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UC · Unidade de Competência · UC03474

Sebenta · Atuar em situações de emergência em trabalho com máquinas e equipamentos florestais (UC03474)

Suporte Básico de Vida, desfibrilhação automática externa e primeiros socorros no trabalho florestal, segundo as normas do INEM
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Máquinas Florestais ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara-te para atuar em situações de emergência enquanto trabalhas com máquinas e equipamentos florestais: motosserras, tratores, Dozers, gruas e outros equipamentos que, num acidente, podem provocar lesões graves longe de qualquer apoio médico imediato. A unidade de competência cumpre todos os requisitos definidos pelo INEM para o Suporte Básico de Vida (SBV) adulto e pediátrico e para o Suporte Básico de Vida com Desfibrilhação Automática Externa (SBV-DAE).

O trabalho florestal junta três fatores de risco que raramente se juntam noutras profissões: isolamento geográfico, máquinas de grande potência e terreno difícil. Uma ambulância pode demorar vinte, trinta, por vezes quarenta minutos a chegar a um talhão. Nesses minutos, quem está no local é a única linha de defesa da vítima. Esta sebenta ensina exatamente o que fazer nesses minutos, do primeiro olhar de segurança à passagem de testemunho à equipa de emergência.

O percurso segue a ordem real de uma emergência: primeiro o enquadramento (código de conduta, sistema de emergência, segurança do local), depois a avaliação da vítima e a Cadeia de Sobrevivência, depois os algoritmos técnicos (SBV adulto, SBV pediátrico, DAE, desobstrução da via aérea, posição lateral de segurança), depois a traumatologia e outras emergências médicas, e por fim a comunicação, os equipamentos de proteção individual e a colaboração com as equipas diferenciadas.

Objetivos de aprendizagem (referencial): aplicar o código de conduta profissional; efetuar os procedimentos vitais da cadeia de sobrevivência do adulto para recuperar a vítima; assegurar as condições de segurança para o reanimador e para a vítima; executar o algoritmo de Suporte Básico de Vida adulto e pediátrico; e executar o algoritmo de Suporte Básico de Vida com utilização de Desfibrilhador Automático Externo.

1. Emergências no trabalho florestal e o código de conduta profissional

O trabalho florestal com máquinas expõe a riscos que raramente existem noutros contextos profissionais: cortes com motosserra, esmagamento por queda de árvores ou troncos, capotamento de máquinas em terrenos inclinados, queimaduras em motores e escapes, insolação em trabalho ao ar livre no verão. Uma emergência médica neste contexto tem uma particularidade que muda tudo: o isolamento. Enquanto na cidade uma ambulância chega em poucos minutos, num talhão florestal a resposta pode demorar meia hora ou mais.

Esta distância temporal é a razão de ser da unidade de competência: quem trabalha com máquinas florestais tem de estar preparado para agir nos primeiros minutos, antes de a ajuda especializada chegar. Não se trata de substituir o INEM, os bombeiros ou a ANEPC (Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil): trata-se de ganhar tempo, mantendo a vítima viva e nas melhores condições possíveis até essa ajuda assumir o caso.

O código de conduta do socorrista

Atuar bem numa emergência exige mais do que boa vontade: exige seguir um código de conduta claro, que define os limites e a forma de atuação.

Exemplo resolvido · Ativar o plano de contingência

Uma equipa de exploração florestal está a abrir um caminho de acesso com um Dozer, a cerca de dois quilómetros da estrada mais próxima. O encarregado pergunta: "o que é preciso ter definido antes de começar o trabalho, caso alguém se magoe?"

  1. Um plano de contingência conhecido por toda a equipa: quem chama o 112, quem presta os primeiros socorros, onde está o saco de primeiros socorros.
  2. O material de primeiros socorros acessível, junto do local de trabalho, não fechado numa viatura distante.
  3. A localização exata do talhão (coordenadas ou pontos de referência), pronta a transmitir ao 112.
  4. Pelo menos uma pessoa da equipa com formação em SBV e DAE.

