Sebenta · Identificar as características do medicamento (UC03491)
- Introdução
- 1. O medicamento, a substância ativa e os excipientes
- 2. Formas farmacêuticas sólidas
- 3. Formas farmacêuticas semissólidas
- 4. Formas farmacêuticas líquidas
- 5. Formas farmacêuticas especiais
- 6. Vias de administração dos medicamentos
- 7. O percurso do medicamento no organismo: absorção, distribuição, metabolização e excreção
- 8. Efeito terapêutico, reação adversa, posologia e margem terapêutica
- 9. Classificação dos medicamentos e a dispensa em farmácia
- 10. Populações especiais
- 11. Terapêutica farmacológica e terapêutica não farmacológica: o uso racional do medicamento
- 12. O papel do técnico auxiliar de farmácia
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara o técnico auxiliar de farmácia para identificar corretamente as características do medicamento: a sua forma, a via pela qual entra no organismo, o percurso que faz até produzir efeito, e a forma como se classifica quanto à dispensa. É conhecimento de base para qualquer atendimento ao balcão, seguro e dentro dos limites da profissão.
O técnico auxiliar apoia o farmacêutico, não o substitui. Reconhecer uma forma farmacêutica, explicar uma via de administração ou entender porque um medicamento exige receita médica faz parte do dia a dia; decidir uma terapêutica, ajustar uma dose ou avaliar um sintoma clínico não faz, e é nesses momentos que se encaminha para o farmacêutico.
Objetivos de aprendizagem (referencial): identificar as formas farmacêuticas, as vias de administração e o percurso do medicamento no organismo; distinguir a terapêutica farmacológica da terapêutica não farmacológica; e promover o uso racional dos medicamentos, educando o utente para comportamentos seguros e encaminhando para o farmacêutico sempre que se justifique.
1. O medicamento, a substância ativa e os excipientes
Segundo o Estatuto do Medicamento (Decreto-Lei n.º 176/2006, de 30 de agosto, que transpõe a legislação europeia), medicamento é toda a substância ou associação de substâncias apresentada como possuindo propriedades curativas ou preventivas de doenças em seres humanos ou dos seus sintomas, ou que possa ser utilizada ou administrada no ser humano com vista a estabelecer um diagnóstico médico ou, exercendo uma ação farmacológica, imunológica ou metabólica, a restaurar, corrigir ou modificar funções fisiológicas.
Um medicamento tem sempre duas partes:
- Substância ativa (princípio ativo): a substância responsável pelo efeito terapêutico. Identifica-se pela DCI (Denominação Comum Internacional), o nome genérico e internacional da substância, atribuído pela Organização Mundial da Saúde, por exemplo paracetamol ou ibuprofeno. O nome comercial (marca) pode variar de fabricante para fabricante, mas a DCI é sempre a mesma.
- Excipientes: segundo o Estatuto do Medicamento, qualquer componente do medicamento que não seja a substância ativa nem o material de embalagem. Não se destinam a ter efeito terapêutico. Servem para dar corpo, sabor, cor, estabilidade ou facilitar a libertação da substância ativa (veículos, aglutinantes, conservantes, corantes, aromatizantes, edulcorantes). Um excipiente pode não ter ação terapêutica e, mesmo assim, ser clinicamente relevante: a lactose, o glúten ou certos corantes presentes em alguns medicamentos podem causar reações em utentes intolerantes ou alérgicos, e por isso são declarados no folheto informativo.
Medicamento genérico
Um medicamento genérico tem a mesma composição qualitativa e quantitativa em substância(s) ativa(s) e a mesma forma farmacêutica que o medicamento de referência, e a sua bioequivalência com o de referência foi demonstrada por estudos de biodisponibilidade. Na embalagem aparece a DCI seguida da sigla MG.
Ter a mesma DCI, a mesma dosagem e a mesma forma farmacêutica não basta para dois medicamentos serem bioequivalentes: a bioequivalência tem de ser demonstrada em estudos (a substância ativa chega ao sangue na mesma quantidade e à mesma velocidade, dentro de limites aceites). É essa demonstração que permite ao genérico substituir o medicamento de referência com a mesma eficácia e segurança. A decisão de troca na dispensa segue as regras da receita e é validada pelo farmacêutico.
Exemplo resolvido · ler um rótulo
Um comprimido tem no rótulo: "Paracetamol Ratiopharm 500 mg comprimidos". Aqui, Paracetamol é a DCI (substância ativa), Ratiopharm é o laboratório (titular da autorização de introdução no mercado), 500 mg é a dosagem por comprimido e comprimidos é a forma farmacêutica. Os restantes componentes do comprimido (amido, celulose, corante, se existir) são excipientes.
