Sebenta · Orçamentar custos de fabrico de peças em equipamentos CNC (UC02962)
- Introdução
- 1. Requisitos de produção e leitura da peça
- 2. Tipos de produção, materiais e tratamentos superficiais
- 3. Custo de matéria-prima
- 4. Ferramentas, dispositivos de aperto e os seus custos
- 5. Custo de mão de obra e de hora-máquina
- 6. Setup interno e setup externo
- 7. Tempos de ciclo, produtivos e improdutivos
- 8. Programação e simulação CNC no estudo dos tempos
- 9. Fatores do custo total e subcontratação
- 10. Métodos de estimativa, margens de lucro e o orçamento final
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a orçamentar o fabrico de peças em equipamentos CNC: calcular, com rigor e não "a olho", quanto custa produzir uma peça numa oficina de maquinação. É a competência que liga o desenho técnico ao departamento comercial, e que decide se uma proposta ganha um cliente ou faz a empresa perder dinheiro.
O percurso segue o trabalho real de um orçamentista de maquinação: primeiro analisamos os requisitos de produção (o desenho, o material, o tipo de série), depois efetuamos o estudo de tempos e custos de fabrico (matéria-prima, ferramentas, mão de obra, hora-máquina, setup e tempos de ciclo), e por fim colaboramos na elaboração de orçamentos, reunindo tudo numa folha de cálculo e somando a margem de lucro. No fim, deves conseguir olhar para um desenho de fabrico e devolver, com cálculos concretos, um preço justificado.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os requisitos de produção e as especificações da peça; efetuar o estudo de tempos e custos de fabrico, calculando os custos de matéria-prima, ferramentas e dispositivos em função do tipo de produção e produto, efetuando estimativas de tempos de setup e fabrico, e considerando os custos de hora-máquina e de mão de obra; e colaborar na elaboração de orçamentos.
1. Requisitos de produção e leitura da peça
Nenhum orçamento nasce do nada: nasce da leitura correta do desenho de definição da peça e da caracterização do que vai ser produzido.
Desenho técnico: normas, projeções, cortes e cotagem
O desenho técnico segue normas que qualquer profissional, em qualquer oficina, sabe interpretar:
- Projeções ortogonais: as vistas (alçado principal, planta, perfil) que mostram a peça de vários ângulos.
- Cortes e secções: "abrem" a peça para mostrar furos, rasgos ou cavidades internas que não se veem de fora.
- Cotagem: dimensões e tolerâncias. Uma tolerância mais apertada implica mais tempo de maquinação e de controlo, logo mais custo.
- Simbologia e anotações: rugosidade superficial (Ra), tratamento térmico, material, notas gerais de fabrico.
Cada um destes elementos tem impacto direto no orçamento: uma nota de tratamento térmico esquecida, ou uma tolerância mal lida, geram um preço errado.
Ficha de fabrico e ficha de ferramentas
O orçamentista trabalha sempre com dois documentos internos da oficina:
- Ficha de fabrico: a sequência de operações, a máquina prevista, os dispositivos a usar e os tempos previstos por operação.
- Ficha de ferramentas: a lista de ferramentas de corte, referências, parâmetros de corte recomendados e vida útil esperada.
Interpretar o desenho de fabrico, a ficha de fabrico e as ferramentas é a primeira aptidão que sustenta todo o processo de orçamentação.
Caracterizar o produto e o tipo de produção
O mesmo desenho gera custos por peça muito diferentes consoante a quantidade a produzir:
| Tipo de produção | Quantidade | Impacto no orçamento |
|---|---|---|
| Unitária / prototipagem | 1 peça | o setup pesa quase tudo no custo unitário |
| Série pequena | dezenas | setup ainda relevante, mas já diluído |
| Série média | centenas | otimizar o processo compensa o investimento de tempo |
| Série grande / massa | milhares | setup quase irrelevante por peça; material e ciclo dominam |
Uma peça em aço, unitária, com um setup de 45 minutos: só o setup acrescenta 45 minutos ao custo dessa única peça. A mesma peça, num lote de 500, tem o mesmo setup de 45 minutos repartido por 500 unidades, ou seja, cerca de 5,4 segundos por peça.
