Partilhar: WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02960

Sebenta · Elaborar programas de fabrico em fresadoras CNC (UC02960)

Da leitura do desenho ao programa validado por simulação, em código ISO e conversacional
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Programação e Maquinaçã, T. Produção de Cunhos e Co, T. Projeto de Moldes e Mod ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a elaborar programas de fabrico completos para fresadoras CNC, desde a leitura do desenho técnico da peça até à validação do programa por simulação gráfica e maquinação de protótipo. É a competência central de quem trabalha em programação e maquinação CNC, produção de cunhos e cortantes, projeto de moldes e modelos ou como operador de máquinas-ferramentas.

O percurso segue o processo real de uma oficina de maquinação: primeiro analisamos os requisitos técnicos e funcionais da peça (desenho, tolerâncias, preparação de trabalho), depois desenvolvemos o código para o percurso da ferramenta (coordenadas, funções, ciclos, compensação), e por fim simulamos e validamos as sequências operatórias antes de maquinar. No fim, deves conseguir ler uma peça, planear o processo, escrever o programa em código ISO, e comprová-lo por simulação.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os requisitos técnicos e funcionais da peça; desenvolver o código para o percurso da ferramenta; efetuar a simulação gráfica e a validação das sequências operatórias e percurso da ferramenta, cumprindo as normas de representação, a sequência de operações, os códigos e sintaxe de programação, e garantindo a atualização da ficha de fabrico e da ficha de ferramentas.

1. Ler a peça: desenho técnico e tolerâncias

Um programa CNC começa sempre na leitura do desenho de definição da peça. Antes de qualquer código, o programador tem de interpretar corretamente o que o desenho pede.

Normas de representação

O desenho técnico usa uma linguagem normalizada:

Tolerâncias dimensionais e geométricas

Uma tolerância dimensional define o intervalo aceitável de uma cota: a diferença entre a cota máxima e a cota mínima. Por exemplo, uma cota Ø20 H7 corresponde ao intervalo Ø20,000 a Ø20,021 mm: qualquer valor medido dentro deste intervalo é uma peça conforme.

Uma tolerância geométrica controla forma, orientação, posição ou batimento, e é independente da tolerância dimensional: uma peça pode estar dentro da cota e, ainda assim, fora de forma (por exemplo, um furo com o diâmetro certo mas fora de posição).

Exemplo resolvido · ler uma cota tolerada

Uma cota no desenho indica Ø30 ±0,02. Calcula os limites máximo e mínimo aceitáveis.

  1. Cota nominal: 30 mm.
  2. Limite máximo: 30 + 0,02 = 30,02 mm.
  3. Limite mínimo: 30 − 0,02 = 29,98 mm.
  4. Qualquer diâmetro medido entre 29,98 e 30,02 mm é conforme.

2. Preparação de trabalho e fichas

A preparação de trabalho é o planeamento que decide como a peça vai ser maquinada, antes de escrever qualquer linha de código.

Sequência de preparação

  1. Analisar geometria, material e tolerâncias do desenho.
  2. Definir a sequência de operações: desbaste (remoção rápida de material), semiacabamento e acabamento (cotas e rugosidade finais).
  3. Escolher dispositivo de fixação, ferramentas e parâmetros de corte para cada operação.
  4. Estimar tempos de ciclo e necessidade de mudanças de ferramenta.

A ficha de fabrico

A ficha de fabrico documenta todo o processo de maquinação de uma peça, de forma a que qualquer operador o consiga reproduzir:

Campo Conteúdo
Peça / desenho referência, material, quantidade
Máquina modelo da fresadora CNC
Operações sequência numerada, com ferramenta associada
Parâmetros Vc, n, f, ap por operação
Origem peça zero-peça e sistema de fixação
Tempos estimado por operação

A ficha de ferramentas

A ficha de ferramentas lista as ferramentas do programa e os dados que a máquina precisa: número de ferramenta (T) e corretor (D/H), tipo, dimensões (diâmetro, comprimento, número de dentes), parâmetros de corte recomendados, e corretores medidos no pré-ajuste.

Ambas as fichas são um critério de desempenho explícito desta UC: têm de estar sempre atualizadas, refletindo o programa efetivamente usado na máquina.

3. Tecnologia do corte

A tecnologia do corte define como a ferramenta remove material com eficiência, sem danificar a peça nem a própria ferramenta.

