Sebenta · Efetuar o aconselhamento em farmácia de produtos para higiene oral (UC03499)
- Introdução
- 1. Anatomia e fisiologia da cavidade oral
- 2. Quadros de afeções orais mais comuns: cárie, xerostomia e sensibilidade dentária
- 3. Halitose, candidíase oral, aftas e estomatite aftosa
- 4. Traumatismo dentário, doença mão-pé-boca e sinais de alarme
- 5. Saúde oral no bebé e na criança
- 6. Saúde oral na grávida
- 7. Saúde oral nos idosos e cuidados com próteses dentárias
- 8. Produtos de higiene oral: escovagem, pastas dentífricas e flúor
- 9. Fio dentário, elixires e outros dispositivos: aconselhamento e dispensa
- 10. Comunicação com o utente, ética profissional e encaminhamento para o farmacêutico
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
A farmácia comunitária é, para a maioria das pessoas, o local mais próximo e mais acessível para tirar uma dúvida de saúde oral, muitas vezes antes de marcarem consulta ao médico dentista. Uma criança com a gengiva inchada por causa de um dente novo, uma grávida com as gengivas a sangrar, um idoso que já não sabe bem como limpar a prótese: todos estes casos passam, primeiro, pelo balcão da farmácia.
Esta sebenta prepara o técnico auxiliar de farmácia para essa primeira linha de atendimento. O objetivo não é diagnosticar nem substituir o médico dentista ou o farmacêutico, mas sim: reconhecer os quadros de afeções orais mais comuns, identificar os mecanismos gerais por trás deles, aplicar os protocolos de atuação para a promoção da saúde oral, e aconselhar e dispensar corretamente os produtos e dispositivos de higiene oral, sempre com uma comunicação clara e assertiva com o utente.
Vamos percorrer as afeções mais frequentes em cada fase da vida (bebé, criança, grávida e idoso), os produtos que a farmácia dispensa todos os dias, e o protocolo que decide quando aconselhar, quando encaminhar ao farmacêutico e quando encaminhar ao médico dentista.
1. Anatomia e fisiologia da cavidade oral
Para entender qualquer afeção oral é preciso conhecer, ainda que de forma geral, as estruturas envolvidas e os seus mecanismos.
As estruturas principais
| Estrutura | Função |
|---|---|
| Dente (coroa e raiz) | mastigação; camadas de esmalte, dentina e polpa |
| Gengiva | envolve a base do dente e protege o osso de suporte |
| Mucosa oral | reveste bochechas, palato, pavimento da boca e língua |
| Saliva | lubrifica, protege e ajuda na digestão inicial |
A saliva merece destaque especial: neutraliza os ácidos produzidos pelas bactérias da placa bacteriana, contém minerais que ajudam a remineralizar o esmalte, e facilita a mastigação, a fala e a deglutição. Grande parte das afeções orais estudadas nesta UC resulta, direta ou indiretamente, de um desequilíbrio numa destas estruturas ou na quantidade e qualidade da saliva.
Mecanismos gerais das patologias e distúrbios orais
De forma simplificada, a maioria dos distúrbios orais tem origem num destes mecanismos:
- Desequilíbrio bacteriano: acumulação de placa bacteriana que, com o açúcar da dieta, produz ácidos (cárie) ou inflama a gengiva (gengivite).
- Redução da proteção salivar: xerostomia, que aumenta o risco de cárie, halitose e desconforto.
- Agressão física: traumatismo, escovagem incorreta, próteses mal ajustadas.
- Infeção: fúngica (candidíase), viral (doença mão-pé-boca) ou multifatorial (aftas).
- Alterações fisiológicas próprias de uma fase da vida: erupção dentária no bebé, hormonais na grávida, envelhecimento dos tecidos no idoso.
Sempre que uma queixa não encaixa claramente num destes mecanismos, ou não melhora com o aconselhamento habitual, é sinal de que precisa de avaliação por um profissional de saúde, farmacêutico ou médico dentista.
