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UC · Unidade de Competência · UC03489

Sebenta · Reconhecer patologias nos sistemas do corpo humano (UC03489)

Sinais de alerta, patologias frequentes e o limite entre reconhecer e diagnosticar
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Auxiliar de Farmácia, T. Termalismo, T. Apoio à Família e à Com ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara-te para reconhecer as patologias mais frequentes nos sistemas do corpo humano e os sinais de alerta que as acompanham. É matéria comum a vários percursos de nível 4 na área da saúde e do apoio à comunidade: técnico/a auxiliar de farmácia, técnico/a de termalismo e técnico/a de apoio à família e à comunidade. Em qualquer um destes contextos vais estar em contacto direto com pessoas que apresentam sintomas, queixas ou medicação para doenças crónicas, e a tua função é a mesma nos três casos.

A ideia central de toda a UC cabe numa frase: reconhecer não é diagnosticar. O técnico auxiliar identifica sinais, ouve queixas, relaciona-as com padrões conhecidos e, quando necessário, encaminha para quem tem competência para diagnosticar e prescrever, o médico. Nunca dizes a um utente "tem diabetes" ou "tome este medicamento". Dizes "estes sintomas podem estar associados a X, o melhor é consultar o seu médico" ou "vou medir-lhe a tensão e, se estiver alterada, aconselho-o a marcar consulta". Esta distinção não é uma formalidade, é a fronteira legal e ética da tua profissão, e está escrita nos critérios de desempenho do referencial: reconhecer sinais de alerta, usar a terminologia anatómica correta e respeitar a saúde e o bem-estar do utente.

Objetivos de aprendizagem (referencial): reconhecer distúrbios no funcionamento dos sistemas e órgãos do corpo humano; identificar as patologias mais frequentes; caracterizar o funcionamento desses sistemas; distinguir as patologias mais frequentes entre si; interpretar sinais de alerta; e reconhecer os aspetos a acautelar em cada patologia que possam impactar a tua intervenção profissional, seja ao balcão da farmácia, numa unidade termal ou no apoio domiciliário a uma família.

Percorremos dezoito patologias, agrupadas pelo sistema do corpo que afetam: sistema endócrino e metabólico, sistema cardiovascular, sangue e vasos, sistema respiratório, doenças infeciosas comuns, saúde mental, sistema nervoso, e saúde genito-urinária. Para cada uma vês o enquadramento, as características clínicas, a terapêutica não farmacológica e farmacológica (sempre por classe de fármaco, nunca por nome comercial) e o que isso significa na tua intervenção concreta.

1. O papel do técnico auxiliar: reconhecer, não diagnosticar

O que reconhecer significa na prática

Reconhecer uma patologia é associar um conjunto de sinais e sintomas a um padrão que já estudaste, sem confirmar essa suspeita como facto clínico. É uma competência de triagem, não de decisão clínica.

O teu trabalho combina estes três elementos com o que sabes sobre cada patologia, para decidires uma de três coisas: (1) não há motivo de preocupação aparente, (2) aconselha-se consulta médica não urgente, ou (3) é um sinal de alerta e a pessoa deve procurar cuidados de saúde de imediato.

O que nunca fazer

Nunca dizes um diagnóstico ("tem uma trombose"), nunca prescreves nem alteras uma dose de medicação, e nunca desvalorizas uma queixa "só para não alarmar". As três coisas são erros graves, mesmo com boa intenção.

Terminologia anatómica: a linguagem comum

O critério de desempenho pede que uses a nominação e a terminologia anatómica correta. Não é pedantismo, é precisão: dizer "dor no quadrante inferior direito do abdómen" identifica uma zona, "dor na barriga" não. A terminologia certa também é o que te permite comunicar com rigor com profissionais de saúde quando encaminhas alguém.

Termo comum Termo técnico Zona/sistema
Coração e vasos sistema cardiovascular tórax, todo o corpo
Pulmões e vias respiratórias sistema respiratório tórax
Estômago, intestino, fígado sistema digestivo abdómen
Rins e bexiga sistema urinário abdómen, pélvis
Glândulas (tiroide, pâncreas) sistema endócrino pescoço, abdómen
Cérebro e nervos sistema nervoso crânio, coluna
Órgãos genitais sistema reprodutor pélvis
Sangue e órgãos que o produzem sistema hematopoiético medula óssea, vasos

A quem encaminhar

Nem todo o encaminhamento é para o médico de família. Conhecer os canais certos é parte da competência.

2. Sistema endócrino e metabólico: diabetes e tiroide

O sistema endócrino é o conjunto de glândulas que produzem hormonas e as libertam diretamente no sangue, regulando funções como o metabolismo, o crescimento e a energia. Duas das patologias mais frequentes que vais encontrar nascem aqui: a diabetes e as doenças da tiroide.

