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UC · Unidade de Competência · UC03579

Sebenta · Gerir aprovisionamentos e controlar custos (UC03579)

Economato, gestão de stocks, receção e conservação de géneros, inventários, custos e rácios, higiene e sustentabilidade
—h · — pontos crédito Curso: T. Cozinha/Restaur. ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a gerir os aprovisionamentos de uma cozinha ou restaurante e a controlar os seus custos: desde encomendar e receber os géneros alimentícios, armazená-los e conservá-los em segurança, até fazer inventários, calcular o custo dos pratos e reduzir o desperdício. É o trabalho «dos bastidores» que decide se um negócio de restauração tem lucro ou prejuízo — porque numa cozinha o dinheiro entra pela porta da sala, mas sai pela porta do economato.

Muitos cozinheiros excelentes falham no negócio por uma razão simples: cozinham muito bem, mas não controlam o que compram, o que gastam e o que deitam fora. Uma cozinha pode servir pratos maravilhosos e continuar a perder dinheiro se compra a mais, deixa estragar géneros, não roda os stocks, ou não sabe quanto custa cada prato. Gerir aprovisionamentos é, no fundo, tratar a matéria-prima como se fosse dinheiro — porque é.

Objetivos de aprendizagem (referencial): inventariar e controlar os stocks de géneros alimentícios e o seu estado de conservação; rececionar e armazenar os géneros; e efetuar e gerir requisições — sempre segundo as regras de higiene e segurança alimentar, com o apoio de documentação física ou informática, e com uma preocupação de sustentabilidade e redução de desperdício.

1. O aprovisionamento e o economato

Aprovisionar é garantir que a cozinha tem, no momento certo, os géneros certos, na quantidade certa, com a qualidade certa e ao melhor custo. É uma cadeia com quatro elos: comprar → receber → armazenar → requisitar. Se um destes elos falha, todos os outros sofrem.

O economato é o «armazém» do estabelecimento — o espaço (e a função) onde se guardam, controlam e distribuem os géneros e materiais. Numa casa pequena, o economato pode ser uma despensa e um caderno; numa unidade grande, é uma secção com responsável próprio (o ecónomo) e software de gestão.

O ciclo das mercadorias

O percurso de um género, do fornecedor ao prato, chama-se circuito de mercadorias:

Necessidade → Encomenda → Receção → Armazenamento → Requisição → Produção
   (cozinha)  (compras)   (conferir)   (economato)    (secção)     (praça)

Em cada etapa há um documento que a regista. É esta documentação que permite, no fim, saber quanto se comprou, quanto se gastou e quanto sobra.

Objetivos da gestão de aprovisionamentos

2. Gestão de stocks: conceitos-chave

Stock é a quantidade de um género que existe em armazém num dado momento. Gerir stocks é encontrar o equilíbrio entre ter de menos (risco de rutura) e ter de mais (dinheiro parado e produtos a estragar).

Stock mínimo, máximo e ponto de encomenda

Conceito O que é Para que serve
Stock mínimo (de segurança) quantidade abaixo da qual não se deve descer evita ruturas
Stock máximo quantidade acima da qual não se deve subir evita excessos e validades
Ponto de encomenda nível que dispara uma nova encomenda encomendar a tempo

O ponto de encomenda calcula-se tendo em conta o consumo médio e o prazo de entrega do fornecedor:

Ponto de encomenda = (consumo médio diário × prazo de entrega em dias) + stock de segurança

Exemplo: gasta-se, em média, 8 kg de batata por dia; o fornecedor entrega em 2 dias; queremos 5 kg de segurança. Ponto de encomenda = (8 × 2) + 5 = 21 kg. Quando o stock chegar a 21 kg, encomenda-se.

Rotação de stocks: FIFO e FEFO

Os géneros alimentares têm validade, por isso a ordem de saída importa. Duas regras:

Na restauração usa-se sobretudo o FEFO: arruma-se o género novo atrás/por baixo e o antigo à frente/por cima, para que a equipa pegue sempre no mais antigo. É a forma mais simples e eficaz de reduzir o desperdício por validade.

Indicadores de stock

3. Receção de géneros alimentícios

A receção é o momento em que a mercadoria chega e é conferida antes de aceite. É um ponto crítico: o que entra mal, custa e arrisca a saúde de quem come. Nunca se recebe um género sem verificar.

O que verificar na receção

  1. Quantidade — bate certo com a nota de encomenda e com a guia/fatura? Pesar e contar.
  2. Qualidade — aspeto, cor, cheiro, textura, embalagem intacta, sem sinais de deterioração.
  3. Validade — data de durabilidade mínima ou «consumir até»; recusar validades curtas.
  4. Temperatura — medir à chegada, sobretudo em refrigerados e congelados.
  5. Rotulagem e rastreabilidade — lote, origem, informação obrigatória (alergénios).
  6. Higiene do transporte — viatura limpa, separação de produtos, cadeia de frio.