2. Quadros de afeções orais mais comuns: cárie, xerostomia e sensibilidade dentária
Cárie dentária
A cárie é uma doença multifatorial, dependente do açúcar e do biofilme dentário (placa bacteriana): as bactérias da placa, entre elas o Streptococcus mutans, fermentam os açúcares da dieta e libertam ácidos. Não basta ter bactérias na boca, todos as temos; a doença surge quando a exposição frequente ao açúcar desequilibra o biofilme a favor das bactérias produtoras de ácido. Esses ácidos desmineralizam o esmalte, criando uma lesão que, sem tratamento, progride para a dentina e depois para a polpa do dente.
Fatores de risco: dieta rica em açúcares (sobretudo consumida com frequência ao longo do dia), higiene oral deficiente, xerostomia e exposição pouco frequente ao flúor.
Sinais a reconhecer no balcão: mancha branca ou castanha na superfície do dente, cavidade visível, dor ao frio, ao quente ou ao doce.
Exemplo resolvido · Aconselhamento numa queixa de sensibilidade ao doce
Uma mãe pede uma pasta dentífrica para o filho de oito anos, que "sente uma pontada quando come um gelado". Como raciocinar?
- Perguntar se a dor é breve (desaparece rápido) ou persistente.
- Se breve e ligeira, sem outros sinais, pode indicar sensibilidade dentária ou início de cárie; aconselha-se reforço da escovagem com pasta fluoretada e reavaliação em algumas semanas.
- Perguntar se há alguma mancha ou cavidade visível num dente específico.
- Se sim, ou se a dor persistir, encaminha-se ao médico dentista, pode ser uma cárie já instalada.
A prevenção assenta em quatro pilares: escovagem com pasta fluoretada pelo menos duas vezes por dia, redução da frequência de açúcares entre refeições (mais determinante do que a quantidade total consumida de uma vez), uso de flúor tópico, e consultas regulares ao médico dentista.
Xerostomia
A xerostomia, ou boca seca, resulta da redução do fluxo salivar e é uma das queixas mais comuns em farmácia, sobretudo em utentes polimedicados e idosos.
Causas frequentes: medicamentos (anti-histamínicos, antidepressivos, anti-hipertensores, entre outros), desidratação, respiração pela boca, algumas doenças sistémicas e radioterapia da cabeça e pescoço.
Consequências: maior risco de cárie e de halitose, dificuldade a mastigar e a falar, e desconforto geral.
Aconselhamento habitual: hidratação frequente ao longo do dia, saliva artificial, pastilhas ou rebuçados sem açúcar para estimular a produção de saliva, evitar álcool, tabaco e cafeína em excesso, e usar pasta dentífrica e elixir sem álcool.
Sensibilidade dentária
A sensibilidade dentária surge quando a dentina fica exposta, geralmente por recessão gengival, desgaste do esmalte ou escovagem demasiado agressiva. O sintoma típico é uma dor aguda e breve ao frio, ao quente, ao doce ou ao ácido, que desaparece rapidamente.
Aconselhamento: pasta dentífrica dessensibilizante, escova de cerdas macias e técnica de escovagem correta, sem pressão excessiva. As pastas dessensibilizantes atuam de duas formas: umas reduzem a transmissão do estímulo ao nervo (por exemplo, com nitrato de potássio), outras selam os túbulos da dentina exposta (por exemplo, com fluoreto estanoso). O efeito não é imediato: é preciso usá-las todos os dias, habitualmente durante algumas semanas, para notar melhoria.
Encaminhar ao médico dentista sempre que a dor for muito intensa, persistente, ou localizada num único dente: pode indicar cárie profunda ou fratura, e não simples sensibilidade.
