Sebenta · Executar técnicas de determinação de parâmetros na farmácia (UC03496)
- Introdução
- 1. O Serviço de Determinação de Parâmetros na farmácia
- 2. Enquadramento legal e ética profissional
- 3. Uniformizar procedimentos: o protocolo de atendimento
- 4. Glicemia
- 5. Perfil lipídico
- 6. Teste de gravidez (hCG)
- 7. Pressão arterial
- 8. Peso, IMC e perímetro abdominal
- 9. Frequência cardíaca
- 10. Comunicação, perguntas e aconselhamento ao utente
- 11. Encaminhamento para o farmacêutico
- 12. Gestão de resíduos e plano interno de qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara o técnico auxiliar de farmácia para executar técnicas de determinação de parâmetros bioquímicos e fisiológicos no contexto da farmácia comunitária: glicemia, perfil lipídico, teste de gravidez, pressão arterial, peso e IMC, perímetro abdominal e frequência cardíaca. É um dos serviços mais próximos do utente, e também um dos que mais exige rigor, comunicação e sentido dos próprios limites.
O fio condutor de toda a UC é simples de enunciar e difícil de esquecer: o técnico auxiliar apoia a aplicação das técnicas, uniformiza e sistematiza procedimentos, comunica e aconselha, e encaminha para o farmacêutico sempre que um resultado ou uma situação o exija. Não diagnostica, não prescreve e não substitui a avaliação clínica. É esta distinção, entre determinar e diagnosticar, que atravessa cada capítulo.
Objetivos de aprendizagem (referencial): uniformizar e sistematizar procedimentos na determinação de parâmetros bioquímicos e fisiológicos; reconhecer como proceder na gestão de resíduos e no cumprimento do plano interno de qualidade da farmácia; e apoiar a aplicação de técnicas de determinação de parâmetros biométricos, bioquímicos e fisiológicos, cumprindo o regulamento legal em vigor, assegurando o aconselhamento eficaz ao utente e referenciando para avaliação clínica pelo farmacêutico sempre que se justifique.
1. O Serviço de Determinação de Parâmetros na farmácia
O Serviço de Determinação de Parâmetros é uma prestação farmacêutica diferenciada, oferecida por muitas farmácias comunitárias em Portugal. Consiste em medir, com dispositivos e técnicas apropriadas, um conjunto de parâmetros do utente e devolver-lhe o resultado com aconselhamento.
Os parâmetros habitualmente incluídos neste serviço são:
- Bioquímicos: glicemia, perfil lipídico (colesterol total, HDL, LDL, triglicéridos), teste de gravidez (hCG).
- Fisiológicos e biométricos: pressão arterial, peso e IMC, perímetro abdominal, frequência cardíaca.
Este serviço tem valor precisamente porque não pretende substituir uma análise clínica laboratorial nem uma consulta médica. É acessível, próximo e rápido, e funciona como um primeiro rastreio que, quando necessário, encaminha o utente para quem pode avaliar clinicamente a situação.
Uma farmácia que presta este serviço tem de garantir espaço reservado, equipamento calibrado e uma equipa treinada no mesmo protocolo. É a soma destes três fatores que dá confiança ao resultado.
O serviço é prestado pelo farmacêutico e pelo técnico auxiliar, sempre sob orientação e responsabilidade do primeiro. O técnico auxiliar prepara o espaço e o material, executa a técnica de determinação quando está habilitado para tal, regista o resultado, comunica-o ao utente e aconselha dentro dos limites da sua função.
2. Enquadramento legal e ética profissional
Toda a atividade descrita nesta sebenta decorre dentro de um enquadramento legal e regulamentar, e de um código de ética profissional que não é acessório: é um critério de desempenho explícito do referencial desta UC.
Aspetos legislativos
A prestação do Serviço de Determinação de Parâmetros segue a legislação e a regulamentação em vigor. Os serviços farmacêuticos que as farmácias podem prestar, entre os quais a determinação de parâmetros, estão definidos na Portaria n.º 1429/2007, alterada pela Portaria n.º 97/2018, publicadas em Diário da República; o INFARMED é a autoridade que regula e fiscaliza as farmácias. O serviço enquadra-se ainda nas Boas Práticas Farmacêuticas para a farmácia comunitária, definidas pela Ordem dos Farmacêuticos. O técnico auxiliar tem de interpretar esta legislação e estes regulamentos específicos, e cumpri-los sem exceção. Na dúvida sobre uma norma concreta, consulta-se sempre a fonte oficial atualizada, nunca se assume de memória.
