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UC · Unidade de Competência · UC03619

Executar o serviço de acolhimento em empreendimentos turísticos (UC03619)

Tipologias e organização do alojamento, acolhimento e atendimento, reservas, check-in, pagamentos e informação ao hóspede
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Turismo ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Esta sebenta ensina a executar o serviço de acolhimento num empreendimento turístico: receber o hóspede, registá-lo, atribuir-lhe o quarto, tratar do pagamento e informá-lo sobre a unidade, os eventos e a região. O objetivo não é decorar uma lista de tipos de hotel, é saber o que fazer, por que ordem e com que documento quando alguém chega ao balcão da receção, seja num hotel de cinco estrelas em Lisboa, numa casa de campo no Alentejo ou num hostel junto ao Tejo.

O percurso segue o ciclo real do hóspede, precedido do enquadramento de que ele depende. Primeiro, o que é um empreendimento turístico, que tipos existem e como se organizam por dentro (capítulos 1 a 5). Depois, a arte de acolher e a postura de quem está na receção (capítulos 6 e 7). A seguir, as condições de estadia, o registo e a atribuição dos quartos, os documentos e registos da receção (capítulos 8 a 10). Por fim, as formas de pagamento e o check-out, a informação ao hóspede e um turno completo que junta tudo (capítulos 11 a 13).

Realizações do referencial que esta sebenta cobre: acolher os clientes em diferentes unidades hoteleiras; gerir a receção e o registo dos serviços efetuados; informar e esclarecer os clientes acerca da unidade turística, dos eventos e dos pontos turísticos.

Três ideias atravessam o texto todo. A primeira: o hóspede não vê departamentos, vê um hotel, e a receção é o rosto de todos eles. A segunda: cada registo tem um destinatário (a governança, a contabilidade, a autoridade de segurança), e um registo mal feito prejudica alguém que não está no balcão. A terceira: a cordialidade não dispensa o rigor, nem o rigor dispensa a cordialidade; as atitudes avaliadas nesta unidade (responsabilidade, autonomia, cooperação, assertividade, empatia, escuta ativa, flexibilidade, respeito pelas diferenças e pelas regras) são o que torna o procedimento credível.

Sobre a legislação. Os diplomas citados vêm indicados «na redação atual», porque mudam com frequência. Antes de aplicar um prazo ou um valor numa situação real, confirma-o no Diário da República ou no portal da entidade competente.

1. Empreendimentos turísticos e unidades de acolhimento: conceito, estrutura e organização

O que é um empreendimento turístico

Em Portugal, a instalação, a exploração e o funcionamento dos empreendimentos turísticos são regulados pelo Regime Jurídico dos Empreendimentos Turísticos (RJET), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 39/2008, de 7 de março, alterado, entre outros, pelos Decretos-Leis n.os 228/2009, 15/2014, 186/2015 e 80/2017. Para quem trabalha na receção, o RJET é o mapa do terreno: diz que tipos de empreendimento existem, como se classificam, que deveres tem quem os explora e o que o hóspede pode esperar.

Retêm-se cinco ideias do regime:

Unidade de alojamento e capacidade

A unidade de alojamento é o espaço delimitado destinado ao uso exclusivo e privativo do utente do empreendimento. Pode ser um quarto, uma suíte, um apartamento ou uma moradia, consoante o tipo de empreendimento. Todas as unidades têm de estar identificadas no exterior da porta de entrada, e a porta deve ter um sistema de segurança que só permita o acesso ao hóspede e ao pessoal do estabelecimento. É esta regra que está por trás do cartão-chave que a receção programa a cada check-in (capítulo 10).

A capacidade de um empreendimento (exceto nos parques de campismo) é determinada pelo número de camas fixas instaladas nas unidades de alojamento. Na contagem, uma cama de casal vale por duas: por isso um quarto duplo, com uma cama de casal, e um twin, com duas camas individuais, contam ambos 2. Podem existir camas convertíveis, desde que não excedam o número de camas fixas, e camas suplementares amovíveis (a cama extra que a receção pede à governança). Por isso, um quarto duplo com um sofá-cama e uma cama extra tem capacidade 2, mesmo que, ocasionalmente, durma lá uma família de quatro.

Há ainda uma obrigação com impacto direto no balcão: todos os empreendimentos, com exceção dos de turismo de habitação e de turismo no espaço rural, devem ter instalações e pelo menos uma unidade de alojamento adaptadas a utentes com mobilidade condicionada. Atribuir esse quarto a quem dele não precisa, sem necessidade, é um erro de gestão (capítulo 9).

A classificação por estrelas

Os estabelecimentos hoteleiros, os aldeamentos turísticos, os apartamentos turísticos e os hotéis rurais são classificados por estrelas, de acordo com a qualidade do serviço e das instalações. Os requisitos incidem sobre as instalações e equipamentos, o serviço de receção e portaria, o serviço de limpeza e lavandaria, o serviço de alimentação e bebidas e os serviços complementares. A portaria que os fixa é a Portaria n.º 327/2008, de 28 de abril, na redação atual (alterada pela Portaria n.º 309/2015 e pelo Decreto-Lei n.º 80/2017); distingue requisitos mínimos obrigatórios e requisitos opcionais, e é o somatório destes últimos que permite subir de categoria. A classificação é revista oficiosamente de cinco em cinco anos.

As categorias possíveis dependem do tipo de empreendimento (Portaria n.º 327/2008, artigos 3.º e 4.º-A):

Tipo Categorias
Estabelecimentos hoteleiros (hotéis e hotéis-apartamentos) de 1 a 5 estrelas
Aldeamentos turísticos de 3 a 5 estrelas
Apartamentos turísticos de 3 a 5 estrelas
Hotéis rurais de 3 a 5 estrelas
Pousadas não exibem estrelas; têm de cumprir os requisitos da categoria de 4 estrelas, quando instaladas em edifícios classificados de interesse nacional ou de interesse público, ou os da categoria de 3 estrelas, quando instaladas em edifícios classificados de interesse municipal ou em edifícios que, pela antiguidade, valor arquitetónico e histórico, representem uma época

Os empreendimentos de turismo de habitação e de turismo no espaço rural (com exceção dos hotéis rurais) não se escalonam em estrelas, porque as suas características, ligadas ao edifício e à experiência, não o justificam. Num hotel rural, por exemplo, já há estrelas, de três a cinco. Os parques de campismo e de caravanismo têm uma classificação própria, fixada em portaria específica (capítulo 2).

Na receção, as estrelas são uma promessa. O hóspede que paga um quatro estrelas espera o serviço dessa categoria: receção atendida, informação clara, bagagem acompanhada. Quando o hotel não consegue cumprir uma coisa (o spa está fechado para obras, o elevador avariou), a receção informa antes de a pessoa descobrir sozinha. Informar primeiro é a diferença entre um contratempo e uma reclamação.

Estrutura física: zona pública e zona de serviço

Um hotel divide-se, para efeitos de organização, em duas grandes zonas:

Zona Também se diz O que inclui Quem a usa
Zona de hóspedes front of house átrio e receção, salas, bar, restaurante, piscina, corredores e quartos hóspedes e visitantes
Zona de serviço back of house cozinha, lavandaria, economato, balneários do pessoal, oficinas de manutenção, escritórios só colaboradores

A receção é o ponto de articulação entre as duas: de um lado fala com o hóspede, do outro fala com a governança, a manutenção e a cozinha. Quando um hóspede diz «a luz do quarto 214 não funciona», a receção tem de saber a quem passar a informação, em quanto tempo e como confirmar que ficou resolvido.

Organização e hierarquia

Numa unidade hoteleira de dimensão média, a hierarquia habitual tem quatro níveis:

  1. Direção: o diretor de hotel (ou diretor geral) responde perante a entidade exploradora.
  2. Chefias de departamento: o diretor de alojamento, o governante geral, o chefe de cozinha, o responsável de manutenção, entre outros.
  3. Chefias intermédias e supervisão: chefe de receção, subchefe, supervisor de turno, chefe de sala.
  4. Colaboradores: rececionistas, camareiras, empregados de mesa, bagageiros, técnicos.

Quanto mais pequeno o empreendimento, mais curta a cadeia: numa casa de turismo de habitação com cinco quartos, o dono pode ser, no mesmo dia, diretor, rececionista e cozinheiro. O que não muda é a lógica: alguém decide, alguém executa, e todos sabem a quem reportar.

Exemplo resolvido · Ler o cartão de identidade de um hotel

O Hotel Miradouro da Serra, na Guarda, tem 62 quartos: 40 duplos, 14 twin, 6 suites e 2 quartos adaptados a mobilidade condicionada. Cada duplo e twin tem uma cama convertível (sofá-cama). Está classificado com quatro estrelas e é explorado pela empresa «Serra Hotéis, Lda.».

  1. Capacidade para efeitos de exploração. Conta-se pelas camas fixas. Duplos e twin: 2 camas fixas cada, ou seja, (40 + 14) × 2 = 108. Suites: se tiverem uma cama de casal, 6 × 2 = 12. Quartos adaptados: 2 × 2 = 4. Total = 108 + 12 + 4 = 124 camas fixas. Os sofás-cama, convertíveis, não aumentam a capacidade.
  2. Responsável operacional. É um quatro estrelas, logo o responsável chama-se diretor de hotel.
  3. Quem aparece na fatura. A entidade exploradora, «Serra Hotéis, Lda.», e não o nome comercial do hotel.
  4. Que solução a receção propõe se uma família de cinco pedir um quarto duplo. A capacidade do quarto não permite; resolve-se com dois quartos comunicantes ou com uma unidade com mais camas fixas, não com camas suplementares acima do que a lei e o hotel admitem.

2. Tipologias de empreendimentos turísticos e de unidades de alojamento

O artigo 4.º do RJET enumera os tipos de empreendimento turístico. Esta lista é a primeira coisa a saber de cor, porque tudo o resto se pendura nela:

Tipo Ideia central Estrelas
Estabelecimentos hoteleiros alojamento temporário e serviços de apoio, vocacionado para locação diária; inclui hotéis, hotéis-apartamentos e pousadas sim (hotéis e hotéis-apartamentos de 1 a 5); as pousadas cumprem os requisitos de 3 ou de 4 estrelas, mas não exibem estrelas
Aldeamentos turísticos conjunto de instalações interdependentes, de arquitetura coerente, em continuidade territorial sim (de 3 a 5)
Apartamentos turísticos conjunto coerente de unidades do tipo apartamento, com acesso por espaços comuns sim (de 3 a 5)
Conjuntos turísticos (resorts) núcleos de instalações com administração comum, incluindo pelo menos dois empreendimentos, um deles hoteleiro o resort em si não tem estrelas; cada empreendimento que o integra tem a sua categoria
Turismo de habitação estabelecimentos familiares em imóveis antigos de valor arquitetónico, histórico ou artístico não
Turismo no espaço rural alojamento em espaço rural que valoriza o património local não (exceto hotéis rurais, de 3 a 5)
Parques de campismo e de caravanismo terrenos delimitados para tendas, caravanas e autocaravanas classificação própria (Portaria n.º 1320/2008), atribuída pela câmara municipal

Estabelecimentos hoteleiros

São os que mais vais encontrar, e têm três grupos:

Um hotel pode ter diferentes especializações comerciais, que não são tipos legais mas aparecem nos sites e nas reservas: hotel urbano, hotel de negócios, hotel de praia, hotel-boutique, hotel de congressos, hotel de spa e bem-estar. Para o balcão, a especialização muda o perfil do hóspede, não o procedimento.

