Sebenta · Adotar práticas de gestão da qualidade no setor da saúde (UC03505)
- Introdução
- 1. O que é a qualidade e porque importa na saúde
- 2. Enquadramento legal e referenciais da qualidade
- 3. Princípios do sistema de gestão da qualidade
- 4. Abordagem por processos e o ciclo PDCA
- 5. Ferramentas da qualidade
- 6. Procedimentos e manuais da qualidade
- 7. Metrologia e equipamentos de medição
- 8. O produto não conforme e as ações corretivas
- 9. Melhoria contínua e gestão do risco
- 10. Auditorias da qualidade
- 11. Monitorização de processos, produtos e serviços
- 12. Satisfação do utente
- 13. Impacto e implementação da qualidade em cada contexto
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a adotar práticas de gestão da qualidade em contextos de saúde: farmácia comunitária, clínica ou consultório dentário, termas, hospitais, USF/UCC, RNCCI, ERPI e outras unidades de cuidados. É uma unidade curricular partilhada por vários cursos técnicos de saúde, porque o problema é sempre o mesmo: garantir que o serviço prestado a um utente vulnerável é seguro, consistente e melhora ao longo do tempo.
O percurso segue a lógica de um sistema de gestão da qualidade real: primeiro o enquadramento (o que é qualidade, quem regula o setor), depois os princípios e metodologias (a norma ISO 9001, o ciclo PDCA), as ferramentas para diagnosticar e priorizar problemas, a documentação que sustenta o sistema, a metrologia que garante medições fiáveis, o tratamento de não conformidades, as auditorias, e por fim a monitorização e a satisfação do utente, que fecham o ciclo de melhoria contínua.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar o enquadramento legal, os princípios, a metodologia e os referenciais da qualidade aplicados ao setor da saúde; aplicar os requisitos das normas da qualidade aplicáveis ao setor; e apoiar na monitorização e avaliação de processos, produtos e serviços do setor da saúde.
1. O que é a qualidade e porque importa na saúde
Qualidade é o grau em que um conjunto de características de um produto, serviço ou processo cumpre os requisitos definidos, sejam eles do utente, da lei ou da própria organização. Não é um conceito abstrato: numa farmácia, numa clínica dentária ou numa unidade de termalismo, a qualidade traduz-se em decisões concretas, uma dose certa, um instrumento devidamente esterilizado, uma água de tratamento dentro dos parâmetros exigidos.
Um sistema de gestão da qualidade (SGQ) é o conjunto de política, processos, procedimentos e registos que uma organização usa para garantir essa qualidade de forma repetível, e não dependente da sorte ou da experiência individual de cada profissional. O SGQ existe para que o resultado certo aconteça sempre, mesmo quando muda a pessoa que está de serviço.
Numa farmácia sem sistema, a validação de uma receita depende só da atenção de quem está ao balcão nesse momento. Com sistema, existe um procedimento escrito, uma lista de verificação e um registo, e o resultado não depende de quem está de turno.
O setor da saúde tem características que tornam a qualidade especialmente crítica: lida com pessoas em situação de vulnerabilidade, envolve produtos e procedimentos com risco direto para a saúde, e está sujeito a um enquadramento legal denso, que se estuda a seguir.
2. Enquadramento legal e referenciais da qualidade
Em Portugal, o enquadramento da qualidade em saúde resulta da ação de várias entidades, cada uma com um papel distinto:
| Entidade | Papel principal |
|---|---|
| IPQ (Instituto Português da Qualidade) | organismo nacional de normalização (publica as normas portuguesas NP EN ISO) e instituição nacional de metrologia, coordena o Sistema Português da Qualidade |
| IPAC (Instituto Português de Acreditação) | acredita entidades certificadoras, laboratórios (incluindo laboratórios clínicos) e organismos de inspeção |
| DGS (Direção-Geral da Saúde) | emite normas e orientações clínicas, coordena a qualidade e a segurança dos doentes e conduz o modelo nacional de acreditação em saúde |
| ERS (Entidade Reguladora da Saúde) | regula os prestadores de cuidados de saúde: registo obrigatório, acesso, qualidade, direitos dos utentes e reclamações |
| Ordem dos Farmacêuticos | define as Boas Práticas Farmacêuticas para a farmácia comunitária |
| INFARMED | autoridade nacional do medicamento e dos produtos de saúde |
Estas entidades não competem entre si, complementam-se: o IPQ normaliza, o IPAC acredita quem certifica, inspeciona ou ensaia, a DGS e a ERS regulam a prática clínica e o acesso, e os organismos setoriais (Ordem dos Farmacêuticos, INFARMED) definem regras específicas da sua área.