Diabetes mellitus

Enquadramento. A diabetes é uma doença crónica em que o corpo não produz insulina suficiente (tipo 1) ou não a usa eficazmente (tipo 2, a forma mais comum, associada a excesso de peso e sedentarismo). A insulina é a hormona que permite que a glicose entre nas células; sem ela funcionar bem, a glicose acumula-se no sangue.

Características clínicas. Os sintomas clássicos formam o que se chama a "regra dos três P": poliúria (urinar muito), polidipsia (sede excessiva) e polifagia (fome excessiva), muitas vezes acompanhados de perda de peso inexplicada, fadiga e visão turva. Segundo os valores de referência da DGS, a glicemia em jejum normal é inferior a 100 mg/dL; entre 100 e 125 mg/dL fala-se em anomalia da glicemia em jejum (pré-diabetes); a partir de 126 mg/dL, confirmado em duas ocasiões, considera-se diabetes.

Valor de glicemia em jejum Classificação
Inferior a 100 mg/dL Normal
100 a 125 mg/dL Pré-diabetes (anomalia da glicemia em jejum)
Igual ou superior a 126 mg/dL Diabetes (a confirmar em nova análise)

Terapêutica não farmacológica. Alimentação equilibrada com controlo de hidratos de carbono, exercício físico regular, controlo do peso e cessação tabágica. É a base do tratamento em todos os casos, mesmo quando há medicação.

Terapêutica farmacológica. Antidiabéticos orais (várias classes, sendo a mais comum a das biguanidas) na diabetes tipo 2, e insulina, indispensável na diabetes tipo 1 e frequente em fases avançadas da tipo 2.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Apoio na medição da glicemia capilar e explicação do significado dos valores; reforço da adesão à terapêutica e da técnica correta de administração de insulina; ensino do reconhecimento dos sinais de hipoglicemia (tremores, suores frios, confusão, fome súbita) e de hiperglicemia (sede intensa, urinar muito, cansaço); cuidados com os pés, pela maior suscetibilidade a feridas que cicatrizam mal.

Exemplo resolvido · sinal de hipoglicemia na farmácia

Um utente idoso, medicado com insulina, entra na farmácia com suores frios, tremor nas mãos e discurso um pouco confuso. Pergunta-lhe a que horas comeu pela última vez: há mais de seis horas. O quadro é compatível com hipoglicemia. Procedimento correto: dar-lhe algo com açúcar de absorção rápida (um sumo, açúcar dissolvido em água), sentá-lo e vigiar. Se não melhorar em poucos minutos ou se perder a consciência, contactar o 112 de imediato. Nunca se trata de "diagnosticar diabetes descompensada": trata-se de reconhecer um sinal de alerta agudo e agir segundo o protocolo de primeiros socorros para hipoglicemia.

Hipertiroidismo e hipotiroidismo

Enquadramento. A tiroide é uma glândula no pescoço que regula o metabolismo através das hormonas T3 e T4, controladas pela TSH (hormona estimulante da tiroide, produzida na hipófise). Quando a tiroide produz hormonas a mais, fala-se em hipertiroidismo; quando produz a menos, em hipotiroidismo.

Características clínicas. No hipertiroidismo, a TSH está tipicamente baixa e a T4 alta; os sintomas incluem taquicardia, perda de peso apesar de comer normalmente, nervosismo, tremor, intolerância ao calor e suores. No hipotiroidismo, a TSH está alta e a T4 baixa; os sintomas são quase opostos: fadiga, ganho de peso, intolerância ao frio, obstipação e pele seca. A causa mais comum de hipertiroidismo é a doença de Graves; a de hipotiroidismo é a tiroidite de Hashimoto, ambas de origem autoimune.

Sinal Hipertiroidismo Hipotiroidismo
Ritmo cardíaco acelerado lento
Peso perde ganha
Temperatura intolerância ao calor intolerância ao frio
Trânsito intestinal mais frequente obstipação
Energia agitação, nervosismo fadiga, apatia

Terapêutica não farmacológica. Acompanhamento nutricional e, no hipertiroidismo, evicção de excesso de iodo; gestão do stress.

Terapêutica farmacológica. No hipotiroidismo, reposição hormonal com levotiroxina (classe das hormonas tiroideias de síntese), a tomar em jejum. No hipertiroidismo, antitiroideus, e em casos selecionados iodo radioativo ou cirurgia.