Sem estes quatro elementos definidos antes do acidente, os primeiros minutos perdem-se a improvisar, exatamente quando não há tempo a perder.

2. O Sistema Integrado de Emergência Médica e a chamada 112

O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) é a rede coordenada pelo INEM que organiza a resposta a uma emergência médica em Portugal, desde a chamada até à receção no hospital. Compreender como funciona este sistema é essencial para ativá-lo corretamente.

Os números que interessam

Número Serve para
112 emergência médica, incêndio, segurança; número único, gratuito, sem necessidade de cartão SIM
SOS Floresta 117 reportar incêndios florestais

Um incêndio florestal denuncia-se sempre pelo 112 ou pela linha SOS Floresta 117. O ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) não é um número de emergência: é contactado depois, pelos canais institucionais da entidade, para a gestão e proteção do território.

A chamada ao 112 é atendida por um operador que a encaminha para o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM, que decide qual o meio mais adequado a enviar: ambulância, viatura médica de emergência e reanimação, ou helicóptero, consoante a gravidade e a localização.

Realizar a chamada de emergência

Realizar e/ou delegar a chamada de emergência para o 112 é uma das aptidões centrais desta UC. A estrutura da chamada:

  1. Identificar-se e dizer que existe uma emergência.
  2. Dar a localização exata: concelho, freguesia, ponto de referência, coordenadas se disponíveis (muito relevante em contexto florestal, onde não há morada).
  3. Indicar o número de vítimas e o estado aparente (consciente, a respirar, sangra).
  4. Descrever a causa (queda de árvore, corte com motosserra, capotamento).
  5. Não desligar antes de o operador indicar; seguir as instruções dadas, incluindo eventuais instruções de SBV por telefone.

Exemplo resolvido · Uma chamada ao 112 bem feita

Um trabalhador foi atingido por um tronco em movimento numa operação de abate, no Talhão 14 da Serra do Caramulo, junto ao marco quilométrico 3 da via florestal.

"Boa tarde, é uma emergência. Estamos no Talhão 14, Serra do Caramulo, concelho de Tondela, junto ao marco quilométrico 3 da via florestal principal, a cerca de 2 km da estrada nacional. Há uma vítima, um homem adulto, consciente mas com muita dor na perna direita, foi atingido por um tronco. Está a respirar normalmente. Somos uma equipa de quatro pessoas, temos um Dozer no local que já foi desligado."

Este texto tem tudo o que o CODU precisa para decidir e orientar: localização precisa, número e estado da vítima, causa, e informação de segurança do local (a máquina foi desligada). Se estiveres acompanhado, é boa prática delegar a chamada a outra pessoa enquanto quem tem formação continua a socorrer.

3. Segurança do local, do reanimador e da vítima

Antes de tocar em qualquer vítima, o primeiro passo é sempre assegurar as condições de segurança para o reanimador e para a vítima. Esta é, sem exceção, a regra mais importante de toda a unidade de competência: um segundo acidentado não ajuda ninguém, só multiplica o problema.

Avaliar e retificar as condições de segurança

Em trabalho florestal, a avaliação de segurança tem perigos específicos que não existem noutros contextos:

Retificar as condições de segurança no trabalho florestal significa agir sobre estes riscos antes de avançar: desligar e imobilizar a máquina, afastar-se da zona de queda de árvores, sinalizar a zona com fita ou com outro elemento da equipa a controlar o acesso.

A ordem que nunca se altera

Prioridade Quem/o quê
1.º Segurança do reanimador
2.º Segurança de terceiros (resto da equipa, curiosos)
3.º Segurança e socorro da vítima

Regra de ouro desta unidade: primeiro eu, depois os outros, depois a vítima. Só quando o local está seguro é que se avança para junto da pessoa acidentada.

Exemplo resolvido · Avaliar a segurança antes de agir

Um operador de motosserra corta-se profundamente na perna. A motosserra caiu ao lado dele, ainda com o motor ligado, e está numa zona de declive acentuado, junto a uma pilha de troncos empilhados.

