Sebenta · Programar e operar máquinas de electroerosão CNC por fio (UC02975)
- Introdução
- 1. Desenho técnico e documentação de fabrico
- 2. Tecnologia dos materiais e acabamento superficial
- 3. Princípios da electroerosão
- 4. A máquina de electroerosão por fio
- 5. Parâmetros tecnológicos
- 6. Organização do posto de trabalho
- 7. Programação de electroerosão por fio
- 8. Metrologia dimensional
- 9. O fio e o dielétrico
- 10. Dispositivos de aperto e alinhamento
- 11. Preparação, arranque e controlo do processo
- 12. Manutenção, segurança e proteção ambiental
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
A electroerosão por fio é a operação que fecha o fabrico de um cunho ou de um cortante: depois da peça desenhada, maquinada e temperada, é o corte a fio que lhe dá o contorno final, com a precisão e a dureza que nenhuma maquinação convencional consegue depois de o aço estar endurecido. É uma tecnologia sem esforço de corte, sem contacto mecânico entre ferramenta e peça, e por isso a única capaz de trabalhar aço-ferramenta a 60 HRC ou metal duro sinterizado com a mesma naturalidade com que trabalharia alumínio.
Esta sebenta segue a sequência real do trabalho, e é também a ordem das quatro realizações do referencial desta UC: analisar os requisitos técnicos e funcionais da peça, elaborar os programas de fabrico, efetuar o setup da máquina e executar o arranque e controlo do processo de electroerosão por fio. Entre estas quatro etapas cabem a leitura do desenho, a tecnologia dos materiais, os princípios físicos da electroerosão, a constituição da máquina, os parâmetros tecnológicos, a programação CNC, a metrologia, o fio e o dielétrico, os dispositivos de aperto, o zero-peça, o controlo do processo e, sempre, a manutenção, a segurança e a proteção ambiental.
Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar o desenho de fabrico, a ficha de fabrico e a carta de controlo; identificar as operações, os materiais, os acabamentos e as tolerâncias; caracterizar o processo de electroerosão por fio; determinar os parâmetros tecnológicos; aplicar os procedimentos relativos à organização do posto de trabalho; estruturar e documentar o programa; aplicar os códigos das funções auxiliares e preparatórias; programar posicionamentos e trajetórias; validar o programa por simulação; aferir instrumentos de medição; identificar o diâmetro do fio e prepará-lo; montar e alinhar dispositivos de aperto; determinar os pontos de referência-peça; configurar a máquina; acionar o arranque e o aquecimento; ajustar os parâmetros GAP; controlar tolerâncias e acabamentos; efetuar manutenção preventiva; e aplicar as normas de segurança, saúde e proteção ambiental.
1. Desenho técnico e documentação de fabrico
Ler o desenho de fabrico
Nenhum programa de electroerosão nasce na máquina: nasce na leitura correta do desenho de fabrico, com as suas projeções ortogonais, cortes e secções, cotagem e simbologia normalizada. A cotagem dá o valor nominal e a tolerância de cada cota; a simbologia de rugosidade (Ra, Rz) indica o acabamento exigido em cada superfície; as anotações de tratamento térmico ("temperar a 58-62 HRC antes de erodir") avisam que a peça chega já endurecida a esta operação.
Ler o desenho é responder a quatro perguntas antes de programar:
- Que geometria exata tem o contorno a cortar?
- Que material e tratamento térmico tem a peça?
- Que tolerâncias dimensionais tem de cumprir cada cota?
- Que acabamento superficial (Ra/Rz) exige cada zona?
Um cortante de recorte de chapa chega à electroerosão com o desenho a indicar Ø25H7 no orifício de corte, Ra 0,8 na parede do orifício, e a anotação "aço D2, temperado a 60-62 HRC". Antes de escrever uma linha de programa, o técnico já sabe: a tolerância H7 (0 a +0,021 mm) exige uma compensação de fio muito rigorosa, e o Ra 0,8 obriga a pelo menos uma passagem de acabamento depois do desbaste.
