Partilhar: WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC03117

Sebenta · Instalar e configurar equipamentos de redes de comunicações (UC03117)

Modelo OSI, protocolos, LAN e VLAN, equipamentos ativos, segurança, ferramentas e software de diagnóstico
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Eletrónica, T. Eletrónica e Comunicaçõ ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a desenhar, instalar, configurar e testar uma rede de dados profissional, do modelo teórico (OSI, protocolos, camadas) ao trabalho de bancada (crimpar um cabo, configurar um switch, medir com um multímetro). É o percurso completo de um técnico de redes: perceber como os dados viajam, escolher e instalar o equipamento certo, configurar LAN e VLAN, garantir segurança e diagnosticar problemas com as ferramentas certas.

O contexto de trabalho típico é uma empresa de telecomunicações/redes de dados, um edifício residencial ou um edifício de escritórios, comércio e serviços, sempre com autonomia, rigor e respeito pelas normas em vigor.

Objetivos de aprendizagem (referencial): desenhar a arquitetura da rede e serviços de dados simples; instalar equipamentos ativos em redes LAN e VLAN; configurar equipamentos ativos de redes LAN e VLAN; instalar, configurar e operar aplicações de controlo de transmissões de dados, garantindo os requisitos de rede, simulando e testando o seu funcionamento, respeitando técnicas, procedimentos e normas em vigor.

1. Redes de dados e o modelo OSI

Uma rede de dados interliga computadores, servidores e equipamentos para trocarem informação. Para que equipamentos de fabricantes diferentes consigam interoperar, existe o modelo OSI (Open Systems Interconnection), um referencial de 7 camadas que organiza as funções de uma rede.

# Camada Função Exemplo
7 Aplicação interface com o utilizador browser, cliente de email
6 Apresentação formato, cifragem codificação de caracteres
5 Sessão abrir/fechar diálogo sessão de login
4 Transporte entrega fim a fim TCP, UDP
3 Rede encaminhamento IP, routers
2 Ligação de dados entrega local switches, endereço MAC
1 Física sinal elétrico/ótico cabos, fichas, ondas rádio

Cada camada resolve um problema específico e só comunica com as camadas vizinhas. Esta organização permite isolar avarias: sabendo em que camada o problema acontece, sabe-se onde procurar (um cabo mal cravado é camada 1; um IP errado é camada 3; um site que não abre por falha de DNS é camada 7).

Esta UC foca-se sobretudo na camada de aplicação (protocolos como HTTP, FTP, SMTP e DNS) e na camada de transporte (TCP e UDP), sem esquecer o hardware das camadas 1 a 3, que instalamos e configuramos fisicamente.

2. Protocolos da camada de aplicação

A camada de aplicação define como os programas comunicam através da rede. Quatro protocolos são essenciais nesta UC:

Protocolo Nome completo Função Porta
HTTP HyperText Transfer Protocol comunicação na web 80 (443 em HTTPS)
FTP File Transfer Protocol transferência de ficheiros 21
SMTP Simple Mail Transfer Protocol envio de emails 25
DNS Domain Name System nomeação de domínio para endereços IP 53

Exemplo resolvido: como o pedido HTTP acontece

Quando um browser abre aulify.pt, acontece este fluxo:

1. Browser  DNS: "qual o IP de aulify.pt?"
2. DNS  Browser: "185.x.x.x"
3. Browser  Servidor (porta 80/443, HTTP): "GET /"
4. Servidor  Browser: página HTML

O DNS traduz o nome legível num endereço IP; sem essa tradução, o pedido HTTP nem sabe para onde ir. Este é o motivo pelo qual, quando o DNS falha, o utilizador vê "site não encontrado" mesmo que a rede em si esteja a funcionar. O FTP e o SMTP seguem a mesma lógica cliente-servidor, cada um na sua porta.

3. Camada de transporte e modos de operação

A camada de transporte garante a entrega dos dados entre aplicações, dividindo-os em segmentos:

Além da fiabilidade, a rede opera segundo diferentes modos de operação, que definem a direção do fluxo de dados num meio de transmissão:

Modo Direção Exemplo
Simplex um único sentido rádio FM, altifalante
Half-duplex os dois sentidos, mas não em simultâneo walkie-talkie
Full-duplex os dois sentidos, em simultâneo Ethernet moderna, telefone

As redes locais atuais operam quase sempre em full-duplex, o que evita colisões entre transmissões e permite débito máximo em ambos os sentidos ao mesmo tempo.

