adaptação |
|---|---|---|
| Goalball | deficiência visual | tapa-olhos para todos e bola sonora |
| Boccia | comprometimento motor severo | rampa e assistente (BC3) |
| Voleibol sentado | deficiência locomotora | jogo no chão e rede baixa |
| Futebol para cegos | deficiência visual | bola sonora e chamador |
| Basquetebol em cadeira de rodas | deficiência locomotora | cadeira desportiva |
| Natação paralímpica | várias deficiências | classes desportivas |
- O Comité Paralímpico Internacional reconhece, no Código de Classificação do Atleta em vigor, sete tipos de deficiência elegível: perda de força muscular, limitação da amplitude passiva de movimento, deficiência de membro e/ou diferença de comprimento de membro, baixa estatura, deficiências da coordenação (que reúnem a hipertonia ou espasticidade, a ataxia motora e a discinesia, onde entra a atetose), deficiência visual e deficiência intelectual.
- A classificação é feita por classificadores treinados, em avaliações técnicas e de observação em competição, e tem regras próprias de contestação.
- Para o técnico, a classificação não é só do alto rendimento; é uma ideia útil para formar equipas justas também em contexto recreativo: agrupar por nível de funcionalidade, e não por diagnóstico.
Classes do Boccia, como exemplo: BC1 e BC2 jogam lançando, com a mão ou o pé, sendo a BC1 a de maior limitação do controlo do tronco e das extremidades; BC3 inclui atletas que não conseguem lançar com a mão ou o pé e que usam uma rampa com um assistente; BC4 inclui atletas com deficiência de origem não cerebral, com limitações semelhantes, mas capazes de lançar sem rampa.
Terminologia específica do desporto adaptado
| Termo | Significado |
|---|---|
| Desporto adaptado | Desporto modificado ou criado para pessoas com deficiência |
| Paralímpico | Relativo aos Jogos Paralímpicos e ao movimento paralímpico |
| Classificação / classe desportiva | Agrupamento de atletas segundo o impacto funcional da deficiência no desporto |
| Elegibilidade | Condição de deficiência que dá acesso a um desporto ou classe |
| Atleta | Praticante em contexto competitivo; no recreativo diz-se "praticante" |
| Desporto unificado | Equipas com participantes com e sem deficiência intelectual |
| Guia / chamador | Pessoa que apoia atletas cegos (corredor-guia, chamador no futebol para cegos) |
| Assistente | Pessoa que ajuda um atleta (por exemplo, no Boccia BC3, que posiciona a rampa) |
| Produto de apoio | Equipamento que compensa uma limitação |
| Adaptação razoável | Ajuste que garante a participação sem encargo desproporcionado |
| Acessibilidade | Qualidade de um espaço ou serviço poder ser usado por todos |
| Inclusão | Participação plena e em igualdade num contexto comum |
| Integração | Presença no mesmo espaço, sem mudanças ao contexto |
| Segregação | Separação sistemática por deficiência |
| Tapa-olhos (olhos vendados) | Máscara usada em Goalball para igualar a condição visual de todos |
| Bola de guizo / sonora | Bola com sinal sonoro para orientação |
Distinguir integração de inclusão é central: na integração a pessoa está no mesmo espaço, mas é ela que se tem de adaptar; na inclusão é o contexto que se ajusta.
Exemplo resolvido · Escolher uma modalidade para um grupo
Uma associação tem um grupo de 10 jovens: 4 com deficiência visual, 3 em cadeira de rodas e 3 com deficiência intelectual ligeira. Quer propor uma modalidade para um torneio interno.
- Listar objetivos: participação de todos, diversão, segurança.
- Avaliar modalidades:
- Goalball: igualiza a condição visual com tapa-olhos, por isso é justo para quem não vê e para quem vê. O jogo faz-se no chão, o que exige mobilidade de transferência; para os três jovens em cadeira de rodas só é viável se conseguirem passar para o chão em segurança, com apoio.
- Voleibol sentado: todos jogam sentados no chão, igualando a condição de quem usa cadeira; dificuldade para quem tem baixa visão em apanhar a bola, mitigável com bola mais colorida.
- Boccia: participação de todos com poucos requisitos físicos; acessível a quem tem pouca mobilidade.
- Decisão: um torneio em formato de estações com Boccia (equipas mistas) e voleibol sentado com bola leve, e uma sessão de experimentação de Goalball para todos.
- Regras de equipa: equipas equilibradas por nível de funcionalidade e não por diagnóstico.
- Segurança: espaço livre, superfície adequada, árbitros e assistentes formados.
A escolha respeitou o princípio de que a modalidade se ajusta às pessoas e não o contrário.
11. Regras do Goalball, do voleibol sentado, do futebol para cegos e do Boccia
Este capítulo apresenta as regras essenciais das quatro modalidades previstas no referencial. As regras oficiais são revistas periodicamente pelas federações internacionais, por isso, para competir ou arbitrar, consulta-se o regulamento em vigor. O que se descreve aqui é o necessário para ensinar, treinar e jogar com segurança.
