Sebenta · Avaliar a produtividade e os custos das operações (UC03472)
- Introdução
- 1. Produção, produtividade e custos: conceitos
- 2. Fatores que influenciam a produtividade
- 3. Unidades e tempos de trabalho
- 4. Metodologias de avaliação dos tempos de trabalho
- 5. Produtividade das operações florestais
- 6. Tipos de custos e dados gerais
- 7. Encargos fixos
- 8. Despesas de funcionamento, pessoal, deslocação e anexas
- 9. Custo da atividade e registo de custos e produtividades
- 10. CAOF e sustentabilidade das operações
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a avaliar a produtividade e os custos das operações florestais: quanto uma máquina ou equipa produz por hora, e quanto custa produzir esse volume. É uma competência transversal a todas as operações do setor, abate e processamento, rechega e extração, tratamento de sobrantes, construção e manutenção de infraestruturas, porque nenhuma decisão técnica ou comercial se sustenta sem números fiáveis.
O percurso segue a lógica do próprio referencial: primeiro identificamos os fatores que fazem a produtividade variar entre operações; depois aprendemos a medir tempos de trabalho com rigor; a seguir calculamos a produtividade de cada tipo de operação; e por fim calculamos e decompomos os custos, dos encargos fixos às despesas anexas, até chegar ao indicador que resume tudo, o custo por m³. Fechamos com as tabelas de referência da CAOF e com a ligação desta matéria à sustentabilidade do setor.
Objetivos de aprendizagem (referencial): identificar os fatores que influenciam a produtividade e o custo das operações; calcular a produtividade das operações; calcular os custos das operações, identificando a sua composição.
1. Produção, produtividade e custos: conceitos
Três conceitos formam a base de toda a UC e não podem ser confundidos:
- Produção: a quantidade total obtida numa operação, medida em volume (m³) ou peso (toneladas), consoante o produto (toros, estilha, lenha).
- Produtividade: a produção obtida por unidade de tempo. É sempre uma taxa (m³/h, ton/h), nunca uma quantidade absoluta isolada.
- Custo: o valor gasto para obter essa produção, normalmente expresso em €/h de máquina ou em €/m³ produzido.
A distinção entre produção e produtividade é a mais fácil de confundir na prática. Dizer que "o harvester abateu 48 m³ hoje" descreve a produção; dizer que "o harvester rende 6,75 m³/h" descreve a produtividade. Só a segunda frase permite comparar este harvester com outro que trabalhou um número diferente de horas.
Porque se avaliam produtividade e custos
A avaliação de produtividade e custos serve, na prática de uma empresa de serviços florestais ou de uma associação/cooperativa, para:
- Comparar operações e equipamentos entre si de forma objetiva, em vez de "achismo".
- Suportar o orçamento e a proposta comercial apresentada a um cliente (autarquia, associação, empresa de indústria florestal).
- Identificar onde intervir para aumentar a produtividade e reduzir o custo por m³.
- Negociar com associações, cooperativas, federações e entidades públicas que contratam trabalhos florestais, com base em números e não em intuição.
Uma produtividade alta obtida com um custo desproporcionado pode valer menos, em termos de custo por m³, do que uma produtividade média obtida com um custo controlado. As duas leituras, produtividade e custo, têm sempre de ser cruzadas; é essa relação, aliás, que fecha esta sebenta no capítulo 9.