Intervenção da farmácia. Reforçar a toma da levotiroxina em jejum, com pelo menos trinta minutos de intervalo antes do pequeno-almoço, e alertar para interações que reduzem a sua absorção, como suplementos de cálcio e ferro tomados ao mesmo tempo. Reconhecer sinais de descompensação (agravamento súbito dos sintomas) como motivo de encaminhamento.

3. Peso e gordura no sangue: obesidade e dislipidemia

Obesidade

Enquadramento. A obesidade é o excesso de gordura corporal com impacto na saúde, avaliada na prática clínica pelo índice de massa corporal (IMC), peso a dividir pela altura ao quadrado, e pelo perímetro abdominal, que indica o risco associado à gordura visceral.

Características clínicas. Considera-se pré-obesidade um IMC entre 25 e 29,9 kg/m²; obesidade a partir de 30 kg/m². O perímetro abdominal acima de 102 cm no homem e 88 cm na mulher associa-se a maior risco cardiovascular e metabólico, mesmo com o mesmo IMC.

IMC (kg/m²) Classificação
18,5 a 24,9 Peso normal
25 a 29,9 Pré-obesidade
30 a 34,9 Obesidade grau I
35 a 39,9 Obesidade grau II
Igual ou superior a 40 Obesidade grau III

Terapêutica não farmacológica. É a primeira linha em todos os casos: reeducação alimentar, atividade física regular e acompanhamento comportamental, muitas vezes com equipa multidisciplinar (nutricionista, psicólogo).

Terapêutica farmacológica. Fármacos para perda de peso (classes específicas, sob prescrição e acompanhamento médico) reservados a casos selecionados; cirurgia bariátrica nos graus mais elevados, com critérios clínicos definidos.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Aconselhamento nutricional básico e de estilo de vida, sem substituir o nutricionista; encaminhamento quando o IMC e os fatores de risco associados (diabetes, hipertensão) o justificam; numa unidade termal, os programas de bem-estar e atividade física ligeira em meio aquático são frequentemente recomendados como complemento, nunca como tratamento isolado.

Dislipidemia

Enquadramento. A dislipidemia é a alteração dos níveis de gorduras no sangue, sobretudo colesterol e triglicerídeos, e é um dos principais fatores de risco cardiovascular modificáveis.

Características clínicas. Regra geral é assintomática, detetada em análises de rotina. Valores de referência habituais: colesterol total desejável abaixo de 190 mg/dL; colesterol LDL ("mau colesterol") quanto mais baixo melhor, com metas que dependem do risco cardiovascular individual; colesterol HDL ("bom colesterol") acima de 40 mg/dL no homem e 45 mg/dL na mulher; triglicerídeos abaixo de 150 mg/dL.

Terapêutica não farmacológica. Redução de gorduras saturadas e açúcares simples, aumento de fibra, atividade física regular, cessação tabágica.

Terapêutica farmacológica. Estatinas (classe mais usada para reduzir o LDL), entre outras classes conforme o perfil lipídico e o risco cardiovascular.

Intervenção da farmácia. Reforço da adesão à estatina, muitas vezes tomada durante anos sem sintomas percetíveis, o que reduz a motivação para continuar; vigilância de dores musculares (mialgia), efeito adverso a reportar ao médico; nunca aconselhar a suspensão da medicação por iniciativa própria do utente.

Obesidade e dislipidemia raramente aparecem sozinhas: partilham fatores de risco com a diabetes e a hipertensão arterial. Quando encaminhas alguém com uma destas patologias, vale a pena perguntar, com tato, se já fez análises recentes às outras.

4. Sistema cardiovascular: hipertensão arterial e insuficiência cardíaca

Hipertensão arterial

Enquadramento. A hipertensão arterial (HTA) é a elevação persistente da pressão do sangue nas artérias, o principal fator de risco modificável para AVC e enfarte do miocárdio em Portugal.

Características clínicas. É frequentemente assintomática, "o assassino silencioso", só detetável pela medição. A classificação de referência usada em Portugal:

Categoria Sistólica (mmHg) Diastólica (mmHg)
Ótima inferior a 120 inferior a 80
Normal 120 a 129 80 a 84
Normal alta 130 a 139 85 a 89
HTA grau 1 140 a 159 90 a 99
HTA grau 2 160 a 179 100 a 109
HTA grau 3 igual ou superior a 180 igual ou superior a 110

Uma tensão muito elevada, acima de 180/120 mmHg, acompanhada de sintomas como dor torácica, dificuldade respiratória, dor de cabeça intensa ou alterações da visão, configura uma crise hipertensiva, sinal de alerta que exige encaminhamento urgente.

Terapêutica não farmacológica. Redução do consumo de sal, atividade física regular, controlo do peso, redução do consumo de álcool e cessação tabágica.