Goalball
Origem e público. Criado depois da Segunda Guerra Mundial para a reabilitação de veteranos cegos, está nos Jogos Paralímpicos desde 1976. Joga-se com todos os atletas de olhos tapados (tapa-olhos), qualquer que seja o seu resto visual, para igualar as condições. Tutelado pela IBSA.
Princípios do jogo - Equipas de três jogadores em campo (mais suplentes), num campo retangular de 18 × 9 m, com baliza de 9 m de largura em cada topo, que ocupa toda a largura do campo. - A bola pesa cerca de 1,25 kg e tem guizos no interior, para que os jogadores a ouçam. - O objetivo é lançar a bola rasteira (a rolar ou a quicar no chão) para marcar na baliza adversária, e defender a própria baliza com o corpo, deitado ou em movimento lateral. - O campo tem linhas táteis em relevo (fita com cordel por baixo), para os jogadores se orientarem ao toque. - O jogo tem duas partes de 12 minutos, com intervalo. - O silêncio do público e dos treinadores durante o jogo é fundamental: o som da bola é a informação principal.
Regras importantes - O jogador tem um tempo limitado (cerca de 10 segundos para a equipa) para lançar a bola depois de a controlar. - O lançamento tem de respeitar a trajetória rasteira e as zonas de contacto com o campo; lançamentos que não cumprem (por exemplo, "bola alta" ou "bola longa") são sancionados com uma penalização. - Os jogadores não podem tocar no tapa-olhos durante o jogo, a não ser em pausa autorizada. - Penalizações: quando há uma falta, um jogador da equipa infratora fica sozinho para defender um lançamento do adversário. - Segurança: os jogadores usam proteção (cotoveleiras, joelheiras e protetores de anca), pois defendem lançamentos rápidos com o corpo.
Ensino. Começar com orientação no campo: explorar as linhas, o tamanho da baliza e a posição dos companheiros. Ensinar a defesa (deitar-se lateralmente com o corpo alongado e braços estendidos) antes do lançamento potente. Praticar o lançamento rasteiro com técnica (passada e rotação) e a comunicação por voz entre colegas.
Voleibol sentado
Origem e público. Surgiu da combinação do voleibol com um jogo alemão (Sitzball), nos anos 1950, e está nos Jogos Paralímpicos. É praticado por atletas com deficiência locomotora (amputados, lesões medulares, paralisia cerebral, outras). Tutelado pela World ParaVolley.
Princípios do jogo - Duas equipas de seis jogadores em campo, num campo de 10 × 6 m, com a rede a 1,15 m (masculino) ou 1,05 m (feminino). - Os jogadores jogam sentados no chão: em todas as ações de jogo, uma parte do corpo entre as nádegas e os ombros tem de estar em contacto com o chão. Podem deslocar-se com as mãos e as pernas, mas pôr-se de pé, levantar o corpo ou dar passos é proibido. - A linha de ataque fica a 2 metros da rede. - Os sets disputam-se até 25 pontos (com diferença mínima de 2), em melhor de cinco sets; o quinto set é a 15 pontos. - Tal como no voleibol, cada equipa pode dar até três toques antes de passar a bola, e o jogador não pode tocar duas vezes seguidas, com exceção do bloco. - Ao contrário do voleibol de pé, é permitido bloquear o serviço.
Regras importantes - Falta: levantar o corpo do chão ao atacar a bola (na defesa, com a bola não inteiramente acima do topo da rede, é permitido), interferir com o jogo do adversário ao tocar na rede ou ao invadir o seu espaço, ou fazer toque duplo. Tocar na rede ou passar a linha central sem interferir com o adversário não é falta. - Nas competições oficiais, o regulamento limita o número de jogadores com deficiência mínima em campo, para manter o equilíbrio entre equipas.
Ensino. Começar com deslocações sentadas (arrastar com as mãos e pernas), depois passe de dedos e manchete, serviço e ataque. Usar uma rede mais baixa ou bola mais leve no início. Preparar o chão (superfície lisa e antiderrapante), proteger as mãos e ombros do desgaste.
Futebol para cegos (futebol 5)
Origem e público. Adaptação do futebol para atletas com deficiência visual, nos Jogos Paralímpicos desde 2004. Tutelado pela IBSA em articulação com a FIFA.
Princípios do jogo - Duas equipas de cinco jogadores: quatro jogadores de campo cegos (com tapa-olhos) e um guarda-redes com visão (ou com resto visual). - O jogo decorre num campo de 40 × 20 m (aproximadamente), de piso liso, com bandas laterais que evitam que a bola saia e orientam a equipa. - A bola tem guizos e produz som ao rolar. - A duração é de duas partes de 20 minutos, com intervalo. - Um chamador (guia), atrás da baliza adversária, dá indicações à equipa que ataca, sobre a posição da baliza e a distância. - Um treinador orienta do meio-campo, e o guarda-redes orienta a defesa.
Regras importantes - Os jogadores de campo têm de dizer "voy" (em espanhol, "vou") quando vão disputar a bola, para evitar choques. Não dizer é falta. - Não existe fora de jogo. - O guarda-redes só pode jogar dentro da sua área. - As faltas e os livres seguem os princípios do futsal, com adaptações.