Documentação de preparação do trabalho
Quatro documentos acompanham a peça, do desenho ao controlo final:
| Documento | Contém | Quando se usa |
|---|---|---|
| Dossier de fabrico | conjunto de toda a documentação da peça | ao longo de todo o processo |
| Ficha de fabrico | sequência de operações, máquina, tempos previstos | planeamento e execução |
| Ficha de elétrodos | diâmetro e material do fio, parâmetros de corte | preparação e setup |
| Carta de controlo | cotas a verificar, instrumentos a usar, resultados obtidos | controlo final |
No corte a fio, a ficha de elétrodos regista o fio, não um elétrodo moldado como na electroerosão por penetração: diâmetro, material (latão ou fio revestido), e os parâmetros tecnológicos previstos para cada passagem.
2. Tecnologia dos materiais e acabamento superficial
Materiais para cunhos e cortantes
A electroerosão maquina qualquer material condutor de eletricidade, seja qual for a sua dureza, porque não há esforço mecânico de corte:
- Aços-ferramenta temperados (55 a 64 HRC): o caso mais comum em cunhos e cortantes, maquinados depois de temperados.
- Carbonetos sinterizados (metal duro): usados em cortantes de vida longa, praticamente só maquináveis por electroerosão ou retificação com mó diamantada.
- Ligas condutoras diversas: alumínio, latão, aços inoxidáveis, sempre que a peça o exija.
A dureza do material influencia menos a velocidade de corte do que a espessura e a condutividade elétrica. É por isto que a electroerosão é o processo natural para trabalhar peças já temperadas, quando nenhuma ferramenta de corte convencional resistiria.
Acabamento superficial: Ra e Rz
O acabamento superficial que a peça recebe depende diretamente dos parâmetros tecnológicos usados em cada passagem:
- Ra (rugosidade média aritmética): a média das distâncias absolutas de cada ponto do perfil à linha média, ao longo de um comprimento de amostragem. É o valor mais especificado nos desenhos.
- Rz (altura total do perfil): a diferença entre o pico mais alto e o vale mais fundo do perfil, no mesmo comprimento. Mais sensível a um único defeito isolado.
| Tipo de passagem | Ra típico obtido (μm) |
|---|---|
| Corte de desbaste (1.ª passagem) | 3,2 a 6,3 |
| Corte de acabamento (2.ª/3.ª passagem) | 0,4 a 1,6 |
| Corte de super-acabamento (passagens extra) | 0,1 a 0,4 |
Um acabamento fino não sai de uma única passagem: resulta de sucessivas passagens de acabamento, cada uma com parâmetros mais suaves do que a anterior, removendo cada vez menos material da parede já cortada.
3. Princípios da electroerosão
O que é a electroerosão
A electroerosão (EDM, Electrical Discharge Machining) é um processo de maquinação não convencional que remove material através de descargas elétricas (faíscas) entre um elétrodo e a peça, ambos mergulhados num fluido dielétrico, sem contacto mecânico entre eles.
Cada faísca funde e vaporiza uma micropartícula de material, tanto do elétrodo como da peça. O dielétrico cumpre três funções: isola o elétrodo da peça até se atingir a tensão de ignição da faísca, arrefece a zona de descarga e arrasta os detritos (swarf) resultantes da erosão. Porque não há esforço de corte, a electroerosão maquina qualquer material condutor, seja qual for a sua dureza.
Por fio versus por penetração
Esta UC trata do corte por fio (wire EDM); a electroerosão por penetração (sinker EDM), tratada noutra UC do curso, usa um elétrodo moldado que reproduz a forma negativa de uma cavidade.
| Por fio (wire EDM) | Por penetração (sinker EDM) | |
|---|---|---|
| Elétrodo | fio metálico contínuo | peça moldada, em grafite ou cobre |
| Movimento | o fio corta como uma serra elétrica | o elétrodo "afunda" verticalmente na peça |
| Dielétrico | água desionizada | óleo dielétrico |
| Aplicação típica | contornos de corte, furos, cortantes | cavidades de moldes |
O corte a fio é o processo natural para os contornos de corte de um cunho ou de um cortante, onde a penetração seria a solução para cavidades fechadas de um molde.