3. Halitose, candidíase oral, aftas e estomatite aftosa
Halitose
A halitose (mau hálito) tem origem oral na grande maioria dos casos (cerca de oito a nove em cada dez): revestimento lingual (acumulação de bactérias no dorso da língua), doença periodontal, cárie, próteses mal higienizadas e xerostomia. As causas extraorais são mais raras: sinusite, refluxo gastroesofágico, alguns alimentos, tabaco e certas doenças sistémicas.
É uma queixa sensível, que exige tato e discrição no atendimento. O aconselhamento passa por: escovagem da língua com escova própria ou raspador lingual, uso diário de fio dentário, elixir antibacteriano como complemento (nunca substituto) da escovagem, hidratação adequada, e higiene rigorosa da prótese em quem a usa.
Se a halitose persistir apesar de uma boa higiene oral, encaminha-se para avaliação: pode existir uma causa dentária ou sistémica por tratar.
Candidíase oral
A candidíase oral, causada sobretudo por Candida albicans, é mais frequente em bebés, idosos com prótese, utentes imunodeprimidos e em quem faz uso prolongado de antibióticos ou de corticoides inalados.
Sinal característico: placas esbranquiçadas na mucosa, que se destacam ao raspar, deixando a zona por baixo avermelhada. No bebé, distinguem-se dos restos de leite porque estes saem facilmente ao limpar, enquanto as placas da candidíase aderem mais à mucosa. Sintomas associados: ardor, alteração do paladar e desconforto ao comer.
Aconselhamento: higiene rigorosa da prótese dentária, e enxaguamento da boca com água depois do uso de inaladores com corticoide. O tratamento antifúngico exige sempre avaliação e orientação, pelo que se encaminha ao farmacêutico ou ao médico.
Aftas e estomatite aftosa
As aftas são úlceras dolorosas, arredondadas, com bordo avermelhado e centro esbranquiçado, na mucosa oral. As causas são multifatoriais: stress, pequenos traumatismos (por exemplo, morder a bochecha), défices nutricionais (ferro, vitamina B12, ácido fólico) e alterações hormonais.
A evolução habitual é autolimitada, com cicatrização em uma a duas semanas. Aconselhamento: géis orais protetores ou analgésicos, evitar alimentos ácidos, picantes ou muito quentes, e manter uma boa higiene oral. Encaminha-se se as aftas forem muito numerosas, muito dolorosas, recorrentes com frequência, acompanhadas de febre, ou se não cicatrizarem em duas a três semanas.
Exemplo resolvido · Quando encaminhar uma afta
Um utente refere uma "ferida na boca" há três semanas, que não melhora. Como decidir?
- Confirmar o tempo de evolução: mais de duas a três semanas sem cicatrizar é o critério de alarme para qualquer lesão da mucosa oral.
- Perguntar se é uma lesão isolada ou se aparecem várias, e se é dolorosa ou não.
- Uma afta típica cicatriza dentro desse prazo; se não cicatrizou, ou se a lesão é uma mancha persistente em vez de uma úlcera dolorosa, a hipótese de afta comum deixa de ser suficiente.
- Encaminha-se ao médico dentista para avaliação, sem alarmar o utente, apenas explicando que "convém ser vista por ter demorado mais do que o habitual".
4. Traumatismo dentário, doença mão-pé-boca e sinais de alarme
Traumatismo dentário
Os traumatismos dentários são frequentes em crianças e em contexto desportivo. Distinguem-se três tipos principais: fratura (perda de parte da estrutura do dente), luxação (o dente desloca-se da posição mas mantém-se no alvéolo) e avulsão (o dente sai completamente do alvéolo).
A avulsão de um dente permanente é a urgência oral mais grave que pode chegar ao balcão da farmácia:
- Pegar no dente sempre pela coroa, nunca pela raiz.
- Se estiver sujo, lavar rapidamente apenas com soro fisiológico ou água, sem esfregar a raiz.
- Se possível, reimplantar de imediato no alvéolo.
- Se não for possível reimplantar, conservar o dente em leite, soro fisiológico ou saliva do próprio utente, nunca seco.
- Encaminhar de imediato ao médico dentista: o prognóstico piora a cada minuto que passa fora da boca.