A norma ISO 9001
A referência internacional em sistemas de gestão da qualidade é a ISO 9001, adotada em Portugal como NP EN ISO 9001. Define requisitos gerais, aplicáveis a qualquer organização, para demonstrar capacidade de fornecer produtos e serviços que cumprem consistentemente os requisitos do cliente e da regulamentação aplicável.
A norma organiza-se em torno de temas comuns a várias normas de gestão: o contexto da organização, a liderança e o compromisso da gestão, o planeamento, o suporte (recursos, competências, documentação), a operacionalização dos processos, a avaliação de desempenho, e a melhoria. Uma organização pode ser certificada por uma entidade de certificação acreditada pelo IPAC, o que atesta publicamente que cumpre a norma. Atenção à diferença: a certificação atesta que uma organização cumpre uma norma de gestão (feita por uma entidade certificadora); a acreditação, feita pelo IPAC, reconhece a competência técnica de quem certifica, inspeciona ou ensaia (por exemplo, um laboratório de análises clínicas acreditado segundo a ISO 15189).
A versão de 2015 da norma trouxe mudanças que se mantêm na revisão seguinte (prevista para 2026, com um período de transição de três anos): fala de informação documentada em vez de exigir um manual da qualidade ou procedimentos obrigatórios, introduz o pensamento baseado no risco, e deixou de exigir um representante da gestão.
Para além da ISO 9001, o setor da saúde tem referenciais próprios. Para unidades do SNS e dos setores privado e social, a DGS conduz o modelo nacional de acreditação em saúde (modelo ACSA, de adesão voluntária), e o Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2021-2026 define objetivos de segurança para todas as unidades. Os laboratórios clínicos acreditam-se pela ISO 15189.
Não é preciso decorar a estrutura completa da norma. O que importa para o dia a dia é perceber a lógica: definir o que se faz, fazê-lo de forma consistente, verificar que resultou, e melhorar. É exatamente o que o ciclo PDCA, estudado adiante, formaliza.
3. Princípios do sistema de gestão da qualidade
A gestão da qualidade moderna assenta em sete princípios, definidos na norma ISO 9000 e comuns a diferentes setores e normas:
- Foco no cliente: no setor da saúde, o utente é sempre a prioridade, mas há outros interlocutores, como o prescritor, o fornecedor ou a entidade reguladora.
- Liderança: quem gere tem de dar o exemplo e disponibilizar os recursos necessários à qualidade.
- Comprometimento das pessoas (envolvimento): quem executa o trabalho no terreno participa ativamente na identificação de problemas e na melhoria.
- Abordagem por processos: ver o trabalho como uma cadeia de atividades ligadas, não como tarefas isoladas.
- Melhoria (contínua): o sistema nunca se dá por terminado, revê-se sempre.
- Tomada de decisão baseada em evidências: decidir com dados e registos, não com impressões.
- Gestão das relações: com fornecedores, parceiros e entidades externas.
Etapas de implementação de um sistema
Implementar um sistema de gestão da qualidade segue etapas concretas: diagnóstico da situação atual, definição da política e dos objetivos da qualidade, desenho dos processos e da documentação de suporte, formação das equipas, implementação com registo da prática real, verificação por auditoria, e melhoria contínua a partir do que se aprende. Identificar estes princípios, objetivos e etapas é uma aptidão explícita do referencial desta unidade.
Uma clínica dentária que abre agora começa pelo diagnóstico: como se faz hoje a esterilização, a marcação de consultas, o arquivo clínico. Só depois define política, escreve procedimentos e forma a equipa. Implementar sem diagnosticar produz procedimentos que não correspondem à realidade do posto de trabalho.