Ensino. Começar com orientação sonora e confiança nas deslocações, depois condução da bola de pé com controlo, passe com som, remate e jogo reduzido. Insistir no uso do "voy" e na comunicação com o chamador.
Boccia
Origem e público. Jogo de precisão, derivado de jogos de bolas europeus, criado para pessoas com paralisia cerebral e, hoje, aberto a outras deficiências com grande comprometimento motor. Está nos Jogos Paralímpicos desde 1984. Joga-se de sentado, geralmente em cadeira de rodas. Tutelado pela World Boccia.
Princípios do jogo - Joga-se num campo retangular de cerca de 12,5 × 6 m, com caixas de lançamento numeradas. - Cada lado tem seis bolas (vermelhas ou azuis): no individual, seis por jogador; nos pares, três por atleta; nas equipas de três atletas, duas por atleta. Há uma bola alvo branca (o jack). - O objetivo é lançar, rolar ou, no caso de BC3, empurrar por uma rampa as bolas o mais perto possível do jack. - Joga-se em partidas por parciais (ends): em individual e pares, quatro parciais; em equipas, seis. No fim de cada parcial, ganha pontos a equipa cujas bolas estão mais perto do jack, um ponto por cada bola mais perto do que a melhor bola adversária. - Há um tempo limite por jogador em cada parcial.
Regras importantes - O primeiro lançamento é o do jack, feito pelo jogador ou equipa que joga com bolas vermelhas; a seguir lança-se a primeira bola vermelha, depois a azul, e joga a seguir quem estiver mais longe do jack. - O jogador deve manter a posição na caixa (por exemplo, pelo menos uma nádega em contacto com a cadeira) durante o lançamento. - Atletas BC3 usam a rampa e o assistente, que deve estar de costas para o campo, e só ajuda a posicionar a rampa e a entregar a bola, sem influenciar a decisão. - Atletas BC1 podem ter assistência para ajustar a cadeira e entregar bolas. - Faltas: invadir a linha, tocar nas bolas, ultrapassar o tempo, o assistente olhar para o campo.
Ensino. Introduzir com precisão (rolar uma bola a um alvo), depois a escolha de estratégia (aproximar ou empurrar a bola adversária), a noção de distância e a gestão do tempo. Adaptar as bolas (peso, textura) e a posição da cadeira. A Boccia é muito apropriada para jogos inclusivos de equipas mistas.
Exemplo resolvido · Preparar a primeira aula de Goalball
Uma turma de 12 jovens, entre os quais 3 com deficiência visual e 9 sem, vai fazer a primeira aula de Goalball.
- Preparar o espaço: campo de 18 × 9 m, ou mais pequeno se necessário, com linhas táteis feitas de fita larga sobre cordel; piso liso e limpo; sem equipamento solto. Tapetes junto às paredes.
- Material: duas bolas com guizos, tapa-olhos para todos (lavados ou individuais), proteções para joelhos e cotovelos.
- Aquecimento e sensibilização (10 minutos): exploração do espaço de olhos tapados, em pares, com o colega a dar indicações de voz; depois sozinhos.
- Aprendizagem da defesa (10 minutos): deitar-se de lado e levantar-se; rolar a bola lentamente e a turma ouve e interceta.
- Aprender o lançamento (10 minutos): lançamento rasteiro, de pé, com passada, contra uma baliza sem defesa.
- Jogo reduzido (10 minutos): 3 contra 3, durante dois períodos de 4 minutos, com silêncio na sala.
- Regras essenciais: lançamentos rasteiros; silêncio durante o jogo; não tocar no tapa-olhos.
- Regresso à calma e reflexão (5 minutos): o que sentiram, o que aprenderam sobre ouvir e comunicar.
Ao tapar os olhos de todos, a aula converte uma limitação em condição comum e valoriza a competência de quem já vive sem visão.
12. Planear, executar e avaliar o treino adaptado
Objetivos gerais do treino
Todo o plano começa com objetivos claros, formulados com a pessoa. Os objetivos gerais do treino adaptado cobrem:
- Saúde e bem-estar: manter ou melhorar a condição física.
- Funcionalidade e autonomia: melhorar as atividades do dia a dia.
- Competências desportivas: aprender e aperfeiçoar a técnica e a tática de uma modalidade.
- Participação e inclusão social: pertencer a um grupo e a uma comunidade.
- Prazer e adesão: gostar de se mexer e continuar.
- Rendimento, quando o praticante é atleta de competição.
Cada objetivo deve ser específico, mensurável, realista e com prazo. "Melhorar" é vago; "levantar-se da cadeira 10 vezes em 30 segundos até ao fim de março" é mensurável.
Objetivos de preparação técnica, tática, física e psicológica
No treino de uma modalidade, planeiam-se quatro dimensões de preparação, que se articulam:
| Preparação | O que visa | Exemplos no desporto adaptado |
|---|---|---|
| Técnica | Aprender e automatizar os gestos | Lançamento rasteiro de Goalball, manchete no voleibol sentado, condução da bola no futebol para cegos, lançamento no Boccia |
| Tática | Tomar decisões em jogo | Posicionamento e comunicação na defesa de Goalball, escolha entre aproximar e empurrar no Boccia, organização da equipa no voleibol sentado |
| Física | Desenvolver capacidades | Força de braços e tronco, resistência, velocidade, equilíbrio, mobilidade |
| Psicológica | Gerir emoções, motivação, concentração | Controlo da ansiedade, confiança, trabalho em equipa, resiliência à derrota |
Cada sessão não precisa de trabalhar tudo; o plano distribui o foco por sessões e ciclos.