2. Fatores que influenciam a produtividade
O referencial agrupa em seis fatores tudo o que faz a produtividade de uma máquina ou operação variar de local para local, mesmo mantendo o mesmo equipamento:
| Fator | O que inclui | Efeito típico na produtividade |
|---|---|---|
| Terreno | declive, pedregosidade, tipo de solo, acessos | declives fortes e pedregosidade reduzem a velocidade e a tração |
| Povoamento florestal | espécie, densidade, diâmetro, altura | árvores de maior diâmetro rendem mais m³ por ciclo de trabalho |
| Silvicultura praticada | desbaste vs corte final, idade do povoamento | o desbaste (seletivo) é mais lento do que o corte final |
| Máquina | potência, capacidade, estado de manutenção | máquina mal afinada ou subdimensionada perde rendimento |
| Organização e métodos de trabalho | planeamento, formação da equipa, logística | má organização das vias de extração aumenta tempos mortos |
| Produtos a obter | dimensões e qualidade exigidas ao produto final | exigências de precisão (toros de serração) abrandam o processamento |
Terreno e povoamento
O declive é, na maioria dos estudos do setor, o fator isolado com maior impacto na produtividade. Acima de cerca de 30-35% de declive, muitas máquinas de rodas perdem tração e velocidade de deslocação; nesses casos recorre-se a máquinas de rastos ou a sistemas de cabo aéreo. A pedregosidade e a presença de linhas de água ou valas obrigam a desvios constantes e reduzem o rendimento efetivo.
No povoamento florestal, árvores com maior diâmetro médio processam-se mais depressa por unidade de volume, porque cada manobra da máquina (agarrar, cortar, desramar, traçar) rende mais m³. A densidade (número de árvores por hectare) condiciona a manobra entre fustes: em povoamentos muito densos, a máquina perde mais tempo a posicionar-se. A espécie influencia a dureza da madeira e a forma do fuste (ramificação, tortuosidade), afetando o tempo de processamento.
Silvicultura, máquina, organização e produto
Um desbaste (remoção seletiva de árvores finas, deixando as restantes a crescer) é uma operação de precisão, mais lenta do que um corte final (remoção total do povoamento, com árvores tipicamente maiores). A idade e o histórico de gestão do povoamento também condicionam a regularidade do fuste e, logo, a produtividade.
A máquina define o limite físico: potência do motor, capacidade da grua ou da pinça, e sobretudo o estado de manutenção. Uma máquina desgastada ou mal afinada perde rendimento mesmo em condições de terreno e povoamento favoráveis.
A organização e métodos de trabalho incluem o planeamento prévio das vias de extração, a experiência e formação do operador (dois operadores na mesma máquina podem ter produtividades muito diferentes) e a coordenação entre máquinas numa mesma frente de trabalho.
Por fim, os produtos a obter alteram o tempo de processamento por árvore: produzir toros de serração com comprimentos exatos e sem defeitos exige mais cortes de verificação do que produzir estilha, onde a dimensão é menos crítica.
3. Unidades e tempos de trabalho
As unidades
A produção mede-se em volume (m³) ou peso (toneladas), consoante o produto e a operação. A produtividade relaciona sempre essa produção com o tempo:
| Grandeza | Unidade típica |
|---|---|
| Produção | m³, ton |
| Tempo | h, jornada, ano |
| Produtividade | m³/h, ton/h, m³/jornada, m³/ano |
A escolha da unidade de tempo depende do objetivo: m³/h para comparar máquinas num mesmo tipo de trabalho; m³/jornada ou m³/ano para planear a capacidade de uma frota ao longo de uma campanha. Nunca se compara produtividade entre dois registos sem confirmar que a unidade de tempo e o tipo de produto são os mesmos dos dois lados: comparar m³/h com m³/jornada, sem converter, produz uma conclusão errada.
Tempo de presença, tempo de máquina, tempo produtivo
Este é o conceito mais importante do capítulo, porque sustenta todos os cálculos de produtividade da UC. Nem todo o tempo em que uma máquina está no terreno é tempo produtivo:
- Tempo de presença do operador: as horas em que o operador está ao serviço, incluindo pausas, deslocações internas e pequenas paragens.
- Tempo de trabalho da máquina: as horas em que a máquina está ligada e em operação.
- Tempo de trabalho produtivo: a parte desse tempo em que a máquina está efetivamente a produzir (a abater, a rechegar, a triturar).
- Tempo não produtivo: paragens para manutenção, avarias, deslocações sem carga, esperas e condições climatéricas adversas.