4. A máquina de electroerosão por fio
Constituição da máquina
Uma máquina de electroerosão por fio integra vários subsistemas:
- Bobina de alimentação de fio e bobina de recolha: o fio é sempre novo, nunca reutilizado, e desenrola-se continuamente durante o corte.
- Guias de fio superior e inferior, normalmente em diamante ou safira: posicionam o fio com precisão micrométrica e alojam os contactos elétricos e os bicos de lavagem.
- Tanque de trabalho com água desionizada, onde a peça fica submersa durante o corte.
- Mesa X-Y, que posiciona a peça segundo a trajetória programada; muitas máquinas têm ainda eixos U-V nas guias superiores, para cortes cónicos (ângulos de saída de matriz).
- Gerador de impulsos, a fonte de potência que produz as descargas, e o CNC de comando.
- Sistema de filtragem e desionização da água e bombas de lavagem (flushing).
Como funciona o corte, passo a passo
- O fio desenrola-se continuamente da bobina de alimentação, passa pelas guias superior e inferior, e é recolhido do outro lado.
- A mesa X-Y desloca a peça seguindo a trajetória programada, e o fio "corta" a fenda correspondente.
- O gerador aplica impulsos elétricos entre o fio e a peça, produzindo as faíscas de erosão.
- A água desionizada arrefece, isola e arrasta os detritos para fora da zona de corte.
- Um sistema servo mantém o GAP (a distância entre o fio e a peça) constante, ajustando continuamente a velocidade de avanço.
O fio nunca para de se mover, mesmo em corte lento. Um fio parado sob tensão, exposto às mesmas descargas repetidas no mesmo ponto, rompe-se por desgaste local.
5. Parâmetros tecnológicos
Intensidade, tempo de impulso e tempo de pausa
Cada descarga elétrica é definida por três parâmetros configurados no gerador:
- Intensidade de impulso: a corrente de cada descarga, em amperes. Mais intensidade dá mais remoção de material, mas piora o acabamento superficial.
- Tempo de impulso (Ton): a duração de cada descarga, em microssegundos.
- Tempo de pausa (Toff): o intervalo entre descargas consecutivas, necessário para desionizar o dielétrico e evacuar os detritos antes da faísca seguinte.
Um Toff demasiado curto aumenta o risco de curto-circuito e de rutura do fio, porque o dielétrico não recupera a sua capacidade de isolamento a tempo.
Tensão de descarga e polaridade
- Tensão de descarga: a tensão em vazio antes da faísca "acender", que condiciona a largura do gap que a faísca consegue saltar.
- Polaridade: qual dos dois elementos (fio ou peça) é ligado ao polo positivo. No corte de acabamento a fio, o fio é normalmente positivo e a peça negativa.
| Parâmetro | Efeito ao subir |
|---|---|
| Intensidade | mais remoção, pior Ra |
| Tempo de impulso (Ton) | mais remoção, pior Ra |
| Tempo de pausa (Toff) | mais estabilidade, menos velocidade |
| Tensão de descarga | gap maior, corte mais "aberto" |
Os parâmetros de desbaste e de acabamento são sempre diferentes: mais agressivos na primeira passagem, progressivamente mais suaves nas passagens seguintes, até se atingir o acabamento pedido no desenho.
6. Organização do posto de trabalho
Um posto de electroerosão organizado reduz erros e acidentes, e é uma das atitudes avaliadas nesta UC:
- Manter a área limpa e desimpedida, sem obstáculos junto ao tanque de trabalho.
- Arrumar bobinas de fio, ferramentas e instrumentos de medição em local próprio e identificado.
- Verificar o nível e a qualidade da água desionizada antes de arrancar qualquer trabalho.
- Confirmar que a documentação da peça (desenho, ficha de fabrico, carta de controlo) está disponível e correta no posto.