Planear: macrociclo, mesociclo, microciclo e sessão
O plano organiza-se em escalas de tempo:
- Macrociclo: a época ou o programa completo (por exemplo, 9 meses).
- Mesociclo: um bloco de semanas com um foco comum (por exemplo, 4 semanas de adaptação à carga).
- Microciclo: a semana, com a distribuição das sessões e do descanso.
- Sessão (unidade de treino): o dia.
Uma boa sessão tem uma estrutura em três partes:
- Parte inicial (aquecimento): ativar o corpo, mobilidade, preparação específica, 10 a 15 minutos; apresentar os objetivos.
- Parte fundamental: o trabalho principal (técnica, tática, força, resistência, jogo).
- Parte final (retorno à calma): baixar a intensidade, alongamentos suaves, balanço da sessão, hidratação.
Organizar e desenvolver: a sessão adaptada
Para organizar o treino adaptado, o técnico considera:
- Pessoas: número, perfis, apoios necessários, rácio técnico-praticante.
- Espaço e tempo: acessibilidade, dimensão, pavimento, temperatura, iluminação, horários compatíveis com transporte e medicação.
- Materiais: o necessário, no sítio certo, em bom estado.
- Segurança: plano de emergência, material de primeiros socorros, desfibrilhador automático externo (DAE) acessível, contactos úteis (112).
- Alternativas: um plano B para o dia em que a pessoa está cansada, com dor ou com pouca motivação, ou se há falha de material.
Executar: demonstrar, explicar, corrigir
A condução da sessão assenta em quatro gestos pedagógicos:
- Apresentar a atividade (curta e clara, com demonstração).
- Organizar o grupo (formações simples, tempos de espera curtos).
- Observar (posição do técnico que permite ver todos).
- Dar feedback (curto, positivo, específico).
Aplicam-se também as técnicas do treino adaptado: tarefas por estações com diferentes níveis, instruções multissensoriais, exemplos por pares, e tempo de recuperação ajustado.
Identificar e resolver situações críticas
Chama-se situação crítica a um acontecimento que ameaça a segurança, a participação ou o desenvolvimento normal da sessão. Alguns exemplos e respostas:
| Situação | Resposta |
|---|---|
| Queda de um praticante | Parar, avaliar sem mover se houver suspeita de lesão grave, pedir ajuda; se necessário, ligar 112 |
| Sinais de hipoglicemia | Sentar, dar hidratos de carbono de ação rápida, reavaliar, informar a família |
| Crise epilética | Proteger a cabeça, afastar objetos, não conter nem colocar nada na boca, cronometrar; se durar mais de 5 minutos, ligar 112 |
| Disreflexia autonómica | Sentar a pessoa direita, aliviar roupa apertada e verificar sonda, medir tensão, ligar 112 se persistir |
| Crise de sobrecarga sensorial | Reduzir estímulos, levar para um espaço calmo, dar tempo |
| Conflito no grupo | Parar o jogo, ouvir, reformular regras, valorizar respeito |
| Paragem cardiorrespiratória | Ligar 112, iniciar compressões e usar o DAE |
Resolver situações críticas começa por prevenir: conhecer o historial de saúde, ter planos de ação, ensaiar procedimentos.
Avaliar o treino
Avalia-se a sessão (correu como planeado? Todos participaram? Houve problemas de segurança?), o praticante (progrediu nos testes? Está motivado?) e o plano (os objetivos estão a ser atingidos?). Usam-se:
- Registos de presenças e de carga (duração, perceção de esforço).
- Reavaliação periódica com os mesmos testes da avaliação inicial.
- Observação com listas de verificação.
- Opinião do praticante e, quando adequado, da família e de profissionais de saúde.
Com a avaliação, ajusta-se o plano: aumenta-se a carga se está fácil, mantém-se ou reduz-se se há fadiga, muda-se o conteúdo se falta motivação.
Exemplo resolvido · Planear um mesociclo de 6 semanas para uma equipa de voleibol sentado
Uma equipa de 8 atletas inicia a época. Têm níveis diferentes e duas sessões por semana de 90 minutos.
- Objetivos do mesociclo: melhorar o passe de dedos e a manchete (técnica), a comunicação em campo (tática), a força de ombros e tronco (física) e a coesão da equipa (psicológica).
- Microciclo tipo (duas sessões):
- Sessão A: aquecimento (10 minutos), técnica de passe e manchete (35 minutos), jogo reduzido 3 contra 3 (20 minutos), força de ombros e tronco (15 minutos), retorno à calma (10 minutos). Total: 90 minutos.
- Sessão B: aquecimento (10 minutos), serviço e receção (30 minutos), organização defensiva e comunicação (25 minutos), jogo (15 minutos), retorno à calma (10 minutos). Total: 90 minutos.