4. Redes LAN: endereçamento IP e encaminhamento

Uma LAN (Local Area Network) é uma rede de área local, confinada a um edifício ou campus. Assenta sobretudo em switches (camada 2, dentro da mesma rede) e num router (camada 3, para sair para outras redes).

Endereçamento IP

Cada equipamento numa LAN tem um endereço IP dentro de uma sub-rede. Um endereço como 192.168.1.10 /24 decompõe-se assim:

O endereçamento pode ser:

Exemplo resolvido: calcular a sub-rede

Uma rede /26 (255.255.255.192) tem quantos hosts utilizáveis?

  1. /26 deixa 32 - 26 = 6 bits para hosts.
  2. Número total de endereços: 2^6 = 64.
  3. Subtraindo o endereço de rede e o de difusão: 64 - 2 = 62 hosts utilizáveis.

Este cálculo é essencial ao desenhar a arquitetura da rede: escolher a máscara certa evita desperdiçar endereços ou ficar sem espaço para crescer.

Encaminhamento

O encaminhamento (routing) é o processo pelo qual um router decide o caminho de um pacote entre redes diferentes, consultando uma tabela de rotas. Numa LAN simples, basta uma rota por omissão para a internet; em redes com várias VLANs, é preciso uma rota para cada sub-rede.

5. Redes VLAN: segmentação e IDs

Uma VLAN (Virtual LAN) é uma segmentação lógica de uma LAN física, feita num ou mais switches, sem necessidade de cablagem extra.

Critérios de segmentação

Ao desenhar VLANs, aplicam-se critérios como:

Cada VLAN recebe, tipicamente, uma sub-rede IP própria. Por exemplo:

VLAN ID Função Sub-rede
Dados 10 postos de trabalho 192.168.10.0/24
Voz 20 telefones IP (VoIP) 192.168.20.0/24
Convidados 30 Wi-Fi de visitantes 192.168.30.0/24
Gestão 99 administração de equipamentos 192.168.99.0/24

Manter uma tabela como esta, sempre atualizada, é uma boa prática que evita conflitos e acelera o diagnóstico.

6. Desenho da arquitetura de rede

Desenhar a arquitetura da rede e serviços de dados simples é a primeira realização desta UC, e o primeiro passo de qualquer instalação: decidir topologia, equipamentos e serviços antes de tocar em cabos.

Passos do desenho

  1. Levantar os requisitos: número de postos, aplicações usadas, necessidade de VoIP, Wi-Fi ou videovigilância.
  2. Escolher a topologia, normalmente em estrela a partir de um switch central.
  3. Planear o endereçamento IP e as VLANs.
  4. Consultar documentação técnica, diagramas de rede e plantas do local da instalação.
  5. Desenhar o diagrama de rede final: equipamentos, ligações, endereçamento e serviços.

Serviços de dados simples

Um projeto de rede inclui sempre alguns serviços de dados básicos:

7. Equipamentos ativos de rede

Os equipamentos ativos processam e encaminham o sinal (ao contrário dos passivos, como cabos e tomadas):

Equipamento Camada OSI Função
Repetidor 1 regenera o sinal, estende o alcance
Bridge 2 liga dois segmentos, filtra por endereço
Switch 2 encaminha por porta, dentro da mesma rede
Router 3 encaminha entre redes diferentes
Gateway várias liga redes com protocolos diferentes
Hub 1 difunde o sinal a todas as portas (obsoleto)

A escolha do equipamento depende dos requisitos: um switch simples chega para poucos postos numa sala; um router é indispensável para ligar a outra rede ou à internet; um ponto de acesso (AP) garante o Wi-Fi. Consulta-se sempre o manual dos equipamentos de rede para confirmar throughput, número de portas e funcionalidades como VLAN e PoE.

8. Instalação de equipamentos ativos

Instalar equipamentos ativos em redes LAN e VLAN é a segunda realização desta UC. O procedimento típico:

  1. Confirmar o local (planta, ventilação, alimentação elétrica disponível).
  2. Montar o equipamento (bastidor/rack ou parede) e ligar a alimentação.
  3. Ligar os cabos de rede segundo o diagrama previamente desenhado.
  4. Confirmar as luzes de estado (LEDs): alimentação, ligação (link) e atividade.
  5. Aceder à interface de gestão (web ou consola) para a configuração inicial.