A produtividade calcula-se sempre sobre o tempo produtivo, nunca sobre o tempo de presença total. Um harvester com 8 horas de presença mas apenas 6,5 horas de trabalho produtivo (o resto gasto em manutenção e deslocações) tem a sua produtividade calculada sobre as 6,5 horas, não sobre as 8. Ignorar esta distinção é o erro mais comum ao calcular produtividade, e por isso é sublinhado ao longo de toda esta sebenta.
4. Metodologias de avaliação dos tempos de trabalho
O referencial identifica três formas de medir os tempos de trabalho, com equilíbrios diferentes entre rigor e custo/tempo de estudo:
- Cronometragem: medição direta e contínua, no terreno, com cronómetro ou registador eletrónico, de cada elemento do ciclo de trabalho.
- Amostragem prévia (work sampling): observações pontuais e aleatórias ao longo do dia, que registam apenas a categoria de atividade naquele instante.
- Tabelas de tempos-padrão: valores de referência já publicados ou construídos em estudos anteriores, aplicados sem nova medição no terreno.
Cronometragem
A cronometragem decompõe o ciclo de trabalho em elementos e mede o tempo de cada um, repetido em vários ciclos, para obter uma média fiável (um único ciclo cronometrado não é representativo, porque varia naturalmente de ciclo para ciclo).
Exemplo resolvido: decompor um ciclo de rechega
Um técnico cronometra o ciclo de trabalho de um forwarder, repetindo a medição em vinte ciclos e calculando as médias:
| Elemento do ciclo | Tempo médio |
|---|---|
| Deslocação vazio até à carga | 8 min |
| Carregamento | 12 min |
| Deslocação carregado até ao parque | 10 min |
| Descarga no parque | 5 min |
| Tempo de ciclo produtivo | 35 min |
Só os quatro elementos do ciclo entram no tempo produtivo. Uma paragem para manutenção que aconteça durante o carregamento não se soma ao "tempo de carregamento": regista-se à parte, como tempo não produtivo.
Amostragem de trabalho e tabelas de tempos-padrão
Na amostragem de trabalho, em vez de cronometrar tudo, fazem-se observações instantâneas a intervalos aleatórios (por exemplo, de cinco em cinco minutos) e regista-se apenas a categoria da atividade nesse momento: produtivo, manutenção, deslocação, paragem. Com um número suficiente de observações, a percentagem de cada categoria aproxima-se do tempo real gasto nela. É um método mais barato do que a cronometragem contínua, mas menos detalhado, e é especialmente adequado quando há muitas máquinas a acompanhar com uma equipa de estudo reduzida.
As tabelas de tempos-padrão são valores médios de tempo por elemento de trabalho, obtidos em estudos anteriores, aplicáveis a situações semelhantes. Poupam o tempo e o custo de um novo estudo, mas exigem confirmar que as condições, terreno, povoamento e máquina, são comparáveis às do estudo de origem: aplicar cegamente uma tabela de outra realidade produz estimativas erradas.
5. Produtividade das operações florestais
A avaliação da produtividade aplica-se a quatro grandes tipos de operação, todos com a mesma lógica de cálculo (produção a dividir pelo tempo produtivo), mas com diferenças práticas relevantes entre si.
Abate e processamento mecanizado
O harvester abate, desrama e traça (corta em toros no comprimento definido) numa só passagem. A fórmula geral:
Produtividade (m³/h) = Volume total processado (m³) / Tempo produtivo (h)
Exemplo resolvido
Um harvester processou 48,6 m³ num turno em que o tempo produtivo, já descontadas as paragens e a manutenção, foi de 7,2 horas.
Produtividade = 48,6 / 7,2 = 6,75 m³/h
O mesmo raciocínio aplica-se ao abate manual com motosserra seguido de processamento, mudando apenas o método de trabalho e, normalmente, o valor obtido.