Temperaturas de receção (referência)

Tipo de género Temperatura à receção
Congelados −18 ºC
Refrigerados (carne, peixe, laticínios) 0 a 4 ºC (peixe fresco perto de 0–2 ºC)
Frescos não refrigerados (fruta, legumes) ambiente fresco e seco
Quentes prontos a consumir 63 ºC

Se a temperatura, o aspeto ou a validade não estiverem conformes, recusa-se total ou parcialmente e emite-se uma nota de devolução e/ou reclamação.

Documentos da receção

Depois de conferido, o género dá entrada em stock (ficha de armazém ou sistema informático) e segue para o armazenamento.

4. Armazenamento e conservação

Receber bem não chega: é preciso guardar bem. A conservação certa mantém a qualidade, prolonga a validade e evita perdas e riscos sanitários.

Zonas de armazenamento

Ordem correta na câmara de refrigeração

Para evitar contaminação cruzada (pingos de um alimento cru sobre um pronto), arruma-se de cima para baixo por ordem de risco:

Prateleira de cima  →  Alimentos prontos a consumir / cozinhados
        ↓             Laticínios e sobremesas
        ↓             Peixe cru
Prateleira de baixo →  Carne crua (o que mais «pinga»)

Regras de ouro do armazenamento

Métodos de conservação

Método Princípio Exemplos
Refrigeração frio abranda os micróbios frescos do dia a dia
Congelação frio intenso «suspende» carne, peixe, pré-preparados
Secagem/desidratação retirar água leguminosas, ervas
Salga / fumagem sal e fumo inibem bacalhau, enchidos
Conserva / apertização calor + selagem enlatados
Vácuo retirar oxigénio prolongar frescos
Atmosfera modificada alterar gases da embalagem pré-embalados

5. Requisições e gestão de saídas

A requisição é o documento pelo qual uma secção (cozinha, pastelaria, bar) pede ao economato os géneros de que precisa. É a «saída» do stock e o espelho da «entrada».

Por que existe a requisição

Circuito da requisição

Secção precisa  preenche requisição  economato entrega   baixa em stock  atualiza consumo

Uma requisição típica indica: data, secção requisitante, género, quantidade, unidade e a assinatura/validação de quem pede e de quem entrega. Em sistema informático, cada baixa atualiza automaticamente o stock e o valor consumido.

Encomendas, devoluções e reclamações

Gerir bem estes documentos é o que mantém o circuito de mercadorias fiável e auditável.

6. Inventários

Inventariar é contar fisicamente o que existe em armazém e comparar com o que os registos dizem que deveria existir. Serve para saber a verdade do stock, detetar perdas e valorizar as existências.

Tipos de inventário

Como fazer uma contagem física

  1. Parar movimentos durante a contagem (ou registar entradas/saídas à parte).
  2. Contar por zonas, com folha de inventário ou terminal/leitor de código.
  3. Registar quantidade real por artigo e unidade.
  4. Comparar com o stock teórico → apurar diferenças (quebras).
  5. Valorizar o stock (quantidade × custo unitário).
  6. Investigar desvios anómalos e ajustar o sistema.

Quebras: causas e leitura

Uma quebra é a diferença entre o stock teórico e o real. Pode dever-se a: desperdício e estragos, erros de registo, más pesagens, furtos, ou porções mal controladas. Uma quebra pequena é normal; uma quebra grande ou crescente é um alarme que obriga a investigar o circuito.

7. Controlo de custos, cálculo e rácios

Aqui está o coração da UC: transformar géneros em números que dizem se o negócio ganha ou perde dinheiro.

Custo de mercadoria vendida (CMV)

O CMV é quanto custou, em géneros, o que se vendeu num período. Calcula-se pelo movimento do stock:

CMV = Stock inicial + Compras − Stock final

Exemplo: stock inicial 1 200 €, compras no mês 4 800 €, stock final 1 500 €. CMV = 1 200 + 4 800 − 1 500 = 4 500 €. Foi este o valor de géneros efetivamente consumido.

Food cost e rácio de custo

O food cost é o custo dos ingredientes de um prato. O rácio de custo (%) relaciona-o com o preço de venda:

Rácio de custo (%) = (custo dos ingredientes ÷ preço de venda sem IVA) × 100

Exemplo: um prato leva 3,20 € de ingredientes e vende-se a 12,80 € (sem IVA). Rácio = (3,20 ÷ 12,80) × 100 = 25 %. Na restauração, um food cost saudável costuma situar-se entre 25 % e 35 %.

Fixar o preço de venda a partir do custo

Se quisermos um food cost-alvo, o preço obtém-se dividindo o custo por esse alvo:

Preço de venda (sem IVA) = custo dos ingredientes ÷ food cost-alvo

Exemplo: ingredientes 4,00 €, alvo 30 % (0,30). Preço = 4,00 ÷ 0,30 = 13,33 € (+ IVA e arredondamento comercial).

Ficha técnica e custo por dose

A ficha técnica de um prato lista ingredientes, quantidades líquidas, custo unitário e rendimento (nº de doses). O custo por dose é o custo total dos ingredientes a dividir pelo número de doses.

Margem bruta

Margem bruta = preço de venda (sem IVA) − custo dos ingredientes

Continuando o exemplo dos 12,80 € com 3,20 € de custo: margem bruta = 9,60 € por prato.

