Sebenta · Avaliar e controlar a qualidade da água na atividade termal (UC03527)
- Introdução
- 1. O ciclo da água e os problemas da água no mundo
- 2. Aquíferos: conceito e tipos
- 3. Hidrogeoquímica e água mineral natural
- 4. Classificações hidroquímicas e exemplos portugueses
- 5. Enquadramento legal da qualidade da água
- 6. Gestão sustentável dos recursos hídricos
- 7. Parâmetros físico-químicos essenciais
- 8. Parâmetros microbiológicos
- 9. Instrumentos, métodos analíticos e calibração
- 10. Plano de amostragem, boletins e tratamento de dados
- 11. Qualidade, poluição e a aplicação aos tratamentos termais
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a avaliar e controlar a qualidade da água usada num balneário termal, do ciclo hidrológico e da origem geológica da água até à leitura de um boletim de análise e à elaboração de um plano de amostragem. A água é o recurso central de qualquer estabelecimento termal: sem qualidade garantida, não há propriedades terapêuticas nem atividade legal.
O percurso segue a lógica do referencial: primeiro compreendemos de onde vem a água (ciclo hidrológico, aquíferos, hidrogeoquímica), depois o que a legislação exige (normas portuguesas e internacionais), a seguir como se mede e controla a qualidade (parâmetros físico-químicos e microbiológicos, instrumentos, métodos analíticos) e, por fim, como se organiza o controlo no dia a dia (planos de amostragem, boletins, tratamento de dados e aplicação aos tratamentos termais).
Objetivos de aprendizagem (referencial): reconhecer as normas portuguesas de qualidade química e microbiológica relativas às águas usadas num balneário termal; interpretar dados sobre os recursos hídricos e o controlo da qualidade; e avaliar a utilização da água em tratamentos termais.
1. O ciclo da água e os problemas da água no mundo
O ciclo hidrológico é o movimento contínuo da água entre a atmosfera, a superfície e o subsolo, alimentado pela energia solar e pela gravidade.
- Evaporação e transpiração: a água passa a vapor a partir de oceanos, rios, solos e plantas.
- Condensação: o vapor forma nuvens ao arrefecer em altitude.
- Precipitação: chuva, neve ou granizo devolvem a água à superfície.
- Infiltração: parte da água penetra no solo e alimenta os aquíferos.
- Escoamento: parte escoa à superfície, para rios, lagos e mar.
A água que emerge numa nascente termal entrou neste ciclo como qualquer outra, mas percorreu um trajeto subterrâneo particularmente profundo e lento, o que explica a sua temperatura e composição características.
A água como recurso sob pressão
A disponibilidade de água doce de qualidade enfrenta desafios globais:
| Problema | Causa principal | Consequência |
|---|---|---|
| Escassez | procura acima da disponibilidade local | racionamento, conflitos de uso |
| Poluição | descargas industriais, agrícolas e urbanas | perda de qualidade dos recursos |
| Sobre-exploração | captação acima da capacidade de recarga | descida do nível freático, salinização costeira |
| Alterações climáticas | mudança dos padrões de precipitação | secas e cheias mais frequentes |
Em Portugal, a gestão dos recursos hídricos é acompanhada, entre outras entidades, pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA). A água usada num balneário termal depende deste equilíbrio mais amplo: um aquífero sobre-explorado ou contaminado a montante compromete diretamente a atividade termal.
2. Aquíferos: conceito e tipos
Um aquífero é uma formação geológica capaz de armazenar e transmitir água subterrânea em quantidade significativa, através dos seus poros ou fraturas.
A água infiltrada atravessa primeiro a zona não saturada, onde os espaços vazios da rocha ainda contêm ar, e acumula-se depois na zona saturada, onde todos os espaços estão preenchidos por água. Num aquífero livre, o topo da zona saturada é o nível freático. Num aquífero confinado, a água está sob pressão e o nível piezométrico é a altura a que a água sobe num poço que o atravesse, podendo ficar acima do topo do aquífero ou até acima do solo (poço artesiano repuxante).
Tipos de aquíferos
| Tipo | Características | Vulnerabilidade |
|---|---|---|
| Livre (freático) | superfície em contacto direto com o ar | alta, exposto à superfície |
| Confinado | limitado por camadas impermeáveis, água sob pressão | baixa, protegido por camadas |
| Semiconfinado | camada confinante parcialmente permeável | intermédia |
| Cárstico | rocha calcária dissolvida, condutas e cavidades | alta, circulação rápida |
| Fissurado | água circula por fraturas em rocha cristalina | variável, depende da profundidade |
As águas termais portuguesas nascem, com frequência, em aquíferos fissurados de rochas graníticas e xistosas, ou em aquíferos confinados profundos, cuja circulação lenta favorece o aquecimento geotérmico e o enriquecimento mineral da água.