Em dentes de leite (dentição decídua) não se tenta reimplantar, mas o encaminhamento continua a ser urgente para avaliar o dente definitivo subjacente.
Doença mão-pé-boca
A doença mão-pé-boca é uma infeção viral muito comum em crianças pequenas, sobretudo em ambientes como creches e infantários. Os sintomas incluem febre, lesões dolorosas na boca (do tipo aftoso) e exantema nas mãos e nos pés.
É altamente contagiosa, pelo que se reforçam as medidas de higiene das mãos e dos objetos partilhados. O tratamento é sintomático: analgésicos adequados à idade, hidratação e alimentos frios e moles enquanto há dor a comer. Encaminha-se se houver sinais de desidratação ou febre alta persistente.
Sinais de alarme: cancro oral
O cancro oral é bem menos frequente do que as restantes afeções desta UC, mas é grave, e o diagnóstico precoce melhora muito o prognóstico. Os seus sinais precoces passam muitas vezes pela farmácia antes de chegarem ao médico dentista. O técnico auxiliar não diagnostica, mas deve reconhecer e encaminhar perante:
- Úlcera na boca que não cicatriza há mais de duas a três semanas.
- Mancha branca (leucoplasia) ou vermelha (eritroplasia) persistente na mucosa.
- Nódulo ou espessamento inexplicado dos tecidos moles.
- Dificuldade a engolir, ou dormência sem causa aparente.
Fatores de risco a ter em mente ao avaliar a situação: tabaco e álcool, cujo efeito combinado é superior à soma dos dois separadamente, e exposição solar prolongada no lábio.
Perante qualquer um destes sinais, o encaminhamento ao médico dentista ou médico é sempre a decisão correta, feito com calma e sem alarmar o utente.
5. Saúde oral no bebé e na criança
Erupção dentária e primeiros cuidados
Os dentes de leite (dentição decídua ou temporária) começam habitualmente a erupcionar por volta dos seis meses, prolongando-se este processo até perto dos três anos de idade, altura em que estão presentes os 20 dentes de leite. A dentição permanente, que começa a surgir por volta dos seis anos, tem 32 dentes. Sinais típicos de erupção: irritabilidade, salivação abundante e gengiva inchada e sensível.
Aconselhamento: mordedores refrigerados e, quando indicado, géis calmantes, cuja escolha se valida com o farmacêutico, porque nem todos são adequados a bebés pequenos. Febre alta, diarreia ou prostração não se devem atribuir à erupção dentária: nesses casos encaminha-se para avaliação. A higiene deve começar logo com o primeiro dente, feita pelos pais duas vezes por dia, com uma escova macia própria para bebé e uma quantidade muito pequena de pasta fluoretada (do tamanho de um grão de arroz nos mais pequenos). Deve evitar-se dar açúcar no biberão ou na chupeta, e nunca usar mel, sobretudo antes de dormir. A primeira consulta de dentista deve acontecer cedo, quando surgem os primeiros dentes ou, no máximo, até a criança completar um ano.
Saúde oral na criança em idade escolar
Com a autonomia progressiva, mantém-se a supervisão do adulto: escovagem supervisionada até a criança ter destreza manual suficiente, geralmente entre os seis e os oito anos. Segundo as orientações da Direção-Geral da Saúde, usa-se pasta fluoretada com 1000 a 1500 ppm de flúor, em quantidade adequada à idade (até ao tamanho de uma pequena ervilha nas crianças mais velhas), com escovagem pelo menos duas vezes por dia, sendo uma delas obrigatoriamente antes de deitar, e reduzindo-se a frequência de açúcares entre as refeições, sendo o lanche escolar um momento crítico.
Os selantes de fissuras, aplicados pelo médico dentista, protegem os molares definitivos, que têm mais sulcos e fissuras onde a placa bacteriana se acumula com facilidade.
