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UC · Unidade de Competência · UC03491

Sebenta · Identificar as características do medicamento (UC03491)

Formas farmacêuticas, vias de administração, percurso no organismo e uso racional do medicamento
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Auxiliar de Farmácia ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara o técnico auxiliar de farmácia para identificar corretamente as características do medicamento: a sua forma, a via pela qual entra no organismo, o percurso que faz até produzir efeito, e a forma como se classifica quanto à dispensa. É conhecimento de base para qualquer atendimento ao balcão, seguro e dentro dos limites da profissão.

O técnico auxiliar apoia o farmacêutico, não o substitui. Reconhecer uma forma farmacêutica, explicar uma via de administração ou entender porque um medicamento exige receita médica faz parte do dia a dia; decidir uma terapêutica, ajustar uma dose ou avaliar um sintoma clínico não faz, e é nesses momentos que se encaminha para o farmacêutico.

Objetivos de aprendizagem (referencial): identificar as formas farmacêuticas, as vias de administração e o percurso do medicamento no organismo; distinguir a terapêutica farmacológica da terapêutica não farmacológica; e promover o uso racional dos medicamentos, educando o utente para comportamentos seguros e encaminhando para o farmacêutico sempre que se justifique.

1. O medicamento, a substância ativa e os excipientes

Segundo o Estatuto do Medicamento (Decreto-Lei n.º 176/2006, de 30 de agosto, que transpõe a legislação europeia), medicamento é toda a substância ou associação de substâncias apresentada como possuindo propriedades curativas ou preventivas de doenças em seres humanos ou dos seus sintomas, ou que possa ser utilizada ou administrada no ser humano com vista a estabelecer um diagnóstico médico ou, exercendo uma ação farmacológica, imunológica ou metabólica, a restaurar, corrigir ou modificar funções fisiológicas.

Um medicamento tem sempre duas partes:

Medicamento genérico

Um medicamento genérico tem a mesma composição qualitativa e quantitativa em substância(s) ativa(s) e a mesma forma farmacêutica que o medicamento de referência, e a sua bioequivalência com o de referência foi demonstrada por estudos de biodisponibilidade. Na embalagem aparece a DCI seguida da sigla MG.

Ter a mesma DCI, a mesma dosagem e a mesma forma farmacêutica não basta para dois medicamentos serem bioequivalentes: a bioequivalência tem de ser demonstrada em estudos (a substância ativa chega ao sangue na mesma quantidade e à mesma velocidade, dentro de limites aceites). É essa demonstração que permite ao genérico substituir o medicamento de referência com a mesma eficácia e segurança. A decisão de troca na dispensa segue as regras da receita e é validada pelo farmacêutico.

Exemplo resolvido · ler um rótulo

Um comprimido tem no rótulo: "Paracetamol Ratiopharm 500 mg comprimidos". Aqui, Paracetamol é a DCI (substância ativa), Ratiopharm é o laboratório (titular da autorização de introdução no mercado), 500 mg é a dosagem por comprimido e comprimidos é a forma farmacêutica. Os restantes componentes do comprimido (amido, celulose, corante, se existir) são excipientes.

2. Formas farmacêuticas sólidas

As formas farmacêuticas sólidas são as mais usadas em ambulatório, por serem estáveis, fáceis de dosear e de transportar.

Forma Descrição Exemplo de uso
Pós substância pulverizada, para dissolver ou aplicar pós para suspensão oral
Granulados pó aglomerado em grânulos granulados efervescentes
Comprimidos pó comprimido em forma sólida e compacta a forma sólida mais comum
Drageias comprimidos revestidos por camadas de açúcar (os revestidos por película fina chamam-se comprimidos revestidos por película) mascarar sabor amargo, proteger da humidade
Cápsulas invólucro (duro ou mole) que contém pó, grânulos ou líquido cápsulas de gelatina
Pastilhas forma sólida para dissolução lenta na boca pastilhas para a garganta

Dentro dos comprimidos há variações importantes:

Comprimidos gastrorresistentes e de libertação prolongada não se partem, não se mastigam e não se trituram, salvo se o folheto informativo o permitir expressamente. Partir um comprimido de libertação prolongada pode libertar de uma só vez a dose prevista para várias horas, com risco de sobredosagem. Triturar um gastrorresistente expõe a substância ao ácido do estômago (perde eficácia) ou expõe o estômago a uma substância irritante. Se o utente tiver dificuldade em engolir, encaminha-se para o farmacêutico, que avalia uma alternativa.