Exemplo resolvido · classificar um aquífero
Enunciado: um aquífero está limitado no topo por uma camada de argila impermeável, e a água nele contida está sob pressão, subindo espontaneamente num poço até acima do topo do aquífero. Que tipo de aquífero é este?
Resolução passo a passo: 1. Verificar se há contacto direto com a superfície. Não há, existe uma camada impermeável a limitar o topo. 2. Verificar se a água está sob pressão. Está, sobe espontaneamente no poço. 3. Concluir: trata-se de um aquífero confinado. A subida espontânea da água no poço, acima do topo do aquífero, é o comportamento típico deste tipo de aquífero, muitas vezes associado a águas termais e minerais.
3. Hidrogeoquímica e água mineral natural
A hidrogeoquímica estuda a composição química da água subterrânea e a forma como esta interage com as rochas que atravessa. Ao circular pelo subsolo, a água dissolve minerais das rochas, incorporando iões como sódio, cálcio, magnésio, bicarbonato, sulfato e cloreto.
Quanto mais lenta e profunda for a circulação, maior o tempo de contacto com a rocha e maior a mineralização da água. A temperatura, o pH e a pressão ao longo do percurso influenciam quais minerais se dissolvem preferencialmente.
O que distingue uma água mineral natural
A água mineral natural é uma água subterrânea, microbiologicamente própria na origem, com uma composição química estável, mesmo com variações de caudal ao longo do tempo, e com características que lhe conferem propriedades favoráveis à saúde.
A água termal é, em linguagem corrente, a água mineral natural usada num estabelecimento termal para fins terapêuticos (crenoterapia). As suas propriedades terapêuticas resultam sobretudo da composição química e físico-química, estável na origem. A temperatura de emergência é uma característica importante, mas não obrigatória: há termas portuguesas com águas frias. Em Portugal, o recurso geológico é tutelado pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), enquanto a atividade termal propriamente dita segue o regime jurídico próprio do termalismo, com acompanhamento da vertente de saúde pela Direção-Geral da Saúde (DGS).
4. Classificações hidroquímicas e exemplos portugueses
As águas minerais classificam-se, sobretudo, pela composição química dominante e pela temperatura de emergência.
Classificação química
Pelos iões dominantes: águas bicarbonatadas, cloretadas, sulfatadas, ferruginosas ou radíferas, entre outras. As sulfúreas são uma exceção a esta lógica: definem-se pela presença de formas reduzidas de enxofre, não por um ião dominante. Esta classificação orienta diretamente a indicação terapêutica, por exemplo as águas sulfúreas são frequentemente associadas a tratamentos das vias respiratórias e da pele.
Classificação pela temperatura de emergência
| Classe | Temperatura de emergência |
|---|---|
| Frias | abaixo de 20 °C |
| Hipotermais | de 20 a 25 °C |
| Mesotermais | de 25 a 35 °C |
| Termais | de 35 a 40 °C |
| Hipertermais | acima de 40 °C |
Classificação usada pela DGEG, na linha do Instituto de Hidrologia de Lisboa; alguns autores usam limites ligeiramente diferentes, por isso indica sempre a escala adotada.
Classificação pela mineralização total
| Classe | Mineralização total |
|---|---|
| Hipossalina | abaixo de 200 mg/L |
| Fracamente mineralizada | de 200 a 1000 mg/L |
| Mesossalina | de 1000 a 2000 mg/L |
| Hipersalina | acima de 2000 mg/L |
Exemplos portugueses
Portugal tem uma tradição termal antiga, com águas espalhadas sobretudo pelo Norte e Centro, em zonas de rochas graníticas e fissuradas: águas sulfúreas (tratamentos respiratórios, de pele e músculo-esqueléticos), bicarbonatadas (tratamentos digestivos), radíferas (baixo teor de radioatividade natural, sob controlo rigoroso) e cloretadas ou sulfatadas com outras indicações. Cada estabelecimento termal opera com a água da sua própria captação, monitorizada ao longo do tempo.