No âmbito do Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral, o SNS atribui cheques-dentista a grupos definidos, entre eles crianças e jovens em determinadas idades, grávidas seguidas no SNS e idosos beneficiários do complemento solidário. As regras de acesso mudam com o tempo, por isso o técnico pode informar que o programa existe e orientar o utente para o seu centro de saúde ou médico de família.
6. Saúde oral na grávida
As alterações hormonais da gravidez aumentam a sensibilidade da gengiva à placa bacteriana, dando origem à gengivite gravídica: gengivas inflamadas, avermelhadas, que sangram com facilidade, mesmo com boa higiene oral.
As náuseas matinais expõem os dentes a ácido gástrico com maior frequência. Por isso, o aconselhamento é: não escovar imediatamente a seguir ao vómito, enxaguar primeiro a boca com água para diluir o ácido, e só escovar cerca de meia hora depois.
A consulta de medicina dentária é segura durante a gravidez, sendo os procedimentos não urgentes preferencialmente feitos a meio da gestação (segundo trimestre). As grávidas seguidas no SNS podem ter acesso a cheques-dentista, o que é uma boa razão para lembrar a consulta. É importante desfazer o mito de que "a gravidez tira cálcio aos dentes": o que muda é a maior vulnerabilidade da gengiva às hormonas, não a estrutura mineral do dente. Manter a escovagem e o uso de fio dentário rigorosos é ainda mais importante nesta fase, mesmo que a gengiva sangre um pouco.
"Não escovar para não sangrar" é o erro mais comum na grávida, e agrava o problema em vez de o resolver.
7. Saúde oral nos idosos e cuidados com próteses dentárias
O envelhecimento traz alterações específicas que o técnico deve reconhecer no balcão: xerostomia muito frequente, sobretudo por polimedicação; recessão gengival e cárie radicular (na raiz do dente, exposta pela recessão); maior prevalência de doença periodontal; e uso frequente de próteses dentárias, totais ou parciais.
A doença periodontal começa como gengivite (inflamação reversível da gengiva, que sangra e fica avermelhada) e pode evoluir para periodontite, em que já há destruição dos tecidos de suporte do dente: recessão, mobilidade dentária e, sem tratamento, perda de dentes. A gengivite trata-se com boa higiene; a periodontite exige sempre o médico dentista.
As próteses dentárias podem ser fixas (coroas, pontes ou próteses sobre implantes, que o utente não retira) ou removíveis. Nas removíveis, que são as que mais cuidados pedem ao balcão, há dois tipos principais: total, que substitui todos os dentes de uma arcada, e parcial removível, que substitui alguns dentes apoiando-se nos remanescentes; existem ainda sobredentaduras, apoiadas sobre implantes ou raízes remanescentes.
Cuidados essenciais com a prótese
| Cuidado | Porquê |
|---|---|
| Escovar diariamente, fora da boca, com escova própria | remove placa e resíduos acumulados |
| Não usar pasta dentífrica comum | é abrasiva para o material da prótese |
| Não dormir com a prótese colocada, guardando-a durante a noite limpa e num recipiente com água ou solução própria | dá descanso à gengiva, reduz risco de candidíase e evita que o material seque e deforme |
| Imergir periodicamente em solução própria | complementa a limpeza mecânica |
| Consultas regulares para ajuste | uma prótese desajustada causa feridas e dificulta a mastigação |
Uma prótese mal higienizada, associada a xerostomia, é uma das principais causas de candidíase oral no idoso, ligando este capítulo diretamente ao bloco das afeções infeciosas.
8. Produtos de higiene oral: escovagem, pastas dentífricas e flúor
Técnica de escovagem
A escovagem é o gesto mais repetido da prevenção em saúde oral. Recomenda-se escovar pelo menos duas vezes por dia, sendo uma delas obrigatoriamente antes de deitar, durante cerca de dois minutos, com uma escova de cerdas macias e movimentos suaves, sem pressão excessiva. A escova deve ser substituída a cada três meses, ou antes se as cerdas estiverem visivelmente gastas. A língua também deve ser escovada, com relevância direta para a prevenção da halitose. No fim, cospe-se o excesso de pasta sem bochechar com água, para que o flúor permaneça mais tempo em contacto com os dentes.