Este critério aparece explicitamente no referencial: "mantendo o posto de trabalho organizado em função do cenário, das ferramentas e instrumentos a utilizar." Não é um extra, é parte do desempenho avaliado.
7. Programação de electroerosão por fio
Estrutura de um programa
Um programa de electroerosão por fio segue a lógica CNC habitual, organizado em blocos numerados:
N10 G92 X0 Y0 ; define a origem (zero-peça)
N20 G00 X-2 Y0 ; aproximação rápida, sem corte
N30 G01 X10 Y0 F5 ; corte linear até (10,0)
N40 G02 X20 Y10 I0 J10 ; arco horário, centro relativo (0,10)
N50 G01 X0 Y10 ; corte linear de fecho
N60 M02 ; fim de programa
Cada bloco combina funções preparatórias (G), funções auxiliares (M) e coordenadas. O programa segue sempre a mesma sequência lógica: definir a origem, aproximar sem cortar, percorrer o contorno, retirar o fio, terminar.
Funções preparatórias e auxiliares
Funções G (preparatórias, definem o tipo de movimento):
| Código | Função |
|---|---|
| G00 | posicionamento rápido, sem corte |
| G01 | interpolação linear (corte reto) |
| G02 / G03 | interpolação circular, horária / anti-horária |
| G92 | definição da origem de trabalho |
Funções M (auxiliares): ligar/desligar o fio, ligar/desligar a lavagem (flushing), ligar/desligar o gerador de impulsos, fim de programa (M02/M30). Adequar a função certa à geometria da peça é, textualmente, um critério de desempenho desta UC.
Posicionamentos e trajetórias, lineares e circulares
Programar é traduzir a geometria do desenho numa sequência de movimentos:
- Posicionamento (G00): deslocação até um ponto, sem corte, tipicamente para a aproximação inicial.
- Trajetória linear (G01): corte em linha reta entre dois pontos.
- Trajetória circular (G02/G03): corte em arco, definido pelo raio ou pelo centro relativo (I, J) e pelo sentido de rotação.
Qualquer contorno, por mais complexo, decompõe-se numa sequência de segmentos lineares e circulares, bloco a seguir a bloco, exatamente como o desenho técnico decompõe a peça em retas e arcos.
O contorno de um cunho circular com um rasgo reto programa-se como: aproximação (G00) até junto do ponto de partida, um arco (G02 ou G03, consoante o sentido) para o perímetro circular, duas retas (G01) para o rasgo, e o fecho do contorno exatamente no ponto de partida.
Compensação do raio do fio e validação por simulação
O programa inclui compensação do raio do fio: a trajetória programada corresponde ao contorno final da peça no desenho, e a máquina desloca automaticamente essa trajetória do raio do fio somado ao gap de faísca, para que a peça saia com a cota certa.
Antes de correr um programa novo a sério, valida-se sempre por simulação gráfica no ecrã do comando, ou por execução em vazio (sem tensão aplicada), o que permite apanhar erros de sintaxe, trajetórias cruzadas e colisões antes de gastar fio e material na peça real.
8. Metrologia dimensional
Instrumentos e técnicas de medição
O controlo dimensional acompanha todo o processo, da preparação ao resultado final:
| Instrumento | Mede | Resolução típica |
|---|---|---|
| Paquímetro | cotas gerais | 0,02 mm |
| Micrómetro | cotas de precisão | 0,001 mm |
| Comparador (relógio) | desvios, alinhamentos, planicidade | 0,001 mm |
| Projetor de perfil | contornos complexos, por comparação ótica | conforme a ampliação |
| Rugosímetro | acabamento (Ra, Rz) | conforme o equipamento |
A escolha do instrumento depende diretamente da tolerância pedida no desenho: a resolução do instrumento tem de ser, no mínimo, dez vezes menor do que a tolerância a controlar.