2. Formas farmacêuticas sólidas
As formas farmacêuticas sólidas são as mais usadas em ambulatório, por serem estáveis, fáceis de dosear e de transportar.
| Forma | Descrição | Exemplo de uso |
|---|---|---|
| Pós | substância pulverizada, para dissolver ou aplicar | pós para suspensão oral |
| Granulados | pó aglomerado em grânulos | granulados efervescentes |
| Comprimidos | pó comprimido em forma sólida e compacta | a forma sólida mais comum |
| Drageias | comprimidos revestidos por camadas de açúcar (os revestidos por película fina chamam-se comprimidos revestidos por película) | mascarar sabor amargo, proteger da humidade |
| Cápsulas | invólucro (duro ou mole) que contém pó, grânulos ou líquido | cápsulas de gelatina |
| Pastilhas | forma sólida para dissolução lenta na boca | pastilhas para a garganta |
Dentro dos comprimidos há variações importantes:
- Comprimidos revestidos (por película ou açúcar): protegem a substância ativa da luz e da humidade ou mascaram o sabor.
- Comprimidos gastrorresistentes: têm um revestimento que resiste ao ácido do estômago e só se dissolve no intestino. Protegem uma substância ativa que o ácido destruiria (por exemplo, o omeprazol e outros inibidores da bomba de protões) ou protegem o estômago de uma substância irritante.
- Comprimidos de libertação modificada (prolongada ou retardada, com siglas como LP, SR, XL ou Retard no nome comercial): libertam a substância ativa de forma controlada ao longo de várias horas, permitindo menos tomas por dia.
- Efervescentes: dissolvem-se em água antes de tomar. Contêm frequentemente sódio, o que é relevante em utentes com dieta pobre em sal.
- Sublinguais: dissolvem-se debaixo da língua, absorção rápida pela mucosa.
- Orodispersíveis: dissolvem-se na boca sem precisar de água, úteis para quem tem dificuldade em engolir.
Comprimidos gastrorresistentes e de libertação prolongada não se partem, não se mastigam e não se trituram, salvo se o folheto informativo o permitir expressamente. Partir um comprimido de libertação prolongada pode libertar de uma só vez a dose prevista para várias horas, com risco de sobredosagem. Triturar um gastrorresistente expõe a substância ao ácido do estômago (perde eficácia) ou expõe o estômago a uma substância irritante. Se o utente tiver dificuldade em engolir, encaminha-se para o farmacêutico, que avalia uma alternativa.
3. Formas farmacêuticas semissólidas
As formas semissólidas destinam-se sobretudo à aplicação tópica, na pele ou em mucosas.
| Forma | Base | Característica |
|---|---|---|
| Pomadas | base oleosa | oclusiva, protege e hidrata |
| Cremes | emulsão (óleo em água ou água em óleo) | fácil de espalhar, menos gordurosa |
| Geles | base aquosa (hidrogel) | fresca, não gordurosa, seca rápido |
| Pastas | elevada proporção de pó numa base semissólida | mais espessa, protetora |
| Unguentos | base gorda, muito oclusiva | ação prolongada sobre a pele |
A escolha da base influencia diretamente a absorção e o conforto: uma pele seca beneficia de uma base mais oleosa (pomada), enquanto uma lesão exsudativa beneficia de uma base aquosa (gel).
4. Formas farmacêuticas líquidas
As formas líquidas facilitam a administração a crianças, pessoas idosas ou quem tem dificuldade em engolir sólidos, e permitem ajustar a dose com precisão.
- Soluções: substância ativa completamente dissolvida no veículo, mistura homogénea e transparente.
- Suspensões: partículas sólidas dispersas num líquido, sem se dissolverem; sedimentam com o tempo, por isso agitam-se sempre antes de usar.
- Emulsões: mistura de dois líquidos não miscíveis (óleo e água) estabilizada por um emulsionante.
- Xaropes: solução aquosa viscosa com elevada concentração de açúcar (ou de edulcorante, nas versões sem açúcar), muito usada em pediatria. O açúcar é relevante em utentes com diabetes.
- Elixires: solução hidroalcoólica, mais fluida que o xarope.
- Colutórios: solução para bochechar, ação local na boca e garganta.
- Loções e linimentos: preparações líquidas para aplicação cutânea, muitas vezes com fricção.
