Sebenta · Selecionar materiais ferrosos e não ferrosos e tratamentos (UC03181)
- Introdução
- 1. Materiais na oficina: porque a escolha importa
- 2. Classificação dos materiais
- 3. Propriedades dos materiais
- 4. Metais ferrosos
- 5. Metais não ferrosos
- 6. Processos metalúrgicos: da matéria-prima à peça
- 7. Diagrama de equilíbrio ferro–carbono
- 8. Diagrama TTT (tempo, temperatura, transformação)
- 9. Tratamentos térmicos
- 10. Tratamentos termoquímicos e de superfície
- 11. Ensaios oficinais e laboratoriais
- 12. Normas, especificações e designação
- 13. Ambiente, saúde e segurança
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um automóvel é, no fundo, um catálogo de materiais montado com precisão. O bloco do motor, a cambota, as jantes, os cabos elétricos, os discos de travão e os parafusos que os prendem são feitos de materiais diferentes, cada um escolhido por uma razão. Esta sebenta ensina a olhar para uma peça e perceber de que material é feita, porque foi escolhida e que tratamento recebeu — e, sobretudo, a escolher o material e o tratamento certos quando se repara ou substitui um componente.
O técnico de mecatrónica automóvel raramente fabrica aço ou alumínio. Mas todos os dias lê especificações, seleciona peças de substituição, diagnostica falhas ("porque partiu esta cambota?") e trabalha materiais (corta, solda, aquece, maquina). Fazer isto bem exige entender propriedades, famílias de materiais, os diagramas que governam o aço, os tratamentos que lhe dão as propriedades finais, os ensaios que confirmam a qualidade e as regras de segurança e ambiente.
Objetivos de aprendizagem (referencial). Esta UC tem duas realizações centrais: (1) analisar o material em função da sua aplicabilidade e (2) selecionar o tipo de tratamento em função da sua aplicabilidade. Tudo o que se segue — classificação, propriedades, metais ferrosos e não ferrosos, processos metalúrgicos, diagramas de equilíbrio e TTT, tratamentos, ensaios, normas, ambiente e segurança — são as ferramentas para cumprir estas duas realizações com confiança.
1. Materiais na oficina: porque a escolha importa
Escolher um material é sempre um compromisso. Não existe o "material perfeito"; existe o material mais adequado a uma função. Uma jante tem de ser leve (não ferroso), um chassis tem de ser resistente e barato (aço), um cabo tem de conduzir eletricidade (cobre), um disco de travão tem de resistir ao calor e ao desgaste e amortecer vibração (ferro fundido cinzento).
O raciocínio correto tem sempre a mesma ordem:
- Qual é a função? Que forças, que temperatura, que ambiente, que peso máximo?
- Que propriedades preciso? Dureza? Tenacidade? Resistência à corrosão? Condução?
- Que material as tem? Ferroso ou não ferroso, que liga.
- Como se fabrica e trata? Funde, forja, maquina, solda? Precisa de tratamento?
Inverter esta ordem — escolher primeiro o material "porque é o que há" e só depois pensar na função — é a causa de muitas falhas. Uma peça de segurança montada num material mais fraco do que o original pode partir em serviço.
Perigosidade desde o início
Trabalhar materiais gera poeiras e fumos que podem ser perigosos: poeiras de chumbo, fumos de soldadura, pó fino de alumínio, vapores de óleos de têmpera. Cada material tem uma ficha de dados de segurança (FDS) com pictogramas de perigo. A regra é simples: nunca lixar, soldar ou aquecer um metal desconhecido sem ventilação, EPI e conhecimento do que se está a trabalhar. A segurança faz parte da competência, não é um extra.
2. Classificação dos materiais
Os materiais de engenharia dividem-se em grandes famílias:
| Família | Características gerais | Exemplos no automóvel |
|---|---|---|
| Metais ferrosos | base ferro; resistentes, baratos, magnéticos | bloco, cambota, chassis, discos |
| Metais não ferrosos | leves ou bons condutores; resistem à corrosão | cabeça do motor, jantes, cablagem |
| Polímeros (plásticos) | leves, isolantes, moldáveis | para-choques, tubagens, vedantes |
| Cerâmicos | duros, frágeis, resistem ao calor | velas de ignição, pastilhas de travão |
| Compósitos | combinam duas famílias (fibra + resina) | carroçarias desportivas, molas |
Esta sebenta foca os metais, mas a lógica propriedade → aplicação aplica-se a todas as famílias. Os metais dividem-se ainda em ferrosos (têm ferro como elemento principal) e não ferrosos (não têm, ou têm em quantidade irrelevante).