Ferramentas manuais da instalação

Exemplo resolvido: sequência de crimpagem T568B

Ao cravar um conector RJ45 pela norma T568B, a ordem dos fios no conector é: branco/laranja, laranja, branco/verde, azul, branco/azul, verde, branco/castanho, castanho. Um erro comum é inverter dois pares, o que provoca perda de sinal ou falha total de ligação; testar sempre o cabo no testador antes de o dar por concluído.

9. Configuração de switches: portas de acesso e de tronco

Configurar equipamentos ativos de redes LAN e VLAN é a terceira realização desta UC.

Procedimento de configuração de um switch

  1. Aceder à interface (IP de gestão, utilizador/palavra-passe).
  2. Mudar de imediato as credenciais de fábrica.
  3. Criar as VLANs necessárias, com o respetivo ID.
  4. Atribuir cada porta à VLAN correta.
  5. Guardar a configuração e documentar.

Portas de acesso e de tronco

Exemplo resolvido: dois switches com tronco

Dois switches, cada um com postos nas VLANs 10 (dados) e 20 (voz), precisam de comunicar entre si nas duas VLANs:

  1. Configurar as portas dos PCs e telefones como acesso, na VLAN correspondente.
  2. Configurar a porta que liga os dois switches como tronco (trunk), com as VLANs 10 e 20 marcadas (tagged).
  3. Testar: um PC na VLAN 10 do switch A deve comunicar com um PC na VLAN 10 do switch B; não deve comunicar diretamente com a VLAN 20.

Sem o tronco corretamente configurado, o tráfego de uma VLAN simplesmente não atravessa para o outro switch.

10. Configuração de routers e testes de conetividade

Configurar o router

O router faz o encaminhamento entre a LAN (e as suas VLANs) e outras redes, incluindo a internet:

Testes de conetividade

Depois de instalar e configurar, testa-se sempre o funcionamento:

Exemplo resolvido: diagnóstico por camadas

Um PC não consegue navegar na internet, mas o ping ao gateway funciona. Metodologia:

  1. Camada física: cabo bem ligado, LED aceso. Confirmado.
  2. Camada 2: porta e VLAN corretas no switch. Confirmado.
  3. Camada 3: ping ao gateway funciona, logo IP e rota local estão corretos.
  4. Aplicação: o ping a um IP externo (ex.: 8.8.8.8) falha, mas o ping ao gateway funciona → suspeitar de DNS ou de falta de rota/NAT no router para a internet.

Isolar a camada com o problema poupa horas de tentativa e erro sem método.

11. Aplicações multimédia, VoIP e QoS

As aplicações multimédia exploram a rede para transmissão e partilha de conteúdos em tempo real:

Estas aplicações costumam viver numa VLAN dedicada (ex.: VLAN de voz), garantindo isolamento e qualidade.

Requisitos de aplicações multimédia

Exemplo resolvido: porque o VoIP usa UDP

Uma chamada VoIP usa UDP, e não TCP, na camada de transporte. Porquê? Se um pacote de voz se perde, o TCP tentaria reenviá-lo, mas nessa altura o momento da conversa já passou: o atraso do reenvio seria pior do que perder um instante de som. O UDP entrega o que consegue, o mais depressa possível, e a QoS garante que esse tráfego tem prioridade sobre o resto.

12. Segurança em redes

A segurança em redes protege dados e acesso à infraestrutura:

Boas práticas de segurança na instalação

Segurança é, também, um critério de desempenho desta UC: "cumprindo as normas em vigor" aplica-se tanto à cablagem como à configuração de acesso.

13. Ferramentas, equipamentos de medição e diagnóstico

Além das ferramentas manuais de montagem, o técnico usa equipamentos de medição e diagnóstico:

Equipamento Mede/verifica
Multímetro tensão, continuidade, resistência
Certificador de cabos categoria, comprimento, atenuação
Analisador de rede tráfego, débito, qualidade do sinal
Medidor de potência ótica sinal em fibra ótica
Detetor de tensão ausência de tensão antes de intervir

Equipamentos de proteção individual (EPI)

Instalações em calhas altas, tetos falsos ou torres exigem trabalho em altura, com o respetivo EPI: arnês, capacete, linha de vida. Confirmar sempre as condições de segurança antes de subir, e cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho aplicáveis. A segurança do técnico é tão importante como a da rede que instala.