  1. Parar a cerca de dois metros e avaliar visualmente: a motosserra está ligada, há risco de a pilha de troncos deslizar.
  2. Pedir a outro elemento da equipa para desligar a motosserra (nunca a vítima o faz, se estiver a sangrar muito).
  3. Verificar se a pilha de troncos está estável antes de se aproximar; se não estiver, contornar por outro lado.
  4. Só depois destes dois passos, aproximar-se da vítima e iniciar a avaliação e o controlo da hemorragia.

Ignorar este exemplo e correr diretamente para a vítima é o erro mais frequente, e o mais perigoso, entre socorristas sem experiência.

4. Avaliar a vítima: reatividade, via aérea e respiração

Depois de garantir a segurança, a avaliação da vítima segue uma sequência fixa, que não se deve alterar nem saltar passos.

Avaliar a reatividade

  1. Aproximar-se e falar em voz alta e clara: "Está bem? Consegue ouvir-me?"
  2. Estimular com um toque firme nos ombros (nunca abanar a cabeça ou o pescoço, pelo risco de lesão cervical).
  3. Observar a resposta: abre os olhos, responde por palavras, move-se, ou não reage a nada.

Se reage: mantém-te junto da vítima, verifica lesões visíveis, chama ajuda se necessário. Se não reage: avança de imediato para a avaliação da via aérea e da respiração; só depois de confirmar que não respira normalmente se grita por ajuda e se liga (ou se pede para ligar) ao 112, pedindo também o DAE.

Permeabilizar a via aérea e avaliar a respiração

Permeabilizar a via aérea e avaliar a respiração é o passo seguinte, com um limite de tempo estrito:

  1. Abrir a via aérea: uma mão na testa, dois dedos no queixo, inclinar a cabeça para trás com suavidade (extensão da cabeça e elevação do queixo).
  2. Ver, ouvir e sentir: olhar o movimento do tórax, ouvir sons de respiração, sentir o ar na face, durante no máximo 10 segundos.
  3. Concluir um de três desfechos: respira normalmente, não respira, ou tem respiração agónica (gasping).

A armadilha da respiração agónica

A respiração agónica (gasping) é um dos erros mais graves e mais frequentes na avaliação. Soa como um suspiro ocasional, irregular, ruidoso, muito diferente de uma respiração normal e regular. Não conta como respiração eficaz: se a vítima tem apenas gasping, o algoritmo a seguir é exatamente o mesmo de quem não respira de todo, ou seja, iniciar de imediato o SBV.

Avaliação Ação seguinte
Reage Vigiar, avaliar lesões, chamar ajuda se preciso
Não reage, respira normalmente Posição Lateral de Segurança, vigiar
Não reage, não respira ou só tem gasping Iniciar Suporte Básico de Vida de imediato

Exemplo resolvido · Distinguir gasping de respiração normal

Um colega encontra o operador de uma máquina caído, sem resposta ao estímulo. Ao aproximar o ouvido e o rosto ao tórax, ouve sons irregulares, espaçados, como um suspiro a cada dez ou quinze segundos, sem movimento regular do tórax.

Análise: isto não é respiração normal, é gasping. A decisão correta é tratar como se a vítima não respirasse e iniciar de imediato as compressões torácicas, e não colocar em Posição Lateral de Segurança à espera que "melhore".

5. A Cadeia de Sobrevivência do adulto

A Cadeia de Sobrevivência representa os passos que, em sequência e sem falhas, maximizam a hipótese de sobrevivência de uma vítima em paragem cardiorrespiratória.

Os quatro elos

  1. Reconhecimento precoce da emergência e chamada de ajuda (112).
  2. SBV precoce, com compressões e insuflações de quem está no local.
  3. Desfibrilhação precoce, com DAE, assim que disponível.
  4. Cuidados pós-reanimação especializados, já no hospital.