Parâmetros fundamentais

Estes valores partem do catálogo de ferramentas do fabricante, ajustados ao material da peça e à rigidez da máquina.

Fórmulas fundamentais

n  = (Vc × 1000) / (π × D)      [rpm]
Vf = fz × z × n                 [mm/min]

onde D é o diâmetro da ferramenta (mm) e z é o número de dentes.

Exemplo resolvido · calcular n e Vf

Fresa de topo Ø10 mm, z = 4 dentes, Vc = 120 m/min, fz = 0,05 mm/dente (catálogo do fabricante para aço macio).

  1. Rotação: n = (120 × 1000) / (π × 10) ≈ 3 820 rpm.
  2. Avanço de trabalho: Vf = 0,05 × 4 × 3 820 ≈ 764 mm/min.
  3. Arredonda-se n para o valor mais próximo disponível na máquina (ex.: 3 800 rpm) e recalcula-se Vf se necessário.

4. Dispositivos de aperto, suportes e ferramentas de corte

Fixação da peça

A escolha depende da geometria da peça, das forças de corte previstas e do acesso necessário das ferramentas a todas as faces a maquinar.

Ferramentas de corte e suportes

Ferramenta Uso típico
Fresa de topo perfilagem, contornos, rasgos
Fresa de facear planificação de grandes superfícies
Broca furação
Macho roscagem interior
Mandril acabamento fino de furos

Os suportes e pinças (ER, hidráulicas, térmicas) fixam a ferramenta ao fuso, garantindo concentricidade. Os acessórios incluem pré-ajustadores de ferramenta (medem comprimento e diâmetro fora da máquina) e apalpadores de peça e de ferramenta.

5. Constituição e funcionamento de uma fresadora CNC

A fresadora CNC é constituída por:

O comando executa o programa bloco a bloco, movendo os eixos segundo as coordenadas e funções lidas em cada linha. A fresadora vertical (fuso na vertical) é a configuração mais comum na aprendizagem; o centro de maquinação acrescenta armazém e troca automática de ferramenta.

6. Sistema de coordenadas e pontos de referência

Zero-máquina e zero-peça

Os deslocamentos programados são sempre relativos ao zero-peça ativo, guardado num corretor de origem (G54 a G59). Determinar corretamente o zero-peça, em função do cenário e da geometria da peça, é o primeiro critério de desempenho desta UC.

Coordenadas absolutas e incrementais

Exemplo resolvido · comparar absoluto e incremental

Deslocamento da ferramenta de (0,0) para (20,0) e depois para (20,10):

Absoluto (G90):     N10 X20 Y0     N20 X20 Y10
Incremental (G91):  N10 X20 Y0     N20 X0  Y10

No modo incremental, o segundo bloco só soma o deslocamento necessário (0 em X, 10 em Y) à posição já atingida.

7. Métodos e técnicas de programação CNC

Código ISO vs conversacional

Código ISO Conversacional
Formato blocos com letras e números (G, M, X...) menus e formulários no comando
Portabilidade alta, normalizada baixa, depende do fabricante
Controlo total, todo o detalhe é explícito limitado ao que o menu oferece
Aprendizagem mais exigente mais intuitiva

Ambas geram, no fundo, movimentos de eixos e ativação de funções; o conversacional constrói o código ISO por trás do menu.

Boas práticas

8. Estrutura de um programa e funções G/M

Anatomia de um programa

%
O1001 (PECA_FLANGE)
N10  G17 G90 G94 G21 G54
N20  T1 M06 (FRESA TOPO D10)
N30  G43 H1 Z50 S3800 M03
N40  G00 X0 Y0
N50  G01 Z-5 F200
...
N120 G00 Z100
N130 M30
%

Funções auxiliares (M)

Código Função
M03 / M04 fuso roda sentido horário / anti-horário
M05 paragem do fuso
M06 mudança de ferramenta
M08 / M09 refrigerante ligado / desligado
M00 / M01 paragem de programa / paragem opcional
M30 fim de programa, retorno ao início
M98 / M99 chamada / retorno de sub-programa

Funções de preparação (G)