- Progressão: semanas 1 e 2 com cargas baixas e foco na técnica; semanas 3 e 4 aumentam repetições e dificuldade; semana 5 é a de maior exigência; semana 6 é de descarga e de reavaliação.
- Aquecimento específico: mobilidade de ombros, punhos, tronco e ancas; ativação sentado.
- Segurança: atenção a sobrecarga de ombro, pausas, hidratação, superfície do pavimento.
- Avaliação: contagem de passes corretos em 20 tentativas na semana 1 e na semana 6; perceção de esforço registada; conversa com os atletas.
O mesociclo está desenhado de forma coerente: objetivos, estrutura, progressão e avaliação alinhados.
13. Comunicação, adesão, segurança e ética profissional
Estabelecer uma relação positiva com os praticantes
A relação com o praticante é a base da adesão. Alguns princípios:
- Escuta ativa: dar atenção total, confirmar o que se percebeu ("Se percebi bem, o que mais te custa é...").
- Empatia: compreender a perspetiva da pessoa sem ficar com pena.
- Assertividade: ser claro, respeitador e firme em regras de segurança.
- Respeito pela autonomia: oferecer escolhas ("preferes começar pelo braço ou pela perna?"), perguntar antes de tocar ou ajudar.
- Tratamento com dignidade: adequado à idade, sem diminutivos desnecessários, sem elogiar excessivamente tarefas banais ("que bem, pegaste na bola!").
- Confidencialidade: o que se sabe sobre saúde não se divulga.
Promover a adesão ao exercício
A taxa de abandono é alta em todos os programas, mais ainda em populações com barreiras. Para aumentar a adesão:
- Objetivos significativos para a pessoa.
- Sucesso precoce: começar com tarefas que a pessoa consegue, para criar confiança.
- Prazer e variedade: jogos, música, desafios em equipa.
- Apoio social: grupo, pares, família.
- Remover barreiras: transporte, horário, custo, medo de quedas, vergonha.
- Feedback e reconhecimento do progresso (registo visível, pequenas conquistas).
- Autonomia gradual: ensinar a pessoa a continuar fora da sessão, com exercícios simples em casa.
- Planos para recaídas: normalizar paragens e ajudar a retomar.
Comunicação adaptada e feedback
O feedback eficaz é contínuo, construtivo, específico e imediato. A estrutura "o que está bem, o que melhorar, como" ajuda: "Mantiveste a cabeça erguida (bem). Falta rodar mais o tronco (melhorar). Pensa em mostrar a bola ao teu lado antes de lançares (como)." Adapta-se ao canal de cada pessoa:
| Pessoa | Canal preferencial |
|---|---|
| Cega ou com baixa visão | Verbal descritivo, tátil (com autorização), auditivo |
| Surda | Visual, gestual, escrito, LGP |
| Com deficiência intelectual | Curto, concreto, demonstração, imagens |
| Com autismo | Literal, visual, previsível |
| Com dificuldade de fala | Tempo, perguntas fechadas, comunicação alternativa |
Segurança dos participantes
Garantir a segurança é critério central do desempenho profissional. Isto inclui:
- Antes: avaliar riscos (pessoas, espaço, material), conhecer o historial de saúde, confirmar autorizações, verificar o equipamento, preparar o plano de emergência.
- Durante: vigiar, ajustar a carga, garantir hidratação e pausas, respeitar limites de temperatura, evitar situações de risco.
- Depois: observar sinais tardios, registar incidentes, comunicar aos responsáveis.
- Formação: suporte básico de vida (SBV), uso de DAE, primeiros socorros, deteção de sinais de alerta.
- Material: manutenção, arrumação, fixação de balizas e estruturas pesadas, tapetes e proteções.
- Seguro: confirmar que os praticantes têm seguro desportivo ou de acidentes pessoais, conforme o regime aplicável ao contexto.
Princípio-chave: na dúvida, parar e pedir ajuda. Um técnico competente sabe reconhecer os limites da sua intervenção.
Responsabilidade, ética e limites de atuação
O desempenho profissional exige:
- Responsabilidade e zelo pelas suas ações.
- Imparcialidade: tratar todos com igualdade, sem favoritismos.
- Espírito desportivo: respeito pelas regras, pelos adversários, pelos árbitros e pelo jogo.
- Respeito pelas diferenças e pela diversidade: cada pessoa é singular.
- Privacidade: proteger dados e imagem (fotografias e vídeos só com autorização).
- Limites de atuação: não diagnosticar, não prescrever medicação, não fazer terapia. Trabalhar em equipa com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, professores de educação especial, e respeitar as suas indicações.
- Cumprimento do enquadramento legal do exercício profissional das atividades desportivas, na redação em vigor.
- Formação contínua: a área evolui, e o técnico atualiza-se.
- Liderança: conduzir o grupo com clareza, dar o exemplo nas regras de segurança e no respeito, distribuir papéis e motivar sem impor.
- Autonomia no âmbito das suas funções: decidir e agir dentro das competências do técnico, pedindo apoio e encaminhando quando o assunto excede o seu âmbito.
- Empenho e persistência: não desistir perante a dificuldade de um praticante, testando alternativas de adaptação até encontrar a que funciona.