Aldeamentos, apartamentos e resorts

Parques de campismo e de caravanismo

Instalados em terrenos delimitados e dotados de estruturas para tendas, reboques, caravanas, autocaravanas e outro alojamento amovível. Podem ser públicos (abertos a todos) ou privativos (só para associados ou beneficiários). Podem ter bungalows, mobile homes e glamping. A capacidade conta-se pela área útil por utilizador e não por camas. A fiscalização das contraordenações dos parques cabe às câmaras municipais, ao contrário dos restantes, que cabem à ASAE. Os parques têm uma classificação própria, fixada na Portaria n.º 1320/2008, de 17 de novembro, que é atribuída pela câmara municipal, a quem cabe também fixar a capacidade máxima do parque (RJET, artigo 22.º).

Alojamento local, hostels e as designações antigas

Há alojamento turístico que não é empreendimento turístico: é o alojamento local (AL), regulado pelo Decreto-Lei n.º 128/2014, de 29 de agosto, na redação mais recente dada pelo Decreto-Lei n.º 76/2024, de 23 de outubro. Compreende as modalidades de moradia, apartamento, quartos e estabelecimento de hospedagem. Cada alojamento local tem um número no Registo Nacional de Alojamento Local (RNAL).

O hostel é um estabelecimento de hospedagem em que a unidade de alojamento predominante é o dormitório (os utentes em dormitório superam os utentes em quartos). O hóspede de hostel é tipicamente jovem, viaja em grupo ou sozinho, valoriza o preço e a convivência; a receção costuma ter um tom mais informal, mas as obrigações são as mesmas: registo, boletim de alojamento para estrangeiros, fatura, livro de reclamações.

O referencial menciona ainda pensões, estalagens, motéis e meios complementares de alojamento turístico. São designações do regime anterior (Decreto-Lei n.º 167/97 e respetivos decretos regulamentares), que o RJET de 2008 revogou (artigo 77.º) e deixou de prever como tipologias. Convém conhecê-las, e saber onde cabem hoje, porque o hóspede, o taxista e o guia ainda as usam e porque o letreiro de muitos alojamentos continua a trazê-las.

Pensões, estalagens, motéis e meios complementares: o que eram e onde cabem hoje

O regime de 1997 dava a cada espécie de alojamento turístico um nome próprio, e é daí que vêm estas palavras. Em traços gerais, tal como a linguagem corrente ainda as usa:

O RJET acabou com estes nomes como tipologias. O artigo 75.º mandou reconverter os empreendimentos existentes nas tipologias e categorias novas e, quando um estabelecimento não conseguia manter ou obter a classificação de empreendimento turístico, determinou que passasse a alojamento local. Na prática, hoje a pergunta já não é «como se chama?», é «onde está registado?»:

Designação antiga O que era, em traços gerais Onde cabe hoje
Pensão alojamento simples, geralmente familiar, com menos serviços hotel (se cumprir o mínimo de unidades e os requisitos) ou alojamento local
Estalagem alojamento de carácter próprio, muitas vezes fora das cidades, com restauração hotel, turismo no espaço rural ou alojamento local, conforme o registo
Motel alojamento junto de estradas, com estacionamento ao pé do quarto hotel ou alojamento local, conforme o registo
Meios complementares de alojamento turístico designação genérica do regime antigo (por exemplo, apartamentos e moradias turísticas) aldeamentos e apartamentos turísticos, como tipos do RJET; ou alojamento local

Cuidado com os nomes. O nome que está no letreiro não prova a tipologia legal. Um estabelecimento chamado «Pensão» ou «Estalagem» pode estar registado hoje como hotel ou como alojamento local. A fonte fiável é o registo (RNET para empreendimentos, RNAL para alojamento local), que o hotel mostra na sua informação pública.

Exemplo resolvido · Quatro nomes antigos, quatro registos

Quatro alojamentos de uma região turística têm nomes herdados do regime anterior. A rececionista, que prepara uma lista de parcerias, consulta o registo de cada um.

  1. «Pensão Central», em Tomar: 14 quartos (10 duplos e 4 individuais); no RNET consta como estabelecimento hoteleiro, grupo hotel, de duas estrelas. É um hotel de duas estrelas: o nome é herança. A capacidade conta-se pelas camas fixas: 10 × 2 + 4 × 1 = 24 camas fixas.
  2. «Estalagem do Vale», em Marvão: 7 quartos; tem número no RNAL, modalidade estabelecimento de hospedagem. É alojamento local, sem estrelas; com 7 unidades ficaria, aliás, abaixo do mínimo de 10 de um hotel.
  3. «Motel da Estrada», perto de Alcácer do Sal: 20 unidades de alojamento com estacionamento à porta; no RNET consta como hotel de três estrelas. É um hotel de três estrelas, logo o responsável chama-se diretor de hotel.
  4. «Moradias do Pinhal»: antiga «moradia turística» do regime anterior, hoje uma moradia mobilada arrendada por dias, com número no RNAL, modalidade moradia. É alojamento local, sem estrelas e sem receção própria: a chegada combina-se com o hóspede antes.

O que não muda: em qualquer dos quatro, o alojamento de um hóspede estrangeiro tem de ser comunicado pelo boletim de alojamento (capítulo 9). A lei fala de quem explora estabelecimentos hoteleiros e de quem faculta alojamento a título oneroso, e não do nome que está no letreiro.

Como comparar tipologias do ponto de vista da receção

Aspeto Hotel Hotel-apartamento Apartamentos turísticos Hostel (AL) Parque de campismo
Unidade típica quarto apartamento apartamento cama em dormitório ou quarto parcela ou bungalow
Receção habitual e atendida habitual mais simples de balcão informal portaria, muitas vezes com horário
Refeições normalmente sim por vezes quase nunca cozinha comum ou pequeno-almoço restaurante ou minimercado, por vezes
Estadia típica 1 a 4 noites longa semanas 1 a 5 noites semanas
Estrelas 1 a 5 1 a 5 3 a 5 não classificação própria (Portaria n.º 1320/2008), atribuída pela câmara municipal

Exemplo resolvido · Que tipologia é esta?

Um cliente telefona a pedir informações sobre três sítios onde quer reservar. A rececionista identifica cada um:

  1. «Convento de São Brás»: edifício do século XVII classificado como imóvel de interesse público, explorado por terceiros sob franquia da ENATUR. É uma pousada, um estabelecimento hoteleiro.
  2. «Residências do Farol»: 18 apartamentos num único edifício, com receção e limpeza, acesso por corredor comum. São apartamentos turísticos. Se o registo os enquadrasse como estabelecimento hoteleiro com maioria de apartamentos, seriam um hotel-apartamento; o que decide é sempre o registo.
  3. «Casa do Cais»: 3 quartos e um dormitório de 8 camas num prédio em Setúbal, com número de RNAL. É alojamento local, modalidade estabelecimento de hospedagem, e como o dormitório predomina pode usar o nome de hostel.

Se a rececionista não tivesse a certeza, o gesto certo é consultar o registo do estabelecimento (RNET ou RNAL), nunca adivinhar pelo nome.

3. Turismo em espaço rural, turismo de habitação e cadeias hoteleiras

Turismo de habitação

São estabelecimentos de natureza familiar, instalados em imóveis antigos particulares que, pelo seu valor arquitetónico, histórico ou artístico, sejam representativos de uma época: palácios, solares, casas senhoriais. Podem situar-se em meio rural ou urbano (um solar em Ponte de Lima ou um palacete no centro do Porto). Não têm estrelas. A experiência do hóspede é a casa em si e a hospitalidade dos donos, e por isso o acolhimento é muito pessoal: o proprietário recebe, mostra a casa, explica o pequeno-almoço, indica restaurantes.

Turismo no espaço rural

São estabelecimentos que prestam, em espaços rurais, serviços de alojamento a turistas, preservando, recuperando e valorizando o património arquitetónico, histórico, natural e paisagístico da região, através da reconstrução, reabilitação ou ampliação de construções existentes. Têm três grupos:

Grupo Definição do RJET, em traços gerais Exemplo
Casas de campo imóveis em aldeias e espaços rurais que se integram, pela traça e materiais, na arquitetura típica local casa de xisto numa aldeia da serra
Agroturismo imóveis situados em explorações agrícolas que permitem aos hóspedes conhecer a atividade agrícola ou participar nos trabalhos adega ou herdade com vindima para hóspedes
Hotéis rurais estabelecimentos hoteleiros que cumprem os requisitos de classificação desta tipologia, em edifícios existentes ou construídos de raiz hotel de 20 quartos numa quinta

Quando as casas de campo se situam numa aldeia e são exploradas de forma integrada por uma única entidade, consideram-se turismo de aldeia: a aldeia inteira funciona como o «hotel», com a receção numa casa e os quartos espalhados pelas outras. Das três modalidades, só o hotel rural é classificado por estrelas.

O que muda no acolhimento

No espaço rural e no turismo de habitação, o hóspede procura tranquilidade, autenticidade e atenção. Isso traz implicações práticas:

Antes de o hóspede chegar: uma mensagem de confirmação com a morada exata, as coordenadas, a hora prevista de chegada, o nome de quem o recebe e um número de telemóvel de contacto reduz quase todos os problemas de chegada ao campo.

Cadeias hoteleiras

Uma cadeia hoteleira é um grupo que opera vários hotéis sob a mesma marca ou sob várias marcas, com normas comuns de serviço. Em Portugal, o hóspede conhece grupos nacionais e internacionais, como o Pestana, o Vila Galé, a Accor ou a Marriott. Para o profissional de receção, o que muda numa cadeia é:

Em contrapartida, os hotéis independentes têm mais liberdade para personalizar o serviço, e muitos fazem dessa liberdade o seu argumento.

Exemplo resolvido · A mesma chegada em três contextos

Chega um casal de franceses às 15 h 30 com reserva de duas noites.

  1. Hotel de cadeia urbano (Lisboa). A rececionista usa a abordagem da marca (cumprimento padrão, oferta de boas-vindas), identifica o casal no PMS, vê que são membros do programa de pontos e aplica o benefício automaticamente. Tempo-alvo de check-in: poucos minutos.
  2. Casa de campo (Trás-os-Montes). O dono espera o casal à porta, mostra a casa, o quarto e o local do pequeno-almoço; o registo faz-se à mesa da sala, com o café. O tempo não é problema, a atenção é o serviço.
  3. Hostel (Porto). O rececionista regista no portátil, explica a cozinha comum e o cacifo, e marca a free walking tour da tarde. Registo rápido, tom informal, mas o mesmo boletim de alojamento para os dois estrangeiros.

O procedimento legal é igual nos três; muda o ritmo, o tom e a quantidade de informação.