2. Tipos de produção, materiais e tratamentos superficiais
Tecnologia dos materiais
O material da peça condiciona três coisas ao mesmo tempo: o preço da matéria-prima, a velocidade de corte possível e o desgaste da ferramenta.
| Material | Custo relativo | Maquinabilidade |
|---|---|---|
| Aço ao carbono | baixo | boa |
| Aço inoxidável | médio-alto | difícil (endurece ao corte) |
| Liga de alumínio | médio | muito boa, rápida |
| Liga de titânio / superliga | alto | muito difícil, corte lento |
Identificar a matéria-prima corretamente, a partir do desenho e da ficha de fabrico, é indispensável antes de qualquer cálculo de custo.
Tratamentos superficiais
Muitas peças exigem um tratamento superficial após a maquinação, com custo próprio a somar ao orçamento:
- Anodização (alumínio): proteção e cor, cobrada por área.
- Zincagem ou cromagem: proteção contra corrosão.
- Tratamento térmico (têmpera, cementação): dureza, cobrado por peso ou por lote.
- Pintura ou revestimento: acabamento e proteção adicional.
Identificar o tratamento superficial pedido no desenho e calcular a área de superfície a tratar são duas aptidões diretamente ligadas: o fornecedor externo cobra tipicamente por m² ou por dm².
Um tratamento superficial esquecido no orçamento é um dos erros mais frequentes: como é feito por terceiros, não "aparece" na maquinação e é fácil de ignorar se não se seguir a ficha de fabrico à letra.
3. Custo de matéria-prima
Determinar massas, volumes e áreas
Antes de calcular o custo de matéria-prima, é preciso saber quanto material a peça consome de facto.
- Volume da peça e, sobretudo, do material de partida (barra, chapa ou blank), calculado a partir das cotas do desenho.
- Massa do material de partida:
massa = volume × massa volúmica. - Área de superfície, necessária quando há tratamentos superficiais a orçamentar.
O custo calcula-se sobre o material de partida (a barra bruta), não sobre o volume da peça já maquinada. Esquecer a sobre-espessura de maquinação é um erro clássico de principiante.
Custo de matéria-prima: fatores determinantes e fórmula
O custo de matéria-prima depende de vários fatores em simultâneo:
- Preço por kg do material, que varia com o tipo de liga e com o mercado (as cotações dos metais oscilam ao longo do ano).
- Massa volúmica do material.
- Volume do material de partida.
- Desperdício (aparas) e o eventual valor de sucata a descontar.
Custo_MP = (Volume_partida × massa_volumica × preço_kg) − valor_sucata
Exemplo resolvido: custo de matéria-prima
Peça em alumínio (massa volúmica 2,70 kg/dm³), maquinada a partir de uma barra de 0,25 dm³. Preço do alumínio: 4,50 €/kg. Apara recuperável: 0,15 kg a 0,90 €/kg.
- Massa da barra:
0,25 dm³ × 2,70 kg/dm³ = 0,675 kg - Custo bruto:
0,675 kg × 4,50 €/kg = 3,0375 € - Valor da sucata:
0,15 kg × 0,90 €/kg = 0,135 € - Custo final de matéria-prima:
3,0375 − 0,135 = 2,9025 ≈ 2,90 €
Repetindo o cálculo em aço (massa volúmica 7,85 kg/dm³, preço 1,20 €/kg): massa da barra 0,25 × 7,85 = 1,9625 kg; custo bruto 1,9625 × 1,20 ≈ 2,36 €. Mesmo com o alumínio mais caro por kg, os dois materiais podem ficar próximos consoante a massa volúmica: por isso o cálculo tem de ser sempre feito, nunca "por regra de bolso".
4. Ferramentas, dispositivos de aperto e os seus custos
Identificar ferramentas de corte, suporte e dispositivos de aperto
Toda a operação de maquinação recorre a um conjunto de meios físicos, cada um com o seu próprio custo e vida útil:
- Ferramentas de corte: fresas, brocas, insertos, machos de roscar.
- Porta-ferramentas / suportes: fixam a ferramenta ao veio da máquina.
- Dispositivos de aperto: mordaças, bases magnéticas, grampos, mandris, platos.
- Acessórios: batentes, calços, buchas de centragem.
Calcular custos de ferramentas de corte, dispositivos de aperto e acessórios
O custo imputado à peça depende de a ferramenta ser consumível ou reutilizável:
- Consumíveis (insertos, brocas de desgaste rápido): custo unitário dividido pelo número de peças produzidas durante a sua vida útil.
- Reutilizáveis (mandris, dispositivos de aperto): custo de aquisição amortizado pelo número total de peças esperado ao longo de toda a vida do dispositivo.