Cada elo depende do anterior: sem reconhecimento não há chamada, sem SBV precoce o DAE chega tarde demais, sem desfibrilhação o coração pode não retomar um ritmo eficaz mesmo com boas compressões. Efetuar os procedimentos vitais da cadeia de sobrevivência do adulto para recuperar a vítima é aplicar estes quatro elos, sem os quebrar, um após o outro.

Porque o tempo é o fator decisivo

A cada minuto sem SBV nem desfibrilhação, a probabilidade de sobrevivência cai de forma acentuada. Em contexto florestal, onde o quarto elo (cuidados hospitalares) demora naturalmente mais tempo a chegar, os primeiros três elos, todos executados por quem está no local, tornam-se ainda mais decisivos para o desfecho da vítima.

Tabela resumo da cadeia

Elo Quem age primeiro Objetivo
Reconhecimento e 112 quem está no local ativar a cadeia de ajuda
SBV quem está no local manter oxigenação dos órgãos vitais
DAE quem está no local, com equipamento reverter ritmos cardíacos fatais
Pós-reanimação INEM e hospital estabilizar e tratar a causa

6. Suporte Básico de Vida Adulto: o algoritmo completo

Executar o algoritmo de Suporte Básico de Vida (SBV) adulto segue sempre a mesma sequência lógica, e é o núcleo técnico de toda a unidade de competência.

O algoritmo, passo a passo

  1. Garantir a segurança do local.
  2. Avaliar a reatividade.
  3. Abrir a via aérea e avaliar a respiração (até 10 segundos).
  4. Se não respira normalmente: gritar por ajuda, ligar (ou pedir para ligar) ao 112 e pedir o DAE.
  5. Iniciar compressões torácicas de imediato.
  6. Alternar 30 compressões com 2 insuflações, sem interromper mais do que o estritamente necessário.
  7. Assim que chegar um DAE, ligá-lo e seguir as instruções de voz.
  8. Continuar até a vítima recuperar sinais de vida, chegar ajuda diferenciada, ou o reanimador ficar exausto.

Executar as compressões torácicas

Realizar compressões torácicas e insuflações exige uma técnica precisa:

Executar as insuflações

Depois de 30 compressões, seguem-se 2 insuflações:

  1. Manter a via aérea aberta.
  2. Apertar o nariz da vítima com dois dedos.
  3. Selar bem a boca sobre a boca da vítima, ou usar máscara de bolso com válvula unidirecional, sempre que disponível.
  4. Insuflar durante cerca de 1 segundo, o suficiente para ver o tórax a elevar-se.
  5. Repetir a segunda insuflação e voltar de imediato às compressões, sem exceder 10 segundos nas duas insuflações.

Exemplo resolvido · Iniciar SBV num acidente de motosserra

Um colega, após um corte de motosserra profundo na coxa, deixou de reagir. Avaliaste a segurança (a motosserra foi desligada por outra pessoa), confirmaste que não reage, abriste a via aérea e concluíste que não respira normalmente.

  1. Gritas por ajuda: "não respira, preciso de ajuda, liga ao 112 já e pede o DAE".
  2. Colocas a base de uma mão no centro do tórax, a outra por cima, e inicias 30 compressões a um ritmo de cerca de 110 por minuto, com 5 a 6 centímetros de profundidade.
  3. Fazes 2 insuflações, verificando que o tórax se eleva em cada uma.
  4. Repetes o ciclo de 30:2, sem parar, até chegar um DAE ou a equipa de emergência assumir a vítima.

Como há hemorragia da lesão da motosserra, se houver um terceiro elemento disponível, este pode aplicar pressão direta à ferida enquanto tu continuas o SBV, sem interromper as compressões.

Trabalhar em equipa

Se houver mais do que um reanimador, alternar a cada 2 minutos evita a quebra de qualidade por cansaço. Um segundo elemento prepara o DAE enquanto o primeiro continua as compressões; um terceiro gere a chamada ao 112 e recebe as equipas de socorro no acesso mais próximo. O SBV bem-sucedido é, quase sempre, trabalho de equipa.

