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UC · Unidade de Competência · UC02962

Sebenta · Orçamentar custos de fabrico de peças em equipamentos CNC (UC02962)

Do desenho da peça ao orçamento fechado, com matéria-prima, ferramentas, mão de obra, hora-máquina e tempos
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Programação e Maquinaçã ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a orçamentar o fabrico de peças em equipamentos CNC: calcular, com rigor e não "a olho", quanto custa produzir uma peça numa oficina de maquinação. É a competência que liga o desenho técnico ao departamento comercial, e que decide se uma proposta ganha um cliente ou faz a empresa perder dinheiro.

O percurso segue o trabalho real de um orçamentista de maquinação: primeiro analisamos os requisitos de produção (o desenho, o material, o tipo de série), depois efetuamos o estudo de tempos e custos de fabrico (matéria-prima, ferramentas, mão de obra, hora-máquina, setup e tempos de ciclo), e por fim colaboramos na elaboração de orçamentos, reunindo tudo numa folha de cálculo e somando a margem de lucro. No fim, deves conseguir olhar para um desenho de fabrico e devolver, com cálculos concretos, um preço justificado.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os requisitos de produção e as especificações da peça; efetuar o estudo de tempos e custos de fabrico, calculando os custos de matéria-prima, ferramentas e dispositivos em função do tipo de produção e produto, efetuando estimativas de tempos de setup e fabrico, e considerando os custos de hora-máquina e de mão de obra; e colaborar na elaboração de orçamentos.

1. Requisitos de produção e leitura da peça

Nenhum orçamento nasce do nada: nasce da leitura correta do desenho de definição da peça e da caracterização do que vai ser produzido.

Desenho técnico: normas, projeções, cortes e cotagem

O desenho técnico segue normas que qualquer profissional, em qualquer oficina, sabe interpretar:

Cada um destes elementos tem impacto direto no orçamento: uma nota de tratamento térmico esquecida, ou uma tolerância mal lida, geram um preço errado.

Ficha de fabrico e ficha de ferramentas

O orçamentista trabalha sempre com dois documentos internos da oficina:

Interpretar o desenho de fabrico, a ficha de fabrico e as ferramentas é a primeira aptidão que sustenta todo o processo de orçamentação.

Caracterizar o produto e o tipo de produção

O mesmo desenho gera custos por peça muito diferentes consoante a quantidade a produzir:

Tipo de produção Quantidade Impacto no orçamento
Unitária / prototipagem 1 peça o setup pesa quase tudo no custo unitário
Série pequena dezenas setup ainda relevante, mas já diluído
Série média centenas otimizar o processo compensa o investimento de tempo
Série grande / massa milhares setup quase irrelevante por peça; material e ciclo dominam

Uma peça em aço, unitária, com um setup de 45 minutos: só o setup acrescenta 45 minutos ao custo dessa única peça. A mesma peça, num lote de 500, tem o mesmo setup de 45 minutos repartido por 500 unidades, ou seja, cerca de 5,4 segundos por peça.

2. Tipos de produção, materiais e tratamentos superficiais

Tecnologia dos materiais

O material da peça condiciona três coisas ao mesmo tempo: o preço da matéria-prima, a velocidade de corte possível e o desgaste da ferramenta.

Material Custo relativo Maquinabilidade
Aço ao carbono baixo boa
Aço inoxidável médio-alto difícil (endurece ao corte)
Liga de alumínio médio muito boa, rápida
Liga de titânio / superliga alto muito difícil, corte lento

Identificar a matéria-prima corretamente, a partir do desenho e da ficha de fabrico, é indispensável antes de qualquer cálculo de custo.

Tratamentos superficiais

Muitas peças exigem um tratamento superficial após a maquinação, com custo próprio a somar ao orçamento:

Identificar o tratamento superficial pedido no desenho e calcular a área de superfície a tratar são duas aptidões diretamente ligadas: o fornecedor externo cobra tipicamente por m² ou por dm².

Um tratamento superficial esquecido no orçamento é um dos erros mais frequentes: como é feito por terceiros, não "aparece" na maquinação e é fácil de ignorar se não se seguir a ficha de fabrico à letra.

3. Custo de matéria-prima

Determinar massas, volumes e áreas

Antes de calcular o custo de matéria-prima, é preciso saber quanto material a peça consome de facto.

O custo calcula-se sobre o material de partida (a barra bruta), não sobre o volume da peça já maquinada. Esquecer a sobre-espessura de maquinação é um erro clássico de principiante.