Terapêutica farmacológica. Várias classes, muitas vezes combinadas: diuréticos, inibidores da enzima de conversão da angiotensina (IECA), antagonistas dos recetores da angiotensina (ARA), bloqueadores dos canais de cálcio e betabloqueadores.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Medição correta da tensão arterial (utente sentado, em repouso, braço apoiado à altura do coração) e explicação do resultado sem alarmismo; reforço da adesão, já que é medicação para toda a vida em muitos casos; reconhecimento imediato da crise hipertensiva como sinal de alerta.

Exemplo resolvido · medir a tensão arterial corretamente

Uma técnica auxiliar de farmácia vai medir a tensão a um utente que chegou apressado da rua. Procedimento correto: pedir-lhe para se sentar, com as costas apoiadas e os pés no chão, deixar repousar cinco minutos antes de medir, colocar a braçadeira à altura do coração, e não conversar durante a medição. Se o valor obtido for elevado num utente agitado, repete-se a medição após um período de descanso maior antes de o considerar representativo. Uma medição mal feita gera um valor que não corresponde à realidade e pode alarmar sem motivo, ou, pior, tranquilizar quando não devia.

Insuficiência cardíaca

Enquadramento. A insuficiência cardíaca é a incapacidade do coração de bombear sangue de forma eficaz para suprir as necessidades do corpo. É frequentemente consequência de HTA mal controlada, doença coronária ou valvulopatias.

Características clínicas. Sintomas principais: dispneia (falta de ar), inicialmente ao esforço e progredindo para dispneia em repouso; edema periférico, sobretudo nos tornozelos; fadiga; ortopneia (falta de ar deitado, que melhora ao sentar); e dispneia paroxística noturna (episódios súbitos de falta de ar a meio da noite). A gravidade classifica-se pela escala NYHA, de I (sem limitação) a IV (sintomas em repouso).

Terapêutica não farmacológica. Restrição de sal e, por vezes, de líquidos; pesagem diária para detetar retenção de fluídos precocemente; atividade física adaptada e supervisionada.

Terapêutica farmacológica. IECA ou ARA, betabloqueadores e diuréticos são as classes centrais do tratamento, muitas vezes combinadas.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Ensinar o utente a pesar-se diariamente e a reconhecer um aumento súbito de peso (por exemplo, mais de 2 kg em dois ou três dias) como sinal de retenção de líquidos a reportar; reforçar a adesão à restrição de sal; num contexto de apoio domiciliário, estar atento a agravamento da dispneia ou do edema como sinais de descompensação que exigem contacto com o médico ou, se grave e súbito, com o 112.

5. Sangue e vasos: anemia e doenças trombovenosas

Anemia

Enquadramento. A anemia é a diminuição da hemoglobina no sangue abaixo dos valores normais, reduzindo a capacidade do sangue de transportar oxigénio aos tecidos. A causa mais comum é a carência de ferro (anemia ferropénica).

Características clínicas. Segundo os valores de referência da Organização Mundial da Saúde, considera-se anemia uma hemoglobina abaixo de 13 g/dL no homem e abaixo de 12 g/dL na mulher. Sintomas: fadiga, palidez da pele e mucosas, dispneia ao esforço, tonturas e, em casos mais marcados, palpitações.

Terapêutica não farmacológica. Alimentação rica em ferro (carnes vermelhas, leguminosas, vegetais de folha verde escura) e identificação e tratamento da causa subjacente (por exemplo, hemorragias digestivas ou menstruações muito abundantes).

Terapêutica farmacológica. Suplementação oral de ferro, a classe farmacológica mais usada; em casos graves ou de má absorção, ferro endovenoso.

Intervenção da farmácia. Aconselhar a toma do suplemento de ferro com um alimento ou bebida rica em vitamina C, que melhora a absorção, e afastada de café, chá ou lacticínios, que a reduzem; alertar para efeitos adversos frequentes mas benignos, como obstipação e fezes de cor escura; encaminhar se a fadiga for muito marcada ou houver sinais de hemorragia.

Doenças trombovenosas: trombose venosa profunda, varizes e tromboflebite

Enquadramento. São um conjunto de patologias do sistema venoso, sobretudo dos membros inferiores, que vão desde a alteração estética das varizes até à trombose venosa profunda (TVP), potencialmente grave.

Características clínicas.

Dor súbita no peito e dificuldade respiratória súbita numa pessoa com fatores de risco de trombose (cirurgia recente, imobilização prolongada, viagens longas) são sinais de alerta máximo: podem indicar embolia pulmonar. Encaminhamento imediato para o 112.