Normas e regras definidas
O técnico aplica regras e normas em três níveis: as da instalação (regulamento de utilização, segurança, evacuação), as da entidade (clube, escola, ginásio: protocolos, autorizações, comunicação com famílias) e as da modalidade (regulamentos das federações). Interpretar um regulamento envolve ler com atenção o texto, identificar o que é obrigatório, o que é permitido e o que é proibido, e perguntar à entidade competente em caso de dúvida.
Exemplo resolvido · Gerir uma situação crítica numa sessão de grupo
Durante uma sessão de circuito, o Pedro, de 61 anos, com diabetes tipo 2 e medicação para a diabetes, começa a suar muito, tremer e a ficar confuso.
- Reconhecer o padrão: suores, tremor e confusão num praticante com diabetes sugerem hipoglicemia.
- Parar a atividade do Pedro e sentá-lo num local seguro. Pedir a um colega que mantenha o grupo ocupado com outra tarefa.
- Dar hidratos de carbono de ação rápida (por exemplo, sumo ou açúcar), se está consciente e consegue engolir. Se possível, medir a glicemia.
- Reavaliar ao fim de 10 a 15 minutos: se melhora, descansa e come algo; se não melhora, ou se perde a consciência, ligar 112 e não dar nada pela boca.
- Informar a família ou a pessoa de contacto, e registar o incidente.
- Rever o plano: pedir ao Pedro que meça a glicemia antes da sessão, trazer sempre hidratos de carbono, e falar com o médico sobre a medicação em dias de exercício.
A boa gestão resulta de reconhecer cedo, agir com calma e proteger o participante.
Erros comuns
- Partir do diagnóstico e não da pessoa. Dois praticantes com a mesma deficiência podem ter capacidades muito diferentes. A avaliação individual vem sempre primeiro.
- Falar com o acompanhante em vez de falar com o praticante. A pessoa tem direito a ser ouvida e a decidir.
- Ajudar sem perguntar. Empurrar uma cadeira de rodas, agarrar um braço ou mover um objeto sem aviso retira autonomia e pode ser perigoso.
- Confundir integração com inclusão. Pôr a pessoa no mesmo espaço sem mudar nada é integração; incluir é ajustar espaço, tarefa, equipamento e pessoas.
- Adaptar demasiado e sem necessidade, retirando o desafio, ou adaptar pouco, deixando a pessoa de fora. O objetivo é máxima participação com mínima adaptação.
- Mudar vários parâmetros ao mesmo tempo, sem perceber qual resolveu o problema.
- Usar a frequência cardíaca máxima estimada (220 menos a idade) em qualquer pessoa. Em pessoas medicadas com bloqueadores beta ou com lesão medular alta, não é fiável; usa-se a perceção subjetiva de esforço.
- Ignorar a medicação, a hipoglicemia, a disreflexia autonómica ou o risco de crise epilética por não ter perguntado.
- Esquecer o rastreio. Começar um programa sem questionário de saúde nem avaliação do risco cardiovascular e metabólico.
- Ultrapassar o âmbito profissional: diagnosticar, mexer na medicação ou fazer tratamento. Cabe ao técnico reconhecer sinais e encaminhar.
- Prescrever a mesma sessão a todos. A falta de individualização é a principal causa de lesão e de abandono.
- Progredir depressa de mais, sobretudo em idosos, na obesidade e em quem vem de longa inatividade.
- Permitir a manobra de Valsalva em pessoas hipertensas, ou flexões fortes do tronco em quem tem osteoporose.
- Esquecer os ombros de quem usa cadeira de rodas, treinando só o que já domina (empurrar) e não o que equilibra (puxar, rodar para fora).
- Dar instruções longas e abstratas a pessoas com deficiência intelectual ou autismo, em vez de curtas, concretas e visuais.
- Usar sinais sonoros como única forma de comunicar com pessoas surdas, ou sinais só visuais com pessoas cegas.
- Infantilizar adultos com deficiência intelectual, com materiais, tom e elogios inadequados à idade.
- Mudar a disposição do espaço sem avisar praticantes com deficiência visual.
- Aplicar regras de desporto adaptado sem conhecer o regulamento em vigor, por exemplo no Goalball (silêncio, tapa-olhos) ou no Boccia (papel do assistente).
- Esquecer o plano de emergência, o material de primeiros socorros e o DAE.
- Divulgar informação de saúde ou imagens do praticante sem autorização.
Glossário
- Atividade física: qualquer movimento produzido pelos músculos esqueléticos que aumenta o gasto de energia acima do repouso.
- Exercício físico: atividade física planeada, estruturada e repetida, com o objetivo de melhorar a condição física.
- Atividade física formal: a que decorre em contexto organizado, com horário e orientação.
- Atividade física informal: a que ocorre no quotidiano, sem estrutura, como caminhar ou jardinar.
- Condição física (aptidão física): conjunto de atributos que permitem realizar atividade física.
- MET: equivalente metabólico, 1 MET corresponde ao gasto em repouso, cerca de 3,5 ml de oxigénio por kg por minuto.
- Estímulo metabólico: desafio energético que o exercício coloca ao organismo.