Uma suspensão não agitada dá uma dose diferente no início e no fim do frasco: no início, mais diluída; no fim, mais concentrada. É um erro de dispensa e de administração frequente.
5. Formas farmacêuticas especiais
Além das formas correntes, existem formas concebidas para percursos específicos no organismo.
- Sistemas de libertação transdérmica: adesivos que libertam a substância ativa de forma controlada através da pele, para a circulação sistémica (exemplos: adesivos de nicotina, de fentanilo). A libertação é lenta e constante ao longo de horas ou dias.
- Preparações para uso retal: supositórios (forma sólida que se funde à temperatura corporal), enemas e microenemas (líquidos introduzidos por via retal).
- Preparações vaginais: óvulos, forma sólida para inserção vaginal, dissolução local.
- Preparações para uso parentérico: injetáveis (soluções ou suspensões estéreis) e implantes, administrados por via intravenosa, intramuscular, subcutânea ou intradérmica.
- Preparações para uso oftálmico: colírios, soluções para lavagem ocular, pomadas oftálmicas e implantes oftálmicos, sempre estéreis, para aplicação no olho.
- Preparações farmacêuticas pressurizadas ou aerossóis e inaladores: medicamentos para a via inalatória. O MDI (Metered Dose Inhaler, inalador pressurizado doseável) é um verdadeiro aerossol: contém um gás propulsor sob pressão e liberta uma dose fixa quando se pressiona. O DPI (Dry Powder Inhaler, inalador de pó seco) não é pressurizado: não tem propulsor, e é a força da inspiração do utente que arrasta o pó até aos pulmões.
Um utente asmático usa um inalador MDI. A técnica correta implica agitar o dispositivo, expirar totalmente longe do bocal, pressionar e inspirar lenta e profundamente ao mesmo tempo, e suster a respiração cerca de 10 segundos (ou o tempo que for confortável). Com um DPI não se agita e a inspiração deve ser rápida e forte. Uma técnica incorreta reduz drasticamente a quantidade de fármaco que chega aos pulmões, mesmo com o medicamento certo. Ensinar ou rever a técnica de inalação é feito segundo as instruções do folheto e com apoio do farmacêutico.
6. Vias de administração dos medicamentos
A via de administração é o caminho pelo qual o medicamento entra no organismo. Agrupa-se em três grandes categorias.
Administração entérica
Utiliza o trato gastrointestinal.
- Via oral: a mais usada, cómoda e segura; a substância absorvida no intestino segue pela veia porta até ao fígado antes de chegar à circulação geral, e aí parte dela pode ser metabolizada logo à primeira passagem.
- Via sublingual: absorção rápida pela mucosa debaixo da língua, que drena diretamente para a circulação geral e evita o efeito de primeira passagem hepática (exemplo clássico: nitroglicerina sublingual na angina de peito).
- Via retal: útil quando o utente não pode engolir (vómitos, inconsciência, crianças pequenas) ou para ação local no reto. A absorção é mais irregular e evita apenas em parte o efeito de primeira passagem, porque só uma parte do sangue do reto segue diretamente para a circulação geral.
Efeito de primeira passagem: perda de parte da substância ativa, metabolizada no fígado (e na parede intestinal) antes de chegar à circulação geral. É por isso que certas substâncias precisam de doses orais maiores do que por outras vias, ou nem se podem dar por via oral.
Administração parentérica
Contorna o trato digestivo, injetando diretamente no organismo.
- Via intravenosa (endovenosa): injeção direta na veia; efeito imediato, sem etapa de absorção, usada em urgência e em meio hospitalar.
- Via intramuscular: injeção no músculo; o músculo é muito irrigado, pelo que a absorção é geralmente rápida (minutos), embora não imediata.
- Via subcutânea: injeção no tecido debaixo da pele; absorção mais lenta e gradual do que a intramuscular, usada por exemplo na insulina e na heparina de baixo peso molecular.
- Via intradérmica: injeção na derme, usada sobretudo em testes cutâneos (por exemplo, a prova da tuberculina) e em algumas vacinas (por exemplo, a BCG).
Outras vias de administração
- Via dérmica ou cutânea: aplicação sobre a pele, para ação local ou sistémica (transdérmicos).
- Via pulmonar ou inalatória: inalação para os pulmões, ação local (asma) ou sistémica.