Terapêutica não farmacológica. Meias de compressão elástica, elevação dos membros inferiores em repouso, evitar longos períodos parado ou sentado, mobilização precoce após cirurgia.

Terapêutica farmacológica. Anticoagulantes na TVP, sob prescrição e vigilância médica rigorosa; venotónicos em casos de insuficiência venosa e varizes sintomáticas.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Aconselhamento e ajuste de meias de compressão; reforço de medidas de prevenção em pessoas com fatores de risco (viagens longas, gravidez, imobilização); reconhecimento do edema unilateral súbito e doloroso como sinal de alerta para TVP e encaminhamento célere; num contexto termal, os programas de hidroterapia e circulação são frequentemente usados como complemento não farmacológico, sempre articulados com indicação médica.

6. Sistema respiratório: asma e DPOC

Asma

Enquadramento. A asma é uma doença inflamatória crónica das vias respiratórias, com episódios recorrentes de estreitamento brônquico, muitas vezes desencadeados por alergénios, esforço, frio ou infeções.

Características clínicas. Sintomas: sibilos (assobio ao respirar), tosse (sobretudo noturna ou ao esforço), aperto torácico e dispneia, tipicamente em crises que alternam com períodos sem sintomas.

Terapêutica não farmacológica. Identificação e evicção de desencadeantes (ácaros, pólenes, fumo), controlo ambiental e plano de ação escrito para as crises.

Terapêutica farmacológica. Broncodilatadores de curta duração para alívio rápido da crise, e corticosteroides inalados como terapêutica de controlo de base, tomados diariamente mesmo sem sintomas.

Intervenção da farmácia. A técnica inalatória correta é o ponto mais importante: um inalador mal usado perde grande parte da dose. Ensinar a agitar, expirar antes, inalar lentamente e reter a respiração alguns segundos; usar câmara expansora em crianças e idosos. Reconhecer sinais de crise grave (incapacidade de terminar frases, lábios ou unhas arroxeados) como emergência, encaminhamento para o 112.

Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC)

Enquadramento. A DPOC é uma doença respiratória crónica e progressiva, fortemente associada ao tabagismo, que causa obstrução persistente das vias aéreas.

Características clínicas. Tosse crónica, muitas vezes com expetoração, e dispneia progressiva, inicialmente ao esforço, agravando-se ao longo dos anos. Ao contrário da asma, os sintomas tendem a ser contínuos e a agravar-se gradualmente, sem retorno completo à normalidade entre episódios.

Característica Asma DPOC
Idade típica de início infância/juventude adultos, geralmente fumadores
Padrão dos sintomas episódios, com períodos livres contínuo, progressivo
Reversibilidade geralmente reversível com tratamento parcialmente reversível
Principal fator de risco alergias tabagismo

Terapêutica não farmacológica. Cessação tabágica é a medida mais importante e a única que altera a evolução da doença; reabilitação respiratória; vacinação anual contra a gripe e vacinação pneumocócica.

Terapêutica farmacológica. Broncodilatadores de longa duração, corticosteroides inalados em casos selecionados, e oxigenoterapia de longa duração em fases avançadas.

Intervenção da farmácia. Apoio ativo à cessação tabágica; reforço da técnica inalatória; incentivo à vacinação sazonal; reconhecimento do agravamento súbito da dispneia ou febre associada (possível infeção respiratória sobreposta) como motivo de encaminhamento.

7. Doenças infeciosas comuns: a gripe

Gripe (influenza)

Enquadramento. A gripe é uma infeção respiratória causada pelo vírus influenza, de caráter sazonal (predomínio no outono e inverno), altamente contagiosa por gotículas respiratórias.

Características clínicas. Início súbito de febre alta, dores musculares generalizadas (mialgias), tosse seca, dor de garganta, cefaleia, fadiga marcada e calafrios. Distingue-se da constipação comum pela intensidade e pelo início abrupto: uma constipação instala-se ao longo de um ou dois dias e é sobretudo nasal, a gripe "atinge como um camião" em poucas horas.

Característica Constipação comum Gripe
Início gradual súbito
Febre rara ou ligeira alta e frequente
Dores musculares ligeiras ou ausentes intensas
Fadiga ligeira marcada, pode durar semanas

Terapêutica não farmacológica. Repouso, hidratação abundante, isolamento dos primeiros dias para reduzir o contágio, etiqueta respiratória (tossir para o cotovelo, lavagem frequente das mãos).

