Sebenta · Executar tratamentos de termoterapia (UC03523)
- Introdução
- 1. A termoterapia como agente terapêutico
- 2. Calor seco: infravermelhos e ultravioleta
- 3. Calor húmido
- 4. Parafina e parafango
- 5. Técnicas e tratamentos de termoterapia
- 6. Indicações e contraindicações
- 7. Reações adversas e procedimentos de emergência
- 8. Organização do espaço de trabalho e ergonomia
- 9. Material, higiene e manutenção do equipamento
- 10. Protocolo de instalação e preparação do utente
- 11. Executar o tratamento: procedimento passo a passo
- 12. Avaliação do utente, comunicação e registo
- 13. Reclamações, ética e normas de qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
A termoterapia é uma das técnicas mais praticadas nas estâncias termais portuguesas: aplica-se calor, seco ou húmido, para relaxar músculos, aliviar dor articular e preparar o corpo para massagem ou cinesiterapia. É simples de descrever e exigente de executar bem, porque trabalha diretamente sobre a pele e o conforto de uma pessoa, com riscos reais se a temperatura, o tempo ou a vigilância falharem.
Esta sebenta acompanha o técnico de termalismo desde o princípio físico do calor até ao procedimento completo de um tratamento: preparar o espaço, instalar o utente, executar com autonomia, avaliar antes, durante e depois, e registar tudo o que aconteceu. Cobre também o que rodeia a técnica em si, a higiene do equipamento, a ergonomia do próprio técnico, a comunicação com o utente e as normas éticas e de segurança que enquadram a profissão.
Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar o local de trabalho para tratamentos de termoterapia; instalar o utente de forma adequada; auxiliar o técnico superior de terapias manuais e/ou de reabilitação; realizar um tratamento de termoterapia com autonomia; e realizar o registo de atividades e ocorrências.
1. A termoterapia como agente terapêutico
A termoterapia é a aplicação terapêutica de calor sobre o corpo. Não é conforto puro e simples: é uma técnica com efeitos fisiológicos previsíveis, aplicada segundo prescrição do profissional de saúde responsável pelo caso do utente.
Efeitos fisiológicos do calor
Quando um tecido é aquecido, ocorrem vários efeitos em cadeia:
- Vasodilatação local: os vasos sanguíneos dilatam, aumentando o fluxo de sangue na zona.
- Aumento do metabolismo local: mais oxigénio e nutrientes chegam às células.
- Relaxamento muscular: reduz-se o tónus e o espasmo muscular.
- Efeito analgésico: eleva-se o limiar de perceção da dor.
- Maior elasticidade do colagénio: os tecidos periarticulares tornam-se mais extensíveis e preparados para mobilização.
Como o calor chega ao corpo
- Condução: por contacto direto entre o meio quente e a pele (hidrocolectores, compressas, parafina, parafango).
- Convecção: através de um fluido em movimento, ar ou água (banhos quentes, vapor, sauna).
- Radiação: por ondas eletromagnéticas, sem contacto (lâmpada de infravermelhos).
Todas estas técnicas são calor superficial: aquecem sobretudo a pele e o tecido subcutâneo, até cerca de 1 a 2 cm. O calor profundo (ondas curtas, micro-ondas, ultrassons) usa outros equipamentos e fica fora desta UC.
Exemplo resolvido · encadear os efeitos numa indicação clínica
Um utente chega à estância com lombalgia mecânica (dor nas costas de origem muscular, sem inflamação aguda) e vai depois fazer cinesiterapia com o técnico superior.
- O calor aplicado (por exemplo, infravermelhos ou parafango) provoca vasodilatação e relaxamento muscular na zona lombar.
- O limiar de dor sobe, o utente sente-se mais confortável e menos protegido pela contração muscular defensiva.
- O colagénio periarticular fica mais extensível, o que reduz o risco de lesão nas mobilizações seguintes.
- Resultado: a cinesiterapia que se segue é mais eficaz e mais confortável para o utente.
Este raciocínio, dos efeitos fisiológicos à indicação concreta, é a base de toda a UC.
2. Calor seco: infravermelhos e ultravioleta
O calor seco aplica-se sem meio líquido ou húmido em contacto direto com a pele durante a sessão.
