Sebenta · Executar instalações elétricas simples (UC03119)
- Introdução
- 1. Desenho esquemático de circuitos, simbologia
- 2. Instrumentos de medida e verificação, ferramentas de eletricista
- 3. Instalações elétricas simples, o quadro elétrico
- 4. Circuito de iluminação
- 5. Circuito de tomadas
- 6. Circuito de terra de proteção
- 7. Circuitos domóticos
- 8. Montagem e ligação de circuitos elétricos
- 9. Circuito de comutação de lustre
- 10. Circuito de comutação de escada
- 11. Automático de escada e circuito intercomunicador
- 12. Testes e verificação da instalação
- 13. Equipamentos de proteção individual e segurança no trabalho
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a executar uma instalação elétrica simples, do primeiro traço do esquema até ao relatório de testes. É o trabalho de todos os dias de um eletricista ou técnico de eletrónica: interpretar um projeto, montar um quadro elétrico, passar circuitos de iluminação e de tomadas, ligar a terra de proteção, executar comutações e domótica, e provar, com testes e instrumentos, que a instalação é segura.
O contexto de aplicação são edifícios residenciais e edifícios de comércio e serviços. Em ambos se aplicam as mesmas regras: as Regras Técnicas das Instalações Elétricas de Baixa Tensão (RTIEBT), as normas de segurança e saúde no trabalho, e a proteção do ambiente.
Objetivos de aprendizagem (referencial): elaborar a lista de recursos materiais necessários a partir de um projeto de instalação elétrica; passar e executar ligações de fios e cabos dos circuitos de iluminação e de tomadas a quadro elétrico e caixas de derivação; executar ligações da aparelhagem técnica à cablagem; efetuar testes à instalação; sempre adequando instrumentos e ferramentas às operações, segundo o desenho ou esquema, cumprindo os procedimentos, as normas e regulamentos aplicáveis a instalações elétricas de baixa tensão e as normas de proteção ambiental e de segurança e saúde no trabalho.
1. Desenho esquemático de circuitos, simbologia
Toda a instalação elétrica começa por um esquema: um desenho normalizado que mostra como os condutores e os componentes se ligam entre si, sem se preocupar com a aparência física dos objetos.
Porque se lê o esquema antes de montar
Um técnico que monta "de cabeça" acaba, cedo ou tarde, a trocar fase com neutro, ou a esquecer um retorno. O esquema é o contrato entre quem projeta e quem monta: elimina a ambiguidade.
- Mostra o que liga a quê, não onde os objetos ficam fisicamente.
- Usa símbolos normalizados, os mesmos em qualquer projeto, de qualquer autor.
- É a base de todas as realizações desta UC: sem saber ler o esquema, não se elabora a lista de materiais nem se passam corretamente as ligações.
Simbologia elétrica de instalações
| Elemento | Descrição do símbolo | Função na instalação |
|---|---|---|
| Interruptor (S) | tecla simples, um contacto | liga/desliga um ponto de luz de um único local |
| Comutador / vaivém | tecla com três terminais | comanda um ponto de luz de dois locais |
| Telerruptor | bobina com contacto de impulso | comanda por impulso, de vários locais |
| Tomada | círculo com dois traços e terra | ligação de aparelhos elétricos |
| Disjuntor (Q) | interruptor com quadrado | protege contra sobrecarga e curto-circuito |
| Diferencial | interruptor com losango | protege pessoas contra contactos elétricos |
| Terra de proteção (PE) | três traços decrescentes | escoa correntes de defeito para a terra |
| Caixa de derivação | círculo ou retângulo tracejado | ponto de reunião e distribuição de condutores |
Um esquema de um quarto simples mostra: um interruptor junto à porta, ligado por um retorno a um ponto de luz no teto, e duas tomadas na parede, todas alimentadas a partir do mesmo disjuntor parcial de iluminação ou de tomadas, consoante o circuito.