3. Propriedades dos materiais
Para escolher bem, é preciso vocabulário rigoroso. As propriedades agrupam-se em três categorias.
3.1 Propriedades físico-químicas
- Densidade (massa volúmica) — massa por unidade de volume. O alumínio (~2,7 g/cm³) tem cerca de um terço da densidade do aço (~7,85 g/cm³). É por isto que se usa alumínio para reduzir peso.
- Ponto de fusão — temperatura a que funde. Determina se e como se pode fundir ou soldar.
- Condutividade elétrica — capacidade de conduzir corrente. O cobre é o melhor condutor prático; por isso é o metal das cablagens.
- Condutividade térmica — capacidade de conduzir calor. O alumínio conduz bem calor → radiadores e cabeças de motor.
- Dilatação térmica — quanto o material aumenta com a temperatura. Importa em ajustes: o pistão de alumínio dilata mais que o cilindro de ferro.
- Resistência à corrosão — capacidade de resistir à degradação química (ferrugem). O aço enferruja; o alumínio forma uma camada protetora; o inox resiste por causa do crómio.
3.2 Propriedades mecânicas
Descrevem como o material responde a forças. São as mais importantes para peças estruturais.
| Propriedade | Definição | Exemplo automóvel |
|---|---|---|
| Resistência | força que suporta antes de ceder | cabo de tração |
| Dureza | resistência à penetração e ao risco | disco de travão |
| Tenacidade | energia que absorve antes de partir | chassis que amolga sem partir |
| Ductilidade | quanto estica (fio) antes de romper | cabo de cobre |
| Maleabilidade | quanto se deforma em chapa | painel de carroçaria |
| Fragilidade | parte sem deformar previamente | ferro fundido cinzento |
| Elasticidade | volta à forma após retirar a carga | mola de suspensão |
| Plasticidade | mantém a nova forma (deformação permanente) | estampagem de chapa |
| Resistência à fadiga | aguenta milhões de cargas repetidas | cambota, molas, bielas |
Relação fundamental: dureza vs tenacidade. Em geral, quanto mais duro um aço, mais frágil fica (parte mais facilmente). Um material muito duro resiste ao desgaste mas pode estilhaçar sob choque; um material muito tenaz absorve choques mas desgasta-se. Os tratamentos térmicos existem precisamente para equilibrar estas duas propriedades — por exemplo, temperar (endurecer) e depois revenir (recuperar tenacidade).
3.3 Propriedades tecnológicas
Descrevem como o material se deixa trabalhar no fabrico:
- Maquinabilidade — facilidade de cortar por arranque de apara (torno, fresa).
- Soldabilidade — facilidade de unir por soldadura sem defeitos. O aço de baixo carbono solda-se bem; o fundido é difícil.
- Fundibilidade — facilidade de vazar em molde. O fundido é excelente; daí o bloco do motor.
- Forjabilidade / maleabilidade a quente — facilidade de deformar por forjamento.
- Temperabilidade — capacidade de endurecer por têmpera (depende do teor de carbono e ligas).
Uma boa seleção equilibra as três categorias. Um material pode ser resistente mas impossível de soldar, ou muito duro mas impossível de maquinar em tempo útil.
4. Metais ferrosos
Ferrosos são os metais cujo elemento base é o ferro. Na prática quase nunca se usa ferro puro — usa-se ligado com carbono (e outros elementos). O teor de carbono é o parâmetro que muda tudo.
| Material | Teor de carbono | Características |
|---|---|---|
| Ferro puro | < 0,008% | muito mole e dúctil; raramente usado puro |
| Aço | 0,008% – 2,1% | resistente e tratável termicamente |
| Ferro fundido | 2,1% – ~4% | funde muito bem, duro, frágil |
Quanto mais carbono, mais duro e resistente, mas menos dúctil e soldável. É o "tempero" do ferro.
4.1 Aços
O aço é o material estrutural mais importante da indústria e do automóvel. Classifica-se pelo teor de carbono e pelos elementos de liga.
Aços ao carbono: - Baixo carbono (< 0,25% C) — macio, dúctil, solda e estampa-se bem. É a chapa da carroçaria e a estrutura. - Médio carbono (0,25%–0,6% C) — mais resistente; aceita têmpera. Eixos, cambotas, engrenagens. - Alto carbono (> 0,6% C) — muito duro depois de temperado. Molas, ferramentas de corte.