4. Organização dos departamentos de um empreendimento turístico

Porque é que existem departamentos

Um hotel presta, ao mesmo tempo, serviços muito diferentes: dorme-se, come-se, limpa-se, repara-se, fatura-se, vende-se. Nenhuma pessoa domina tudo, por isso o trabalho divide-se em departamentos, cada um com uma função, uma chefia e procedimentos próprios. O referencial identifica sete áreas, em que a Manutenção e a Segurança vêm juntas; aqui tratam-se em separado, por terem lógicas de trabalho diferentes, e ficam oito departamentos. Em hotéis pequenos algumas fundem-se (a mesma pessoa trata de reservas e de vendas), em hotéis grandes subdividem-se; as funções são as mesmas.

Alojamento

Também chamado, em inglês, rooms division. É o departamento mais ligado ao hóspede e é aquele em que trabalha o rececionista. Inclui, consoante a dimensão:

Em muitos hotéis, a governança integra o departamento de alojamento; aqui trata-se em separado, como no referencial, porque tem uma lógica de trabalho própria.

Governança

Responsável pela limpeza, arrumação e apresentação dos quartos e das áreas públicas, e pela roupa. Equipa: governante geral, governantes de andar, camareiras, pessoal de limpeza de áreas públicas e lavandaria. É a governança que faz chegar à receção a informação mais importante do dia: o estado de cada quarto. Sem ela, a receção não sabe que quartos estão prontos. A governança também guarda os objetos esquecidos (perdidos e achados) e repõe o minibar.

F&B (Food and Beverage, alimentação e bebidas)

Cozinha, restaurante, bar, copa, room service, banquetes e eventos de grupo. A receção liga-se a F&B em pedidos de reserva de mesa, horários de pequeno-almoço, dietas e alergias (informação crucial que deve ser registada e transmitida por escrito), refeições incluídas na reserva e lançamento de consumos na conta do quarto.

Marketing e Vendas

Define preços e promoções, gere canais de venda (site, plataformas, agências, empresas), negoceia contratos com grupos e empresas, trata de comunicação e redes sociais. É dele a informação que a receção precisa de conhecer: tarifas em vigor, pacotes, campanhas, acordos com empresas, contratos de grupo. Quando um cliente diz «a minha empresa tem acordo convosco», é a este departamento que a receção recorre.

Departamento de Controlo e Gestão

Contabilidade, controlo de custos, compras, tesouraria, faturação e crédito. A receção trabalha diariamente com ele: os pagamentos, as faturas e o fecho de caixa passam por aqui. Na maioria dos hotéis, a receção noturna faz a auditoria noturna (night audit): confere as contas do dia, lança o que falta e passa a data do sistema, produzindo os mapas de que o controlo e a direção dependem.

Recursos Humanos

Recrutamento, contratação, escalas de trabalho, assiduidade, formação, avaliação do desempenho e questões laborais. Importa à receção porque as escalas definem quem está no balcão a cada hora, e as trocas de turno passam por aqui.

Manutenção

Reparação e conservação das instalações e equipamentos: eletricidade, canalização, climatização, elevadores, piscinas, jardins. Trabalha por ordens de trabalho (pedidos escritos). A receção é quem, na maioria das vezes, abre a ordem quando o hóspede diz «a torneira pinga». A lei obriga a entidade exploradora a manter em bom estado de funcionamento todas as instalações e equipamentos, incluindo as unidades de alojamento.

Segurança

Vigilância, controlo de acessos, videovigilância, ronda, prevenção de incêndios e plano de emergência, primeiros socorros, relação com as autoridades. Num hotel pequeno a segurança é partilhada por todos, com formação em evacuação; num hotel grande há uma equipa própria. A receção é o primeiro ponto de alerta: é onde toca o alarme de incêndio e de onde parte a decisão de contactar o 112.

Quadro-resumo

Departamento Função principal O que a receção lhe pede O que lhe dá em troca
Alojamento vender e entregar o quarto e a estadia (é a própria receção) atividade de linha da frente
Governança quartos e áreas limpos e prontos estado dos quartos, limpeza prioritária, camas extra lista de chegadas e saídas, pedidos especiais
F&B refeições e bebidas mesas, horários, dietas consumos a lançar na conta
Marketing e Vendas tarifas, canais, contratos tarifas, pacotes, condições de grupo feedback dos hóspedes, reservas diretas
Controlo e Gestão contas, faturação, custos validação de pagamentos, faturas, crédito mapas, recibos e fecho de caixa
Recursos Humanos pessoas e escalas trocas de turno, formação presença no balcão
Manutenção instalações a funcionar reparações, quartos fora de serviço ordens de trabalho concluídas
Segurança pessoas e bens protegidos alertas, controlo de acessos procedimentos de emergência

Exemplo resolvido · Um hóspede, quatro departamentos

Às 18 h, o hóspede do quarto 305 aproxima-se da receção do Hotel Miradouro da Serra e diz: «Preciso de uma almofada extra, a torneira da casa de banho pinga, queria jantar para quatro às 20 h e a minha empresa vai pagar a conta». A rececionista encaminha cada pedido:

  1. Almofada extra: governança. Regista o pedido no PMS e liga à governante de turno; acrescenta o prazo previsto (vinte minutos).
  2. Torneira a pingar: manutenção. Abre uma ordem de trabalho com o número do quarto, a descrição («torneira do lavatório pinga continuamente») e a urgência (não urgente, a resolver ainda hoje). Pergunta ao hóspede quando pode entrar o técnico.
  3. Jantar para quatro às 20 h: F&B. Reserva a mesa com o restaurante, pergunta por alergias e confirma o horário ao hóspede.
  4. «A empresa paga»: controlo e gestão. Verifica se há acordo ou guia de faturação para essa empresa; sem documento, regista o pedido como pendente e explica ao hóspede o que é preciso (um e-mail de confirmação da empresa ou uma garantia de pagamento).

A rececionista não resolve nada sozinha, mas coordena tudo: é esse o seu papel.

5. Hierarquias e comunicação entre os departamentos

Linhas de autoridade

O organigrama é o desenho da hierarquia: mostra quem responde perante quem. Em termos gerais:

Quando algo foge à rotina (um pedido que exige uma exceção, um conflito entre departamentos), a regra é subir um nível: o rececionista fala com o chefe de receção; este com o diretor de alojamento ou com o diretor de hotel. Decidir sozinho sobre assuntos de outro departamento é uma falha de hierarquia, por muito boa que seja a intenção.

Níveis de comunicação

Nível Quem comunica com quem Exemplo
Descendente chefia para colaboradores o chefe de receção comunica uma nova tarifa de grupo
Ascendente colaborador para chefia o rececionista reporta um incidente com um hóspede
Horizontal (lateral) entre colegas do mesmo nível, do mesmo ou de outro departamento a receção avisa a governança de uma saída antecipada
Diagonal entre colaboradores e chefias de outros departamentos a receção fala diretamente com o chefe de manutenção numa avaria urgente

A comunicação pode ainda ser formal (escrita, registada, com valor de prova: ordem de serviço, e-mail, ordem de trabalho) ou informal (conversa de corredor). A regra de ouro: o que é urgente diz-se, o que é importante escreve-se. Uma avaria dita no corredor perde-se; uma ordem escrita no sistema tem hora, autor e estado.

Instrumentos de comunicação interna

Instrumento Para que serve Quem o usa
Passagem de turno (handover) transmitir ao turno seguinte o que ficou pendente receção
Livro de ocorrências registar por ordem cronológica o que aconteceu: chamadas, pedidos, incidentes receção
Notas no PMS alertas sobre o hóspede ou a reserva (alergias, datas especiais, pedidos) receção, reservas, governança
Lista de chegadas e de partidas quem chega e sai hoje, com horas e pedidos receção, governança, F&B
Ordem de trabalho pedido de reparação a manutenção receção, governança
Estado dos quartos situação de cada quarto (sujo, limpo, inspecionado, fora de serviço) governança, receção
Ordem de serviço de evento (BEO) descreve um evento: sala, horário, número de pessoas, menu vendas, F&B, receção
Rooming list lista de nomes e quartos de um grupo receção, vendas, agência
Reunião de briefing encontro curto (diário ou semanal) entre chefias direção e chefes de departamento

Como se escreve uma mensagem interna que funciona

Uma boa mensagem entre departamentos responde a cinco perguntas: quem pede, o quê, onde, para quando, com que prioridade. «Avaria no 214» é mau. «Quarto 214: o ar condicionado não arrefece; hóspede está no quarto até às 22 h; prioridade alta; contacto receção, ext. 9» é bom.

E fecha-se o ciclo: quem pediu confirma que foi feito. Se a ordem fica em «pendente» durante dois dias, a receção volta a perguntar e, se preciso, sobe ao chefe. Nada fica a meio.

Confidencialidade. O que se sabe sobre um hóspede (nome, quarto, hábitos, saúde, acompanhante) circula apenas entre quem precisa dele para trabalhar. Nunca se diz o número do quarto de um hóspede a quem telefona ou pergunta no balcão: pergunta-se o nome de quem procura e liga-se ao quarto, ou toma-se nota para deixar mensagem. É uma regra de segurança e uma exigência de proteção de dados.

Exemplo resolvido · Do pedido à solução, sem se perder nada

Às 21 h 40, o hóspede do quarto 118 reclama que o ar condicionado faz barulho e não consegue dormir. A rececionista de turno, Marta:

  1. Escuta e regista. Pede desculpa, descreve o problema no PMS e no livro de ocorrências (hora, quarto, queixa).
  2. Procura solução imediata. Verifica se há quarto livre e pronto da mesma categoria. Há o 122.
  3. Propõe ao hóspede: mudar para o 122 já, com ajuda do bagageiro, ou esperar pelo técnico de manutenção de serviço de noite. O hóspede aceita mudar.
  4. Avisa os departamentos. Governança (o 118 passa a «fora de serviço» para não ser vendido), manutenção (ordem de trabalho: «118: ruído anormal no ar condicionado»), e atualiza o PMS com o quarto novo e o cartão-chave novo.
  5. Passa o turno. Às 23 h, deixa ao colega da noite uma nota: «118 fora de serviço, ver ordem de manutenção; hóspede mudado para o 122; oferecida bebida de cortesia, autorizada pelo chefe de receção».
  6. Fecha o ciclo. No dia seguinte, a rececionista da manhã confirma se o técnico resolveu e liberta o quarto.

O hóspede viu uma pessoa a resolver o problema. Por trás, trabalharam três departamentos (receção, governança e manutenção) e ficaram quatro registos (PMS, livro de ocorrências, ordem de trabalho e nota de turno).

6. Acolhimento e atendimento de clientes: contextos e públicos

O que é acolher

Acolher é fazer o hóspede sentir-se esperado e bem recebido desde o primeiro minuto. Atender é responder, depois, às suas necessidades: informar, resolver, cobrar. O acolhimento é o primeiro contacto e decide a perceção que o hóspede forma do hotel; o atendimento é toda a relação que se segue. Na prática, são o mesmo trabalho de uma pessoa só.

Os quatro tempos do acolhimento ao balcão

  1. Chegar ao hóspede. Levantar os olhos, cumprimentar nos primeiros segundos, mesmo que se esteja ao telefone ou com outro cliente (um aceno e um «já o atendo» bastam). O hóspede que espera sem ser notado já está insatisfeito.
  2. Identificar a necessidade. «Boa tarde, bem-vindo ao Hotel Miradouro da Serra. Tem reserva?» Perguntas abertas («Em que posso ajudar?») e depois fechadas («Em nome de quem está a reserva?»).
  3. Satisfazer o pedido com o procedimento certo (reserva, check-in, informação, pagamento).
  4. Despedir e fechar. «Precisa de mais alguma coisa? Desejo-lhe uma excelente estadia.» Quem se despede bem deixa a última impressão boa.