5. Enquadramento legal da qualidade da água
A atividade termal em Portugal está sujeita a um regime jurídico próprio: o Decreto-Lei n.º 142/2004, de 11 de junho, e as alterações posteriores, que regulam o reconhecimento de águas de nascente com propriedades terapêuticas e o funcionamento dos estabelecimentos termais.
Este regime articula-se com:
- A DGEG, que tutela o recurso geológico (a água mineral enquanto recurso hidromineral).
- A DGS, que acompanha a vertente de saúde pública da atividade termal.
- A legislação da qualidade da água para consumo humano, cuja fiscalização em Portugal envolve entidades como a DGS e a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), definindo parâmetros e valores a cumprir.
Legislação internacional de referência
- União Europeia: as diretivas europeias sobre água potável fixam o quadro mínimo comum que cada Estado-membro transpõe para o seu direito nacional.
- Organização Mundial da Saúde (OMS): publica orientações técnicas de referência (guidelines) sobre qualidade da água, usadas como base científica em diversas legislações nacionais.
Os valores-limite exatos de cada parâmetro podem ser revistos ao longo do tempo. O técnico de termalismo consulta sempre a legislação em vigor no momento, em vez de memorizar um número fixo que pode ficar desatualizado.
6. Gestão sustentável dos recursos hídricos
Gerir bem um recurso hídrico termal é garantir que continua disponível, com a mesma qualidade, no futuro.
Regras básicas
- Controlar o caudal captado, sem exceder a capacidade de recarga natural do aquífero.
- Proteger a zona de proteção da captação, evitando construções, agricultura intensiva ou descargas próximas da origem.
- Monitorizar continuamente o nível piezométrico, o caudal e a qualidade da água.
- Registar e reportar às entidades competentes qualquer variação anómala.
A cadeia da qualidade
A preservação da qualidade não termina na captação, estende-se a todo o circuito:
Captação → Transporte e armazenamento → Distribuição no balneário → Uso terapêutico
Cada elo tem os seus riscos: materiais inadequados e estagnação no transporte, biofilme nas tubagens da distribuição, ou uma manutenção deficiente nos pontos de uso. A qualidade final depende do elo mais fraco desta cadeia.
7. Parâmetros físico-químicos essenciais
Temperatura
A temperatura de emergência mede-se na origem, com termómetro calibrado, e reflete a profundidade e o tempo de circulação subterrânea da água. Classifica a água (ver capítulo 4) e orienta a indicação terapêutica. Variações anómalas ao longo do tempo podem sinalizar alterações no aquífero ou infiltração de água superficial.
pH
O pH mede o grau de acidez ou alcalinidade, numa escala de 0 a 14, sendo 7 o valor neutro. Mede-se com um potenciómetro (pH-metro), calibrado com soluções-tampão antes de cada série de leituras. Um desvio brusco de pH é frequentemente um dos primeiros sinais de alarme de contaminação ou avaria.
Condutividade e salinidade
A condutividade elétrica mede a capacidade da água para conduzir corrente, diretamente relacionada com os iões dissolvidos: quanto mais mineralizada, maior a condutividade. Mede-se com um condutivímetro, em microsiemens ou milisiemens por centímetro. A salinidade é a concentração total de sais dissolvidos, muitas vezes estimada a partir da condutividade.
A condutividade é reportada a uma temperatura de referência (normalmente 20 °C ou 25 °C), porque a condutividade sobe com a temperatura mesmo sem mudança de composição. Em águas quentes, como as termais, usa-se um condutivímetro com compensação automática de temperatura e indica-se sempre a temperatura de referência usada, para que leituras de dias diferentes sejam comparáveis.
Exemplo resolvido · interpretar uma leitura de pH
Enunciado: o técnico mede o pH de uma amostra de água termal e obtém o valor 8,6. O valor de referência da água nesta captação, com base no histórico, situa-se entre 6,5 e 7,5.
Resolução passo a passo: 1. Confirmar que o pH-metro foi calibrado antes da leitura. Se não foi, a leitura não é válida e deve ser repetida após calibração. 2. Assumindo o instrumento calibrado, comparar o resultado (8,6) com o intervalo de referência histórico (6,5 a 7,5). 3. Concluir: o valor está acima do intervalo habitual, é uma leitura alcalina anómala. 4. Ação: registar o desvio, repetir a leitura para confirmar, e se confirmado, investigar a causa (por exemplo, contaminação, alteração na captação) antes de validar a água para uso.
8. Parâmetros microbiológicos
A água usada em tratamentos termais está em contacto direto com pele, mucosas e vias respiratórias, muitas vezes de utentes fragilizados, o que torna o controlo microbiológico crítico.