Ética da atividade profissional
Um conjunto de atitudes atravessa toda a prestação do serviço:
| Atitude | O que significa na prática |
|---|---|
| Responsabilidade | assumir as consequências de cada ação, do acolhimento ao encaminhamento |
| Rigor e zelo | seguir sempre o mesmo procedimento, sem atalhos |
| Respeito pela privacidade | discrição no espaço, no tom de voz e na partilha da informação |
| Conduta profissional | tratar cada utente com a mesma seriedade, independentemente do resultado |
| Sentido crítico e analítico | reconhecer quando um resultado exige atenção redobrada |
O sigilo profissional aplica-se mesmo a familiares do utente, que não têm acesso automático a um resultado sem o consentimento da pessoa. Comentar um caso num espaço onde outros ouvem é uma quebra grave desta ética.
3. Uniformizar procedimentos: o protocolo de atendimento
Uma das realizações centrais desta UC é uniformizar e sistematizar procedimentos na determinação de parâmetros. Isto significa que a farmácia define, por escrito, uma sequência fixa de passos, conhecida por toda a equipa, e que essa sequência se repete sempre da mesma forma, independentemente de quem atende.
Porque importa uniformizar
- Reduz o erro humano: uma sequência conhecida evita esquecimentos.
- Facilita a formação: quem entra de novo aprende o protocolo escrito, não observa "à vontade" de cada colega.
- Permite rastrear: se surgir uma dúvida sobre um resultado, é possível verificar se o procedimento foi seguido.
Exemplo resolvido: o protocolo genérico de atendimento
Considera-se um protocolo aplicável a qualquer uma das sete determinações desta UC:
- Acolher o utente, confirmar a sua identidade e o parâmetro pretendido.
- Preparar o espaço reservado e o material, verificando o prazo de validade e a calibração do equipamento.
- Executar a técnica específica de determinação, seguindo o procedimento escrito para aquele parâmetro.
- Registar o resultado, a data, e as condições relevantes (por exemplo, se o utente estava em jejum).
- Comunicar o resultado, com linguagem clara e assertiva.
- Aconselhar o utente e, se o resultado ou a situação o justificarem, encaminhar para o farmacêutico.
- Descartar os resíduos de acordo com as regras de gestão de resíduos em vigor.
Só o passo 3 muda de parâmetro para parâmetro; os restantes seis são sempre os mesmos. É esta estabilidade que se entende por sistematizar.
4. Glicemia
A glicemia mede a concentração de glicose no sangue, e é o parâmetro mais pedido no serviço.
Técnica de determinação
Usa-se um glicómetro com tira teste específica. O procedimento típico:
- Desinfetar a lateral da polpa do dedo com álcool e deixar secar.
- Picar com uma lanceta descartável.
- Obter uma gota de sangue capilar e aplicá-la na tira teste, já inserida no glicómetro.
- Ler o resultado no ecrã do dispositivo.
- Perguntar e registar se o utente está em jejum (habitualmente 8 horas) ou não: essa condição muda o significado do valor.
Valores de referência
| Condição (Norma DGS 002/2011) | Glicemia em jejum |
|---|---|
| Normal | inferior a 110 mg/dL |
| Anomalia da glicemia em jejum (hiperglicemia intermédia) | 110 a 125 mg/dL |
| Sugestivo de diabetes | igual ou superior a 126 mg/dL |
Fora do jejum (glicemia ocasional), a norma da DGS considera diagnóstico de diabetes um valor igual ou superior a 200 mg/dL acompanhado de sintomas clássicos (sede intensa, urinar muito, perda de peso). A norma aceita ainda a HbA1c igual ou superior a 6,5%, uma análise laboratorial. Em qualquer caso, o diagnóstico é sempre médico e exige confirmação: a farmácia apenas sinaliza. Alguns materiais estrangeiros (critérios da ADA) usam 100 mg/dL como limite do normal; em Portugal segue-se a norma da DGS.