Radiação infravermelha
A lâmpada de infravermelhos aquece por radiação, a uma distância de 30 a 60 cm da pele, sem contacto físico. É a técnica de calor seco mais usada, indicada para preparação de zonas amplas antes de massagem e para relaxamento muscular geral.
- Tempo habitual: 15 a 20 minutos.
- O técnico deve manter vigilância contínua sobre a distância e a temperatura da pele.
- Penetra alguns milímetros nos tecidos superficiais, com efeito predominantemente local.
Radiação ultravioleta
A radiação ultravioleta (UV) tem, no contexto termal, um uso restrito a protocolos dermatológicos específicos prescritos pelo profissional de saúde.
- Não é sentida como calor: o efeito é sobretudo biológico e cutâneo, não térmico.
- Exige controlo rigoroso do tempo de exposição e proteção ocular obrigatória.
- Uso indevido causa eritema, queimadura e lesão cutânea, sem que o utente sinta aviso prévio (ao contrário do calor).
⚠️ O UV nunca se aplica por iniciativa do técnico. É sempre um protocolo definido pelo profissional de saúde, com tempo e distância exatos.
3. Calor húmido
O calor húmido transmite-se por um meio que retém humidade em contacto com a pele: compressas, hidrocolectores, ou a própria água termal. À mesma temperatura sentida, penetra mais profundamente do que o calor seco.
Hidrocolectores (hot packs)
São sacos de gel de sílica, mantidos num tanque térmico a 70-80ºC, aplicados sempre envolvidos em várias camadas de toalha, nunca diretamente sobre a pele.
Procedimento típico:
- Retirar o hidrocolector do tanque com a pinça própria.
- Envolver em toalha, com camadas suficientes para isolar o calor direto.
- Aplicar sobre a zona, verificando de imediato o conforto do utente.
- Perguntar pelo conforto e observar a pele aos 5 minutos e, depois, periodicamente até ao fim da sessão (15 a 20 minutos).
- Retirar, avaliar a pele, devolver o hidrocolector ao tanque.
Exemplo resolvido · calcular o isolamento necessário
Um hidrocolector sai do tanque a cerca de 75ºC. A pele humana tolera, em contacto prolongado com um objeto quente, temperaturas até cerca de 45ºC sem lesão, e mesmo assim só por curtos períodos.
- A diferença entre 75ºC e o limite tolerável exige um isolamento eficaz: normalmente 6 a 8 camadas de toalha seca (uma capa própria de hidrocolector conta como 2 a 3 camadas), nunca aplicação direta.
- O técnico testa o calor no seu próprio antebraço antes de o aplicar ao utente, como verificação prática rápida.
- Se o utente referir "está a arder" ou "está muito quente" a qualquer momento, retira-se ou reforça-se o isolamento de imediato.
O raciocínio aplica-se da mesma forma à parafina e ao parafango: a temperatura do meio é sempre muito superior ao limite confortável de contacto direto, e é o isolamento e o controlo de tempo que tornam o tratamento seguro.
4. Parafina e parafango
Banho de parafina
O banho de parafina aplica-se sobretudo em mãos e pés, através de imersão em parafina líquida fundida, mantida numa parafineira com termostato a cerca de 45-55ºC.
Procedimento passo a passo:
- Lavar e secar bem a zona a tratar (a água residual altera a aderência da parafina).
- Imergir a mão ou o pé 6 a 10 vezes, deixando solidificar uma fina camada entre cada imersão.
- Envolver em saco plástico e depois em toalha, para isolar o calor.
- Manter 15 a 20 minutos, com vigilância periódica.
- Retirar a parafina solidificada, que sai numa só peça, em forma de luva.
- Avaliar a pele e registar o procedimento.
Indicações típicas: artrose das mãos, rigidez articular, preparação para cinesiterapia da mão.
Parafango
O parafango combina parafina com lama termal (fango), fundido em forno próprio (que o aquece e esteriliza a temperaturas mais altas) e aplicado a cerca de 45-50ºC; aplica-se em grandes articulações e na coluna, em placas ou por pincelagem direta.
| Característica | Parafina | Parafango |
|---|---|---|
| Zona típica | mãos e pés | grandes articulações, coluna |
| Composição | parafina pura | parafina + lama termal |
| Modo de aplicação | imersão | placas ou pincelagem |
| Tempo típico | 15-20 minutos | 20-30 minutos |
Depois de aplicado, o parafango cobre-se com material isolante (plástico e manta) para reter o calor durante toda a sessão. Ambos os equipamentos, parafineira e forno de parafango, têm funções distintas e nunca se substituem um pelo outro.
