Prestar informação ao cliente para uma utilização eficiente de sistemas eólicos e fotovoltaicos (UC03075)
- Introdução
- 1. O técnico que informa: o que é prestar informação ao cliente
- 2. Energia: calor, trabalho e transformações energéticas
- 3. Eficiência energética, gestão e racionalização da energia
- 4. Fontes de energia renováveis: tipos e características
- 5. Heliotecnia I: radiação solar, espectro e conversão
- 6. Heliotecnia II: movimento Terra-Sol, orientação, inclinação e sombras
- 7. Sistemas solares fotovoltaicos: tipos, características e funcionamento
- 8. Componentes, equipamentos e manuais técnicos
- 9. Potencial de aplicação dos sistemas solares
- 10. Ciclo de vida dos sistemas solares: retorno energético, benefício e impacto ambiental
- 11. Sistemas solares térmicos e análise de custo-benefício de sistemas térmicos
- 12. Sistemas mistos de energia solar e outros tipos de energia
- 13. Aerotecnia: a atmosfera, o vento e as forças aerodinâmicas
- Propriedades da atmosfera
- Equações e regimes de escoamento
- Forças aerodinâmicas
- Análise do comportamento e medição do vento
- Otimização do aproveitamento e fatores de conversão
- Exemplo resolvido · potência no vento e potência extraída
- Exemplo resolvido · efeito da altura
- Exemplo resolvido · razão de velocidades na ponta
- 14. Sistemas eólicos: características, funcionamento e classificação
- 15. Potencial de aplicação e ciclo de vida dos sistemas eólicos
- 16. Impacto ambiental dos sistemas de produção de energia
- 17. Incentivos e políticas de apoio à eficiência energética
- 18. Legislação e normas sobre eficiência energética e certificação de edifícios
- 19. Analisar informação técnica
- 20. Técnicas de comunicação verbal e não verbal assertiva, oral e escrita
- 21. Informar, esclarecer e alertar o cliente: o que condiciona o funcionamento global
- 22. Relatório de estudo de soluções sustentáveis
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.
Introdução
Quem instala um sistema fotovoltaico ou eólico raramente é só quem o instala. Para o cliente, o técnico é também a pessoa que explica o que o sistema faz, o que não faz, quanto produz, quanto poupa, de que depende e o que tem de ser feito para que continue a funcionar bem durante vinte ou trinta anos. Esta sebenta ensina a prestar informação ao cliente para uma utilização eficiente de sistemas eólicos e fotovoltaicos: primeiro a perceber a técnica com rigor, depois a transformá-la em informação que um cliente, que não é técnico, consiga usar para decidir e para utilizar bem o que comprou.
O percurso segue a lógica de uma visita a um cliente. Começamos pelo papel do técnico e pela energia (calor, trabalho, transformações e perdas), passamos à eficiência energética e às fontes renováveis, e estudamos a heliotecnia (a radiação solar e a geometria Terra-Sol) e a aerotecnia (a atmosfera, o vento e as forças aerodinâmicas). Seguem-se os sistemas fotovoltaicos e os sistemas eólicos, o respetivo potencial de aplicação, o ciclo de vida e o impacto ambiental, os sistemas mistos e a análise de custo-benefício de sistemas térmicos. Depois vêm os incentivos e as políticas de apoio, a legislação sobre eficiência energética e certificação de edifícios, a leitura de informação técnica (fichas, catálogos e manuais) e, por fim, as técnicas de comunicação verbal e não verbal assertiva, a interação oral e escrita e o relatório de estudo de soluções sustentáveis.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar informação técnica relativa a sistemas eólicos e fotovoltaicos; informar e esclarecer o cliente sobre sistemas eólicos e fotovoltaicos e soluções técnicas mais sustentáveis; alertar o cliente para aspetos dos sistemas eólicos e fotovoltaicos que condicionam o funcionamento global. Em todas as situações, o desempenho é avaliado pela forma como se adequa a comunicação ao tipo e à solicitação do interlocutor, como se consideram as capacidades, os impactos ambientais e o rendimento de cada sistema, como se adequam medidas ativas e passivas que melhoram a eficiência do todo e como se consideram as normas e os requisitos legais.
Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem explicação, tabelas de consulta e, quando há contas, pelo menos um exemplo resolvido passo a passo. Refaz sempre as contas com a calculadora antes de ler a solução. Os valores de preços, produções e tarifas usados nos exemplos são valores didáticos, escolhidos para que as contas sejam claras; numa situação real usam-se sempre os dados do cliente, do local e dos documentos em vigor. O preço da energia vem sempre dado no enunciado e nunca de memória: salvo indicação em contrário, usam-se 0,20 €/kWh para a eletricidade comprada e 0,05 €/kWh para o excedente injetado na rede.
1. O técnico que informa: o que é prestar informação ao cliente
Prestar informação não é despejar dados técnicos sobre o cliente. É dar-lhe a informação certa, na linguagem certa, no momento certo, para que ele decida bem antes de comprar e use bem depois de instalar. Um sistema fotovoltaico perfeito, instalado numa casa onde ninguém sabe que a máquina de lavar deve trabalhar de dia, rende menos do que podia. Uma turbina eólica excelente, instalada num sítio sem vento útil, produz pouco por muito bem que seja montada. Em ambos os casos, o problema não é de equipamento: é de informação.
O referencial desta UC define três realizações que correspondem a três momentos do trabalho:
| Realização | O que o técnico faz | Resultado para o cliente |
|---|---|---|
| Analisar informação técnica | lê fichas técnicas, catálogos, manuais, mapas de recurso, faturas e legislação | o técnico percebe o que o sistema pode e não pode fazer |
| Informar e esclarecer sobre sistemas e soluções mais sustentáveis | explica tipos de sistema, potencial, custos, benefícios, incentivos, impacto ambiental | o cliente compara alternativas com dados e não com promessas |
| Alertar para o que condiciona o funcionamento global | avisa de sombras, orientação, consumo, manutenção, limites legais, vida útil dos componentes | o cliente tem expectativas realistas e usa o sistema com eficiência |
Quem é o interlocutor
O cliente pode ser uma família que quer baixar a fatura, um pequeno comerciante, um agricultor com uma bomba de rega, um administrador de condomínio ou um técnico de outra área. A primeira regra da comunicação é adequar a linguagem ao interlocutor e à sua solicitação: o mesmo conteúdo (por exemplo, a diferença entre potência e energia) explica-se de uma forma a uma família e de outra a um engenheiro de uma empresa. Pergunta antes de explicar: o que quer saber? O que já sabe? Qual é a decisão que tem de tomar?
Os limites do técnico
O técnico informa, aconselha e alerta, mas não promete o que não pode garantir. Não garante poupanças exatas, porque dependem do consumo futuro, do preço da energia e do tempo meteorológico. Não garante incentivos, porque dependem de avisos, prazos e condições que mudam. Não substitui o projetista nem o perito qualificado do Sistema de Certificação Energética quando a lei exige uma assinatura técnica. Sabe dizer: «isso depende de estas condições» e «isso tenho de confirmar no documento em vigor».
Exemplo resolvido · a mesma pergunta, dois interlocutores
O cliente pergunta: «Quanto vai produzir o meu sistema?». Duas respostas possíveis para o mesmo sistema de 3,6 kWp.
- A uma família sem formação técnica: «O sistema vai produzir, em média, o suficiente para cobrir mais ou menos metade da eletricidade que gastam por ano, desde que consumam a maior parte durante o dia. Em dias de verão produz muito mais do que no inverno».
- A um administrador de empresa com formação técnica: «Estimamos cerca de 5 400 kWh por ano, com 1 500 kWh/kWp, perdas já incluídas. Cerca de 40 % será autoconsumido e o resto injetado na rede».
- Em ambos os casos, a informação é a mesma; muda a linguagem, o nível de detalhe e os exemplos. E ambos recebem a ressalva de que se trata de uma estimativa.
2. Energia: calor, trabalho e transformações energéticas
Energia é a capacidade de realizar trabalho ou de fornecer calor. Mede-se em joule (J) no Sistema Internacional. Na fatura de eletricidade aparece o quilowatt-hora (kWh), que é a energia consumida por um aparelho de 1 kW durante 1 hora: 1 kWh = 3 600 000 J = 3,6 MJ.
Potência e energia não são a mesma coisa
A potência (watt, W; quilowatt, kW) mede o ritmo a que a energia é transformada. A energia (kWh) é a potência multiplicada pelo tempo: E = P × t. Uma analogia útil para o cliente: a potência é a velocidade do carro (km/h) e a energia é a distância percorrida (km). Um painel de 450 Wp tem potência de pico de 450 W em condições de referência; ao longo de um dia de sol produz energia, por exemplo 2,2 kWh.
| Conceito | Unidade | Pergunta a que responde | Exemplo |
|---|---|---|---|
| Potência | W, kW | Com que intensidade? | forno de 2 kW; sistema de 3,6 kWp |
| Energia | J, kWh | Quanto, ao fim de um período? | 2 kW durante 3 h = 6 kWh |
| Potência contratada | kVA | Quanto pode ser pedido ao mesmo tempo à rede? | 6,9 kVA |
Calor e trabalho
Trabalho é energia transferida por uma força que desloca um corpo (mecânica, elétrica). Calor é energia transferida entre corpos a temperaturas diferentes, do mais quente para o mais frio. Em ambos os casos a unidade é o joule. O calor necessário para aquecer uma massa de água é
Q = m × c × ΔT
com m a massa (kg), c o calor específico (para a água, cerca de 4,18 kJ/(kg·°C)) e ΔT a variação de temperatura (°C). Um litro de água tem, aproximadamente, a massa de 1 kg.
Transformações energéticas e perdas
A energia não se cria nem se destrói: transforma-se. Esta é a primeira lei da termodinâmica, e é a base de qualquer conversa sobre produção renovável. Mas em cada transformação parte da energia sai em forma que não interessa (normalmente calor dissipado). A segunda lei diz que nenhuma transformação tem rendimento de 100 %.
| Sistema | Cadeia de transformações | Onde estão as perdas |
|---|---|---|
| Fotovoltaico | energia radiante (luz) → elétrica (corrente contínua) → elétrica (corrente alternada) | reflexão e calor no módulo, cabos, inversor |
| Eólico | cinética do vento → mecânica de rotação → elétrica | rotor (limite de Betz), multiplicadora, gerador, conversor |
| Solar térmico | radiante → calor na água | reflexão no vidro, perdas térmicas do coletor e do depósito |
| Lâmpada incandescente | elétrica → luz (cerca de 5 %) + calor (cerca de 95 %) | quase toda a energia vira calor |
Rendimento (ou eficiência) é a razão entre a energia útil e a energia fornecida: η = E_útil ÷ E_fornecida. Pode escrever-se em percentagem. Num sistema com várias etapas, os rendimentos multiplicam-se.
Exemplo resolvido · aquecer a água de um depósito
Uma família quer saber quanta energia é precisa para aquecer 200 litros de água de 15 °C para 55 °C.
- m = 200 kg; ΔT = 55 - 15 = 40 °C; c = 4,18 kJ/(kg·°C).
- Q = 200 × 4,18 × 40 = 33 440 kJ.
- Para kWh: 33 440 ÷ 3 600 = 9,29 kWh.
- Se o aquecimento for feito por uma resistência elétrica com rendimento de 95 %, a eletricidade consumida é 9,29 ÷ 0,95 = 9,78 kWh, cerca de 1,96 € a 0,20 €/kWh.
Exemplo resolvido · rendimento de uma cadeia
Um sistema fotovoltaico tem módulos que convertem 21 % da luz em eletricidade, cabos e proteções com rendimento de 98 % e um inversor com rendimento de 97 %. Qual é o rendimento global da luz até à eletricidade alternada?
- η = 0,21 × 0,98 × 0,97.
- 0,21 × 0,98 = 0,2058; 0,2058 × 0,97 = 0,1996.
- Rendimento global ≈ 20,0 %. De cada 100 unidades de energia solar que chegam ao módulo, cerca de 20 chegam à casa como corrente alternada.
3. Eficiência energética, gestão e racionalização da energia
Eficiência energética é fazer o mesmo (ou mais) com menos energia: manter a casa confortável, a água quente, a iluminação e os equipamentos a funcionar gastando menos kWh. Racionalização é evitar o desperdício, mudando hábitos e organizando o uso. Gestão da energia é medir, acompanhar e decidir com dados.
A ordem certa: reduzir, otimizar, produzir
A regra de ouro que o técnico deve transmitir é a hierarquia da energia:
- Reduzir as necessidades (isolamento, sombreamento, hábitos).
- Usar eficientemente o que é necessário (equipamentos eficientes, controlo).
- Produzir localmente de forma renovável o que ainda falta.