Terapêutica farmacológica. Tratamento sintomático com antipiréticos e analgésicos; antivirais específicos reservados a grupos de risco (idosos, doentes crónicos, grávidas), sempre sob indicação médica e com maior eficácia quanto mais cedo iniciados.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Promoção ativa da vacinação anual da gripe, sobretudo em grupos de risco (idosos, doentes crónicos, profissionais de saúde); aconselhamento sintomático em casos ligeiros; reconhecimento de sinais de alarme (dificuldade respiratória, febre persistente há mais de três dias, agravamento em vez de melhoria) como motivo de contacto com o SNS 24 (808 24 24 24) ou o médico assistente. Em contexto de apoio domiciliário a idosos, a gripe é particularmente perigosa pelo risco de complicações respiratórias, pelo que a vigilância deve ser redobrada.

8. Saúde mental: ansiedade e depressão

Perturbações de ansiedade

Enquadramento. A ansiedade patológica distingue-se da ansiedade normal (uma resposta adaptativa a ameaças reais) pela intensidade, duração e impacto desproporcionado na vida da pessoa. Inclui quadros como a perturbação de ansiedade generalizada e os ataques de pânico.

Características clínicas. Preocupação excessiva e difícil de controlar, tensão muscular, irritabilidade, insónia, e sintomas físicos como palpitações, sudorese, tremor e sensação de "nó no estômago". Um ataque de pânico é um episódio súbito e intenso de medo, com palpitações, falta de ar e sensação de perda de controlo, que pode confundir-se com um problema cardíaco.

Terapêutica não farmacológica. Psicoterapia, sobretudo a terapia cognitivo-comportamental, técnicas de relaxamento e respiração, exercício físico regular, higiene do sono.

Terapêutica farmacológica. Ansiolíticos (classe das benzodiazepinas, uso de curta duração pelo risco de dependência) e, para tratamento de base, antidepressivos de várias classes, sempre prescritos e vigiados por médico.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Nunca aconselhar benzodiazepinas sem receita médica, pelo risco de dependência e de mascarar um quadro que precisa de avaliação; encaminhar para o médico de família ou psicólogo perante queixas persistentes; estar atento a sinais de uso excessivo ou dependência em utentes medicados há muito tempo.

Depressão

Enquadramento. A depressão é uma perturbação do humor caracterizada por tristeza persistente e perda de interesse ou prazer nas atividades habituais, com duração de pelo menso duas semanas e impacto claro no funcionamento diário.

Características clínicas. Humor deprimido a maior parte do dia, anedonia (perda de prazer em atividades antes agradáveis), alterações do sono (insónia ou hipersónia) e do apetite, fadiga, dificuldade de concentração, sentimentos de desvalorização ou culpa excessiva, e, em casos graves, ideação suicida.

Qualquer menção a ideação suicida, ainda que indireta ("já não vale a pena continuar", "eles ficavam melhor sem mim"), é um sinal de alerta máximo. Nunca ignorar, nunca prometer segredo absoluto, e encaminhar de imediato, se necessário através do SNS 24 ou do 112.

Terapêutica não farmacológica. Psicoterapia, atividade física regular, envolvimento social, rotinas estruturadas.

Terapêutica farmacológica. Antidepressivos, sendo os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) a classe mais prescrita, com efeito terapêutico que demora tipicamente algumas semanas a instalar-se.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Reforçar que o efeito antidepressivo demora semanas, para evitar abandono precoce por "não estar a fazer efeito"; nunca banalizar queixas de tristeza persistente; num contexto de apoio domiciliário ou termal a idosos isolados, estar particularmente atento, já que a depressão é subdiagnosticada nesta população e por vezes confundida com "coisas da idade".

9. Doenças neurodegenerativas: Parkinson e Alzheimer

Doença de Parkinson

Enquadramento. A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta sobretudo o controlo do movimento, por perda de neurónios produtores de dopamina numa região do cérebro.

Características clínicas. Os quatro sinais motores cardinais: tremor de repouso (tipicamente numa mão, desaparece com o movimento), rigidez muscular, bradicinesia (lentidão de movimentos) e instabilidade postural (dificuldade de equilíbrio, marcha em pequenos passos). Podem associar-se alterações não motoras, como perda de olfato e alterações do sono, anos antes dos sintomas motores.

Terapêutica não farmacológica. Fisioterapia e exercício regular, para manter mobilidade e equilíbrio; terapia da fala em fases mais avançadas.

Terapêutica farmacológica. Levodopa (classe de reposição de dopamina), o tratamento mais eficaz para os sintomas motores, muitas vezes combinada com outras classes.

Intervenção da farmácia e áreas afins. A adesão rigorosa aos horários da medicação é crítica: um atraso na toma de levodopa pode significar horas de rigidez e imobilidade para a pessoa, os chamados períodos "off". Apoio ao cuidador na organização da medicação; num contexto de apoio domiciliário, atenção ao risco de quedas pela instabilidade postural.