4. Abordagem por processos e o ciclo PDCA
Um processo transforma entradas em saídas através de um conjunto de atividades relacionadas. Numa farmácia, o processo de dispensa de medicamento tem como entrada a receita médica, como atividades a validação, a preparação e o aconselhamento, e como saída o medicamento entregue com informação adequada ao utente. Um processo bem gerido tem sempre indicadores que dizem se está a funcionar bem: tempo, taxa de erro, satisfação.
A metodologia central da melhoria contínua é o ciclo PDCA (plan, do, check, act):
| Fase | Sigla | Conteúdo |
|---|---|---|
| Planear | Plan | analisar o problema, definir o objetivo e desenhar um plano de ação |
| Executar | Do | pôr o plano em prática, se possível a uma escala pequena de teste |
| Verificar | Check | medir os resultados obtidos e compará-los com o objetivo definido |
| Agir | Act | normalizar o que resultou, ou corrigir o plano e recomeçar o ciclo |
Exemplo resolvido · PDCA numa farmácia comunitária
Problema: o tempo médio de atendimento ao balcão está acima do que os utentes consideram aceitável.
- Plan: definir o objetivo de reduzir o tempo médio de espera para menos de 8 minutos, e planear uma alteração ao sistema de senhas e à disposição da fila.
- Do: implementar a alteração durante duas semanas, como teste, numa das horas de maior movimento.
- Check: medir o tempo médio de espera nas duas semanas de teste e comparar com o período anterior.
- Act: se o tempo baixou para o objetivo, adotar a mudança em definitivo e alargar a todo o horário; se não baixou o suficiente, ajustar o plano (por exemplo, reforçar o balcão à hora de maior afluência) e repetir o ciclo.
Um erro frequente é confundir PDCA com "fazer e ver o que dá". Sem planeamento prévio nem verificação de resultados com dados, não há PDCA, há apenas tentativa e erro sem aprendizagem estruturada.
5. Ferramentas da qualidade
Para diagnosticar problemas e priorizar ações, o sistema de gestão da qualidade recorre a um conjunto de ferramentas simples mas eficazes:
- Fluxograma: representa o processo passo a passo, tornando visível onde um processo falha ou se perde tempo.
- Brainstorming: gera o maior número possível de ideias em grupo, sem as julgar de imediato, para depois selecionar as mais promissoras.
- Diagrama de causa e efeito (Ishikawa): organiza as possíveis causas de um problema por categorias, tipicamente os 6M: mão de obra, método, material, máquina, meio ambiente e medição.
- Técnica dos 5 porquês: pergunta "porquê" sucessivamente, geralmente cinco vezes, até chegar à causa raiz e não apenas ao sintoma mais visível.
- Folha de verificação (checklist): regista ocorrências de forma simples e sistemática, ao longo do tempo.
- Diagrama de Pareto: ordena as causas de um problema pela sua frequência, evidenciando que uma minoria de causas costuma explicar a maioria das ocorrências.
- Histograma: mostra a distribuição de um conjunto de valores, como tempos de espera ou pesos.
- Gráfico de controlo: acompanha um indicador ao longo do tempo, sinalizando variações fora do padrão habitual.
Exemplo resolvido · Pareto de reclamações numa clínica dentária
Num trimestre, uma clínica dentária registou 50 reclamações: 28 sobre atrasos na consulta, 12 sobre falta de clareza na informação sobre custos, 6 sobre a limpeza da sala de espera, e 4 outras dispersas.
| Causa | Ocorrências | % do total | % acumulada |
|---|---|---|---|
| Atrasos na consulta | 28 | 56% | 56% |
| Falta de clareza nos custos | 12 | 24% | 80% |
| Limpeza da sala de espera | 6 | 12% | 92% |
| Outras | 4 | 8% | 100% |
As duas primeiras causas já explicam 80% das reclamações. É por elas que a clínica deve começar a agir, em vez de dispersar esforço por todas as causas ao mesmo tempo.
6. Procedimentos e manuais da qualidade
A documentação de um sistema de gestão da qualidade organiza-se tradicionalmente numa hierarquia, do mais geral ao mais operacional:
- Manual da Qualidade: descreve a política, o âmbito e a estrutura geral do sistema.
- Procedimentos: definem quem faz o quê, quando e como, para cada processo relevante.
