Sebenta · Executar operações de serralharia mecânica (UC02970)
- Introdução
- 1. Desenho técnico e ficha técnica
- 2. Metrologia dimensional
- 3. Organização e preparação do posto de trabalho
- 4. Traçagem
- 5. Tecnologia do corte por arranque de apara
- 6. Corte com serrote manual e mecânico
- 7. Limagem e acabamento superficial
- 8. Furação e mandrilagem
- 9. Afiamento de brocas
- 10. Roscagem manual e em máquina convencional
- 11. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina as operações fundamentais da serralharia mecânica de bancada: as competências que qualquer técnico de metalomecânica usa todos os dias, seja a fabricar um molde, a montar uma estrutura ou a reparar uma máquina. O percurso é aplicável a diferentes contextos da indústria metalomecânica, do estaleiro à oficina de precisão.
Vamos seguir a sequência real de trabalho: ler o desenho e a ficha técnica, medir com metrologia dimensional, organizar o posto, traçar, cortar, limar, furar, roscar e, em cada passo, trabalhar em segurança. No fim, deves conseguir pegar num desenho técnico e numa barra de aço em bruto e entregar uma peça acabada, dentro da cota e sem incidentes.
Objetivos de aprendizagem (referencial): executar operações de bancada com ferramentas manuais e operar máquinas ferramenta de furação e corte, interpretando o desenho de fabrico e a ficha técnica, aplicando técnicas de traçagem, corte, limagem, furação, mandrilagem, afiamento e roscagem, com os instrumentos de medição corretos e no respeito pelas normas de segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental.
1. Desenho técnico e ficha técnica
O desenho de fabrico é o ponto de partida de qualquer operação de bancada. Sem ele, ninguém sabe que peça fazer.
Normas, projeções, cortes e secções
- Normas (NP, ISO): garantem que qualquer oficina lê o mesmo desenho da mesma forma.
- Projeções ortogonais: a peça representa-se em três vistas típicas, de frente, de cima e de lado, que juntas descrevem a forma tridimensional em 2D.
- Cortes e secções: um corte "abre" a peça imaginariamente para mostrar o interior de um furo, um rasgo ou uma rosca, que de outra forma ficaria escondido atrás de linhas invisíveis.
- Cotagem: cada medida (comprimento, diâmetro, ângulo, profundidade) está anotada como cota, nunca se mede à régua sobre o papel.
Tolerâncias e simbologia
Uma cota sozinha não chega: a tolerância diz qual a margem de erro aceite. Por exemplo, um furo cotado Ø20 (+0,02/−0,00) aceita qualquer valor entre 20,00 mm e 20,02 mm; fora deste intervalo, a peça é rejeitada.
Além das tolerâncias, o desenho traz simbologia de acabamento superficial (rugosidade), soldadura e tratamento térmico, e uma legenda (cartucho) com material, escala e número do desenho.
Um desenho pede um furo Ø20 com tolerância (+0,02/−0,00). Depois de furar e mandrilar, mede-se 20,01 mm com o paquímetro. Como 20,00 ≤ 20,01 ≤ 20,02, a peça está conforme. Se tivesse medido 20,03 mm, estaria fora de tolerância e teria de ser rejeitada ou corrigida se possível.
A ficha técnica
A ficha técnica completa o desenho com a informação da matéria-prima: designação e norma do material (por exemplo aço macio S235 ou S275, aço médio carbono, alumínio, latão), dimensões da barra ou chapa em bruto, tratamentos térmicos previstos e quantidade a produzir. Interpretar a ficha técnica é uma aptidão desta UC: caracterizar o material condiciona toda a escolha de ferramentas e velocidades de corte mais à frente.
2. Metrologia dimensional
A metrologia dimensional é o conjunto de técnicas e instrumentos que confirmam se a peça cumpre a cota e a tolerância do desenho.
Instrumentos de medição e verificação
| Instrumento | Resolução típica | Uso principal |
|---|---|---|
| Régua metálica | 1 mm | medidas grosseiras, corte de matéria-prima |
| Esquadro de bancada | instrumento de comparação | verificar perpendicularidade e planeza |
| Paquímetro (craveira) | 0,05 mm ou 0,02 mm | comprimentos, diâmetros exteriores e interiores, profundidades |
| Micrómetro | 0,01 mm | diâmetros e espessuras de precisão |
| Calibre de roscas / tampão | comparação | verificar passo e diâmetro de furos roscados |
Preparar e aferir os instrumentos
Antes de qualquer medição, o instrumento tem de estar preparado e aferido:
- Limpar as superfícies de medição, sem limalha, gordura nem óleo.
