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UC · Unidade de Competência · UC03079

Efetuar medições e controlo metrológico (UC03079)

Do Sistema Português da Qualidade ao nónio, ao micrómetro e aos instrumentos de verificação, medir com rigor em sistemas eólicos e fotovoltaicos
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Sistemas Eólicos e Fotovoltaicos, T. Sistemas Térmicos Renováveis ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Um sistema fotovoltaico ou eólico só funciona como foi projetado se cada peça tiver a medida certa e se cada grandeza elétrica, mecânica ou ambiental for medida com um instrumento adequado. O perfil de alumínio que não encaixa no grampo, o parafuso que não entra na rosca, a cablagem cortada com o diâmetro errado, a tensão lida num multímetro sem verificação: tudo isto começa e acaba na medição. Esta sebenta ensina a efetuar medições diretas com instrumentos de medida direta e a efetuar controlo dimensional com instrumentos de medida indireta, dentro de um quadro de controlo metrológico que dá confiança aos resultados.

O percurso segue a lógica de um técnico que entra num posto de controlo. Primeiro percebemos porque importa a metrologia e como está organizado o Sistema Português da Qualidade, com os seus subsistemas de normalização, de qualificação e de metrologia. Depois vemos como se gerem, calibram e adquirem os instrumentos e como funciona a cadeia de rastreabilidade. Segue-se o essencial da linguagem da medição: grandezas, unidades e dimensões, o Sistema Internacional, as conversões, as qualidades de um instrumento e a classe de precisão. Estudamos os fatores de influência e os tipos de erros de medição, os procedimentos corretos e incorretos de leitura, o nónio e os instrumentos propriamente ditos: réguas de aço, paquímetros e micrómetros (medida direta), compassos e suta (medida indireta), réguas, esquadros, escantilhões, comparadores, calibres, verificadores de roscados e rugosímetro (verificação). Fechamos com as áreas de aplicação do controlo metrológico e com um procedimento completo de medição.

Objetivos de aprendizagem (referencial): efetuar medições diretas com instrumentos de medida direta; efetuar controlo dimensional com recurso a instrumentos de medida indireta; adequar o instrumento e a sua qualidade à grandeza a medir; respeitar métodos e procedimentos definidos; evitar os erros de medição imputáveis ao operador. Como atitudes, pede-se sentido crítico, responsabilidade pelas ações, autonomia no âmbito das funções, rigor e respeito pelas regras e normas definidas.

Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem explicação, tabelas de consulta e, quando há contas, pelo menos um exemplo resolvido passo a passo. Refaz sempre as contas com a tua calculadora antes de ler a solução. Sempre que puderes, repete a medição na bancada com o instrumento verdadeiro: a metrologia aprende-se com as mãos, e a leitura de um nónio só fica automática depois de dezenas de leituras reais.

1. A importância da metrologia

Metrologia é a ciência da medição e das suas aplicações. Abrange os aspetos teóricos e práticos da medição, seja qual for a incerteza e o domínio de aplicação. Medir é comparar uma grandeza com uma unidade e exprimir o resultado por um valor numérico seguido de uma unidade: 24,35 mm, 36,5 V, 9,2 A, 1 000 W/m². Um número sem unidade não é uma medida, e uma medida sem indicação do instrumento e das condições em que foi obtida vale pouco quando há que decidir.

Porque importa a metrologia

A metrologia está presente em todas as decisões técnicas que tomamos com números. Em sistemas eólicos e fotovoltaicos, a sua importância vê-se em quatro níveis:

Nível O que a metrologia garante Exemplo em sistemas eólicos e fotovoltaicos
Qualidade do produto peças que encaixam e funcionam perfis, grampos e parafusos de uma estrutura de fixação com as cotas do desenho
Segurança margens de projeto realmente cumpridas espessura mínima de uma chapa, diâmetro de um parafuso de ancoragem, binário de aperto
Desempenho energético dados fiáveis para calcular a produção irradiância, temperatura do módulo, tensão e corrente do gerador, velocidade do vento
Comércio e confiança resultados comparáveis entre entidades contador de energia, balança de fornecedor, certificado de ensaio de um módulo

Quando duas pessoas medem a mesma coisa e obtêm resultados que concordam, isso não acontece por acaso: acontece porque ambas usaram instrumentos ligados aos mesmos padrões e porque seguiram métodos comparáveis. É esse o trabalho da metrologia.

Grandeza, medição e tipos de medição

Uma grandeza é uma propriedade de um fenómeno, corpo ou substância que pode ser expressa quantitativamente: comprimento, massa, tempo, temperatura, tensão elétrica, pressão. A medição é o processo de obter experimentalmente o valor de uma grandeza. Chama-se mensurando à grandeza particular que se pretende medir, por exemplo o diâmetro de um parafuso concreto.

Há várias formas de classificar a medição. As mais úteis para esta UC são:

Tipo Como se faz Exemplo
Direta o valor lê-se diretamente no instrumento, graduado na unidade da grandeza comprimento de um perfil com a régua de aço; espessura de uma chapa com o paquímetro
Indireta o valor obtém-se por cálculo a partir de outras grandezas medidas diretamente, ou por transferência de uma medida para outro instrumento potência P = U × I; distância entre centros de furos a partir de medidas de bordo a bordo; copiar com a suta o ângulo de uma cobertura
Por comparação compara-se a peça com um padrão ou com uma referência e mede-se apenas a diferença comparador acertado a zero num bloco padrão
Por verificação decide-se só se a peça está dentro ou fora do limite, sem ler um valor calibre passa/não-passa

Convém não confundir as duas utilizações da palavra indireta. Em metrologia geral, a medição indireta é a que resulta de um cálculo. No contexto das oficinas e do referencial desta UC, os instrumentos de medida indireta (compassos e suta) são aqueles que não trazem escala própria: copiam ou transportam uma medida, que depois se lê noutro instrumento, como uma régua ou um transferidor. Ambos os sentidos acabam por significar que o valor final não se lê diretamente na peça.

Exemplo resolvido · medição indireta de uma potência

Mediu-se, num ensaio de bancada, a tensão aos terminais de uma fileira de módulos e a corrente no circuito.

  1. Medições diretas: U = 36,5 V (voltímetro) e I = 9,2 A (amperímetro).
  2. Grandeza pretendida: potência elétrica, P = U × I.
  3. Cálculo: 36,5 × 9,2 = 335,8 W.
  4. A potência não se leu em instrumento nenhum: foi obtida por medição indireta, e a sua qualidade depende da qualidade das duas leituras diretas.

Exemplo resolvido · diâmetro por medição indireta do perímetro

Um técnico mede com uma fita flexível o perímetro de um tubo de suporte e obtém 94,2 mm.

  1. O perímetro de uma circunferência é P = π × d, logo d = P ÷ π.
  2. d = 94,2 ÷ 3,14159 = 29,98 mm.
  3. Resultado: d ≈ 30,0 mm. Para confirmar, mede-se diretamente com o paquímetro, sempre que o acesso o permitir.

Atitudes do técnico que mede

O referencial pede sentido crítico, responsabilidade, autonomia, rigor e respeito pelas normas. Em termos práticos, isto significa: desconfiar de uma leitura que não bate certo com a ordem de grandeza esperada; assumir que a medida registada é da nossa responsabilidade; saber escolher e preparar o instrumento sem esperar que alguém o faça; registar o valor lido e não o que gostaríamos que fosse; e cumprir os procedimentos escritos mesmo quando parecem demorados.

2. O Sistema Português da Qualidade

O Sistema Português da Qualidade (SPQ) é o conjunto integrado de entidades e de regras que, em Portugal, organiza e dá coerência às atividades da qualidade. O seu enquadramento legal encontra-se em diploma próprio, que deves consultar na redação em vigor no Diário da República. O SPQ integra três subsistemas: o da normalização, o da qualificação e o da metrologia. O organismo que coordena o SPQ é o IPQ (Instituto Português da Qualidade).

Subsistema Para que serve Quem intervém (em termos gerais)
Normalização elaborar e difundir normas, documentos de referência voluntários que dizem como fazer, como medir e como especificar IPQ, como organismo nacional de normalização, e organismos de normalização setorial reconhecidos
Qualificação dar confiança na competência de entidades e na conformidade de produtos, serviços e sistemas organismo nacional de acreditação, entidades certificadoras, laboratórios, entidades de inspeção
Metrologia assegurar a exatidão e a rastreabilidade das medições IPQ, como instituição nacional de metrologia, laboratórios de calibração e entidades que exercem o controlo metrológico

Normalização

Uma norma é um documento, estabelecido por consenso e aprovado por um organismo reconhecido, que fornece regras, orientações ou características para atividades ou resultados, com vista a obter um nível ótimo de ordenação num dado contexto. As normas são, em regra, de aplicação voluntária, embora um regulamento possa torná-las obrigatórias. As siglas dizem muito:

Num estaleiro de energias renováveis, as normas aparecem como requisitos de módulos, de inversores, de instalações elétricas, de segurança e de ensaios. Quem mede deve saber onde se encontra a norma que define o método.

Qualificação e acreditação

O subsistema da qualificação reúne as atividades que demonstram competência e conformidade, entre outras a acreditação e a certificação, e as entidades de avaliação da conformidade (laboratórios, entidades de inspeção). O IPAC (Instituto Português de Acreditação) é o organismo nacional de acreditação: avalia e reconhece formalmente a competência técnica de laboratórios de ensaio e de calibração, de organismos de certificação e de entidades de inspeção, segundo normas internacionais.

Convém não trocar os dois institutos, porque a confusão é frequente:

Entidade Papel
IPQ coordena o SPQ; é o organismo nacional de normalização e a instituição nacional de metrologia; mantém os padrões nacionais
IPAC é o organismo nacional de acreditação; acredita laboratórios, entidades certificadoras e de inspeção

Acreditar não é o mesmo que certificar. A acreditação é o reconhecimento por uma terceira parte independente de que uma entidade (por exemplo um laboratório de calibração) é competente para realizar atividades específicas. A certificação atesta que um produto, serviço, pessoa ou sistema de gestão cumpre requisitos especificados. Um laboratório acreditado segundo a NP EN ISO/IEC 17025 (requisitos gerais de competência para laboratórios de ensaio e de calibração) emite certificados de calibração com reconhecimento nacional e internacional. Uma empresa certificada segundo a ISO 9001 (requisitos de um sistema de gestão da qualidade) demonstra que tem os seus processos organizados, o que inclui o controlo dos recursos de medição.