Instalar painéis numa casa com perdas enormes é comprar energia cara para a deitar fora. O referencial pede que se adequem medidas ativas e passivas que melhoram a eficiência do todo, e é exatamente isto.
| Tipo de medida | O que é | Exemplos | Custo típico |
|---|---|---|---|
| Passiva | atua sobre o edifício, sem consumir energia | isolamento térmico, janelas eficientes, orientação e sombreamento, ventilação natural, cores claras na cobertura | investimento inicial, sem consumo |
| Ativa | equipamentos que consomem energia mas são eficientes, ou que produzem | bomba de calor, iluminação LED, eletrodomésticos de classe energética elevada, domótica, painéis solares | investimento e consumo (ou produção) |
| Comportamental | hábitos de uso | desligar o que não se usa, temperatura de conforto moderada, lavar à hora de maior produção | sem custo |
A etiqueta energética
Os eletrodomésticos e outros equipamentos têm etiqueta energética (enquadrada no Regulamento (UE) 2017/1369), com classes numa escala de A (mais eficiente) a G (menos eficiente) nas etiquetas reescaladas. A classe permite comparar equipamentos do mesmo tipo e estimar o consumo anual. O técnico deve ensinar o cliente a olhar para o consumo anual em kWh e não só para a classe.
Medir para gerir
Sem medir não se gere. Ferramentas ao alcance do cliente: a fatura (consumo mensal em kWh), a caderneta ou aplicação do operador (dados de consumo por intervalos, quando disponíveis), tomadas com medidor de consumo, e o sistema de monitorização do próprio inversor. O perfil de consumo (quando se consome) é tão importante como o total, porque determina quanto da produção solar é aproveitado diretamente.
Exemplo resolvido · lâmpadas, o ganho mais barato
Uma casa tem 10 lâmpadas incandescentes de 60 W acesas, em média, 4 horas por dia. Qual a poupança anual ao trocar por LED de 8 W (mesma luz)?
- Consumo atual: 10 × 60 W × 4 h × 365 = 876 000 Wh = 876 kWh/ano.
- Consumo com LED: 10 × 8 W × 4 h × 365 = 116 800 Wh = 116,8 kWh/ano.
- Poupança: 876 - 116,8 = 759,2 kWh/ano.
- A 0,20 €/kWh: 759,2 × 0,20 = 151,84 € por ano.
- Se as 10 lâmpadas LED custarem 30 €, o retorno faz-se em cerca de 2,4 meses. E, para a casa produzir os mesmos 759 kWh com painéis, seriam precisos mais de 0,5 kWp instalados.
A conclusão para o cliente é prática: antes de comprar painéis, resolve-se o que é barato e rápido.
4. Fontes de energia renováveis: tipos e características
Fontes renováveis são as que se regeneram a um ritmo igual ou superior ao do consumo, ou são praticamente inesgotáveis à escala humana. A produção, o armazenamento e o uso têm impactos, mas a fonte primária não se esgota.
| Fonte | De onde vem a energia | Como se aproveita | Características principais | Em Portugal |
|---|---|---|---|---|
| Solar | radiação do Sol | módulos fotovoltaicos (eletricidade); coletores (calor) | variável ao longo do dia e do ano; previsível; modular | elevado recurso, sobretudo no sul |
| Eólica | vento (energia solar convertida em movimento do ar) | aerogeradores | variável; depende do local e da altura; vento mais frequente no inverno | parques no litoral e nas serras; eólico offshore flutuante |
| Hídrica | água em queda ou em fluxo | centrais com barragem, fio de água, mini-hídricas, bombagem | controlável (albufeiras); depende da precipitação | rios do Norte e Centro; Douro, Tejo, Cávado |
| Biomassa | matéria orgânica (lenha, resíduos florestais, agrícolas, pellets) | combustão, gaseificação, biogás | armazenável e controlável; emite CO2 que a planta absorveu; exige logística | resíduos florestais; centrais e caldeiras |
| Geotérmica | calor do interior da Terra | centrais (alta entalpia) ou bombas de calor geotérmicas (baixa entalpia) | contínua, quase independente do tempo | eletricidade nos Açores; calor de baixa temperatura no continente |
| Maremotriz e das ondas | marés e ondulação | turbinas de maré, conversores de ondas | previsível (maré) mas tecnologia pouco madura e cara | recurso forte no Atlântico; projetos-piloto |
| Hidrogénio verde | eletricidade renovável usada para separar a água por eletrólise | produz hidrogénio, que armazena energia e alimenta indústria e transporte | permite armazenar e transportar; perde energia nas conversões | projetos em desenvolvimento |
Duas notas importantes para o cliente
Primeira: renovável não quer dizer sem impacto. Cada tecnologia usa materiais, ocupa espaço e tem fim de vida. Segunda: o hidrogénio verde não é fonte, é vetor. É uma forma de guardar eletricidade renovável. Quando o cliente ouve falar de hidrogénio verde, convém explicar que, no uso residencial, ainda não é uma solução corrente.
Fontes e escala
Para um cliente doméstico ou de pequeno comércio, as fontes realisticamente acessíveis são a solar (fotovoltaica e térmica), a biomassa (recuperador, caldeira de pellets) e a geotérmica de baixa temperatura (bombas de calor). A eólica é viável em locais específicos (rurais, expostos) e raramente em ambiente urbano. As restantes são de escala industrial, mas o cliente beneficia delas através da rede.
Exemplo resolvido · que fonte sugerir
Um agricultor com terreno aberto no interior alentejano quer reduzir o custo de uma bomba de rega elétrica de 5,5 kW que trabalha mais no verão. Que fonte faz sentido?
- O consumo é sazonal e diurno: é no verão e de dia que se rega.
- O recurso solar é máximo no verão e durante o dia: há coincidência entre produção e consumo.
- O vento do interior alentejano é geralmente fraco a moderado a baixa altura; sem medição de um ano não se justifica uma turbina.
- Conclusão: sistema fotovoltaico dimensionado para a bomba. A eólica só se admitiria com medição de vento que o justifique.
5. Heliotecnia I: radiação solar, espectro e conversão
A heliotecnia estuda o aproveitamento da energia do Sol. Para informar bem um cliente, o técnico precisa de saber quanta radiação chega ao local, de que tipo ela é e como se transforma em eletricidade ou calor.
O Sol e a constante solar
À entrada da atmosfera, numa superfície perpendicular aos raios, chega uma irradiância de cerca de 1 361 W/m² (a chamada constante solar). Ao atravessar a atmosfera, parte é refletida, absorvida e dispersada, e ao nível do solo, com o Sol alto e céu limpo, a irradiância máxima ronda os 1 000 W/m². Este valor, 1 000 W/m², é o valor de referência dos ensaios de módulos fotovoltaicos.
Convém distinguir duas grandezas: a irradiância (W/m²) é a potência por unidade de área, num instante; a irradiação (kWh/m²) é a energia recebida por unidade de área durante um período (hora, dia, ano).
Tipos de radiação solar
| Tipo | O que é | Quando domina |
|---|---|---|
| Direta | chega diretamente do disco solar, sem ser dispersada | céu limpo |
| Difusa | dispersada pela atmosfera e pelas nuvens, chega de todo o céu | céu nublado |
| Refletida (albedo) | refletida pelo solo e pelo que rodeia o módulo | zonas com superfícies claras, neve |
| Global | soma da direta, da difusa e da refletida que incide num plano | valor usado para dimensionar |
Num dia nublado, a radiação direta é quase nula, mas o módulo continua a produzir com a difusa, embora com menor potência (por exemplo, 10 a 30 % da potência de um dia limpo). O albedo é a fração da radiação refletida por uma superfície: relva ≈ 0,2; betão claro ≈ 0,3; asfalto ≈ 0,1; neve fresca ≈ 0,8.
Componentes do espectro solar
A radiação solar é um conjunto de ondas eletromagnéticas de vários comprimentos de onda. Ao nível do solo distribuem-se, aproximadamente, assim:
| Região | Comprimento de onda | Fração da energia (ordem de grandeza) | Interesse |
|---|---|---|---|
| Ultravioleta | menos de 400 nm | 3 a 5 % | degrada plásticos e vedantes; escurece pele |
| Visível | 400 a 700 nm | cerca de 43 % | o silício converte bem esta zona |
| Infravermelho | mais de 700 nm | cerca de 52 % | calor; parte útil para coletores térmicos |
O silício cristalino converte radiação até cerca de 1 100 nm. A massa de ar (AM) mede o caminho óptico que a luz percorre na atmosfera: AM 0 é fora da atmosfera, AM 1 é com o Sol no zénite e AM 1,5 (Sol a cerca de 42° de altura) é a referência dos ensaios.
Conversão da energia solar
Há três grandes vias de aproveitamento:
- Fotovoltaica: a radiação incide nas células de silício e liberta cargas elétricas (efeito fotovoltaico), produzindo corrente contínua.
- Térmica: a radiação aquece um fluido num coletor (água quente sanitária, aquecimento de piscina, apoio ao aquecimento ambiente).
- Termodinâmica de concentração: espelhos concentram a radiação direta para gerar vapor e eletricidade (escala industrial).
Aparelhos de medição da radiação
| Aparelho | O que mede | Nota |
|---|---|---|
| Piranómetro | radiação global (e, com sombreador, a difusa) | o mais usado em estações; medição num plano |
| Pireliómetro | radiação direta normal | montado num seguidor solar |
| Albedómetro | radiação refletida pelo solo (dois piranómetros, um virado para baixo) | determina o albedo |
| Heliógrafo | horas de sol (insolação) | método antigo, ainda usado em estações meteorológicas |
| Célula de referência | irradiância incidente, por uma célula calibrada | muito usada em centrais fotovoltaicas |
| Medidor de radiação portátil | irradiância instantânea | útil para verificação em campo |
Para um cliente, raramente se mede: usam-se bases de dados (por exemplo, o PVGIS, serviço da Comissão Europeia, e os dados do IPMA), que dão a irradiação média esperada por local, orientação e inclinação.
Exemplo resolvido · da irradiação à produção
Um local recebe, em média, 1 700 kWh/m² de irradiação global anual num plano com a inclinação ótima. Quanta energia produz um módulo de 450 Wp?
- A irradiação de referência dos ensaios é 1 kW/m². Logo, 1 700 kWh/m² equivalem a 1 700 horas de sol pico (HSP) por ano, ou 4,66 HSP por dia.
- Energia teórica = 0,450 kW × 1 700 h = 765 kWh/ano.
- O rendimento real do sistema (relação de desempenho) ronda 80 %: 765 × 0,80 = 612 kWh/ano.
- Produtividade específica: 612 ÷ 0,450 = 1 360 kWh/kWp.
Este raciocínio permite ao técnico explicar ao cliente de onde vêm os números das estimativas.
6. Heliotecnia II: movimento Terra-Sol, orientação, inclinação e sombras
O movimento aparente do Sol
A Terra gira sobre si mesma (dia) e em torno do Sol (ano) com o eixo inclinado cerca de 23,45° em relação ao plano da órbita. É esta inclinação que causa as estações do ano. Visto do solo, o Sol descreve um arco no céu cuja altura muda de dia para dia.
| Grandeza | Símbolo | Definição |
|---|---|---|
| Latitude | φ | ângulo do local em relação ao equador (Lisboa ≈ 38,7° N) |
| Declinação solar | δ | ângulo do Sol em relação ao equador celeste; varia entre +23,45° (21 junho) e -23,45° (21 dezembro) |
| Ângulo horário | h | 15° por hora, a partir do meio-dia solar (h = 0 ao meio-dia) |
| Altura (ou elevação) solar | α | ângulo do Sol acima do horizonte |
| Azimute solar | γ | ângulo do Sol em relação ao sul, medido no horizonte |
A altura do Sol ao meio-dia solar é α = 90° - φ + δ. Em Lisboa (φ = 38,7°):
| Data | δ | Altura ao meio-dia solar |
|---|---|---|
| 21 de junho (solstício de verão) | +23,45° | 90 - 38,7 + 23,45 = 74,75° |
| 21 de março e 23 de setembro (equinócios) | 0° | 90 - 38,7 = 51,3° |
| 21 de dezembro (solstício de inverno) | -23,45° | 90 - 38,7 - 23,45 = 27,85° |
Para qualquer hora, a altura do Sol obtém-se de sen α = sen φ × sen δ + cos φ × cos δ × cos h.
Orientação e inclinação
A orientação (azimute do módulo) é a direção para onde a face do módulo está virada: no hemisfério norte, o sul é o ideal para maximizar a produção anual. A inclinação (β) é o ângulo do módulo com a horizontal. Em Portugal continental, a inclinação ótima anual está tipicamente entre 30° e 35°, ligeiramente abaixo da latitude. Inclinações mais baixas favorecem o verão; mais altas, o inverno.