7. Suporte Básico de Vida Pediátrico

Executar manobras de suporte básico de vida em crianças segue a mesma lógica do adulto, com adaptações importantes, porque nas crianças a causa mais frequente de paragem é respiratória, não cardíaca.

O que muda face ao algoritmo adulto

Especificidades da via aérea pediátrica

A via aérea de uma criança é mais estreita e mais facilmente obstruída, o que muda a técnica de abertura:

Idade Posição da cabeça Técnica de compressão
Lactente neutra, sem hiperestender dois dedos, ou as duas mãos a envolver o tórax
Criança extensão ligeira uma ou duas mãos, conforme o tamanho
Adulto extensão completa as duas mãos sobrepostas

As insuflações em crianças devem ser suaves, o suficiente apenas para elevar o tórax, evitando lesão pulmonar por excesso de pressão de ar.

Exemplo resolvido · SBV pediátrico numa criança que acompanha o trabalho

Numa exploração familiar, uma criança de seis anos que acompanhava o pai perde a consciência após uma queda e não respira.

  1. Segurança confirmada, reatividade avaliada: não reage.
  2. Abres a via aérea com uma extensão ligeira da cabeça (menos acentuada do que num adulto) e confirmas que não respira.
  3. Fazes 5 insuflações iniciais suaves, observando a elevação do tórax em cada uma.
  4. Como tens formação em SBV pediátrico, segues com ciclos de 15 compressões para 2 insuflações, com uma ou duas mãos, consoante o tamanho do tórax da criança, a cerca de um terço da profundidade do tórax.
  5. Continuas até a criança recuperar sinais de vida ou chegar ajuda diferenciada.

O princípio central mantém-se: agir rápido, e não ter medo de comprimir com firmeza suficiente para gerar circulação eficaz.

8. Desfibrilhação Automática Externa: SBV DAE

O Desfibrilhador Automático Externo (DAE) é um aparelho portátil que analisa o ritmo cardíaco e, se detetar um ritmo fatal tratável por choque, dá instruções por voz para administrar uma descarga elétrica capaz de o reverter.

Como funciona

Executar o algoritmo de SBV com DAE

Executar o algoritmo de Suporte Básico de Vida com utilização de Desfibrilhador Automático Externo (SBV-DAE):

  1. Continuar as compressões enquanto outro elemento liga o DAE e coloca os elétrodos.
  2. Colocar os elétrodos: um abaixo da clavícula direita, outro no lado esquerdo do tórax, sobre a linha axilar.
  3. Afastar toda a gente da vítima durante a análise do ritmo: "não toquem na vítima".
  4. Se indicado, o DAE avisa para carregar no botão de choque; todos continuam afastados.
  5. Imediatamente após o choque, ou se não for aconselhado, retomar as compressões sem demora.
  6. O DAE volta a analisar a cada 2 minutos; seguir sempre as instruções de voz.

Exemplo resolvido · Usar o DAE durante o SBV

Estás a fazer compressões há cerca de um minuto quando um colega chega com o DAE do posto de apoio.

  1. Não interrompes as compressões enquanto o colega retira os elétrodos e os prepara.
  2. Interrompes apenas os segundos necessários para colocar os elétrodos: um abaixo da clavícula direita, outro no lado esquerdo do tórax.
  3. Assim que o DAE anuncia "a analisar o ritmo, não toque na vítima", todos se afastam e param as compressões.
  4. O DAE indica "choque aconselhado, afaste-se". Confirmas visualmente que ninguém toca na vítima e o colega carrega no botão.
  5. Imediatamente após o choque, retomas as compressões, sem esperar por nova instrução.

Situações especiais na colocação dos elétrodos

Se o tórax da vítima estiver molhado (suor, chuva) ou muito peludo, secar rapidamente ou, se necessário, rapar antes de colocar os elétrodos, para garantir boa condução elétrica e a segurança de quem está por perto.

9. Obstrução da Via Aérea

A Obstrução da Via Aérea (OVA), ou engasgamento, pode ser ligeira ou grave, e a distinção decide a atuação correta.