Aferição dos instrumentos
Antes de medir a peça, afere-se o instrumento: verifica-se o zero com um bloco-padrão ou anel-padrão, confirma-se que não há folgas nem desgaste nas superfícies de medição, e regista-se a aferição sempre que o instrumento é crítico para o controlo de qualidade. Um instrumento não aferido invalida qualquer medição feita com ele, por muito cuidadoso que seja o operador.
9. O fio e o dielétrico
Sistema de fixação do fio e diâmetro
O fio vem em bobina, com diâmetros típicos entre 0,10 e 0,30 mm, em latão ou fio revestido (zinco/cobre). O enfiamento (threading) passa o fio pela guia superior, por um furo de arranque na peça, e pela guia inferior até à bobina de recolha, manualmente ou por sistema automático. A tensão do fio é regulável e crítica: um fio mal tensionado desvia a trajetória e piora o acabamento obtido.
A escolha do diâmetro do fio depende da espessura da peça e da geometria do contorno: raios internos apertados exigem fio mais fino, capaz de os descrever fisicamente.
Líquidos dielétricos
No corte a fio, o dielétrico é água desionizada (resistividade controlada por resinas de troca iónica), ao contrário do óleo usado na electroerosão por penetração. A água cumpre a mesma função tripla de qualquer dielétrico: isolar, arrefecer e arrastar detritos.
A condutividade da água é monitorizada e ajustada continuamente: água demasiado condutora produz descargas instáveis, água pouco condutora reduz a velocidade de corte. Filtros e resinas precisam de manutenção regular, e a água fora de especificação é uma das causas mais comuns de mau acabamento e de rutura de fio.
10. Dispositivos de aperto e alinhamento
Sistemas de fixação da peça
A peça tem de ficar rigidamente fixa e acessível ao fio por todo o contorno a cortar:
- Sistemas magnéticos: rápidos, para peças ferrosas de faces planas.
- Mordentes e placas mecânicas: para geometrias irregulares ou peças não magnéticas.
- Apoios e calços: elevam a peça de modo a que o fio possa atravessar de lado a lado, dentro do tanque de trabalho.
A escolha depende da geometria da peça e da acessibilidade que o contorno exige: um aperto mal pensado, colocado exatamente sobre a linha de corte, bloqueia o fio a meio do trabalho.
Alinhamento interno e externo
- Alinhamento externo: referencia as faces e arestas exteriores da peça, apalpando lateralmente com um comparador.
- Alinhamento interno: referencia um furo ou contorno interno já maquinado, centrando a peça em relação a esse elemento.
Em ambos os casos usa-se um relógio comparador montado na máquina, deslocando os eixos e lendo o desvio. O alinhamento faz-se sempre antes de definir o zero-peça, porque um alinhamento mal feito propaga-se a toda a peça: a primeira cota errada desalinha todo o contorno.
11. Preparação, arranque e controlo do processo
Modos de operação e configuração
Preparar a máquina para uma nova peça segue uma sequência fixa:
- Selecionar o modo de operação: manual, para posicionar e alinhar; automático, para correr o programa.
- Introduzir os parâmetros tecnológicos de acordo com o material e a espessura da peça.
- Confirmar que o diâmetro e o tipo de fio montado correspondem à ficha de elétrodos.
- Configurar as passagens previstas: desbaste e uma ou mais de acabamento.
- Verificar o nível e a filtragem da água antes de arrancar.
Zero-peça e comunicação PC-máquina
O zero-peça é o ponto de origem do programa, do qual partem todas as coordenadas do contorno. Obtém-se por contacto elétrico (o fio desloca-se lentamente até tocar numa face de referência) ou por centragem em furo (o fio apalpa os dois lados de um furo de referência e o comando calcula o centro). Tem de corresponder exatamente ao ponto de origem usado no desenho e no programa: um zero-peça errado desloca toda a peça cortada, mesmo com o programa perfeito.
O programa é escrito ou gerado em software CAM no computador, e transferido para o CNC da máquina por cabo/rede, pen USB, ou protocolo DNC, conforme o equipamento. Antes de correr, confirma-se sempre que o programa recebido é o correto: nome, versão, data.