Código Função
G17 / G18 / G19 plano de trabalho XY / XZ / YZ
G90 / G91 coordenadas absolutas / incrementais
G94 / G95 avanço em mm/min / mm/rotação
G21 / G20 unidades métricas / imperiais
G54-G59 corretores de zero-peça
G43 / G49 ativa / cancela compensação de comprimento

9. Posicionamentos e trajetórias lineares e circulares

Movimento rápido e interpolação linear

N40  G00 X0   Y0          (aproximação rápida, em vazio)
N50  G01 Z-5  F200        (mergulho a cortar)
N60  G01 X50  Y0   F300   (corte em linha reta)

Interpolação circular

G02 descreve um arco no sentido horário; G03, no sentido anti-horário. O centro do arco define-se com I, J (deslocamento incremental do centro a partir do ponto inicial do arco) ou com R (raio).

N70  G01 X60 Y20 F300
N80  G02 X80 Y40 I20 J0     (arco horário, centro a I20 J0 do início do arco)
N90  G03 X60 Y60 R20        (arco anti-horário, raio 20)

Exemplo resolvido · programar um contorno com arco

Programar um contorno de (0,0) a (40,0) em linha reta e depois um arco de 90º até (60,20), no sentido horário, raio 20:

N10  G90 G54
N20  G00 X0 Y0
N30  G01 Z-3 F150
N40  G01 X40 Y0 F300
N50  G02 X60 Y20 R20
N60  G00 Z50

10. Compensação da ferramenta

Compensação de comprimento

G43 H_ soma o comprimento real da ferramenta (medido no pré-ajustador e registado no corretor H) à posição Z programada, permitindo escrever o programa com Z=0 na face da peça, independentemente do comprimento físico de cada ferramenta. G49 cancela a compensação.

Compensação de raio

N60  G01 G41 D1 X10 Y10 F300   (compensação à esquerda, corretor de raio D1)
...
N110 G01 G40 X0 Y0             (cancelar compensação, fora do material)

Com G41/G42 ativo, o programador escreve as coordenadas do contorno real da peça, e a máquina desvia automaticamente o centro da ferramenta pelo valor do raio guardado no corretor D.

11. Sub-programação

Um sub-programa é um bloco de código reutilizável, guardado com o seu próprio número. Chama-se com M98 P____ e regressa ao programa principal com M99.

N50  M98 P2000 (chama o sub-programa O2000)
...
O2000 (SUBPROGRAMA FUROS)
N10  G81 X10 Y10 Z-5 R2 F100
N20  X30
N30  X50
N40  M99 (regressa ao programa principal)

Usa-se sub-programação para: padrões repetidos (furação em matriz), contornos usados várias vezes no mesmo programa, e rotinas comuns entre programas diferentes (por exemplo, retirar a ferramenta em segurança). Reduz o tamanho do programa e o risco de erro ao copiar e colar código manualmente.

12. Ciclos de furação, roscagem e mandrilagem

Ciclos de furação

Código Ciclo
G81 furação simples
G73 / G83 furação com quebra de apara (peck drilling)
G82 furação com temporização no fundo
N40  G81 X10 Y10 Z-15 R2 F100
N50  X30
N60  X50
N70  G80                       (cancela o ciclo fixo)

O ciclo repete-se automaticamente para cada novo par X/Y programado, até ser cancelado com G80. R define o plano de aproximação; Z, a profundidade final do furo.

Roscagem e mandrilagem

G84, ciclo de roscagem, sincroniza a rotação do fuso com o avanço, para cortar rosca interior com macho. O avanço F tem de corresponder exatamente ao passo da rosca multiplicado pela rotação, não é um valor livre.

G85 / G86, ciclos de mandrilagem, dão acabamento fino a furos com mandril, com ou sem paragem do fuso na retração.

Exemplo resolvido · calcular o avanço de roscagem

Roscar M10 (passo 1,5 mm) a n = 500 rpm.

F = passo × n = 1,5 × 500 = 750 mm/min

13. Programação paramétrica

A programação paramétrica usa variáveis (ex.: #1, #2) em vez de valores fixos, com operações aritméticas, condições (IF) e ciclos (WHILE) diretamente no código.

#1 = 10          (diâmetro do furo)
#2 = -15         (profundidade)
G81 X0 Y0 Z[#2] R2 F100

Vantagens: menos programas para manter, adaptação rápida a variantes de peça (uma família de peças semelhantes), menos erros de cópia. Cuidado: documentar bem o significado de cada variável e testar sempre em simulação antes de correr. Só compensa a complexidade extra quando há repetição real de família de peças.