Metrologia

O subsistema da metrologia compreende três vertentes, que convém distinguir:

Vertente Objeto Exemplo
Metrologia científica definição e realização das unidades, padrões nacionais o laboratório nacional que mantém os padrões de comprimento, massa, temperatura
Metrologia industrial garantia do funcionamento correto dos instrumentos usados na produção e nos ensaios a calibração periódica de paquímetros e multímetros de uma empresa
Metrologia legal proteção do consumidor e do comércio, em instrumentos regulamentados contadores de energia, balanças comerciais, contadores de água e gás

O controlo metrológico legal abrange operações como a aprovação de modelo, a verificação inicial, a verificação periódica e a fiscalização, e está regulado em diploma próprio, que se consulta na redação em vigor. No dia a dia da oficina e do estaleiro, a maioria dos instrumentos que usas (paquímetro, multímetro, piranómetro) pertence à metrologia industrial, e o seu controlo faz-se dentro da empresa, através do sistema de gestão dos instrumentos.

Vocabulário e guias de referência

Duas publicações internacionais sustentam a linguagem da metrologia. O VIM (Vocabulário Internacional de Metrologia) define os termos fundamentais, como grandeza, medição, calibração, rastreabilidade e incerteza. O GUM (Guia para a Expressão da Incerteza de Medição) estabelece as regras comuns para avaliar e exprimir a incerteza. Ambos são publicados pelo comité internacional de guias em metrologia e existem em versão portuguesa, disponíveis através do IPQ. Os termos desta sebenta seguem o VIM.

Exemplo resolvido · a quem recorrer

Uma empresa de instalação de sistemas fotovoltaicos precisa de calibrar um multímetro e quer um certificado reconhecido.

  1. Procura um laboratório de calibração acreditado pelo organismo nacional de acreditação (IPAC), cujo âmbito de acreditação inclua a grandeza e a gama do multímetro.
  2. Recebe um certificado de calibração com os resultados, as incertezas e a indicação da rastreabilidade aos padrões.
  3. Se precisasse de saber que norma define um método de ensaio, consultaria o organismo de normalização, o IPQ.
  4. Conclusão: acreditação e normalização são dois subsistemas diferentes, com entidades diferentes.

3. Gestão, calibração e rastreabilidade dos instrumentos

Um instrumento de medida é um bem que envelhece. Desgasta-se, desajusta-se, sofre quedas, é usado fora das condições e passa a medir mal sem dar sinais visíveis. A gestão dos instrumentos de medida é o sistema de regras que garante que cada instrumento em uso é adequado, está identificado, está em boas condições e foi comparado com um padrão dentro do prazo. Este sistema é um requisito de qualquer sistema de gestão da qualidade e da acreditação de um laboratório.

O ciclo de vida de um instrumento

  1. Necessidade e aquisição: definir a grandeza, a gama, a resolução e o erro admissível exigidos pelo trabalho.
  2. Receção: verificar o instrumento, confirmar que vem com certificado de calibração ou de conformidade e atribuir-lhe um número de identificação.
  3. Utilização: aplicar o procedimento correto, na gama e nas condições previstas, registando as medições.
  4. Verificação intermédia e calibração periódica: confirmar o estado do instrumento e comparar com padrões em intervalos definidos.
  5. Manutenção e armazenamento: limpar, proteger, guardar em estojo, evitar choques, humidade e poeiras.
  6. Reforma: retirar de serviço um instrumento que não cumpre, identificando-o como inutilizável.

Critérios de aquisição

Na compra de um instrumento, a pergunta certa é para que medição o preciso. Os critérios técnicos mais importantes são:

Critério Pergunta a fazer Exemplo
Grandeza e gama cobre os valores a medir, com folga? paquímetro de 150 mm para peças até 120 mm
Resolução permite ler o necessário para a tolerância? 0,02 mm para tolerâncias de ±0,1 mm
Exatidão e classe o erro máximo admissível cabe na tolerância? multímetro com erro de leitura compatível com o ensaio
Condições de utilização resiste ao ambiente de trabalho? grau de proteção para uso exterior em cobertura
Calibração vem com certificado? o fornecedor calibra? certificado rastreável para instrumentos críticos
Custo total preço de compra mais calibrações, manutenção e formação um barato que não se consegue calibrar sai caro
Segurança categoria de medição adequada ao circuito multímetro para corrente contínua de strings fotovoltaicas

A regra geral é adequar a qualidade do instrumento à grandeza a medir: nem um instrumento de qualidade insuficiente, que torna a decisão incerta, nem um instrumento muito melhor do que o necessário, mais caro e mais frágil.

Calibração

A calibração é a operação que, em condições especificadas, estabelece uma relação entre os valores indicados pelo instrumento e os valores correspondentes de um padrão com incerteza conhecida, e que usa essa relação para obter um resultado de medição a partir de uma indicação. Em linguagem corrente: compara-se o instrumento com um padrão melhor do que ele e registam-se os desvios num certificado.

A calibração não é o mesmo que ajuste (que é a operação de afinar o instrumento para reduzir o desvio) nem que verificação (confirmar que o instrumento cumpre requisitos especificados). Calibrar não repara nada: informa. Pode depois decidir-se ajustar, aceitar com correções ou retirar o instrumento.

Um certificado de calibração contém, no mínimo: identificação do instrumento e do laboratório, data, condições ambientais, padrões utilizados, resultados com a respetiva incerteza e declaração de rastreabilidade. O intervalo de calibração (por exemplo 12 meses) depende do tipo de instrumento, da frequência e do ambiente de uso, da estabilidade demonstrada e da criticidade da medição. Um instrumento que cai ou é sujeito a uma sobrecarga deve ser verificado imediatamente, sem esperar pela data.

Etiquetas, registos e estado do instrumento

Cada instrumento deve ostentar uma etiqueta com a identificação, a data da última calibração e a data da próxima. Existe um registo individual (ficha do instrumento) com o historial: calibrações, ajustes, reparações, desvios encontrados. Os instrumentos fora de prazo ou suspeitos são retirados e etiquetados como não utilizar. Se uma calibração revelar que o instrumento estava fora do erro admissível, avaliam-se as medições anteriores feitas com ele, porque podem ter de ser repetidas.

Cadeia de rastreabilidade

Rastreabilidade metrológica é a propriedade de um resultado de medição poder ser relacionado com uma referência, através de uma cadeia ininterrupta e documentada de calibrações, cada uma contribuindo para a incerteza. Em termos práticos, o teu paquímetro foi comparado com um padrão da empresa, esse padrão com um de um laboratório acreditado, e este com o padrão nacional, que realiza a unidade do Sistema Internacional.

Nível Exemplo (comprimento) Quem o mantém
Padrão primário / nacional realização do metro instituição nacional de metrologia (IPQ)
Padrão de referência blocos padrão de laboratório laboratório acreditado
Padrão de trabalho blocos padrão da empresa serviço de metrologia da empresa
Instrumento de medição paquímetro, micrómetro oficina, estaleiro, linha de produção

A incerteza aumenta à medida que se desce na cadeia: cada elo acrescenta a sua contribuição. A cadeia só é válida se nenhum elo estiver quebrado: um padrão com calibração caducada interrompe a rastreabilidade de tudo o que está abaixo dele. O que quebra a cadeia é o certificado de calibração do padrão estar caducado; é diferente da acreditação do laboratório que o emitiu (ver capítulo 2).

Exemplo resolvido · decidir se um paquímetro continua em serviço

Um paquímetro de 150 mm tem intervalo de calibração de 12 meses. O certificado mais recente é de 14 meses atrás e, entretanto, o instrumento caiu da bancada.

  1. A calibração está fora do prazo (14 meses contra 12 permitidos).
  2. A queda é um evento que pode ter alterado o instrumento, logo exige verificação.
  3. Decisão: retirar o paquímetro do uso (etiqueta de não utilizar), enviá-lo a calibração e, se o resultado mostrar desvio acima do erro admissível, rever as medições feitas desde a última calibração válida.
  4. Enquanto isso, usa-se outro instrumento com calibração em vigor.

4. Grandezas, unidades e dimensões

Unidade, grandeza e dimensão: três conceitos diferentes

Estes três termos aparecem muitas vezes misturados. Convém separá-los.

Conceito O que é Exemplo
Grandeza propriedade que se pode medir comprimento, massa, tempo, tensão elétrica
Unidade grandeza particular, escolhida por convenção, usada como termo de comparação metro, quilograma, segundo, volt
Dimensão expressão da grandeza em função das grandezas de base do sistema, sem números nem unidades velocidade tem dimensão L·T⁻¹ (comprimento a dividir por tempo)

Uma mesma grandeza pode ser expressa em várias unidades (um comprimento em metros, em polegadas, em pés), mas tem uma só dimensão. Duas grandezas com a mesma dimensão podem somar-se ou comparar-se (a altura de uma torre e a envergadura de uma pá são comprimentos). Grandezas de dimensões diferentes não se somam: é impossível somar 3 m com 2 s.

A análise dimensional serve para verificar fórmulas. No Sistema Internacional, as dimensões das grandezas de base são: comprimento L, massa M, tempo T, corrente elétrica I, temperatura termodinâmica Θ, quantidade de matéria N e intensidade luminosa J.

Grandeza derivada Dimensão Unidade SI
Área L² m²
Volume L³ m³
Velocidade L·T⁻¹ m/s
Aceleração L·T⁻² m/s²
Força M·L·T⁻² newton (N)
Pressão M·L⁻¹·T⁻² pascal (Pa)
Energia M·L²·T⁻² joule (J)
Potência M·L²·T⁻³ watt (W)
Frequência T⁻¹ hertz (Hz)

Se uma fórmula estiver certa, os dois lados têm a mesma dimensão. Por exemplo, a energia cinética E = ½ m v² tem dimensão M·(L·T⁻¹)² = M·L²·T⁻², que é a de uma energia: a fórmula é dimensionalmente coerente.

O Sistema Internacional de Unidades (SI)

O SI é o sistema de unidades de uso legal em Portugal e na União Europeia, e o sistema usado internacionalmente em ciência e técnica. Desde 20 de maio de 2019, todas as unidades de base do SI são definidas a partir de constantes fundamentais da natureza com valor numérico fixo. O metro, por exemplo, define-se a partir do valor da velocidade da luz no vazio, 299 792 458 m/s, e o quilograma, a partir da constante de Planck. Isto deixou de depender de objetos físicos guardados em cofres, o que torna as definições estáveis e realizáveis em qualquer laboratório avançado.