Custo_ferramenta_por_peça = Custo_da_ferramenta ÷ Peças_produzidas_por_vida_útil
Um dispositivo de aperto especial custou 800 €. Ao longo da sua vida útil espera-se que produza 20.000 peças. Custo imputado por peça: 800 ÷ 20.000 = 0,04 € (4 cêntimos por peça).
Estimar tempos de vida útil da ferramenta de corte
A vida útil da ferramenta de corte é o número de peças, ou de minutos de corte, que a ferramenta produz antes de perder o fio ou a tolerância exigida. Depende de:
- Material da peça (mais duro, vida útil mais curta).
- Velocidade de corte, avanço e profundidade de passe.
- Recomendações do fabricante do inserto ou da broca, na ficha de ferramentas.
Um inserto barato mas com vida útil curta pode custar mais por peça do que um inserto caro de longa duração. Compara sempre o custo por peça, nunca o preço de compra isolado.
5. Custo de mão de obra e de hora-máquina
Custo de mão de obra: fatores determinantes e fórmula
O custo de mão de obra imputado a uma peça é o tempo de trabalho humano necessário, valorizado ao custo/hora real do operador.
- Salário base + encargos (segurança social, seguros): o custo/hora real é o salário bruto acrescido de 25 a 30% de encargos da entidade patronal. Atenção à base de cálculo: os encargos incidem sobre a remuneração bruta, nunca sobre o salário líquido que o trabalhador recebe.
- Tempo imputável: preparação, vigilância da máquina, controlo de qualidade, não apenas o tempo de "carregar no botão".
- Trabalho especializado (por exemplo, programação CNC) custa mais por hora do que uma operação simples de vigilância.
Custo_MO = Tempo_de_mão_de_obra (h) × custo_hora_do_operador
Custo de mão de obra e de hora-máquina: o custo de hora-máquina
O custo de hora-máquina cobre tudo o que o equipamento consome e desgasta enquanto trabalha:
- Amortização do equipamento: preço de aquisição dividido pela vida útil em horas.
- Energia elétrica consumida.
- Manutenção, lubrificantes e refrigerante de corte.
- Infraestrutura: rateio de renda e seguros do espaço ocupado.
Custo_hora_máquina = amortização/h + energia/h + manutenção/h + outros custos indiretos/h
Exemplo resolvido: custo combinado de fabrico
Uma fresadora CNC tem um custo de amortização de 8 €/h, energia de 1,5 €/h e manutenção de 2 €/h. O operador custa 12 €/h, já com encargos.
- Custo de hora-máquina:
8 + 1,5 + 2 = 11,5 €/h - Custo de mão de obra:
12 €/h - Custo combinado de fabrico:
11,5 + 12 = 23,5 €/h
Se uma operação demora 6 minutos (0,1 h), o custo dessa operação é 23,5 × 0,1 = 2,35 €. Para um lote de 200 peças à mesma operação, o custo total sobe para 2,35 × 200 = 470 €.
6. Setup interno e setup externo
O setup é a preparação da máquina para produzir: montar dispositivos, calibrar origens, carregar o programa, validar a primeira peça. É tempo em que a máquina não produz, mas que é indispensável.
Etapas e operações tipo de um setup
- Preparação do posto: material, ferramentas, dispositivos, ficha de fabrico à mão.
- Montagem do dispositivo de aperto e fixação na mesa ou no mandril.
- Colocação e verificação das ferramentas nos porta-ferramentas.
- Definição de origens (zeros peça) e carregamento do programa.
- Primeira peça e controlo dimensional, antes de libertar o lote para produção corrente.
Setup interno vs setup externo
| Setup interno | Setup externo | |
|---|---|---|
| Quando ocorre | com a máquina parada | com a máquina ainda a produzir o lote anterior |
| Exemplos | montar dispositivo, zerar origens | preparar ferramentas, pré-montar dispositivos numa bancada |
| Impacto no tempo de fabrico | direto, soma tempo improdutivo | mínimo, corre em paralelo |
| Estratégia | reduzir ao mínimo indispensável | converter o máximo de interno em externo |
Impacto do setup e da interatividade do operador nos tempos de fabrico
A interatividade do operador, ou seja, o quanto tem de intervir manualmente durante o setup, é um dos fatores que mais influencia a sua duração. Um setup muito manual, com muitas verificações e ajustes, demora mais e tem mais variabilidade do que um setup normalizado com dispositivos dedicados.