- Instruções de trabalho: detalham uma tarefa técnica concreta, como calibrar um equipamento específico.
- Impressos e folhas de registo: são o suporte onde fica a evidência de que a atividade foi realizada.
Desde a versão de 2015, a ISO 9001 já não obriga a ter um Manual da Qualidade nem um número fixo de procedimentos: exige a informação documentada necessária à eficácia do sistema, e cada organização decide a forma. Muitas unidades de saúde mantêm o manual e esta hierarquia, porque continuam a ser uma forma clara de organizar a documentação.
O procedimento "receção de encomendas" de uma farmácia descreve os passos a seguir (conferir quantidades, verificar prazos de validade, confirmar condições de transporte). O impresso de conferência de encomenda é o registo concreto, preenchido a cada entrega, que prova que o procedimento foi cumprido nesse dia.
Aplicar as normas que regulam os requisitos da documentação, física e digital, é uma aptidão explícita do referencial. As regras essenciais incluem:
- Identificação única: código, título, versão e data em cada documento.
- Controlo de versões: só a versão em vigor está disponível para uso; as versões antigas ficam arquivadas mas claramente identificadas como obsoletas.
- Aprovação: um responsável valida o documento antes de este entrar em uso.
- Confidencialidade: dados de utentes seguem regras de acesso restrito, tanto em papel como em suporte digital.
- Retenção: prazo mínimo de guarda de cada tipo de registo, definido internamente ou por obrigação legal.
7. Metrologia e equipamentos de medição
A metrologia é a ciência da medição, e no setor da saúde uma medição incorreta pode ter consequências diretas sobre a segurança do utente. Uma balança de farmácia mal calibrada afeta a dose de um medicamento manipulado; um termómetro descalibrado de uma unidade de cuidados pode falsear um diagnóstico.
Dois conceitos centrais:
- Calibração: comparação do equipamento com um padrão de referência, para determinar o seu erro face a esse padrão.
- Verificação: confirmação periódica de que o equipamento continua dentro dos limites de erro aceitáveis.
Alguns instrumentos estão ainda sujeitos a controlo metrológico legal, uma obrigação imposta pelo Estado e coordenada pelo IPQ, com verificações feitas por organismos reconhecidos. É o caso, por exemplo, das balanças usadas na preparação de medicamentos em farmácia. A calibração interna não substitui essa verificação legal.
A rastreabilidade metrológica é a cadeia de comparações que liga uma medição do dia a dia a um padrão nacional ou internacional reconhecido, garantindo confiança no valor obtido.
Equipamentos habituais no setor da saúde
| Equipamento | Contexto típico |
|---|---|
| Balanças | farmácia, manipulação de medicamentos |
| Termómetros e termohigrómetros | conservação de medicamentos, frigoríficos |
| Esfigmomanómetros | consultas, rastreios de tensão arterial |
| Sondas e termómetros clínicos | consultórios, unidades de cuidados |
| Autoclaves (verificação de ciclo) | esterilização de instrumentos em clínica dentária |
Um erro comum é continuar a usar um equipamento com a calibração fora do prazo, "só desta vez". Um equipamento fora dos limites deve ser retirado de serviço até ser corrigido ou substituído, mantendo sempre um registo de calibração atualizado por equipamento.
8. O produto não conforme e as ações corretivas
Uma não conformidade é o não cumprimento de um requisito, de um produto, de um serviço ou de um processo. O tratamento do Produto Não Conforme (PNC) é o conjunto de passos formais para lidar com essa situação, seja um medicamento fora do prazo de validade, uma embalagem danificada, um resultado de análise fora dos limites, ou um procedimento que não foi seguido.
Etapas do tratamento do PNC
- Identificar e isolar o produto ou serviço não conforme, impedindo que avance no processo normal.
- Registar a ocorrência: o que aconteceu, quando, onde e quem detetou.
- Avaliar o impacto: chegou a algum utente? Existe risco imediato a mitigar?
- Decidir o destino: devolução ao fornecedor, destruição, correção, ou uso sob concessão formal.
- Analisar a causa e desencadear uma ação corretiva quando necessário.
Verificar e reportar a não conformidade de um produto é uma responsabilidade de qualquer profissional que a detete, não só de quem gere formalmente a qualidade.