Unidades de base (fundamentais). São sete:

Grandeza de base Unidade Símbolo Exemplo em energias renováveis
Comprimento metro m altura de uma torre, comprimento de uma pá
Massa quilograma kg massa de um módulo fotovoltaico
Tempo segundo s duração de um ensaio, período de rotação
Corrente elétrica ampere A corrente de uma fileira de módulos
Temperatura termodinâmica kelvin K temperatura de funcionamento do módulo
Quantidade de matéria mole mol eletrólito de uma bateria (química)
Intensidade luminosa candela cd fontes de luz e fotometria

Unidades derivadas. Formam-se combinando as de base. Algumas têm nome próprio e símbolo, e é essencial reconhecê-las:

Grandeza Unidade Símbolo Em unidades de base
Frequência hertz Hz s⁻¹
Força newton N kg·m·s⁻²
Pressão, tensão mecânica pascal Pa N/m²
Energia, trabalho joule J N·m
Potência watt W J/s
Carga elétrica coulomb C A·s
Tensão elétrica volt V W/A
Resistência elétrica ohm Ω V/A
Capacidade elétrica farad F C/V
Fluxo luminoso lúmen lm cd·sr
Iluminância lux lx lm/m²
Temperatura Celsius grau Celsius °C K (com origem em 273,15 K)

Outras derivadas não têm nome próprio e exprimem-se com unidades de base: área (m²), volume (m³), velocidade (m/s), irradiância (W/m²), densidade (kg/m³).

Unidades suplementares. Durante muito tempo o SI teve uma terceira classe, as unidades suplementares: o radiano (rad), para o ângulo plano, e o esterradiano (sr), para o ângulo sólido. Em 1995 a classe foi suprimida e estas duas unidades passaram a ser tratadas como unidades derivadas adimensionais, porque são razões entre grandezas da mesma natureza (arco a dividir por raio). Muita documentação mais antiga ainda fala em unidades suplementares, e o referencial desta UC mantém o termo; deves saber ambos os enquadramentos.

Múltiplos e submúltiplos

O SI é decimal. Os prefixos multiplicam ou dividem a unidade por potências de dez:

Prefixo Símbolo Fator Exemplo
giga G 10⁹ 1 GW = 1 000 000 000 W
mega M 10⁶ parque solar de 2,5 MW
quilo k 10³ 1 kW = 1 000 W
hecto h 10² 1 hPa = 100 Pa
(unidade) 1 1 m
centi c 10⁻² 1 cm = 0,01 m
mili m 10⁻³ 1 mm = 0,001 m
micro µ 10⁻⁶ 1 µm = 0,000 001 m
nano n 10⁻⁹ 1 nm = 10⁻⁹ m

Três cuidados: o símbolo é minúsculo ou maiúsculo conforme o prefixo (k de quilo é minúsculo, M de mega é maiúsculo, e a diferença entre mW e MW é de mil milhões de vezes); não se usam prefixos compostos (escreve-se nm, não mµm); e, no caso do quilograma, a unidade de base já leva o prefixo, pelo que os múltiplos e submúltiplos da massa formam-se a partir do grama (mg, g) e não do quilograma.

Exemplo resolvido · mudar de prefixo

Converte: (a) 2,5 MW em kW; (b) 0,18 mm em µm; (c) 450 µm em mm; (d) 3 250 W em kW.

  1. (a) 1 MW = 1 000 kW, logo 2,5 × 1 000 = 2 500 kW.
  2. (b) 1 mm = 1 000 µm, logo 0,18 × 1 000 = 180 µm.
  3. (c) 450 ÷ 1 000 = 0,45 mm.
  4. (d) 3 250 ÷ 1 000 = 3,25 kW.

Unidades em uso com o SI

Algumas unidades não pertencem ao SI mas são aceites para uso com ele, porque a prática as consagrou:

Grandeza Unidade Símbolo Relação com o SI
Tempo minuto, hora, dia min, h, d 60 s; 3 600 s; 86 400 s
Ângulo plano grau, minuto e segundo de arco °, ', " 1° = π/180 rad; 1° = 60'; 1' = 60"
Volume litro L (ou l) 1 L = 0,001 m³
Massa tonelada t 1 t = 1 000 kg
Área hectare ha 1 ha = 10 000 m²

A energia elétrica costuma medir-se em quilowatt-hora (kWh), que é um uso comercial universal, não uma unidade SI. 1 kWh = 1 000 W × 3 600 s = 3 600 000 J = 3,6 MJ. O bar (1 bar = 100 000 Pa = 100 kPa) é muito usado em pressões.

Outros sistemas de unidades em uso

Alguns sistemas antigos ou regionais ainda aparecem na documentação técnica, em catálogos importados e em equipamentos:

Sistema Onde aparece Unidades típicas
Imperial britânico e norte-americano catálogos de fixações, tubagens, ferramentas, pneus polegada, pé, jarda, milha, libra, psi
CGS eletromagnetismo clássico, alguma literatura centímetro, grama, segundo, dina
Técnico (gravitacional) manómetros e máquinas antigas quilograma-força (kgf), kgf/cm²

Os fatores de conversão exatos que mais vais usar:

Unidade Valor exato ou usual no SI
1 polegada (in, ") 25,4 mm (exato)
1 pé (ft) 0,3048 m (exato)
1 jarda (yd) 0,9144 m (exato)
1 milha terrestre (mi) 1 609,344 m (exato)
1 libra (lb) 0,453 592 37 kg (exato)
1 psi (libra-força por polegada quadrada) cerca de 6 894,757 Pa
1 kgf 9,806 65 N (exato)
1 milha por hora (mph) 0,447 04 m/s (exato)
1 nó (milha náutica por hora) cerca de 0,514 444 m/s
1 °F (T em °F − 32) × 5/9 = T em °C

Conversões: o método

Converter unidades é multiplicar por um fator de conversão cujo valor é 1, escrito de forma que as unidades indesejadas se cancelem. Há cinco passos:

  1. Escrever o valor com a unidade de partida.
  2. Escolher o fator de conversão exato.
  3. Dispor a razão de modo a cancelar a unidade de partida.
  4. Calcular.
  5. Verificar a ordem de grandeza: o resultado faz sentido?

Exemplo resolvido · da polegada ao milímetro

Um fornecedor indica um parafuso de 1/2" e 5/16". Quais são os diâmetros em mm?

  1. 1/2" = 0,5 in; 0,5 × 25,4 = 12,7 mm.
  2. 5/16" = 0,3125 in; 0,3125 × 25,4 = 7,9375 mm, ou seja cerca de 7,94 mm.
  3. Verificação: um parafuso M12 (12 mm) é ligeiramente mais pequeno do que o de 1/2" (12,7 mm), por isso não são intermutáveis.

Exemplo resolvido · velocidade do vento

A velocidade nominal de uma turbina é de 12 m/s. Quanto é em km/h? E uma ficha técnica americana dá 20 mph: quanto é em m/s?

  1. Para km/h: 12 m/s × 3 600 s/h ÷ 1 000 m/km = 12 × 3,6 = 43,2 km/h.
  2. Para mph em m/s: 20 × 0,447 04 = 8,9408 m/s, ou cerca de 8,94 m/s.
  3. Regra mental: m/s para km/h multiplica-se por 3,6.

Exemplo resolvido · pressão e temperatura

Uma instalação de águas quentes tem a pressão de teste de 2,5 bar e a ficha de um componente americano indica 30 psi. Em Celsius, o fabricante dá 77 °F.

  1. 2,5 bar = 2,5 × 100 000 Pa = 250 000 Pa = 250 kPa.
  2. 30 psi × 6 894,757 Pa/psi = 206 842,7 Pa, ou seja cerca de 2,07 bar.
  3. 77 °F: (77 − 32) × 5/9 = 45 × 5/9 = 225/9 = 25 °C.
  4. Em kelvin: 25 + 273,15 = 298,15 K.

Exemplo resolvido · área de módulo e rendimento

Um módulo fotovoltaico tem 1 722 mm × 1 134 mm e potência nominal de 400 W em condições padrão (irradiância de 1 000 W/m²). Qual é o seu rendimento?

  1. Converter para metros: 1,722 m × 1,134 m.
  2. Área: 1,722 × 1,134 = 1,952 748 m², cerca de 1,953 m².
  3. Potência incidente: 1 000 W/m² × 1,952 748 m² = 1 952,7 W.
  4. Rendimento: 400 ÷ 1 952,7 = 0,2048, ou seja cerca de 20,5 %.

Exemplo resolvido · rotação de um rotor

Um rotor gira a 18 rpm e tem pás com 40 m de raio. Qual é a frequência de rotação, a velocidade angular e a velocidade na ponta das pás?

  1. Frequência: 18 rpm = 18 rotações por 60 s = 0,30 Hz.
  2. Velocidade angular: ω = 2π × 0,30 = 1,885 rad/s.
  3. Velocidade na ponta: v = ω × r = 1,885 × 40 = 75,4 m/s.
  4. Em km/h: 75,4 × 3,6 = cerca de 271 km/h.

Ângulos

O radiano é a unidade SI de ângulo plano. 180° = π rad; logo 1° = π/180 rad = 0,017 453 rad. Uma estrutura com inclinação de 35° tem 35 × π/180 = 0,611 rad. Atenção ao sistema sexagesimal: 1° = 60' e 1' = 60", pelo que 34°30' = 34 + 30/60 = 34,5° (e não 34,30°).

5. Qualidades de um instrumento de medida

Escolher um instrumento exige perceber o que o torna bom ou mau para um dado fim. As qualidades de um instrumento de medida são características que descrevem o seu comportamento. Em geral, não existe um instrumento perfeito em tudo; escolhe-se o que tem as qualidades certas para a grandeza e a tolerância em causa.