Arranque, aquecimento e parâmetros GAP
Antes do corte de precisão, a máquina precisa de arrancar e aquecer: ligar a bomba de circulação, confirmar o fluxo de lavagem nas guias, verificar a tensão do fio e o enfiamento, deixar o sistema estabilizar termicamente e confirmar, num corte de teste curto, que os parâmetros produzem faíscas estáveis.
O GAP é a distância entre o fio e a peça, mantida constante por controlo servo durante todo o corte. Um GAP a mais reduz a velocidade e pode extinguir a faísca; um GAP a menos aumenta o risco de curto-circuito. O fio funciona como elétrodo consumível: o seu diâmetro real, somado ao gap de faísca, tem de ser compensado na trajetória para a cota final da peça corresponder à cota do desenho. Este ajuste faz-se em função da cota controlada: mede-se a peça e afina-se a compensação até a cota bater certo.
Uma peça cuja primeira cota controlada sai 0,01 mm maior do que o desenho corrige-se aumentando ligeiramente a compensação do raio do fio no programa, sem alterar mais nada; é o ajuste "em função da cota controlada" a que se refere o critério de desempenho.
Durante o corte, o operador monitoriza a corrente e a tensão no ecrã do comando, a velocidade de corte real contra a prevista, o estado do fio e as tolerâncias e o acabamento obtidos nas primeiras peças de uma série, ajustando parâmetros sempre que necessário.
12. Manutenção, segurança e proteção ambiental
Manutenção preventiva
A manutenção preventiva garante que a precisão da máquina se mantém ao longo do tempo:
- Filtros e resinas de troca iónica: substituir conforme a condutividade da água sobe acima do previsto.
- Guias de fio: verificar o desgaste (normalmente em diamante ou safira), causa direta de perda de precisão.
- Tanque de trabalho: limpar dos detritos e lamas acumuladas.
- Tensão do fio e alinhamento das guias: verificação periódica.
Riscos, EPI e normas de segurança
A electroerosão tem riscos próprios: risco elétrico (os impulsos do gerador trabalham a tensões que exigem respeito pelas instruções da máquina), contacto prolongado com água e produtos químicos, e a ergonomia de posturas junto ao tanque de trabalho. O EPI obrigatório inclui luvas adequadas ao manuseio de água e fio, óculos de proteção e calçado de segurança.
Cumprir os planos e normas de segurança e saúde no trabalho e as normas de proteção ambiental é obrigatório: água usada, resinas e filtros gastos, e detritos metálicos do corte seguem circuitos próprios de gestão de resíduos, nunca o esgoto ou o lixo comum.
Erros comuns
- Programar sem confirmar a tolerância mais apertada da peça, descobrindo tarde de mais que a compensação do fio não chega.
- Reduzir o tempo de pausa (Toff) para ganhar velocidade, provocando ruturas de fio em cadeia.
- Saltar a simulação gráfica de um programa novo e correr direto na peça definitiva.
- Alinhar só "a olho", sem comparador, antes de definir o zero-peça.
- Esquecer de reajustar a compensação depois de medir a primeira peça de uma série.
- Ignorar a condutividade da água, uma das causas mais frequentes de mau acabamento.
- Tratar os resíduos (água, resinas, detritos metálicos) como lixo comum, em vez de seguir a gestão de resíduos própria.
Glossário
- Electroerosão (EDM) · maquinação por descargas elétricas entre elétrodo e peça, sem contacto mecânico.
- Wire EDM · electroerosão por fio, com um fio metálico contínuo como elétrodo.
- Dielétrico · fluido que isola, arrefece e arrasta os detritos; água desionizada no corte a fio.
- GAP · distância entre o fio e a peça, mantida por controlo servo.
- Toff / Ton · tempo de pausa / tempo de impulso entre descargas consecutivas.
- Flushing · lavagem da zona de corte com o dielétrico, para arrastar detritos.
- Compensação do raio do fio · ajuste da trajetória programada pelo diâmetro do fio mais o gap de faísca.
- Zero-peça · ponto de origem do programa, referência de todas as coordenadas.