Valores indicativos de início de ação (variam muito com a substância e a formulação):
| Via | Início de ação | Exemplo típico |
|---|---|---|
| Intravenosa | imediato (segundos) | medicação injetável em contexto hospitalar |
| Sublingual | rápido (poucos minutos) | nitroglicerina sublingual |
| Intramuscular | rápido (cerca de 10 a 20 minutos) | algumas vacinas e injetáveis |
| Subcutânea | intermédio (cerca de 15 a 30 minutos) | insulina |
| Oral | mais lento (cerca de 30 a 90 minutos) | comprimido de uso corrente |
| Transdérmica | muito lento, horas, com libertação constante | adesivo de nicotina |
7. O percurso do medicamento no organismo: absorção, distribuição, metabolização e excreção
Entre a administração e o efeito terapêutico, o medicamento percorre quatro etapas, conhecidas pela sigla ADME.
- Absorção: passagem da substância ativa do local de administração para a corrente sanguínea. Depende da via escolhida, da forma farmacêutica e da solubilidade da substância. A via intravenosa é a única das vias estudadas sem etapa de absorção, porque o medicamento entra já na circulação; as vias intramuscular e subcutânea, embora parentéricas, têm absorção a partir do local da injeção.
- Distribuição: transporte pelo sangue até aos tecidos e órgãos onde vai atuar. Parte da substância liga-se a proteínas do plasma; só a fração livre é ativa.
- Metabolização (biotransformação): transformação química da substância, principalmente no fígado, em metabolitos que podem ser inativos, ainda ativos ou até tóxicos.
- Excreção: eliminação do organismo, sobretudo por via renal (na urina), mas também biliar, fecal, pulmonar ou pelo suor.
Um comprimido de paracetamol tomado por via oral é absorvido sobretudo no intestino delgado, distribuído pelo sangue até chegar ao local de ação, metabolizado no fígado, e excretado pelos rins na urina, na forma de metabolitos. O alívio da dor começa tipicamente 30 a 60 minutos após a toma.
Este percurso explica porque a insuficiência renal ou hepática obriga muitas vezes a ajustar a dose de um medicamento: se o órgão responsável pela metabolização ou pela excreção não funciona bem, a substância acumula-se e o risco de toxicidade aumenta.
Biodisponibilidade e semivida
Dois conceitos ajudam a perceber este percurso:
- Biodisponibilidade: a fração da dose administrada que chega inalterada à circulação geral, e a velocidade a que chega. Por via intravenosa é, por definição, 100%. Por via oral é muitas vezes menor, por absorção incompleta e pelo efeito de primeira passagem.
- Semivida de eliminação (t½): o tempo necessário para que a concentração da substância no sangue desça para metade. Uma substância com semivida curta precisa de tomas mais frequentes; com semivida longa, bastam menos tomas. Considera-se que, ao fim de cerca de 4 a 5 semividas, a substância está praticamente eliminada do organismo (sobra cerca de 6% ao fim de 4 semividas e cerca de 3% ao fim de 5).
Uma substância tem semivida de 6 horas e a concentração no sangue, num dado momento, é de 40 mg/L. Ao fim de 6 horas fica em 20 mg/L; ao fim de 12 horas, 10 mg/L; ao fim de 18 horas, 5 mg/L; ao fim de 24 horas (4 semividas), 2,5 mg/L, ou seja, cerca de 6% do valor inicial.
8. Efeito terapêutico, reação adversa, posologia e margem terapêutica
Quatro conceitos que qualquer técnico auxiliar deve dominar antes de dispensar um medicamento:
- Efeito terapêutico: o resultado benéfico e pretendido do medicamento, por exemplo baixar a febre ou aliviar a dor.
- Reação adversa a medicamentos (RAM): uma reação nociva e não intencional a um medicamento. A definição atual do Estatuto do Medicamento abrange não só o uso nas doses habituais, mas também erros de medicação, sobredosagem, uso indevido e uso fora das condições autorizadas. Nem toda a RAM é grave. Quando o utente relata uma possível RAM, o técnico auxiliar comunica-a de imediato ao farmacêutico; a notificação ao INFARMED faz-se pelo Portal RAM, que pode ser usado por profissionais de saúde e pelos próprios utentes.
- Efeito secundário: qualquer efeito diferente do efeito terapêutico pretendido, que pode ser indesejável (por exemplo, a sonolência de alguns anti-histamínicos) ou até útil noutro contexto. Os efeitos indesejáveis conhecidos, e a sua frequência, estão descritos no folheto informativo. Um efeito indesejável conhecido e ligeiro continua a ser uma RAM; o que muda é a gravidade e se era esperado.
- Interação medicamentosa: alteração do efeito de um medicamento causada por outro medicamento, por um alimento, por álcool ou por um produto natural tomado ao mesmo tempo (por exemplo, o hipericão reduz o efeito de vários medicamentos). Não é uma RAM em si, mas pode provocar uma, ou tirar eficácia ao tratamento.