Qualidade Definição Exemplo
Gama de medição (alcance) intervalo de valores que o instrumento mede paquímetro 0 a 150 mm
Divisão de escala valor correspondente a uma divisão 1 mm numa régua
Resolução menor variação da grandeza que produz uma variação percetível na indicação 0,02 mm no nónio 1/50
Sensibilidade razão entre a variação da indicação e a variação da grandeza um comparador em que 0,01 mm move o ponteiro uma divisão
Fidelidade (precisão em condições de repetibilidade) aptidão para dar indicações próximas em medições repetidas nas mesmas condições cinco leituras seguidas muito próximas
Justeza proximidade entre a média das indicações e o valor verdadeiro (ausência de erro sistemático) o paquímetro dá zero a zero e o valor certo num padrão
Exatidão proximidade entre o valor medido e o valor verdadeiro da grandeza resultado global que combina justeza e fidelidade
Estabilidade manutenção das características ao longo do tempo desvio pequeno entre duas calibrações
Reversibilidade e histerese indicação diferente quando se chega ao mesmo valor por cima e por baixo folga nas engrenagens de um comparador
Robustez e facilidade de uso resistência a choques, leitura clara essencial em estaleiro

Duas observações. A resolução diz o que o instrumento consegue mostrar, enquanto a exatidão diz o quão certo é o que mostra: um multímetro digital com cinco algarismos no visor pode estar descalibrado. E uma coisa é a fidelidade (os valores repetidos concordam entre si) e outra a justeza (a média concorda com o valor verdadeiro): um instrumento pode ser muito fiel e injusto, como uma balança que dá sempre 20 g a mais.

Exemplo resolvido · fidelidade e justeza

Mediram-se cinco vezes, com o mesmo paquímetro, as dimensões de um bloco padrão de 25,00 mm: 25,02; 25,04; 25,03; 25,05 e 25,01 mm.

  1. Média: (25,02 + 25,04 + 25,03 + 25,05 + 25,01) ÷ 5 = 125,15 ÷ 5 = 25,03 mm.
  2. Dispersão (máximo menos mínimo): 25,05 − 25,01 = 0,04 mm. As leituras estão próximas: boa fidelidade.
  3. Erro da média em relação ao valor do padrão: 25,03 − 25,00 = +0,03 mm: o instrumento mede, em média, 0,03 mm a mais, o que mostra falta de justeza.
  4. Desvio-padrão experimental: desvios em relação à média de −0,01; +0,01; 0; +0,02; −0,02. Quadrados: 0,0001; 0,0001; 0; 0,0004; 0,0004. Soma 0,0010. Divide-se por n − 1 = 4 e obtém-se 0,00025; a raiz quadrada é 0,016 mm.

Classe de precisão

A classe de precisão (também chamada classe de exatidão) é a categoria em que se inscreve um instrumento que cumpre determinados requisitos metrológicos, de modo que os seus erros se mantêm dentro de limites especificados. Instrumentos da mesma classe têm o mesmo erro máximo admissível, mesmo que sejam de marcas diferentes.

Nos instrumentos analógicos elétricos (voltímetros, amperímetros), a classe vem indicada no mostrador e exprime o erro máximo como percentagem do valor de fim de escala. Uma classe 1,5 com gama de 0 a 50 V pode errar, em qualquer ponto da escala, até 1,5 % de 50 V, ou seja 0,75 V.

Nos instrumentos dimensionais, a classe vem em normas e em catálogos, e pode ser dada por uma fórmula em função do comprimento medido, ou por uma tabela. A fita métrica, por exemplo, tem classes I e II, com erro máximo admissível maior na segunda.

Exemplo resolvido · erro máximo e erro relativo

Um voltímetro analógico de classe 1,5 tem escala de 0 a 50 V. Qual é o erro máximo admissível? E o erro relativo máximo quando indica 36,0 V e quando indica 10,0 V?

  1. Erro máximo absoluto: 1,5 % × 50 V = 0,015 × 50 = 0,75 V, em toda a escala.
  2. Para 36,0 V: erro relativo máximo = 0,75 ÷ 36,0 = 0,02083, ou seja cerca de 2,08 %.
  3. Para 10,0 V: erro relativo máximo = 0,75 ÷ 10,0 = 7,5 %.
  4. Conclusão: o erro relativo é tanto menor quanto mais perto do fim de escala se mede. Escolhe-se, por isso, a gama de modo que a leitura caia no terço superior da escala.

Exemplo resolvido · escolher entre duas gamas

Um amperímetro de classe 0,5 tem duas gamas, 0 a 10 A e 0 a 2,5 A. Pretende-se medir uma corrente de cerca de 2,0 A. Qual das gamas dá melhor resultado?

  1. Gama de 10 A: erro máximo = 0,5 % × 10 = 0,05 A; erro relativo para 2,0 A = 0,05 ÷ 2,0 = 2,5 %.
  2. Gama de 2,5 A: erro máximo = 0,5 % × 2,5 = 0,0125 A; erro relativo = 0,0125 ÷ 2,0 = 0,625 %.
  3. A gama de 2,5 A é melhor: erro quatro vezes menor, desde que a corrente não a ultrapasse.

Adequar o instrumento à grandeza a medir

O primeiro critério de desempenho desta UC é adequar o instrumento e a qualidade do instrumento de medida à grandeza a medir. Na prática usa-se a regra de 1 para 10: a resolução do instrumento deve ser, no máximo, cerca de um décimo do intervalo de tolerância (diferença entre a medida máxima e a mínima admitidas). Além disso, o erro máximo admissível do instrumento tem de caber na tolerância, e o instrumento deve estar calibrado.

Cota Intervalo de tolerância (IT) 1/10 do IT Instrumento adequado
1 200 ± 5 mm 10 mm 1 mm régua de aço ou fita métrica (1 mm)
80 ± 0,5 mm 1 mm 0,1 mm paquímetro 1/20 ou 1/50
12 ± 0,1 mm 0,2 mm 0,02 mm paquímetro 1/50
8 ± 0,02 mm 0,04 mm 0,004 mm micrómetro de 0,001 mm ou comparador de maior sensibilidade

Exemplo resolvido · cota de uma calha

A cota de uma calha de fixação é 45 ± 0,15 mm. Que instrumento escolher entre régua de aço (0,5 mm), paquímetro 1/20, paquímetro 1/50 e micrómetro (0,01 mm)?

  1. IT = (45 + 0,15) − (45 − 0,15) = 45,15 − 44,85 = 0,30 mm.
  2. 1/10 do IT = 0,03 mm.
  3. A régua (0,5 mm) e o paquímetro 1/20 (0,05 mm) não cumprem; o 1/50 (0,02 mm) cumpre; o micrómetro (0,01 mm) também, mas o de 0 a 25 mm não cobre 45 mm e seria preciso o de 25 a 50 mm.
  4. Escolha: paquímetro 1/50, verificando no certificado que o seu erro máximo admissível não excede a tolerância.

6. Fatores de influência e tipos de erros de medição

Nenhuma medição é perfeita. O resultado difere sempre, ainda que pouco, do valor verdadeiro. Esta diferença é o erro de medição. Saber de onde vem permite reduzi-lo e corrigi-lo, que é exatamente a aptidão pedida: identificar os principais fatores geradores de erro numa medição e efetuar ações corretivas.

Erro absoluto, relativo e correção

Exemplo resolvido · erro e correção

Um bloco padrão de 50,00 mm é lido num paquímetro como 50,04 mm.

  1. Erro absoluto: 50,04 − 50,00 = +0,04 mm.
  2. Erro relativo: 0,04 ÷ 50,00 = 0,0008 = 0,08 %.
  3. Correção: C = −0,04 mm. Uma leitura de 31,30 mm, neste ponto da escala, corrige-se para 31,30 − 0,04 = 31,26 mm.
  4. Para um erro de 0,04 mm numa cota de 5,00 mm o erro relativo seria 0,8 %, dez vezes maior: o mesmo erro absoluto pesa mais nas peças pequenas.

Erros sistemáticos, aleatórios e grosseiros

Tipo Característica Como lidar
Sistemático repete-se sempre com o mesmo sinal e valor (ou varia de forma previsível) identificar a causa e corrigir ou compensar; calibrar
Aleatório varia de medição para medição, sem padrão, com sinais diferentes repetir várias vezes e usar a média
Grosseiro (engano) resulta de lapsos: leitura trocada, número mal escrito, instrumento avariado repetir a medição, comparar com a ordem de grandeza esperada

Fatores de influência

Um fator de influência é qualquer circunstância, fora o mensurando, que altera o resultado. Agrupam-se tradicionalmente em cinco famílias, os "5 M" da medição:

Fator O que inclui Exemplo
Meio ambiente temperatura, humidade, vibração, luz, poeira, pressão peça a 35 °C medida com padrão a 20 °C
Instrumento desgaste, desajuste, folgas, resolução insuficiente bicos do paquímetro gastos
Operador postura, atenção, técnica, paralaxe, força olhar a escala de lado
Método procedimento incorreto, ponto de medição mal escolhido medir longe do local pedido
Mensurando (peça) forma, rugosidade, rebarbas, deformação secção oval, face não plana

Erros imputáveis ao meio ambiente

A temperatura é o fator mais importante na metrologia dimensional. A temperatura de referência para as medições dimensionais é 20 °C. A maior parte dos materiais dilata com o calor: o comprimento aumenta segundo ΔL = L × α × ΔT, em que α é o coeficiente de dilatação linear.

Material α aproximado
Aço 12 × 10⁻⁶ K⁻¹
Alumínio 23 × 10⁻⁶ K⁻¹

Exemplo resolvido · dilatação de um perfil de alumínio

Um perfil de alumínio de 4 000 mm de comprimento é medido a 50 °C em estaleiro, com sol direto. Qual é a diferença em relação aos 20 °C?

  1. ΔT = 50 − 20 = 30 K.
  2. ΔL = 4 000 × 23 × 10⁻⁶ × 30 = 4 000 × 0,000 023 × 30 = 0,092 × 30 = 2,76 mm.
  3. A peça mede 2,76 mm a mais do que medirá a 20 °C. Com uma fita de aço também a 50 °C, que dilata 4 000 × 12 × 10⁻⁶ × 30 = 1,44 mm, o erro de leitura reduz-se à diferença, cerca de 1,32 mm: mesmo assim, com uma tolerância de ±1 mm, pode condenar uma peça boa.
  4. Ação corretiva: aclimatar a peça, ou medir à sombra e depois de estabilizar, ou calcular a correção.

Exemplo resolvido · dilatação de uma peça de aço

Um veio de aço de 1 000 mm está 10 K acima de 20 °C. Quanto dilatou?

  1. ΔL = 1 000 × 12 × 10⁻⁶ × 10 = 1 000 × 0,000 012 × 10 = 0,12 mm.
  2. O instrumento e a peça têm de estar à mesma temperatura. Se forem do mesmo material e estiverem juntos, dilatam por igual e o erro compensa-se em grande parte.