Reconhecer o tipo de OVA

Sinal OVA ligeira OVA grave
Tosse forte, eficaz ausente ou muito fraca
Fala consegue falar não consegue falar
Respiração dificultada, mas presente ausente ou muito comprometida
Cor normal pode ficar cianótica (arroxeada)
Sinal típico tosse repetida mãos na garganta (sinal universal de engasgamento)

Perante uma OVA ligeira, a atuação certa é encorajar a tossir, sem intervir de forma mais agressiva: a tosse forte é o mecanismo mais eficaz para desobstruir a via aérea.

Executar as manobras de desobstrução

Executar manobras de desobstrução de via aérea em vítimas de engasgamento, perante uma OVA grave num adulto consciente:

  1. 5 pancadas interescapulares: inclinar a vítima para a frente, dar pancadas firmes entre as omoplatas com a base da mão.
  2. Se não resolver, 5 compressões abdominais (manobra de Heimlich): posicionar-se atrás da vítima, punho fechado acima do umbigo, comprimir para dentro e para cima.
  3. Alternar 5 e 5 até desobstruir ou a vítima perder a consciência.
  4. Se a vítima perde a consciência: deitá-la no chão com cuidado, ligar ao 112 e iniciar de imediato o algoritmo de SBV, com uma verificação da boca antes de cada insuflação.

OVA em lactentes e crianças

A técnica de desobstrução muda com a idade da vítima:

Exemplo resolvido · Engasgamento durante a refeição de campo

Durante a pausa para almoço no meio da floresta, um colega começa subitamente a levar as mãos à garganta, não consegue tossir nem falar, e a cor do rosto começa a mudar.

  1. Reconheces os sinais de OVA grave: mãos na garganta, sem tosse eficaz, sem fala.
  2. Inclinas o colega para a frente e dás 5 pancadas interescapulares firmes.
  3. Como não resolveu, posicionas-te atrás dele e dás 5 compressões abdominais, punho fechado acima do umbigo, comprimindo para dentro e para cima.
  4. Alternas os dois grupos de 5 até o objeto ser expelido ou o colega perder a consciência.
  5. Se perder a consciência: deitas com cuidado no chão, alguém liga ao 112, e inicias de imediato o algoritmo de SBV.

Em vítima grávida ou muito obesa, as compressões abdominais são substituídas por compressões torácicas, na mesma lógica.

10. Posição Lateral de Segurança

Colocar a vítima (adulto ou criança) em posição lateral de segurança aplica-se à vítima que não reage, ou tem a reatividade diminuída, mas respira normalmente e não precisa de SBV.

Quando usar e quando não usar

Estado da vítima Ação
Reage, orientada não é necessária PLS, apenas vigiar
Não reage ou reage pouco, respira normalmente Posição Lateral de Segurança
Não reage, não respira ou só tem gasping Suporte Básico de Vida, não PLS

O objetivo da PLS é manter a via aérea aberta e evitar a aspiração de vómito ou secreções, deixando-os escorrer para fora da boca em vez de entrarem nos pulmões. Em trauma grave, com suspeita de lesão da coluna, pondera-se com muito cuidado, movendo com o mínimo de rotação necessário.

Executar a técnica, passo a passo

Com a vítima deitada de costas:

  1. Colocar o braço mais próximo do reanimador em ângulo reto com o corpo, palma da mão para cima.
  2. Trazer o braço afastado sobre o tórax, com o dorso da mão encostado à face da vítima do lado do reanimador.
  3. Com a outra mão, dobrar o joelho afastado, mantendo o pé apoiado no chão.
  4. Puxar o joelho, rodando a vítima de lado, em direção ao reanimador, de forma controlada.
  5. Ajustar a cabeça para trás (via aérea aberta) e a perna de cima dobrada para estabilizar a posição.
  6. Vigiar a respiração continuamente até chegar ajuda.

Exemplo resolvido · PLS numa insolação

Um colaborador queixa-se de tonturas num dia de calor extremo, torna-se confuso e depois deixa de responder de forma coerente, embora continue a respirar normalmente quando avaliado.