14. Edição e simulação de programas

Edição direta e remota

A edição remota tem teclado completo, verificação de sintaxe, cópias de segurança e liberta a máquina para produzir enquanto se prepara o programa seguinte.

Simulação gráfica

A simulação gráfica representa o percurso da ferramenta em 2D/3D antes de correr o programa na máquina real. Deteta colisões, percursos em vazio excessivos e erros de coordenadas ou de sintaxe, e permite comparar o material removido simulado com a geometria alvo do desenho.

Um programa só está pronto para maquinação de protótipo quando passa a simulação sem colisões e sem alarmes. É o critério de desempenho central desta UC: assegurar a otimização do percurso da ferramenta em função do observado na simulação gráfica e na maquinação de protótipo.

15. Otimização do percurso da ferramenta e segurança

Técnicas de otimização

A otimização valida-se comparando o tempo de ciclo antes e depois, verificando na simulação se entradas e saídas ficaram suaves, e confirmando na maquinação de protótipo o previsto na simulação. Os parâmetros finais registam-se sempre na ficha de fabrico.

Segurança

Uso obrigatório de equipamentos de proteção individual (EPI): óculos de proteção, calçado de segurança, proteção auditiva quando aplicável. Nunca abrir a porta de proteção com a máquina em movimento ou o fuso a rodar; manter mãos, roupa e cabelo afastados de partes móveis; cumprir sempre os planos e normas de segurança e saúde no trabalho da oficina.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Elaborar um programa de fabrico em fresadora CNC segue sempre a mesma ordem: ler a peça (desenho, tolerâncias) → preparar o trabalho (sequência de operações, ficha de fabrico e de ferramentas) → conhecer o processo físico (tecnologia de corte, dispositivos de fixação, a máquina) → definir a origem (zero-peça, coordenadas absolutas/incrementais) → programar (estrutura, funções G/M, trajetórias, compensação, sub-programação, ciclos fixos, parametrização) → editar e simularotimizar o percursovalidar com protótipo e segurança. Domina este fluxo em código ISO e conversacional e serás capaz de elaborar o programa de qualquer peça de fresagem.

Exercícios resolvidos

1. Calcula a rotação (n) e o avanço de trabalho (Vf) para uma fresa Ø8 mm, z = 2 dentes, Vc = 100 m/min, fz = 0,04 mm/dente.

Resolução: n = (100 × 1000) / (π × 8) ≈ 3 979 rpm. Vf = 0,04 × 2 × 3 979 ≈ 318 mm/min.

2. Uma cota no desenho é Ø25 H7 (intervalo Ø25,000 a Ø25,021). A peça medida deu Ø25,03. Está conforme?

Resolução: não está conforme: 25,03 mm excede o limite máximo de 25,021 mm. A peça está fora de tolerância dimensional.

3. Escreve o bloco que ativa a compensação de comprimento com o corretor H3, sobe a Z50 e liga o fuso a 4000 rpm no sentido horário.

Resolução: G43 H3 Z50 S4000 M03.

4. Programa um arco de 90º, sentido anti-horário, do ponto (30,0) até (50,20), com raio 20, em coordenadas absolutas.

Resolução: G90 G03 X50 Y20 R20 (partindo já posicionado em X30 Y0).

5. Um colega deixa a compensação G41 ativa e programa o cancelamento (G40) já dentro do contorno da peça. Que problema causa e como corrigir?

Resolução: cancelar a compensação dentro do contorno provoca um movimento brusco não previsto, porque a máquina deixa de desviar o centro da ferramenta pelo raio a meio do percurso, criando uma marca ou colisão. Corrige-se movendo o G40 para um bloco de afastamento, fora do material.

6. Explica porque é que um programa que passa na simulação gráfica sem alarmes ainda assim maquina primeiro um protótipo antes da produção em série.

Resolução: a simulação valida a geometria do percurso e deteta colisões e erros de sintaxe, mas não confirma variáveis reais como o desgaste da ferramenta, vibrações, ou pequenos desvios do zero-peça físico. A maquinação de protótipo confirma na prática que a cota, o acabamento e o tempo correspondem ao previsto, fechando o ciclo de validação exigido pelos critérios de desempenho da UC.