Curvas de penalização
A curva de penalização mostra a percentagem da produção máxima que se obtém para cada combinação de orientação e inclinação. A tabela é indicativa para o território continental (para um caso real consultar o PVGIS):
| Inclinação | Sul | Sudeste ou Sudoeste | Este ou Oeste |
|---|---|---|---|
| 0° (horizontal) | 87 % | 87 % | 87 % |
| 15° | 96 % | 93 % | 85 % |
| 30° | 100 % | 96 % | 81 % |
| 60° | 92 % | 85 % | 68 % |
| 90° (vertical) | 63 % | 61 % | 47 % |
Conclusões práticas: um telhado a sudoeste ou sudeste perde apenas 4 a 5 % face ao sul ideal; um telhado a este-oeste perde cerca de 20 %, mas distribui a produção por mais horas do dia, o que pode servir bem um consumo de manhã e ao fim da tarde; um telhado a norte é desaconselhado. Uma fachada vertical a sul perde mais de um terço. Para orientações que a tabela não inclui (norte, nordeste, noroeste), a perda é significativa e o valor obtém-se numa ferramenta de cálculo de irradiação, como o PVGIS.
Sombras
As sombras são a principal causa de perdas evitáveis. Uma sombra parcial num módulo pode reduzir a produção de toda uma fileira de módulos ligados em série, muito mais do que a área sombreada faria supor. Fontes frequentes: chaminés, antenas, árvores, edifícios vizinhos, platibandas, outros módulos.
Determina-se a sombra com a altura do Sol no pior momento do ano (solstício de inverno): o comprimento da sombra de um obstáculo de altura h é L = h ÷ tan α. A visualização faz-se com um diagrama solar (carta solar) sobreposto ao perfil de obstáculos do horizonte, com aplicações móveis, ou com o perfil de horizonte do PVGIS.
Exemplo resolvido · altura do Sol numa tarde de inverno
Em Lisboa, a 21 de dezembro, qual a altura do Sol às 14 h solares (h = 30°)?
- φ = 38,7°; δ = -23,45°; cos h = cos 30° = 0,866.
- sen α = sen 38,7° × sen(-23,45°) + cos 38,7° × cos 23,45° × 0,866.
- sen α = 0,6252 × (-0,3979) + 0,7804 × 0,9174 × 0,866 = -0,2488 + 0,6200 = 0,3712.
- α = arcsen 0,3712 ≈ 21,8°.
O Sol está bem baixo e as sombras longas: é neste regime que se verifica se o horizonte da casa vizinha afeta o telhado.
Exemplo resolvido · sombra de uma chaminé e distância entre fileiras
Numa cobertura plana em Lisboa há uma chaminé de 1,5 m e vão instalar-se módulos com 1,76 m de comprimento inclinados 30°.
- Sombra da chaminé ao meio-dia do solstício de inverno (α = 27,85°; tan α ≈ 0,53): L = 1,5 ÷ 0,53 ≈ 2,8 m. Os módulos não devem ficar na faixa de 2,8 m a norte da chaminé (a sombra cai para norte ao meio-dia).
- Altura da fileira: h = 1,76 × sen 30° = 0,88 m. Sombra da fileira: 0,88 ÷ 0,53 ≈ 1,66 m.
- Projeção horizontal do módulo: 1,76 × cos 30° = 1,52 m.
- Distância entre o início de uma fileira e o da seguinte: 1,52 + 1,66 = 3,18 m para não haver sombra ao meio-dia do pior dia do ano. Na prática, o projetista verifica um intervalo horário mais alargado.
7. Sistemas solares fotovoltaicos: tipos, características e funcionamento
Um sistema solar fotovoltaico converte diretamente a luz em eletricidade. A unidade básica é a célula (silício, cerca de 0,6 V por célula); cerca de 60 a 144 células formam um módulo (ou painel); vários módulos ligados formam uma fileira (string), e várias fileiras formam o gerador fotovoltaico.
Tecnologias de células e módulos
| Tecnologia | Eficiência típica do módulo | Características |
|---|---|---|
| Silício monocristalino | 20 a 23 % | a mais comum no mercado atual; bom desempenho em pouca luz; preço mais alto |
| Silício policristalino | 16 a 19 % | em declínio; ligeiramente mais barato e menos eficiente |
| Película fina (CdTe, CIGS) | 14 a 19 % | menor sensibilidade ao calor; usada em grandes centrais e em integração |
Tipos de sistema
| Tipo | Ligação à rede | Armazenamento | Para quem | Nota |
|---|---|---|---|---|
| Ligado à rede (grid-tied), com autoconsumo | sim | habitualmente não | habitações, comércio, indústria | consome a produção, o resto vai para a rede; desliga em caso de falha da rede |
| Isolado (off-grid) | não | sim, com baterias | habitações remotas, bombagem, abrigos | tem de ser dimensionado para os dias sem sol |
| Híbrido | sim | sim, com baterias | quem quer autoconsumo reforçado e/ou reserva | inversor híbrido; custo maior |
| Bombagem fotovoltaica direta | não | normalmente armazena-se água | rega, abeberamento | sem bateria, a água é a reserva |
Um ponto que os clientes costumam ignorar: um sistema ligado à rede sem bateria e sem função de socorro dedicada deixa de produzir quando falha a rede, por segurança dos operadores que trabalham na linha (função anti-ilhamento). Sol não é igual a eletricidade em caso de apagão.
Funcionamento básico
- A luz incide nas células e cria corrente contínua (CC).
- Os módulos ligam-se em série (as tensões somam-se) e em paralelo (as correntes somam-se) para chegar à tensão e corrente da entrada do inversor.
- O inversor converte CC em corrente alternada (CA), à frequência e tensão da rede, e procura em permanência o ponto de máxima potência (MPPT).
- A energia vai primeiro para os consumos da casa; o excedente segue para a rede (ou para as baterias, se existirem).
Tipos de configuração
| Configuração | Como é | Vantagens | Limitações |
|---|---|---|---|
| Inversor de fileiras (string) | uma ou mais fileiras ligadas a um inversor | simples, económico, eficiente | sombra num módulo afeta a fileira |
| Microinversores | um inversor por módulo (ou dois) | cada módulo trabalha de forma independente; ideal com sombras e vários telhados | mais pontos a manter; custo por kW maior |
| Otimizadores de potência | eletrónica por módulo mais inversor central | reduz o impacto das sombras; monitorização por módulo | mais componentes |
| Inversor central | grandes potências | economia de escala | só para centrais |
Exemplo resolvido · verificar a compatibilidade de uma fileira com o inversor
Um módulo de 450 Wp tem Voc = 41,5 V, Vmp = 34,6 V e Imp = 13,0 A; o coeficiente de tensão é -0,26 %/°C. O inversor tem gama MPPT de 100 a 550 V e tensão máxima de entrada de 600 V. Cabem 8 módulos em série?
- Tensão em funcionamento: 8 × 34,6 = 276,8 V, dentro de 100 a 550 V.
- Tensão em vazio a -10 °C (35 °C abaixo de 25 °C): o coeficiente dá +0,26 % × 35 = +9,1 %. Voc de um módulo = 41,5 × 1,091 = 45,3 V; de 8 módulos = 362 V, abaixo de 600 V.
- Corrente: 13,0 A, dentro do limite da entrada do inversor (verificar na ficha técnica).
- Potência da fileira: 8 × 450 = 3 600 Wp. Compatível.
O ponto delicado é o frio: a tensão sobe com o frio, e é nos dias frios e limpos de inverno que se atinge o máximo.
8. Componentes, equipamentos e manuais técnicos
Função dos componentes de um sistema ligado à rede
| Componente | Função | O que o cliente deve saber |
|---|---|---|
| Módulos fotovoltaicos | convertem luz em CC | têm vida útil de 25 a 30 anos, com perda lenta de potência |
| Estrutura de fixação | segura os módulos ao telhado ou ao solo | deve resistir ao vento e à corrosão; a cobertura deve aguentar o peso |
| Cabos solares CC | ligam módulos e inversor | específicos para exterior, UV e temperatura |
| Proteções e seccionador CC | cortam e protegem o circuito CC | permitem separar o inversor dos módulos, mas os módulos e os cabos até ao seccionador continuam sob tensão enquanto houver luz |
| Descarregadores de sobretensões | protegem contra descargas atmosféricas | importantes em zonas expostas |
| Inversor | CC para CA, MPPT, monitorização | é o componente com vida útil mais curta (cerca de 10 a 15 anos) |
| Quadro e proteções CA | protegem a ligação à instalação elétrica | integra o diferencial e o disjuntor próprios |
| Contador ou medidor de energia | mede energia produzida e/ou injetada | o dado de que depende a faturação do excedente |
| Ligação à terra e equipotencialidade | segurança de pessoas e equipamento | obrigatória; verificar na instalação |
| Baterias e regulador (se existirem) | armazenam e controlam a carga | têm número de ciclos limitado e vida útil menor |
| Monitorização | mostra a produção e o consumo | permite detetar falhas cedo |
Localização, inclinação e orientação dos módulos
A escolha do local de instalação resulta do cruzamento de cinco fatores: área disponível (cerca de 5 m² por kWp com módulos atuais), orientação, inclinação, sombras ao longo do ano e estrutura onde fixar. Em telhados inclinados, os módulos seguem normalmente a água do telhado; em cobertura plana, usam-se estruturas de suporte com a inclinação desejada e atende-se ao espaçamento entre fileiras e à ação do vento.
Como ler uma ficha técnica de módulo
| Parâmetro | O que significa | Para que serve ao técnico |
|---|---|---|
| Pmax (Wp) | potência máxima em condições de ensaio (STC: 1 000 W/m², 25 °C, AM 1,5) | comparar módulos |
| Voc | tensão em circuito aberto | limite de tensão do inversor, no frio |
| Isc | corrente de curto-circuito | dimensionamento de proteções |
| Vmp e Imp | tensão e corrente no ponto de máxima potência | ver se cabe na gama MPPT |
| Eficiência do módulo | Pmax ÷ (1 000 × área) | comparar com a área disponível |
| Coeficiente de temperatura de Pmax | quanto cai a potência por cada °C acima de 25 | calcular perdas no verão |
| NOCT | temperatura de funcionamento nominal da célula (cerca de 45 °C) | estimar a temperatura real |
| Dimensões e peso | tamanho e carga na cobertura | verificar estrutura |
| Garantia de produto e de desempenho | prazos e níveis garantidos | informar o cliente sobre proteção |
Exemplo resolvido · efeito do calor num módulo
Um módulo de 450 Wp tem coeficiente de temperatura de Pmax de -0,35 %/°C. Num dia de agosto, a célula está a 60 °C. Quanto produz, com 1 000 W/m²?
- Excesso de temperatura: 60 - 25 = 35 °C.
- Perda: 35 × 0,35 % = 12,25 %.
- Potência: 450 × (1 - 0,1225) = 450 × 0,8775 = 394,9 W.
- O cliente deve saber que o módulo nunca produz os 450 W de placa na prática no verão: a potência de pico é um valor de ensaio.
Exemplo resolvido · eficiência de um módulo
Um módulo de 450 Wp mede 1,13 m × 1,76 m. Qual é a sua eficiência?
- Área = 1,13 × 1,76 = 1,99 m².
- Potência incidente em STC = 1 000 W/m² × 1,99 m² = 1 990 W.
- η = 450 ÷ 1 990 = 22,6 %.
Manuais e catálogos técnicos
Para além da ficha técnica, o técnico usa: o manual de instalação (binários de aperto, distâncias, condições de montagem), o manual do utilizador (o que o cliente pode e não pode fazer, indicadores do inversor, procedimento em caso de alarme), o certificado de garantia (condições, exclusões, prazos) e o catálogo (gama, acessórios). Os módulos devem cumprir as normas internacionais de ensaio e segurança (a série IEC 61215 e a IEC 61730). Quando o cliente pergunta por que razão um módulo é mais caro, a resposta está quase sempre aqui: eficiência, garantia, tolerância de potência e degradação anual.
9. Potencial de aplicação dos sistemas solares
O potencial de aplicação responde à pergunta «vale a pena, aqui, para este cliente?». Depende de quatro conjuntos de fatores: o recurso (quanta radiação), o local (área, orientação, sombras, estrutura), o consumo (quanto, quando e para quê) e as condições económicas e legais (custos, tarifas, incentivos, licenciamento).