- Microrganismos indicadores, como coliformes e outras bactérias de referência, sinalizam contaminação fecal ou falhas de higiene no circuito.
- Microrganismos oportunistas, presentes naturalmente em ambientes aquáticos aquecidos, podem proliferar em condições favoráveis, como águas estagnadas.
- A análise exige colheita asséptica, transporte refrigerado e análise laboratorial dentro de prazos definidos.
Indicadores habituais
- Coliformes totais: sinalizam falhas de higiene ou de integridade do circuito.
- Escherichia coli e enterococos: indicadores de contaminação fecal.
- Pseudomonas aeruginosa: oportunista, relevante no contacto com pele e mucosas.
- Legionella: prolifera em água morna e transmite-se por aerossóis de duches, jatos e inalações.
O controlo laboratorial das águas termais segue o programa de controlo da qualidade definido pela DGS. A prevenção da Legionella em balneários termais obriga a avaliação de risco e plano de prevenção, nos termos da Lei n.º 52/2018.
Ambientes propícios e prevenção
Ambientes quentes e húmidos, como piscinas termais, duches e salas de vapor, favorecem a proliferação microbiana quando a manutenção falha.
| Zona de risco | Medida preventiva |
|---|---|
| Tubagens com água estagnada | purga regular, uso frequente ou desativação segura |
| Filtros mal limpos | plano de limpeza e substituição periódico |
| Chuveiros pouco usados | abrir e purgar regularmente |
| Depósitos sem renovação | renovação programada da água |
O biofilme, uma película de microrganismos que se forma em superfícies húmidas, protege as bactérias da desinfeção e é uma das principais causas de recontaminação a jusante de uma água inicialmente própria.
9. Instrumentos, métodos analíticos e calibração
Instrumentos de rotina
| Instrumento | Mede | Cuidado principal |
|---|---|---|
| Termómetro | temperatura | calibração periódica |
| pH-metro | pH | calibrar com soluções-tampão antes de usar |
| Condutivímetro | condutividade | limpar o elétrodo entre amostras |
| Kit ou fotómetro de cloro | cloro livre e total | reagentes dentro da validade |
| Caudalímetro / contador | consumo e caudal | verificar ausência de fugas |
Calibração e manutenção
A calibração compara a leitura do instrumento com um padrão conhecido e ajusta-o se necessário, com a periodicidade definida pelo fabricante ou pelo procedimento interno. A manutenção preventiva inclui limpeza de elétrodos e sensores, substituição de baterias e reagentes, e verificação de fugas. Todo este trabalho fica registado, com data, responsável e resultado.
Métodos analíticos de laboratório
| Família | Princípio | Exemplo de uso |
|---|---|---|
| Potenciométricos | diferença de potencial elétrico ligada à concentração de um ião | pH, elétrodos seletivos |
| Volumétricos (titulação) | quantidade de reagente de concentração conhecida necessária para reagir com a amostra | determinação de cloretos |
| Gravimétricos | pesagem de um resíduo obtido após tratamento da amostra | resíduo seco, sólidos totais |
| Espectrométricos | interação da luz com a amostra | concentrações de iões e compostos com grande sensibilidade |
10. Plano de amostragem, boletins e tratamento de dados
Plano de amostragem
O plano de amostragem de água define, de forma sistemática, onde, quando, como e com que frequência se recolhem amostras.
- Pontos: captação, reservatórios, pontos intermédios do circuito, pontos de uso final.
- Frequência: diária, semanal, mensal ou anual, consoante o parâmetro e o risco de cada ponto.
- Parâmetros por ponto: os parâmetros rápidos (pH, cloro, temperatura) fazem-se com mais frequência do que a análise completa.
- Responsáveis e procedimentos: quem colhe, com que material, e como regista.
Técnicas de recolha e conservação
- Frascos adequados: estéreis para microbiologia; específicos (âmbar, com ou sem conservante) para certos parâmetros químicos.
- Técnica assética: evitar tocar no bordo do frasco, flamejar torneiras metálicas quando aplicável, deixar correr a água antes de colher.
- Identificação: ponto, data, hora e responsável, sem o que se perde a rastreabilidade.
- Conservação e transporte: refrigeração imediata, normalmente entre 2 e 8 °C, proteção da luz quando necessário, e respeito pelo prazo máximo até à análise.