Outros fatores do meio: humidade (corrosão, condensação, madeira que incha), vibração (instável a leitura de um comparador), iluminação (leitura de escalas finas), poeira e sujidade (partículas entre o bico e a peça somam décimas), variação da pressão atmosférica (afeta barómetros, anemómetros e medições de gases) e campos eletromagnéticos (afetam instrumentos eletrónicos).

Erros imputáveis ao instrumento

Todo o instrumento tem limites e imperfeições, mesmo novo:

Exemplo resolvido · correção do erro de zero do paquímetro

Antes de medir, fecham-se os bicos e lê-se o zero. Obtêm-se dois casos.

  1. Zero positivo: fechado, o paquímetro lê +0,05 mm. Mede-se uma peça e lê-se 24,35 mm. Valor corrigido: 24,35 − (+0,05) = 24,30 mm.
  2. Zero negativo: fechado, lê −0,10 mm (o zero do nónio está antes do zero da escala). Mede-se a mesma peça e lê-se 24,35 mm. Valor corrigido: 24,35 − (−0,10) = 24,35 + 0,10 = 24,45 mm.
  3. Regra: o valor corrigido é a leitura menos o erro de zero, com o sinal. Se o erro for muito grande, em vez de corrigir, retira-se o instrumento do uso.

Erros imputáveis ao operador

O operador é, muitas vezes, a maior fonte de erro. Os principais:

Erro Descrição Prevenção
Paralaxe olhar a escala de lado, a linha de visão não é perpendicular, e o traço parece deslocado colocar o olho em frente da leitura, na perpendicular
Variação da pressão de contacto apertar mais ou menos os bicos entre medições; força excessiva deforma instrumento e peça usar a roquete (micrómetro) e tocar com força constante e suave
Colocação incorreta do equipamento paquímetro inclinado, micrómetro fora do eixo, régua que não assenta na face alinhar o instrumento com a direção a medir e apoiá-lo bem
Posicionamento incorreto das pontas de medição pontas de prova do multímetro mal assentes, em contacto com tinta ou óxido, ou em curto limpar o ponto, firmar bem, ligar no sítio indicado
Má leitura trocar casas, ler o traço seguinte, esquecer o meio milímetro do micrómetro repetir, usar lupa, ler duas vezes
Má interpretação confundir mm com polegadas, gama errada num multímetro verificar unidade e gama antes de ler
Pressa e fadiga lapsos, anotação trocada pausas, registo imediato

A expressão "variação de pressão" tem dois sentidos que convém distinguir. Em instrumentos de contacto, é a força de medição exercida pelo operador. Em medições de gases, líquidos e ar, é a variação da pressão do fluido ou da pressão atmosférica, que altera a indicação se não for compensada ou se o instrumento for de pressão relativa e a referência tiver variado.

Exemplo resolvido · efeito da inclinação do paquímetro

Um técnico mede a largura de uma chapa de 40,00 mm com o paquímetro ligeiramente inclinado, de modo que a linha entre os bicos faz 5° com a perpendicular às faces da peça.

  1. A distância lida ao longo da linha inclinada é maior do que a perpendicular entre as faces: leitura = 40,00 ÷ cos 5°.
  2. cos 5° = 0,996 195, logo a leitura é 40,00 ÷ 0,996 195 = 40,153 mm.
  3. Erro: 40,153 − 40,00 = +0,153 mm, cerca de três vezes a resolução de um nónio de 0,05 mm.
  4. Conclusão: uma pequena inclinação gera um erro maior do que a resolução do instrumento.

Erros por escolha incorreta do instrumento

Usar um instrumento com resolução ou exatidão insuficiente para a tolerância é um erro de escolha, não de leitura. Exemplos: medir uma tolerância de ±0,05 mm com uma régua de 1 mm; usar paquímetro numa espessura que pede o micrómetro; medir uma corrente alta com um multímetro de gama de 10 A sem derivação própria; usar um instrumento de interiores para medir exteriores. Previne-se com a regra de 1 para 10 e com o conhecimento das gamas e classes.

Erros por defeitos de forma da peça

O instrumento mede o que a peça tem, e a peça real raramente é geometricamente perfeita. Exemplos:

Defeito Efeito sobre a medição Ação
Ovalização (secção oval) o diâmetro varia com a direção medir em, pelo menos, duas direções perpendiculares
Conicidade o diâmetro varia ao longo do comprimento medir em várias posições axiais
Falta de planeza a espessura varia na superfície medir em vários pontos
Rebarbas e arestas vivas falsa medida, bicos mal apoiados limpar e rebarbar antes de medir
Rugosidade elevada os bicos assentam nos picos usar ponteiras adequadas e registar o ponto

7. Procedimentos corretos e incorretos de leitura e medição

Os critérios de desempenho pedem respeitar métodos e procedimentos definidos e evitar os erros imputáveis ao operador. Um bom procedimento é, no fundo, uma sequência para eliminar os erros descritos no capítulo anterior antes que ocorram.

Procedimento geral correto

  1. Compreender o que se vai medir: a cota, a tolerância, o ponto e o sentido da medição, a unidade.
  2. Escolher o instrumento adequado (resolução, gama, tipo), com calibração em vigor.
  3. Preparar o instrumento: limpar, verificar integridade, conferir o zero (ou a compensação equivalente).
  4. Preparar a peça: limpar, rebarbar, deixar estabilizar à temperatura da sala.
  5. Posicionar o instrumento corretamente: alinhado, apoiado, perpendicular, sem inclinação.
  6. Aplicar força constante e suave, e imobilizar a leitura (parafuso de bloqueio, onde existir).
  7. Ler com o olhar na perpendicular, de forma sistemática (primeiro a parte inteira, depois a fração).
  8. Repetir a medição, mudando a posição e, se possível, o sentido, e registar todas as leituras.
  9. Registar o valor com a unidade, a data, o instrumento usado e o resultado (conforme ou não conforme).
  10. Arrumar o instrumento limpo, aberto ligeiramente, em estojo.

Quadro comparativo: correto e incorreto

Situação Procedimento correto Procedimento incorreto Consequência do incorreto
Antes de medir verificar o zero e a limpeza começar a medir sem verificar erro sistemático em todas as leituras
Contacto com a peça força leve e constante, roquete no micrómetro apertar a fundo bicos e peça deformados, leituras menores
Posição do instrumento alinhado e perpendicular à peça inclinado ou fora do eixo leitura maior (erro de cosseno)
Leitura da escala olhar de frente olhar de lado paralaxe
Medição de um diâmetro em duas direções e em vários pontos numa só posição ovalização e conicidade ficam por detetar
Peça recém-saída da máquina deixar arrefecer ou aclimatar medir quente dilatação, peça boa dada como má
Leitura de um multímetro gama certa, pontas bem apoiadas, categoria de medição e tensão DC adequadas gama ao acaso, pontas soltas leitura instável ou dano ao instrumento
Registo valor numérico com unidade escrever só "OK" impossível auditar ou repetir
Fim do trabalho limpar, proteger, arrumar largar na bancada com pó desgaste e desajuste

Regras específicas para cada tipo de medição

Exemplo resolvido · identificar falhas num procedimento

Observas um colega a medir a espessura de um perfil de alumínio acabado de sair da serra: não verificou o zero do paquímetro, segura o instrumento inclinado, aperta com força e lê olhando de lado. Regista "9 mm, OK".

  1. Não verificou o zero: possível erro sistemático.
  2. Peça quente: dilatada, a espessura é ligeiramente maior do que a 20 °C; deve aclimatar.
  3. Instrumento inclinado: leitura maior, erro de cosseno.
  4. Força excessiva: bicos e perfil comprimidos, leitura menor, e desgaste dos bicos.
  5. Olhar de lado: paralaxe.
  6. Registo "9 mm, OK": sem casas decimais, sem tolerância, sem instrumento, sem unidade completa: não é auditável.
  7. O procedimento correto seria: verificar zero, esperar que a peça arrefeça, medir perpendicularmente com força leve, olhar de frente e registar, por exemplo, "9,12 mm, paquímetro n.º 14, conforme (9,0 ± 0,2 mm)".

8. O nónio e a leitura de escalas auxiliares

Uma régua graduada em milímetros só permite ler com confiança até cerca de meio milímetro, porque o olho humano não subdivide bem as divisões. Para ir mais longe, usa-se uma escala auxiliar deslizante, o nónio (ou vernier). O nome "nónio" vem de Pedro Nunes, matemático português do século XVI; a escala deslizante que hoje usamos resulta de uma modificação do francês Pierre Vernier, daí o nome "vernier". O nónio permite ler frações de uma divisão da escala principal sem estimar a olho.

Natureza do nónio

O nónio é uma pequena escala móvel colocada junto da escala principal. Nos nónios normais, a graduação do nónio é ligeiramente menor do que a da principal: n divisões do nónio ocupam o comprimento de (n − 1) divisões da escala principal. Assim, as divisões do nónio são um pouco mais curtas, e à medida que se avança, uma delas fica alinhada com um traço da principal. O primeiro traço do nónio que coincide com um traço da escala principal indica a fração.

Resolução do nónio é a diferença entre o valor de uma divisão da escala principal e o valor de uma divisão do nónio. Equivale a dividir o valor da menor divisão da escala principal pelo número de divisões do nónio, e é esta a forma que serve sempre, inclusive no nónio alongado (ver adiante).

Nónio Divisões do nónio Comprimento do nónio Valor de cada divisão do nónio Resolução
1/10 10 9 mm 0,90 mm 1 − 0,90 = 0,10 mm
1/20 20 19 mm 0,95 mm 1 − 0,95 = 0,05 mm
1/50 50 49 mm 0,98 mm 1 − 0,98 = 0,02 mm

Para o nónio 1/20: 19 mm repartidos por 20 divisões dão 19 ÷ 20 = 0,95 mm cada. A diferença para 1 mm é 0,05 mm, que é também 1 ÷ 20. A mesma lógica vale para qualquer nónio.