Estes valores são orientativos: a farmácia segue sempre o inserto do dispositivo em uso, que pode ter particularidades próprias. Um valor fora do normal, sobretudo se se repetir em determinações sucessivas, é motivo para encaminhar o utente para o farmacêutico e sugerir avaliação clínica. Uma glicemia muito baixa (abaixo de 70 mg/dL), sobretudo com tremores, suores, confusão ou sonolência, é uma situação de alarme: chama-se de imediato o farmacêutico.
Um utente chega à farmácia depois de almoçar e pede para medir a glicemia. O técnico auxiliar explica que o valor pós-prandial (depois de comer) é normalmente mais alto do que o de jejum, regista essa condição, e não o compara diretamente com os valores de referência de jejum.
5. Perfil lipídico
O perfil lipídico avalia o risco cardiovascular através de quatro valores: colesterol total, HDL, LDL e triglicéridos.
Técnica de determinação
Usa-se um dispositivo point-of-care capilar, semelhante ao glicómetro, com tira ou cassete própria. A técnica de picada e recolha é idêntica à da glicemia. Para os triglicéridos, recomenda-se habitualmente um período de jejum de várias horas; para o colesterol total isolado, esse jejum pode não ser necessário. Por isso, pergunta-se sempre pela última refeição antes de determinar.
Valores de referência orientativos
| Parâmetro | Valor desejável |
|---|---|
| Colesterol total | inferior a 190 mg/dL |
| LDL | a meta depende do risco cardiovascular definido pelo médico (inferior a 116 mg/dL só em pessoas de baixo risco; mais baixa quanto maior o risco) |
| HDL | superior a 40 mg/dL (homem) / 50 mg/dL (mulher) |
| Triglicéridos | inferior a 150 mg/dL |
O HDL transporta o colesterol dos tecidos até ao fígado, e por isso um valor mais alto é favorável; o LDL e os triglicéridos associam-se a maior risco quando elevados. As recomendações europeias (ESC/EAS) não fixam um único valor "normal" de LDL: a meta é tanto mais baixa quanto maior o risco cardiovascular da pessoa (por exemplo, quem tem diabetes ou já teve um enfarte), e essa avaliação cabe ao médico. Nenhum valor se lê isolado: cruza-se sempre com a idade, os hábitos e a história familiar do utente, e encaminha-se para o farmacêutico sempre que se justifique.
6. Teste de gravidez (hCG)
O teste de gravidez deteta a hormona hCG (gonadotrofina coriónica humana) na urina, através de imunocromatografia.
Quando e como fazer
- Faz sentido a partir do atraso menstrual, altura em que a concentração de hCG já é detetável na urina.
- Recomenda-se usar a primeira urina da manhã, mais concentrada, para maior fiabilidade.
- O resultado deve ser lido dentro do intervalo de tempo indicado no inserto do teste: cedo ou tarde de mais, o resultado pode não ser correto.
- Um teste válido mostra sempre a linha de controlo; se essa linha não aparecer, o teste é inválido e repete-se com outro dispositivo.
Cuidados e encaminhamento
Este é um dos momentos em que a privacidade e a comunicação assertiva mais pesam: explica-se o procedimento com linguagem clara, respeitando o pudor da utente, e nunca se comenta o resultado à frente de acompanhantes sem o seu consentimento. Um resultado positivo ou negativo, em contexto de dúvida clínica, ou perante sintomas de alarme como dor abdominal intensa ou hemorragia, encaminha-se sempre para avaliação médica ou pelo farmacêutico.
7. Pressão arterial
A pressão arterial mede-se com um esfigmomanómetro (manual, aneroide ou eletrónico validado).
Técnica de medição
- O utente não deve ter fumado, tomado café nem feito exercício nos 30 minutos anteriores, e senta-se com as costas apoiadas e os pés no chão, em repouso, pelo menos 5 minutos antes da medição, sem falar durante o processo.
- O braço é apoiado ao nível do coração.
- A braçadeira tem de ter o tamanho adequado ao perímetro do braço: demasiado pequena, sobrestima o valor; demasiado grande, subestima-o.