A produtividade do abate mecanizado varia sobretudo com o diâmetro médio das árvores (mais m³ por manobra), a densidade do povoamento (mais manobras entre fustes), o tipo de operação (desbaste seletivo vs corte final) e o comprimento e qualidade exigidos aos toros.
Rechega e extração
A rechega (ou extração) transporta a madeira do local de abate até ao parque ou carregadouro. Três equipamentos principais:
- Forwarder: transporta a madeira já processada, carregada sobre a máquina.
- Skidder: arrasta os fustes ou toros até ao carregadouro, sem os elevar totalmente do solo.
- Cabo aéreo: extrai a madeira suspensa por cabo, usado em declives muito acentuados onde as máquinas de rodas ou rastos não acedem.
A escolha do equipamento depende sobretudo do declive e da distância de extração.
Exemplo resolvido: produtividade por ciclo
Retomando o ciclo do capítulo 4 (35 minutos, 9 m³ transportados por ciclo), e considerando que num turno o tempo produtivo é de 50 minutos por hora (o resto ocupado por pequenas paragens):
- Ciclos por hora de tempo produtivo = 50 / 35 ≈ 1,43 ciclos/h
- Produtividade = 1,43 × 9 = 12,9 m³/h
Se a distância de extração aumentar, o tempo de deslocação sobe, o ciclo alonga-se e a produtividade desce, mesmo que o volume transportado por ciclo se mantenha igual. Inversamente, se o operador conseguir aumentar a carga por ciclo sem alongar o ciclo, a produtividade sobe proporcionalmente.
Tratamento de sobrantes
Os sobrantes (ramos, bicadas, cepos e material de menor dimensão) resultam do abate e processamento. Duas soluções principais: trituração/estilhagem, que transforma os sobrantes em estilha para energia (biomassa), medida em toneladas ou estere/hora; e enleiramento, em que os sobrantes são organizados em leiras, para decomposição natural, recolha posterior ou redução do risco de incêndio.
A produtividade da estilhagem calcula-se de forma semelhante às restantes operações (ton/h de tempo produtivo) e depende do tipo de triturador, da humidade do material e da densidade de sobrantes por hectare.
Construção e manutenção de infraestruturas florestais
As infraestruturas florestais (caminhos florestais, aceiros, pontos de água) são essenciais para o acesso das máquinas e para a defesa da floresta contra incêndios. A produtividade típica exprime-se em metros de caminho por hora ou em m³/h de material movimentado, consoante a máquina utilizada (giratória, motoniveladora, buldózer). Os fatores determinantes são o tipo de solo, o declive e a especificação técnica exigida ao caminho; a manutenção periódica (limpeza de valetas, reperfilamento) é normalmente mais rápida do que a abertura de um caminho novo.
Em todas estas operações, o princípio é sempre o mesmo: registar o tempo produtivo separado das paragens, para obter uma produtividade comparável entre equipas e entre parcelas.
6. Tipos de custos e dados gerais
Os dados gerais de partida
Antes de calcular qualquer custo, reúnem-se três dados gerais sobre o funcionamento anual da máquina e da equipa:
| Dado geral | Exemplo típico |
|---|---|
| Dias de trabalho anual | 200 dias/ano |
| Tempo de presença diário do operador | 8 h/dia |
| Horas de trabalho diário da máquina | 6,5 a 7,5 h/dia (descontadas paragens) |
Não se usam 365 dias por ano: fins de semana, feriados, más condições climatéricas e paragens planeadas reduzem os dias úteis a um valor bem menor. Estes dados servem de base para anualizar os custos fixos (repartir por todas as horas do ano) e para calcular o custo diário e o custo anual de uma operação.
Custos fixos, variáveis e anexos
Todo o custo de uma operação florestal enquadra-se numa de três categorias:
- Custos fixos: não dependem de quanto a máquina trabalha (amortização, despesas financeiras, seguros). Existem mesmo que a máquina fique parada.
- Custos variáveis: crescem com as horas de trabalho (combustível, óleos, pneumáticos/rastos, manutenção e reparações).