Nónio normal e nónio alongado. Nos nónios acima, n divisões do nónio ocupam (n − 1) divisões da escala principal. Para a leitura ser mais folgada, muitos paquímetros de 0,05 mm usam um nónio alongado: 20 divisões repartidas por 39 mm, isto é, por (2n − 1) divisões da escala principal. Cada divisão do nónio vale 39 ÷ 20 = 1,95 mm, e a comparação faz-se com duas divisões da principal: 2 − 1,95 = 0,05 mm. Normal ou alongado, vale sempre a forma geral: resolução = menor divisão da escala principal ÷ número de divisões do nónio (1 ÷ 20 = 0,05 mm). E a leitura faz-se sempre do mesmo modo: parte inteira na escala principal, mais o número do traço que coincide multiplicado pela resolução.

Escalas com nónio: retilíneas e circulares

O nónio pode ser retilíneo (paquímetros, graminhos, escalas de altura) ou circular (goniómetros, transferidores de precisão). Num nónio circular a escala principal é graduada em graus e o nónio em fração de grau: um nónio de 12 divisões sobre 11° dá resolução 1° ÷ 12 = 5'; um nónio de 60 divisões dá 1'.

Procedimento de leitura com nónio

  1. Verificar o zero: com os bicos fechados, o zero do nónio coincide com o zero da escala principal.
  2. Ler a parte inteira na escala principal: o último traço que fica antes do zero do nónio. Esse valor é a medida em milímetros inteiros.
  3. Ler a fração: procurar qual o traço do nónio que coincide exatamente com um traço da escala principal. Multiplicar o seu número pela resolução.
  4. Somar a parte inteira com a fração.
  5. Registar com a unidade e com o número de casas decimais coerente com a resolução.

Exemplo resolvido · nónio 1/10

Escala principal: o zero do nónio está depois do traço 23 mm. O 6.º traço do nónio coincide.

  1. Parte inteira: 23 mm.
  2. Fração: 6 × 0,1 = 0,6 mm.
  3. Leitura: 23 + 0,6 = 23,6 mm.

Exemplo resolvido · nónio 1/20

O zero do nónio está depois do traço 47 mm. O 13.º traço do nónio coincide.

  1. Parte inteira: 47 mm.
  2. Fração: 13 × 0,05 = 0,65 mm.
  3. Leitura: 47,65 mm.

Exemplo resolvido · nónio 1/50

O zero do nónio passou o traço 62 mm. O 34.º traço do nónio coincide.

  1. Parte inteira: 62 mm.
  2. Fração: 34 × 0,02 = 0,68 mm.
  3. Leitura: 62,68 mm.

Exemplo resolvido · nónio circular de 5'

Um goniómetro tem escala principal em graus e nónio de resolução 5'. O zero do nónio passou o traço 127°. O 11.º traço do nónio coincide.

  1. Parte inteira: 127°.
  2. Fração: 11 × 5' = 55'.
  3. Leitura: 127°55'.
  4. Em graus decimais: 127 + 55/60 = 127 + 0,9167 = 127,92°.

Relação entre nónio e micrómetro

O micrómetro não usa um nónio retilíneo, mas segue a mesma ideia: transforma uma grandeza pequena (centésimos de milímetro) numa divisão grande e legível. O passo do parafuso é de 0,5 mm; um tambor com 50 divisões faz cada divisão valer 0,5 ÷ 50 = 0,01 mm. Alguns micrómetros de maior precisão têm ainda um nónio no cilindro, com resolução de 0,001 mm. Estudamos a leitura no capítulo 9.

Erros típicos na leitura de nónios

9. Instrumentos de medida direta: régua de aço, paquímetro e micrómetro

Os instrumentos de medida direta têm uma escala graduada na unidade da grandeza, e a medida lê-se diretamente nela. Esta família é a base do trabalho de bancada.

Régua de aço

É o instrumento mais simples: uma lâmina de aço (muitas vezes inoxidável) graduada em milímetros, e por vezes em meios milímetros, com comprimentos usuais de 150, 300, 500 e 1 000 mm. A divisão de escala é de 1 mm (ou 0,5 mm), e a resolução prática fica entre 0,5 e 1 mm.

Aspeto Boa prática
Origem usar o zero da régua só se a extremidade estiver íntegra; em caso de desgaste, partir de um traço inteiro (por exemplo o de 10 mm) e subtrair
Leitura olhar na perpendicular, para evitar a paralaxe
Apoio encostar a régua de canto, para que as graduações fiquem junto da peça
Utilização medidas de comprimento onde a tolerância é de milímetros: corte de perfis, cabo, calhas

Exemplo resolvido · leitura a partir de um traço inteiro. A extremidade da régua está gasta. Alinha-se o traço dos 10 mm com uma extremidade da peça e a outra extremidade da peça coincide com o traço 143,5 mm.

  1. Comprimento = 143,5 − 10,0 = 133,5 mm.
  2. A incerteza prática de leitura é de cerca de ±0,5 mm.

Paquímetro

O paquímetro é o instrumento de medida direta mais versátil da oficina. Compõe-se de uma régua graduada com bico fixo, um cursor com bico móvel e nónio, e, em muitos modelos, uma haste de profundidade.

Parte Função
Bicos exteriores (grandes) medem diâmetros e espessuras exteriores
Bicos interiores (orelhas, pequenos) medem diâmetros e larguras interiores
Haste de profundidade mede profundidade de furos e rasgos
Escala principal graduada em mm (por vezes também em polegadas)
Nónio dá as frações do milímetro (1/10, 1/20, 1/50)
Parafuso de bloqueio fixa o cursor para ler com calma
Roda ou botão de fricção permite avanço suave (em alguns modelos)

Existem três versões: de nónio (analógico), de relógio (a fração lê-se num mostrador) e digital (visor). A resolução típica é 0,02 mm (nónio 1/50) ou 0,01 mm (digital); o erro máximo admissível, porém, é geralmente maior do que a resolução, e consta do manual ou da norma.

Medições possíveis: exteriores, interiores, profundidades e, em alguns modelos, degraus.

Procedimento de medição de exteriores:

  1. Limpar bicos e peça; fechar os bicos e confirmar o zero.
  2. Abrir um pouco mais do que a peça; encostar o bico fixo e fazer deslizar o móvel até tocar suavemente.
  3. Manter o paquímetro perpendicular ao eixo da peça, com a peça o mais perto possível da base dos bicos.
  4. Bloquear o cursor, retirar com cuidado e ler: primeiro a escala principal, depois o nónio.

Exemplo resolvido · diâmetro de um parafuso de ancoragem. Paquímetro 1/50, zero verificado. Escala principal: zero do nónio entre os traços 15 e 16 mm, a coincidência é no 40.º traço.

  1. Parte inteira: 15 mm.
  2. Fração: 40 × 0,02 = 0,80 mm.
  3. Leitura: 15,80 mm. Como um diâmetro nominal de 16 mm é pedido, o parafuso mede 0,20 mm a menos do que o nominal. Se a tolerância for de 0 a −0,2 mm o parafuso está no limite; repete-se em duas direções e em dois pontos.

Exemplo resolvido · profundidade de um rasgo. A haste de profundidade apoia no fundo do rasgo e o corpo na superfície. Escala principal: 18 mm. O 7.º traço do nónio 1/20 coincide.

  1. Fração: 7 × 0,05 = 0,35 mm.
  2. Profundidade: 18 + 0,35 = 18,35 mm.

Micrómetro

O micrómetro (ou palmer) usa um parafuso micrométrico de passo exato para conseguir resoluções mais finas, tipicamente de 0,01 mm, com gama de 25 mm por instrumento (0 a 25, 25 a 50, 50 a 75 mm, e assim por diante). É o instrumento indicado para diâmetros de hastes, espessuras de chapa e fios, onde as tolerâncias são de centésimos.

Parte Função
Arco estrutura rígida em forma de C
Batente (bigorna) face fixa de contacto
Fuso face móvel, ligada ao parafuso micrométrico
Cilindro (bainha) traz a escala principal, com milímetros e meios milímetros
Tambor gira com o fuso; tem 50 divisões
Roquete (fricção) garante força de medição constante
Bloqueio imobiliza o fuso

Como funciona. O passo do parafuso é de 0,5 mm: uma volta completa do tambor avança o fuso 0,5 mm. O tambor tem 50 divisões, pelo que cada divisão corresponde a 0,5 ÷ 50 = 0,01 mm.

Leitura:

  1. Na bainha, ler os milímetros inteiros (traços acima da linha de referência) e verificar se o traço do meio milímetro (abaixo da linha) já está visível.
  2. No tambor, ler a divisão que coincide com a linha de referência da bainha e multiplicar por 0,01.
  3. Somar.
  4. Num micrómetro com nónio na bainha, somar ainda os milésimos.

Exemplo resolvido · leitura sem meio milímetro. Bainha: 12 mm visíveis, sem o traço do meio milímetro. Tambor: divisão 38.

  1. 12 + 38 × 0,01 = 12 + 0,38 = 12,38 mm.

Exemplo resolvido · leitura com meio milímetro. Bainha: 7 mm e o traço de 0,5 mm visível. Tambor: divisão 23.

  1. 7 + 0,5 + 23 × 0,01 = 7,5 + 0,23 = 7,73 mm.

Exemplo resolvido · micrómetro com nónio na bainha. Bainha: 5 mm e meio milímetro visíveis, tambor na divisão 27, e a linha do nónio da bainha que coincide com um traço do tambor é a 4.ª (cada linha vale 0,001 mm).

  1. 5,5 + 0,27 + 0,004 = 5,774 mm.

Exemplo resolvido · secção de um condutor. Mede-se com um micrómetro o diâmetro de um condutor de cobre maciço e obtém-se 1,78 mm. Qual é a secção?

  1. Área = π × d² ÷ 4.
  2. d² = 1,78² = 3,1684 mm².
  3. π × 3,1684 = 9,9539; ÷ 4 = 2,4885.
  4. Secção ≈ 2,49 mm², compatível com um condutor nominal de 2,5 mm². (Os condutores flexíveis têm vários fios e vazios, por isso a medição do diâmetro exterior global não dá a secção de cobre.)

Boas práticas do micrómetro:

Escolher entre paquímetro e micrómetro

Critério Paquímetro Micrómetro
Resolução típica 0,02 a 0,05 mm (digital 0,01) 0,01 mm (ou 0,001)
Versatilidade exterior, interior, profundidade quase só exteriores (outros modelos para interiores)
Sensibilidade ao operador maior menor, graças à roquete
Gama até centenas de mm num só instrumento 25 mm por instrumento
Rapidez rápida mais lenta

10. Instrumentos de medida indireta: compassos e suta

Quando o acesso é difícil, a peça tem formas irregulares ou a medida não pode ser lida diretamente, usam-se instrumentos que copiam ou transportam a medida. Estes instrumentos de medida indireta não têm escala própria: a medida passa para o instrumento e lê-se depois numa régua, num paquímetro ou num transferidor.