- Fechar o paquímetro ou o micrómetro e confirmar que a leitura marca zero; se não marcar, corrige-se o desvio ou reporta-se o instrumento como avariado.
- Verificar folgas no fuso do micrómetro.
- Guardar o instrumento em caixa própria, nunca à solta na caixa de ferramentas, onde um choque o desalinha.
Um instrumento descalibrado dá uma leitura errada com a mesma confiança de um instrumento correto, é o erro mais difícil de detetar.
Exemplo resolvido: ler o paquímetro
Um paquímetro com nónio de resolução 0,05 mm mostra a escala principal a marcar 24 mm antes do zero do nónio, e a 8.ª divisão do nónio a coincidir com a escala principal.
Leitura = escala principal + (n.º da divisão × resolução do nónio)
Leitura = 24 + (8 × 0,05) = 24,00 + 0,40 = 24,40 mm
Exemplo resolvido: ler o micrómetro
Um micrómetro de resolução 0,01 mm mostra a bainha a marcar 5,5 mm e o tambor a marcar a divisão 27.
Leitura = bainha + (divisão do tambor × resolução)
Leitura = 5,5 + (27 × 0,01) = 5,5 + 0,27 = 5,77 mm
Para não te enganares: lê sempre a parte inteira (escala principal ou bainha) antes de somar a parte fina (nónio ou tambor). Esquecer a parte inteira é o erro de leitura mais comum de quem está a aprender.
3. Organização e preparação do posto de trabalho
Manter o posto de trabalho organizado em função dos equipamentos, ferramentas e instrumentos a utilizar é, ele próprio, um critério de desempenho desta UC, não um detalhe de bom gosto.
Boas práticas e procedimentos
- Cada ferramenta tem um lugar fixo e volta sempre para lá depois de usada.
- A bancada só tem em cima o que está a ser usado na operação em curso; o resto fica arrumado.
- Zonas de circulação livres de cabos, restos de material e apara no chão.
- Ferramentas cortantes guardam-se com a lâmina ou aresta protegida, nunca soltas a apontar para fora.
Preparação do trabalho em bancada
Antes de tocar em qualquer ferramenta, segue-se sempre a mesma sequência:
- Ler o desenho de fabrico e a ficha técnica da peça a produzir.
- Confirmar a matéria-prima recebida contra a ficha técnica (dimensões, material).
- Fixar a peça de forma firme (torno de bancada ou grampos), antes de traçar, cortar ou limar.
- Selecionar os instrumentos de medição e as ferramentas manuais necessárias para as operações previstas.
- Equipar o EPI adequado antes de começar, não só quando a operação "parece perigosa".
Um posto de trabalho bem organizado e uma peça bem preparada resolvem à partida a maioria dos incidentes e dos erros de fabrico.
4. Traçagem
Traçar é transferir as cotas do desenho de fabrico para a superfície real da peça, marcando as linhas e os pontos que vão orientar o corte, a furação e o acabamento.
Ferramentas de marcação
- Riscador: marca linhas finas e precisas na superfície metálica, normalmente sobre uma camada de azul de traçagem que dá contraste.
- Graminho: apoiado no plano de traçagem, risca linhas paralelas a uma superfície de referência, útil para transportar alturas.
- Compasso de pontas: transporta medidas e traça circunferências e arcos a partir de um centro marcado.
- Punção de bater: marca o centro de um furo com uma pequena cavidade, para a broca não "fugir" ao arrancar.
- Esquadro: garante ângulos retos entre as linhas de referência traçadas.
Aplicar a técnica de traçagem
- Limpar a peça e, se necessário, pintar a superfície com azul de traçagem.
- Marcar as referências (normalmente dois lados em esquadro entre si).
- Riscar as linhas de corte e os eixos dos furos a partir dessas referências, com o graminho e o esquadro.
- Puncionar o centro de cada furo com duas pancadas: uma ligeira, para confirmar a posição antes de ser tarde para corrigir, outra mais firme para o afundar.
- Conferir todas as medidas com o paquímetro antes de avançar para o corte ou a furação.
Nunca dês a pancada firme do punção sem antes verificares a posição com a pancada ligeira. Um centro mal traçado fica gravado no metal e não há forma de o corrigir depois de furado.