Aços-liga — juntam elementos para melhorar propriedades específicas: - Crómio (Cr) — dureza, resistência ao desgaste e à corrosão. - Níquel (Ni) — tenacidade. - Molibdénio (Mo) — resistência a alta temperatura. - Vanádio (V) — grão fino, resistência. - Manganês (Mn) — resistência ao desgaste.
Aço inoxidável — contém pelo menos 10,5% de crómio, que forma uma camada de óxido protetora invisível. Resiste à corrosão: escapes, parafusaria exposta, componentes que não podem enferrujar.
Exemplo automóvel: uma cambota é tipicamente aço de médio/alto carbono ligado, forjada e depois temperada e revenida para ganhar resistência à fadiga; a carroçaria é chapa de aço de baixo carbono para se poder estampar em formas complexas.
4.2 Ferros fundidos
Com mais de 2,1% de carbono, funde muito bem e enche moldes complexos a baixo custo, mas é frágil e não se forja.
- Fundido cinzento — a grafite forma lâminas. Frágil, mas amortece muito bem a vibração e maquina-se com facilidade. Usa-se em blocos de motor e discos de travão.
- Fundido nodular (dúctil) — a grafite forma esferas, o que o torna muito mais tenaz. Usa-se em cambotas, cubos, componentes que sofrem choques.
- Fundido branco — carbono como cementite; extremamente duro e abrasivo, mas muito frágil.
Ideia-chave: o fundido não se dobra nem se forja — funde-se e maquina-se.
5. Metais não ferrosos
Ganham quando o peso, a corrosão ou a condução são decisivos.
| Metal | Vantagem principal | Aplicação automóvel |
|---|---|---|
| Alumínio | leve (~⅓ do aço), não enferruja, conduz calor | cabeça e bloco do motor, jantes, radiadores |
| Cobre | melhor condutor elétrico prático | cablagem, enrolamentos, radiadores |
| Magnésio | o mais leve dos metais estruturais | carcaças, suportes, algumas jantes |
| Titânio | altíssima resistência/peso, resiste ao calor | válvulas e bielas de competição |
| Zinco | proteção anticorrosão | galvanização de chapa e parafusos |
| Estanho / chumbo | ligas de baixo ponto de fusão | soldas, ligas de chumaceira |
As ligas valem mais que os metais puros. O alumínio puro é mole; ligado com silício, cobre ou magnésio ganha resistência mantendo a leveza. A reciclagem dos não ferrosos é ambientalmente muito vantajosa: reciclar alumínio poupa cerca de 95% da energia face à produção primária.
Decidir: ferroso ou não ferroso?
- Peso baixo → não ferroso (alumínio, magnésio).
- Custo e resistência estrutural → ferroso (aço).
- Resistência à corrosão → não ferroso, inox ou aço revestido.
- Condução elétrica → cobre ou alumínio.
- Alta temperatura → aço ligado, titânio.
- Facilidade de reparação/soldadura → aço de baixo carbono.
6. Processos metalúrgicos: da matéria-prima à peça
6.1 Obtenção do aço
- Extração do minério de ferro.
- Redução no alto-forno, com coque (carbono) e calcário, produzindo gusa — ferro com muito carbono e impurezas.
- Afinação numa aciaria/conversor, onde se retira carbono e impurezas até obter o aço com a composição desejada.
- Vazamento em lingotes ou por vazamento contínuo.
- Conformação por laminagem, forjamento, etc.
6.2 Obtenção de não ferrosos
O alumínio obtém-se por electrólise da alumina (processo Hall–Héroult), muito intensivo em energia — daí a importância de reciclar. O cobre obtém-se por fusão e refinação eletrolítica dos seus minérios.
6.3 Conformação — dar forma
| Processo | Como funciona | Peças típicas |
|---|---|---|
| Fundição | metal líquido vazado em molde | bloco do motor, cárter |
| Forjamento | deformação a quente por impacto/prensa | cambotas, bielas |
| Laminagem | passagem entre cilindros | chapa, perfis, varão |
| Extrusão | material empurrado por uma fieira | perfis de alumínio |
| Estampagem | chapa moldada por matriz | painéis de carroçaria |
| Maquinagem | remoção de material (torno, fresa, furadora) | ajustes de precisão |
A escolha do processo condiciona a escolha do material: é preciso que o material seja fundível, forjável ou maquinável conforme o processo escolhido.