Custo de matéria-prima: fatores determinantes e fórmula

O custo de matéria-prima depende de vários fatores em simultâneo:

Custo_MP = (Volume_partida × massa_volumica × preço_kg) − valor_sucata

Exemplo resolvido: custo de matéria-prima

Peça em alumínio (massa volúmica 2,70 kg/dm³), maquinada a partir de uma barra de 0,25 dm³. Preço do alumínio: 4,50 €/kg. Apara recuperável: 0,15 kg a 0,90 €/kg.

  1. Massa da barra: 0,25 dm³ × 2,70 kg/dm³ = 0,675 kg
  2. Custo bruto: 0,675 kg × 4,50 €/kg = 3,0375 €
  3. Valor da sucata: 0,15 kg × 0,90 €/kg = 0,135 €
  4. Custo final de matéria-prima: 3,0375 − 0,135 = 2,9025 ≈ 2,90 €

Repetindo o cálculo em aço (massa volúmica 7,85 kg/dm³, preço 1,20 €/kg): massa da barra 0,25 × 7,85 = 1,9625 kg; custo bruto 1,9625 × 1,20 ≈ 2,36 €. Mesmo com o alumínio mais caro por kg, os dois materiais podem ficar próximos consoante a massa volúmica: por isso o cálculo tem de ser sempre feito, nunca "por regra de bolso".

4. Ferramentas, dispositivos de aperto e os seus custos

Identificar ferramentas de corte, suporte e dispositivos de aperto

Toda a operação de maquinação recorre a um conjunto de meios físicos, cada um com o seu próprio custo e vida útil:

Calcular custos de ferramentas de corte, dispositivos de aperto e acessórios

O custo imputado à peça depende de a ferramenta ser consumível ou reutilizável:

Custo_ferramenta_por_peça = Custo_da_ferramenta ÷ Peças_produzidas_por_vida_útil

Um dispositivo de aperto especial custou 800 €. Ao longo da sua vida útil espera-se que produza 20.000 peças. Custo imputado por peça: 800 ÷ 20.000 = 0,04 € (4 cêntimos por peça).

Estimar tempos de vida útil da ferramenta de corte

A vida útil da ferramenta de corte é o número de peças, ou de minutos de corte, que a ferramenta produz antes de perder o fio ou a tolerância exigida. Depende de:

Um inserto barato mas com vida útil curta pode custar mais por peça do que um inserto caro de longa duração. Compara sempre o custo por peça, nunca o preço de compra isolado.

5. Custo de mão de obra e de hora-máquina

Custo de mão de obra: fatores determinantes e fórmula

O custo de mão de obra imputado a uma peça é o tempo de trabalho humano necessário, valorizado ao custo/hora real do operador.

Custo_MO = Tempo_de_mão_de_obra (h) × custo_hora_do_operador

Custo de mão de obra e de hora-máquina: o custo de hora-máquina

O custo de hora-máquina cobre tudo o que o equipamento consome e desgasta enquanto trabalha:

Custo_hora_máquina = amortização/h + energia/h + manutenção/h + outros custos indiretos/h

Exemplo resolvido: custo combinado de fabrico

Uma fresadora CNC tem um custo de amortização de 8 €/h, energia de 1,5 €/h e manutenção de 2 €/h. O operador custa 12 €/h, já com encargos.

  1. Custo de hora-máquina: 8 + 1,5 + 2 = 11,5 €/h
  2. Custo de mão de obra: 12 €/h
  3. Custo combinado de fabrico: 11,5 + 12 = 23,5 €/h

Se uma operação demora 6 minutos (0,1 h), o custo dessa operação é 23,5 × 0,1 = 2,35 €. Para um lote de 200 peças à mesma operação, o custo total sobe para 2,35 × 200 = 470 €.

6. Setup interno e setup externo

O setup é a preparação da máquina para produzir: montar dispositivos, calibrar origens, carregar o programa, validar a primeira peça. É tempo em que a máquina não produz, mas que é indispensável.

Etapas e operações tipo de um setup

  1. Preparação do posto: material, ferramentas, dispositivos, ficha de fabrico à mão.
  2. Montagem do dispositivo de aperto e fixação na mesa ou no mandril.
  3. Colocação e verificação das ferramentas nos porta-ferramentas.
  4. Definição de origens (zeros peça) e carregamento do programa.
  5. Primeira peça e controlo dimensional, antes de libertar o lote para produção corrente.

Setup interno vs setup externo

Setup interno Setup externo
Quando ocorre com a máquina parada com a máquina ainda a produzir o lote anterior
Exemplos montar dispositivo, zerar origens preparar ferramentas, pré-montar dispositivos numa bancada
Impacto no tempo de fabrico direto, soma tempo improdutivo mínimo, corre em paralelo
Estratégia reduzir ao mínimo indispensável converter o máximo de interno em externo

Impacto do setup e da interatividade do operador nos tempos de fabrico

A interatividade do operador, ou seja, o quanto tem de intervir manualmente durante o setup, é um dos fatores que mais influencia a sua duração. Um setup muito manual, com muitas verificações e ajustes, demora mais e tem mais variabilidade do que um setup normalizado com dispositivos dedicados.