Recurso solar em Portugal
Portugal continental tem um dos melhores recursos solares da Europa: a irradiação global anual num plano inclinado ronda 1 600 a 2 000 kWh/m², crescendo do Minho para o Algarve. Em termos de produtividade, um sistema bem orientado produz, em ordem de grandeza, entre 1 300 e 1 700 kWh por kWp instalado e por ano, consoante a região.
| Região (ordem de grandeza) | Produtividade típica de um sistema bem orientado |
|---|---|
| Norte litoral | 1 300 a 1 400 kWh/kWp |
| Centro e Lisboa | 1 400 a 1 550 kWh/kWp |
| Alentejo | 1 550 a 1 650 kWh/kWp |
| Algarve | 1 600 a 1 700 kWh/kWp |
O perfil de consumo manda
Num sistema ligado à rede, o benefício maior vem de consumir diretamente a energia que se produz, porque cada kWh autoconsumido evita comprar um kWh à rede ao preço completo, enquanto o excedente injetado é pago a um preço muito inferior. Duas casas com o mesmo sistema podem ter resultados muito diferentes: uma onde a família está fora de dia e outra onde se trabalha em casa.
| Perfil | Autoconsumo típico (sem bateria) | Medidas que ajudam |
|---|---|---|
| Família fora de casa de dia | 25 a 35 % | temporizadores, máquinas a trabalhar de dia, termoacumulador |
| Teletrabalho ou reformado em casa | 40 a 55 % | agendar máquinas para o meio do dia |
| Comércio ou escritório de dia | 60 a 80 % | já coincide com a produção |
| Bomba de rega de verão | próximo de 100 % | coincidência quase total |
Dimensionamento simples e estimativa de retorno
O método mais simples tem cinco passos: obter o consumo anual (fatura de 12 meses); escolher a potência por consumo e área; estimar a produção com a produtividade da região; estimar a fração de autoconsumo; calcular a poupança e o retorno simples.
Exemplo resolvido · casal em Setúbal
Consumo anual: 4 200 kWh. Cobertura de telhado a sul, sem sombras, com área útil para 8 módulos de 450 Wp. Valores didáticos: produtividade 1 500 kWh/kWp, autoconsumo estimado 40 %, preço da eletricidade comprada 0,20 €/kWh, preço do excedente 0,05 €/kWh, investimento 5 400 €.
- Potência: 8 × 450 = 3 600 Wp = 3,6 kWp.
- Produção anual: 3,6 × 1 500 = 5 400 kWh.
- Autoconsumo: 40 % × 5 400 = 2 160 kWh; excedente = 3 240 kWh.
- Poupança: 2 160 × 0,20 = 432 €; receita: 3 240 × 0,05 = 162 €. Total = 594 € por ano.
- Retorno simples: 5 400 ÷ 594 ≈ 9,1 anos.
- Cobertura do consumo: 2 160 ÷ 4 200 = 51 % da eletricidade da casa.
O técnico explica ao cliente que, se o autoconsumo subir para 55 % (com máquinas a trabalhar de dia), a poupança sobe: 2 970 × 0,20 + 2 430 × 0,05 = 594 + 121,5 = 715,5 €, e o retorno desce para 7,5 anos. Mudar hábitos vale tanto como mudar equipamento.
Baterias: sim ou não?
Uma bateria aumenta o autoconsumo guardando o excedente do dia para a noite, mas acrescenta custo, perdas de conversão (cerca de 10 %) e vida útil limitada (determinada pelo número de ciclos). A decisão faz sentido quando há muita diferença entre o preço de comprar e de vender, quando se quer reserva em caso de falha de rede (com inversor adequado) ou quando o sítio é isolado. Não faz sentido por defeito.
Exemplo resolvido · rega com bomba solar
Uma bomba de 4 kW rega 5 horas por dia durante 120 dias no verão.
- Energia: 4 kW × 5 h × 120 = 2 400 kWh por ano.
- Potência fotovoltaica: para a bomba arrancar e trabalhar à potência nominal ao meio-dia, cerca de 5 kWp (com margem de 25 % para perdas e variação).
- Produção em 120 dias de verão, a 6 kWh/kWp/dia: 5 × 6 × 120 = 3 600 kWh, que cobre os 2 400 kWh com folga.
- Se a rega for feita de dia, não são necessárias baterias: a reserva é a água armazenada.
10. Ciclo de vida dos sistemas solares: retorno energético, benefício e impacto ambiental
O ciclo de vida acompanha o sistema desde as matérias-primas até ao fim de vida: extração e transformação dos materiais, fabrico, transporte, instalação, utilização, manutenção e desmantelamento ou reciclagem.
Retorno energético
O tempo de retorno energético (energy payback time) é o tempo que o sistema demora a produzir a energia que foi gasta a fabricá-lo, transportá-lo e instalá-lo. Para sistemas fotovoltaicos de silício, instalados no sul da Europa, é da ordem de um a dois anos, para uma vida útil de 25 a 30 anos. Isto quer dizer que, ao longo da vida, o sistema produz uma dúzia a três dezenas de vezes a energia que consumiu. É uma ordem de grandeza: os valores variam com a tecnologia, com a origem do fabrico e com o local.
Benefício ambiental
Cada kWh fotovoltaico que substitui um kWh da rede evita as emissões associadas ao mix de produção da rede nesse momento. As emissões do fotovoltaico ao longo do ciclo de vida são de algumas dezenas de gramas de CO2 equivalente por kWh, muito abaixo das das centrais a carvão (centenas de gramas por kWh) ou a gás natural.
Impactos a considerar
| Fase | Impacto | Como se reduz |
|---|---|---|
| Fabrico | consumo de energia e emissões, uso de materiais (silício, prata, alumínio, vidro) | escolher fabricantes com declaração ambiental |
| Transporte | emissões de transporte de longa distância | logística eficiente |
| Instalação | resíduos de embalagem, intervenção na cobertura | triagem de resíduos |
| Utilização | quase nulos: sem ruído nem emissões; efeito visual | integração arquitetónica |
| Fim de vida | resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE) | encaminhar para recolha e reciclagem autorizadas |
Os módulos fotovoltaicos em fim de vida são resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos e têm de seguir os canais de recolha adequados; o vidro, o alumínio e parte do silício e dos metais são recuperáveis. O técnico informa o cliente de que o módulo não vai para o lixo comum nem para o ecoponto.
Exemplo resolvido · emissões evitadas por um sistema
O sistema do casal de Setúbal produz 5 400 kWh por ano. Usando um fator de emissão didático de 0,20 kg CO2/kWh para a eletricidade da rede, quanto CO2 evita em 25 anos? Qual a energia produzida a mais do que a gasta no fabrico, supondo retorno energético de 1,5 anos?
- Emissões evitadas por ano: 5 400 × 0,20 = 1 080 kg CO2.
- Em 25 anos (sem considerar a perda de potência): 27 000 kg = 27 t CO2. Com degradação média de 0,4 % por ano, a produção média ao longo da vida é cerca de 95 % da inicial, o que dá cerca de 25,7 t.
- Energia produzida / energia gasta: 25 × 0,95 ÷ 1,5 ≈ 16 vezes (25 anos de vida útil, com a degradação).
O fator de emissão da rede muda todos os anos: numa situação real usa-se o valor oficial em vigor.
11. Sistemas solares térmicos e análise de custo-benefício de sistemas térmicos
O sistema solar térmico usa a radiação solar para aquecer um fluido. Em habitação, serve sobretudo para água quente sanitária (AQS), para aquecimento de piscinas e, mais raramente, para apoio ao aquecimento ambiente.
Componentes e funcionamento
| Componente | Função |
|---|---|
| Coletor solar (plano ou de tubos de vácuo) | absorve a radiação e aquece o fluido |
| Circuito primário com fluido térmico e bomba (circulação forçada) | transporta o calor do coletor ao depósito |
| Depósito de acumulação com permutador | guarda a água quente |
| Sistema de apoio (resistência elétrica, caldeira, bomba de calor) | garante a água quente nos dias de pouco sol |
| Controlador diferencial | liga a bomba quando o coletor está mais quente do que o depósito |
| Vaso de expansão e válvulas de segurança | protegem o circuito |
Nos sistemas em termossifão (compactos), a circulação é natural, sem bomba; são simples, mas ficam com o depósito no telhado. O cliente deve ser alertado para duas coisas: o apoio é sempre necessário, e a estagnação (verão sem consumo) exige um sistema com proteção contra sobreaquecimento.
Outros sistemas térmicos relevantes
A bomba de calor transfere calor do ar, do solo ou da água para o interior com eletricidade. O seu desempenho mede-se pelo COP (coeficiente de desempenho) ou pelo SCOP sazonal: com COP 3, cada kWh elétrico dá 3 kWh de calor. Combina muito bem com sistema fotovoltaico. A caldeira de biomassa usa pellets ou lenha: tem custo de combustível baixo e exige armazenamento e manutenção.
Análise de custo-benefício
A análise de custo-benefício compara os custos (investimento, manutenção, substituição de componentes) com os benefícios (energia poupada, receitas, benefícios ambientais), para decidir se uma solução compensa e comparar alternativas. Indicadores simples e úteis para o cliente:
| Indicador | Cálculo | Interpretação |
|---|---|---|
| Retorno simples (anos) | investimento ÷ poupança anual | quanto tempo para recuperar o investimento |
| Poupança acumulada | poupança anual × vida útil - investimento | ganho líquido ao longo da vida |
| Custo da energia produzida (€/kWh) | custo total ao longo da vida ÷ energia produzida | compara com o preço de comprar |
| Emissões evitadas (kg CO2) | energia poupada × fator de emissão | benefício ambiental |
Exemplo resolvido · solar térmico para quatro pessoas
Família de 4 pessoas, consumo de 40 L por pessoa e por dia de água a 45 °C, a partir de água da rede a 15 °C. Sistema com fração solar de 70 %, investimento de 2 600 €, apoio elétrico a 0,20 €/kWh.
- Volume diário: 4 × 40 = 160 L (160 kg).
- Energia diária: 160 × 4,18 × (45 - 15) = 20 064 kJ = 5,57 kWh/dia.
- Energia anual: 5,57 × 365 = 2 034 kWh.
- Energia solar: 70 % × 2 034 = 1 424 kWh poupados.
- Poupança: 1 424 × 0,20 = 285 € por ano.
- Retorno: 2 600 ÷ 285 ≈ 9,1 anos. Em 20 anos de vida: 285 × 20 = 5 700 €, ganho líquido 5 700 - 2 600 = 3 100 € (sem manutenção).
- Emissões evitadas: 1 424 kWh de calor poupados ÷ 0,95 de rendimento do apoio elétrico = 1 499 kWh de eletricidade; 1 499 × 0,20 kg/kWh ≈ 300 kg CO2 por ano (fator didático).
Exemplo resolvido · comparar duas alternativas para a água quente
Mesma família. Alternativa A: termoacumulador elétrico (rendimento 0,95, custo da energia 0,20 €/kWh). Alternativa B: bomba de calor para AQS com COP 3.
- Energia útil: 2 034 kWh/ano.
- A: eletricidade = 2 034 ÷ 0,95 = 2 141 kWh; custo = 428 €/ano.
- B: eletricidade = 2 034 ÷ 3 = 678 kWh; custo = 136 €/ano.
- Diferença: 292 €/ano. Se a bomba de calor custar mais 900 € do que o termoacumulador, o retorno diferencial é 900 ÷ 292 ≈ 3,1 anos.
- Se a bomba de calor funcionar com eletricidade fotovoltaica, o custo marginal da energia tende para o preço do excedente não vendido.
12. Sistemas mistos de energia solar e outros tipos de energia
Um sistema misto (ou híbrido) combina duas ou mais fontes ou vetores para tirar partido da complementaridade entre elas.
| Combinação | Lógica | Aplicação |
|---|---|---|
| Fotovoltaico + rede | a rede garante o que o Sol não dá | a mais comum |
| Fotovoltaico + bateria + rede | reserva e deslocação do consumo para a noite | habitação com tarifas diferenciadas, reserva em apagão |
| Fotovoltaico + eólico (+ baterias) | o vento pode soprar de noite e no inverno, o Sol no verão e de dia | locais isolados, bombagem, telecomunicações |
| Fotovoltaico + bomba de calor | produção de dia, calor com a eletricidade própria | habitação com aquecimento elétrico |
| Fotovoltaico + solar térmico | eletricidade e AQS da mesma cobertura | moradias; atenção à área disponível |
| Fotovoltaico + gerador a combustível | gerador em reserva em sítios isolados | refúgios, explorações |
| Fotovoltaico + carregamento de veículo elétrico | carregar à hora de maior produção | habitação e empresas |
| Fotovoltaico + eletrólise (hidrogénio verde) | armazenar energia sazonalmente | projetos industriais e de demonstração |
Complementaridade solar-eólica
Em muitos locais de Portugal, o recurso solar é máximo no verão e o eólico é mais forte no inverno e à noite. Um sistema isolado com ambas as fontes precisa de menos capacidade de bateria do que um só com solar, porque os períodos sem produção de uma coincidem menos com os da outra. Mas isso só se confirma com medições locais de vento.
Cuidados com sistemas mistos
- Cada fonte tem os seus controladores e proteções, e o sistema precisa de um conjunto coerente (regulador híbrido ou inversor híbrido).
- Só se justifica a segunda fonte se o ganho de fiabilidade ou de custo for demonstrado.
- A complexidade aumenta a manutenção e o risco de má utilização: o cliente tem de a perceber.