O papel do flúor
O flúor é o ingrediente mais importante da pasta dentífrica na prevenção da cárie: ajuda a remineralizar o esmalte enfraquecido pelos ácidos bacterianos, e reduz a capacidade das bactérias de produzir ácido. A Direção-Geral da Saúde recomenda pasta fluoretada com 1000 a 1500 ppm de flúor. A quantidade de pasta usada deve ser adaptada à idade, sendo menor nas crianças pequenas (do tamanho de um grão de arroz nos mais pequenos, até ao de uma pequena ervilha nas mais velhas), precisamente para reduzir a quantidade de flúor engolido durante a escovagem.
Existem ainda pastas específicas: dessensibilizantes, para gengivas sensíveis, e branqueadoras. Pastas sem flúor só se justificam em casos muito específicos, orientados por um profissional de saúde.
Sobre branqueamento: as pastas branqueadoras de venda livre removem sobretudo manchas superficiais. Nos produtos cosméticos de branqueamento vendidos diretamente ao consumidor, o peróxido de hidrogénio (libertado ou presente) não pode ultrapassar 0,1%. Produtos entre 0,1% e 6% só podem ser vendidos a médicos dentistas, com a primeira aplicação feita em consultório, e não se destinam a menores de 18 anos; acima de 6% são proibidos como cosméticos (Diretiva 2011/84/UE). Quem pede um branqueamento "forte" é, por isso, orientado para o médico dentista.
Exemplo resolvido · Escolher a pasta certa
Um utente pede "a melhor pasta" sem mais informação. Como conduzir o aconselhamento?
- Perguntar a idade da pessoa que vai usar a pasta (criança pequena, adulto, idoso).
- Perguntar se existe alguma queixa específica: sensibilidade, gengivas sensíveis, prótese.
- Sem queixa específica, o critério principal é sempre a presença de flúor na concentração adequada à idade.
- Com queixa específica, escolher a pasta dedicada (dessensibilizante, para gengivas, ou produto próprio de prótese), sem deixar de garantir flúor sempre que aplicável aos dentes naturais.
9. Fio dentário, elixires e outros dispositivos: aconselhamento e dispensa
A escova, sozinha, não chega a todos os espaços da boca. O fio dentário remove a placa bacteriana entre os dentes, onde a escova não chega, e o seu uso diário é recomendado a todos os utentes com dentes naturais. Os escovilhões interdentários são úteis em espaços interdentários maiores, por exemplo em utentes com recessão gengival. Os irrigadores orais complementam a limpeza com um jato de água, sendo particularmente úteis em utentes com aparelho ortodôntico ou destreza manual reduzida. Os raspadores ou limpadores linguais reduzem o revestimento lingual associado à halitose.
Quanto aos elixires, nem todos servem para o mesmo fim:
| Tipo de elixir | Indicação típica |
|---|---|
| Com flúor | reforço diário da prevenção da cárie |
| Antibacteriano, uso pontual | halitose ou gengivas inflamadas, sob orientação |
| Sem álcool | utentes com xerostomia ou mucosa sensível |
O elixir é sempre um complemento da escovagem e do fio dentário, nunca um substituto. Elixires com clorexidina de uso pontual são recomendados por tempo limitado: o uso prolongado pode pigmentar os dentes e a língua de castanho e alterar temporariamente o paladar. A clorexidina é também inativada por componentes comuns das pastas dentífricas, como o laurilsulfato de sódio, pelo que não se usa logo a seguir à escovagem, deixando passar algum tempo, conforme indicado no folheto. Dúvidas sobre a duração de uso adequada encaminham-se ao farmacêutico.