Análise: não reage, ou reage pouco, e respira normalmente, sem precisar de SBV. É o caso exato de aplicação da Posição Lateral de Segurança, enquanto se aguarda a ajuda pedida ao 112 e se tenta arrefecer a vítima sem a mover desnecessariamente.

11. Traumatologia: hemorragias, feridas, fraturas e queimaduras

O trabalho com máquinas florestais expõe a riscos de corte, esmagamento, perfuração e queimadura. Aplicar as técnicas de primeiros socorros em vítimas de trauma cobre um conjunto alargado de lesões.

Controlar hemorragias

Limpar feridas ligeiras a moderadas

  1. Lavar as mãos do socorrista, sempre que possível, antes de tocar na ferida.
  2. Limpar a ferida com soro fisiológico ou água limpa, de dentro para fora.
  3. Aplicar solução de desinfeção adequada.
  4. Cobrir com compressa e fixar com adesivo ou ligadura.
  5. Vigiar sinais de infeção nos dias seguintes: vermelhidão, calor, pus, febre.

Fraturas e entorses

Queimaduras

Exemplo resolvido · Ferida por motosserra com hemorragia ativa

Um operador sofreu um corte profundo no antebraço com a motosserra, com hemorragia visível e contínua.

  1. Segurança confirmada (motosserra desligada por outra pessoa).
  2. Calças luvas (equipamento de proteção individual) antes de tocar na ferida.
  3. Aplicas uma compressa e fazes pressão direta firme contínua, sem retirar para verificar.
  4. Se a compressa ensopar, colocas mais compressas por cima, sem remover a primeira, mantendo a pressão.
  5. Se a hemorragia for muito abundante e não controlar com pressão direta, aplicas um torniquete comercial, 5 a 7 cm acima da ferida, e registas a hora.
  6. Ligas ao 112 (ou delegas), descrevendo a lesão e a hemorragia.

12. Outras emergências médicas, comunicação e equipamentos de proteção individual

Reconhecer sinais e sintomas de emergências não traumáticas

Identificar os sinais e sintomas de doença ou trauma do indivíduo cobre também emergências que não são cardíacas nem provocadas diretamente por um acidente com máquinas.

Emergência Sinais Primeira atuação
Golpe de calor pele quente, temperatura elevada, confusão, agitação, convulsões ou perda de consciência ligar 112 de imediato; retirar do calor e arrefecer já (água fria do pescoço para baixo ou, sem água, toalhas molhadas com ventilação e gelo nas axilas e virilhas); dar água só se consciente e sem vómitos
Hipoglicemia suor frio, tremores, confusão se consciente, dar açúcar de absorção rápida
Convulsão movimentos involuntários, perda de consciência proteger a cabeça, não imobilizar movimentos, não colocar nada na boca
AVC (Acidente Vascular Cerebral) assimetria facial, fraqueza num lado, dificuldade em falar emergência, ligar 112 de imediato

Aplicar as técnicas de primeiros socorros em vítimas de doença súbita segue princípios comuns: manter a calma, não dar de beber nem comer se houver risco de perda de consciência, posicionar confortavelmente, vigiar continuamente reatividade e respiração, e registar a hora de início dos sintomas, informação valiosa para a equipa do INEM.

Comunicação de suporte em situação de emergência

Cumprir as regras de comunicação de suporte em contexto de intervenção e manter o controlo emocional, promovendo a calma entre os presentes são critérios de desempenho centrais desta UC:

Equipamentos de proteção individual e material de socorrismo

Utilizar os equipamentos de proteção individual (EPI) protege quem socorre e quem é socorrido. O material de socorrismo previsto para esta UC inclui:

Categoria Exemplos
Via aérea e reanimação máscara de bolso com válvula unidirecional, desfibrilhador de treino
Ferimentos ligaduras, compressas, soluções de lavagem e desinfeção, adesivo
Imobilização talas, lenço triangular
Proteção térmica lençol térmico descartável
Avaliação (opcional) estetoscópio, esfigmomanómetro, máquina de BM teste, lanterna de reflexos pupilares