A estratégia mais eficaz para baixar custos numa série pequena não é acelerar a maquinação, é converter setup interno em externo: preparar o máximo possível fora da máquina, enquanto ela ainda trabalha no lote anterior.

7. Tempos de ciclo, produtivos e improdutivos

Operações de maquinação

O tempo de fabrico soma-se operação a operação. As mais comuns em CNC são o faceamento, o desbaste e o acabamento de superfícies, a furação, a roscagem, a mandrilagem e o contorno de perfis. Cada operação tem tempo de corte, tempo de posicionamento e ferramenta próprios.

Tempo de ciclo

O tempo de ciclo é o tempo total entre o início da maquinação de uma peça e o início da peça seguinte, em regime de produção estável. Inclui:

Tempo_de_ciclo = Σ tempos_de_corte + Σ tempos_em_vazio

O tempo de ciclo não inclui o setup, que é gasto uma vez por lote, não repetido peça a peça.

Tempos produtivos e improdutivos na maquinação

Tempo produtivo Tempo improdutivo
Corte efetivo de material Deslocações em vazio
Troca de ferramenta
Setup e primeira peça
Paragens e pequenas avarias

Nenhuma oficina trabalha a 100% de tempo produtivo. Um bom orçamentista aplica um fator de eficiência realista (tipicamente entre 75% e 85%), em vez de assumir que a máquina corta ininterruptamente.

Estimar tempos de maquinação por operação/ferramenta

Para cada operação, o tempo estima-se a partir dos parâmetros de corte:

t_corte = comprimento_do_percurso ÷ velocidade_de_avanço
t_vazio = comprimento_da_deslocação ÷ velocidade_de_avanço_rápido

Um furo de 20 mm de profundidade, a um avanço de 100 mm/min, demora 20 ÷ 100 = 0,2 min de corte efetivo, ou seja, 12 segundos. Multiplicado por 20 furos iguais na mesma peça, o tempo de furação sobe para 4 minutos.

8. Programação e simulação CNC no estudo dos tempos

Métodos de programação CNC

O tempo (e o custo) de programação também entra no orçamento, sobretudo em peças novas ou de série pequena:

Estimar tempos de programação

O tempo de programação é o tempo do técnico a escrever, editar e preparar o programa CNC. Depende da complexidade da peça e da experiência do programador, e é imputado uma vez por lote, tal como o setup: para um lote pequeno, pesa proporcionalmente muito mais no custo por peça do que para um lote grande.

Um programa que demora 2 horas a preparar (120 minutos), para um lote de 10 peças, acrescenta 120 ÷ 10 = 12 minutos ao custo por peça. Para um lote de 500, acrescenta apenas 0,24 minutos por peça.

Aplicar a simulação gráfica no estudo dos tempos

Antes de correr o programa na máquina real, simula-se graficamente para validar a segurança e para estimar o tempo de ciclo com rigor:

A simulação gráfica não serve só para segurança: dá ao orçamentista um tempo de ciclo calculado e verificável, muito mais fiável do que uma estimativa "a olho".

9. Fatores do custo total e subcontratação

Fatores que influenciam o custo total de um produto

Além de matéria-prima, ferramentas, mão de obra e hora-máquina, o custo total inclui fatores frequentemente esquecidos:

Estes custos são normalmente rateados, ou seja, distribuídos por hora de máquina ou por peça, através de uma taxa horária global da oficina que os inclui.

Produção interna e subcontratação: fatores determinantes

Para cada operação, e por vezes para a peça inteira, a empresa decide entre produzir internamente ou subcontratar:

Fator Favorece produção interna Favorece subcontratação
Quantidade grandes séries, uso contínuo da máquina operações pontuais, pouco frequentes
Especialização processo já dominado internamente processo muito específico, por exemplo um tratamento superficial
Capacidade máquina disponível oficina saturada, prazos apertados
Investimento já amortizado na empresa evita investir em equipamento novo

A decisão altera a estrutura do orçamento: um custo de subcontratação entra como um valor fechado de terceiros; um custo interno tem de ser calculado peça a peça, com todas as fórmulas anteriores.

10. Métodos de estimativa, margens de lucro e o orçamento final

Métodos de estimativa de custos

Um orçamentista escolhe o método de estimativa consoante a informação disponível e o tempo comercial:

Em peças novas e críticas usa-se a analítica; em peças recorrentes, a comparativa ou a paramétrica são mais rápidas e suficientemente exatas.