- Posologia: o esquema de utilização do medicamento, ou seja, a dose, a frequência e a duração do tratamento (por exemplo, "1 comprimido de 8 em 8 horas, durante 7 dias", o que dá 3 comprimidos por dia e 21 comprimidos no total).
- Margem terapêutica: o intervalo entre a dose (ou a concentração no sangue) que produz o efeito desejado e a que se torna tóxica. Está relacionada com o índice terapêutico, que exprime essa relação numa razão entre a dose tóxica e a dose eficaz: quanto maior, mais seguro. Uma margem terapêutica estreita significa que a diferença entre a dose eficaz e a dose tóxica é pequena, exigindo doseamento e vigilância cuidadosos (exemplos clássicos: varfarina, digoxina, lítio). Uma margem terapêutica larga dá mais liberdade de dose sem grande risco.
Um medicamento de margem terapêutica estreita não se ajusta "a olho". Qualquer dúvida sobre a dose de um utente com este tipo de medicação é sempre encaminhada ao farmacêutico, nunca decidida pelo técnico auxiliar.
9. Classificação dos medicamentos e a dispensa em farmácia
Os medicamentos classificam-se por vários critérios, que se complementam.
Quanto à origem da preparação:
- Medicamento manipulado: preparado numa farmácia de oficina ou nos serviços farmacêuticos hospitalares, sob a responsabilidade de um farmacêutico, como fórmula magistral (segundo receita médica, para um doente específico) ou preparado oficinal (segundo as indicações de uma farmacopeia ou formulário).
- Medicamento industrial: fabricado em escala industrial, com Autorização de Introdução no Mercado (AIM).
Quanto à composição:
- Medicamentos simples: contêm uma única substância ativa.
- Medicamentos compostos: contêm duas ou mais substâncias ativas associadas.
Quanto ao local de uso:
- Medicamentos de uso interno: administrados por vias em que há absorção para o organismo (oral, sublingual, retal, entre outras).
- Medicamentos de uso externo: aplicados localmente, sem intenção de absorção sistémica relevante (a maioria das pomadas e cremes dermatológicos).
Quanto à dispensa, a classificação mais relevante para o atendimento diário:
| Sigla | Significado | Dispensa |
|---|---|---|
| MSRM | Medicamento Sujeito a Receita Médica | só em farmácia e só com receita médica válida |
| MNSRM | Medicamento Não Sujeito a Receita Médica | sem receita, em farmácias e em locais de venda de MNSRM registados no INFARMED (parafarmácias, espaços em hipermercados), sempre sob responsabilidade de pessoal qualificado |
| MNSRM-EF | Medicamento Não Sujeito a Receita Médica de dispensa exclusiva em farmácia | sem receita, mas só em farmácia, com intervenção do farmacêutico e aplicação de um protocolo de dispensa aprovado pelo INFARMED |
Os MSRM subdividem-se, segundo o Estatuto do Medicamento, em:
- receita médica renovável: para tratamentos prolongados, a receita pode ser usada mais do que uma vez;
- receita médica especial: por exemplo, medicamentos com estupefacientes ou psicotrópicos, com regras de dispensa e registo mais apertadas;
- receita médica restrita: medicamentos de uso reservado a meio hospitalar ou a certos especialistas.
O MNSRM-EF é uma subcategoria dos MNSRM: o protocolo de dispensa define as condições em que o farmacêutico pode dispensar o medicamento e quando deve encaminhar para o médico.
Um antibiótico é sempre MSRM: exige receita médica, porque o seu uso indevido tem risco individual e coletivo (resistências bacterianas). O paracetamol 500 mg em comprimidos é MNSRM e pode ser vendido numa parafarmácia registada. A contraceção de emergência com ulipristal 30 mg ou o cetoprofeno 25 mg por via oral são exemplos de MNSRM-EF: não exigem receita, mas só se dispensam em farmácia, depois de o farmacêutico aplicar o protocolo de dispensa.
10. Populações especiais
Certos grupos de utentes exigem atenção redobrada na dispensa e na educação para a toma correta do medicamento.
- Criança: doses calculadas em função do peso e da idade; preferência por formas farmacêuticas líquidas (xaropes, gotas) ou orodispersíveis, mais fáceis de administrar.
- Grávida: risco de efeitos no desenvolvimento do feto; qualquer dúvida sobre um medicamento numa grávida é sempre encaminhada ao farmacêutico ou ao médico.