A estratégia mais eficaz para baixar custos numa série pequena não é acelerar a maquinação, é converter setup interno em externo: preparar o máximo possível fora da máquina, enquanto ela ainda trabalha no lote anterior.
7. Tempos de ciclo, produtivos e improdutivos
Operações de maquinação
O tempo de fabrico soma-se operação a operação. As mais comuns em CNC são o faceamento, o desbaste e o acabamento de superfícies, a furação, a roscagem, a mandrilagem e o contorno de perfis. Cada operação tem tempo de corte, tempo de posicionamento e ferramenta próprios.
Tempo de ciclo
O tempo de ciclo é o tempo total entre o início da maquinação de uma peça e o início da peça seguinte, em regime de produção estável. Inclui:
- Tempo de corte: a ferramenta efetivamente a cortar material.
- Tempo em vazio: deslocações rápidas, trocas de ferramenta, posicionamentos.
Tempo_de_ciclo = Σ tempos_de_corte + Σ tempos_em_vazio
O tempo de ciclo não inclui o setup, que é gasto uma vez por lote, não repetido peça a peça.
Tempos produtivos e improdutivos na maquinação
| Tempo produtivo | Tempo improdutivo |
|---|---|
| Corte efetivo de material | Deslocações em vazio |
| Troca de ferramenta | |
| Setup e primeira peça | |
| Paragens e pequenas avarias |
Nenhuma oficina trabalha a 100% de tempo produtivo. Um bom orçamentista aplica um fator de eficiência realista (tipicamente entre 75% e 85%), em vez de assumir que a máquina corta ininterruptamente.
Estimar tempos de maquinação por operação/ferramenta
Para cada operação, o tempo estima-se a partir dos parâmetros de corte:
t_corte = comprimento_do_percurso ÷ velocidade_de_avanço
t_vazio = comprimento_da_deslocação ÷ velocidade_de_avanço_rápido
Um furo de 20 mm de profundidade, a um avanço de 100 mm/min, demora 20 ÷ 100 = 0,2 min de corte efetivo, ou seja, 12 segundos. Multiplicado por 20 furos iguais na mesma peça, o tempo de furação sobe para 4 minutos.
8. Programação e simulação CNC no estudo dos tempos
Métodos de programação CNC
O tempo (e o custo) de programação também entra no orçamento, sobretudo em peças novas ou de série pequena:
- Programação manual em código ISO: controlo total, mais lenta em geometrias complexas.
- Programação conversacional: diálogo guiado no comando da máquina, rápida para peças simples.
- Programação assistida por CAM: gera o código a partir do modelo 3D, indispensável em geometrias complexas.
Estimar tempos de programação
O tempo de programação é o tempo do técnico a escrever, editar e preparar o programa CNC. Depende da complexidade da peça e da experiência do programador, e é imputado uma vez por lote, tal como o setup: para um lote pequeno, pesa proporcionalmente muito mais no custo por peça do que para um lote grande.
Um programa que demora 2 horas a preparar (120 minutos), para um lote de 10 peças, acrescenta 120 ÷ 10 = 12 minutos ao custo por peça. Para um lote de 500, acrescenta apenas 0,24 minutos por peça.
Aplicar a simulação gráfica no estudo dos tempos
Antes de correr o programa na máquina real, simula-se graficamente para validar a segurança e para estimar o tempo de ciclo com rigor:
- O simulador calcula o tempo total do ciclo com os parâmetros reais de corte e de deslocação.
- Deteta colisões, percursos ineficientes e movimentos em vazio desnecessários.
- Um percurso otimizado na simulação reduz diretamente o tempo, e logo o custo, do fabrico real.
A simulação gráfica não serve só para segurança: dá ao orçamentista um tempo de ciclo calculado e verificável, muito mais fiável do que uma estimativa "a olho".
9. Fatores do custo total e subcontratação
Fatores que influenciam o custo total de um produto
Além de matéria-prima, ferramentas, mão de obra e hora-máquina, o custo total inclui fatores frequentemente esquecidos:
- Energia consumida por toda a instalação, não apenas pela máquina em causa.
- Custos indiretos: administração, comercial, qualidade, logística.
- Infraestruturas: renda, seguros, manutenção do edifício.
- Impostos e taxas associados à atividade.
- Amortizações de equipamento e instalações.