5. Técnicas e tratamentos de termoterapia
O técnico de termalismo deve conhecer o conjunto de técnicas disponíveis e saber quando cada uma é mais adequada, sempre dentro da prescrição do profissional de saúde.
Quadro-síntese das técnicas
| Técnica | Tipo de calor | Zona típica | Duração |
|---|---|---|---|
| Infravermelhos | seco | zonas amplas, superficiais | 15-20 min |
| Ultravioleta | radiação não térmica (protocolo específico) | conforme prescrição | conforme prescrição |
| Compressas / hidrocolectores | húmido | localizada | 15-20 min |
| Parafina | húmido/oleoso | mãos e pés | 15-20 min |
| Parafango | húmido/oleoso | grandes articulações, coluna | 20-30 min |
Escolher a técnica
A escolha cruza quatro fatores: a zona a tratar, o objetivo (relaxamento, preparação, alívio de dor), a tolerância do utente, e sobretudo a prescrição do profissional de saúde. O técnico executa segundo essa prescrição; não a substitui por decisão própria, mesmo perante um pedido direto do utente.
6. Indicações e contraindicações
Quando a termoterapia está indicada
- Contraturas e tensão muscular, incluindo cervicalgias e lombalgias mecânicas.
- Rigidez articular associada a processos degenerativos como a artrose.
- Preparação de tecidos antes de massagem, cinesiterapia ou mobilização.
- Relaxamento geral e redução da tensão muscular acumulada.
- Alívio sintomático de dor musculoesquelética não inflamatória aguda.
Quando está contraindicada
- Processos inflamatórios ou infeciosos agudos na zona a tratar.
- Feridas abertas, queimaduras recentes ou lesões cutâneas ativas.
- Alterações da sensibilidade térmica (neuropatias, diabetes descompensada).
- Insuficiência arterial periférica, trombose venosa profunda ou tromboflebite.
- Gravidez, em aplicações de calor na zona abdominal ou lombar e em calor geral.
- Doença cardiovascular descompensada (insuficiência cardíaca, hipertensão não controlada), em aplicações de grandes áreas.
- Febre ou doença aguda em curso.
- Neoplasias na zona a tratar, salvo indicação médica expressa.
- Hemorragia ativa ou risco hemorrágico relevante.
Perante qualquer dúvida sobre uma possível contraindicação, a regra é simples: não aplicar e perguntar. O custo de perguntar é mínimo; o custo de uma queimadura ou de agravar uma condição de saúde é elevado.
7. Reações adversas e procedimentos de emergência
Mesmo com indicação correta, uma sessão de termoterapia pode gerar reações que exigem intervenção imediata.
| Reação | Sinais | Ação do técnico |
|---|---|---|
| Eritema excessivo | vermelhidão intensa, persistente | interromper, arrefecer a zona, avaliar |
| Queimadura | dor viva, bolha, pele lesada | interromper de imediato, avaliar, encaminhar |
| Tontura ou mal-estar | palidez, suor frio, queixa de tontura | interromper, posicionar em segurança, pedir ajuda |
| Desidratação | sede intensa, mal-estar geral | hidratar, encurtar ou interromper a sessão |
Perante qualquer sinal de alarme, o técnico interrompe de imediato o tratamento, avalia o estado do utente e aciona o procedimento de emergência da estância, recorrendo ao 112/INEM sempre que a situação o exigir. A rapidez de resposta nos primeiros minutos é o que mais influencia o desfecho.
Exemplo resolvido · avaliar e agir perante um sinal de alarme
Durante uma sessão de parafango lombar, o utente refere subitamente sensação de tontura e o técnico nota palidez.
- Interromper de imediato a aplicação, retirando o material térmico da zona.
- Posicionar o utente em segurança, por exemplo deitado com as pernas ligeiramente elevadas.
- Avaliar o estado geral: consciência, respiração, cor da pele.
- Pedir ajuda a um colega ou ao responsável de turno; se a situação não melhorar rapidamente ou agravar, contactar o 112.