- Fazem-se pelo menos duas medições, com 1 a 2 minutos de intervalo, e regista-se a sistólica (valor máximo) sobre a diastólica (valor mínimo), em mmHg.
Valores de referência
| Classificação (DGS / ESH, medição no consultório) | Sistólica / Diastólica (mmHg) |
|---|---|
| Ótima | inferior a 120 e inferior a 80 |
| Normal | 120-129 e/ou 80-84 |
| Normal-alta | 130-139 e/ou 85-89 |
| Hipertensão | igual ou superior a 140 e/ou 90 |
Quando a sistólica e a diastólica caem em classes diferentes, conta a classe mais alta. O diagnóstico de hipertensão é médico e exige valores elevados em várias ocasiões.
Um utente ansioso mede 145/92 mmHg à primeira medição. Depois de 10 minutos sentado e em silêncio, a segunda medição dá 128/82 mmHg. O técnico auxiliar regista as duas leituras e explica que um valor isolado, sobretudo em contexto de ansiedade, pesa menos do que valores repetidos ao longo de várias visitas; ainda assim, se o padrão se mantiver elevado, encaminha para o farmacêutico.
8. Peso, IMC e perímetro abdominal
Peso e Índice de Massa Corporal
Mede-se o peso numa balança calibrada e a altura num estadiómetro, com o utente descalço. O IMC calcula-se dividindo o peso (em kg) pela altura ao quadrado (em metros): IMC = peso ÷ altura².
| Classificação (OMS) | IMC (kg/m²) |
|---|---|
| Baixo peso | inferior a 18,5 |
| Normal | 18,5 a 24,9 |
| Excesso de peso | 25 a 29,9 |
| Obesidade | igual ou superior a 30 |
Exemplo resolvido de cálculo do IMC
Um utente pesa 70 kg e mede 1,70 m de altura.
- Elevar a altura ao quadrado: 1,70 × 1,70 = 2,89 m².
- Dividir o peso pelo resultado: 70 ÷ 2,89 ≈ 24,2 kg/m².
- Classificar: 24,2 está entre 18,5 e 24,9, portanto peso normal.
O IMC é um indicador orientativo: não distingue massa gorda de massa muscular, e um atleta musculado pode ter um valor "elevado" sem excesso de gordura.
Perímetro abdominal
Mede-se com fita métrica, no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca, no final de uma expiração normal, sem apertar a fita.
| Risco cardiovascular | Homem | Mulher |
|---|---|---|
| Aumentado | igual ou superior a 94 cm | igual ou superior a 80 cm |
| Muito aumentado | igual ou superior a 102 cm | igual ou superior a 88 cm |
Este valor acrescenta informação sobre a distribuição da gordura corporal: gordura concentrada no abdómen associa-se a maior risco cardiovascular, mesmo quando o IMC é normal.
9. Frequência cardíaca
A frequência cardíaca pode determinar-se de duas formas:
- Manual: palpar o pulso radial (na face interna do pulso) com dois dedos, e contar as pulsações durante 60 segundos, ou durante 30 segundos e multiplicar por dois.
- Eletrónica: com um oxímetro de pulso ou um monitor de frequência cardíaca validado.
O valor de referência em repouso, no adulto, situa-se entre 60 e 100 batimentos por minuto. Abaixo deste intervalo fala-se em bradicardia, acima, em taquicardia; qualquer um dos dois, em repouso e sem explicação óbvia (como esforço físico recente), justifica encaminhamento para o farmacêutico.
Um atleta bem treinado pode ter, em repouso, uma frequência cardíaca abaixo de 60 batimentos por minuto sem qualquer problema. O contexto do utente é sempre parte da leitura do resultado.
10. Comunicação, perguntas e aconselhamento ao utente
Determinar um parâmetro é só metade do atendimento. A outra metade é comunicar o resultado e aconselhar o utente.
Comunicação verbal e não verbal assertiva
A comunicação assertiva combina um tom calmo, uma postura aberta e contacto visual adequado, com linguagem clara e acessível, sem termos técnicos desnecessários. A escuta ativa implica deixar o utente explicar o motivo da sua visita antes de o interromper, e respeitar o seu ritmo, sobretudo perante um resultado alterado.