Estes custos são normalmente rateados, ou seja, distribuídos por hora de máquina ou por peça, através de uma taxa horária global da oficina que os inclui.
Produção interna e subcontratação: fatores determinantes
Para cada operação, e por vezes para a peça inteira, a empresa decide entre produzir internamente ou subcontratar:
| Fator | Favorece produção interna | Favorece subcontratação |
|---|---|---|
| Quantidade | grandes séries, uso contínuo da máquina | operações pontuais, pouco frequentes |
| Especialização | processo já dominado internamente | processo muito específico, por exemplo um tratamento superficial |
| Capacidade | máquina disponível | oficina saturada, prazos apertados |
| Investimento | já amortizado na empresa | evita investir em equipamento novo |
A decisão altera a estrutura do orçamento: um custo de subcontratação entra como um valor fechado de terceiros; um custo interno tem de ser calculado peça a peça, com todas as fórmulas anteriores.
10. Métodos de estimativa, margens de lucro e o orçamento final
Métodos de estimativa de custos
Um orçamentista escolhe o método de estimativa consoante a informação disponível e o tempo comercial:
- Estimativa analítica (bottom-up): soma custo a custo de cada operação, material e ferramenta. É a mais rigorosa e a mais demorada.
- Estimativa comparativa: parte de uma peça semelhante já orçamentada, ajustada às diferenças.
- Estimativa paramétrica: usa fórmulas ou taxas por características da peça, como peso, volume ou número de operações.
Em peças novas e críticas usa-se a analítica; em peças recorrentes, a comparativa ou a paramétrica são mais rápidas e suficientemente exatas.
Custo-benefício e margens de lucro
O custo calculado, somando matéria-prima, ferramentas, mão de obra, hora-máquina e custos indiretos, é o custo de fabrico. O preço proposto ao cliente soma uma margem:
Preço_de_venda = Custo_total × (1 + margem)
A margem cobre o risco do negócio e gera lucro: demasiado baixa, não sustenta a empresa; demasiado alta, perde a proposta para a concorrência. A análise de custo-benefício pesa sempre o preço proposto contra o valor entregue ao cliente: qualidade, prazo e fiabilidade.
Folhas de cálculo e colaborar na elaboração de orçamentos
Na prática, todo o estudo organiza-se numa folha de cálculo, com fórmulas ligadas, para calcular depressa e sem erros manuais:
- Uma linha por custo: matéria-prima, ferramentas, mão de obra, hora-máquina, setup, programação, custos indiretos.
- Mudar a quantidade do lote recalcula automaticamente o custo por peça.
- Um formulário próprio da empresa, com campos normalizados, facilita a revisão e a colaboração entre departamentos.
Colaborar na elaboração de orçamentos é reunir todos estes valores num documento claro, revisto por outra pessoa, e pronto para ser enviado ao cliente.
Erros comuns
- Calcular a massa a partir da peça acabada, esquecendo a sobre-espessura de maquinação do material de partida.
- Esquecer o valor da sucata a descontar no custo de matéria-prima.
- Esquecer o tratamento superficial no orçamento, por não "aparecer" na maquinação.
- Usar o salário líquido como base do custo/hora de mão de obra: os encargos da entidade patronal calculam-se sobre o salário bruto.
- Aplicar o mesmo custo/hora a todas as máquinas da oficina, ignorando amortização e consumo diferentes.
- Orçamentar como se a máquina cortasse ininterruptamente, sem fator de eficiência real.
- Esquecer o tempo de programação de uma peça nova, contando apenas a maquinação.
- Ignorar os custos indiretos (energia geral, administração, infraestrutura, impostos, amortizações).
- Baixar a margem para ganhar uma proposta sem verificar se o custo de base já estava subestimado.
Glossário
- Orçamento · documento com o preço proposto ao cliente, sustentado em custos calculados.
- Setup interno · preparação feita com a máquina parada.
- Setup externo · preparação feita enquanto a máquina ainda produz o lote anterior.
- Tempo de ciclo · tempo total de fabrico de uma peça em regime estável, corte mais tempo em vazio.
- Tempo produtivo · tempo em que a máquina está efetivamente a cortar material.
- Tempo improdutivo · tempo de setup, deslocações, trocas de ferramenta e paragens.
- Vida útil da ferramenta · número de peças, ou minutos de corte, que uma ferramenta produz antes de perder rendimento.