Ações corretivas e preventivas
Uma ação corretiva elimina a causa de uma não conformidade já ocorrida; uma ação preventiva atua sobre uma causa potencial, antes de o problema acontecer. Desde a versão de 2015 da ISO 9001, a ação preventiva deixou de ser um requisito autónomo: a prevenção faz-se através do pensamento baseado no risco (identificar riscos e oportunidades e planear ações para lhes responder), mas o conceito continua útil na prática. É essencial distinguir a correção do caso concreto (por exemplo, substituir o produto danificado) da ação corretiva sobre a causa (por exemplo, mudar as condições de transporte que danificam as embalagens).
Uma farmácia recebe uma caixa de um dispositivo médico com o selo de garantia violado. Isola a caixa numa zona identificada, regista a ocorrência com fotografia, confirma que não chegou a nenhum utente, contacta o fornecedor para devolução, e analisa se o mesmo tipo de defeito já ocorreu noutras entregas do fornecedor, para decidir se é preciso uma ação corretiva junto dele.
O padrão para analisar problemas e propor ações corretivas ou preventivas segue sempre a mesma lógica: descrever o problema com dados concretos, identificar a causa raiz com uma ferramenta adequada, definir a ação com prazo e responsável, implementar, e verificar a eficácia depois de um período razoável antes de dar o caso por encerrado.
9. Melhoria contínua e gestão do risco
A melhoria contínua é a procura permanente de fazer melhor, mesmo quando nada está formalmente errado. Alimenta-se de indicadores de desempenho, de não conformidades e ações corretivas, de sugestões de quem executa o trabalho, de auditorias internas e externas, e do feedback direto do utente.
Um critério de desempenho explícito desta UC é garantir a melhoria contínua e a perceção do risco. Perceber o risco significa reconhecer, antes de agir, o que pode correr mal e qual seria a sua gravidade:
- Identificar perigos possíveis num processo, como contaminação cruzada, troca de medicamento ou queda de um utente.
- Estimar a probabilidade e a gravidade de cada risco identificado.
- Priorizar os riscos mais graves e mais prováveis.
- Mitigar com barreiras concretas: procedimentos claros, equipamento de proteção, dupla verificação de tarefas críticas.
Numa unidade termal, o risco de contaminação da água exige controlo periódico da qualidade da água de tratamento, registo dos resultados e um plano de ação claro caso algum parâmetro saia dos limites definidos.
10. Auditorias da qualidade
Uma auditoria é um exame sistemático e independente que verifica se a prática real corresponde ao que está definido no sistema de gestão da qualidade. Cumprir as fases, os objetivos e as bases comportamentais da auditoria é um critério de desempenho explícito do referencial.
As fases da auditoria
- Planeamento: definição do âmbito, dos critérios e do calendário da auditoria.
- Preparação: reunião da documentação de referência, procedimentos e normas aplicáveis.
- Execução: observação do trabalho, entrevistas a profissionais, verificação de registos.
- Relato: documentação das constatações, incluindo conformidades e não conformidades encontradas.
- Seguimento: acompanhamento das ações corretivas até estarem implementadas e comprovadamente eficazes.
Bases comportamentais da auditoria
A confiança nos resultados de uma auditoria depende de princípios de conduta: integridade, apresentação imparcial (relatar com verdade, mesmo quando os resultados são desfavoráveis), devido cuidado profissional, confidencialidade, independência, abordagem baseada em evidências, com conclusões sustentadas em factos verificáveis, e abordagem baseada no risco, concentrando a auditoria no que é mais importante. São os sete princípios da norma ISO 19011, que dá as diretrizes para auditar sistemas de gestão.
Ser auditado não é ser acusado. Uma auditoria bem conduzida é uma oportunidade de melhoria, não um confronto, e é isso que os princípios de conduta acima procuram garantir de ambos os lados.
11. Monitorização de processos, produtos e serviços
Apoiar a monitorização e avaliação de processos, produtos e serviços do setor da saúde é uma das realizações centrais desta unidade curricular. Monitorizar é acompanhar de forma regular, para detetar desvios o mais cedo possível.
Monitoriza-se tipicamente:
- Processos: tempos de execução, taxas de erro, cumprimento de prazos internos.