A referência de cada componente
Cada componente do esquema tem uma referência (letra e número): Q1 para o disjuntor geral, S1 para o primeiro interruptor, e assim por diante. É a "matrícula" que permite identificar sem ambiguidade cada elemento, tanto no esquema como na lista de materiais.
Antes de montar, confirma sempre que o esquema disponível é a versão mais recente do projeto. Alterações de última hora acontecem, e montar pela versão errada obriga a refazer troços inteiros.
2. Instrumentos de medida e verificação, ferramentas de eletricista
Um dos critérios de desempenho da UC é claro: adequar os instrumentos e ferramentas às operações. Isto significa escolher o instrumento certo, não apenas ter um multímetro na caixa.
Instrumentos de medida e verificação
- Multímetro: mede tensão (V), corrente (A), resistência (Ω) e continuidade. É o instrumento mais usado no dia a dia.
- Testador de tensão / recetor de fase: confirma se um condutor está sob tensão, sem necessidade de abrir totalmente o circuito.
- Megaohmímetro (testador de isolamento): aplica uma tensão elevada em corrente contínua e mede a resistência de isolamento dos condutores.
- Testador de diferenciais: simula uma corrente de defeito e mede o tempo de disparo do disjuntor diferencial.
- Telurómetro: mede a resistência de terra do elétrodo.
Ferramentas de eletricista
| Ferramenta | Utilização |
|---|---|
| Alicate universal | segurar, dobrar e cortar condutores |
| Alicate de corte | cortar cabos e condutores |
| Alicate de descarnar | remover isolamento sem danificar o condutor |
| Chave de fendas/parafusos isolada | apertar terminais em segurança |
| Testador de tensão (chave de teste) | verificação rápida de presença de tensão |
| Berbequim e brocas | fixação de caixas, calhas e quadros |
| Prensa de terminais / alicate de crimpar | ligações firmes em terminais |
| Fita métrica e nível | alinhamento de aparelhagem e calhas |
Toda a ferramenta usada em instalações elétricas de baixa tensão deve ser isolada e certificada. Uma chave de fendas comum, sem isolamento, é um risco de choque elétrico, mesmo em intervenções "rápidas".
Exemplo resolvido: escolher o instrumento certo
Situação: é preciso confirmar se uma tomada tem terra ligada corretamente ao quadro, sem desligar a instalação.
- Desligar o disjuntor do circuito, confirmar ausência de tensão com o testador de tensão.
- Colocar o multímetro em modo continuidade (ou resistência).
- Medir entre o borne de terra da tomada e o barramento de terra do quadro.
- Um valor próximo de 0 Ω confirma continuidade; um valor infinito (circuito aberto) indica falha na ligação.
3. Instalações elétricas simples, o quadro elétrico
Uma instalação elétrica simples, à vista ou embebida, organiza-se sempre a partir de um quadro elétrico, de onde partem o circuito de iluminação e o circuito de tomadas.
Componentes do quadro elétrico
- Pente e barramentos: distribuem a fase (e o neutro, quando aplicável) por todos os disjuntores parciais sem cablagem individual entre eles.
- Disjuntor geral: corta a totalidade da instalação; calibre alinhado com a potência contratada.
- Disjuntor(es) diferencial(is): protegem pessoas, detetam fugas de corrente para a terra e desligam automaticamente.
- Disjuntores parciais: um por circuito, protegem cabos e aparelhagem contra sobrecarga e curto-circuito.
- Interruptores: comandos gerais de determinados circuitos, quando o projeto os prevê.
Dimensionamento típico
| Circuito | Secção do condutor | Disjuntor típico | Diferencial |
|---|---|---|---|
| Iluminação | 1,5 mm² | 10 A | 30 mA |
| Tomadas de uso geral | 2,5 mm² | 16 A | 30 mA |
| Cozinha / forno | 6 mm² | 25 a 32 A | 30 mA |
Num escritório pequeno, o quadro elétrico tem um disjuntor geral de 40 A, dois diferenciais de 30 mA (um para iluminação e tomadas gerais, outro para as tomadas da copa) e cinco disjuntores parciais: iluminação, tomadas de secretárias, tomadas da copa, climatização e sinalética exterior.