5. Tecnologia do corte por arranque de apara
Serra, broca, macho de roscar e lima partilham o mesmo princípio físico: o corte por arranque de apara. Uma aresta cortante, mais dura do que o material, remove uma fina camada, a apara, em vez de o material se partir ou deformar.
Velocidade de corte e material
A velocidade de corte (Vc), em metros por minuto, é a velocidade a que a aresta de corte passa sobre a peça. Depende do material da peça e do material da ferramenta (tipicamente aço rápido HSS em oficina de bancada).
| Material da peça | Vc de referência com ferramenta HSS |
|---|---|
| Alumínio | 60 a 100 m/min |
| Aço macio (S235 / S275) | 20 a 30 m/min |
| Aço médio carbono | 15 a 20 m/min |
| Latão | 40 a 60 m/min |
Estes valores são indicativos: cada oficina, cada ferramenta e cada estado de afiamento têm a sua tabela própria, mas a ordem de grandeza e a lógica (materiais mais duros pedem velocidades mais baixas) mantêm-se.
Ferramentas e a sua aplicação
- Broca: corte rotativo ao longo de um eixo, produz furos.
- Macho de roscar / cossinete: cortam o filete de uma rosca, interior e exterior respetivamente.
- Lâmina de serrote: corte linear, separa material em duas partes.
- Lima: corte manual e controlado, arranca micro-aparas para acabamento e ajuste fino.
Reconhecer que todas usam o mesmo princípio ajuda a perceber porque a apara em espiral (ferramenta afiada, a cortar bem) é diferente do pó metálico (ferramenta cega, a esfregar em vez de cortar).
6. Corte com serrote manual e mecânico
Corte manual com serrote de arco
O serrote de arco corta perfis, chapas e barras com uma lâmina dentada tensionada.
- Selecionar a lâmina: mais dentes por polegada para material fino (evita que os dentes "saltem" sobre a espessura), menos dentes para material espesso.
- Montar a lâmina com os dentes virados para a frente, porque o corte acontece no movimento de avanço.
- Cortar com movimentos longos e firmes, usando todo o comprimento da lâmina, sem forçar nem "picar" com movimentos curtos.
- Aproximar-se da linha de traçagem sem a ultrapassar, deixando sempre margem para a limagem final.
Corte mecânico: serrote mecânico e serra de fita
Nas máquinas convencionais, o mesmo princípio é motorizado:
- Serrote mecânico (alternativo): a lâmina move-se para a frente e para trás, tal como no manual, mas motorizado e com avanço controlado.
- Serra de fita: lâmina contínua em anel, corte contínuo, mais rápida e adequada a secções maiores.
- A peça fixa-se sempre no torno da máquina antes de arrancar; nunca se segura à mão.
Adequar a ferramenta de corte e o equipamento à operação é, exatamente como na traçagem, um critério de desempenho avaliado nesta UC.
Nunca aproximes as mãos da lâmina em movimento na serra de fita, mesmo para "ajudar" a apara a sair. Usa sempre um gancho ou um pau próprio para o efeito.
7. Limagem e acabamento superficial
Tipos de lima
| Tipo de lima | Corte | Uso |
|---|---|---|
| Basta (grossa) | picado largo | desbaste rápido, muito material a remover |
| Bastarda | picado médio | operação intermédia |
| Fina / murça | picado fechado | acabamento, ajuste fino |
| Meia-cana, triangular, redonda | perfis variados | cantos, roscas, furos |
Selecionar as ferramentas manuais para as operações de acabamento é uma aptidão avaliada nesta UC: começar com a lima errada obriga a repetir o trabalho.
Técnica de limagem
- Fixar a peça no torno de bancada, à altura do cotovelo do operador, sem folga.
- Segurar a lima com as duas mãos, uma no cabo e outra na ponta, para controlar a pressão.
- Limar em curso completo, com pressão no avanço e alívio da pressão no regresso.
- Verificar o esquadro e a cota com frequência ao longo do processo, não só no fim.
- Terminar sempre com uma lima fina, para o acabamento superficial final.
Nunca uses uma lima sem o cabo montado na espiga. A ponta afiada da espiga pode espetar a mão de quem trabalha.
8. Furação e mandrilagem
Ferramentas e equipamento
- Broca helicoidal em aço rápido (HSS): a ferramenta mais comum para furação de oficina.