Quando a água tem cloro ou outro desinfetante, o frasco de microbiologia deve conter tiossulfato de sódio, que neutraliza o desinfetante e evita falsos negativos. Note-se que a água mineral natural não leva aditivos que alterem a sua composição, o cloro aplica-se à desinfeção de piscinas e dos circuitos, não à água na origem.
Ler um boletim de análises
O boletim de análises reporta os resultados de uma amostra: identificação da amostra e do ponto de colheita, data de colheita e de análise, cada parâmetro com o seu resultado, unidade e método usado, e o valor de referência a cumprir.
Exemplo resolvido · avaliar a conformidade de um boletim
Enunciado: um boletim simplificado apresenta: pH = 7,1 (referência 6,5 a 7,5); condutividade = 620 µS/cm (referência até 800 µS/cm); coliformes = presentes (referência: ausentes em 100 mL).
Resolução passo a passo: 1. Comparar o pH (7,1) com o intervalo de referência (6,5 a 7,5). Está dentro do intervalo, conforme. 2. Comparar a condutividade (620 µS/cm) com o limite (até 800 µS/cm). Está dentro do limite, conforme. 3. Comparar os coliformes (presentes) com a referência (ausentes em 100 mL). Não cumpre, não conforme. 4. Concluir: apesar dos parâmetros físico-químicos estarem corretos, o resultado microbiológico invalida o uso da água até à correção da causa e à repetição da análise. A água não deve ser usada enquanto o parâmetro microbiológico não estiver conforme.
Tratamento de dados ao longo do tempo
Um único boletim é uma fotografia; o histórico de vários boletins é o filme que mostra a evolução da água. Organizar os resultados de um parâmetro em séries temporais permite detetar tendências (por exemplo, uma subida lenta do cloro residual ou uma descida progressiva do pH), antecipando problemas antes de se tornarem não conformidades graves.
11. Qualidade, poluição e a aplicação aos tratamentos termais
Origem, tipos e efeitos das alterações
Uma água que perde qualidade não o faz sem motivo:
- Origem natural: infiltração de água superficial, alterações geológicas, variações sazonais de caudal.
- Origem humana: contaminação por atividades próximas da captação, falhas de manutenção, desinfeção mal gerida.
- Tipos: química (subida de um ião, queda do pH), física (turvação, temperatura), microbiológica (indicadores de contaminação).
- Efeitos: desde a não conformidade administrativa até ao risco direto para a saúde dos utentes, passando pela perda das propriedades terapêuticas.
Medidas preventivas
Proteção da captação e cumprimento da licença termal, manutenção e calibração regulares dos instrumentos, um plano de amostragem ajustado ao risco de cada ponto, formação e rigor da equipa, e um procedimento claro de resposta a desvios, incluindo quando suspender o uso da água.
Garantir as propriedades terapêuticas
Todo este trabalho serve um único fim: garantir as propriedades terapêuticas da água, o critério de desempenho que resume a UC. A estabilidade da composição química e da temperatura de emergência sustentam a indicação terapêutica de cada água; a qualidade microbiológica garante que o tratamento não é um risco; a rastreabilidade dos registos prova, a qualquer momento, que a água cumpre as condições da licença termal.
Ética em saúde e segurança no trabalho
O trabalho com água termal decorre num contexto de cuidados de saúde:
- Ética em saúde: confidencialidade sobre condições de saúde dos utentes, respeito pela sua autonomia e comunicação clara sobre riscos ou restrições ao tratamento.
- Normas de segurança e saúde no trabalho: manuseamento seguro de reagentes de análise, equipamento de proteção individual na colheita e manutenção, prevenção de quedas em zonas húmidas.
- Normas da qualidade: procedimentos documentados, registos rastreáveis e melhoria contínua dos processos de controlo.
Erros comuns
- Usar um instrumento sem o calibrar antes da leitura, invalidando o resultado mesmo que o aparelho pareça funcionar bem.
- Colher a amostra sem técnica assética, contaminando-a antes mesmo de chegar ao laboratório.
- Amostrar só na origem e nunca nos pontos de uso final, onde o risco de recontaminação é maior.
- Atrasar o transporte da amostra ao laboratório, permitindo que a população microbiana se altere antes da análise.
- Olhar só para o número do resultado, sem comparar com o valor de referência e a unidade correta.
- Arquivar boletins sem os comparar entre si, perdendo a capacidade de detetar tendências.
- Confundir a tutela do recurso geológico (DGEG) com a tutela da vertente de saúde (DGS), ou pensar que basta cumprir a legislação de água de consumo humano, ignorando o regime próprio do termalismo.