Colaborar com as equipas de emergência médica

Colaborar no apoio e auxílio de agentes de emergência médica fecha o ciclo: manter o acesso ao local limpo e sinalizado, transmitir de forma objetiva o que aconteceu, o que foi feito e desde quando, e só terminar a intervenção quando a equipa diferenciada assume formalmente o cuidado da vítima.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Atuar em emergência no trabalho florestal segue sempre a mesma lógica: segurança primeiro (do reanimador, da vítima e de terceiros), depois avaliação (reatividade, via aérea, respiração), depois a Cadeia de Sobrevivência (reconhecimento e 112, SBV precoce, DAE precoce, cuidados pós-reanimação). O SBV adulto segue o ciclo de 30 compressões para 2 insuflações, com o 112 chamado depois de confirmar que a vítima não respira; o SBV pediátrico começa sempre com 5 insuflações iniciais e segue depois em 15:2 (com formação pediátrica) ou 30:2 (só formação adulta). O DAE liga-se assim que chega, sem hesitar. A desobstrução da via aérea, a Posição Lateral de Segurança e a traumatologia (hemorragias, feridas, fraturas, queimaduras) completam o leque de resposta a emergências não cardíacas. Tudo isto enquadrado por equipamentos de proteção individual, comunicação clara e controlo emocional, até à chegada e passagem de testemunho às equipas do INEM.

Exercícios resolvidos

1. Chegas junto de um colega caído após uma queda de uma máquina. A motosserra dele está ainda a trabalhar no chão, a menos de um metro. Qual é o teu primeiro gesto?

Resolução: nenhum contacto com a vítima antes de resolver a máquina em funcionamento. Pedes a outra pessoa (ou fazes tu, com segurança) para desligar a motosserra, avalias o terreno, e só depois avanças para a vítima. Segurança primeiro, sempre.

2. Uma vítima não reage. Avalias a via aérea e a respiração e ouves sons irregulares, espaçados, tipo suspiro. O que fazes?

Resolução: isto é respiração agónica (gasping), não conta como respiração normal. A ação correta é tratar como se não respirasse e iniciar de imediato o Suporte Básico de Vida, e não colocar em Posição Lateral de Segurança.

3. Explica de que depende a proporção de compressões e insuflações no SBV pediátrico, e como se compara com o SBV adulto.

Resolução: no adulto é sempre 30 compressões para 2 insuflações. Na criança, a proporção depende da formação, não do número de reanimadores: quem tem formação em SBV pediátrico usa 15 para 2, com um ou dois reanimadores; quem só conhece o SBV adulto usa 30 para 2. Em ambos os casos, começa-se sempre por 5 insuflações iniciais. Se o reanimador estiver sozinho e sem telemóvel, faz-se primeiro 1 minuto de SBV antes de ir pedir ajuda.

4. O DAE chega ao local enquanto fazes compressões. Qual é a sequência correta a partir desse momento?

Resolução: não paras as compressões enquanto o DAE é preparado. Interrompes apenas o tempo necessário para colocar os elétrodos. Quando o DAE anuncia que vai analisar o ritmo, todos se afastam e param de tocar na vítima. Se aconselhar choque, confirma-se que ninguém toca e administra-se o choque; imediatamente a seguir, retomam-se as compressões sem esperar por nova instrução.

5. Um colega engasga-se durante o almoço no campo: não tosse, não fala, leva as mãos à garganta. Descreve a sequência de atuação.

Resolução: é uma OVA grave. Inclinas a pessoa para a frente e dás 5 pancadas interescapulares. Se não resolver, dás 5 compressões abdominais (manobra de Heimlich). Alternas os dois grupos de 5 até desobstruir ou a pessoa perder a consciência; se perder a consciência, deitas com cuidado, ligas ao 112 e inicias de imediato o algoritmo de SBV, verificando a boca antes de cada insuflação.