- Custos anexos: despesas de apoio à atividade que não se ligam diretamente a uma máquina (comunicações, gestão, recursos humanos, infraestruturas da empresa), normalmente repartidas em percentagem pelo custo da atividade já acumulado.
Um erro frequente é classificar o combustível como custo fixo: é variável, porque depende diretamente das horas trabalhadas. Já o seguro é fixo, paga-se quer a máquina trabalhe quer não.
7. Encargos fixos
Os encargos fixos (custo da máquina, equipamento ou alfaia) somam três componentes principais, calculados por ano e depois convertidos em €/h, dividindo pelas horas de trabalho anuais da máquina:
- Amortização: reparte o valor perdido pela máquina (aquisição menos valor de retoma) pelos anos de vida útil.
- Despesas financeiras: o custo do capital investido (juros de financiamento ou custo de oportunidade), calculado sobre o valor médio investido ao longo da vida útil.
- Seguros: cobertura obrigatória e complementar da máquina.
Exemplo resolvido: amortização e despesas financeiras
Harvester com valor de aquisição 300 000 €, valor de retoma estimado ao fim da vida útil 60 000 €, vida útil 5 anos, a trabalhar 1600 horas/ano.
Passo 1, amortização anual:
Amortização anual = (Valor de aquisição − Valor de retoma) / Vida útil
Amortização anual = (300 000 − 60 000) / 5 = 48 000 €/ano
Passo 2, despesas financeiras (taxa de 5% sobre o valor médio investido):
Valor médio investido = (Valor de aquisição + Valor de retoma) / 2
Valor médio investido = (300 000 + 60 000) / 2 = 180 000 €
Despesas financeiras = 180 000 × 0,05 = 9 000 €/ano
Passo 3, converter para €/h (dividindo pelas 1600 horas de trabalho anuais, e não pelas horas de vida útil total da máquina):
Amortização = 48 000 / 1600 = 30,00 €/h
Despesas financeiras = 9 000 / 1600 = 5,63 €/h
Exemplo resolvido: seguros e total de encargos fixos
Seguro da máquina, tipicamente 1,5% do valor de aquisição por ano:
Seguro anual = 300 000 × 0,015 = 4 500 €/ano → 4 500 / 1600 = 2,81 €/h
| Componente | €/h |
|---|---|
| Amortização | 30,00 |
| Despesas financeiras | 5,63 |
| Seguros | 2,81 |
| Total encargos fixos | 38,44 €/h |
Este valor mantém-se igual todas as horas do ano, quer a máquina produza muito, quer produza pouco. É por isso que maximizar o tempo produtivo é uma forma direta de reduzir o custo horário efetivo: cada hora parada "desperdiça" na mesma 38,44 € de encargos fixos.
8. Despesas de funcionamento, pessoal, deslocação e anexas
Despesas de funcionamento
As despesas de funcionamento (custo variável) incluem tudo o que a máquina consome enquanto trabalha: combustível, óleos e lubrificantes, pneumáticos, rastos e cabos, outros materiais consumíveis (correntes, dentes de disco), manutenções e reparações, e despesas de transporte das máquinas entre parcelas.
Exemplo resolvido (continuação)
| Componente | €/h |
|---|---|
| Combustível (15 L/h × 1,30 €/L) | 19,50 |
| Óleos e lubrificantes | 1,50 |
| Pneus/rastos e cabos | 2,50 |
| Manutenção/reparações | 6,00 |
| Transporte da máquina | 1,00 |
| Total funcionamento | 30,50 €/h |
Despesas de pessoal
As despesas de pessoal incluem os salários e encargos do(s) operador(es), incluindo segurança social e seguros de trabalho, e o EPI (equipamento de proteção individual: capacete, botas, luvas, proteção auditiva), amortizado por hora.
Salário + encargos: 10,00 €/h. EPI amortizado: 0,40 €/h. Total pessoal = 10,40 €/h.