- Pessoa mais velha: alterações naturais na absorção, distribuição, metabolização e excreção, associadas muitas vezes a polimedicação (vários medicamentos em simultâneo), o que aumenta o risco de interações.
- Pessoa com insuficiência renal: menor capacidade de excretar medicamentos e metabolitos por via renal, com risco de acumulação; frequentemente exige ajuste de dose.
- Pessoa com insuficiência hepática: menor capacidade de metabolizar medicamentos no fígado, com o mesmo risco de acumulação e toxicidade.
Perante qualquer utente destes grupos, o papel do técnico auxiliar não é decidir a dose, mas reconhecer o sinal de alerta e encaminhar para o farmacêutico antes de concluir a venda.
11. Terapêutica farmacológica e terapêutica não farmacológica: o uso racional do medicamento
Nem todo o problema de saúde se resolve com um medicamento.
- Terapêutica farmacológica: tratamento através de medicamentos, com o objetivo de curar, aliviar sintomas ou prevenir uma doença.
- Terapêutica não farmacológica: medidas que não envolvem medicamentos, como alterações de estilo de vida, dieta adequada, exercício físico, fisioterapia, hidratação ou repouso. Muitas vezes complementa a terapêutica farmacológica, e por vezes substitui-a.
O uso racional do medicamento significa usar o medicamento certo, na dose certa, pela via certa, durante o tempo certo, para o problema certo. Cabe ao técnico auxiliar promover este uso racional junto do utente: explicar a forma correta de tomar o medicamento, alertar para não interromper um tratamento sem indicação, desaconselhar a automedicação prolongada e nunca substituir o aconselhamento do farmacêutico.
Uma dor de cabeça ligeira e ocasional pode aliviar com repouso e hidratação (terapêutica não farmacológica), e pode justificar um analgésico (terapêutica farmacológica), cuja escolha cabe ao farmacêutico. Uma dor de cabeça intensa, persistente, diferente do habitual ou que se repete com frequência é um sinal de alerta: o caso é encaminhado para o farmacêutico, que pode referenciar para o médico, e não se resolve com a venda repetida do mesmo medicamento.
12. O papel do técnico auxiliar de farmácia
Todo o conhecimento sobre formas farmacêuticas, vias, percurso no organismo e classificação serve um propósito prático: um atendimento seguro. O técnico auxiliar:
- Identifica as características do medicamento e esclarece dúvidas simples de utilização (como se toma, como se conserva).
- Educa o utente para comportamentos seguros: cumprir a posologia, não partilhar medicamentos, verificar o prazo de validade, ler o folheto informativo, conservar corretamente e entregar os medicamentos fora de uso na farmácia (contentores VALORMED).
- Nunca aconselha terapêutica: escolher um medicamento para um sintoma (indicação farmacêutica), alterar uma dose ou substituir um medicamento por outro são decisões do farmacêutico (ou do médico).
Conservação, rotulagem e segurança da embalagem
- Conservação: cada medicamento indica na embalagem as suas condições. Alguns exigem frio, entre 2 e 8 °C (por exemplo, insulinas por abrir e muitas vacinas), no frigorífico e nunca no congelador. Outros indicam "não conservar acima de 25 °C" ou "acima de 30 °C", e muitos não têm exigência especial de temperatura. Protege-se sempre da luz e da humidade na embalagem original, longe do alcance das crianças.
- Rotulagem: a embalagem exterior indica, entre outros elementos, o nome do medicamento, a DCI, a dosagem, a forma farmacêutica, a quantidade, a via de administração, os excipientes de declaração obrigatória, as condições de conservação, o lote e o prazo de validade, o titular da AIM e a classificação quanto à dispensa.
- Folheto informativo: acompanha obrigatoriamente o medicamento e explica, em linguagem para o utente, para que serve, como se toma, contraindicações, precauções, interações, efeitos indesejáveis e conservação. Quando há dúvida sobre o que lá está escrito, encaminha-se para o farmacêutico.
- Código e dispositivo de segurança: em Portugal, cada apresentação tem um Código Nacional do Produto (CNP). Desde 9 de fevereiro de 2019, o Regulamento Delegado (UE) 2016/161 obriga a maioria dos MSRM a ter um identificador único (código Data Matrix com código do produto, número de série, lote e validade) e um dispositivo de prevenção de manipulação (selo que mostra se a caixa foi aberta). Antes da dispensa, a farmácia lê o código e verifica e desativa o identificador no sistema nacional de verificação (em Portugal, a MVO Portugal), o que ajuda a impedir a entrada de medicamentos falsificados. Os MNSRM, em regra, não têm estes dispositivos. Uma caixa com o selo violado ou um alerta do sistema não se dispensa: comunica-se ao farmacêutico.