- Estímulo biomecânico: forças mecânicas aplicadas a ossos, músculos, tendões e articulações.
- Prevenção primária, secundária e terciária: evitar a doença, travar a sua progressão e reduzir incapacidade já instalada.
- CIF: Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, da Organização Mundial da Saúde.
- Deficiência: alteração de uma função ou estrutura do corpo, que, em interação com barreiras, pode limitar a participação.
- Diversidade funcional: expressão que sublinha as diferentes formas de funcionar das pessoas.
- Adaptação razoável: ajuste necessário e adequado, sem encargo desproporcionado, para garantir a participação em igualdade.
- Baixa visão: visão reduzida que não se corrige totalmente com óculos ou lentes.
- Língua Gestual Portuguesa (LGP): língua visual e gestual da comunidade surda portuguesa.
- Lesão vertebro-medular: lesão da medula espinhal com perda de função motora e sensitiva abaixo do nível afetado.
- Disreflexia autonómica: resposta de emergência, em lesões medulares altas, com subida súbita da tensão arterial.
- Paralisia cerebral: perturbação do movimento e da postura causada por lesão do cérebro em desenvolvimento.
- Espasticidade: aumento do tónus muscular que dificulta o movimento.
- Deficiência intelectual: limitações significativas no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo, com início durante o período de desenvolvimento.
- Perturbação do espetro do autismo: diferenças na comunicação social e padrões de comportamento e interesses restritos ou repetitivos.
- Sarcopenia: perda de massa e de força muscular associada ao envelhecimento.
- Hipertensão: pressão arterial persistentemente elevada.
- Diabetes: doença caracterizada por glicemia elevada por falta ou má utilização de insulina.
- Hipoglicemia: glicemia baixa, com suores, tremores, fome e confusão.
- Obesidade: excesso de gordura corporal com risco para a saúde; IMC igual ou superior a 30.
- Osteoporose: diminuição da massa e da qualidade do osso, com risco de fratura.
- Manobra de Valsalva: expiração forçada com glote fechada, que sobe a pressão arterial.
- PAR-Q+: questionário de prontidão para a atividade física.
- Estratificação de risco: classificação do risco cardiovascular ou metabólico antes de iniciar exercício.
- Perceção subjetiva de esforço (PSE): escala em que a pessoa classifica o esforço que sente, como a de Borg.
- Reserva de frequência cardíaca: diferença entre a frequência cardíaca máxima e a de repouso, base do método de Karvonen.
- Timed Up and Go: teste de levantar, andar uma distância curta e sentar, que avalia mobilidade e risco de queda.
- FITT-VP: frequência, intensidade, tempo, tipo, volume e progressão.
- Sobrecarga e progressão: princípios de treino que exigem um estímulo acima do habitual e crescente de forma gradual.
- Produto de apoio: dispositivo ou equipamento que previne, compensa ou neutraliza uma limitação.
- SAPA: Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio.
- STEP: espaço, tarefa, equipamento e pessoas, as quatro dimensões da adaptação.
- Espetro de inclusão: conjunto de opções que vai da atividade aberta à atividade separada.
- Desporto unificado: equipas com participantes com e sem deficiência intelectual.
- Competências motoras fundamentais: movimentos de estabilidade, locomotores e manipulativos.
- Desporto adaptado: desporto modificado ou criado para pessoas com deficiência.
- Classificação funcional: agrupamento de atletas em classes segundo o impacto funcional da deficiência no desporto.
- IPC: Comité Paralímpico Internacional.
- IBSA: Federação Internacional de Desporto para Cegos.
- World Abilitysport (antiga IWAS): federação internacional de desporto em cadeira de rodas e de amputados.
- CP-ISRA: Associação Internacional de Desporto e Recreação para a Paralisia Cerebral.
- Special Olympics: movimento de desporto para pessoas com deficiência intelectual.
- Goalball: modalidade de equipas de três, jogada de olhos tapados com bola sonora, para pessoas com deficiência visual.
- Voleibol sentado: voleibol jogado no chão, com uma parte do corpo entre as nádegas e os ombros sempre em contacto com o solo.
- Futebol para cegos: futebol de cinco, com bola sonora, chamador e a indicação "voy".
- Boccia: jogo de precisão com bolas vermelhas, azuis e uma bola alvo branca, para atletas com comprometimento motor grave.
- Macrociclo, mesociclo, microciclo: escalas de planeamento, da época inteira à semana.
- Preparação técnica, tática, física e psicológica: as quatro dimensões do treino.
- DAE: desfibrilhador automático externo.
- SBV: suporte básico de vida.
Síntese
Adaptar a atividade física começa por perceber porque é que o exercício faz bem: é um estímulo metabólico e biomecânico que protege a saúde em todas as idades e condições. Depois, olha-se para a pessoa e não para o diagnóstico: a CIF e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência mostram que a participação depende tanto da condição como das barreiras do contexto. Conhecem-se as particularidades da deficiência visual, auditiva, motora, da voz e da fala, intelectual e do autismo, e das limitações do envelhecimento, da gravidez e de condições como a hipertensão, a diabetes, a obesidade e a osteoporose.