14. Software de configuração, diagnóstico e simulação

Além do hardware, a instalação usa software dedicado:

Fluxo de trabalho recomendado

  1. Simular a rede projetada antes de qualquer instalação real.
  2. Configurar os equipamentos reais pela interface própria.
  3. Diagnosticar com ferramentas de rede (ping, analisador).
  4. Capturar e analisar tráfego com o Wireshark quando há dúvidas.
  5. Monitorizar continuamente por SNMP.

Exemplo resolvido: usar o Wireshark

Ao capturar tráfego com o Wireshark durante a abertura de um site, é possível ver, em sequência: o pedido DNS (tradução do nome), o TCP a estabelecer ligação (handshake de três vias), e depois o pedido/resposta HTTP. Isto confirma na prática o fluxo teórico do Capítulo 2, mostrando cada camada em ação.

15. Normas, EPI e boas práticas

Toda a instalação segue normas, regulamentos, regras técnicas e legislação aplicável:

Boas práticas gerais: trabalhar com autonomia, mas seguindo o projeto acordado; simular e testar antes de dar a instalação por concluída; documentar endereçamento e VLANs; manter rigor na crimpagem, configuração e segurança; e revelar sentido crítico para detetar e corrigir problemas antes de entregar o trabalho.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O trabalho com redes de comunicações segue sempre a mesma ordem: compreender o modelo OSI e os protocolos (aplicação e transporte) → desenhar a arquitetura da rede e os serviços de dados → instalar fisicamente os equipamentos ativos com as ferramentas manuais corretas → configurar LAN e VLAN (portas de acesso/tronco, endereçamento estático/dinâmico) em switches e routers → testar a conetividade e diagnosticar por camadas → considerar as aplicações multimédia (VoIP, QoS) → garantir segurança → usar as ferramentas de medição e o software (Wireshark, SNMP, simulação) → e cumprir sempre normas e EPI. Domina este fluxo e sabes instalar e configurar qualquer rede de comunicações.

Exercícios resolvidos

1. Um PC está configurado com IP 192.168.5.20 /24. Qual é o endereço de rede e quantos hosts cabem nesta sub-rede?

Resolução: máscara /24 = 255.255.255.0, deixando 8 bits para hosts. Endereço de rede: 192.168.5.0. Hosts utilizáveis: 2^8 - 2 = 254.

2. Porque é que um switch, e não um hub, é a escolha certa para uma LAN moderna?

Resolução: o hub difunde o sinal recebido para todas as portas, criando colisões e desperdiçando débito. O switch aprende os endereços e encaminha cada trama só à porta de destino, permitindo comunicações simultâneas em full-duplex e muito melhor desempenho.

3. Duas VLANs (10 e 20) existem em dois switches ligados entre si. Os PCs da VLAN 10 no switch A não conseguem falar com os da VLAN 10 no switch B. Qual o erro mais provável?

Resolução: a porta que liga os dois switches não está configurada como porta de tronco (trunk) com a VLAN 10 marcada (tagged), ou está como porta de acesso numa VLAN errada. Corrigir a configuração da porta de interligação para tronco resolve o problema.

4. Explica em que camada do modelo OSI isolarias um problema em que o ping ao gateway falha mas o cabo tem o LED de ligação aceso.

Resolução: com o LED aceso, a camada física está confirmada. O ping falhar aponta para a camada 3 (rede): verificar o IP, a máscara e o gateway configurados no PC, e confirmar que estão na mesma sub-rede do router.

5. Uma empresa quer instalar telefones VoIP na mesma rede dos postos de trabalho. Que medidas tomarias para garantir qualidade nas chamadas?

Resolução: criar uma VLAN dedicada à voz, separada da VLAN de dados; configurar QoS para priorizar o tráfego de voz; confirmar que a largura de banda e a latência cumprem os requisitos do VoIP (baixo atraso, tráfego constante); e usar UDP como protocolo de transporte, adequado ao tempo real.

6. Antes de dar uma instalação por concluída, que passos de segurança não podem faltar?

Resolução: mudar as credenciais de fábrica de todos os equipamentos ativos; desligar portas não utilizadas; confirmar que as VLANs isolam corretamente o tráfego (ex.: convidados sem acesso a servidores); e verificar que o firmware está atualizado, cumprindo as normas em vigor.