3. Formas farmacêuticas semissólidas

As formas semissólidas destinam-se sobretudo à aplicação tópica, na pele ou em mucosas.

Forma Base Característica
Pomadas base oleosa oclusiva, protege e hidrata
Cremes emulsão (óleo em água ou água em óleo) fácil de espalhar, menos gordurosa
Geles base aquosa (hidrogel) fresca, não gordurosa, seca rápido
Pastas elevada proporção de pó numa base semissólida mais espessa, protetora
Unguentos base gorda, muito oclusiva ação prolongada sobre a pele

A escolha da base influencia diretamente a absorção e o conforto: uma pele seca beneficia de uma base mais oleosa (pomada), enquanto uma lesão exsudativa beneficia de uma base aquosa (gel).

4. Formas farmacêuticas líquidas

As formas líquidas facilitam a administração a crianças, pessoas idosas ou quem tem dificuldade em engolir sólidos, e permitem ajustar a dose com precisão.

Uma suspensão não agitada dá uma dose diferente no início e no fim do frasco: no início, mais diluída; no fim, mais concentrada. É um erro de dispensa e de administração frequente.

5. Formas farmacêuticas especiais

Além das formas correntes, existem formas concebidas para percursos específicos no organismo.

Um utente asmático usa um inalador MDI. A técnica correta implica agitar o dispositivo, expirar totalmente longe do bocal, pressionar e inspirar lenta e profundamente ao mesmo tempo, e suster a respiração cerca de 10 segundos (ou o tempo que for confortável). Com um DPI não se agita e a inspiração deve ser rápida e forte. Uma técnica incorreta reduz drasticamente a quantidade de fármaco que chega aos pulmões, mesmo com o medicamento certo. Ensinar ou rever a técnica de inalação é feito segundo as instruções do folheto e com apoio do farmacêutico.

6. Vias de administração dos medicamentos

A via de administração é o caminho pelo qual o medicamento entra no organismo. Agrupa-se em três grandes categorias.

Administração entérica

Utiliza o trato gastrointestinal.

Efeito de primeira passagem: perda de parte da substância ativa, metabolizada no fígado (e na parede intestinal) antes de chegar à circulação geral. É por isso que certas substâncias precisam de doses orais maiores do que por outras vias, ou nem se podem dar por via oral.

Administração parentérica

Contorna o trato digestivo, injetando diretamente no organismo.

Outras vias de administração

Valores indicativos de início de ação (variam muito com a substância e a formulação):

Via Início de ação Exemplo típico
Intravenosa imediato (segundos) medicação injetável em contexto hospitalar
Sublingual rápido (poucos minutos) nitroglicerina sublingual
Intramuscular rápido (cerca de 10 a 20 minutos) algumas vacinas e injetáveis
Subcutânea intermédio (cerca de 15 a 30 minutos) insulina
Oral mais lento (cerca de 30 a 90 minutos) comprimido de uso corrente
Transdérmica muito lento, horas, com libertação constante adesivo de nicotina

7. O percurso do medicamento no organismo: absorção, distribuição, metabolização e excreção

Entre a administração e o efeito terapêutico, o medicamento percorre quatro etapas, conhecidas pela sigla ADME.

  1. Absorção: passagem da substância ativa do local de administração para a corrente sanguínea. Depende da via escolhida, da forma farmacêutica e da solubilidade da substância. A via intravenosa é a única das vias estudadas sem etapa de absorção, porque o medicamento entra já na circulação; as vias intramuscular e subcutânea, embora parentéricas, têm absorção a partir do local da injeção.
  2. Distribuição: transporte pelo sangue até aos tecidos e órgãos onde vai atuar. Parte da substância liga-se a proteínas do plasma; só a fração livre é ativa.
  3. Metabolização (biotransformação): transformação química da substância, principalmente no fígado, em metabolitos que podem ser inativos, ainda ativos ou até tóxicos.
  4. Excreção: eliminação do organismo, sobretudo por via renal (na urina), mas também biliar, fecal, pulmonar ou pelo suor.

Um comprimido de paracetamol tomado por via oral é absorvido sobretudo no intestino delgado, distribuído pelo sangue até chegar ao local de ação, metabolizado no fígado, e excretado pelos rins na urina, na forma de metabolitos. O alívio da dor começa tipicamente 30 a 60 minutos após a toma.

Este percurso explica porque a insuficiência renal ou hepática obriga muitas vezes a ajustar a dose de um medicamento: se o órgão responsável pela metabolização ou pela excreção não funciona bem, a substância acumula-se e o risco de toxicidade aumenta.