- Encaminha para o farmacêutico sempre que surja uma dúvida clínica, uma população especial, um sinal de alerta, uma possível interação ou um pedido de aconselhamento sobre sintomas.
Este limite não é uma restrição arbitrária: é o que garante a segurança do utente e o correto funcionamento da equipa da farmácia.
Erros comuns
- Confundir substância ativa com nome comercial: a DCI identifica a substância; o nome comercial é a marca de um fabricante.
- Trocar pomada por creme ou gel por acharem "todos a mesma coisa": a base muda a forma como o medicamento é absorvido e tolerado pela pele.
- Não agitar uma suspensão antes de medir a dose, resultando numa dose diferente da pretendida.
- Partir, mastigar ou triturar comprimidos de libertação prolongada ou gastrorresistentes sem que o folheto o permita, libertando de imediato uma dose que devia ser gradual ou destruindo a proteção contra o ácido do estômago.
- Achar que a mesma DCI, dosagem e forma farmacêutica bastam para haver bioequivalência: num genérico, a bioequivalência tem de ser demonstrada em estudos.
- Confundir MNSRM com "pode vender sem qualquer cuidado": o MNSRM-EF, por exemplo, só se dispensa em farmácia, com intervenção do farmacêutico e aplicação do protocolo de dispensa.
- Aconselhar terapêutica ao utente em vez de encaminhar para o farmacêutico, ultrapassando as funções do técnico auxiliar.
- Ignorar sinais de população especial (grávida, criança, insuficiência renal ou hepática) e tratar o atendimento como se fosse um utente comum.
Glossário
- DCI: Denominação Comum Internacional, o nome genérico e universal da substância ativa.
- Substância ativa: componente do medicamento responsável pelo efeito terapêutico.
- Excipiente: componente do medicamento sem efeito terapêutico próprio, que dá corpo, sabor ou estabilidade à forma farmacêutica.
- Forma farmacêutica: o estado físico em que o medicamento se apresenta (comprimido, xarope, pomada, entre outros).
- Via de administração: o caminho pelo qual o medicamento entra no organismo.
- Absorção: passagem da substância ativa para a corrente sanguínea.
- Distribuição: transporte da substância pelo sangue até aos tecidos.
- Metabolização (biotransformação): transformação química da substância, sobretudo no fígado.
- Excreção: eliminação da substância do organismo, sobretudo pelos rins.
- Efeito terapêutico: resultado benéfico e pretendido de um medicamento.
- Reação adversa (RAM): reação nociva e não intencional a um medicamento.
- Efeito de primeira passagem: metabolização de parte da substância no fígado antes de chegar à circulação geral, típica da via oral.
- Biodisponibilidade: fração da dose que chega inalterada à circulação geral, e velocidade a que chega.
- Semivida (t½): tempo para a concentração da substância no sangue descer para metade.
- Interação medicamentosa: alteração do efeito de um medicamento causada por outro medicamento, alimento, álcool ou produto natural.
- Medicamento genérico (MG): medicamento com a mesma composição em substância ativa e a mesma forma farmacêutica do medicamento de referência, com bioequivalência demonstrada.
- Posologia: esquema de dose, frequência e duração do tratamento.
- Margem terapêutica: intervalo entre a dose eficaz e a dose tóxica de um medicamento.
- MSRM: Medicamento Sujeito a Receita Médica (receita renovável, especial ou restrita).
- MNSRM: Medicamento Não Sujeito a Receita Médica, vendido em farmácias e em locais de venda de MNSRM.
- MNSRM-EF: Medicamento Não Sujeito a Receita Médica de dispensa exclusiva em farmácia, com protocolo de dispensa.
- Data Matrix: código bidimensional da embalagem com o identificador único, verificado antes da dispensa.
- Terapêutica farmacológica: tratamento com recurso a medicamentos.
- Terapêutica não farmacológica: tratamento sem recurso a medicamentos (estilo de vida, dieta, exercício, entre outros).
- Uso racional do medicamento: usar o medicamento certo, na dose certa, pela via certa, pelo tempo certo.