- Registar o incidente, com hora, sinais observados e ações tomadas, na ficha do utente.
Este é o modelo de raciocínio para qualquer reação adversa: interromper, posicionar, avaliar, pedir ajuda, registar.
8. Organização do espaço de trabalho e ergonomia
A sala de tratamentos
Antes de o utente chegar, a sala deve estar preparada: temperatura ambiente agradável, marquesa ou cadeira pronta com lençol limpo, equipamento de termoterapia testado e à temperatura de trabalho, material de higiene e descartáveis ao alcance, e privacidade garantida (biombo, porta ou cortina).
Ergonomia do técnico
A repetição diária de procedimentos de termoterapia exige cuidado com a própria postura:
- Ajustar a altura da marquesa à tarefa, evitando curvar excessivamente a coluna.
- Aproximar-se do utente em vez de esticar o braço para alcançar zonas distantes.
- Distribuir o peso do corpo e evitar rotações bruscas do tronco.
- Organizar o material dentro do alcance, reduzindo deslocações desnecessárias.
- Alternar tarefas e fazer pausas ao longo do turno.
A ergonomia não é um detalhe de conforto: é o que permite continuar a exercer a profissão sem lesões acumuladas ao longo dos anos.
9. Material, higiene e manutenção do equipamento
Caracterização do equipamento
| Equipamento | Função | Temperatura típica |
|---|---|---|
| Parafineira | fundir e manter parafina líquida | 45-55ºC |
| Forno de parafango | fundir, esterilizar e manter o parafango | aplicação a 45-50ºC |
| Lâmpada de infravermelhos | calor seco por radiação | regulável, sem contacto |
| Lâmpada de UV | protocolos dermatológicos específicos | conforme prescrição |
| Tanque de hidrocolectores | manter hot packs à temperatura | 70-80ºC (água) |
O técnico consulta sempre o manual do fabricante de cada equipamento antes de o operar, sobretudo quanto a limites de temperatura e procedimentos de manutenção.
Higiene e manutenção
- Antes de cada utente: verificar limpeza e temperatura do equipamento.
- Depois de cada utente: limpar e desinfetar superfícies de contacto, trocar descartáveis, repor material consumido.
- Manutenção periódica: verificar termostatos, filtrar a parafina, limpar tanques, seguindo as instruções do fabricante.
- Registo de manutenção: anotar verificações e intervenções, conforme as normas de qualidade do estabelecimento.
Saltar a higiene entre utentes, mesmo "só desta vez", transforma o equipamento num risco direto para o utente seguinte.
10. Protocolo de instalação e preparação do utente
Instalar bem o utente é tão importante como executar bem a técnica: um utente mal preparado tem mais probabilidade de desconforto e de não avisar cedo se algo correr mal.
Passos do protocolo de instalação
- Acolher o utente e confirmar identidade e o tratamento prescrito.
- Preencher a ficha de dados pessoais e confirmar informação clínica relevante.
- Explicar o tratamento: o que vai sentir, a duração, e como comunicar desconforto durante a sessão.
- Posicionar o utente de forma adequada à zona a tratar, com conforto e privacidade.
- Confirmar verbalmente indicações e contraindicações antes de iniciar.
Exemplo resolvido · instalar um utente para banho de parafina
Um utente chega com prescrição de banho de parafina nas mãos, por artrose.
- Confirmar o nome e a prescrição na ficha.
- Perguntar sobre feridas, alergias ou sensibilidade alterada nas mãos.
- Explicar em linguagem simples: "vamos mergulhar as suas mãos várias vezes em parafina quente, depois envolvemos em plástico e toalha durante cerca de 20 minutos; se sentir demasiado calor, avise de imediato".
- Sentar o utente confortavelmente, com apoio para os braços.
- Confirmar, mais uma vez, que não há feridas nem alterações de sensibilidade nas mãos antes de começar.
11. Executar o tratamento: procedimento passo a passo
Este é o núcleo prático da UC: realizar um tratamento de termoterapia com autonomia, do início ao fim.
- Confirmar a prescrição e o consentimento do utente.
- Posicionar o utente e a zona a tratar.
- Testar a temperatura do meio (parafina, hot pack, distância da lâmpada) antes do contacto com a pele.
- Aplicar a técnica, cronometrando o tempo previsto.