Biodisponibilidade e semivida

Dois conceitos ajudam a perceber este percurso:

Uma substância tem semivida de 6 horas e a concentração no sangue, num dado momento, é de 40 mg/L. Ao fim de 6 horas fica em 20 mg/L; ao fim de 12 horas, 10 mg/L; ao fim de 18 horas, 5 mg/L; ao fim de 24 horas (4 semividas), 2,5 mg/L, ou seja, cerca de 6% do valor inicial.

8. Efeito terapêutico, reação adversa, posologia e margem terapêutica

Quatro conceitos que qualquer técnico auxiliar deve dominar antes de dispensar um medicamento:

Um medicamento de margem terapêutica estreita não se ajusta "a olho". Qualquer dúvida sobre a dose de um utente com este tipo de medicação é sempre encaminhada ao farmacêutico, nunca decidida pelo técnico auxiliar.

9. Classificação dos medicamentos e a dispensa em farmácia

Os medicamentos classificam-se por vários critérios, que se complementam.

Quanto à origem da preparação:

Quanto à composição:

Quanto ao local de uso:

Quanto à dispensa, a classificação mais relevante para o atendimento diário:

Sigla Significado Dispensa
MSRM Medicamento Sujeito a Receita Médica só em farmácia e só com receita médica válida
MNSRM Medicamento Não Sujeito a Receita Médica sem receita, em farmácias e em locais de venda de MNSRM registados no INFARMED (parafarmácias, espaços em hipermercados), sempre sob responsabilidade de pessoal qualificado
MNSRM-EF Medicamento Não Sujeito a Receita Médica de dispensa exclusiva em farmácia sem receita, mas só em farmácia, com intervenção do farmacêutico e aplicação de um protocolo de dispensa aprovado pelo INFARMED

Os MSRM subdividem-se, segundo o Estatuto do Medicamento, em:

O MNSRM-EF é uma subcategoria dos MNSRM: o protocolo de dispensa define as condições em que o farmacêutico pode dispensar o medicamento e quando deve encaminhar para o médico.

Um antibiótico é sempre MSRM: exige receita médica, porque o seu uso indevido tem risco individual e coletivo (resistências bacterianas). O paracetamol 500 mg em comprimidos é MNSRM e pode ser vendido numa parafarmácia registada. A contraceção de emergência com ulipristal 30 mg ou o cetoprofeno 25 mg por via oral são exemplos de MNSRM-EF: não exigem receita, mas só se dispensam em farmácia, depois de o farmacêutico aplicar o protocolo de dispensa.

10. Populações especiais

Certos grupos de utentes exigem atenção redobrada na dispensa e na educação para a toma correta do medicamento.

Perante qualquer utente destes grupos, o papel do técnico auxiliar não é decidir a dose, mas reconhecer o sinal de alerta e encaminhar para o farmacêutico antes de concluir a venda.

11. Terapêutica farmacológica e terapêutica não farmacológica: o uso racional do medicamento

Nem todo o problema de saúde se resolve com um medicamento.

O uso racional do medicamento significa usar o medicamento certo, na dose certa, pela via certa, durante o tempo certo, para o problema certo. Cabe ao técnico auxiliar promover este uso racional junto do utente: explicar a forma correta de tomar o medicamento, alertar para não interromper um tratamento sem indicação, desaconselhar a automedicação prolongada e nunca substituir o aconselhamento do farmacêutico.

Uma dor de cabeça ligeira e ocasional pode aliviar com repouso e hidratação (terapêutica não farmacológica), e pode justificar um analgésico (terapêutica farmacológica), cuja escolha cabe ao farmacêutico. Uma dor de cabeça intensa, persistente, diferente do habitual ou que se repete com frequência é um sinal de alerta: o caso é encaminhado para o farmacêutico, que pode referenciar para o médico, e não se resolve com a venda repetida do mesmo medicamento.