Exemplo resolvido: elaborar a lista de recursos materiais
A partir de um projeto de instalação com um circuito de iluminação (4 pontos de luz, 2 comandos) e um circuito de tomadas (6 tomadas):
- Ler o esquema e contar componentes: 4 pontos de luz, 2 comutadores, 6 tomadas, 1 quadro com disjuntor geral, 1 diferencial, 2 disjuntores parciais.
- Calcular metragem de cabo: iluminação (1,5 mm²) e tomadas (2,5 mm²), com margem de 10% para folgas e ligações.
- Listar acessórios: caixas de derivação, calha ou tubo, bornes de ligação, parafusos de fixação.
- Confirmar EPI e ferramentas necessárias antes de iniciar a montagem.
A lista de materiais é o primeiro passo do referencial e evita paragens a meio da montagem por falta de um componente.
4. Circuito de iluminação
O circuito de iluminação liga o disjuntor parcial correspondente aos pontos de luz da instalação, através de cablagem, calhas, aparelhagem de comando e acessórios.
Fios, cablagem, calhas e tubos
- Secção normalizada: 1,5 mm², cores normalizadas dos condutores: castanho ou preto para a fase, azul para o neutro, amarelo-verde para a terra.
- Calhas técnicas: instalação à vista, prática para reparações futuras.
- Tubos (instalação embebida ou em roço): condutores passam dentro do tubo, protegidos pela parede ou teto.
Aparelhagem de comando
- Interruptores: comandam um ponto de luz de um único local.
- Comutadores (vaivém): comandam um ponto de luz de dois locais.
- Telerruptores: comando por impulso, de vários locais, através de botoneiras.
- Automáticos: temporizam a iluminação, desligando-a sozinhos após um tempo definido.
- Sensores e detetores de presença: acendem a luz automaticamente por deteção de movimento.
Acessórios do circuito de iluminação
Caixas de derivação, apliques, casquilhos e lâmpadas. A caixa de derivação é onde se reúnem os condutores de fase, neutro, terra e retornos, sempre com borne de ligação próprio e tampa acessível.
Ligar o neutro ao interruptor em vez da fase é um dos erros mais comuns e mais perigosos: a lâmpada fica sob tensão mesmo com o interruptor "desligado".
Exemplo resolvido: montar um ponto de luz simples
- Levar a fase, através do disjuntor de iluminação, até ao interruptor.
- Do interruptor sai um retorno até ao casquilho da lâmpada.
- O neutro liga diretamente ao casquilho, sem passar pelo interruptor.
- Testar: interruptor ligado acende a lâmpada; interruptor desligado, a lâmpada fica sem tensão em nenhum dos terminais.
5. Circuito de tomadas
O circuito de tomadas segue a mesma lógica de organização do circuito de iluminação, com secções de cabo e aparelhagem próprias.
Fios, cablagem, calhas e tubos
- Secção normalizada: 2,5 mm², sempre com condutor de terra ligado.
- Mesma lógica de calhas técnicas (à vista) ou tubos (embebidos) do circuito de iluminação.
Aparelhagem técnica e acessórios
- Tomadas: simples, duplas, estanques (para exterior ou zonas húmidas), sempre com terra em circuitos de uso geral.
- Acessórios: caixas de derivação, uniões, reguladores de embeber.
Boas práticas de dimensionamento
| Boa prática | Porquê |
|---|---|
| Ligação em derivação (paralelo), nunca em série | uma tomada avariada não corta as seguintes |
| Distribuir cargas de maior potência por circuitos distintos | evita sobrecarregar um único disjuntor |
| Respeitar o número máximo de tomadas por circuito | secção do cabo e disjuntor dimensionados para esse limite |
| Testar cada tomada individualmente no final | garante que fase, neutro e terra estão corretamente atribuídos |
Numa cozinha, o forno e a placa de indução ficam em circuitos dedicados de 6 mm² e disjuntor próprio, separados do circuito de tomadas de uso geral, precisamente porque a potência é muito superior à das restantes tomadas.