10. Comunicação com o utente, ética profissional e encaminhamento para o farmacêutico
Comunicar bem no balcão
A comunicação eficaz é tão parte do aconselhamento como o conhecimento técnico. Implica: escuta ativa, deixando o utente descrever a queixa por completo antes de responder; linguagem simples, sem jargão técnico desnecessário; comunicação não verbal cuidada, com postura atenta, contacto visual adequado e tom de voz calmo; e adaptação da mensagem ao público, uma explicação a um pai de bebé é diferente da que se dá a um idoso. É fundamental confirmar que o utente compreendeu, sobretudo no que toca à posologia e ao modo de utilização do produto.
Ética profissional e limites de atuação
O técnico auxiliar de farmácia atua sempre dentro de limites claros: sigilo profissional sobre tudo o que se fala ao balcão; rigor e honestidade, não inventando respostas quando há dúvida, preferindo perguntar ao farmacêutico; respeito pela privacidade do utente, sobretudo em temas sensíveis como a halitose ou lesões orais; e o reconhecimento constante dos limites da própria função: aconselhar produtos de venda livre sim, diagnosticar ou prescrever não. A apresentação pessoal e a postura profissional também transmitem confiança ao utente.
O protocolo final de decisão
Antes de fechar qualquer atendimento sobre higiene oral, o técnico segue os procedimentos de conferência e dispensa e responde, na prática, a três perguntas:
- É um caso de aconselhamento simples? Dispensa-se o produto com a informação correta sobre posologia e utilização.
- Há dúvida sobre a adequação do produto à condição do utente? Encaminha-se ao farmacêutico.
- Há sinal de alarme clínico (lesão persistente, traumatismo, febre alta, sinal de alerta de cancro oral)? Encaminha-se ao médico dentista ou médico, sem alarmar o utente.
Este raciocínio aplica-se a qualquer uma das afeções estudadas nesta UC, da cárie ao cancro oral, e garante uma comunicação eficaz e assertiva com o utente em todas as fases da vida.
Erros comuns
- Tentar "resolver" no balcão queixas que são claramente clínicas, em vez de encaminhar.
- Encaminhar tudo para o médico dentista "por precaução", sem primeiro avaliar se basta um aconselhamento simples.
- Aconselhar um elixir com álcool a um utente com xerostomia, agravando a secura da boca.
- Vender qualquer pasta dentífrica comum para limpar uma prótese, quando esta é abrasiva para o material.
- Achar que os dentes de leite "não importam, vão cair", ignorando que uma cárie precoce dói e pode afetar o dente definitivo.
- Uma grávida deixar de escovar os dentes "para não sangrar", agravando a gengivite gravídica em vez de a controlar.
- Guardar um dente avulsionado seco, em vez de o conservar em leite, soro fisiológico ou saliva.
- Usar termos técnicos sem os explicar ao utente, prejudicando a compreensão da posologia.
Glossário
- Cárie: doença multifatorial, dependente do açúcar e da placa bacteriana, em que os ácidos bacterianos desmineralizam o esmalte.
- Xerostomia: sensação de boca seca por redução do fluxo salivar.
- Halitose: mau hálito, na maioria dos casos de origem oral.
- Avulsão: saída completa de um dente do seu alvéolo.
- Candidíase oral: infeção fúngica da mucosa oral, causada sobretudo por Candida albicans.
- Afta: úlcera dolorosa e autolimitada da mucosa oral.
- Leucoplasia: mancha branca persistente na mucosa, sinal de alarme a encaminhar.
- Eritroplasia: mancha vermelha persistente na mucosa, sinal de alarme a encaminhar.
- Gengivite gravídica: inflamação da gengiva associada às alterações hormonais da gravidez.
- Prótese total: substitui todos os dentes de uma arcada.
- Prótese parcial removível: substitui alguns dentes, apoiando-se nos remanescentes.
- Selante de fissuras: material protetor aplicado nos sulcos dos molares para prevenir cárie.
- Flúor: agente que remineraliza o esmalte e reduz a produção de ácido bacteriano.