O trabalho segue uma cadeia: avaliar (rastreio, estratificação de risco, instrumentos de condição física, competências-base, necessidades e expectativas), prescrever (princípios, FITT-VP, métodos por componente e por população), adaptar (produtos de apoio, materiais, STEP, espetro de inclusão, movimentos de estabilidade, locomotores e manipulativos) e planear, executar e avaliar o treino (objetivos gerais, preparação técnica, tática, física e psicológica, estrutura da sessão, resolução de situações críticas). O desporto adaptado acrescenta classificação, terminologia e regras próprias, como as do Goalball, do voleibol sentado, do futebol para cegos e do Boccia. Em todo o processo, contam a relação positiva e a adesão, a comunicação adaptada, a segurança, a ética e o respeito pelos limites de atuação e pelas normas definidas. Quem domina esta cadeia consegue acolher qualquer praticante com segurança, respeito e sentido.
Exercícios resolvidos
1. A Maria, 66 anos, pratica 100 minutos por semana de caminhada moderada. Cumpre as recomendações da OMS para a sua idade? O que falta?
Resolução: o mínimo para adultos é de 150 minutos por semana de atividade aeróbia moderada, por isso fica abaixo (faltam 50 minutos). Faltam também o reforço muscular em dois ou mais dias por semana e, por ter mais de 65 anos, o treino de equilíbrio e funcional multicomponente em três ou mais dias. O plano deve aumentar gradualmente a caminhada e acrescentar força e equilíbrio.
2. Explica a diferença entre deficiência, limitação da atividade e restrição à participação, com um exemplo de um jovem com amputação de uma perna.
Resolução: a deficiência é a alteração de estrutura (falta de uma perna). A limitação da atividade é a dificuldade em executar uma tarefa (correr rápido sem prótese). A restrição à participação é o problema em envolver-se numa situação da vida (não jogar no recreio porque o jogo exige correr e ninguém adaptou as regras). Esta última depende do contexto, e pode eliminar-se adaptando o jogo.
3. Uma pessoa com lesão medular alta, em cadeira de rodas, fica com dor de cabeça intensa, suores acima da cintura e pele pálida abaixo, a meio da sessão. O que fazes?
Resolução: é sugestivo de disreflexia autonómica, uma urgência. Sentar a pessoa direita (se estiver deitada), aliviar roupa ou faixas apertadas, verificar sonda ou outro desencadeante, medir a tensão arterial se possível e, se os sintomas persistirem, ligar o 112. Não retomar o exercício.
4. O Rui, 55 anos, hipertenso e medicado com bloqueador beta, vai fazer 30 minutos de bicicleta. Como controlas a intensidade?
Resolução: o bloqueador beta limita a frequência cardíaca, por isso a frequência cardíaca não é fiável. Usa-se a perceção subjetiva de esforço, com alvo de 12 a 13 na escala de Borg 6 a 20 ("um pouco difícil"), e o teste da conversa: deve conseguir falar, mas não cantar. Medir a tensão arterial antes e evitar a manobra de Valsalva.
5. Num jogo de passes, um jovem com baixa visão perde constantemente a bola. Aplica o modelo STEP para propor duas adaptações.
Resolução: Equipamento: bola de cor forte e contrastante com o piso, ou com guizo. Espaço: zona de jogo mais pequena e boa iluminação, sem reflexos. Pode ainda ajustar-se a tarefa (passes com bola rolada, anunciando o nome do colega) e as pessoas (par fixo que fala antes de passar). Muda-se um parâmetro de cada vez e observa-se o resultado.
6. Calcula o intervalo de frequência cardíaca-alvo, entre 60% e 70% da reserva, para uma pessoa de 40 anos com frequência cardíaca de repouso de 70 bpm, usando 220 menos a idade para a máxima. Que limitação tem este cálculo?
Resolução: FC máxima estimada = 220 menos 40 = 180 bpm. Reserva = 180 menos 70 = 110 bpm. A 60%: 70 + 0,6 × 110 = 70 + 66 = 136 bpm. A 70%: 70 + 0,7 × 110 = 70 + 77 = 147 bpm. Intervalo: 136 a 147 bpm. Limitação: a fórmula é uma estimativa com grande margem de erro individual e não se aplica a quem toma bloqueadores beta ou tem lesão medular alta; nestes casos usa-se a perceção subjetiva de esforço.
7. Descreve os pontos essenciais do jogo de voleibol sentado que o distinguem do voleibol de pé.
Resolução: campo de 10 × 6 m, rede a 1,15 m (masculino) e 1,05 m (feminino), jogadores sentados no chão com uma parte do corpo entre as nádegas e os ombros em contacto com o solo em todas as ações de jogo, linha de ataque a 2 m da rede, e bloqueio do serviço permitido. Os sets vão a 25 pontos, em melhor de cinco sets.
8. Numa partida de Boccia, quem joga com a rampa e o assistente, e qual a regra essencial para o assistente?
Resolução: jogam com rampa os atletas da classe BC3, que não conseguem lançar a bola com a mão ou o pé. O assistente posiciona a rampa e entrega as bolas seguindo as indicações do atleta, mas deve permanecer de costas para o campo, sem olhar para o jogo nem influenciar a decisão.