Exemplo resolvido: verificar a atribuição de terminais numa tomada
- Desligar o disjuntor do circuito e confirmar ausência de tensão.
- Com o multímetro em modo continuidade, confirmar que o borne de terra da tomada liga ao barramento de terra do quadro.
- Religar e, com o testador de tensão, confirmar fase e neutro nos terminais corretos.
- Registar o resultado no relatório de testes da instalação.
6. Circuito de terra de proteção
A terra de proteção é o circuito que garante que uma falha de isolamento numa carcaça metálica não se torna um risco para quem lhe toca.
Como funciona
- Condutor identificado sempre por amarelo-verde.
- Liga desde o elétrodo de terra (picareta ou anel enterrado) até ao barramento de terra do quadro, e daí a cada tomada e equipamento com massa metálica.
- Trabalha em conjunto com o disjuntor diferencial: se surgir uma fuga de corrente para a terra, o diferencial deteta o desequilíbrio entre fase e neutro e desliga o circuito.
Verificação da terra de proteção
- Testar continuidade entre o borne de terra da tomada e o barramento de terra do quadro.
- Medir a resistência de terra do elétrodo com um telurómetro; o valor deve respeitar o limite exigido pelas RTIEBT.
- Testar o disparo do diferencial com o botão de teste (T) e, quando disponível, com testador de diferenciais dedicado.
- Registar os valores no relatório de ensaio da instalação.
Uma tomada com o símbolo de terra e o condutor amarelo-verde ligado, mas sem continuidade real até ao elétrodo, é uma "terra decorativa": não protege ninguém, apesar de parecer correta a olho.
7. Circuitos domóticos
A domótica introduz automação e controlo inteligente na instalação elétrica: iluminação, estores, climatização e segurança comandados por sensores e centrais, em vez de apenas por interruptores manuais.
Componentes de um circuito domótico
- Sensores: de presença, de movimento, de luminosidade, substituem ou complementam o comando manual.
- Atuadores (relés, módulos de comutação): recebem a ordem do sensor ou da central e comandam efetivamente a carga.
- Sistemas cablados (bus dedicado, por exemplo KNX) ou sem fios (rádio, Zigbee e protocolos equivalentes).
- Cenários e comando remoto: por exemplo, um cenário "modo saída" que apaga todas as luzes e fecha os estores.
Exemplo resolvido: iluminação de corredor por sensor de presença
[Fase] → [Disjuntor] → [Sensor de presença] → [Relé/atuador] → [Lâmpada] → [Neutro]
- O sensor deteta movimento e fecha um contacto de sinal durante um tempo ajustável.
- O relé recebe esse sinal e assume a corrente da lâmpada, evitando sobrecarregar o próprio sensor.
- A temporização e a sensibilidade configuram-se no sensor ou numa central de domótica.
- Testar: passar em frente ao sensor acende a lâmpada; sem movimento, a lâmpada apaga-se ao fim do tempo definido.
A instalação de base, quadro, cablagem, terra, mantém-se igual; a domótica acrescenta inteligência ao comando, não substitui as regras de segurança.
8. Montagem e ligação de circuitos elétricos
Executar uma instalação elétrica simples segue sempre a mesma sequência de procedimentos e técnicas, independentemente do circuito específico.
Procedimento geral
- Elaborar a lista de recursos materiais necessários, a partir do projeto de instalação elétrica.
- Marcar no local a posição de quadro, caixas de derivação, interruptores, comutadores e tomadas.
- Passar calhas ou tubos e puxar os condutores (fios e cabos) dos circuitos de iluminação e de tomadas.