- Vigiar o utente durante toda a sessão: cor e temperatura da pele, conforto, sinais de alarme.
- Terminar no tempo previsto, retirando o material com cuidado.
- Avaliar a pele e o estado geral do utente no final.
- Registar o procedimento realizado e quaisquer ocorrências.
Auxiliar o técnico superior
Em muitos casos, a termoterapia é preparação para uma intervenção do técnico superior de terapias manuais e/ou de reabilitação. O técnico de termalismo prepara o utente e o equipamento, aplica a termoterapia como fase inicial, apoia durante a intervenção seguinte segundo as indicações recebidas, e regista o que foi feito, garantindo continuidade no processo de tratamento do utente. Esta colaboração é trabalho em equipa multidisciplinar, não uma função menor.
12. Avaliação do utente, comunicação e registo
Avaliar antes, durante e depois
| Momento | O que avaliar |
|---|---|
| Antes | prescrição, indicações/contraindicações, estado da pele, expectativas do utente |
| Durante | conforto, cor e temperatura da pele, sinais de alarme |
| Depois | estado da pele, resposta ao tratamento, bem-estar geral |
A avaliação acompanha toda a sessão, não apenas o início e o fim.
Comunicar com o utente
A comunicação usa linguagem clara e acessível, adaptada à idade e condição do utente, em português e, quando necessário, numa língua estrangeira, dado que muitas estâncias termais recebem utentes internacionais. Uma postura assertiva e empática informa com clareza sem gerar ansiedade, e confirma sempre que o utente compreendeu o que vai acontecer.
Registo de atividades e ocorrências
Cada tratamento realizado, incidente, reação ou observação relevante fica documentado no suporte próprio da estância. Este registo garante continuidade entre técnicos e turnos, e serve de prova em caso de dúvida ou auditoria de qualidade. Regista-se sempre, não só quando algo corre mal.
13. Reclamações, ética e normas de qualidade
Lidar com reclamações
Perante uma reclamação, o técnico ouve sem interromper, regista os factos com rigor, e resolve dentro das suas competências ou encaminha para quem de direito. Nunca ignora ou minimiza uma queixa, mesmo que pareça pouco relevante à primeira vista.
Ética em saúde
O trabalho em contexto de saúde implica princípios claros de confidencialidade (a informação clínica e pessoal do utente não se partilha fora do contexto profissional), respeito pela privacidade durante o tratamento, respeito pelas diferenças individuais, e consentimento informado antes de qualquer intervenção. Estas orientações seguem os princípios gerais definidos pela DGS para a prática em contexto de saúde.
Normas, segurança e qualidade
O trabalho enquadra-se em várias camadas de normas: as regras internas do próprio estabelecimento, as normas de segurança e saúde no trabalho que protegem o técnico, as normas de qualidade que garantem consistência e melhoria contínua do serviço, e o regime jurídico do termalismo (Decreto-Lei n.º 142/2004 e alterações), que enquadra legalmente a atividade das estâncias termais em Portugal. Cumprir estas normas é o que torna o tratamento seguro, repetível e de confiança.
Erros comuns
- Aplicar calor sem testar antes a temperatura do meio na pele, causando queimaduras evitáveis.
- Confundir parafina com parafango, usando o equipamento ou a zona errados.
- Reduzir o isolamento de um hidrocolector "só um bocadinho" a meio da sessão.
- Saltar a explicação do procedimento ao utente por já ser "a segunda vez que vem".
- Continuar uma sessão apesar de um sinal de alarme, para "terminar o que estava previsto".
- Ignorar alterações de sensibilidade térmica (ex.: diabetes com neuropatia) por o utente não se ter queixado.
- Saltar a higiene do equipamento entre utentes por falta de tempo.
- Registar só os incidentes, esquecendo o registo de rotina dos tratamentos sem intercorrências.
- Alterar a técnica, o tempo ou a temperatura por pedido do utente, sem validar com o profissional de saúde.
Glossário
- Termoterapia: aplicação terapêutica de calor sobre o corpo.
- Calor seco: calor aplicado sem meio húmido em contacto direto com a pele (por exemplo, infravermelhos; o UV surge neste grupo no referencial, mas não produz calor).
- Calor húmido: calor aplicado através de um meio que retém humidade (compressas, parafina, água termal).