Exemplo resolvido · casa isolada com solar e eólico
Uma casa de campo isolada consome 3 kWh/dia. O solar produz, em média, 4,5 kWh/dia no verão e 1,6 no inverno (sistema de 1 kWp, com perdas do inversor e das baterias incluídas, em dias ensolarados e nublados); uma pequena turbina produz 0,5 kWh/dia no verão e 2,0 kWh/dia no inverno.
- No verão: 4,5 + 0,5 = 5,0 kWh/dia (cobre 3 com folga).
- No inverno com só solar: 1,6, que não chega a 3, e há um défice de 1,4 kWh/dia.
- No inverno com solar e eólico: 1,6 + 2,0 = 3,6 kWh/dia, que cobre o consumo.
- Conclusão: o sistema misto reduz a dependência do gerador a combustível no inverno. Mas a medição do vento no local tem de confirmar os 2,0 kWh/dia.
13. Aerotecnia: a atmosfera, o vento e as forças aerodinâmicas
A aerotecnia estuda o comportamento do ar em movimento e a sua interação com os corpos, e é a base do aproveitamento eólico. O vento é ar em movimento, causado por diferenças de pressão que resultam do aquecimento desigual da superfície da Terra pelo Sol: a energia eólica é energia solar indireta.
Propriedades da atmosfera
| Propriedade | Símbolo | Valor de referência (nível do mar, 15 °C) | Efeito na energia eólica |
|---|---|---|---|
| Pressão | p | 101 325 Pa | diminui com a altitude |
| Temperatura | T | 288,15 K (15 °C) | ar mais frio é mais denso |
| Densidade do ar | ρ | 1,225 kg/m³ | a potência do vento é proporcional a ρ |
| Viscosidade | μ | cerca de 1,8 × 10⁻⁵ Pa·s | influencia o escoamento junto às pás |
A densidade obtém-se de ρ = p ÷ (R × T), com R = 287 J/(kg·K) para o ar. A 15 °C e 101 325 Pa: ρ = 101 325 ÷ (287 × 288,15) ≈ 1,225 kg/m³. Em altitude ou com calor, o ar é menos denso e a mesma turbina produz menos.
Equações e regimes de escoamento
- Equação da continuidade: num escoamento incompressível, A × v é constante. Se a área diminui, a velocidade aumenta (é o princípio do efeito de colina e de canalização).
- Equação de Bernoulli: ao longo de uma linha de corrente, a soma da pressão estática, da pressão dinâmica (½ ρ v²) e da pressão de altura é constante. É a base da explicação da sustentação.
- Regime laminar (camadas ordenadas) e regime turbulento (movimento caótico, com redemoinhos). O número de Reynolds (Re = ρ × v × L ÷ μ) indica qual predomina. O vento junto ao solo, perturbado por edifícios e árvores, é turbulento, o que reduz a produção e o tempo de vida das turbinas.
Forças aerodinâmicas
Uma pá de aerogerador é um perfil aerodinâmico. Quando o ar passa, surgem duas forças:
| Força | Direção | Efeito |
|---|---|---|
| Sustentação (lift) | perpendicular ao escoamento | é a que faz rodar o rotor nas turbinas modernas |
| Arrasto (drag) | na direção do escoamento | trava a pá; domina em rotores de arrasto |
O ângulo de ataque controla a razão entre as duas. Se for demasiado grande, o escoamento descola da pá e a sustentação cai bruscamente (perda aerodinâmica, ou stall); esta propriedade é usada de propósito nas turbinas de passo fixo para limitar a potência.
Análise do comportamento e medição do vento
A velocidade do vento varia no tempo e com a altura. Para o caracterizar medem-se: velocidade, direção, turbulência e distribuição de frequências.
| Instrumento | Mede | Nota |
|---|---|---|
| Anemómetro de copos | velocidade | o mais comum; precisa de calibração |
| Cata-vento | direção | normalmente combinado com o anemómetro |
| Anemómetro sónico | velocidade e direção em 2 ou 3 eixos | sem partes móveis; mede também a turbulência |
| LIDAR e SODAR | perfil de vento com a altura, por laser ou som | medição remota, para parques maiores |
| Mastro de medição | suporte para sensores a várias alturas | medição de pelo menos um ano a altura próxima do cubo |
Com os dados constrói-se a distribuição de Weibull (frequência de cada velocidade) e a rosa dos ventos (frequência por direção). Para estimar a velocidade a outra altura usa-se a lei de potência v(h) = v_ref × (h ÷ h_ref)^α, com α ≈ 0,14 em terreno aberto e 0,25 ou mais em terreno rugoso ou urbano.
Otimização do aproveitamento e fatores de conversão
A potência no vento que atravessa uma área A é P_vento = ½ × ρ × A × v³. A turbina só extrai uma fração, o coeficiente de potência Cp. O limite teórico, o limite de Betz, é Cp = 16/27 ≈ 59,3 %; as turbinas reais atingem 35 a 45 %. A razão de velocidades na ponta da pá (λ = ω × R ÷ v) caracteriza o ponto de funcionamento. Os fatores que determinam a conversão são: velocidade do vento, densidade do ar, área varrida, Cp, rendimentos mecânico e elétrico, e disponibilidade (tempo em que a turbina está pronta a produzir).
Exemplo resolvido · potência no vento e potência extraída
Uma pequena turbina tem rotor de 3 m de diâmetro. O vento é de 6 m/s, ρ = 1,225 kg/m³.
- Área varrida: A = π × 1,5² = 7,07 m².
- Potência no vento: ½ × 1,225 × 7,07 × 6³ = 0,6125 × 7,07 × 216 = 935 W.
- Com Cp = 0,35: 935 × 0,35 = 327 W extraídos.
- Máximo teórico de Betz: 935 × 0,593 = 554 W.
- Se o vento dobrar para 12 m/s, a potência no vento fica 8 vezes maior (2³): 7 480 W. É por isso que a velocidade do vento é o fator decisivo.
Exemplo resolvido · efeito da altura
O vento a 10 m de altura tem 5 m/s num terreno aberto (α = 0,14). Qual a velocidade e a variação de potência a 30 m?
- v(30) = 5 × (30 ÷ 10)^0,14 = 5 × 3^0,14 = 5 × 1,166 = 5,83 m/s.
- Razão das potências: (5,83 ÷ 5)³ = 1,166³ = 1,59.
- Subir a turbina de 10 para 30 m de altura dá mais 59 % de potência no vento, o que justifica o mastro alto.
Exemplo resolvido · razão de velocidades na ponta
O rotor de 3 m roda a 300 rpm com vento de 6 m/s. Qual o λ?
- ω = 300 × 2π ÷ 60 = 31,4 rad/s.
- Velocidade na ponta = ω × R = 31,4 × 1,5 = 47,1 m/s.
- λ = 47,1 ÷ 6 = 7,85, um valor típico de rotores rápidos de três pás.
14. Sistemas eólicos: características, funcionamento e classificação
Um sistema eólico converte a energia cinética do vento em energia elétrica. O vento faz rodar o rotor; o movimento é transmitido, diretamente ou através de uma caixa de engrenagens, a um gerador; a eletricidade passa por um sistema eletrónico que a adapta ao consumo ou à rede.
Componentes e função
| Componente | Função |
|---|---|
| Pás | captam a energia do vento por sustentação; normalmente três, em fibra de vidro ou carbono |
| Cubo (rotor) | liga as pás ao veio; nas turbinas de passo variável aloja o mecanismo de ajuste |
| Nacelle (cabine) | caixa no topo da torre onde estão veio, multiplicadora, gerador, travão e eletrónica |
| Caixa de engrenagens (multiplicadora) | aumenta a velocidade de rotação para a do gerador; as turbinas de acionamento direto dispensam-na |
| Gerador | transforma a energia mecânica em elétrica |
| Travão | imobiliza o rotor em manutenção e em emergência |
| Sistema de orientação (yaw) | roda a nacelle para ficar de frente para o vento |
| Sistema de controlo | liga, arranca, regula e protege a turbina; usa anemómetro e cata-vento |
| Torre | eleva o rotor, onde o vento é mais forte e menos turbulento |
| Conversor eletrónico e inversor | adaptam a eletricidade à frequência e tensão da rede |
| Controlador de carga e baterias (sistemas isolados) | regulam e armazenam |
| Fundação | assegura a estabilidade |
Velocidades características de uma turbina
Uma turbina tem velocidades de referência: arranque (cut-in) de cerca de 3 m/s, abaixo da qual não produz; nominal (por exemplo, 11 a 13 m/s), a partir da qual atinge a potência nominal; e corte (cut-out) de cerca de 25 m/s, acima da qual pára por segurança. A curva de potência do fabricante mostra a potência produzida a cada velocidade.
Classificação dos sistemas eólicos
| Critério | Tipos | Características |
|---|---|---|
| Tipo de eixo | HAWT (eixo horizontal) | a esmagadora maioria; mais eficiente; precisa de orientação ao vento |
| VAWT (eixo vertical: Darrieus, Savonius) | aceitam vento de qualquer direção; mais baixa eficiência; usados em pequena escala e meio urbano com resultados modestos | |
| Potência | micro (até cerca de 1 kW), pequena (até cerca de 100 kW), média e grande (da ordem dos MW) | a pequena eólica serve habitações, explorações e pequenas empresas |
| Utilização | produção para autoconsumo, para venda à rede, bombagem, sítios isolados | a utilização define o dimensionamento |
| Localização | onshore (em terra), offshore (no mar; fixa ou flutuante) | offshore tem ventos mais fortes e constantes, mas é mais cara |
| Conexão | grid-tied (ligada à rede), off-grid (isolada, com baterias) | semelhante ao fotovoltaico |
| Controlo da pá | passo fixo (perda aerodinâmica passiva, mais simples, mais barata) | passo variável (pitch: as pás rodam para regular a potência, mais eficiente e segura em vento forte) |
Em Portugal existe um exemplo de eólica offshore flutuante ao largo de Viana do Castelo (o projeto WindFloat Atlantic), um dos pioneiros mundiais; mas, para o cliente doméstico, o que interessa é a pequena eólica.
Funcionamento: do vento à corrente
- O sistema de controlo deteta vento acima da velocidade de arranque e liberta o travão.
- O sistema de orientação coloca a nacelle de frente para o vento.
- O vento cria sustentação nas pás e o rotor acelera.
- A potência é regulada: por passo variável (as pás rodam) ou por perda aerodinâmica (passo fixo).
- O gerador produz eletricidade com frequência variável; o conversor transforma-a em corrente na frequência da rede.
- Em vento excessivo, o controlo pára a turbina e aciona o travão.
Exemplo resolvido · interpretar a curva de potência
Uma turbina de 5 kW nominais tem potência de 0,2 kW a 4 m/s, 1,2 kW a 6 m/s, 3,2 kW a 8 m/s e 5 kW a 11 m/s. O local tem 6 m/s médios.
- A 6 m/s produz 1,2 kW; a 8 m/s produz 3,2 kW. A potência não varia linearmente com a velocidade (varia com o cubo, até à potência nominal).
- Atenção: a velocidade média de 6 m/s não significa que a turbina produza sempre 1,2 kW. A produção depende da distribuição de velocidades: dias de pouco vento e dias de muito vento.
- Por isso a produção anual se estima com a curva de potência e a distribuição de Weibull do local, e não com a velocidade média apenas.
15. Potencial de aplicação e ciclo de vida dos sistemas eólicos
Potencial de aplicação
A pequena eólica só compensa quando o recurso eólico é bom e bem medido. Regras práticas:
| Fator | Exigência |
|---|---|
| Velocidade média anual à altura do cubo | de preferência acima de 5 a 6 m/s; abaixo de 4 m/s não compensa |
| Obstáculos | turbina pelo menos 9 m acima de qualquer obstáculo num raio de 150 m (regra prática) |
| Altura da torre | quanto mais alta, melhor: o vento aumenta e a turbulência diminui |
| Terreno | aberto, colina arredondada, litoral exposto, sem edifícios próximos |
| Ligação à rede ou consumo | perto do consumo, para reduzir perdas e custos de cabo |
| Condições legais e vizinhança | licenciamento municipal, ruído, distâncias a habitações |
Em zonas urbanas e suburbanas, o vento é fraco e turbulento: as pequenas turbinas instaladas em telhados raramente cumprem o que prometem. É um dos pontos em que o técnico deve ser mais honesto com o cliente.
Estimar a produção: o fator de capacidade
O fator de capacidade é a razão entre a energia produzida num ano e a que seria produzida se a turbina funcionasse sempre à potência nominal: FC = E_anual ÷ (P_nominal × 8 760 h). Em Portugal, parques eólicos grandes têm fatores de capacidade da ordem de 25 a 35 %; as pequenas turbinas, mal localizadas, ficam muito abaixo (10 a 20 %).
Exemplo resolvido · estimativa para uma pequena turbina
Uma turbina de 5 kW, num local com vento medido de 5,5 m/s à altura do cubo, deverá ter um fator de capacidade de 16 % (valor didático). Quanto produz? Qual o retorno se o investimento for 14 000 € e a energia valer 0,20 €/kWh, com autoconsumo total?