Glossário
- Aquífero: formação geológica capaz de armazenar e transmitir água subterrânea.
- Nível freático: topo da zona saturada de um aquífero livre.
- Água mineral natural: água subterrânea microbiologicamente própria na origem, com composição química estável.
- Água termal: água mineral natural usada em estabelecimento termal para fins terapêuticos, com propriedades que resultam sobretudo da sua composição, podendo emergir fria ou quente.
- Crenoterapia: tratamento terapêutico com recurso a águas minerais ou termais.
- Condutividade elétrica: capacidade da água para conduzir corrente, ligada à sua mineralização.
- Biofilme: película de microrganismos que se forma em superfícies húmidas, protegendo-os da desinfeção.
- Plano de amostragem: documento que define pontos, frequência e parâmetros de recolha de amostras de água.
- Boletim de análises: documento com os resultados laboratoriais de uma amostra.
- Valor paramétrico (ou de referência): limite legal ou de boa prática definido para um parâmetro da água.
- Calibração: ajuste de um instrumento por comparação com um padrão conhecido.
- DGEG: Direção-Geral de Energia e Geologia, tutela do recurso hidromineral em Portugal.
- DGS: Direção-Geral da Saúde, acompanhamento da vertente de saúde da atividade termal.
Síntese
A avaliação e o controlo da qualidade da água numa atividade termal seguem sempre a mesma lógica: conhecer a origem (ciclo da água, aquíferos, hidrogeoquímica) → conhecer as regras (legislação portuguesa e internacional) → medir com rigor (parâmetros físico-químicos e microbiológicos, instrumentos calibrados, métodos analíticos) → organizar o controlo (plano de amostragem, boletins, tratamento de dados) → agir sobre desvios (identificar origem, aplicar medidas preventivas) → garantir a finalidade (propriedades terapêuticas, com ética, segurança e qualidade). Domina este fluxo e serás capaz de avaliar e controlar a qualidade da água em qualquer estabelecimento termal.
Exercícios resolvidos
1. Um aquífero tem a sua superfície em contacto direto com o ar, sem camada impermeável a protegê-lo. Que tipo de aquífero é este e qual a sua vulnerabilidade?
Resolução: é um aquífero livre (freático). Por estar em contacto direto com a superfície, tem vulnerabilidade elevada à contaminação vinda da superfície.
2. Porque é que a temperatura de emergência é considerada um parâmetro identitário de uma água termal?
Resolução: porque reflete diretamente a profundidade e o tempo de circulação da água no subsolo, condiciona a sua classificação (fria a hipertermal) e orienta a indicação terapêutica. Uma variação anómala da temperatura de emergência é também um sinal precoce de alteração no aquífero.
3. Uma amostra para análise microbiológica foi colhida sem técnica assética e demorou 24 horas a chegar ao laboratório, sem refrigeração. O resultado deu "coliformes ausentes". O técnico pode confiar neste resultado?
Resolução: não, com segurança. A colheita sem técnica assética pode ter contaminado a amostra, mas o atraso sem refrigeração pode ter alterado a população microbiana em qualquer sentido, incluindo fazer desaparecer microrganismos presentes na água real. O resultado não é fiável e a amostragem deve ser repetida seguindo o procedimento correto.
4. Que diferença existe entre a tutela da DGEG e a tutela da DGS na atividade termal?
Resolução: a DGEG tutela o recurso geológico, a água mineral e termal enquanto recurso hidromineral. A DGS acompanha a vertente de saúde pública da atividade termal. As duas tutelas são complementares e articulam-se com o regime jurídico próprio do termalismo.
5. Um boletim mostra condutividade dentro do valor de referência, mas uma tendência de subida constante ao longo de 6 meses. É correto ignorar este resultado só porque ainda está dentro do limite?
Resolução: não. Embora ainda esteja conforme, a tendência de subida constante é um sinal de alerta que deve ser investigado, porque pode antecipar uma não conformidade futura. O tratamento de dados ao longo do tempo serve exatamente para detetar este tipo de deriva antes de se tornar um problema grave.
6. Explica porque é que a "estabilidade da composição química" é um critério tão importante para uma água ser reconhecida como mineral natural.
Resolução: porque as propriedades terapêuticas de uma água mineral ou termal dependem diretamente da sua composição química. Se essa composição variasse de forma imprevisível, a indicação terapêutica deixaria de ser fiável e reprodutível, e a água perderia a base científica que justifica o seu reconhecimento e uso em tratamentos.