Técnicas de acolhimento

Frases úteis em inglês na receção

Situação Frase
Cumprimentar Good afternoon, welcome to Hotel Miradouro da Serra. How may I help you?
Pedir a reserva Do you have a reservation? May I have your name, please?
Pedir o documento May I see your passport or ID card, please?
Confirmar dados Could you please confirm your address and nationality?
Entregar a chave Here is your key card. Your room number is written on the card holder. The room is on the second floor, and the lift is on your left. Please let me know if you need anything.
Dar informação Breakfast is served from seven to ten-thirty in the restaurant.
Pedir paciência Thank you for waiting. I'm sorry for the delay.
Despedir Enjoy your stay. If you need anything, just dial nine for reception.

Contextos de atendimento

O mesmo hóspede é atendido de forma diferente consoante o contexto:

Contexto Característica Adaptação
Balcão da receção contacto pessoal, atenção total todas as técnicas anteriores
Telefone só voz, sem linguagem corporal atender até ao terceiro toque; identificar o hotel e a pessoa; sorrir (nota-se na voz); repetir os dados; não deixar em espera sem avisar
E-mail e mensagens escrito, assíncrono responder no prazo definido pelo hotel; texto claro, completo e cordial; rever antes de enviar
Chegada de grupos muitas pessoas ao mesmo tempo preparar as chaves antecipadamente, usar a rooming list, ter um ponto de reunião
Hotel urbano de negócios pressa, faturação à empresa check-in rápido, pedir desde logo os dados de faturação
Hotel de lazer ou resort descontração, muita informação explicar serviços, horários, atividades
Turismo rural e de habitação contacto pessoal e caloroso tempo e atenção, informação sobre a região
Hostel informal, partilhado explicar regras da casa, cacifos, silêncio

Tipos de públicos

Conhecer o público permite antecipar necessidades. Alguns perfis frequentes, com cuidado para não cair em estereótipos: cada pessoa é diferente do perfil.

Público O que normalmente valoriza Boas práticas
Lazer (casais, amigos) experiência, localização, informação recomendar roteiros, restaurantes e atividades
Negócios rapidez, Wi-Fi, silêncio, fatura certa check-in e check-out rápidos, pedir NIF e dados da empresa à chegada
Famílias com crianças segurança, espaço, comodidade berço, cadeirinha, quartos comunicantes, informação sobre atividades para crianças
Grupos (excursões, equipas, casamentos) organização, horários rooming list, chaves prontas, um interlocutor (o chefe de grupo)
Seniores calma, clareza, atenção falar sem pressa, explicar bem, oferecer ajuda com bagagem
Pessoas com mobilidade condicionada ou outras necessidades acessibilidade, autonomia quarto adaptado, perguntar antes de assumir («Em que posso ajudar?»), informar sobre acessos
Hóspedes estrangeiros clareza, ajuda com a língua e a cidade falar devagar, usar frases simples, ter materiais em várias línguas
Clientes habituais e VIP reconhecimento e personalização consultar o histórico, tratar pelo nome, preparar preferências

Respeito pelas diferenças individuais é uma atitude avaliada nesta unidade e uma questão prática: alguns hóspedes não gostam de contacto físico no cumprimento, outros têm horários de refeição diferentes, outros comunicam de forma mais direta ou mais reservada, outros têm restrições alimentares por razões religiosas, de saúde ou de escolha. Pergunta-se, não se supõe.

Gerir um hóspede insatisfeito

Uma queixa bem gerida pode transformar um hóspede zangado num cliente fiel. Um modelo simples, em cinco passos (conhecido pela sigla inglesa LEARN):

  1. Escutar (Listen) sem interromper nem defender.
  2. Mostrar empatia (Empathize): «Compreendo que isso seja muito incómodo.»
  3. Pedir desculpa (Apologize), sem acusar ninguém: «Lamento o que aconteceu.»
  4. Resolver (React): propor uma solução concreta e rápida, dentro do que é autorizado.
  5. Informar e acompanhar (Notify): comunicar à chefia, registar e voltar a falar com o hóspede para confirmar que ficou resolvido.

Quando a queixa não se resolve ao balcão ou o hóspede a quer formalizar, a resposta é facultar o livro de reclamações, imediata e gratuitamente (capítulo 11). Nunca se tenta dissuadir.

Exemplo resolvido · «O meu quarto ainda não está pronto?»

São 13 h 30. Chega a Sr.ª Helena Duarte, hóspede de um hotel de quatro estrelas em Évora, depois de uma viagem de nove horas. O check-in começa às 15 h e o quarto ainda está por limpar. Está cansada e irritada.

  1. Acolher (primeiros segundos): «Boa tarde, Sr.ª Duarte, bem-vinda. Fez boa viagem?» (O nome vem da lista de chegadas.)
  2. Escutar e mostrar empatia: deixa-a desabafar e responde: «Percebo que queira descansar depois de uma viagem tão longa.»
  3. Dizer a verdade com assertividade: «O seu quarto ainda está a ser preparado; o check-in habitual é às 15 h. Vou ver se consigo adiantar.»
  4. Agir: liga à governança e pede o quarto 207 como prioridade. Há duas camareiras livres; previsão: 14 h 15.
  5. Dar alternativas: oferece guardar a bagagem, indica o salão com café e Wi-Fi, e entrega o cartão de pequeno-almoço do dia seguinte.
  6. Fechar o ciclo: às 14 h 10 a governança avisa que o quarto está pronto. A rececionista faz o check-in e dá a chave pessoalmente.

A hóspede esperou 45 minutos, mas não se sentiu ignorada. O objetivo nunca é «não haver problemas», é não deixar o hóspede sozinho com o problema.

7. Postura profissional e apresentação na receção

Porque é que a imagem conta

O rececionista é a primeira pessoa que o hóspede vê e, muitas vezes, a única de quem fala. Aparência e comportamento comunicam antes de qualquer palavra. A postura profissional tem três componentes: apresentação pessoal, comportamento ao balcão e atitude.

Apresentação pessoal

Comportamento ao balcão

Faz Não faz
ficar de pé ou sentar-se com postura direita; mãos à vista encostar-se, cruzar os braços, mexer no cabelo ou no rosto
olhar para o hóspede que chega continuar a escrever sem levantar os olhos
falar em voz clara e calma falar alto com colegas ou ao telefone pessoal
manter o balcão arrumado comer, beber ou mascar pastilha elástica diante de hóspedes
usar o telemóvel de serviço quando necessário ver o telemóvel pessoal ou as redes sociais
pedir desculpa e agradecer criticar hóspedes, colegas ou o hotel diante de terceiros
mudar de língua quando há um hóspede que não entende conversar com um colega numa língua que o hóspede não compreende
reservar para o escritório assuntos internos discutir na frente do hóspede

Atitudes profissionais

As atitudes do referencial traduzem-se em comportamentos observáveis:

Atitude Como se vê na receção
Responsabilidade pelas suas ações assume um erro («enganei-me na data, vou corrigir já») e não o esconde
Autonomia nas suas funções resolve o que está no seu âmbito sem esperar por ordens; sabe quando pedir ajuda
Cuidado com a apresentação e a postura uniforme, crachá, balcão arrumado
Cooperação com a equipa ajuda o colega em hora de ponta; passa o turno com informação completa
Assertividade diz «não» com alternativas; recusa com educação o que não é permitido
Empatia reconhece o estado do hóspede antes de falar de procedimentos
Flexibilidade adapta-se a imprevistos e a hóspedes diferentes
Escuta ativa resume, pergunta, não interrompe
Sentido de organização tarefas por prioridades, balcão e registos em ordem
Respeito pelas diferenças individuais não faz suposições sobre idade, origem, família ou orçamento
Respeito pelas regras e normas cumpre procedimentos, privacidade e legislação, mesmo quando ninguém está a ver

Início e fim de turno

Quem organiza o seu turno trabalha com menos stress. Uma lista simples:

Ao começar: ler a passagem de turno e o livro de ocorrências; abrir a caixa e conferir o fundo de maneio; ver chegadas, partidas e pedidos especiais do dia; conferir o estado dos quartos; verificar que o TPA (terminal de pagamento) e a impressora funcionam.

Ao terminar: fechar as operações em curso; conferir a caixa com o sistema; deixar escrito o que ficou pendente (pedidos de hóspedes, avarias, chegadas tardias, reservas por confirmar); passar o turno de viva voz a quem entra.

A regra dos três segundos. Todos os hóspedes devem sentir, nos três primeiros segundos, que foram vistos: um olhar, um sorriso ou um «já vou ter consigo». Se a receção estiver cheia, quem espera de pé e sem resposta torna-se, em poucos minutos, um hóspede difícil.

Exemplo resolvido · Corrigir uma postura em cinco segundos

O supervisor observa a rececionista Ana a registar uma reserva enquanto olha para o ecrã e responde «sim, sim» a um hóspede que lhe pergunta pelo pequeno-almoço, sem o olhar. Depois da hora de ponta, conversa com ela:

  1. Descreve o que viu (sem acusar): «Reparei que o senhor do 301 perguntou pelo pequeno-almoço e que não tirou os olhos do ecrã.»
  2. Pergunta como ela viu: «Como achas que ele se sentiu?»
  3. Mostra a alternativa: «Basta levantares os olhos, dizeres "só um segundo, para lhe responder bem" e voltares ao ecrã a seguir. Dois segundos.»
  4. Pratica: repetem a situação em simulação.
  5. Reforça: no fim do turno, elogia o que correu bem.

A correção funciona porque é específica, imediata e respeitosa. Dizer «tens de ser mais simpática» não ensina nada.

8. Condições de estadia: acordos prévios, pagamento, clientes com e sem reserva, individuais e grupos

A reserva é o contrato da estadia

Antes de o hóspede chegar, já existe um acordo: a reserva. Ela fixa o que o hotel se compromete a entregar e o que o hóspede se compromete a pagar. O RJET obriga a entidade exploradora a publicitar os preços de tabela dos serviços de alojamento, a mantê-los à disposição dos utentes e a informar os utentes, antes da contratação, sobre as condições de prestação dos serviços e os preços. Na prática: tudo o que importa ao hóspede (preço, o que inclui, quando paga, quando pode cancelar) tem de lhe ser dito antes de ele aceitar, e fica escrito na reserva.

Uma reserva completa contém:

Canais de reserva

Canal Como funciona Cuidado da receção
Direta (telefone, e-mail, balcão, site do hotel) o hóspede negoceia com o hotel, normalmente com a melhor tarifa registar tudo e enviar confirmação escrita
Plataformas online (OTA) o hóspede reserva num site de terceiros, que cobra comissão ao hotel conferir se o pagamento já foi feito à plataforma, se há cartão virtual e que condições valem
Agências e operadores a agência vende o pacote e emite voucher conferir o voucher, o que inclui e quem paga os extras
Empresas acordo comercial com tarifa negociada conferir o acordo, o NIF, quem paga o quê
Grupos contrato específico, muitos quartos ter a rooming list e as condições do contrato
Sem reserva (walk-in) o cliente aparece ao balcão e pede quarto ver abaixo

Tarifas e regimes

A tarifa é o preço por noite acordado. As mais frequentes: tarifa de balcão (a de tabela, a mais alta), tarifa flexível (permite cancelar até certo prazo), tarifa não reembolsável (mais barata, sem devolução), tarifa de empresa (negociada) e tarifa de grupo.