Síntese
O medicamento tem uma substância ativa (identificada pela DCI) e excipientes. Apresenta-se numa forma farmacêutica (sólida, semissólida, líquida ou especial), que determina a via de administração possível (entérica, parentérica ou outra). Depois de administrado, percorre quatro etapas até produzir efeito: absorção, distribuição, metabolização e excreção (ADME). O resultado desse percurso é o efeito terapêutico, que convive sempre com o risco de reação adversa, e é regulado pela posologia e limitado pela margem terapêutica. Os medicamentos classificam-se ainda quanto à origem, à composição, ao local de uso e, sobretudo, quanto à dispensa (MSRM, MNSRM, MNSRM-EF), que determina onde e como se dispensam. Certas populações especiais exigem atenção redobrada. Nem tudo se trata com medicamentos: a terapêutica não farmacológica tem o seu lugar, e o objetivo final é sempre o uso racional do medicamento, com o técnico auxiliar a educar o utente e a encaminhar para o farmacêutico sempre que a situação o exija.
Exercícios resolvidos
1. Um utente traz uma caixa de "Ibuprofeno Generis 400 mg comprimidos revestidos". Identifica a DCI, o laboratório, a dosagem e a forma farmacêutica.
Resolução: DCI: ibuprofeno. Laboratório: Generis. Dosagem: 400 mg. Forma farmacêutica: comprimidos revestidos.
2. Explica porque uma suspensão oral deve ser sempre agitada antes de se medir a dose.
Resolução: Numa suspensão, as partículas sólidas não se dissolvem no líquido e sedimentam com o tempo. Sem agitar, a parte de cima do frasco fica mais diluída e o fundo mais concentrado, pelo que a dose retirada não corresponde à quantidade correta de substância ativa.
3. Um utente vai iniciar um adesivo transdérmico de nicotina. Explica, em termos de absorção, como este sistema difere de um comprimido oral.
Resolução: No adesivo transdérmico, a substância ativa atravessa a pele diretamente para a circulação sistémica, de forma lenta e constante ao longo de horas. Não passa pelo estômago nem sofre o efeito de primeira passagem hepática que o comprimido oral sofre logo após a absorção intestinal.
4. Ordena as quatro etapas do percurso do medicamento no organismo (ADME) e descreve cada uma em uma frase.
Resolução: 1. Absorção (passagem para o sangue), 2. Distribuição (transporte até aos tecidos), 3. Metabolização (transformação, principalmente no fígado), 4. Excreção (eliminação, principalmente pelos rins).
5. Um utente com insuficiência renal pergunta se pode continuar a tomar um medicamento habitual sem qualquer ajuste. Que respondes, e porquê?
Resolução: Encaminho para o farmacêutico. A insuficiência renal reduz a capacidade de excretar o medicamento e os seus metabolitos, o que pode levar à acumulação da substância e a um risco maior de toxicidade; a decisão sobre manter, ajustar ou trocar a dose é do farmacêutico ou do médico, nunca do técnico auxiliar.
6. Classifica quanto à dispensa: (a) um antibiótico; (b) paracetamol 500 mg comprimidos, à venda numa parafarmácia; (c) ulipristal 30 mg para contraceção de emergência, que não exige receita mas só se dispensa em farmácia segundo protocolo.
Resolução: (a) MSRM, exige receita médica pelo risco de resistências e uso indevido. (b) MNSRM, dispensa sem receita, em farmácias e em locais de venda de MNSRM registados. (c) MNSRM-EF, não exige receita, mas só se dispensa em farmácia, com intervenção do farmacêutico e aplicação do protocolo de dispensa.
7. Distingue terapêutica farmacológica de terapêutica não farmacológica, com um exemplo de cada, para o caso de uma dor lombar ligeira.
Resolução: Terapêutica não farmacológica: manter-se ativo evitando o repouso absoluto, calor local, alongamentos suaves. Terapêutica farmacológica: um analgésico ou anti-inflamatório, cuja escolha é feita pelo farmacêutico (ou prescrita pelo médico). Muitas vezes as duas combinam-se, e o uso racional do medicamento significa não recorrer ao fármaco quando as medidas não farmacológicas já resolvem o problema. O técnico auxiliar pode reforçar as medidas não farmacológicas, mas a indicação de um medicamento cabe ao farmacêutico.
8. Um utente toma um medicamento com semivida de 8 horas. Quanto tempo é preciso, aproximadamente, para a substância ficar praticamente eliminada do organismo depois da última toma?
Resolução: Considera-se praticamente eliminada ao fim de 4 a 5 semividas: 4 × 8 = 32 horas a 5 × 8 = 40 horas. Ao fim de 32 horas resta cerca de 6% (1/16) e ao fim de 40 horas cerca de 3% (1/32).