Perguntas a colocar ao utente
Antes de qualquer determinação, há perguntas que ajudam a contextualizar o resultado:
- Qual o motivo da visita e se há sintomas associados.
- Que medicação habitual toma, que pode influenciar o valor medido.
- Se está em jejum e há quanto tempo.
- Se há historial pessoal ou familiar relevante para aquele parâmetro.
Aconselhamento ao utente
Depois de comunicar o resultado, o técnico auxiliar aconselha sobre hábitos e estilo de vida compatíveis com esse resultado (por exemplo, hidratação, alimentação equilibrada, atividade física), sempre dentro dos seus limites: nunca prescreve um medicamento nem ajusta uma terapêutica.
11. Encaminhamento para o farmacêutico
Referenciar para avaliação pelo farmacêutico, sempre que se justifique, é uma das aptidões centrais desta UC.
Quando encaminhar
- O valor está fora dos limites de referência, sobretudo se se repetir.
- Há sintomas de alarme (dor intensa, falta de ar, hemorragia).
- O utente manifesta dúvida ou preocupação que exige mais explicação do que o técnico auxiliar pode dar.
- É a primeira determinação alterada desse utente para aquele parâmetro.
Os limites da atuação do técnico auxiliar
O técnico auxiliar não diagnostica doenças, não prescreve medicamentos e não ajusta terapêuticas. A sua função é apoiar: preparar, executar a técnica quando habilitado, registar, comunicar e encaminhar. Reconhecer este limite não é uma falha; é uma forma concreta de rigor e de responsabilidade profissional.
Adiar um encaminhamento por receio de "incomodar" o utente ou o farmacêutico é um erro grave. Um valor de pressão arterial muito elevado, confirmado numa segunda medição, encaminha-se de imediato, sem esperar por outra visita. Pressão arterial igual ou superior a 180/110 mmHg com sintomas (dor no peito, falta de ar, dor de cabeça intensa, alterações da visão, fraqueza ou dificuldade em falar) é uma urgência: chama-se de imediato o farmacêutico e, se necessário, o 112.
12. Gestão de resíduos e plano interno de qualidade
A última realização desta UC junta duas responsabilidades que garantem a sustentabilidade do serviço ao longo do tempo.
Gestão de resíduos na farmácia
As determinações geram dois tipos de resíduos que exigem cuidado:
- Resíduos corto-perfurantes, como as lancetas usadas, que vão para contentores rígidos próprios, resistentes à perfuração, e nunca se reencapsulam antes de descartar. Pertencem ao Grupo IV (resíduos específicos, de incineração obrigatória).
- Resíduos contaminados não perfurantes, como tiras teste usadas, algodão e luvas com sangue, que pertencem ao Grupo III (risco biológico).
Esta classificação em quatro grupos vem do Despacho n.º 242/96, que se aplica aos resíduos das unidades de saúde, incluindo as farmácias. Os Grupos I e II são equiparados a urbanos; os Grupos III e IV são perigosos e são entregues a um operador licenciado.
Nenhum destes materiais vai para o lixo comum. Uma picada acidental com uma lanceta mal descartada é um risco real, tanto para colegas de trabalho como para quem recolhe o lixo.
O plano interno de qualidade
- Procedimentos escritos para cada determinação, acessíveis a toda a equipa.
- Calibração e manutenção periódica dos equipamentos, com registo de cada intervenção.
- Registo de não conformidades, como um resultado suspeito de erro técnico, e da ação corretiva tomada.
- Formação contínua da equipa sobre novas técnicas e atualizações regulamentares.
Cumprir o plano de qualidade transforma um bom procedimento isolado num serviço consistente ao longo do tempo, e é o que permite à farmácia demonstrar, perante uma auditoria ou perante um utente, que o serviço é seguro e fiável.
Erros comuns
- Confundir determinar com diagnosticar: dizer a um utente que "tem diabetes" ou "está hipertenso" em vez de sinalizar o valor e encaminhar.
- Não perguntar pelo jejum antes da glicemia ou do perfil lipídico, e comparar o resultado com valores de referência que não se aplicam.
- Reencapsular lancetas antes de as descartar, aumentando o risco de picada acidental.