7. Diagrama de equilíbrio ferro–carbono
Um diagrama de equilíbrio mostra, para uma dada liga, que fases (estruturas internas) existem em função da composição e da temperatura, supondo arrefecimento lento. Para o aço, interessa o sistema ferro–carbono (Fe–C).
Estruturas com nome: - Ferrite (α) — ferro com muito pouco carbono dissolvido; macia e dúctil. - Austenite (γ) — existe só a alta temperatura; dissolve muito carbono. É a estrutura a partir da qual se fazem os tratamentos. - Cementite (Fe₃C) — carboneto de ferro, muito dura e frágil. - Perlite — mistura em lâminas de ferrite + cementite; propriedades intermédias.
Um ponto de referência é o eutectóide, a cerca de 0,77% de carbono e 727 °C, onde a austenite se transforma em perlite. Acima da linha de transformação o aço é austenítico; ao arrefecer, transforma-se em diferentes estruturas conforme a composição.
Para que serve na oficina? Explica porque o aço muda de propriedades ao ser aquecido e arrefecido — a base de todos os tratamentos térmicos. Sem passar pela austenite, não há têmpera.
8. Diagrama TTT (tempo, temperatura, transformação)
O diagrama de equilíbrio pressupõe arrefecimento lento. Mas na prática arrefecemos depressa, e a velocidade de arrefecimento muda a estrutura que se forma. O diagrama TTT relaciona tempo, temperatura e transformação: mostra, para um dado aço, que estrutura resulta de cada velocidade de arrefecimento.
- Arrefecimento lento (forno) → perlite grosseira, mole.
- Arrefecimento médio (ao ar) → estruturas mais finas, bainite.
- Arrefecimento muito rápido (têmpera em água/óleo) → martensite, muito dura mas frágil.
A martensite é a estrutura que dá dureza ao aço temperado. Forma-se apenas quando o arrefecimento é rápido o suficiente para "apanhar" o carbono preso na estrutura. O diagrama TTT é, por isso, a base científica dos tratamentos térmicos: controlar a velocidade de arrefecimento é controlar a estrutura e, logo, as propriedades finais.
9. Tratamentos térmicos
Um tratamento térmico altera a estrutura interna de todo o volume da peça por ciclos controlados de aquecimento e arrefecimento, sem mudar a forma nem a composição química.
| Tratamento | Ciclo | Efeito | Quando usar |
|---|---|---|---|
| Têmpera | aquecer (austenitizar) + arrefecer rápido | forma martensite → endurece | eixos, molas, ferramentas |
| Revenido | reaquecer a peça temperada a temperatura moderada e arrefecer | reduz fragilidade, dá tenacidade | sempre depois da têmpera |
| Recozimento | aquecer + arrefecer muito lento (no forno) | amolece, alivia tensões, refina o grão | antes de maquinar; após soldar |
| Normalização | aquecer + arrefecer ao ar livre | grão fino e uniforme, boas propriedades gerais | peças forjadas/fundidas |
O par têmpera + revenido é o mais usado em peças mecânicas. A têmpera deixa a peça dura mas frágil; o revenido reaquece-a a uma temperatura controlada para recuperar tenacidade perdendo pouca dureza. É assim que se fazem cambotas, veios e molas: primeiro duras, depois "domesticadas" para não partirem.
Selecionar o tratamento (realização 2): dada uma peça, pergunta-se que propriedade lhe falta? Se falta dureza superficial resistente ao desgaste → têmpera (ou tratamento termoquímico). Se está demasiado dura/frágil depois de temperada → revenido. Se está com tensões internas que dificultam a maquinagem ou vêm de uma soldadura → recozimento. Se precisa de grão uniforme depois de fundida → normalização.
10. Tratamentos termoquímicos e de superfície
10.1 Termoquímicos — mudam a superfície por difusão
Difundem um elemento na casca da peça, deixando o núcleo tenaz. O resultado é uma superfície dura com coração que absorve choques — ideal para engrenagens e cames.
- Cementação — enriquece a superfície em carbono; depois tempera-se. Casca muito dura.
- Nitruração — difunde azoto; dá dureza e excelente resistência à fadiga com pouca distorção.
- Cianuração / carbonitruração — introduzem carbono e azoto em simultâneo.