O regime diz o que está incluído no preço, para além da dormida:

Regime Sigla habitual Inclui
Só alojamento SA dormida
Alojamento e pequeno-almoço APA dormida e pequeno-almoço
Meia pensão MP dormida, pequeno-almoço e uma refeição principal
Pensão completa PC dormida e três refeições
Tudo incluído TI refeições, bebidas e serviços definidos pelo hotel

Quando o hóspede pergunta «o pequeno-almoço está incluído?», a resposta vem da reserva e não da memória. E «incluído» quer dizer exatamente o que o hotel definiu: um tudo incluído pode excluir bebidas premium ou o minibar.

Acordos prévios

Chamam-se acordos prévios às condições acordadas antes da chegada, por contrato ou por reserva, que mudam o que a receção faz no balcão:

Regra prática: a receção cumpre o que está acordado e não promete o que não está. Perante um pedido de exceção, pede autorização à chefia e regista-a.

Condições de pagamento

O momento e a forma de pagamento fazem parte do acordo:

Alterações, cancelamentos e no-show

Clientes com reserva e sem reserva (walk-in)

O hóspede com reserva é procurado na lista de chegadas do dia. O walk-in exige mais passos:

  1. Verificar a disponibilidade no sistema (tipo de quarto, número de noites).
  2. Informar a tarifa de balcão e as condições (o que inclui, hora de saída, regras de cancelamento, taxas), antes de o cliente aceitar.
  3. Pedir o pagamento antecipado ou garantia, que é habitual em walk-ins.
  4. Criar a reserva no sistema e seguir o check-in normal.

O acesso aos empreendimentos turísticos é livre, mas a entidade exploradora pode recusar o acesso a quem perturbe o funcionamento normal do estabelecimento, e as normas de funcionamento e de acesso devem ser publicitadas. Na prática, a recusa é uma decisão da chefia, tomada com base em regras conhecidas e nunca por razões discriminatórias. Quem estiver no balcão não improvisa uma recusa; chama a chefia.

Hóspedes individuais e grupos

O hóspede individual gere o seu processo sozinho. O grupo (excursão, equipa desportiva, casamento, congresso) é gerido em bloco:

Exemplo resolvido · Preço e condições de uma reserva

O casal Moreira reserva, pelo site do Hotel Miradouro da Serra, um quarto duplo para 3 noites, entrada a 14 de novembro, com pequeno-almoço, na tarifa flexível a 96 € por noite (IVA incluído). A política: cancelamento gratuito até 48 horas antes da chegada; depois disso, cobra-se a primeira noite. O município aplica uma taxa turística de 2 € por pessoa e por noite, até um máximo de 4 noites, a partir dos 13 anos (valores do exemplo, não do município real).

  1. Alojamento: 3 noites × 96 € = 288 €.
  2. Taxa turística: 2 adultos × 2 € × 3 noites = 12 €, cobrada à parte.
  3. Total previsto: 288 + 12 = 300 €.
  4. Se cancelarem 24 horas antes: fora do prazo gratuito, cobra-se a primeira noite, 96 €, sem taxa turística, porque não houve estadia.
  5. Se não aparecerem e não avisarem (no-show): aplica-se a mesma penalização; a receção regista o no-show, tenta o contacto e liberta o quarto à hora definida.
  6. O que a receção diz ao confirmar: tarifa, o que inclui (pequeno-almoço), a taxa turística (por pessoa e noite, paga no check-out), o prazo de cancelamento gratuito e a hora de check-in e de check-out.

Exemplo resolvido · Overbooking numa sexta-feira de congresso

O Hotel Atlântida Park tem 80 quartos e aceitou 84 reservas para uma noite de grande procura, porque o histórico mostra que cerca de 6% das reservas desta noite não aparecem (84 × 6% ≈ 5). Às 20 h, há 78 reservas que já fizeram check-in (78 quartos ocupados) e 2 quartos livres. Faltam chegar 6 reservas: 3 avisaram que chegam às 22 h e 3 não deram notícias, mas têm cartão de garantia.

  1. Medir o problema. 80 - 78 = 2 quartos livres para 6 reservas por chegar. Se aparecerem todos, faltam 4 quartos. A rececionista tenta contactar os 3 hóspedes sem notícias para saber se vêm.
  2. Quem é relocalizado. Por critério do hotel, a reserva de menor valor ou a mais recente, nunca clientes fidelizados ou com mobilidade condicionada. A chefia decide, a rececionista aplica.
  3. Encontrar alternativa. Liga a dois hotéis da mesma categoria; um tem quartos duplos a 1,5 km.
  4. Comunicar com os hóspedes quando chegarem: pedido de desculpa, explicação sem culpar terceiros, o hotel paga a noite no outro hotel, o transporte de ida e o regresso no dia seguinte e o pequeno-almoço, e reserva-lhes a noite seguinte no hotel, se desejarem voltar.
  5. Registar: ocorrência no livro, custos para o controlo, nota no perfil do hóspede.
  6. Prevenir: a direção ajusta o limite de overbooking para esta data.

O erro a evitar é esperar que o hóspede chegue ao balcão para descobrir o problema: quanto mais cedo se souber, mais opções existem.

9. Registo e atribuição dos quartos: o check-in

Antes de o hóspede chegar

O bom check-in começa de manhã. A rececionista:

  1. Consulta a lista de chegadas do dia, com nomes, tipos de quarto, horas previstas e pedidos especiais.
  2. Verifica no mapa de ocupação que quartos há e em que estado estão.
  3. Pré-atribui os quartos, dando prioridade a hóspedes com pedidos (andar alto, quarto adaptado, quartos comunicantes) e a clientes habituais.
  4. Informa a governança das prioridades de limpeza.
  5. Prepara o que pode ser preparado: cartões-chave programados, envelopes de boas-vindas, berços e camas extra já pedidos.

Os tipos de quarto

Tipo Descrição
Individual (single) uma cama para uma pessoa
Duplo (double) cama de casal
Twin duas camas individuais
Triplo e quádruplo três ou quatro camas fixas
Familiar quarto ou conjunto de quartos para famílias
Quartos comunicantes dois quartos ligados por uma porta interior
Suite e júnior suite quarto com sala (ou zona de estar)
Quarto adaptado acessível a utilizadores com mobilidade condicionada

Para além do tipo, há atributos que contam na atribuição: piso, vista, orientação, proximidade do elevador, fumadores ou não fumadores, quarto silencioso.

O estado dos quartos

A receção só atribui um quarto que a governança tenha declarado pronto. Os estados habituais:

Estado Significado Pode ser vendido hoje?
Livre e limpo, inspecionado pronto para entrada sim
Livre e sujo saiu o hóspede, falta limpar só depois de limpar
Ocupado hóspede alojado não
Saída prevista (due out) hóspede que sai hoje depois da saída e da limpeza
Não incomodar (DND) o hóspede pediu para não ser incomodado não aplicável
Fora de serviço (OOO) avaria ou obra, quarto bloqueado não
Fora de venda bloqueado por decisão da direção (reserva de grupo, por exemplo) não

Os critérios de atribuição

Atribuir bem um quarto é combinar, por esta ordem:

  1. O que foi reservado e pago, e a categoria correspondente.
  2. Os pedidos especiais confirmados na reserva (e o que o hóspede pedir ao balcão, se for possível).
  3. Necessidades de acessibilidade: quarto adaptado só a quem precisa, sempre que haja alternativa, para o manter livre.
  4. Grupos e famílias juntos, ou em quartos comunicantes.
  5. Duração da estadia: evitar mudanças de quarto a meio de uma estadia longa.
  6. Categoria do cliente (fidelização, VIP): upgrade de cortesia, se a chefia o permitir e houver disponibilidade.
  7. Rotação: equilibrar o uso dos quartos para repartir o desgaste e rentabilizar a limpeza.

E uma regra de segurança: não se diz o número do quarto em voz alta no balcão; escreve-se no envelope do cartão-chave e mostra-se ao hóspede.

A taxa de ocupação

Mede a percentagem de quartos vendidos:

Taxa de ocupação = quartos ocupados ÷ quartos disponíveis × 100

Os quartos fora de serviço não contam como disponíveis. O rececionista não calcula taxas de ocupação para a direção, mas conhece o conceito porque é com ele que decide se há ou não quartos para um walk-in, e porque o overbooking se mede por aqui.

O processo de check-in, passo a passo

Passo O que se faz Porquê
1. Acolher cumprimentar, sorrir, tratar pelo nome primeira impressão
2. Localizar a reserva por apelido, número ou empresa evitar enganos
3. Pedir o documento de identificação cartão de cidadão, bilhete de identidade, passaporte, título de residência identificar o hóspede e cumprir a lei
4. Confirmar os dados datas, tipo de quarto, tarifa, regime, número de pessoas evitar surpresas no check-out
5. Preencher/confirmar a ficha de registo dados completos; assinatura prova do registo
6. Preencher o boletim de alojamento (estrangeiros) ver abaixo obrigação legal
7. Garantir o pagamento cartão em pré-autorização, ou pagamento antecipado segurança do hotel
8. Atribuir o quarto e programar o cartão-chave de acordo com os critérios ver acima
9. Informar piso, elevador, pequeno-almoço, Wi-Fi, horários, hora de saída, contactos da receção autonomia do hóspede
10. Despedir desejar boa estadia; acompanhar a bagagem se for caso último gesto de acolhimento

Registo de estrangeiros: o boletim de alojamento

Por cada hóspede de nacionalidade estrangeira, incluindo os cidadãos de outros Estados-Membros da União Europeia e seja qual for a sua idade, há um boletim de alojamento. A obrigação consta dos artigos 15.º e 16.º da Lei n.º 23/2007, de 4 de julho (regime de entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiros). Quem tem de a cumprir é a entidade que explora o estabelecimento, e também todos os que forneçam alojamento a título oneroso a estrangeiros, incluindo o alojamento local e os hostels.

Os pontos que importa fixar:

Hóspedes menores. O boletim aplica-se a estrangeiros de qualquer idade, e a assinatura de um menor é dada pelo progenitor. Para identificar um menor, o portal do SIBA admite, além dos documentos habituais, o boletim de nascimento ou o averbamento no passaporte dos progenitores. Quando é uma criança que aparece sozinha ao balcão, ou um menor sem acompanhante que pede alojamento, a receção não decide sozinha: acolhe, pergunta pelos pais ou responsáveis, contacta o quarto ou a segurança e chama a chefia, que aplica a política do hotel (em regra, só com a autorização de quem exerce as responsabilidades parentais).

Prazos e portais mudam. O SEF foi extinto e as suas competências passaram para outras entidades, e o quadro pode voltar a mudar. Antes de formar alguém para o SIBA, confirma no portal siba.ssi.gov.pt qual é o procedimento atual.