Compassos

Tipo Utilização Como se lê
Compasso de exteriores (pernas curvas para dentro) diâmetros e larguras exteriores transfere-se a abertura para uma régua ou para um paquímetro
Compasso de interiores (pernas curvas para fora) diâmetros e larguras interiores idem
Compasso de pontas secas (de traçar) traçar circunferências e transportar distâncias ajusta-se numa régua
Compasso de divisão repartir segmentos em partes iguais marca-se com as pontas
Compasso de espessuras espessuras de paredes de tubos e peças ocas idem

Procedimento do compasso de exteriores:

  1. Abrir ligeiramente mais do que a peça, depois fechar até as pontas tocarem sem forçar.
  2. Fazer o toque ser suave: deve ser possível passar o compasso pela peça "ao seu próprio peso".
  3. Transferir a abertura para uma régua de aço, ou preferencialmente para um paquímetro (a leitura passa a ser a do paquímetro).
  4. Repetir para confirmar.

A qualidade da medida depende do "tato" do operador, por isso a incerteza é maior do que na medida direta (cerca de ±0,2 a ±0,5 mm com régua). Usa-se, assim, para operações de desbaste ou para locais de acesso difícil, não para tolerâncias finas.

Suta

A suta (também chamada falsa-esquadria) é um instrumento com uma lâmina articulada que se imobiliza num parafuso. Serve para copiar um ângulo de uma peça ou de uma obra e transportá-lo: para uma peça nova, para o desenho, ou para um transferidor onde se lê o valor.

Operação Como se faz
Copiar encostar a base e a lâmina às duas faces; apertar o parafuso
Ler colocar a suta sobre um transferidor ou um goniómetro e ler o ângulo
Transportar pousar a suta na peça nova e traçar a linha pela lâmina

Exemplo resolvido · inclinação de uma cobertura. Com a suta, um técnico copia o ângulo entre o telhado e a horizontal (apoiando a base num nível) e transfere-o para um transferidor, onde lê 28°. A estrutura de fixação regula-se, nas peças de suporte, para esse ângulo. A leitura num transferidor de 1° tem incerteza de cerca de ±0,5°, suficiente para a montagem e insuficiente para uma peça de precisão.

Medição indireta por cálculo: a distância entre centros

Em muitas peças, o que o desenho pede (a distância entre eixos de dois furos) não se pode ler diretamente. Mede-se o que é acessível e calcula-se.

Exemplo resolvido · distância entre centros de dois furos iguais. Numa chapa de suporte, medem-se com o paquímetro (bicos interiores e exteriores) a distância entre as arestas exteriores dos dois furos, 87,40 mm, e o diâmetro dos furos, 11,00 mm.

  1. A distância entre arestas exteriores é igual à distância entre centros mais um diâmetro (um raio de cada lado): D_ext = c + d. Entre as arestas interiores é o contrário: D_int = c − d.
  2. c = D_ext − d = 87,40 − 11,00 = 76,40 mm.
  3. Se o desenho pedir 76,5 ± 0,2 mm, a peça está conforme: 76,40 está entre 76,3 e 76,7.
  4. Atenção à incerteza: se o certificado do paquímetro indicar um erro máximo admissível de ±0,02 mm por medida, no pior caso o erro do resultado soma ±0,04 mm. Este valor vem do certificado e não da resolução: num paquímetro 1/50 o erro máximo é muitas vezes maior do que 0,02 mm (ver Ficha 01, Exercício 8).

Exemplo resolvido · diâmetro interior pelo compasso. O compasso de interiores é colocado num tubo e, depois, a abertura é medida com a régua e dá 42,5 mm.

  1. A divisão da régua é de 0,5 mm; a leitura 42,5 mm é plausível.
  2. Para confirmar, mede-se a abertura com o paquímetro e obtém-se, por exemplo, 42,30 mm.
  3. A diferença de 0,20 mm mostra que a leitura com régua não bastaria para uma tolerância de décimas.

11. Instrumentos de verificação

Os instrumentos de verificação não medem sempre um valor: servem para verificar se a peça cumpre uma forma, uma posição ou um limite. Respondem com "passa" ou "não passa", ou mostram um desvio em relação a uma referência.

Instrumento O que verifica Princípio
Régua (de fio, de verificação) retitude e planeza encosta-se o fio da régua à face; passa luz se há desvio
Esquadro ângulos retos encosta-se às duas faces; a luz mostra o desvio
Escantilhão (gabarito) perfil, contorno ou raio compara-se a forma da peça com o modelo
Comparador desvios de dimensão, planeza, batimento mostra a diferença em relação a uma referência
Calibre passa/não-passa dimensão de furos e veios mede-se se a peça cabe no limite máximo e mínimo
Verificador de roscados passo e perfil de roscas lâminas com perfis de passos diferentes
Rugosímetro rugosidade da superfície palpador percorre a superfície e calcula Ra

Réguas, esquadros e escantilhões

A régua de verificação (de fio) tem uma aresta retificada de grande precisão. Pousa-se sobre a superfície e observa-se por transparência: se passa luz entre a régua e a peça, há desvio. O apalpa-folgas (lâminas de espessura conhecida) quantifica a folga: a lâmina mais fina que ainda entra indica o desvio.

O esquadro verifica ângulos de 90° (e de 45° em modelos de meia-esquadria). Existem esquadros de aço com talão, de base e de precisão.

O escantilhão é um gabarito com o perfil que a peça deve ter. Exemplos: lâminas de raios, escantilhões de perfil de rosca, gabaritos de curvatura de uma pá ou de um flange.

Exemplo resolvido · esquadria de uma caixa metálica. Encosta-se um esquadro à aresta de uma caixa de quadro elétrico. Há um vão de luz em cima. Introduz-se um apalpa-folgas: a lâmina de 0,10 mm entra, a de 0,15 mm não.

  1. A folga está entre 0,10 e 0,15 mm, num comprimento de contacto igual ao do esquadro.
  2. Se o limite for 0,1 mm por 100 mm, a folga está entre 0,10 e 0,15 mm: pode estar no limite ou acima dele, e sem medir melhor não se aceita a peça; regista-se "0,10 mm / entre 0,10 e 0,15".

Comparadores

O comparador (ou relógio comparador) é um instrumento de medida diferencial. Um apalpador desloca-se e faz girar um ponteiro num mostrador. A divisão habitual é de 0,01 mm, a gama de 10 mm (existem de 0,001 mm e de gama menor). Uma volta do ponteiro corresponde a 1 mm, com 100 divisões.

Usa-se montado num suporte (base magnética ou de mármore), sobre uma referência plana. O procedimento:

  1. Fixar o comparador no suporte, perpendicular à superfície de referência.
  2. Aproximar o apalpador até o ponteiro ter dado cerca de uma volta (pré-carga).
  3. Colocar o zero na referência (um bloco padrão, uma face de referência).
  4. Passar à peça: a leitura é o desvio relativo à referência.
  5. Registar o desvio com sinal.

Exemplo resolvido · cota por comparação. Acerta-se o zero do comparador numa pilha de blocos padrão de 20,000 mm. Ao passar à peça, o ponteiro marca +12 divisões (de 0,01 mm).

  1. Desvio = +12 × 0,01 = +0,12 mm.
  2. Cota da peça = 20,000 + 0,12 = 20,12 mm.

Exemplo resolvido · planeza de um flange. Roda-se o comparador por seis pontos da face de um flange e as leituras variam entre −0,03 mm e +0,05 mm.

  1. Variação total = 0,05 − (−0,03) = 0,08 mm.
  2. Se a tolerância de planeza for 0,10 mm, está conforme; se for 0,05 mm, não.

Calibres de limites (passa/não-passa)

Um calibre é um instrumento de dimensão fixa. O de tampão verifica furos, o de forquilha (ou de boca) verifica veios, e o de anel verifica roscas exteriores. Têm sempre dois lados: o lado passa (limite de material máximo) e o lado não-passa (limite de material mínimo). A peça é conforme se o lado "passa" entra e o "não-passa" não entra. Não dá o valor real, mas dá uma decisão rápida e exata.

Exemplo resolvido · calibre de tampão. Um furo de Ø 10 mm com a tolerância H7 (de 0 a +0,015 mm) tem como limites 10,000 e 10,015 mm.

  1. Lado "passa" do tampão: Ø 10,000 mm, deve entrar.
  2. Lado "não-passa": Ø 10,015 mm, não deve entrar.
  3. Se o lado "passa" não entra, o furo é demasiado apertado (pode ser alargado); se o "não-passa" entra, o furo é demasiado largo (peça rejeitada).

Verificadores de roscados

O verificador de roscados (ou medidor de passos) é um conjunto de lâminas com dentes de passos diferentes. Encosta-se a lâmina à rosca e vê-se qual encaixa sem folga. Para roscas métricas, o diâmetro nominal e o passo são, por exemplo:

Rosca Passo normal (grosso)
M6 1,0 mm
M8 1,25 mm
M10 1,5 mm
M12 1,75 mm
M16 2,0 mm

Exemplo resolvido · identificar uma rosca. Medem-se com o paquímetro o diâmetro exterior do parafuso (11,9 mm) e, com a lâmina de passos, o passo de 1,75 mm.

  1. O diâmetro exterior de cerca de 12 mm e o passo de 1,75 mm correspondem a M12 de passo normal.
  2. Confirma-se por contagem: 8 passos (9 cristas consecutivas) ocupam 8 × 1,75 = 14 mm.
  3. Para roscas finas, o passo seria menor (por exemplo 1,25 mm em M12), pelo que o passo tem de ser sempre verificado.

Os calibres de rosca (tampão e anel, passa/não-passa) verificam a rosca interior e exterior.

Rugosímetro

A rugosidade é o conjunto de pequenas irregularidades da superfície. O rugosímetro tem um palpador de diamante que percorre uma pequena extensão e calcula parâmetros. O mais comum é o Ra, a média aritmética dos desvios do perfil em relação à linha média, em micrómetros (µm). Valores muito baixos são superfícies polidas; valores altos, superfícies rugosas. Importa em acoplamentos, vedações, superfícies de rolamento e de pintura.