O EPI não é uma despesa opcional nem "à parte": é obrigatório e integra o custo real da operação, tal como o combustível ou a manutenção.
Despesas de deslocação
Incluem veículos de apoio, alimentação e ajudas de custo da equipa, e transporte entre o alojamento e a parcela de trabalho. No exemplo em curso, considera-se um valor de 1,50 €/h.
Despesas anexas
As despesas anexas são os custos de estrutura da empresa que dão apoio à operação sem pertencerem a nenhuma máquina em particular: comunicações (telefone, rádio, dados), gestão e recursos humanos (administração, planeamento), e infraestruturas (armazém, oficina, escritório). Como não há forma direta de as atribuir a cada hora de máquina, calculam-se como uma percentagem do custo da atividade já acumulado, ou seja, sobre a soma de encargos fixos, funcionamento, pessoal e deslocação, e não apenas sobre os encargos fixos.
9. Custo da atividade e registo de custos e produtividades
Exemplo resolvido: custo da atividade completo
Reunindo todas as parcelas calculadas nos capítulos 7 e 8 para o harvester do exemplo:
| Parcela | €/h |
|---|---|
| Encargos fixos | 38,44 |
| Funcionamento | 30,50 |
| Pessoal | 10,40 |
| Deslocação | 1,50 |
| Subtotal | 80,84 |
| Despesas anexas (5% do subtotal) | 4,04 |
| Custo da atividade horário | 84,88 €/h |
A partir deste valor calculam-se o custo diário (× horas de trabalho diário produtivo) e o custo anual (× horas de trabalho anuais), consoante o que se quer reportar ao cliente ou à gestão da empresa:
- Custo diário (7,2 h produtivas) = 84,88 × 7,2 = 611,14 €/dia
- Custo anual (1600 h/ano) = 84,88 × 1600 = 135 808 €/ano
A ficha de registo por operação e máquina
O referencial pede o registo estruturado de custos e produtividades por operação e por tipo de máquina, equipamento ou alfaia. Os campos típicos:
| Campo | O que regista |
|---|---|
| Dias de trabalho anual | dias efetivos no ano |
| Tempo de presença (diário/anual) do operador | horas |
| Trabalho produtivo | horas efetivas de produção |
| Tempo de trabalho da máquina (ano) | horas |
| Custo da atividade | € (anual, diário, horário) |
| Produção | m³ ou ton |
| Produtividade | m³/h ou ton/h |
| Custo anual, custo diário | € |
| Custo/h de presença do operador, custo/h de trabalho da máquina | €/h |
| Custo/m³ | € por m³ produzido |
Exemplo resolvido: custo por m³
Fechando o exemplo iniciado no capítulo 5: custo da atividade 84,88 €/h, produtividade 6,75 m³/h.
Custo/m³ = Custo da atividade (€/h) / Produtividade (m³/h)
Custo/m³ = 84,88 / 6,75 ≈ 12,58 €/m³
É este indicador, o custo por m³, que se compara entre máquinas, se usa numa proposta comercial a um cliente e se acompanha ao longo do ano para detetar desvios face ao planeado. Se a produtividade subir, por exemplo para 8 m³/h, sem alterar o custo horário, o custo por m³ desce, porque o mesmo custo se reparte por mais volume produzido: 84,88 / 8 ≈ 10,61 €/m³.
10. CAOF e sustentabilidade das operações
A CAOF
A CAOF (Comissão de Acompanhamento das Operações Florestais) publica tabelas de exploração florestal de referência para o setor em Portugal, usadas para estimar produtividades e custos de operações florestais quando não há dados próprios cronometrados no terreno. Servem como valor de referência, ajudam a balizar propostas comerciais e a verificar se um custo calculado está dentro do intervalo razoável para o setor. Devem ser sempre contextualizadas: as condições reais de terreno, povoamento e máquina podem justificar desvios face à tabela.
| Situação | Fonte preferível |
|---|---|
| Primeira estimativa, sem tempo para estudo | Tabelas CAOF |
| Decisão importante, alto investimento | Cronometragem própria |
| Comparação com o setor | Tabelas CAOF como referência |
| Acompanhamento contínuo de uma operação | Registo próprio (capítulo 9) |
O melhor uso combina os dois: as tabelas dão o ponto de partida, o registo próprio confirma ou corrige esse ponto de partida com a realidade da operação em curso.