Atribuição de quarto: ocorrências que acontecem

Exemplo resolvido · Check-in de um casal francês e atribuição

Às 16 h chegam Camille e Julien Roussel, franceses, com reserva de 2 noites, quarto duplo, tarifa APA, pedido registado «andar alto, longe do elevador». Quartos duplos livres e prontos: 108 (piso 1, junto ao elevador), 319 (piso 3, no fim do corredor), 325 (piso 3, junto ao elevador).

  1. Acolher e localizar a reserva (por apelido).
  2. Documento: passaporte ou cartão de identificação francês. Verifica nome e validade e preenche a ficha de registo.
  3. Atribuição: o 319 satisfaz o pedido (andar alto, afastado do elevador). Não se atribui o 108 nem o 325.
  4. Boletim de alojamento: são cidadãos de outro Estado-Membro, mas têm boletim. O sistema pede nome, data de nascimento, nacionalidade, tipo e número do documento, datas de entrada e de saída, para cada um dos dois. Como são cônjuges, basta que um dos dois assine (artigo 15.º, n.º 3), mas os dois são comunicados. A comunicação ao SIBA sai dentro dos três dias úteis.
  5. Garantia: pré-autorização no cartão para extras.
  6. Cartão-chave programado para 2 noites, acesso ao elevador e ao ginásio. O número do quarto escreve-se no envelope, não se diz em voz alta.
  7. Informação: piso, elevador, pequeno-almoço das 7 h às 10 h 30, hora de saída, Wi-Fi.
  8. Registo: nota no PMS «pedido de quarto silencioso satisfeito» para uma futura estadia.

10. Registos de reserva, key pass e fichas de cliente (cardex)

Porque se regista tudo

Cada hóspede gera um percurso de informação: reserva, chegada, quarto, consumos, pagamento, partida. Cada passo tem de ficar registado, porque: (1) o hotel precisa de faturar corretamente; (2) a governança precisa de saber o que limpar; (3) a segurança precisa de saber quem está no edifício; (4) as autoridades têm obrigações de comunicação; (5) o hotel quer reconhecer e fidelizar os clientes; e (6) em caso de reclamação ou erro, o registo é a prova.

O PMS (sistema de gestão hoteleira)

O PMS (Property Management System) é o programa central da unidade. Reúne, num só lugar, as reservas, o mapa de quartos, o check-in e o check-out, a faturação, as contas correntes dos hóspedes, o estado dos quartos e os relatórios. Liga-se ao sistema de pontos de venda do restaurante e do bar (para lançar consumos na conta do quarto), ao channel manager (que sincroniza a disponibilidade com as plataformas), à programação das fechaduras e ao SIBA. Há muitos fabricantes, e ferramentas como o Oracle Opera, o Protel ou o Mews são exemplos de PMS usados em hotéis. A lógica é a mesma: procurar, abrir, conferir, registar, fechar.

Regras de ouro do PMS:

O registo de reserva

Para além dos campos do capítulo 8, o registo tem um estado:

Estado Significado
Confirmada aceite pelo hotel, com ou sem garantia
Lista de espera sem disponibilidade, pode passar a confirmada
Alterada datas, quarto ou número de pessoas mudaram
Cancelada desistência dentro ou fora do prazo
No-show o hóspede não apareceu
Em estadia (in house) check-in feito
Terminada (checked out) saída efetuada e conta liquidada

A ficha de registo do hóspede

A ficha de registo (registration card) é o documento, em papel ou digital, que o hóspede confirma e assina no check-in. Inclui:

O cardex: o ficheiro de clientes

O cardex é o arquivo de fichas de clientes do hotel. Antigamente era literalmente um ficheiro de cartões, por ordem alfabética; hoje é o perfil do hóspede no PMS. Serve para reconhecer clientes habituais e personalizar a estadia. Cada ficha contém:

Preencher o cardex é uma competência do referencial. Faz-se no check-in (dados novos), durante a estadia (preferências observadas) e no check-out (feedback e despedida). Cumpre-se o RGPD: só se recolhe o que é necessário, informa-se o hóspede, e não se guardam dados desnecessários.

O key pass (cartão-chave)

O cartão-chave é o suporte do acesso ao quarto, em geral um cartão de proximidade programado pela receção. Outras opções: chave metálica tradicional, código no teclado, chave no telemóvel. As regras:

Os registos da receção, num quadro

Registo Quem o faz Quando Para quê
Reserva reservas ou receção à venda garantir a estadia
Lista de chegadas / partidas PMS diariamente de manhã organizar o dia
Ficha de registo hóspede e rececionista check-in prova do registo
Boletim de alojamento rececionista, com a assinatura do hóspede (ou de quem a lei admite que assine por ele) check-in (prazo legal) obrigação legal, estrangeiros
Cardex / perfil rececionista check-in a check-out conhecer e fidelizar
Cartões-chave entregues rececionista check-in e check-out segurança
Lançamentos na conta receção e pontos de venda durante a estadia faturação
Livro de ocorrências todos durante o turno memória do que aconteceu
Passagem de turno rececionista que sai fim do turno continuidade
Fecho de caixa e auditoria noturna receção noturna fim do dia controlo financeiro

Exemplo resolvido · Atualizar o cardex após uma estadia

O Sr. Ricardo Pinto, cliente de uma empresa de Braga, saiu hoje do Hotel Miradouro da Serra após a sua quarta estadia em seis meses. A rececionista atualiza o perfil:

  1. Dados: confirma telemóvel e e-mail, e o NIF da empresa para faturação direta.
  2. Histórico: o PMS já regista as 4 estadias; confirma que a tarifa de empresa foi aplicada em todas.
  3. Preferências observadas e comunicadas pelo próprio: quarto silencioso no 3.º piso, pequeno-almoço às 7 h, almofada firme, chega sempre depois das 20 h.
  4. Feedback: disse que o Wi-Fi do 3.º piso falhou; regista a queixa e a ordem de trabalho aberta.
  5. O que não escreve: opiniões pessoais («fala muito», «é difícil») e dados de saúde que ele não tenha dado para efeitos de serviço.
  6. Consentimento: confirma que autorizou receber novidades do hotel; se não autorizou, deixa assinalado.

Na próxima estadia, o rececionista de serviço já pré-atribui um quarto silencioso no 3.º piso e prepara a almofada. O hóspede nota que é reconhecido, sem que ninguém lhe tenha perguntado o óbvio.

11. Formas de pagamento, check-out e reclamações

A conta do hóspede

Durante a estadia, tudo o que o hóspede consome fica registado numa conta associada ao quarto (o folio, no PMS): alojamento de cada noite, refeições, minibar, bar, lavandaria, estacionamento, telefone, spa e a taxa turística municipal, quando aplicável. Os pontos de venda (restaurante, bar, spa) lançam diretamente na conta; a receção lança o que não vem de outro sítio e corrige o que estiver errado.

Uma conta pode estar dividida: o alojamento vai para a empresa (conta mestra) e os extras ficam para o hóspede (conta individual); ou duas pessoas do mesmo quarto pagam separado. Estas divisões acordam-se no check-in, nunca no momento de pagar.

Lançar, corrigir, transferir e dividir

Registar os serviços efetuados (a realização 2 do referencial) resume-se a quatro gestos sobre a conta:

Exemplo resolvido · Lançar, corrigir e dividir

O Sr. Paulo Lemos, do quarto 418 do Hotel Miradouro da Serra, está alojado por 2 noites pela empresa «Beira Ótica, Lda.», que paga o alojamento a 92 € por noite e deixa os extras para o hóspede. Na véspera da saída, o restaurante lançou no 418 um jantar de 46,80 € que pertence ao quarto 481 (a Sr.ª Pires). Além disso, o Sr. Lemos tem um minibar de 7,50 € e lavandaria de 12 €.

  1. Detetar. Ao rever a conta com o hóspede, o Sr. Lemos diz que não jantou no hotel. A rececionista confere o talão do restaurante: a assinatura e o número do quarto são os da Sr.ª Pires.
  2. Anular. Lança no 418 um estorno de -46,80 €, com a nota «lançado por engano; pertence ao 481».
  3. Lançar de novo. Lança +46,80 € no 481, com o talão como prova.
  4. Dividir a conta do 418. Conta mestra (empresa): 2 × 92 € = 184 €. Conta individual (hóspede): 7,50 + 12 = 19,50 €.
  5. Verificar. Se o erro tivesse ficado, o Sr. Lemos pagaria 19,50 + 46,80 = 66,30 € em vez de 19,50 €. Total das duas contas do 418: 184 + 19,50 = 203,50 €.
  6. Faturar. Duas faturas: uma à empresa (com o NIF da empresa, que se confirma antes de emitir) e outra ao hóspede.

Nada foi apagado: a conta mostra o lançamento errado, o estorno e o lançamento certo, e quem fez cada um.

O check-out, passo a passo

Passo O que se faz
1. Acolher cumprimentar; perguntar «correu tudo bem?»
2. Receber o cartão-chave e confirmar o número de cartões entregues
3. Verificar consumos de última hora minibar, pequeno-almoço, telefone; pedir à governança, se necessário
4. Rever a conta com o hóspede mostrar, explicar e esclarecer dúvidas, antes de cobrar
5. Perguntar pelos dados de faturação NIF e nome, se quer a fatura em nome pessoal ou da empresa; é antes de emitir
6. Cobrar pela forma de pagamento acordada
7. Emitir a fatura e entregar ou enviar por e-mail
8. Libertar a pré-autorização do cartão de garantia, se houver
9. Comunicar a saída no PMS (estado do quarto: «saída efetuada, sujo») e, nos estrangeiros, a saída no SIBA nos termos legais
10. Informar a governança para limpar o quarto, prioritariamente se há chegada próxima
11. Despedir agradecer, perguntar se quer táxi, guardar bagagem, convidar a regressar

Formas de pagamento previstas no referencial

Cartão de crédito. É a forma mais usada em hotéis, e é a base da garantia de reserva. Boas práticas:

Voucher. É um documento emitido por uma agência, operador, plataforma ou empresa que comprova que o serviço já foi (ou será) pago a quem o emitiu. Não é dinheiro. Conferir:

Se o voucher estiver rasurado, expirado ou com dados diferentes da reserva, a receção não aceita nem recusa sozinha: contacta a chefia e a agência. Existem também vouchers-presente (cheques-oferta do hotel), com valor a abater à conta; esses têm de ser validados no sistema.

Cheque de viagem (traveller's cheque). Documento em moeda estrangeira, emitido por um banco ou entidade financeira, pago à cabeça pelo comprador e aceite em muitos países. Hoje é raro, mas continua a existir e consta do referencial. O procedimento seguro:

  1. O hóspede assina o cheque na sua presença (é a segunda assinatura, a contra-assinatura; a primeira foi feita ao comprar).
  2. Comparar as duas assinaturas e o nome com o documento de identificação do hóspede. Se não coincidirem, não se aceita.
  3. Verificar o emissor, a moeda e o valor facial.
  4. Converter para euros à taxa que o hotel aplica nesse dia, e deduzir qualquer comissão que o hotel pratique.
  5. Emitir fatura em euros; dar o troco em euros.
  6. Registar o número do cheque e guardá-lo com o fecho de caixa.