- Executar as ligações de fios e cabos ao quadro elétrico e às caixas de derivação.
- Executar as ligações da aparelhagem técnica (interruptores, comutadores, tomadas) à cablagem.
- Efetuar testes à instalação antes de a dar como concluída.
Técnicas de montagem em baixa tensão
- Confirmar sempre ausência de tensão antes de qualquer intervenção.
- Respeitar os raios de curvatura dos condutores, sem apertar ou dobrar em excesso.
- Fixar calhas e tubos com espaçamento regular, sem tensão mecânica sobre os condutores.
- Apertar terminais ao binário correto: frouxo demais causa mau contacto e aquecimento, apertado demais parte o fio.
- Deixar folga de condutor dentro das caixas, para facilitar intervenções futuras.
Documentar cada ligação com o esquema à mão, e não de memória, poupa tempo em qualquer intervenção posterior, seja de manutenção, seja de ampliação da instalação.
9. Circuito de comutação de lustre
A comutação de lustre é uma montagem clássica que permite comandar dois grupos de lâmpadas do mesmo candeeiro a partir de um único ponto de comando, com combinações diferentes de intensidade luminosa.
Como funciona
- Usa um comutador duplo (ou dois interruptores simples, conforme o esquema do projeto).
- Cada posição do comando liga um grupo, os dois grupos, ou nenhum, consoante a ligação feita na caixa do candeeiro.
- Frequente em salas de estar e halls de entrada, onde se quer ajustar a quantidade de luz.
Exemplo resolvido: montar a comutação de lustre
- Levar a fase, através do disjuntor de iluminação, ao comutador duplo.
- Os dois retornos do comutador alimentam cada um dos grupos de lâmpadas.
- O neutro liga diretamente às lâmpadas, comum aos dois grupos.
- Fechar as ligações na caixa de derivação do candeeiro.
- Testar as quatro combinações: grupo 1 aceso, grupo 2 aceso, ambos, nenhum.
Se uma combinação não corresponder ao esperado, o erro está quase sempre nos dois retornos trocados entre si.
10. Circuito de comutação de escada
O circuito de comutação de escada, ou vaivém, comanda um ponto de luz a partir de dois ou mais locais, típico de escadas, corredores compridos e quartos com duas entradas.
Componentes e princípio de funcionamento
- Usa comutadores (não interruptores simples), cada um com três terminais.
- Os dois comutadores ligam-se entre si por dois condutores de retorno.
- Com mais de dois pontos de comando, intercalam-se inversores entre os comutadores extremos.
Exemplo resolvido: montar e testar o vaivém
- Levar a fase, através do disjuntor de iluminação, ao primeiro comutador; o neutro segue diretamente à lâmpada.
- Ligar os dois terminais de retorno entre o primeiro e o segundo comutador.
- Do segundo comutador, o retorno selecionado segue até à lâmpada.
- Testar todas as combinações: acender de um lado e apagar do outro, nos dois sentidos.
Para três ou mais pontos de comando, adiciona-se um inversor a meio do percurso, com os dois pares de retorno a atravessá-lo.
11. Automático de escada e circuito intercomunicador
Dois circuitos práticos que combinam comando por impulso com funções específicas de conforto e segurança.
Automático de escada
O automático de escada é um relé temporizado que acende a iluminação comum (escadas, corredores) por um tempo fixo, apagando-a automaticamente.
- Comandado por botoneiras de impulso em cada piso, não por interruptores.
- O relé recebe o impulso, fecha o circuito de iluminação, e reinicia a temporização a cada novo impulso.
- Combina-se muitas vezes com o telerruptor, que comuta por impulso mas sem temporização automática.
Circuito intercomunicador
O circuito intercomunicador liga um posto exterior (botoneira, câmara) a um posto interior (auscultador, monitor), com abertura de fechadura elétrica.
- Alimentação própria, normalmente em muito baixa tensão de segurança.
- Condutores de sinal separados dos de potência, para evitar interferências.