- Energia: 5 × 8 760 × 0,16 = 7 008 kWh/ano.
- Poupança: 7 008 × 0,20 = 1 402 €/ano.
- Retorno: 14 000 ÷ 1 402 ≈ 10 anos. Com a manutenção anual (por exemplo, 200 €), a poupança líquida é 1 202 € e o retorno sobe para 11,6 anos.
- Se o vento no local for de 4,5 m/s, a potência no vento baixa para (4,5/5,5)³ = 55 % e o retorno aumenta muito, tipicamente para perto do dobro, como ordem de grandeza; a produção anual exata estima-se com a curva de potência e a distribuição de Weibull do local, porque a energia anual não segue o cubo da velocidade.
Ciclo de vida: retorno energético, benefício e impacto
| Aspeto | Eólica |
|---|---|
| Vida útil | 20 a 25 anos (grandes turbinas); 15 a 25 em pequenas, com manutenção regular |
| Retorno energético | muito curto: de poucos meses a cerca de um ano, para turbinas bem localizadas; para pequenas turbinas, de um a poucos anos (ordem de grandeza) |
| Emissões ao longo do ciclo de vida | muito baixas, da ordem de poucas dezenas de g CO2eq por kWh |
| Materiais | aço, betão, fibra de vidro e carbono, cobre, ímanes de terras raras nalguns geradores |
| Fim de vida | aço, cobre e betão recicláveis; as pás compósitas são o ponto mais difícil de reciclar |
| Manutenção | inspeção anual de pás, travão, rolamentos, aperto de parafusos, lubrificação, torre |
Exemplo resolvido · retorno energético
Uma turbina pequena consumiu 25 000 kWh de energia primária a ser fabricada, transportada e instalada, e produz 7 000 kWh elétricos por ano. Qual o tempo de retorno energético?
- Para comparar, converte-se a eletricidade em energia primária com o fator da regulamentação (por exemplo, 2,5): 7 000 × 2,5 = 17 500 kWh de energia primária evitada por ano.
- Tempo de retorno = 25 000 ÷ 17 500 ≈ 1,4 anos.
- Em 20 anos de vida, a turbina evita cerca de 14 vezes a energia que custou.
- Sem converter para energia primária (comparando só kWh elétricos): 25 000 ÷ 7 000 ≈ 3,6 anos. O método deve ser sempre explicitado.
16. Impacto ambiental dos sistemas de produção de energia
Analisar o impacto ambiental é uma das aptidões do referencial. Nenhuma tecnologia é neutra, mas os impactos são muito diferentes em natureza e dimensão.
Comparação entre tecnologias (ordem de grandeza)
| Tecnologia | Emissões no ciclo de vida (g CO2eq/kWh) | Principais impactos |
|---|---|---|
| Carvão | acima de 800 | emissões, poluentes, minas |
| Gás natural | cerca de 400 a 500 | emissões, extração |
| Fotovoltaico | algumas dezenas | ocupação de solo (centrais), materiais, resíduos no fim de vida |
| Eólico | poucas dezenas ou menos | paisagem, ruído, aves e morcegos, pás compósitas |
| Hídrico | variável, geralmente baixa | alteração de cursos de água, peixes, sedimentos |
| Biomassa | variável | emissões locais de partículas, logística, gestão florestal |
Impactos específicos que o técnico deve saber explicar
Fotovoltaico: ofuscamento (raro), ocupação de solo agrícola em centrais, perda de rendimento por sujidade, resíduos no fim de vida. Em telhados, o impacto ambiental é baixo.
Eólico: - Ruído: o som das pás (aerodinâmico) e dos componentes mecânicos; as pequenas turbinas podem ser audíveis a algumas dezenas de metros. - Avifauna e quirópteros: risco de colisão, maior em corredores de migração; os estudos de impacto ambiental avaliam. - Efeito visual e sombra intermitente (shadow flicker): sombra das pás em movimento sobre janelas. - Vibrações e segurança: queda de gelo ou de pás, ainda que raras.
Avaliar o desempenho ambiental junto do cliente
Três indicadores simples: emissões evitadas (kg CO2 por ano), energia primária não renovável poupada (kWh) e tempo de retorno energético. O técnico deve dizer sempre qual o fator de emissão usado e que ele depende do mix da rede em cada ano.
Exemplo resolvido · comparar o impacto de duas soluções
Uma pequena empresa consome 12 000 kWh por ano. Duas hipóteses: A, sistema fotovoltaico de 8 kWp com 1 500 kWh/kWp, com autoconsumo de cerca de 70 % e o resto injetado na rede; B, turbina de 5 kW com FC de 16 %. Fator de emissão didático: 0,20 kg CO2/kWh.
- A: produção 12 000 kWh; emissões evitadas = 12 000 × 0,20 = 2 400 kg CO2/ano (autoconsumido ou injetado, cada kWh renovável substitui um kWh da rede).
- B: produção 7 008 kWh; emissões evitadas = 1 402 kg CO2/ano.
- A produz tanto como a procura anual; B cobre 58 %.
- Impacto local: A tem impacto visual baixo; B exige estudo de ruído, mastro e licenciamento.
- O ambiente favorece A neste local, e o recurso medido confirmaria ou não B.
17. Incentivos e políticas de apoio à eficiência energética
O investimento em eficiência e em renováveis é apoiado, em Portugal e na União Europeia, por políticas públicas que combinam metas, regras e apoios financeiros.
Níveis de enquadramento
| Nível | Exemplos | Papel |
|---|---|---|
| União Europeia | diretivas de eficiência energética, de renováveis (Diretiva (UE) 2018/2001) e de desempenho energético dos edifícios | fixam metas e regras para os Estados-Membros |
| Nacional | planos nacionais de energia e clima, legislação do Sistema Elétrico Nacional (Decreto-Lei n.º 15/2022, na redação em vigor), certificação energética de edifícios | traduzem as metas em regras e programas |
| Entidades | DGEG (Direção-Geral de Energia e Geologia), ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos), ADENE (Agência para a Energia), Fundo Ambiental, APA (Agência Portuguesa do Ambiente) | regulam, registam, certificam e financiam |
| Local | municípios, comunidades intermunicipais, agências de energia | apoios, balcões de informação |
Tipos de incentivos
| Tipo | Como funciona | Observação |
|---|---|---|
| Apoio a fundo perdido | o Estado paga parte do investimento, mediante aviso e candidatura | tem orçamento limitado e prazos |
| Apoio por vales ou programas dirigidos | para famílias vulneráveis ou para obras em edifícios | condições de elegibilidade |
| Incentivos fiscais | dedução ou taxa reduzida em impostos | dependem da lei em vigor em cada ano |
| Financiamento em condições especiais | linhas de crédito bonificado | apresentado pelos bancos |
| Tarifas e regras de remuneração | regras de venda do excedente, comunidades de energia | definidas no regime do autoconsumo |
| Obrigatoriedades | classes mínimas em edifícios novos, instalação de renováveis em certas obras | regulamentação em vigor |
Como informar sem prometer
Os programas de apoio como os geridos pelo Fundo Ambiental (alguns financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência) mudam de avisos, montantes, prazos e condições de forma frequente. O técnico:
- Indica onde consultar (portal do Fundo Ambiental, DGEG, ADENE, município).
- Explica que o apoio é candidatura, não direito, e que o aviso em vigor define quem pode candidatar-se, o que é elegível, o valor máximo e o prazo.
- Nunca promete montantes, nem inclui um incentivo incerto no cálculo de retorno; calcula com e sem apoio.
- Alerta para os intermediários que cobram para candidaturas gratuitas e para as exigências típicas (obras só podem começar depois de determinada fase, faturas com requisitos).
Exemplo resolvido · retorno com e sem apoio
O sistema de 3,6 kWp do casal de Setúbal custa 5 400 € e poupa 594 € por ano. Admite-se (hipótese) um apoio de 20 % do investimento.
- Sem apoio: 5 400 ÷ 594 ≈ 9,1 anos.
- Com apoio: investimento líquido = 5 400 × 0,80 = 4 320 €; retorno = 4 320 ÷ 594 ≈ 7,3 anos.
- Diferença: 1,8 anos.
- O técnico apresenta os dois cenários, e informa que o apoio é incerto: se não for atribuído, o investimento continua a valer a pena, embora com retorno maior.
18. Legislação e normas sobre eficiência energética e certificação de edifícios
O técnico informa o cliente tendo em conta as normas e os requisitos legais (critério de desempenho do referencial). Não se espera que decore diplomas, mas que saiba quais existem, a que se aplicam e onde consultá-los na redação em vigor.
Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (SCE)
O SCE foi estabelecido para informar sobre o desempenho energético dos edifícios e promover a sua melhoria. Atualmente enquadrado no Decreto-Lei n.º 101-D/2020 (na redação em vigor), que fixa os requisitos de desempenho energético dos edifícios e regula o SCE, assenta em dois pilares: o certificado energético (emitido por perito qualificado, com classe de A+ a F e recomendações de melhoria) e os requisitos mínimos de desempenho para edifícios de habitação e de comércio e serviços, fixados em portaria. A gestão do sistema cabe à ADENE, e a fiscalização cabe às entidades competentes.
| Instrumento | O que é | Relevância para o cliente |
|---|---|---|
| Certificado energético | documento com a classe energética do edifício, consumos e medidas de melhoria | exigido na venda ou arrendamento; indica onde melhorar e quanto se poupa |
| Pré-certificado | emitido na fase de projeto | para edifícios novos |
| Requisitos de desempenho (habitação, comércio e serviços) | requisitos mínimos de qualidade térmica e de energia, fixados no Decreto-Lei n.º 101-D/2020 e nas portarias que o regulamentam | contam as energias renováveis |
| Medidas de melhoria | lista no certificado, com estimativa de poupança e retorno | base para o diálogo técnico com o cliente |
A regulamentação trata as energias renováveis de forma explícita: o contributo de sistemas solares térmicos, fotovoltaicos e outras fontes é contabilizado no desempenho energético do edifício. Para o cliente, isto significa que instalar renováveis melhora a classe energética do edifício, e é um argumento económico (valorização do imóvel) e legal.
Regime do autoconsumo e da produção descentralizada
A produção de eletricidade para autoconsumo (individual, coletivo, comunidades de energia renovável) está enquadrada no regime jurídico do Sistema Elétrico Nacional, na redação em vigor. Em termos práticos, o técnico transmite ao cliente cinco ideias, sem números que dependam do diploma:
- A instalação de produção para autoconsumo tem de ser registada ou comunicada junto da DGEG, por um procedimento que depende da potência, e o instalador conhece-o. As instalações muito pequenas que não injetam excedente na rede estão isentas de controlo prévio, nos termos do regime em vigor, mas continuam a ter de cumprir as regras técnicas e de segurança.
- A instalação e a ligação à rede cumprem regras técnicas; o operador da rede de distribuição intervém na ligação e na contagem.
- O excedente injetado na rede pode ser remunerado nas condições do regime em vigor.
- A ERSE regula as tarifas e a relação com o comercializador de eletricidade.
- A instalação elétrica tem de estar em conformidade com as regras técnicas de segurança e as exigências de responsabilidade técnica.
Outras normas a conhecer
| Âmbito | Exemplos |
|---|---|
| Equipamentos | normas IEC e EN de módulos (IEC 61215, IEC 61730) e de pequenas turbinas (IEC 61400-2); marcação CE |
| Etiquetagem energética | Regulamento (UE) 2017/1369 |
| Resíduos | regime de gestão de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos |
| Edificação | licenciamento municipal, regime jurídico da edificação, regras de condomínio |
| Segurança | regras de instalações elétricas e segurança em trabalhos em altura |
Exemplo resolvido · cliente que quer saber a obrigatoriedade
Pergunta de um cliente: «A minha casa tem certificado energético. Se puser painéis, tenho de pedir outro?».
- O certificado descreve o desempenho do edifício na data de emissão e tem prazo de validade.
- Instalar um sistema renovável altera o desempenho energético calculado do edifício.
- Resposta adequada: «O certificado atual continua válido durante o prazo que nele consta, e a data de validade está escrita no próprio certificado. Se quiser que o novo sistema seja refletido na classe, ou para vender ou arrendar, o perito qualificado pode emitir um novo. Vou confirmar consigo no regime em vigor e peço ao perito qualificado».
- O técnico não decide sozinho e remete para o perito. A validade lê-se no próprio certificado e confirma-se no portal do SCE da ADENE e no regime em vigor.
19. Analisar informação técnica
A primeira realização do referencial é analisar informação técnica relativa a sistemas eólicos e fotovoltaicos. É o trabalho de bastidores: antes de falar com o cliente, o técnico precisa de dominar os documentos.