Rácios úteis de gestão

Rácio Fórmula Diz-nos
Food cost % custo géneros ÷ vendas × 100 peso da matéria-prima
Rotação de stock consumo ÷ stock médio rapidez com que gira o stock
Índice de quebra quebras ÷ compras × 100 perdas do economato
Custo médio valor do stock ÷ quantidade custo unitário a usar no custeio

8. Higiene e segurança alimentar no aprovisionamento

Todo o circuito de mercadorias tem de respeitar as regras de higiene e segurança alimentar — não é um extra, é a lei e a base da confiança do cliente.

HACCP e pré-requisitos

O sistema HACCP (Hazard Analysis and Critical Control Points, Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controlo) identifica os pontos onde pode surgir um perigo e define como o controlar. No aprovisionamento, os pontos críticos típicos são a receção (temperatura, validade), o armazenamento (cadeia de frio, separação) e a rastreabilidade.

Rastreabilidade

Rastreabilidade é a capacidade de seguir um género ao longo de toda a cadeia — saber de onde veio e para onde foi. Consegue-se guardando lotes, faturas e registos de entradas e saídas. É obrigatória e essencial em caso de alerta ou recolha de um produto.

Boas práticas no circuito

9. Sustentabilidade e redução de desperdício

A gestão moderna de aprovisionamentos é também sustentável: gastar menos géneros para o mesmo serviço é bom para o ambiente e para a conta bancária. Aqui a economia circular entra na cozinha.

Princípios de circularidade na restauração

Combater o desperdício alimentar

  1. Comprar certo — planear com base no consumo real e nas reservas.
  2. Conservar bem — FEFO, temperaturas, etiquetagem.
  3. Aproveitar — receitas de aproveitamento, congelação atempada.
  4. Medir — pesar o desperdício por tipo (preparação, prato devolvido, validade) para saber onde atacar.
  5. Doar — encaminhar excedentes seguros para instituições, quando possível.

Reduzir o desperdício melhora diretamente o food cost e as quebras — é gestão de custos e sustentabilidade ao mesmo tempo.

10. Ferramentas informáticas de gestão

Fazer tudo isto «à mão» é possível em casas pequenas, mas em qualquer operação séria usa-se software — na «ótica do utilizador», ou seja, sabendo usar a ferramenta, não programá-la.

O que o software faz

Do papel à folha de cálculo

Mesmo uma simples folha de cálculo (Excel/Sheets) resolve muito: uma tabela de artigos com stock, mínimos, custo unitário e fórmulas de valorização e food cost. Saber montar uma folha destas é uma competência prática e transferível para qualquer software profissional.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Gerir aprovisionamentos é fechar o circuito comprar → receber → armazenar → requisitar, com registo em cada passo. O bom economato não falta e não sobra: usa ponto de encomenda, roda o stock por FEFO, confere rigorosamente na receção (quantidade, qualidade, validade, temperatura) e conserva respeitando a cadeia de frio e a separação de alimentos. Os inventários confrontam o teórico com o real e revelam as quebras. No plano financeiro, o CMV, o food cost e os rácios dizem se o negócio ganha dinheiro, e a ficha técnica dá o custo por dose. Tudo isto se apoia em documentação (física ou informática), respeita a higiene e segurança alimentar (HACCP, rastreabilidade) e procura a sustentabilidade, reduzindo o desperdício — que é, ao mesmo tempo, boa gestão de custos.

Exercícios resolvidos

1) Ponto de encomenda. Um restaurante gasta em média 6 kg de cebola por dia. O fornecedor entrega em 3 dias e a casa quer 4 kg de segurança. Qual o ponto de encomenda? Resolução: (6 × 3) + 4 = 18 + 4 = 22 kg. Quando o stock chegar a 22 kg, encomenda-se.

2) CMV. Stock inicial de géneros 900 €, compras do mês 3 600 €, stock final 1 050 €. Qual o CMV? Resolução: CMV = 900 + 3 600 − 1 050 = 3 450 €.

3) Food cost e preço. Um prato leva 2,70 € de ingredientes. Queremos um food cost-alvo de 30 %. Qual o preço de venda sem IVA? E o rácio se o vendêssemos a 10,00 €? Resolução: Preço = 2,70 ÷ 0,30 = 9,00 €. A 10,00 €, rácio = (2,70 ÷ 10,00) × 100 = 27 %.

4) Quebra de inventário. O stock teórico de azeite é 40 L; a contagem física dá 36,5 L. Qual a quebra em litros e em % (compras do período: 120 L)? Resolução: Quebra = 40 − 36,5 = 3,5 L. Índice de quebra = (3,5 ÷ 120) × 100 ≈ 2,9 % — a investigar se for anómalo.

5) Custo por dose. Uma ficha técnica de sopa rende 20 doses e custa, em ingredientes, 9,60 €. Qual o custo por dose? Se a vendermos a 2,50 €, qual o rácio? Resolução: Custo/dose = 9,60 ÷ 20 = 0,48 €. Rácio = (0,48 ÷ 2,50) × 100 = 19,2 %.