- Produtos: conformidade com especificações, condições de conservação, prazos de validade.
- Serviços: qualidade do atendimento, cumprimento de marcações, tempo de espera do utente.
Cada indicador precisa de uma meta clara, uma frequência de medição definida, e um responsável por reagir sempre que o valor sai dos limites aceitáveis. O ciclo completo é: recolher o dado com regularidade, registar de forma consistente, comparar com a meta, investigar desvios significativos com as ferramentas da qualidade, e comunicar os resultados à equipa.
Exemplo resolvido
Uma clínica dentária monitoriza o tempo médio de espera dos utentes. A meta definida é 10 minutos; a média medida no mês foi de 18 minutos. A equipa usa um fluxograma do dia da consulta para investigar e identifica que a marcação de várias consultas para a mesma hora é a causa principal do atraso acumulado ao longo do dia.
12. Satisfação do utente
Garantir a avaliação da qualidade e o grau de satisfação do utente é outro critério de desempenho explícito do referencial. A perceção de quem recebe o serviço é uma medida de qualidade tão válida como qualquer indicador interno de processo.
Formas de recolher esta informação: inquéritos de satisfação (em papel, por SMS, por email ou num terminal na sala de espera), o Livro de Reclamações, obrigatório em formato físico e eletrónico (nos prestadores de cuidados de saúde, as reclamações e a resposta ao utente são comunicadas à ERS), as caixas de sugestões e elogios, observação direta do tempo de espera e do ambiente, e contacto de seguimento para confirmar se o resultado correspondeu ao esperado.
Recolher esta informação só tem valor se for tratada com rigor: registar todas as reclamações e sugestões, classificá-las por tema, analisar tendências ao longo do tempo em vez de reagir só a casos isolados, responder ao utente sempre que possível, e alimentar a melhoria contínua com o que se aprendeu.
Um sistema que recolhe opiniões dos utentes e nunca muda nada perde rapidamente a confiança de quem alimenta esse feedback. Responder, mesmo só para confirmar receção de uma reclamação, já é parte essencial do processo.
13. Impacto e implementação da qualidade em cada contexto
Os princípios e as ferramentas estudados são transversais, mas o foco concreto de qualidade muda com o contexto de trabalho.
Na farmácia comunitária, a qualidade traduz-se em Boas Práticas Farmacêuticas, controlo da cadeia de frio para medicamentos termolábeis, validação de receitas, gestão de prazos de validade e devoluções, e farmacovigilância (reportar reações adversas suspeitas). Na clínica ou consultório dentário, o foco recai sobre a esterilização do material, a biossegurança e a organização da agenda de consultas. Nas termas, é central a qualidade da água de tratamento e a segurança dos tratamentos aplicados. Em hospitais, USF e UCC, destaca-se a segurança do doente e a articulação entre serviços. Na RNCCI e nos ERPI, releva a continuidade dos cuidados e a dignidade e segurança do utente ao longo do tempo.
| Contexto | Foco de qualidade típico |
|---|---|
| Farmácia comunitária | cadeia de frio, prazos de validade, aconselhamento |
| Clínica dentária | esterilização de material, biossegurança, agenda de consultas |
| Termas | qualidade da água, segurança dos tratamentos |
| Hospitais e USF/UCC | segurança do doente, articulação entre serviços |
| RNCCI e ERPI | continuidade de cuidados, dignidade e segurança do utente |
Dominar o sistema de gestão da qualidade, as suas ferramentas e os seus procedimentos prepara para qualquer um destes contextos, porque a lógica de base, planear, fazer, verificar e melhorar, é sempre a mesma.
Erros comuns
- Confundir calibração com verificação: a primeira mede o erro do equipamento, a segunda confirma que continua dentro do aceitável.
- Corrigir o caso concreto de uma não conformidade sem tratar a causa, o que deixa o problema pronto a repetir-se.
- Fazer o "Do" do PDCA sem "Plan" nem "Check", que é apenas tentativa e erro, não melhoria estruturada.
- Encarar a auditoria como um confronto, em vez de uma oportunidade independente de melhoria.
- Recolher indicadores ou opiniões de utentes e nunca os analisar nem agir sobre eles.