Documentos a analisar
| Documento | Informação-chave | Pergunta a fazer |
|---|---|---|
| Ficha técnica do módulo | Pmax, Voc, Isc, Vmp, Imp, eficiência, coeficientes, dimensões, garantias | cabe? compatível com o inversor? |
| Ficha técnica do inversor | potência nominal CA, potência máxima CC, gama MPPT, tensão máxima, número de MPPT, rendimento, grau de proteção IP | suporta a fileira? |
| Ficha técnica da turbina | potência nominal, área varrida, curva de potência, velocidades de arranque, nominal e de corte, ruído, classe de vento | adequa-se ao recurso do local? |
| Ficha da bateria | capacidade útil (kWh), profundidade de descarga, ciclos, potência de descarga | cobre a reserva pretendida? |
| Fatura de eletricidade | consumo em kWh por período, potência contratada, tarifa, preços | quanto, quando e a que preço? |
| Mapas e bases de dados de recurso | irradiação, produtividade, velocidade do vento | que produção é de esperar? |
| Manual do utilizador e da instalação | procedimentos, avisos, manutenção | o que pode o cliente fazer? |
| Certificados e garantias | cobertura e exclusões | o que está garantido e por quanto tempo? |
| Legislação e programas de apoio | requisitos e prazos | o que se exige e o que se pode pedir? |
Método de análise em cinco passos
- Identificar o objetivo da análise (comparar, verificar compatibilidade, estimar produção).
- Localizar os dados relevantes no documento e confirmar as condições de ensaio (STC, NOCT; altura e densidade do ar).
- Normalizar unidades (W e kW, kWh e MWh, m/s e km/h).
- Calcular e comparar (por exemplo, €/Wp, eficiência, kWh/kWp, FC).
- Registar as conclusões e as dúvidas, incluindo o que falta confirmar.
Armadilhas frequentes
- Comparar módulos com condições de ensaio diferentes.
- Esquecer que a potência de pico não é a potência média.
- Ler a velocidade do vento em km/h como se fosse m/s (1 m/s = 3,6 km/h).
- Usar a potência do inversor em vez da potência dos módulos como potência da instalação, ou o contrário, sem a indicar.
- Aceitar um número de uma proposta comercial sem pedir o pressuposto (que produtividade? que autoconsumo?).
Exemplo resolvido · comparar duas propostas
Proposta A: 3,6 kWp por 5 400 € (1 500 €/kWp), módulos de 22,6 % de eficiência, garantia de desempenho de 25 anos, inversor com 10 anos de garantia. Proposta B: 4,0 kWp por 5 200 € (1 300 €/kWp), módulos de 19,5 %, garantia de desempenho de 12 anos, inversor com 5 anos.
- Custo por kWp: A = 1 500 €; B = 1 300 €. B parece mais barata.
- Área: A, 3,6 kWp ÷ (0,226 kW/m²) = 15,9 m²; B, 4,0 ÷ 0,195 = 20,5 m². B ocupa 4,6 m² a mais. Se o telhado só tiver 18 m² disponíveis, B não cabe.
- Produção: A, 3,6 × 1 500 = 5 400 kWh; B, 4,0 × 1 500 = 6 000 kWh.
- Garantias: A cobre melhor o desempenho a longo prazo.
- Conclusão: sem o dado da área, B seria a escolha pelo preço; com a área, ou com a garantia como critério, a decisão muda. O técnico apresenta a comparação, e o cliente decide.
20. Técnicas de comunicação verbal e não verbal assertiva, oral e escrita
A informação técnica só tem valor se chegar ao cliente de forma clara e respeitosa. O referencial pede comunicação assertiva, escuta ativa, empatia e cuidado com a apresentação pessoal e a postura profissional.
Três estilos de comunicação
| Estilo | Como soa | Efeito no cliente |
|---|---|---|
| Passivo | «Pois, se calhar... não sei bem, pode ser que sim» | desconfiança, falta de informação útil |
| Agressivo | «Isso não é assim, o senhor não percebe nada disto» | conflito, o cliente fecha-se |
| Assertivo | «Entendo a sua dúvida. Os dados que tenho dizem o seguinte, e vou mostrar-lhe como cheguei a este valor» | confiança e decisão informada |
Assertividade é exprimir informação, opinião e limites de forma clara, direta e respeitadora, sem agredir nem ceder. Uma frase assertiva dá o facto, reconhece a perspetiva do outro e propõe o próximo passo.
Escuta ativa
Ouvir não é esperar a vez de falar. A escuta ativa tem cinco gestos:
- Atenção total: sem telemóvel, sem interromper.
- Perguntas abertas («Como é o seu dia em casa? Quando é que gasta mais eletricidade?»).
- Reformular o que ouviu («Se percebi bem, o que mais o preocupa é a fatura de inverno»).
- Confirmar os pontos principais no fim.
- Reconhecer emoções quando surgem («Percebo que o preço assuste»).
Comunicação não verbal
| Elemento | Boa prática | A evitar |
|---|---|---|
| Postura | direita, aberta, de frente para o cliente | braços cruzados, costas voltadas |
| Contacto visual | natural e regular | olhar sempre o telemóvel ou os papéis |
| Voz | pausada, volume adequado, tom calmo | fala rápida, tom de impaciência |
| Gestos | para ilustrar (mostrar a orientação do telhado) | apontar o dedo, gestos bruscos |
| Aparência | roupa de trabalho limpa, EPI quando exigido, identificação visível | desleixo; ignorar a segurança em frente do cliente |
| Espaço | distância respeitosa | invadir o espaço pessoal |
A apresentação pessoal e a postura profissional fazem parte da mensagem. Quem diz ao cliente que a segurança é importante e sobe ao telhado sem proteção contra quedas perde credibilidade.
Interação oral: a estrutura de uma boa explicação
- Contexto: o que vamos ver e porquê.
- Resposta curta: a conclusão em uma ou duas frases.
- Evidência: números, imagem ou exemplo do local do cliente.
- Ressalvas: o que pode mudar o resultado.
- Passo seguinte: o que acontece a seguir e quem faz o quê.
Usam-se analogias e linguagem simples: potência é a velocidade e energia a distância percorrida; uma fileira de módulos é como uma mangueira, basta um aperto num ponto para reduzir o caudal de toda a fileira; o inversor é o tradutor entre o painel e a casa.
Interação escrita
| Documento | Boas práticas |
|---|---|
| Email ao cliente | assunto claro; saudação; resposta no primeiro parágrafo; lista curta de pontos; despedida; contactos |
| Proposta ou orçamento | descrição do equipamento, quantidades, preço, o que inclui e exclui, validade, garantias, pressupostos de produção |
| Relatório de visita | data, local, observações, fotografias, medições, conclusões, pendentes |
| Mensagens curtas | confirmar horários e documentos; nunca para dar más notícias complexas |
Escrever bem é: frases curtas, voz ativa, números com unidades, termos técnicos explicados na primeira vez, sem siglas soltas, com revisão ortográfica antes de enviar.
Lidar com objeções e reclamações
Cinco passos: ouvir até ao fim; reconhecer o problema ou a preocupação; esclarecer com factos; propor uma solução com prazos; confirmar por escrito. Um cliente que se queixa de que o sistema produz menos do que esperava precisa antes de tudo de ser ouvido e de ver os dados, e só depois da explicação.
Exemplo resolvido · reformular uma resposta passiva em assertiva
Resposta original ao cliente que pergunta se pode pôr painéis num telhado a norte: «Pois, a norte, não sei... pode ser que funcione, depende. Talvez dê algo».
- Problema: não dá informação, não dá resposta, não propõe passo.
- Resposta assertiva: «Entendo a vontade de aproveitar esse telhado. Um telhado virado a norte produz bastante menos do que um virado a sul: em Portugal, perde bastante, tipicamente mais de um terço, e o valor exato obtém-se no PVGIS. Por isso recomendo vermos primeiro se há outro telhado ou o terreno, e, se for só o norte, fazemos a simulação para decidir com números. Marcamos já essa simulação?».
- A resposta tem: reconhecimento, facto, alternativa e passo seguinte.
21. Informar, esclarecer e alertar o cliente: o que condiciona o funcionamento global
Quando se explica um sistema, é fácil falar só do que ele faz bem. A terceira realização do referencial exige o contrário: alertar o cliente para os aspetos que condicionam o funcionamento global. É este o ponto onde se constrói confiança e se evita a insatisfação posterior.
Lista de verificação de alertas
| Área | O que alertar | Porquê |
|---|---|---|
| Sombras | árvores, chaminés, edifícios; crescimento de árvores | podem reduzir muito a produção de uma fileira |
| Orientação e inclinação | a produção depende delas | sem acerto, as expectativas falham |
| Estado da cobertura | idade, impermeabilização, capacidade estrutural; presença de materiais perigosos (como fibrocimento com amianto), que exigem procedimentos próprios | antes de instalar, verifica-se a cobertura |
| Perfil de consumo | autoconsumo depende de quando se gasta | mudar hábitos aumenta o retorno |
| Potência contratada e instalação elétrica | pode precisar de alterações | segurança e conformidade |
| Produção variável | de dia, estação e tempo | a produção não é constante; nem em apagão (sem sistema adequado) |
| Manutenção | limpeza ocasional, inspeção periódica, apertos, verificação de ligações | mantém o desempenho |
| Vida útil dos componentes | inversor 10 a 15 anos; baterias dependem de ciclos | o cliente deve orçamentar substituições |
| Degradação | os módulos perdem potência lentamente | a produção desce ligeiramente com os anos |
| Segurança | os módulos produzem tensão contínua perigosa sempre que há luz, mesmo com o inversor ou o quadro desligados; não mexer em cabos, fichas, quadros ou módulos; em caso de alarme, cheiro a queimado ou danos, seguir o procedimento do manual do inversor e chamar o instalador; em incêndio, ligar 112 e avisar que existe sistema fotovoltaico | evitar choques elétricos, arcos e incêndios |
| Condicionantes legais | registo ou comunicação, licenciamento municipal, condomínio, vizinhança (eólico) | cumprir regras |
| Eólico | turbulência, ruído, vibração, distância a vizinhos, avifauna | o local tem de ser adequado |
| Garantias | prazos e exclusões; o que anula a garantia | evitar perda de direitos |
| Preços e incentivos | podem mudar | evitar promessas |
A diferença entre «o que o equipamento pode» e «o que o sistema faz»
Um sistema é uma cadeia: a produção final fica limitada pelo elo mais fraco. Um módulo excelente com sombra de uma chaminé, um inversor subdimensionado, cabos finos ou um consumo desalinhado reduzem o resultado. Por isso se diz que a eficiência é «do todo»: só se melhora com medidas ativas e passivas bem articuladas.
Eficiência na utilização
Conselhos práticos que o técnico dá no fim da instalação:
- Deslocar consumos para as horas de sol: máquinas de lavar, termoacumulador, carregamento de veículo.
- Usar a monitorização e olhar para a produção todas as semanas no início.
- Limpar só quando necessário e com segurança, sem subir a telhados, sem produtos abrasivos.
- Registar um valor base de produção e reportar descidas inexplicadas.
- Não alterar a instalação sem contactar o instalador.
- Guardar a documentação (manuais, garantias, certificados, esquema).
Exemplo resolvido · cliente que reclama de produção baixa em janeiro
Cliente: «Em janeiro produzi 90 kWh e o seu orçamento falava em 5 400 kWh por ano. Fui enganado!». Sistema de 3,6 kWp.
- Produção média mensal anual: 5 400 ÷ 12 = 450 kWh. Em janeiro, a produção típica é muito inferior à média: dias curtos, Sol baixo, mais nuvens. Suponhamos que o mês de janeiro representa cerca de 5 % da produção anual: 5 400 × 0,05 = 270 kWh.
- Os 90 kWh correspondem a um terço do esperado. Pode haver causas: um mês de muita chuva, sombra de um edifício que só afeta no inverno, falha de um módulo, inversor com erro, sujidade.
- O técnico não discute nem promete: ouve, reconhece a preocupação, verifica os dados da monitorização (produção diária, alarmes), compara com a irradiação desse janeiro nos dados meteorológicos e propõe uma visita se os dados mostrarem anomalia.
- Se o orçamento não mostrava a variação sazonal, a falha de informação é nossa, e corrige-se, para a próxima, com um gráfico mensal esperado.
Exemplo resolvido · alerta antes da instalação
O cliente quer instalar em fevereiro sobre um telhado de fibrocimento com 40 anos.
- Alerta 1: antes de qualquer fixação a cobertura tem de ser avaliada por quem tem competência; materiais antigos de fibrocimento podem conter amianto e exigem procedimentos legais de manuseamento por empresa habilitada.
- Alerta 2: o telhado velho, que talvez precise de ser substituído em breve, deve ser tratado antes ou em conjunto, para não ter de desmontar os módulos depois.
- Alerta 3: informar o cliente do custo e do prazo desta intervenção, que pode ser maior do que o do próprio sistema.