12. Áreas de aplicação do controlo metrológico

O controlo metrológico estende-se a todas as grandezas que se medem. Cada área tem os seus instrumentos, as suas unidades e os seus padrões. Reconhecer as áreas e as respetivas aplicações é uma aptidão do referencial.

Área Grandeza e unidade SI Instrumentos típicos Aplicações em eólica e fotovoltaica
Metrologia dimensional comprimento (m), ângulo (rad) régua, paquímetro, micrómetro, comparador, calibres estruturas, fixações, parafusos, pás, flanges
Metrologia da temperatura temperatura (K, °C) termómetros, termopares, sondas Pt100, câmaras térmicas temperatura de módulos, ventilação de inversores, rolamentos
Metrologia das massas massa (kg) balanças, pesos padrão massa de componentes, lastros, transporte
Metrologia elétrica tensão (V), corrente (A), resistência (Ω), potência (W) multímetros, pinças amperimétricas, testadores de isolamento strings, inversores, ligação à terra, contadores
Metrologia do tempo e frequência tempo (s), frequência (Hz) cronómetros, osciloscópios, frequencímetros rotação, sincronização à rede
Intensidade luminosa e radiometria candela (cd), lux (lx), irradiância (W/m²) luxímetros, piranómetros, células de referência irradiância no plano dos módulos
Metrologia das pressões pressão (Pa, bar) manómetros, barómetros, transdutores circuitos hidráulicos, travões, ensaios de estanquidade
Outras velocidade, caudal, força, binário, humidade anemómetros, caudalímetros, chaves dinamométricas, higrómetros vento, fluidos, aperto de parafusos

Observações por área

Exemplo resolvido · associar instrumento e grandeza

Para cada tarefa, indica a área e o instrumento.

  1. Verificar o aperto de um parafuso de uma pá: binário, chave dinamométrica (área: outras).
  2. Medir a irradiância no plano dos módulos: radiometria, piranómetro ou célula de referência.
  3. Ler a temperatura da caixa de um inversor: temperatura, sonda de contacto ou câmara térmica.
  4. Medir o diâmetro do fuste de um parafuso: dimensional, micrómetro ou paquímetro.
  5. Verificar a tensão de uma fileira: elétrica, multímetro de categoria adequada.

13. Procedimento completo de controlo dimensional

Juntando tudo, o técnico segue um fluxo repetível, do desenho ao registo.

Passo O que fazer Instrumento ou documento
1 Ler o desenho: cota nominal, tolerância, unidade desenho técnico, ficha
2 Calcular o intervalo de tolerância e o 1/10 calculadora
3 Escolher o instrumento adequado tabela de instrumentos
4 Verificar calibração em vigor e estado físico etiqueta, ficha do instrumento
5 Preparar instrumento e peça pano, aclimatação
6 Verificar o zero bicos fechados, padrão
7 Medir, em vários pontos e direções procedimento
8 Aplicar correções se houver erro de zero ou temperatura cálculo
9 Comparar com os limites limites de tolerância
10 Registar e decidir ficha de controlo

Conformidade

Uma peça é conforme se o valor medido, depois de corrigido, estiver entre os limites. Os limites calculam-se somando e subtraindo os afastamentos à medida nominal. A tolerância é a diferença entre limite máximo e mínimo.

Exemplo resolvido · limites e tolerância. Cota de 25 +0,1 / −0,2 mm.

  1. Limite máximo: 25 + 0,1 = 25,1 mm.
  2. Limite mínimo: 25 − 0,2 = 24,8 mm.
  3. Tolerância: 25,1 − 24,8 = 0,3 mm.

Exemplo resolvido · decidir a conformidade. Um perfil deve ter 2 400 ± 5 mm. Mede-se 2 404 mm com uma fita de aço graduada em milímetros, a 20 °C.

  1. Limites: 2 395 e 2 405 mm.
  2. 2 404 está dentro: conforme.
  3. Mas, se o erro máximo admissível da fita for ± 2 mm, o valor verdadeiro pode estar entre 2 402 e 2 406 mm. A hipótese de ultrapassar o limite superior (2 405 mm) existe: regista-se a decisão e a incerteza; em casos críticos, repete-se com instrumento melhor.
  4. Note-se que a resolução da fita (1 mm) cumpre a regra de 1 para 10, porque o IT é de 10 mm e 1/10 do IT é 1 mm: a dúvida vem do erro máximo admissível, não da resolução.

Exemplo resolvido · peça com o limite ultrapassado. Um veio de Ø 16 ± 0,1 mm mede 15,86 mm no micrómetro, depois de corrigido o zero.

  1. Limites: 15,9 e 16,1 mm.
  2. 15,86 < 15,9: não conforme (0,04 mm abaixo do limite mínimo).
  3. Ação: separar a peça, identificar como não conforme e informar o responsável; verificar o desgaste do processo que a fez.

Incerteza, de forma simples

A incerteza de medição exprime a dúvida do resultado: uma estimativa do intervalo dentro do qual o valor verdadeiro provavelmente se encontra. Uma abordagem simples soma as contribuições principais: resolução, erro máximo do instrumento, repetibilidade, temperatura. O GUM descreve métodos completos, que combinam as contribuições de forma estatística. Para decisões de aceitação, uma boa regra prática é não aceitar nem rejeitar quando o valor estiver tão perto do limite que a incerteza o ultrapasse: nesses casos, repete-se com instrumento melhor.

Registo da medição

Um bom registo inclui: identificação da peça e do lote, cota e tolerância, valores medidos (todos, e não só a média), unidade, instrumento (número), data, operador, condições relevantes (temperatura) e decisão. O registo é prova do trabalho e permite repetir, auditar e aprender.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A metrologia dá confiança às medições que sustentam a qualidade, a segurança e o desempenho de sistemas eólicos e fotovoltaicos. Em Portugal, o Sistema Português da Qualidade reúne os subsistemas da normalização, da qualificação e da metrologia: o IPQ coordena, normaliza e mantém a metrologia nacional; o IPAC acredita laboratórios e outras entidades. A gestão dos instrumentos exige critérios de aquisição, identificação, calibração periódica e registos, e a rastreabilidade liga cada instrumento aos padrões nacionais por uma cadeia ininterrupta. O Sistema Internacional tem sete unidades de base, derivadas com e sem nome, prefixos decimais, unidades aceites para uso (hora, grau, litro, tonelada) e convive com sistemas como o imperial, com conversões feitas por fatores exatos. As qualidades do instrumento (resolução, sensibilidade, fidelidade, justeza, exatidão) e a classe de precisão orientam a escolha, apoiada na regra de 1 para 10. Os erros vêm do meio, do instrumento, do operador, da escolha do instrumento e da forma da peça, e previnem-se com procedimento: zero, limpeza, aclimatação, força constante, alinhamento, repetição e registo. O nónio lê frações da divisão, a resolução é a diferença entre uma divisão da principal e uma do nónio, e aplica-se ao paquímetro, ao goniómetro e, por analogia, ao micrómetro. As réguas, paquímetros e micrómetros medem diretamente, os compassos e a suta transportam medidas, e as réguas, os esquadros, os escantilhões, os comparadores, os calibres, os verificadores de roscados e o rugosímetro verificam. O controlo metrológico abrange as áreas dimensional, da temperatura, das massas, elétrica, do tempo, da intensidade luminosa, das pressões e outras.

Exercícios resolvidos

1. Qual é a diferença entre o papel do IPQ e o do IPAC?

Resolução: o IPQ coordena o Sistema Português da Qualidade e é o organismo nacional de normalização e a instituição nacional de metrologia; o IPAC é o organismo nacional de acreditação, que avalia a competência de laboratórios, entidades certificadoras e de inspeção.

2. Converte 3/8" e 5/16" para milímetros.

Resolução: 3/8 = 0,375 in; 0,375 × 25,4 = 9,525 mm. 5/16 = 0,3125 in; 0,3125 × 25,4 = 7,9375 mm, cerca de 7,94 mm.

3. Um voltímetro de classe 2 com escala de 0 a 100 V indica 40 V. Qual é o erro máximo absoluto e o erro relativo máximo?

Resolução: erro máximo = 2 % × 100 = 2 V; erro relativo = 2 ÷ 40 = 5 %.

4. Calcula a resolução de um nónio em que 25 divisões ocupam 24 mm, com escala principal em milímetros.

Resolução: cada divisão do nónio vale 24 ÷ 25 = 0,96 mm; resolução = 1 − 0,96 = 0,04 mm (igual a 1 ÷ 25).

5. Paquímetro de 1/20: escala principal 31 mm, coincide o 7.º traço. Leitura?

Resolução: 7 × 0,05 = 0,35 mm; leitura = 31 + 0,35 = 31,35 mm.

6. Micrómetro: bainha com 4 mm e o traço de meio milímetro visível; tambor na divisão 18. Leitura?

Resolução: 4 + 0,5 + 18 × 0,01 = 4,5 + 0,18 = 4,68 mm.

7. Um paquímetro fechado lê +0,05 mm. A peça é lida em 12,40 mm. Qual é a medida corrigida?

Resolução: 12,40 − 0,05 = 12,35 mm.

8. Uma barra de aço de 2 000 mm sofre uma subida de 15 K em relação a 20 °C. Quanto dilata? (α = 12 × 10⁻⁶ K⁻¹)

Resolução: ΔL = 2 000 × 12 × 10⁻⁶ × 15 = 2 000 × 0,000 012 × 15 = 0,024 × 15 = 0,36 mm.

9. A tolerância de uma cota é de 0,06 mm. Que resolução máxima exige a regra de 1 para 10?

Resolução: 0,06 ÷ 10 = 0,006 mm. Nenhum paquímetro serve; é preciso um micrómetro de 0,001 mm ou um comparador de alta sensibilidade.

10. Uma peça de 40 ± 0,2 mm foi medida em 40,25 mm. Está conforme?

Resolução: limites 39,8 e 40,2 mm; 40,25 > 40,2: não conforme.

11. Converte 54 km/h em m/s e 2,5 MW em W.

Resolução: 54 ÷ 3,6 = 15 m/s; 2,5 MW = 2,5 × 1 000 000 = 2 500 000 W.

12. Um calibre passa/não-passa para um furo de 10 mm H7 (0 a +0,015 mm): o lado "passa" entra e o "não-passa" também entra. Decisão?

Resolução: o furo excede o limite máximo de 10,015 mm: não conforme, demasiado largo.