Síntese
O aconselhamento em higiene oral na farmácia começa por reconhecer os quadros mais comuns em cada fase da vida (bebé, criança, grávida, idoso) e os seus mecanismos gerais: desequilíbrio bacteriano, redução da proteção salivar, agressão física, infeção ou alterações fisiológicas próprias da idade. A partir daí, aplica-se um protocolo simples de conferência e dispensa: ouvir, conferir, selecionar o produto certo, informar a posologia e a utilização, e identificar sinais de alarme. Os produtos e dispositivos (escovas, pastas fluoretadas, fio dentário, elixires) são sempre aconselhados em conjunto, nunca isoladamente, e a decisão final está sempre entre três caminhos: aconselhar e dispensar, encaminhar ao farmacêutico, ou encaminhar ao médico dentista. Tudo isto assente numa comunicação clara, assertiva e ética com o utente.
Exercícios resolvidos
1. Um utente de meia-idade refere "boca seca" há semanas e toma vários medicamentos para a tensão arterial. Que aconselhamento fazer?
Resolução: é um quadro típico de xerostomia associada a polimedicação. Aconselha-se hidratação frequente, saliva artificial, pastilhas sem açúcar para estimular a saliva, e pasta dentífrica e elixir sem álcool. Não há sinal de alarme, pelo que não é necessário encaminhamento imediato, apenas reforço das medidas e atenção ao risco acrescido de cárie e de halitose.
2. Uma criança de sete anos sofre uma queda e perde um dente definitivo por completo. Que passos seguir?
Resolução: é uma avulsão dentária, a urgência oral mais grave. Pega-se no dente pela coroa, lava-se rapidamente com soro fisiológico ou água sem esfregar a raiz, tenta-se reimplantar de imediato se possível, e, não sendo possível, conserva-se em leite, soro fisiológico ou saliva. Encaminha-se de imediato ao médico dentista, sem perder tempo.
3. Um idoso com prótese total refere "ardor na boca e umas placas brancas". Que hipótese considerar e o que aconselhar?
Resolução: o quadro é sugestivo de candidíase oral, favorecida pelo uso de prótese, sobretudo se dorme com ela colocada. Aconselha-se reforço da higiene da prótese (escovagem diária fora da boca, não dormir com ela) e encaminha-se ao farmacêutico ou ao médico para avaliação e eventual tratamento antifúngico, que não deve ser feito por iniciativa própria.
4. Uma grávida diz que parou de escovar os dentes "porque sangram sempre". Como responder?
Resolução: explica-se que a gengivite gravídica é comum devido às alterações hormonais da gravidez, e que parar de escovar agrava o problema em vez de o resolver. Aconselha-se manter a escovagem e o fio dentário, eventualmente com escova de cerdas mais macias, e encaminha-se ao médico dentista se o sangramento for muito intenso ou persistente para além do esperado.
5. Um utente pede um elixir "forte, para o mau hálito, para usar todos os dias". O que considerar antes de o aconselhar?
Resolução: primeiro pergunta se já escova a língua, usa fio dentário diariamente e mantém boa higiene da prótese, se a tiver, já que a halitose tem origem oral na grande maioria dos casos. Um elixir antibacteriano de uso pontual (por exemplo com clorexidina) não deve ser usado indefinidamente todos os dias sem orientação; para uso diário continuado, preferem-se elixires com flúor ou formulações mais suaves. Se a halitose persistir apesar de boa higiene, encaminha-se para avaliação.
6. Um pai pergunta se deve usar pasta dentífrica normal no filho de dois anos que já tem vários dentes. O que aconselhar?
Resolução: aconselha-se pasta fluoretada, mas em quantidade muito reduzida (do tamanho de um grão de arroz), precisamente para limitar a quantidade de flúor engolida durante a escovagem, já que uma criança pequena ainda não cospe a pasta de forma eficaz. A escovagem deve ser feita ou supervisionada por um adulto.