- Continuar a usar um equipamento de medição com a calibração fora do prazo.
- Registar "resolvido" sem verificar mais tarde se a ação corretiva foi de facto eficaz.
Glossário
- Qualidade: grau em que um produto, serviço ou processo cumpre os requisitos definidos.
- SGQ: sistema de gestão da qualidade, política mais processos, procedimentos e registos.
- ISO 9001 / NP EN ISO 9001: norma internacional, e a sua versão portuguesa, de sistemas de gestão da qualidade.
- PDCA: ciclo de melhoria contínua, planear, executar, verificar, agir.
- Processo: conjunto de atividades relacionadas que transforma entradas em saídas.
- Manual da Qualidade: documento que descreve a política e a estrutura geral do sistema.
- Procedimento: descrição de quem faz o quê, quando e como, para um processo.
- Metrologia: ciência da medição.
- Calibração: comparação de um equipamento com um padrão de referência para apurar o seu erro.
- Verificação: confirmação periódica de que um equipamento continua dentro dos limites aceitáveis.
- PNC: Produto Não Conforme, produto ou serviço que não cumpre um requisito e que tem de ser tratado formalmente.
- Ação corretiva: elimina a causa de uma não conformidade já ocorrida.
- Ação preventiva: atua sobre uma causa potencial, antes de o problema acontecer.
- Auditoria: exame sistemático e independente da conformidade do sistema.
- IPAC: Instituto Português de Acreditação, acredita entidades certificadoras e laboratórios.
- IPQ: Instituto Português da Qualidade, normalização nacional.
Síntese
Adotar práticas de gestão da qualidade no setor da saúde começa por perceber o que é qualidade e quem regula o setor (IPQ, IPAC, DGS, ERS, Ordem dos Farmacêuticos, INFARMED), passa pelos princípios e pela norma ISO 9001, aplica-se através da abordagem por processos e do ciclo PDCA, apoia-se nas ferramentas da qualidade para diagnosticar e priorizar, sustenta-se em procedimentos, manuais e metrologia rigorosos, trata não conformidades com ações corretivas e preventivas, verifica-se por auditoria, e fecha-se com a monitorização de processos, produtos e serviços e a avaliação da satisfação do utente. É o mesmo sistema, aplicado com o mesmo rigor, em qualquer contexto de saúde, da farmácia às termas.
Exercícios resolvidos
1. Uma farmácia deteta uma caixa de medicamentos com a embalagem exterior danificada. Qual é o primeiro passo do tratamento de PNC?
Resolução: identificar e isolar o produto, impedindo que avance no circuito normal, antes de qualquer decisão sobre o seu destino. Só depois se regista a ocorrência, se avalia o impacto e se decide o destino, normalmente a devolução ao fornecedor ou a destruição (um medicamento com a embalagem danificada não deve ser dispensado).
2. Distingue calibração de verificação de um equipamento de medição.
Resolução: a calibração compara o equipamento com um padrão de referência para determinar o seu erro; a verificação confirma periodicamente que o equipamento continua dentro dos limites de erro aceitáveis. Calibrar mede o erro, verificar confirma que continua aceitável.
3. Uma clínica dentária quer reduzir o tempo de espera dos utentes. Aplica o ciclo PDCA a este objetivo.
Resolução: Plan, definir a meta (por exemplo, 10 minutos) e planear uma alteração à marcação de consultas; Do, testar a alteração durante algumas semanas; Check, medir o tempo médio de espera no período de teste e comparar com a meta; Act, adotar a alteração se resultou, ou ajustar o plano e repetir o ciclo se não resultou.
4. Qual a diferença entre uma correção e uma ação corretiva?
Resolução: a correção resolve o caso concreto (por exemplo, substituir um produto danificado); a ação corretiva elimina a causa que gerou a não conformidade (por exemplo, mudar as condições de transporte que danificam as embalagens), para que não volte a acontecer.
5. Porque é a independência um princípio essencial numa auditoria?
Resolução: porque garante a imparcialidade e a objetividade das conclusões. Um auditor sem independência face à área auditada arrisca relatar de forma condescendente, o que retira credibilidade ao processo e impede que as não conformidades reais sejam identificadas e corrigidas.