- Custo de hora-máquina · amortização, energia, manutenção e infraestrutura, rateados por hora de utilização.
- Custo de mão de obra · custo/hora do operador, incluindo encargos sociais.
- Custos indiretos · energia geral, administração, infraestrutura, impostos e amortizações, rateados pela produção.
- Subcontratação · produzir uma operação, ou a peça, fora da empresa, através de um fornecedor.
- Margem · percentagem somada ao custo total para formar o preço de venda.
- Estimativa analítica · cálculo detalhado custo a custo de cada operação.
- Estimativa comparativa · baseada numa peça semelhante já orçamentada.
- Estimativa paramétrica · baseada em fórmulas ou taxas por características da peça.
- Simulação gráfica · reprodução do programa CNC no computador, para validar e medir tempos.
Síntese
Orçamentar uma peça CNC segue sempre a mesma sequência: ler o desenho e caracterizar o produto e o tipo de produção → calcular o custo de matéria-prima (massa, sucata, preço/kg) → calcular o custo de ferramentas e dispositivos (consumíveis vs reutilizáveis) → calcular custo de mão de obra e de hora-máquina → estimar o tempo de setup (interno e externo) → estimar o tempo de ciclo (corte, vazio, tempos produtivos e improdutivos) → considerar o tempo de programação e validar por simulação gráfica → somar os custos indiretos e decidir entre produção interna e subcontratação → aplicar a margem de lucro numa folha de cálculo e colaborar na elaboração do orçamento final. Domina este fluxo e serás capaz de orçamentar qualquer peça, de um protótipo unitário a uma série de milhares.
Exercícios resolvidos
1. Uma peça em aço (massa volúmica 7,85 kg/dm³) é maquinada a partir de uma barra de 0,4 dm³. O aço custa 1,50 €/kg. Não há sucata recuperável. Qual o custo de matéria-prima?
Resolução: massa da barra
0,4 × 7,85 = 3,14 kg. Custo3,14 × 1,50 = 4,71 €. Sem sucata a descontar, o custo final é 4,71 €.
2. Um dispositivo de aperto especial custou 1.200 € e produz, ao longo da sua vida útil, 30.000 peças. Qual o custo do dispositivo por peça?
Resolução:
1.200 ÷ 30.000 = 0,04 €por peça, ou seja, 4 cêntimos por peça. É um custo reutilizável, amortizado pelo número total de peças, não pelo lote atual.
3. Uma máquina tem custo de hora-máquina de 15 €/h e o operador custa 10 €/h. Uma operação demora 9 minutos. Qual o custo de fabrico dessa operação?
Resolução: custo combinado
15 + 10 = 25 €/h. Tempo em horas:9 ÷ 60 = 0,15 h. Custo:25 × 0,15 = 3,75 €por peça nessa operação.
4. Uma oficina tem 80% de eficiência (tempo produtivo sobre tempo total). Precisa de 6 horas de corte efetivo. Quantas horas reais de máquina precisa reservar?
Resolução:
6 ÷ 0,80 = 7,5 horas. O tempo improdutivo (setup, trocas de ferramenta, pequenas paragens) representa os restantes 1,5 horas.
5. Um programa CNC demora 3 horas a preparar. É para um lote de 15 peças. Quanto tempo de programação é imputado a cada peça?
Resolução:
3 horas = 180 minutos.180 ÷ 15 = 12 minutospor peça. Se o lote fosse de 150 peças, seria apenas 1,2 minutos por peça, o que mostra porque a programação pesa muito mais nas séries pequenas.
6. Um cliente pede duas propostas: a oficina A com máquina já amortizada e a oficina B com máquina nova, ainda em amortização. Porque é que a oficina A pode propor um preço mais baixo pela mesma peça?
Resolução: o custo de hora-máquina inclui a amortização do equipamento. Uma máquina já amortizada tem esse fator reduzido ou nulo, baixando o custo de hora-máquina e, logo, o custo total de fabrico, mesmo com energia e manutenção semelhantes.
7. Uma empresa recebe um pedido de tratamento superficial (anodização) pontual, uma vez por ano. Deve investir num equipamento próprio ou subcontratar? Justifica com um fator do referencial.
Resolução: deve subcontratar. O fator determinante é a quantidade (operação pontual, pouco frequente) e o investimento: comprar equipamento de anodização para um uso raro não se justifica economicamente, ao contrário de uma operação recorrente e de grande volume.