- Berbequim (máquina manual): furação portátil, para trabalhos ligeiros.
- Engenho de furar (máquina convencional): furação fixa de bancada ou coluna, com rotação e avanço controlados.
- Mandrilagem: alarga e acerta um furo já existente à cota e ao acabamento exigidos, com mais precisão do que a furação direta.
Exemplo resolvido: calcular a rotação da máquina
A rotação da máquina, em rotações por minuto, relaciona-se com a velocidade de corte e o diâmetro da broca por:
n = (1000 × Vc) / (π × D)
Furando aço macio (Vc ≈ 25 m/min) com broca de Ø10 mm:
n = (1000 × 25) / (π × 10) = 25000 / 31,42 ≈ 795,8 rpm
Arredonda-se para a velocidade disponível mais próxima da máquina, por exemplo 800 rpm.
Com a mesma velocidade de corte mas uma broca maior, Ø16 mm:
n = (1000 × 25) / (π × 16) = 25000 / 50,27 ≈ 497,4 rpm
E para aço médio carbono (Vc ≈ 18 m/min), com broca Ø8 mm:
n = (1000 × 18) / (π × 8) = 18000 / 25,13 ≈ 716,2 rpm
Fica claro o padrão: quanto maior o diâmetro da broca, ou mais duro o material, menor tem de ser a rotação para manter a velocidade de corte adequada.
Furar com segurança e método
- Traçar e puncionar o centro do furo antes de começar.
- Fixar a peça no torno de máquina; nunca segurar à mão, mesmo por um instante.
- Em furos grandes, furar primeiro com uma broca piloto mais fina e só depois com a broca final.
- Recuar a broca com frequência, para libertar a apara e não sobreaquecer.
- Nunca usar luvas junto do mandril em rotação.
9. Afiamento de brocas
Uma broca cega não corta, esfrega: aquece, queima o material e a própria ferramenta, e exige uma força de avanço anormal.
Sinais de que a broca precisa de afiar
- Fumo ou cheiro a queimado ao furar.
- Produz pó metálico em vez de apara em espiral.
- Exige força de avanço muito superior ao habitual.
- Arestas de corte visivelmente arredondadas ou lascadas.
Técnica de afiamento no esmeril
- Colocar óculos de proteção antes de ligar o esmeril; nunca usar luvas junto do rebolo em rotação.
- Verificar o apoio da peça (tool rest): deve estar a 2 a 3 mm do rebolo, nunca mais afastado, para a peça não ser puxada para a fenda.
- Encostar a broca ao apoio com o ângulo correto (normalmente 118°) e afiar em toques curtos, sem forçar contra a pedra.
- Arrefecer a broca em água entre passagens, para o aço não perder a têmpera pelo aquecimento.
- Verificar as duas arestas de corte com o mesmo ângulo e o mesmo comprimento; se ficarem desiguais, a broca fura torto.
O esmeril é uma máquina rotativa de alto risco. Nunca uses luvas junto do rebolo (risco de arrastamento) e nunca trabalhes com o apoio da peça afastado mais do que 2 a 3 mm do rebolo.
10. Roscagem manual e em máquina convencional
Macho e cossinete
- Macho de roscar: corta uma rosca interior num furo já existente. Usa-se por ordem: macho de desbaste, intermédio e de acabamento.
- Cossinete: corta uma rosca exterior numa barra ou varão.
- Movimento: girar meia volta a uma volta e recuar cerca de um quarto de volta, para partir a apara e não a deixar entalar na fenda da ferramenta.
- Usar sempre óleo de corte ao roscar aço, para reduzir o atrito e melhorar o acabamento da rosca.
Exemplo resolvido: calcular o furo para o macho
Antes de roscar é preciso furar o furo de broca com o diâmetro certo. A regra prática:
Ø furo ≈ Ø nominal da rosca − passo da rosca
| Rosca | Passo | Regra prática (nominal − passo) | Tabela normalizada |
|---|---|---|---|
| M5 | 0,80 mm | 5,00 − 0,80 = 4,20 mm | 4,2 mm |
| M6 | 1,00 mm | 6,00 − 1,00 = 5,00 mm | 5,0 mm |
| M8 | 1,25 mm | 8,00 − 1,25 = 6,75 mm | 6,8 mm |
| M10 | 1,50 mm | 10,00 − 1,50 = 8,50 mm | 8,5 mm |
| M12 | 1,75 mm | 12,00 − 1,75 = 10,25 mm | 10,2 mm |
A tabela normalizada arredonda ligeiramente a regra prática (por exemplo, M8 usa 6,8 mm em vez de 6,75 mm) para garantir cerca de 75% de engate da rosca: suficientemente resistente, sem obrigar o macho a remover apara a mais e partir. Na oficina, usa-se sempre a tabela normalizada; a regra prática serve para confirmar de cabeça ou quando a tabela não está à mão.