Custo-benefício e margens de lucro

O custo calculado, somando matéria-prima, ferramentas, mão de obra, hora-máquina e custos indiretos, é o custo de fabrico. O preço proposto ao cliente soma uma margem:

Preço_de_venda = Custo_total × (1 + margem)

A margem cobre o risco do negócio e gera lucro: demasiado baixa, não sustenta a empresa; demasiado alta, perde a proposta para a concorrência. A análise de custo-benefício pesa sempre o preço proposto contra o valor entregue ao cliente: qualidade, prazo e fiabilidade.

Folhas de cálculo e colaborar na elaboração de orçamentos

Na prática, todo o estudo organiza-se numa folha de cálculo, com fórmulas ligadas, para calcular depressa e sem erros manuais:

Colaborar na elaboração de orçamentos é reunir todos estes valores num documento claro, revisto por outra pessoa, e pronto para ser enviado ao cliente.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Orçamentar uma peça CNC segue sempre a mesma sequência: ler o desenho e caracterizar o produto e o tipo de produçãocalcular o custo de matéria-prima (massa, sucata, preço/kg) → calcular o custo de ferramentas e dispositivos (consumíveis vs reutilizáveis) → calcular custo de mão de obra e de hora-máquinaestimar o tempo de setup (interno e externo) → estimar o tempo de ciclo (corte, vazio, tempos produtivos e improdutivos) → considerar o tempo de programação e validar por simulação gráficasomar os custos indiretos e decidir entre produção interna e subcontrataçãoaplicar a margem de lucro numa folha de cálculo e colaborar na elaboração do orçamento final. Domina este fluxo e serás capaz de orçamentar qualquer peça, de um protótipo unitário a uma série de milhares.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça em aço (massa volúmica 7,85 kg/dm³) é maquinada a partir de uma barra de 0,4 dm³. O aço custa 1,50 €/kg. Não há sucata recuperável. Qual o custo de matéria-prima?

Resolução: massa da barra 0,4 × 7,85 = 3,14 kg. Custo 3,14 × 1,50 = 4,71 €. Sem sucata a descontar, o custo final é 4,71 €.

2. Um dispositivo de aperto especial custou 1.200 € e produz, ao longo da sua vida útil, 30.000 peças. Qual o custo do dispositivo por peça?

Resolução: 1.200 ÷ 30.000 = 0,04 € por peça, ou seja, 4 cêntimos por peça. É um custo reutilizável, amortizado pelo número total de peças, não pelo lote atual.

3. Uma máquina tem custo de hora-máquina de 15 €/h e o operador custa 10 €/h. Uma operação demora 9 minutos. Qual o custo de fabrico dessa operação?

Resolução: custo combinado 15 + 10 = 25 €/h. Tempo em horas: 9 ÷ 60 = 0,15 h. Custo: 25 × 0,15 = 3,75 € por peça nessa operação.

4. Uma oficina tem 80% de eficiência (tempo produtivo sobre tempo total). Precisa de 6 horas de corte efetivo. Quantas horas reais de máquina precisa reservar?

Resolução: 6 ÷ 0,80 = 7,5 horas. O tempo improdutivo (setup, trocas de ferramenta, pequenas paragens) representa os restantes 1,5 horas.

5. Um programa CNC demora 3 horas a preparar. É para um lote de 15 peças. Quanto tempo de programação é imputado a cada peça?

Resolução: 3 horas = 180 minutos. 180 ÷ 15 = 12 minutos por peça. Se o lote fosse de 150 peças, seria apenas 1,2 minutos por peça, o que mostra porque a programação pesa muito mais nas séries pequenas.

6. Um cliente pede duas propostas: a oficina A com máquina já amortizada e a oficina B com máquina nova, ainda em amortização. Porque é que a oficina A pode propor um preço mais baixo pela mesma peça?

Resolução: o custo de hora-máquina inclui a amortização do equipamento. Uma máquina já amortizada tem esse fator reduzido ou nulo, baixando o custo de hora-máquina e, logo, o custo total de fabrico, mesmo com energia e manutenção semelhantes.

7. Uma empresa recebe um pedido de tratamento superficial (anodização) pontual, uma vez por ano. Deve investir num equipamento próprio ou subcontratar? Justifica com um fator do referencial.

Resolução: deve subcontratar. O fator determinante é a quantidade (operação pontual, pouco frequente) e o investimento: comprar equipamento de anodização para um uso raro não se justifica economicamente, ao contrário de uma operação recorrente e de grande volume.