Moeda estrangeira. A moeda de curso legal em Portugal é o euro. Aceitar numerário noutra moeda é uma opção do hotel, não uma obrigação do hóspede nem do hotel. Se o hotel aceita:

Outras formas. Numerário em euros, transferência bancária, referência Multibanco e MB WAY, conforme o que o hotel tiver contratado. A faturação direta à empresa não é bem uma forma de pagamento: é o hotel a conceder crédito, ao abrigo de um acordo.

Limite aos pagamentos em numerário. Pela Lei n.º 92/2017, de 22 de agosto, é proibido pagar ou receber em numerário, em transações de qualquer natureza, montantes iguais ou superiores a 3 000 €. O limite sobe para 10 000 € quando o pagamento é feito por pessoas singulares não residentes em território português, que não atuem como empresários ou comerciantes. Há ainda limites mais baixos para empresas em certas faturas. Perante um grande pagamento em dinheiro, a receção não decide sozinha: chama a chefia e o controlo, que confirmam o caso (residência do pagador, valor, natureza do pagamento).

A fatura

A fatura é um documento fiscal. Na prática:

A taxa turística municipal

Alguns municípios cobram uma taxa turística (também chamada taxa de dormida) por hóspede e por noite. Cada município aprova o seu regulamento, que define o valor, a idade a partir da qual é devida, o número máximo de noites e as isenções (por exemplo, por razões de saúde). Quem a cobra, ao hóspede, é o hotel, que a entrega ao município. Vem discriminada na fatura. A receção tem de conhecer o regulamento do seu município e informar da taxa antes de o hóspede chegar ao check-out.

O livro de reclamações

Os empreendimentos turísticos devem ter livro de reclamações, nos termos do regime geral do Decreto-Lei n.º 156/2005, de 15 de setembro, na redação atual (o Decreto-Lei n.º 74/2017, de 21 de junho, criou o formato eletrónico). O RJET determina que o original da folha de reclamação seja enviado à ASAE. O que a receção tem de fazer:

  1. Facultar imediata e gratuitamente o livro a quem o peça. Nunca se condiciona, nunca se tenta convencer a não reclamar, nunca se exige que o cliente se identifique primeiro.
  2. Ter a informação visível de que o estabelecimento dispõe de livro de reclamações, com a identificação da entidade competente.
  3. Dar ao reclamante o duplicado da folha; o triplicado fica no livro. Se o reclamante recusar o duplicado, arquiva-se com essa menção.
  4. Enviar o original à entidade competente (ASAE) no prazo de 15 dias úteis, com a resposta já dada ao reclamante, se houver.
  5. Responder ao reclamante no prazo máximo de 15 dias úteis, nas reclamações do formato eletrónico.
  6. Arquivar durante pelo menos três anos.
  7. Se o livro não for facultado, o consumidor pode chamar a autoridade policial, que regista a recusa e a comunica à entidade fiscalizadora.
  8. O formato eletrónico (Plataforma Digital) coexiste com o físico, e a existência de um não dispensa o outro.

O regime já foi alterado mais do que uma vez e pode voltar a sê-lo; antes de aplicares estes prazos numa unidade concreta, confirma-os no portal do livro de reclamações.

Exemplo resolvido · Um check-out com três meios de pagamento

A família Andrade (dois adultos e uma filha de 12 anos) sai da Residencial Ria Formosa (hotel de duas estrelas, Faro) ao fim de 4 noites. A conta: alojamento 4 × 78 € = 312 €; minibar 11,50 €; lavandaria 9 €; taxa turística (no município do exemplo, 1,50 € por pessoa e noite, a partir dos 13 anos, máximo 4 noites): 2 adultos × 4 noites × 1,50 € = 12 €. A filha tem 12 anos e não paga.

  1. Total: 312 + 11,50 + 9 + 12 = 344,50 €.
  2. Pré-pagamento: a família já pagou, no site, um sinal de 100 €. Resta 244,50 €.
  3. Pagamento: quer pagar 100 € em numerário e o resto no cartão. 100 € em dinheiro está abaixo do limite legal; o resto, 144,50 €, no TPA.
  4. NIF: o Sr. Andrade pede a fatura com NIF antes de se emitir.
  5. Fatura: discrimina alojamento, extras e taxa turística; o sinal de 100 € aparece como pagamento antecipado.
  6. Libertar a pré-autorização do cartão de garantia; receber os 2 cartões-chave; comunicar a saída à governança.

Total verificado: 100 € (sinal) + 100 € (numerário) + 144,50 € (cartão) = 344,50 €.

Exemplo resolvido · Pedido do livro de reclamações

Um hóspede, irritado com um erro na fatura, diz: «Quero o livro de reclamações.» A rececionista:

  1. Não discute nem tenta convencê-lo do contrário.
  2. Entrega o livro de imediato, sem pedir identificação.
  3. Informa a chefia, sem interferir no que o hóspede escreve.
  4. Ajuda a preencher os dados do estabelecimento (obrigatório), se o hóspede pedir.
  5. Entrega o duplicado ao hóspede, fica com o triplicado.
  6. Passa o original ao responsável, que o envia à ASAE no prazo legal, com a resposta dada.
  7. Regista a ocorrência e a correção da fatura, se o erro era do hotel.

Reclamar é um direito. O profissional que o facilita demonstra segurança no serviço; o que o dificulta, comete uma infração.

12. Informar e esclarecer o hóspede: a unidade, os serviços, os eventos e a região

A receção como fonte de informação

Um hóspede que chega a uma cidade que não conhece pergunta quase sempre a quem está ao balcão: onde posso comer, como chego ao centro, o que visitar, a que horas fecha a piscina. A realização do referencial é informar e esclarecer os clientes acerca da unidade turística, dos eventos e dos pontos turísticos. Isto exige conhecimento (do hotel e do destino), método (saber onde ir buscar o que não se sabe) e honestidade (dizer «vou confirmar», nunca inventar).

Informação sobre a unidade e os serviços

A informação que deve ser dada a todos na chegada ou deixada por escrito:

Tema Exemplos
Quarto e piso localização, elevador, acessos
Refeições local e horário do pequeno-almoço, restaurante, bar, room service
Horários check-out, receção, piscina, spa, ginásio
Serviços incluídos e pagos Wi-Fi, estacionamento, lavandaria, transfer
Contactos extensão da receção, emergência, telefone do hotel
Regras da casa silêncio, fumadores, animais, visitas
Segurança saídas de emergência, ponto de reunião, cofre
Direitos e custos taxa turística, livro de reclamações disponível

Os meios de informação: o diretório de serviços ou folha de boas-vindas no quarto (em várias línguas), o ecrã de televisão, painéis, o site e o aviso de eventos do dia. O profissional garante que esses materiais estão atualizados: informação errada impressa é pior do que nenhuma.

Informação sobre eventos

Há dois tipos:

Informação sobre pontos turísticos e a região

Responder bem não é recitar uma lista; é adaptar ao hóspede:

  1. Perguntar: quanto tempo tem, com quem viaja, o que gosta, como se desloca, orçamento.
  2. Propor poucas opções (duas ou três), ordenadas por proximidade, e dizer o que as distingue.
  3. Dar informação prática: distância e meio de transporte (a pé, metro, autocarro, comboio, táxi, aluguer), duração da visita, horário e preço, se é preciso reservar.
  4. Marcar no mapa e escrever o essencial, em especial a hóspedes estrangeiros.
  5. Oferecer a reserva (restaurante, bilhetes, transporte) ou passar ao concierge.
  6. Dar o cartão do hotel com a morada, para o táxi e para o regresso.

Os horários dos museus e monumentos, os preços e as condições de acesso mudam; muitas atrações fecham um dia por semana, e as exceções são comuns em feriados. A receção confirma sempre antes de enviar alguém a uma deslocação de meia hora.

Prestar esclarecimentos sobre serviços

Esclarecer é responder com rigor ao que o hóspede perguntou, sem exagero e sem omissão. Um modelo simples:

  1. Responder à pergunta logo no início.
  2. Dar os detalhes relevantes (horário, preço, condições).
  3. Verificar se o hóspede percebeu («ficou claro?»).
  4. Oferecer o passo seguinte («quer que reserve?»).

Quando a informação pode afetar o preço ou uma decisão (por exemplo, o custo de um transfer ou de um tratamento de spa), diz-se o preço antes e não depois, em conformidade com o dever de informar os utentes sobre condições e preços antes da contratação.

Situações que a receção tem de saber orientar

Situação Informação a ter pronta
Emergência médica número de emergência (112), morada exata do hotel, serviço de urgência mais próximo
Farmácia de serviço onde consultar a farmácia aberta fora de horas
Transportes como ir do aeroporto ou da estação ao hotel, horários do último transporte
Mobilidade condicionada percursos acessíveis, transportes adaptados
Segurança cuidados habituais com carteiras e bagagem em zonas de muito turismo, sem alarmismo
Correio e recados encaminhar mensagens e encomendas
Objetos esquecidos registar, guardar com identificação e contactar o hóspede

Os objetos esquecidos têm um procedimento próprio. Quando a governança, a receção ou outro hóspede encontra um, regista-se com data, hora, local e quem o entregou; guarda-se em local seguro e identificado; contacta-se o hóspede, se for possível identificá-lo; e entrega-se contra assinatura quando ele o reclama. Durante quanto tempo se guarda é decidido pela política do hotel, que a receção deve conhecer antes de prometer alguma coisa.

A frase mais profissional do balcão: «Vou confirmar e já lhe digo.» Substitui uma resposta errada e ainda transmite cuidado. Depois, cumpre-se: volta-se ao hóspede com a informação certa, sem esperar que ele pergunte outra vez.

Exemplo resolvido · Um dia por medida para uma família

Uma família de quatro (pais e dois filhos de 8 e 11 anos), em Évora numa quarta-feira, pergunta o que fazer no dia seguinte. Chegam de comboio, não têm carro.

  1. Perguntar: quanto tempo (um dia inteiro), o que gostam (história e animais), o ritmo (crianças pequenas).
  2. Propor poucas opções, perto uma da outra: uma visita ao centro histórico a pé de manhã (curta, com paragem num jardim), almoço num restaurante com menu para crianças, e uma atividade à tarde que a receção tenha verificado.
  3. Confirmar o que ficou por confirmar: horário e dia de encerramento do monumento escolhido, preço para crianças, necessidade de reserva. A rececionista liga ou consulta o sítio oficial e só depois fala com a família.
  4. Entregar: um mapa com os pontos marcados e a morada do hotel para o regresso.
  5. Oferecer: a reserva do almoço e o contacto de um táxi para o fim da tarde.
  6. Registar no cardex: «família com crianças, gostou do passeio histórico», útil para a próxima visita.

O hóspede recebeu um plano em vez de uma lista, e a rececionista nunca disse nada que não tivesse verificado.

13. Um turno completo na receção: casos que juntam tudo

Um dia no Hotel Miradouro da Serra

O quadro seguinte percorre um turno da manhã (07 h 00 às 15 h 00) e mostra onde cada capítulo aparece.