10.2 De superfície — protegem e acabam
Não alteram o interior; criam uma camada protetora:
- Galvanização / zincagem — camada de zinco anticorrosão (chapa, parafusaria).
- Cromagem / niquelagem — proteção, dureza superficial e estética.
- Anodização — no alumínio, cria uma camada de óxido dura e protetora.
- Fosfatação — prepara a superfície antes de pintar.
- Pintura e revestimentos — a barreira anticorrosão mais comum.
11. Ensaios oficinais e laboratoriais
11.1 Ensaios oficinais (rápidos, no local)
- Ensaio da lima / risco — a resistência ao risco dá uma noção grosseira da dureza.
- Ensaio da faísca — ao encostar o metal ao esmeril, a forma e cor das faíscas indicam o tipo de aço (mais carbono → faíscas mais ramificadas).
- Íman — distingue ferrosos (magnéticos) de muitos não ferrosos (não magnéticos); alguns inox austeníticos não são magnéticos.
11.2 Ensaios laboratoriais (rigorosos e normalizados)
- Dureza — Brinell, Rockwell, Vickers (penetradores diferentes, escalas normalizadas).
- Tração — puxa um provete até romper; dá resistência, limite elástico e alongamento.
- Resiliência (Charpy) — mede a energia absorvida até partir (tenacidade).
- Ensaios não destrutivos (END) — líquidos penetrantes, partículas magnéticas, ultrassons, raios-X: procuram fissuras sem destruir a peça.
11.3 Destrutivos vs não destrutivos
| Destrutivo | Não destrutivo (END) | |
|---|---|---|
| A peça | fica inutilizada | continua utilizável |
| Serve para | caracterizar o material | inspecionar a peça real |
| Exemplos | tração, dobragem, Charpy | penetrantes, ultrassons, magnético |
Na oficina, os END são preciosos para detetar fissuras de fadiga em cambotas, jantes e componentes de segurança sem os destruir.
12. Normas, especificações e designação
Os materiais são normalizados para que "aço X" signifique o mesmo em qualquer lado. Sistemas comuns:
- EN / Euronorma — europeu.
- DIN — alemão, muito usado.
- ISO — internacional.
- SAE / AISI — muito usado no setor automóvel.
Exemplos de designação: - SAE 1045 — aço ao carbono com ~0,45% C. - SAE 4140 — aço-liga Cr-Mo (eixos, componentes tratados). - EN AW-6060 — liga de alumínio para extrusão.
A especificação técnica de uma peça indica o material, o tratamento e a dureza exigidos. Ao substituir uma peça, o técnico deve respeitar a especificação — montar um material ou tratamento inferior ao original compromete a segurança.
13. Ambiente, saúde e segurança
13.1 Ambiente e saúde
- Poeiras e fumos — chumbo, fumos de soldadura, pó fino de alumínio; risco respiratório.
- Resíduos perigosos — óleos de têmpera, ácidos de tratamento; encaminhar para gestão de resíduos, nunca para o esgoto.
- Reciclagem — separar sucata ferrosa, alumínio e cobre; os metais são altamente recicláveis.
- Ruído e calor — dos fornos e da maquinagem.
13.2 EPI e EPC
EPI (proteção individual): óculos/viseira, luvas adequadas (corte ou calor), calçado de segurança, proteção auditiva, máscara/respirador para poeiras e fumos.
EPC (proteção coletiva): ventilação/aspiração de fumos, resguardos de máquinas, sinalização, extintores, zonas demarcadas para tratamentos térmicos.
Cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho é parte integrante da competência técnica — não um acessório.
Erros comuns
- Confundir dureza com resistência. São propriedades diferentes: um material pode ser duro e frágil (parte fácil) ou tenaz e resistente. A dureza mede a penetração; a tenacidade, a energia até partir.
- Achar que "mais duro é melhor". Uma peça demasiado dura fica frágil e pode estilhaçar. Por isso se reveni a seguir à têmpera.
- Temperar um aço de baixo carbono à espera que endureça. Sem carbono suficiente (temperabilidade), não forma martensite útil.
- Soldar ferro fundido como se fosse aço macio. O fundido fissura; exige procedimentos e temperaturas específicas.
- Montar uma peça de substituição sem verificar a especificação. Um material "parecido" pode ter metade da resistência à fadiga.
- Lixar ou soldar sem aspiração e EPI. Os fumos e poeiras metálicos são um risco real de saúde.