12. O papel do técnico auxiliar de farmácia

Todo o conhecimento sobre formas farmacêuticas, vias, percurso no organismo e classificação serve um propósito prático: um atendimento seguro. O técnico auxiliar:

Conservação, rotulagem e segurança da embalagem

Este limite não é uma restrição arbitrária: é o que garante a segurança do utente e o correto funcionamento da equipa da farmácia.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O medicamento tem uma substância ativa (identificada pela DCI) e excipientes. Apresenta-se numa forma farmacêutica (sólida, semissólida, líquida ou especial), que determina a via de administração possível (entérica, parentérica ou outra). Depois de administrado, percorre quatro etapas até produzir efeito: absorção, distribuição, metabolização e excreção (ADME). O resultado desse percurso é o efeito terapêutico, que convive sempre com o risco de reação adversa, e é regulado pela posologia e limitado pela margem terapêutica. Os medicamentos classificam-se ainda quanto à origem, à composição, ao local de uso e, sobretudo, quanto à dispensa (MSRM, MNSRM, MNSRM-EF), que determina onde e como se dispensam. Certas populações especiais exigem atenção redobrada. Nem tudo se trata com medicamentos: a terapêutica não farmacológica tem o seu lugar, e o objetivo final é sempre o uso racional do medicamento, com o técnico auxiliar a educar o utente e a encaminhar para o farmacêutico sempre que a situação o exija.

Exercícios resolvidos

1. Um utente traz uma caixa de "Ibuprofeno Generis 400 mg comprimidos revestidos". Identifica a DCI, o laboratório, a dosagem e a forma farmacêutica.

Resolução: DCI: ibuprofeno. Laboratório: Generis. Dosagem: 400 mg. Forma farmacêutica: comprimidos revestidos.

2. Explica porque uma suspensão oral deve ser sempre agitada antes de se medir a dose.

Resolução: Numa suspensão, as partículas sólidas não se dissolvem no líquido e sedimentam com o tempo. Sem agitar, a parte de cima do frasco fica mais diluída e o fundo mais concentrado, pelo que a dose retirada não corresponde à quantidade correta de substância ativa.

3. Um utente vai iniciar um adesivo transdérmico de nicotina. Explica, em termos de absorção, como este sistema difere de um comprimido oral.

Resolução: No adesivo transdérmico, a substância ativa atravessa a pele diretamente para a circulação sistémica, de forma lenta e constante ao longo de horas. Não passa pelo estômago nem sofre o efeito de primeira passagem hepática que o comprimido oral sofre logo após a absorção intestinal.

4. Ordena as quatro etapas do percurso do medicamento no organismo (ADME) e descreve cada uma em uma frase.

Resolução: 1. Absorção (passagem para o sangue), 2. Distribuição (transporte até aos tecidos), 3. Metabolização (transformação, principalmente no fígado), 4. Excreção (eliminação, principalmente pelos rins).

5. Um utente com insuficiência renal pergunta se pode continuar a tomar um medicamento habitual sem qualquer ajuste. Que respondes, e porquê?

Resolução: Encaminho para o farmacêutico. A insuficiência renal reduz a capacidade de excretar o medicamento e os seus metabolitos, o que pode levar à acumulação da substância e a um risco maior de toxicidade; a decisão sobre manter, ajustar ou trocar a dose é do farmacêutico ou do médico, nunca do técnico auxiliar.

6. Classifica quanto à dispensa: (a) um antibiótico; (b) paracetamol 500 mg comprimidos, à venda numa parafarmácia; (c) ulipristal 30 mg para contraceção de emergência, que não exige receita mas só se dispensa em farmácia segundo protocolo.

Resolução: (a) MSRM, exige receita médica pelo risco de resistências e uso indevido. (b) MNSRM, dispensa sem receita, em farmácias e em locais de venda de MNSRM registados. (c) MNSRM-EF, não exige receita, mas só se dispensa em farmácia, com intervenção do farmacêutico e aplicação do protocolo de dispensa.

7. Distingue terapêutica farmacológica de terapêutica não farmacológica, com um exemplo de cada, para o caso de uma dor lombar ligeira.

Resolução: Terapêutica não farmacológica: manter-se ativo evitando o repouso absoluto, calor local, alongamentos suaves. Terapêutica farmacológica: um analgésico ou anti-inflamatório, cuja escolha é feita pelo farmacêutico (ou prescrita pelo médico). Muitas vezes as duas combinam-se, e o uso racional do medicamento significa não recorrer ao fármaco quando as medidas não farmacológicas já resolvem o problema. O técnico auxiliar pode reforçar as medidas não farmacológicas, mas a indicação de um medicamento cabe ao farmacêutico.

8. Um utente toma um medicamento com semivida de 8 horas. Quanto tempo é preciso, aproximadamente, para a substância ficar praticamente eliminada do organismo depois da última toma?

Resolução: Considera-se praticamente eliminada ao fim de 4 a 5 semividas: 4 × 8 = 32 horas a 5 × 8 = 40 horas. Ao fim de 32 horas resta cerca de 6% (1/16) e ao fim de 40 horas cerca de 3% (1/32).