Hora Acontecimento O que a rececionista faz Capítulo
07 h 00 Passagem de turno lê o livro de ocorrências, vê as notas de VIP e de avarias pendentes 5, 10
07 h 30 Check-out de um grupo de 14 pessoas rever contas, cobrar extras, recolher cartões, devolver pré-autorizações 11
09 h 00 Um hóspede diz que o quarto está frio pedir desculpa, abrir ordem de trabalho, oferecer mudança 5, 6
10 h 15 Chega um walk-in sem reserva disponibilidade, tarifa de balcão, condições, pagamento antecipado, registo 8, 9
11 h 00 Reunião curta de chefias informar sobre o estado de ocupação e chegadas de grupo 4, 5
12 h 00 Chega um casal alemão check-in antecipado se houver quarto pronto, boletim de alojamento, cartão-chave 9, 10
13 h 00 Pedido de informação roteiro de meio dia, reserva de restaurante 12
14 h 00 Pedido de livro de reclamações entregar de imediato, informar a chefia 11
14 h 45 Preparar a passagem escrever o que ficou pendente, conferir a caixa 7, 10

Quadro de decisões rápidas

Situação Primeiro gesto A seguir Quem informar
O hóspede perdeu o cartão-chave confirmar a identidade (nome, documento) anular o cartão, emitir novo, registar governança, chefia se for repetido
O cartão de crédito é recusado sem alarme, propor outro meio não libertar a conta enquanto não pagar controlo, se for sistemático
Hóspede estrangeiro sem documento explicar que o boletim é obrigatório pedir que o vá buscar ou prove identidade válida; não alojar sem identificação chefia
Criança sozinha ao balcão acolher, perguntar pelos pais contactar o quarto ou a segurança segurança, chefia
Alguém pergunta o quarto de outro hóspede não dizer oferecer ligar ao quarto ou tomar um recado chefia, se insistir
Hóspede perturba os restantes (ruído, embriaguez) pedir calma, com tranquilidade falar com a chefia; se for necessário, segurança ou autoridades chefia, segurança
Alarme de incêndio ativar procedimento de evacuação e ligar 112 levar a lista de hóspedes ao ponto de reunião segurança, direção
Hóspede doente em caso de emergência ou de dúvida, ligar ao 112 e seguir as instruções do operador, sem fazer triagem clínica acompanhar o hóspede, avisar a chefia chefia
Erro na fatura já emitida pedir desculpa, explicar que será corrigida emitir documento retificativo, segundo o procedimento controlo
Hóspede quer pagar muito em dinheiro não recusar nem aceitar sozinha chefia e controlo confirmam a legalidade chefia, controlo

Exemplo resolvido · Das 10 h 15 às 10 h 40: um walk-in

Chega ao balcão o Sr. Duarte Ramos, de Setúbal, sem reserva, com uma mala. Pede um quarto duplo para uma só pessoa, para duas noites. O hotel tem 3 duplos livres e prontos (um no piso 1, dois no piso 4); a tarifa de balcão, em uso individual, é 82 € por noite com pequeno-almoço.

  1. Acolher e identificar a necessidade: «Bom dia, bem-vindo. Pelo que percebo, procura um quarto para duas noites?»
  2. Verificar a disponibilidade no mapa e escolher o duplo do piso 4 (mais sossegado) ou o do piso 1, se tiver mobilidade reduzida (pergunta-se, não se supõe).
  3. Informar o preço, o que inclui, a hora de saída, as condições de cancelamento e o pagamento antecipado: 2 × 82 € = 164 €. A taxa turística do município, se existir, indica-se.
  4. Aceitar a decisão do hóspede e criar a reserva.
  5. Check-in: documento de identificação (cidadão português: sem boletim de alojamento, mas ficha de registo), assinatura, pagamento de 164 € no TPA.
  6. Chave e informação: cartão programado para duas noites, número no envelope, piso e elevador, pequeno-almoço das 7 h às 10 h 30.
  7. Registos: cardex novo, nota no livro «walk-in 10 h 20, quarto 415, 2 noites pagas».
  8. Passar à governança: o 415 passa a ocupado.

Em menos de 25 minutos, todos os passos de dois capítulos foram aplicados.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Acolher bem exige saber onde se está e o que se faz. Os empreendimentos turísticos dividem-se, no RJET, em sete tipos (estabelecimentos hoteleiros, aldeamentos, apartamentos, resorts, turismo de habitação, turismo no espaço rural, parques de campismo), a que se junta o alojamento local, onde cabem os hostels. Os estabelecimentos hoteleiros têm de uma a cinco estrelas, os aldeamentos, os apartamentos turísticos e os hotéis rurais de três a cinco (as pousadas cumprem os requisitos de três ou de quatro, sem exibirem estrelas), e as designações antigas (pensão, estalagem, motel, meios complementares) já não são tipologias: o que conta é o registo. O hotel organiza-se por departamentos (alojamento, governança, F&B, marketing e vendas, controlo e gestão, recursos humanos, manutenção e segurança), com uma hierarquia e canais de comunicação em que o que é importante se escreve.

O hóspede é acolhido com técnicas (saudação, escuta ativa, empatia, assertividade), adaptadas ao contexto e ao público, e com uma postura profissional visível. A estadia assenta numa reserva com preço, regime e condições; trata-se de clientes com e sem reserva, individuais e em grupo, e gerem-se alterações, no-show e overbooking. O check-in junta a identificação, a ficha de registo, o boletim de alojamento de cada estrangeiro (artigos 15.º e 16.º da Lei n.º 23/2007, SIBA, três dias úteis, bastando a assinatura de um dos cônjuges ou de um membro do grupo, e com todos comunicados), a garantia de pagamento e a atribuição do quarto segundo critérios claros. Todos os passos deixam registo: reserva, ficha, cardex, cartão-chave, livro de ocorrências. No check-out, a conta revê-se com o hóspede, o NIF pergunta-se antes da fatura, o pagamento faz-se por cartão, voucher, cheque de viagem, moeda estrangeira ou numerário (dentro dos limites da lei), e o livro de reclamações entrega-se sempre que pedido. Em todo o processo, a receção informa e esclarece sobre a unidade, os eventos e a região, e nunca diz o que não confirmou.

Exercícios resolvidos

1. Uma aldeia de xisto tem 8 casas restauradas, todas exploradas pela mesma empresa, com receção numa delas. Que tipologia legal tem e tem estrelas?

Resolução: é turismo no espaço rural, no grupo casas de campo, e como são exploradas de forma integrada por uma única entidade e situadas em aldeia, consideram-se turismo de aldeia. As casas de campo não têm estrelas; só os hotéis rurais são classificados, de três a cinco estrelas.

2. O Hotel Torre Norte tem 30 quartos duplos (2 camas fixas cada), 10 twin (2 camas fixas), 4 triplos (3 camas fixas) e 6 dos duplos têm sofá-cama. Qual é a capacidade?

Resolução: conta-se pelas camas fixas. Duplos: 30 × 2 = 60. Twin: 10 × 2 = 20. Triplos: 4 × 3 = 12. Total = 60 + 20 + 12 = 92 camas fixas. Os 6 sofás-cama são convertíveis e não aumentam a capacidade.

3. Atribui cada pedido ao departamento: (a) o minibar do 412 está vazio; (b) o ar condicionado do 207 não arranca; (c) o hóspede quer jantar às 21 h; (d) a empresa do hóspede pede uma fatura com NIF diferente; (e) um grupo de 30 pessoas precisa de proposta para outubro.

Resolução: (a) governança (repõe o minibar); (b) manutenção (ordem de trabalho); (c) F&B (reserva de mesa); (d) controlo e gestão (faturação e retificação); (e) marketing e vendas (proposta de grupo).

4. Classifica a comunicação: (a) o chefe de receção informa os rececionistas da nova tarifa de grupo; (b) a rececionista reporta ao chefe um incidente com um hóspede; (c) a receção avisa a governança de uma saída antecipada; (d) a receção liga ao chefe de manutenção por uma avaria urgente.

Resolução: (a) descendente; (b) ascendente; (c) horizontal; (d) diagonal, entre uma colaboradora e a chefia de outro departamento.

5. Um hóspede queixa-se de ruído no corredor, às 23 h, e pede para mudar de quarto. Aplica o modelo de cinco passos.

Resolução: (1) Escutar sem interromper; (2) mostrar empatia: «Compreendo, é incómodo»; (3) pedir desculpa; (4) resolver: verificar quarto livre e pronto na mesma categoria, em ala mais sossegada, propor a mudança e acompanhar com o bagageiro; (5) informar e acompanhar: atualizar o PMS e a chave, avisar a governança, deixar a ocorrência no livro e passá-la ao turno seguinte, voltar a falar com o hóspede no dia seguinte.

6. Uma família (2 adultos e 1 jovem de 15 anos) reserva 5 noites a 82 € por noite, quarto triplo. A taxa turística do município do exemplo é 1,50 € por pessoa e noite, a partir dos 13 anos, com máximo de 3 noites. Quanto paga no total?

Resolução: alojamento: 5 × 82 = 410 €. Taxa: os 3 pagam (15 anos ≥ 13), 3 pessoas × 1,50 € × 3 noites (máximo) = 13,50 €. Total: 410 + 13,50 = 423,50 €.

7. Num grupo de cinco hóspedes (dois portugueses, um brasileiro, um alemão e uma espanhola) quantos boletins de alojamento são necessários e porquê? E se o alemão e a espanhola forem um casal, ambos têm de assinar?

Resolução: três: o brasileiro, o alemão e a espanhola. Os portugueses não preenchem boletim. A obrigação abrange todos os estrangeiros, incluindo os cidadãos de outros Estados-Membros da União Europeia. Se o alemão e a espanhola forem um casal, os dois continuam a ser comunicados (três comunicações), mas só um tem de assinar: a lei dispensa a assinatura pessoal de ambos os cônjuges (Lei n.º 23/2007, artigo 15.º, n.º 3). A dispensa é da assinatura, não da comunicação. A prática segura é comunicar no próprio dia do check-in, bem dentro dos três dias úteis.

8. Um hóspede português, residente em Portugal, quer pagar 3 400 € em numerário por um evento. Pode? E se for um turista americano, particular, não residente?

Resolução: o residente não pode: o limite geral é de 3 000 € (são proibidos pagamentos em numerário iguais ou superiores). O turista não residente, pessoa singular que não atua como empresário ou comerciante, tem um limite superior (10 000 €), portanto pode. Em qualquer dos casos, a receção não decide sozinha e consulta a chefia e o controlo.

9. Um hóspede paga uma conta de 87,50 € com um cheque de viagem de 100 dólares. O hotel aplica 1 € = 1,10 dólares. Que valor recebe e que troco dá?

Resolução: 100 ÷ 1,10 = 90,909..., ou seja, 90,91 €. Troco: 90,91 - 87,50 = 3,41 €, em euros. Antes disso: o hóspede assina na sua presença, comparam-se as assinaturas e o documento, e informa-se o câmbio antes de aceitar.

10. A tarifa de 74 € por noite tem cancelamento gratuito até 72 h antes da chegada; depois cobra-se a primeira noite. Uma reserva de 4 noites é cancelada 48 h antes. Quanto se cobra? E se o hóspede não aparecer?

Resolução: o cancelamento foi dentro das 72 h, logo cobra-se a primeira noite: 74 €. Em caso de no-show, aplica-se a mesma penalização: 74 €, depois de a receção registar a ocorrência, tentar contactar o hóspede e libertar o quarto à hora definida. Em ambos os casos, o hóspede deve ter sido informado da política antes de reservar.