- Threading · enfiamento do fio pelas guias e pelo furo de arranque na peça.
- Ra / Rz · parâmetros de rugosidade: média aritmética / altura total do perfil.
- CAM · software que gera o programa CNC a partir da geometria da peça.
- DNC · protocolo de transferência direta de programas entre computador e máquina.
Síntese
O trabalho de electroerosão por fio segue sempre a mesma sequência: ler o desenho e a documentação (dossier, ficha de fabrico, ficha de elétrodos, carta de controlo) · caracterizar o material e o acabamento pedido · elaborar o programa (estrutura, funções G/M, trajetórias, compensação, simulação) · preparar o posto de trabalho · montar e alinhar a peça, com o fio e o dielétrico corretos · efetuar o setup (modo de operação, parâmetros, passagens) · obter o zero-peça e transferir o programa · arrancar, aquecer e controlar o processo, ajustando o GAP e a compensação em função da cota controlada · manter, e trabalhar com segurança e responsabilidade ambiental. Domina este fluxo e serás capaz de programar e operar qualquer contorno, de qualquer material condutor, com a precisão que um cunho ou um cortante exigem.
Exercícios resolvidos
1. Um desenho traz a nota "aço D2, temperado a 60-62 HRC" e uma cota Ø25H7. Porque é a electroerosão por fio o processo indicado, e não a fresagem?
Resolução: porque a peça já está temperada, com uma dureza que uma ferramenta de fresagem convencional não conseguiria cortar sem se degradar rapidamente. A electroerosão remove material por faíscas, sem esforço mecânico de corte, e por isso maquina aço temperado com a mesma facilidade com que maquinaria aço macio; a dureza do material praticamente não é limitação.
2. Que código G se usa para deslocar o fio até junto do ponto de partida do contorno, sem cortar, e que código se usa depois para percorrer o contorno em linha reta?
Resolução: G00 (posicionamento rápido, sem corte) para a aproximação, seguido de G01 (interpolação linear) para o corte reto do contorno. Usar G01 na aproximação cortaria material fora do sítio; usar G00 no contorno deixaria o fio "morto", sem controlo de descarga.
3. A primeira peça de uma série sai com uma cota 0,01 mm maior do que o pedido no desenho. Qual é o ajuste correto, e a que parâmetro do referencial corresponde?
Resolução: aumentar ligeiramente a compensação do raio do fio no programa, sem alterar o resto. Corresponde ao critério de desempenho "assegurando ajuste dos parâmetros tecnológicos, GAP e compensação do desgaste do elétrodo em função da cota controlada": mede-se, e afina-se a compensação até a cota bater certo.
4. Porque é que o dielétrico do corte a fio é água desionizada, e não óleo como na electroerosão por penetração?
Resolução: a água desionizada cumpre a mesma função tripla de qualquer dielétrico (isolar, arrefecer, arrastar detritos), mas é mais fácil de filtrar e recircular num sistema com fio contínuo em movimento; o óleo, mais viscoso, é preferido na penetração por dar melhor acabamento em geometrias de cavidade. São escolhas tecnológicas ligadas ao tipo de elétrodo e à aplicação.
5. Um técnico monta um fio de 0,30 mm de diâmetro para cortar um cortante com um canto interno de raio 0,15 mm. O que vai correr mal?
Resolução: o fio de 0,30 mm não consegue fisicamente descrever um raio interno de 0,15 mm; o corte vai arredondar o canto muito mais do que o desenho pede. É preciso escolher um fio mais fino, de 0,10 ou 0,15 mm, compatível com o raio interno mais apertado da peça.
6. Antes de arrancar o corte definitivo de um programa novo, que dois passos de validação se devem fazer, e porquê?
Resolução: simulação gráfica no ecrã do comando (ou software CAM) e, se possível, execução em vazio (sem tensão aplicada). Ambos apanham erros de sintaxe, trajetórias cruzadas e colisões antes de gastar fio e material na peça real; saltar este passo é um dos erros mais caros do processo.