Para roscar M8 numa chapa de aço, fura-se primeiro com uma broca de 6,8 mm (não 8 mm, que não deixaria material para o macho cortar, nem 6 mm, que deixaria material a mais e partiria o macho).
Roscagem em máquinas manuais e convencionais
Além de roscar à mão, esta UC exige roscar com máquinas manuais (berbequim com adaptador de roscar) e convencionais (engenho de furar com cabeçote de roscar).
A rotação de roscagem é sempre muito mais baixa do que a de furação, para dar tempo ao macho de cortar o filete sem forçar. Exemplo: macho HSS a Vc ≈ 6 m/min, num furo de Ø10 mm:
n = (1000 × 6) / (π × 10) = 6000 / 31,42 ≈ 191,0 rpm
Compara-se com os quase 796 rpm usados para furar o mesmo diâmetro no capítulo anterior: a diferença é grande e é proposital, porque o macho precisa de tempo para cortar e o operador precisa de sentir a resistência da ferramenta.
Confirma-se a rosca acabada com um calibre de roscas ou um parafuso de referência do mesmo passo.
11. Segurança, saúde no trabalho e proteção ambiental
Enquadramento legal
A segurança na oficina de serralharia mecânica é uma obrigação legal, não uma opção:
- Lei n.º 102/2009: regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho, obriga a identificar e prevenir riscos em cada posto de trabalho.
- Decreto-Lei n.º 50/2005: prescrições mínimas de segurança e saúde para a utilização de equipamentos de trabalho (máquinas, berbequins, esmeris, serras).
Riscos e equipamento de proteção individual
Os riscos principais da oficina são o corte (lâminas, arestas de apara), a projeção de partículas (furação, esmerilagem), o arrastamento (peças e ferramentas rotativas), o ruído e as posturas incorretas.
O EPI usa-se desde que se entra na área de risco, não só durante o gesto de furar ou cortar:
| EPI | Quando é obrigatório |
|---|---|
| Óculos de proteção | sempre que há máquina em funcionamento ou limalha por remover, mesmo sem estar a furar ou afiar |
| Calçado de proteção | sempre, dentro da oficina |
| Bata ou fato apertado, sem mangas soltas | sempre, junto de máquinas rotativas |
| Proteção auditiva | serra de fita, esmeril, engenho de furar prolongado |
| Luvas | nunca junto de berbequim, engenho de furar ou esmeril em rotação |
Nunca uses luvas perto de peças ou ferramentas rotativas (berbequim, engenho de furar, esmeril): o risco é serem agarradas e puxarem a mão para dentro da máquina. É uma das regras de segurança mais importantes desta UC.
Limpeza, encerramento do posto e proteção ambiental
- Limalha e apara: removem-se sempre com escova ou pá, nunca com a mão nem com ar comprimido, porque a limalha voa e entra facilmente nos olhos ou na pele.
- No fim de cada operação: desligar as máquinas, limpar a bancada, guardar as ferramentas no respetivo lugar.
- Óleos de corte e limalha metálica são resíduos a separar e encaminhar para reciclagem, nunca para o lixo comum: é a norma de proteção ambiental aplicável a esta UC.
Procedimentos de emergência
- Parar a máquina de imediato, no botão de emergência se existir.
- Prestar os primeiros socorros básicos que souberes prestar em segurança, sem te colocares em risco.
- Ligar 112, indicando por esta ordem: local exato, o que aconteceu e estado da pessoa (consciente ou não, hemorragia, etc.).
- Não mover a pessoa ferida a não ser que exista perigo imediato (fogo, máquina ainda em movimento).
- Reportar sempre o acidente ao responsável da oficina ou da escola, mesmo que pareça pequeno.
Erros comuns
- Furar ou traçar sem confirmar antes as cotas e as tolerâncias do desenho.
- Medir com a régua uma cota que pede tolerância de décimas ou centésimas de milímetro.
- Não aferir o zero do paquímetro ou do micrómetro antes de medir.