Sustentabilidade, neutralidade carbónica, digitalização e economia circular
A avaliação de produtividade e custos liga-se diretamente à sustentabilidade das operações florestais. A neutralidade carbónica avança com tecnologia que reduz o consumo de combustíveis fósseis, motores mais eficientes, eletrificação parcial, biocombustíveis, reduzindo simultaneamente o custo variável e as emissões. A digitalização da produção traz sensores e computadores de bordo nos harvesters (sistemas como o StanForD e equivalentes) que registam automaticamente volumes, tempos e localização, reduzindo o esforço e o erro da cronometragem manual. A economia circular aproveita os sobrantes tratados (capítulo 5) na cadeia da biomassa, em vez de os desperdiçar, e recicla óleos e materiais usados sempre que possível.
Produtividade, custo e sustentabilidade não são objetivos em conflito: uma operação mais eficiente é, em regra, também mais sustentável, porque menos tempo parado e menos desperdício significam simultaneamente menos custo e menos impacto ambiental.
Erros comuns
- Calcular produtividade sobre o tempo de presença, em vez do tempo produtivo. Descontar sempre paragens, manutenção e deslocações sem carga.
- Confundir produção com produtividade. A primeira é uma quantidade (m³); a segunda é uma taxa (m³/h). Confirmar sempre a unidade.
- Classificar o combustível como custo fixo. É variável, porque depende das horas trabalhadas.
- Amortizar o valor total de compra, esquecendo o valor de retoma. Amortiza-se sempre (aquisição menos retoma).
- Dividir a amortização pelas horas de vida útil total da máquina, em vez de pelas horas de trabalho anuais. O custo horário calcula-se sempre "por ano de operação".
- Aplicar a percentagem de despesas anexas só sobre os encargos fixos, e não sobre o subtotal acumulado de todas as parcelas.
- Inverter a fórmula do custo por m³, dividindo a produtividade pelo custo. O resultado tem sempre de sair em €/m³, nunca em m³/€.
- Tratar uma tabela CAOF como um valor absoluto e obrigatório, em vez de uma referência a contextualizar com as condições reais.
- Comparar produtividades em unidades de tempo diferentes (m³/h com m³/jornada) sem converter primeiro para a mesma base.
Glossário
- Produção: quantidade total obtida numa operação (m³, ton).
- Produtividade: produção por unidade de tempo (m³/h, ton/h).
- Custo da atividade: soma de todos os custos (fixos, variáveis, anexos) de uma operação.
- Tempo de presença: horas em que o operador está ao serviço.
- Tempo produtivo: horas em que a máquina está efetivamente a produzir.
- Tempo não produtivo: paragens, manutenção, avarias, deslocações sem carga.
- Cronometragem: medição direta e contínua do tempo de cada elemento do ciclo de trabalho.
- Amostragem de trabalho: observações pontuais e aleatórias para estimar a percentagem de tempo em cada atividade.
- Tabelas de tempos-padrão: valores de referência de estudos anteriores, aplicados sem nova medição.
- Encargos fixos: amortização, despesas financeiras e seguros da máquina.
- Amortização: reparte o valor perdido pela máquina (aquisição menos retoma) pelos anos de vida útil.
- Valor de retoma: valor residual estimado da máquina no fim da vida útil.
- Despesas de funcionamento: combustível, óleos, pneumáticos/rastos, manutenções, transporte da máquina.
- Despesas de pessoal: salários, encargos e EPI do(s) operador(es).
- Despesas anexas: comunicações, gestão, recursos humanos, infraestruturas da empresa, repartidas em percentagem.