Doença de Alzheimer

Enquadramento. A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência, uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta a memória, o raciocínio e o comportamento.

Características clínicas. Perda progressiva de memória, sobretudo de factos recentes (esquece o que aconteceu há pouco, mas lembra-se bem de acontecimentos antigos), desorientação no tempo e no espaço, dificuldade em encontrar palavras, e, com a progressão, alterações de comportamento e de personalidade.

Terapêutica não farmacológica. Estimulação cognitiva, manutenção de rotinas e ambientes familiares e seguros, apoio estruturado ao cuidador.

Terapêutica farmacológica. Não existe cura; usam-se fármacos de classes que podem atrasar a progressão dos sintomas em algumas fases da doença, sob acompanhamento médico especializado.

Intervenção da farmácia e áreas afins. Apoio ao cuidador na gestão da medicação, muitas vezes com recurso a organizadores semanais (pastilheiros), pela dificuldade da própria pessoa em gerir as tomas; atenção a sinais de agravamento súbito (confusão aguda, agitação marcada), que podem indicar outra causa sobreposta, como uma infeção urinária, e não a progressão normal da doença. É uma área central do trabalho do técnico de apoio à família e à comunidade, no acompanhamento diário de pessoas com esta patologia.

Exemplo resolvido · confusão súbita numa pessoa com Alzheimer

Numa visita domiciliária, uma técnica de apoio à família encontra uma utente com Alzheimer muito mais confusa e agitada do que o habitual, de um dia para o outro. A doença de Alzheimer evolui devagar, ao longo de meses e anos: uma alteração tão rápida não é típica da própria doença e é, em si mesma, um sinal de alerta. Causas frequentes deste quadro incluem infeções (sobretudo urinárias), desidratação ou efeitos de medicação. Procedimento correto: não assumir que "é a doença a avançar", relatar a alteração súbita à família e contactar o médico assistente ou o SNS 24 para avaliação.

10. Saúde genito-urinária: infeções vaginais, próstata e disfunção erétil

Infeções vaginais

Enquadramento. As infeções vaginais são queixas ginecológicas muito frequentes, com três causas principais e clinicamente distintas: vaginose bacteriana, candidíase vulvovaginal e tricomoníase.

Características clínicas.

Infeção Corrimento Sintoma dominante Transmissão sexual
Vaginose bacteriana acinzentado, fino odor a peixe não é considerada IST
Candidíase vulvovaginal esbranquiçado, grumoso prurido intenso não
Tricomoníase amarelo-esverdeado irritação, odor sim

Terapêutica não farmacológica. Higiene íntima adequada, sem excesso (evitar duches vaginais e produtos perfumados agressivos), roupa interior de algodão.

Terapêutica farmacológica. Antifúngicos tópicos ou orais para a candidíase, disponíveis com aconselhamento em farmácia em casos típicos e não recorrentes; antibióticos para a vaginose bacteriana e a tricomoníase, sempre sujeitos a receita médica.

Intervenção da farmácia. Aconselhamento é adequado num primeiro episódio típico de candidíase; em episódios recorrentes, sintomas atípicos, gravidez ou dúvida sobre a causa, encaminhar sempre para avaliação médica, já que o tratamento errado de uma vaginose ou tricomoníase com antifúngico não resolve o problema e pode atrasar o diagnóstico correto.

Hipertrofia benigna da próstata (HBP)

Enquadramento. A HBP é o aumento não canceroso da próstata, muito frequente em homens a partir da meia-idade, que comprime a uretra e dificulta o esvaziamento da bexiga.

Características clínicas. Dificuldade a iniciar a micção, jato urinário fraco e interrompido, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, e noctúria (necessidade de urinar várias vezes durante a noite). A avaliação médica pode incluir o rastreio do PSA (antigénio específico da próstata) e o toque retal.

Terapêutica não farmacológica. Redução da ingestão de líquidos à noite, moderação de cafeína e álcool, esvaziamento vesical completo e regular.

Terapêutica farmacológica. Alfa-bloqueadores, que relaxam a musculatura da próstata e da bexiga, e inibidores da 5-alfa-redutase, que reduzem o volume da próstata a longo prazo, são as duas classes principais.

Intervenção da farmácia. Encaminhar para avaliação médica perante sintomas urinários persistentes; reconhecer a retenção urinária aguda (incapacidade total de urinar, com dor abdominal baixa intensa) e a presença de sangue na urina (hematúria) como sinais de alerta que exigem avaliação urgente.

Disfunção erétil

Enquadramento. A disfunção erétil é a incapacidade persistente de obter ou manter uma ereção suficiente para uma relação sexual satisfatória. Tem causas vasculares, neurológicas, hormonais, psicológicas ou uma combinação delas.