- Traçar e puncionar um furo com uma única pancada firme, sem a pancada de confirmação.
- Montar a lâmina do serrote ao contrário, com os dentes virados para trás.
- Acabar uma superfície com uma lima basta em vez de terminar com uma fina.
- Segurar a peça à mão na furação em vez de a fixar no torno de máquina.
- Continuar a furar com uma broca cega em vez de parar e afiar.
- Roscar à mesma rotação da furação, ou sem recuar para partir a apara: parte o macho.
- Furar com o diâmetro nominal da rosca em vez do furo de broca correto.
- Usar luvas junto de máquinas rotativas (berbequim, engenho de furar, esmeril).
- Limpar a limalha com a mão ou com ar comprimido.
- Deixar óleos de corte e limalha misturados com o lixo comum.
Glossário
- Desenho de fabrico · documento técnico que define forma, cotas e acabamento de uma peça.
- Cota · valor numérico de uma medida no desenho técnico.
- Tolerância · margem de erro aceite à volta de uma cota.
- Ficha técnica · documento com o material, dimensões da matéria-prima e tratamentos previstos.
- Traçagem · transferência das cotas do desenho para a superfície real da peça.
- Graminho, riscador, punção, compasso · ferramentas de marcação usadas na traçagem.
- Arranque de apara · princípio de corte em que uma aresta remove uma fina camada de material.
- Velocidade de corte (Vc) · velocidade a que a aresta cortante passa sobre o material, em m/min.
- Broca helicoidal · ferramenta rotativa de furação.
- Mandrilagem · operação de alargar e acertar um furo já existente.
- Macho de roscar · ferramenta que corta uma rosca interior.
- Cossinete · ferramenta que corta uma rosca exterior.
- Furo de broca · diâmetro do furo necessário antes de roscar.
- Esmeril / rebolo · máquina rotativa de afiamento com pedra abrasiva.
- Paquímetro (craveira) e micrómetro · instrumentos de medição de precisão.
- EPI · equipamento de proteção individual.
Síntese
O trabalho de bancada em serralharia mecânica segue sempre a mesma lógica: ler o desenho e a ficha técnica, medir com os instrumentos de metrologia, organizar o posto e preparar a peça, traçar, cortar (serrote manual ou mecânico), limar até ao acabamento, furar e mandrilar, afiar as ferramentas quando necessário, roscar à mão ou em máquina, e em cada um destes passos, trabalhar em segurança: EPI desde a exposição ao risco, nunca luvas junto de peças rotativas, limpeza sem mãos nem ar comprimido, e procedimentos de emergência claros com o 112.
Exercícios resolvidos
1. Um desenho pede um furo Ø20 (+0,02/−0,00). Depois de mandrilar, medes 20,015 mm. A peça está conforme?
Resolução: sim. O intervalo aceite é [20,00; 20,02] mm e 20,015 mm está dentro desse intervalo.
2. Um paquímetro (nónio de 0,05 mm) marca 31 mm na escala principal, com a 3.ª divisão do nónio a coincidir. Qual é a leitura?
Resolução: 31 + (3 × 0,05) = 31 + 0,15 = 31,15 mm.
3. Vais furar aço médio carbono (Vc ≈ 18 m/min) com uma broca de Ø12 mm. Calcula a rotação da máquina.
Resolução: n = (1000 × 18) / (π × 12) = 18000 / 37,70 ≈ 477,5 rpm, arredondado à velocidade disponível mais próxima.
4. Precisas de roscar M6 numa chapa de aço. Que diâmetro de broca usas para o furo de broca?
Resolução: pela tabela normalizada, 5,0 mm (confirma com a regra prática: 6,00 − 1,00 = 5,00 mm).
5. Um colega vai limpar a bancada depois de furar e propõe usar a pistola de ar comprimido para "ser mais rápido". O que lhe respondes?
Resolução: que nunca se remove limalha com ar comprimido nem com a mão, porque as partículas voam e podem entrar nos olhos ou cravar-se na pele. Usa-se sempre escova ou pá, e óculos de proteção enquanto o fazes.
6. Porque é que a rotação de roscagem é sempre muito mais baixa do que a de furação, para o mesmo diâmetro?
Resolução: porque o macho de roscar precisa de tempo para cortar o filete da rosca sem forçar, e o operador precisa de sentir a resistência para saber quando recuar e partir a apara. Roscar à rotação de furação parte o macho.