- Ligação à fechadura elétrica através de um relé de abertura temporizado.
Num prédio de habitação, o automático de escada acende a iluminação da caixa de escadas durante 90 segundos a cada botoneira premida; o intercomunicador de cada fração liga ao posto exterior junto à entrada, com abertura de porta a partir do interior.
12. Testes e verificação da instalação
Efetuar testes à instalação é uma realização explícita do referencial: nenhuma instalação está pronta enquanto não passar nos testes.
Os quatro testes obrigatórios
| Teste | O que verifica |
|---|---|
| Continuidade | cada condutor liga fisicamente de ponta a ponta, sem interrupções |
| Ligação à terra | continuidade até ao elétrodo e resistência de terra dentro do limite |
| Funcionamento dos dispositivos de proteção | disparo do diferencial (botão T) e dos disjuntores |
| Isolamento | resistência entre condutores e entre condutores e terra, acima do mínimo regulamentar |
Exemplo resolvido: sequência completa de verificação
- Inspeção visual: ligações, apertos, identificação de condutores.
- Testes de continuidade, circuito a circuito.
- Medição de resistência de terra (telurómetro) e de isolamento (megaohmímetro).
- Teste funcional dos disjuntores diferenciais, com o botão T e testador dedicado.
- Energizar e testar cada ponto de utilização: interruptores, comutadores, tomadas.
- Registar todos os valores medidos num relatório de ensaio da instalação.
A instalação só se considera pronta a entregar depois de todos os testes aprovados e registados.
13. Equipamentos de proteção individual e segurança no trabalho
Trabalhar em instalações elétricas de baixa tensão implica risco de choque elétrico, arco elétrico e ferimentos mecânicos. Os equipamentos de proteção individual e as normas de segurança reduzem esse risco a um nível aceitável.
EPI do eletricista
- Luvas isolantes, dimensionadas à tensão de trabalho.
- Calçado de proteção com sola isolante.
- Óculos de proteção, sobretudo a perfurar, cortar ou usar rebarbadora.
- Vestuário adequado, sem peças metálicas soltas (fivelas, anéis, correntes).
- Tapete isolante, junto ao quadro elétrico em intervenções prolongadas.
As cinco regras de ouro do trabalho em segurança
- Cortar a alimentação do circuito onde se vai intervir.
- Bloquear o disjuntor na posição desligada, para que ninguém o religue por engano.
- Verificar ausência de tensão com o testador de tensão.
- Ligar à terra e em curto-circuito, quando a operação o exigir.
- Sinalizar a zona de trabalho e o quadro desligado.
Normas de proteção ambiental
- Separar resíduos de obra: cabos, embalagens, restos de material.
- Dar destino correto a lâmpadas usadas (contêm mercúrio em alguns tipos) e a componentes eletrónicos.
- Evitar desperdício de material, planeando bem a lista de recursos antes de cortar cabo.
Confiar num disjuntor "desligado" sem verificar ausência de tensão com o testador é o erro que está por trás da maioria dos acidentes elétricos em intervenções de manutenção.
Erros comuns
- Montar sem confirmar o esquema mais recente do projeto, e descobrir a meio que a versão mudou.
- Trocar fase com neutro no interruptor, deixando a lâmpada sob tensão mesmo desligada.
- Ligar tomadas sem terra real ligada ao elétrodo, uma terra "decorativa" que não protege.
- Usar interruptores simples em vez de comutadores num circuito de vaivém, tornando a comutação de vários pontos impossível.
- Ligar a botoneira normal em vez de botoneira de impulso ao automático de escada.
- Dar a instalação por concluída só porque as lâmpadas acendem, sem testar terra, diferencial nem isolamento.
- Retirar o EPI "só por um instante", precisamente o momento em que ocorrem mais acidentes.
- Sobrecarregar um circuito ligando equipamentos de grande potência todos à mesma linha.
Glossário
- RTIEBT: Regras Técnicas das Instalações Elétricas de Baixa Tensão, o regulamento português de referência.