- Vasodilatação: dilatação dos vasos sanguíneos, com aumento do fluxo de sangue local.
- Parafineira: equipamento que funde e mantém parafina líquida a temperatura controlada.
- Parafango: mistura de parafina com lama termal, aplicada em grandes articulações e coluna.
- Hidrocolector (hot pack): saco de gel de sílica aquecido em água, usado em calor húmido localizado.
- Eritema: vermelhidão da pele, sinal de reação a estímulo térmico excessivo.
- Contraindicação: situação em que um tratamento não deve ser aplicado.
- Prescrição: indicação, feita pelo profissional de saúde, do tratamento, tempo e temperatura a aplicar.
- Estância termal: estabelecimento licenciado para exploração terapêutica de recursos hidrominerais.
- DGS: Direção-Geral da Saúde, entidade de referência para orientações de saúde em Portugal.
Síntese
A termoterapia aplica calor, seco ou húmido, com efeitos fisiológicos concretos: vasodilatação, relaxamento muscular, efeito analgésico e maior elasticidade dos tecidos. Cada técnica, infravermelhos, ultravioleta, compressas, parafina ou parafango, tem zona, tempo e temperatura próprios, sempre dentro da prescrição do profissional de saúde. O ciclo completo de um tratamento segue sempre a mesma lógica: preparar o espaço e o equipamento, instalar o utente com protocolo e informação, executar com autonomia e vigilância constante, avaliar antes, durante e depois, e registar tudo o que aconteceu. Em torno deste ciclo estão a ergonomia do técnico, a higiene rigorosa do equipamento, a comunicação clara com o utente, a gestão de reclamações, e o respeito pela ética em saúde e pelas normas de segurança e qualidade que enquadram a profissão.
Exercícios resolvidos
1. Um utente com diabetes descompensada e neuropatia periférica nos pés pede um banho de parafina nos pés. Aplicas o tratamento?
Resolução: não. A alteração da sensibilidade térmica associada à neuropatia é uma contraindicação relativa importante, porque o utente pode não sentir o calor excessivo a tempo de avisar. A decisão correta é não aplicar sem validação prévia do profissional de saúde responsável.
2. Ordena corretamente os passos de execução de um tratamento de termoterapia: (a) vigiar durante a sessão, (b) testar a temperatura, (c) registar, (d) confirmar prescrição, (e) posicionar o utente, (f) avaliar a pele no final.
Resolução: a ordem correta é d, e, b, a, f, c: confirmar a prescrição, posicionar o utente, testar a temperatura antes do contacto, vigiar durante a sessão, avaliar a pele no final, e só depois registar.
3. Qual a diferença principal entre parafina e parafango, e em que zonas se aplica cada um?
Resolução: a parafina é parafina pura, aplicada por imersão em mãos e pés. O parafango combina parafina com lama termal, aplicado em placas ou por pincelagem em grandes articulações e na coluna. A escolha depende da zona a tratar e da prescrição.
4. Durante uma sessão de infravermelhos, o utente refere tontura súbita e o técnico nota palidez. Qual a sequência de ação correta?
Resolução: interromper de imediato o tratamento, posicionar o utente em segurança, avaliar o estado geral, pedir ajuda a um colega ou responsável e, se necessário, contactar o 112/INEM, e por fim registar o incidente com rigor.
5. Um utente reclama de ter sentido demasiado calor numa sessão anterior de parafango. Como deve o técnico responder?
Resolução: ouvir sem interromper, registar os factos com precisão, e resolver dentro das suas competências (por exemplo, ajustar o isolamento em sessões futuras) ou encaminhar a situação para o responsável, nunca ignorando a queixa.
6. Porque é que o calor húmido, à mesma temperatura sentida, tem efeito de penetração diferente do calor seco?
Resolução: o meio húmido transmite calor de forma mais eficiente para os tecidos, penetrando mais profundamente do que o calor seco à mesma temperatura percebida, o que o torna mais indicado para contraturas musculares e rigidez articular mais instalada.
7. Que informação é obrigatório confirmar antes de iniciar qualquer tratamento de termoterapia?
Resolução: identidade do utente, tratamento prescrito, indicações e contraindicações relevantes, e consentimento informado após explicação clara do procedimento, incluindo o que o utente vai sentir e como comunicar desconforto.