- CAOF: Comissão de Acompanhamento das Operações Florestais; publica tabelas de exploração florestal de referência.
- Harvester: máquina que abate, desrama e traça (corta em toros).
- Forwarder: máquina que transporta a madeira processada, carregada sobre si.
- Skidder: máquina que arrasta os fustes ou toros até ao carregadouro.
- Cabo aéreo: sistema de extração por cabo, usado em declives acentuados.
Síntese
Avaliar a produtividade e os custos das operações florestais segue sempre a mesma ordem: identificar os fatores (terreno, povoamento, silvicultura, máquina, organização, produto) que explicam as variações → medir os tempos de trabalho com a metodologia adequada (cronometragem, amostragem ou tabelas) → separar tempo produtivo de tempo não produtivo → calcular a produtividade de cada operação (produção a dividir pelo tempo produtivo) → calcular os custos por categoria (fixos, variáveis, anexos) até ao custo da atividade → relacionar produtividade e custo no indicador final, o custo por m³ → contextualizar tudo com as tabelas CAOF e com a sustentabilidade do setor. Domina este fluxo e sabes avaliar qualquer operação florestal, seja ela abate, rechega, tratamento de sobrantes ou construção de infraestruturas.
Exercícios resolvidos
1. Um forwarder tem um ciclo produtivo de 40 minutos e transporta 8 m³ por ciclo. Num turno, o tempo produtivo é de 45 minutos por hora. Qual a produtividade em m³/h?
Resolução: ciclos por hora = 45 / 40 = 1,125 ciclos/h. Produtividade = 1,125 × 8 = 9 m³/h.
2. Uma máquina custou 200 000 €, tem valor de retoma de 40 000 € ao fim de 4 anos de vida útil, e trabalha 1500 horas por ano. Calcula a amortização anual e o seu valor em €/h.
Resolução: amortização anual = (200 000 − 40 000) / 4 = 160 000 / 4 = 40 000 €/ano. Em €/h: 40 000 / 1500 ≈ 26,67 €/h.
3. Um técnico soma encargos fixos de 35 €/h, funcionamento de 28 €/h, pessoal de 9 €/h e deslocação de 2 €/h. As despesas anexas são 5% do subtotal. Qual o custo da atividade horário?
Resolução: subtotal = 35 + 28 + 9 + 2 = 74 €/h. Anexas = 74 × 0,05 = 3,70 €/h. Custo da atividade = 74 + 3,70 = 77,70 €/h.
4. Com o custo da atividade de 77,70 €/h e uma produtividade de 5,4 m³/h, calcula o custo por m³.
Resolução: custo/m³ = 77,70 / 5,4 ≈ 14,39 €/m³.
5. Explica porque é que dois harvesters com a mesma produtividade em m³/h podem ter custos por m³ diferentes.
Resolução: porque o custo por m³ depende também do custo da atividade horário, não só da produtividade. Uma máquina mais cara (encargos fixos maiores) ou com despesas de funcionamento superiores tem um custo/m³ mais alto mesmo produzindo o mesmo volume por hora.
6. Um colega diz que a cronometragem é sempre o melhor método para medir tempos de trabalho. Concordas? Justifica.
Resolução: não necessariamente. A cronometragem é o método mais rigoroso, mas também o mais lento e caro. Para decisões rápidas ou muitas máquinas em simultâneo, a amostragem de trabalho ou as tabelas de tempos-padrão podem ser mais adequadas, desde que as condições sejam comparáveis às do estudo de origem.
7. Porque é que os encargos fixos não desaparecem quando a máquina está parada, e que consequência prática tem isso para a gestão de uma operação?
Resolução: os encargos fixos (amortização, despesas financeiras, seguros) resultam da posse da máquina, não da sua utilização; existem mesmo sem produção. Consequência prática: cada hora parada tem o mesmo custo fixo "a correr", por isso maximizar o tempo produtivo é uma das formas mais diretas de reduzir o custo horário efetivo e, logo, o custo por m³.