- Ignorar a corrosão galvânica. Juntar metais diferentes (aço + alumínio) em ambiente húmido acelera a corrosão de um deles.
Glossário
- Austenite — fase do aço estável a alta temperatura; ponto de partida dos tratamentos.
- Martensite — estrutura muito dura e frágil obtida por têmpera (arrefecimento rápido).
- Perlite — mistura em lâminas de ferrite e cementite; propriedades intermédias.
- Cementite — carboneto de ferro (Fe₃C), duro e frágil.
- Têmpera — aquecer e arrefecer rápido para endurecer.
- Revenido — reaquecer a peça temperada para reduzir a fragilidade.
- Recozimento — aquecer e arrefecer lento para amolecer e aliviar tensões.
- Tenacidade — energia que um material absorve antes de partir.
- Ductilidade — capacidade de esticar (fio) sem partir.
- Fadiga — falha por cargas repetidas ao longo do tempo.
- Temperabilidade — aptidão de um aço para endurecer por têmpera.
- END — ensaios não destrutivos.
- EPI / EPC — equipamento de proteção individual / coletiva.
- Diagrama TTT — tempo–temperatura–transformação; relaciona velocidade de arrefecimento com estrutura.
Síntese
O material segue a função, e as propriedades (físico-químicas, mecânicas, tecnológicas) são o critério de escolha. Os metais ferrosos (aço, ferro fundido) dominam a estrutura por serem resistentes e baratos; os não ferrosos (alumínio, cobre, magnésio, titânio) ganham quando manda o peso, a corrosão ou a condução. Os diagramas Fe–C e TTT explicam porque os tratamentos térmicos (têmpera, revenido, recozimento, normalização) funcionam, e os termoquímicos e de superfície ajustam propriedades e protegem. Os ensaios (oficinais e laboratoriais, destrutivos e não destrutivos) confirmam a qualidade, as normas e especificações garantem que a peça certa é montada, e o cuidado com o ambiente, a saúde e a segurança (EPI/EPC) completa a competência.
Exercícios resolvidos
Exercício A — Escolher o material de uma peça. Uma jante desportiva tem de ser leve, resistente e dissipar o calor dos travões. Que material escolher e porquê?
Resolução: a prioridade é peso baixo com resistência razoável e boa condução térmica → liga de alumínio (não ferroso). O aço seria demasiado pesado; o alumínio ligado (com Si/Mg) dá resistência suficiente, não enferruja e dissipa bem o calor. Em competição extrema poderia ponderar-se magnésio (ainda mais leve, mas mais caro e inflamável em pó).
Exercício B — Selecionar o tratamento. Uma engrenagem de caixa precisa de dentes duros que não se desgastem, mas o núcleo tem de aguentar choques sem partir. Que tratamento?
Resolução: quer-se casca dura + núcleo tenaz → tratamento termoquímico de cementação (enriquecer os dentes em carbono) seguido de têmpera e revenido ligeiro. A superfície fica muito dura (resiste ao desgaste) e o interior mantém-se tenaz (absorve os choques). Uma têmpera total endureceria também o núcleo, tornando-o frágil.
Exercício C — Diagnóstico de falha. Uma cambota partiu de forma limpa, sem deformação, com marcas concêntricas na superfície de rotura. O que aconteceu?
Resolução: a rotura sem deformação e com marcas concêntricas (linhas de praia) é típica de fadiga — falha por cargas repetidas ao longo do tempo, muitas vezes iniciada numa concentração de tensão (canto vivo, risco de maquinagem, inclusão). Confirma-se com inspeção da superfície de rotura e ensaios não destrutivos noutras peças iguais. Prevenção: material e tratamento corretos (têmpera + revenido, boa resistência à fadiga), raios de concordância bem executados e ausência de defeitos superficiais.
Exercício D — Ler uma especificação. A folha de uma peça indica "SAE 1045, temperada e revenida, dureza 28–32 HRC". O que significa e o que deves garantir ao substituí-la?
Resolução: é um aço ao carbono com ~0,45% C, que foi temperado (endurecido) e depois revenido (para tenacidade), ficando com dureza 28–32 na escala Rockwell C. Ao substituir, deve montar-se uma peça com o mesmo material, o mesmo tratamento e a mesma gama de dureza (ou equivalente aprovado). Uma peça mais mole desgastar-se-ia; mais dura poderia partir. Confirma-se a dureza com um durómetro.