- Usar equipamento fora do prazo de calibração "só desta vez", por falta de tempo.
- Adiar o encaminhamento por receio de incomodar o utente ou o farmacêutico.
- Comentar um resultado num espaço onde outras pessoas ouvem, quebrando o sigilo profissional.
- Arredondar valores lidos no equipamento em vez de registar o número exato mostrado.
Glossário
- hCG: gonadotrofina coriónica humana, hormona detetada no teste de gravidez.
- IMC: Índice de Massa Corporal, peso a dividir pela altura ao quadrado.
- Ponto de cuidado (point-of-care): dispositivo de determinação usado junto do utente, fora do laboratório.
- Jejum: período sem ingestão de alimentos, relevante para a glicemia e o perfil lipídico.
- Bradicardia: frequência cardíaca em repouso abaixo de 60 batimentos por minuto.
- Taquicardia: frequência cardíaca em repouso acima de 100 batimentos por minuto.
- Resíduo corto-perfurante: resíduo capaz de picar ou cortar, como uma lanceta usada.
- Encaminhamento: ato de referenciar o utente para avaliação pelo farmacêutico ou pelo médico.
- Plano interno de qualidade: conjunto de procedimentos, registos e formação que garantem a consistência do serviço.
- Sigilo profissional: dever de não divulgar informação de saúde do utente sem o seu consentimento.
Síntese
O Serviço de Determinação de Parâmetros na farmácia comunitária assenta em três pilares: uniformizar e sistematizar procedimentos, executar com rigor as sete técnicas (glicemia, perfil lipídico, hCG, pressão arterial, IMC, perímetro abdominal, frequência cardíaca), e comunicar, aconselhar e encaminhar dentro dos limites da função. Tudo isto decorre dentro de um enquadramento legal e ético claro, e termina com a gestão de resíduos e o cumprimento do plano interno de qualidade. O técnico auxiliar apoia; quem decide clinicamente é sempre o farmacêutico ou o médico.
Exercícios resolvidos
1. Um utente pede para medir a glicemia mas não sabe se está em jejum, porque bebeu apenas água há duas horas. O técnico auxiliar pode considerar isto jejum?
Resolução: sim. Água sem calorias não quebra o jejum para efeitos de glicemia. O técnico auxiliar regista que o utente está em jejum e a última ingestão foi apenas água.
2. Calcula o IMC de uma utente com 58 kg e 1,60 m de altura, e classifica o resultado.
Resolução: IMC = 58 ÷ (1,60 × 1,60) = 58 ÷ 2,56 ≈ 22,7 kg/m². Está entre 18,5 e 24,9, portanto peso normal.
3. Um homem apresenta perímetro abdominal de 96 cm. Como se classifica o risco cardiovascular associado?
Resolução: 96 cm está entre 94 e 102 cm, portanto o risco é aumentado (mas não "muito aumentado", que exigiria 102 cm ou mais).
4. Uma utente mede a pressão arterial e obtém 138/86 mmHg. Como se classifica, e que se faz a seguir?
Resolução: 138/86 mmHg situa-se na faixa normal-alta (130-139 / 85-89). Não é ainda hipertensão, mas justifica registar o valor, aconselhar hábitos saudáveis e sugerir nova medição numa próxima visita; se o padrão persistir ou subir, encaminha-se para o farmacêutico.
5. Um colega vai reencapsular uma lanceta usada antes de a deitar fora, para "ocupar menos espaço no contentor". Está correto?
Resolução: não. Reencapsular uma lanceta usada aumenta o risco de picada acidental durante essa ação. A lanceta descarta-se diretamente, sem reencapsular, no contentor rígido próprio para resíduos corto-perfurantes.
6. Um utente com glicemia de jejum de 118 mg/dL, medida duas vezes em semanas diferentes, pergunta se tem diabetes. Que responde o técnico auxiliar?
Resolução: o técnico auxiliar não diz que o utente "tem diabetes", porque isso é um diagnóstico. Explica que o valor está acima do normal, na faixa de anomalia da glicemia em jejum (110 a 125 mg/dL, segundo a DGS), que se repete em duas determinações, e encaminha para o farmacêutico e para avaliação médica, para confirmação clínica.