- Quadro elétrico: equipamento central de distribuição e proteção de uma instalação.
- Disjuntor: dispositivo que protege contra sobrecarga e curto-circuito.
- Diferencial: dispositivo que protege pessoas, detetando fugas de corrente para a terra.
- Barramento: condutor rígido que distribui fase ou neutro por vários disjuntores.
- Caixa de derivação: ponto onde se reúnem e distribuem os condutores de um circuito.
- Comutador (vaivém): aparelho de comando com três terminais, usado para comandar um ponto de luz de dois locais.
- Telerruptor: dispositivo que comuta por impulso, comandado de vários locais.
- Automático de escada: relé temporizado que apaga a luz sozinho, ao fim de um tempo definido.
- Terra de proteção (PE): circuito que escoa correntes de defeito para a terra, protegendo pessoas.
- Continuidade: propriedade de um condutor estar ligado de ponta a ponta sem interrupções.
- Isolamento: resistência elétrica entre condutores, que impede fugas de corrente indesejadas.
- Domótica: automação e controlo inteligente das funções de uma instalação elétrica.
- EPI: equipamento de proteção individual, usado para reduzir o risco de acidente.
- Telurómetro: instrumento que mede a resistência de terra de um elétrodo.
Síntese
Executar uma instalação elétrica simples segue sempre a mesma ordem: ler o esquema e a simbologia → escolher os instrumentos e ferramentas certos → montar o quadro elétrico → passar e ligar os circuitos de iluminação e de tomadas → ligar a terra de proteção → acrescentar domótica e comutações (lustre, vaivém, automático de escada, intercomunicador) quando o projeto o pede → testar tudo (continuidade, terra, diferencial, isolamento) → usar sempre EPI e cumprir as RTIEBT. Este é o percurso completo de um técnico competente numa instalação elétrica simples, em edifícios residenciais e de comércio e serviços.
Exercícios resolvidos
1. Um circuito de tomadas tem 6 tomadas de uso geral. Que secção de cabo e que disjuntor se usam tipicamente?
Resolução: secção de 2,5 mm² e disjuntor de 16 A, com diferencial de 30 mA. O circuito de tomadas usa sempre condutor de terra ligado.
2. Um técnico confirma que a lâmpada acende e apaga corretamente, e dá a instalação por concluída. O que falta?
Resolução: faltam os testes de terra (continuidade e resistência), de isolamento e de funcionamento do diferencial (botão T e testador dedicado). Acender e apagar corretamente confirma só o circuito de comando, não a segurança da instalação.
3. Como se distingue um interruptor de um comutador (vaivém) no esquema, e quando se usa cada um?
Resolução: o interruptor tem dois terminais e comanda um ponto de luz de um único local; o comutador tem três terminais e usa-se aos pares (ou mais, com inversores) para comandar o mesmo ponto de luz de dois ou mais locais, como numa escada.
4. Porque é que uma tomada não deve ser ligada em série com as seguintes?
Resolução: porque uma ligação em série faz com que uma tomada avariada, ou um mau contacto nela, corte a alimentação de todas as tomadas seguintes. A ligação correta é sempre em derivação (paralelo), a partir da caixa de derivação.
5. Antes de intervencionar num circuito já instalado, que sequência de segurança se segue?
Resolução: as cinco regras de ouro: cortar a alimentação, bloquear o disjuntor desligado, verificar ausência de tensão com o testador, ligar à terra e em curto-circuito quando exigido, e sinalizar a zona de trabalho.
6. Que instrumento se usa para medir a resistência de terra do elétrodo, e porque não chega confirmar a continuidade até ao quadro?
Resolução: usa-se o telurómetro. A continuidade até ao quadro confirma que o condutor de terra está ligado dentro da instalação, mas não garante que o elétrodo de terra tem, ele próprio, uma resistência suficientemente baixa para escoar uma corrente de defeito real.