- O orçamento deve mencionar o assunto por escrito.
22. Relatório de estudo de soluções sustentáveis
O relatório de estudo de soluções sustentáveis é o documento em que o técnico reúne a análise, as alternativas e a recomendação para o cliente. É a aptidão final do referencial: elaborar o relatório de estudo de soluções sustentáveis de produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis.
Estrutura recomendada
| Secção | Conteúdo |
|---|---|
| 1. Identificação e objetivo | cliente, local, data, pedido do cliente, âmbito do estudo |
| 2. Caracterização do local e do consumo | tipo de edifício, cobertura, orientação, sombras, consumo anual e perfil, potência contratada |
| 3. Recurso disponível | irradiação ou vento, fonte dos dados, produtividade esperada |
| 4. Soluções consideradas | descrição de cada alternativa (potência, equipamentos, esquema) |
| 5. Análise técnica | produção, autoconsumo, cobertura do consumo, compatibilidade de equipamentos |
| 6. Análise económica | investimento, poupança, retorno simples, cenários com e sem apoios |
| 7. Análise ambiental | emissões evitadas, retorno energético, impactos locais, fim de vida |
| 8. Enquadramento legal e incentivos | registos, licenciamentos, programas de apoio (sem prometer valores) |
| 9. Riscos e condicionantes | sombras, manutenção, vida útil de componentes, incerteza dos dados |
| 10. Recomendação | solução proposta e justificação, comparada com as alternativas |
| 11. Anexos e fontes | fichas técnicas, simulações, fotografias, referências |
Boas práticas de redação
- Começar com um resumo de uma página com a recomendação e os números principais.
- Declarar pressupostos (preço da eletricidade, produtividade, autoconsumo, vida útil).
- Dar intervalos e não só valores únicos quando houver incerteza.
- Usar tabelas e gráficos simples.
- Linguagem clara, sem jargão; cada termo técnico explicado na primeira vez.
- Indicar datas e fontes dos dados.
- Mostrar alternativas e porque foram preteridas.
- Rever contas e unidades antes de entregar.
Exemplo resolvido · esquema do resumo de um relatório
Moradia em Palmela, consumo anual de 5 000 kWh, cobertura a sudoeste (inclinação 25°) sem sombras, 20 m² úteis, termoacumulador elétrico de 150 L.
- Solução A: fotovoltaico de 3,6 kWp (8 módulos de 450 Wp, 16 m²). Fator de orientação para sudoeste e 25° ≈ 0,96. Produtividade de referência para a região 1 500 kWh/kWp: 3,6 × 1 500 × 0,96 = 5 184 kWh/ano.
- Solução B: fotovoltaico de 3,6 kWp mais bomba de calor para AQS. A bomba de calor desloca consumo e aumenta o autoconsumo.
- Cenário económico de A: autoconsumo 40 %: 2 074 × 0,20 + 3 110 × 0,05 = 414,8 + 155,5 = 570 €/ano. Investimento 5 400 €: retorno 9,5 anos.
- Ambiental de A: 5 184 × 0,20 = 1 037 kg CO2 evitados por ano.
- Recomendação: A como base e B como evolução, após ver o efeito do deslocamento de consumo. Indica-se a estrutura da cobertura e a idade do telhado como condicionantes a verificar.
- O relatório inclui uma frase clara: «Os valores são estimativas com os pressupostos indicados».
Erros comuns
- Confundir potência com energia (kW com kWh, kWp com kWh/ano).
- Prometer poupanças ou incentivos sem pressupostos nem o aviso em vigor.
- Esquecer que a potência de pico é um valor de ensaio: o módulo raramente produz os watts de placa.
- Ignorar as sombras, sobretudo as de inverno, e as sombras parciais numa fileira.
- Desprezar a orientação e a inclinação (telhado a norte, fachada vertical).
- Não verificar a tensão máxima da fileira no frio face ao limite do inversor.
- Dimensionar sem olhar para o perfil de consumo, e com isso errar o autoconsumo.
- Esquecer que o sistema ligado à rede não produz em apagão se não tiver função de reserva.
- Usar a velocidade média do vento como se fosse constante, em vez da distribuição.
- Instalar pequena eólica em local turbulento ou baixo, sem medições.
- Misturar km/h e m/s na leitura de velocidades do vento.
- Comparar propostas com pressupostos diferentes (STC, área, garantias).
- Dizer «renovável» como sinónimo de «sem impacto».
- Chamar «fonte» ao hidrogénio verde: é um vetor.
- Fazer uma comunicação passiva ou agressiva em vez de assertiva.
- Falar em jargão com quem não é técnico, sem explicar.
- Ignorar a cobertura (idade, estrutura, amianto) antes de instalar.
- Esquecer a substituição do inversor e das baterias no cálculo económico.
- Dar valores legais de memória em vez de remeter para o diploma na redação em vigor.
Glossário
- Albedo: fração da radiação solar que uma superfície reflete.
- Aerotecnia: estudo do ar em movimento e das suas interações com os corpos, aplicado ao aproveitamento do vento.
- Altura solar: ângulo do Sol acima do horizonte.
- Arrasto: força aerodinâmica na direção do escoamento.
- Assertividade: forma de comunicar que exprime factos, opiniões e limites de forma clara e respeitadora.
- Autoconsumo: consumo, no local, da energia elétrica que se produz.
- Azimute: ângulo, medido no horizonte, entre o sul e a direção do Sol ou do módulo.
- Betz (limite de): fração máxima da energia do vento que uma turbina pode extrair, 59,3 %.
- Calor: energia transferida entre corpos a temperaturas diferentes.
- Certificado energético: documento do SCE com a classe energética do edifício e medidas de melhoria.
- COP: coeficiente de desempenho de uma bomba de calor, razão entre o calor fornecido e a eletricidade consumida.
- Curva de penalização: gráfico ou tabela que mostra a perda de produção devida à orientação e à inclinação.
- Declinação solar: ângulo entre os raios solares e o plano do equador.
- Difusa (radiação): radiação dispersada pela atmosfera.
- Eficiência energética: obter o mesmo serviço com menos energia.
- Escuta ativa: forma de ouvir com atenção total, perguntando, reformulando e confirmando.
- Fator de capacidade: razão entre a energia produzida num ano e a que seria produzida à potência nominal.
- Fotovoltaico: que converte diretamente luz em eletricidade.
- Grid-tied: ligado à rede.
- HAWT: turbina eólica de eixo horizontal.
- Heliotecnia: estudo do aproveitamento da energia do Sol.
- Hidrogénio verde: hidrogénio produzido por eletrólise com eletricidade renovável.
- Inversor: equipamento que converte corrente contínua em alternada.
- Irradiância: potência da radiação por unidade de área, em W/m².
- Irradiação: energia da radiação por unidade de área, em kWh/m².
- MPPT: seguimento do ponto de máxima potência.
- Off-grid: isolado da rede.
- Offshore: no mar.
- Onshore: em terra.
- Passo variável (pitch): sistema em que as pás rodam sobre o seu eixo para regular a potência.
- Relação de desempenho: razão entre a produção real e a produção teórica de um sistema fotovoltaico.
- Rendimento: razão entre energia útil e energia fornecida.
- SCE: Sistema de Certificação Energética dos Edifícios.
- STC: condições de ensaio padrão dos módulos (1 000 W/m², 25 °C, AM 1,5).
- Sustentação: força aerodinâmica perpendicular ao escoamento.
- Trabalho: energia transferida por uma força que desloca um corpo.
- VAWT: turbina eólica de eixo vertical.
- Wp (watt-pico): potência de um módulo nas condições de ensaio.
Síntese
O técnico que presta informação ao cliente começa por perceber a energia: calor, trabalho, transformações e perdas, e a hierarquia que manda reduzir, otimizar e só depois produzir, com medidas ativas e passivas. Conhece as fontes renováveis e as suas características, e domina a heliotecnia (radiação direta, difusa e refletida, espectro, geometria Terra-Sol, orientação, inclinação, curvas de penalização, sombras) e a aerotecnia (atmosfera, densidade, escoamentos, sustentação e arrasto, medição do vento, limite de Betz, lei de potência).
Explica os sistemas fotovoltaicos (tipos, configurações, componentes, leitura de fichas técnicas) e os sistemas eólicos (HAWT e VAWT, onshore e offshore, grid-tied e off-grid, passo fixo e variável), calcula o potencial de aplicação com o perfil de consumo, estima o retorno e o ciclo de vida (retorno energético, benefício e impacto ambiental), considera os sistemas mistos e faz a análise de custo-benefício de sistemas térmicos. Conhece os incentivos e a legislação (SCE, regime do autoconsumo) e remete sempre para o diploma e o aviso em vigor, sem prometer o que não depende dele.
Tudo isto chega ao cliente por comunicação assertiva, verbal e não verbal, oral e escrita, com escuta ativa e empatia, e fecha-se com um relatório de estudo de soluções sustentáveis claro. O papel mais valioso do técnico está em alertar para o que condiciona o funcionamento global: sombras, consumo, cobertura, manutenção, vida útil dos componentes e limites legais.
Exercícios resolvidos
1. Um aquecedor elétrico dá 3 kWh de calor com 3 kWh de eletricidade; uma bomba de calor com COP 3,5 dá os mesmos 3 kWh. Quanta eletricidade gasta cada um?
Resolução: o aquecedor gasta 3 kWh. A bomba de calor gasta 3 ÷ 3,5 = 0,86 kWh, cerca de 71 % menos.
2. Quanta energia é precisa para aquecer 120 L de água de 12 °C para 50 °C? (c = 4,18 kJ/(kg·°C))
Resolução: Q = 120 × 4,18 × 38 = 19 061 kJ; 19 061 ÷ 3 600 = 5,29 kWh.
3. Um módulo de 400 Wp com área de 1,85 m² tem que eficiência?
Resolução: η = 400 ÷ (1 000 × 1,85) = 0,216 = 21,6 %.
4. Em Faro (φ = 37,0° N), qual a altura do Sol ao meio-dia solar no solstício de inverno e no de verão?
Resolução: inverno: 90 - 37,0 - 23,45 = 29,55°. Verão: 90 - 37,0 + 23,45 = 76,45°.
5. Um obstáculo de 2 m ao meio-dia solar do solstício de inverno em Lisboa (α = 27,85°) projeta que sombra?
Resolução: L = 2 ÷ tan 27,85° = 2 ÷ 0,53 ≈ 3,8 m.
6. Um telhado a este com inclinação de 30° produz que percentagem de um telhado a sul com 30°? Com 5 kWp e 1 500 kWh/kWp, quanto produz?
Resolução: pela tabela, 81 %. Produção: 5 × 1 500 × 0,81 = 6 075 kWh/ano, contra 7 500 kWh/ano a sul.
7. Um módulo de 500 Wp com coeficiente de -0,30 %/°C está a 55 °C de célula. Que potência dá com 1 000 W/m²?
Resolução: perda = (55 - 25) × 0,30 % = 9 %; potência = 500 × 0,91 = 455 W.
8. Um sistema de 4,5 kWp produz 6 300 kWh por ano. Qual a produtividade? Com autoconsumo de 50 % a 0,20 €/kWh e excedente a 0,05 €/kWh, qual a poupança?
Resolução: produtividade = 6 300 ÷ 4,5 = 1 400 kWh/kWp. Autoconsumo 3 150 × 0,20 = 630 €; excedente 3 150 × 0,05 = 157,5 €; total 787,5 €/ano.
9. Um sistema custa 6 000 € e poupa 750 € por ano. Qual o retorno simples? E com apoio de 25 % do investimento?
Resolução: sem apoio: 6 000 ÷ 750 = 8 anos. Com apoio: 4 500 ÷ 750 = 6 anos.
10. Qual a potência no vento num rotor de 4 m de diâmetro, com vento de 8 m/s e ρ = 1,225 kg/m³? Qual a potência extraída com Cp = 0,40?
Resolução: A = π × 2² = 12,57 m²; P = ½ × 1,225 × 12,57 × 512 = 3 941 W; extraída = 3 941 × 0,40 = 1 576 W.
11. Uma turbina de 3 kW produz 4 200 kWh por ano. Qual o fator de capacidade?
Resolução: FC = 4 200 ÷ (3 × 8 760) = 4 200 ÷ 26 280 = 0,16 = 16 %.
12. Um cliente pergunta se uma turbina de 2 m de rotor em cima de um prédio urbano é boa ideia. Que resposta assertiva dar?
Resolução: «Percebo o interesse. Em meio urbano, o vento é fraco e turbulento, e a produção costuma ficar bem abaixo do que os folhetos indicam. Antes de decidir, o ideal é medir o vento no local durante algum tempo, e comparar com a alternativa fotovoltaica no telhado, que é mais previsível. Posso fazer essa comparação com os seus números?» A resposta tem reconhecimento, facto, alternativa e passo seguinte.