Características clínicas. É frequentemente um sinal precoce de doença cardiovascular subjacente (aterosclerose), já que os vasos sanguíneos do pénis são pequenos e sensíveis, e podem mostrar sinais de disfunção antes de outros vasos maiores. Associa-se com frequência à diabetes, hipertensão e dislipidemia.

Terapêutica não farmacológica. Controlo dos fatores de risco cardiovascular (peso, tabagismo, exercício), aconselhamento psicológico quando há componente emocional.

Terapêutica farmacológica. Inibidores da PDE5 são a classe farmacológica mais usada, sempre com avaliação médica prévia, pelas contraindicações importantes com certos medicamentos cardiovasculares.

Intervenção da farmácia. Discrição e sem julgamento é essencial nesta área sensível; explicar que um episódio isolado não é motivo de preocupação, mas que queixas persistentes justificam avaliação médica, também pela possibilidade de sinalizarem doença cardiovascular ainda sem outros sintomas.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Reconhecer patologias é a competência que une técnicos auxiliares de farmácia, de termalismo e de apoio à família e à comunidade: identificar sinais e sintomas, relacioná-los com padrões conhecidos, e decidir se a situação é tranquila, se justifica consulta não urgente ou se é um sinal de alerta que exige encaminhamento imediato. Percorremos dezoito patologias frequentes, organizadas por sistema (endócrino, cardiovascular, hematológico e vascular, respiratório, infecioso, mental, nervoso e genito-urinário), sempre com a mesma estrutura: enquadramento, características clínicas, terapêutica não farmacológica e farmacológica por classe, e a intervenção concreta que cabe ao técnico auxiliar. O fio condutor de tudo é o critério de desempenho central da UC: reconhecer os sinais de alerta, usar a terminologia anatómica correta, e respeitar sempre a saúde e o bem-estar do utente, sem nunca ultrapassar a fronteira entre reconhecer e diagnosticar.

Exercícios resolvidos

1. Um utente refere sede excessiva, urina muitas vezes e perdeu peso sem explicação nas últimas semanas. Que patologia estes sintomas sugerem, e qual é a atitude correta?

Resolução: os sintomas correspondem à "regra dos três P" da diabetes (poliúria, polidipsia, polifagia) associada a perda de peso. A atitude correta não é dizer "tem diabetes", mas sim sugerir a medição da glicemia e o encaminhamento para o médico de família para confirmação e diagnóstico formal.

2. Numa unidade termal, um utente idoso queixa-se de falta de ar ao deitar, que melhora quando se senta. Que sinal é este e a que patologia se associa?

Resolução: é ortopneia, um sinal característico de insuficiência cardíaca. Deve encaminhar-se para avaliação médica, sobretudo se associada a edema dos tornozelos ou fadiga marcada.

3. Distingue vaginose bacteriana de candidíase vulvovaginal pelo tipo de corrimento e pelo sintoma dominante.

Resolução: a vaginose bacteriana apresenta corrimento acinzentado e fino, com odor a peixe, e geralmente sem prurido marcado; a candidíase apresenta corrimento esbranquiçado e grumoso, com prurido intenso como sintoma dominante.

4. Uma pessoa com Alzheimer, habitualmente estável, aparece subitamente muito mais confusa num dia de apoio domiciliário. É expectável, sendo uma doença progressiva?

Resolução: não. O Alzheimer evolui de forma lenta e gradual; uma alteração súbita não é típica da progressão normal da doença e é, em si, um sinal de alerta que sugere outra causa sobreposta, como uma infeção urinária ou desidratação. Deve reportar-se de imediato e contactar o médico assistente.

5. Qual a diferença essencial entre gripe e constipação comum, e porque é importante saber distingui-las?

Resolução: a gripe tem início súbito, febre alta e dores musculares intensas; a constipação instala-se de forma gradual, geralmente sem febre alta ou com febre ligeira, e com fadiga menos marcada. É importante distinguir porque a gripe tem maior risco de complicações, sobretudo em idosos e doentes crónicos, e pode justificar avaliação médica e, em grupos de risco, tratamento antiviral precoce.

6. Um utente com tensão arterial de 190/125 mmHg refere dor de cabeça intensa e alterações da visão. Qual é a classificação e a atitude correta?

Resolução: é uma crise hipertensiva (tensão acima de 180/120 mmHg com sintomas associados), um sinal de alerta grave. A atitude correta é o encaminhamento urgente, contactando o 112 ou dirigindo o utente de imediato a um serviço de urgência, e não apenas aconselhar uma consulta de rotina.