Sebenta · Elaborar programas de fabrico em fresadoras CNC (UC02960)
- Introdução
- 1. Ler a peça: desenho técnico e tolerâncias
- 2. Preparação de trabalho e fichas
- 3. Tecnologia do corte
- 4. Dispositivos de aperto, suportes e ferramentas de corte
- 5. Constituição e funcionamento de uma fresadora CNC
- 6. Sistema de coordenadas e pontos de referência
- 7. Métodos e técnicas de programação CNC
- 8. Estrutura de um programa e funções G/M
- 9. Posicionamentos e trajetórias lineares e circulares
- 10. Compensação da ferramenta
- 11. Sub-programação
- 12. Ciclos de furação, roscagem e mandrilagem
- 13. Programação paramétrica
- 14. Edição e simulação de programas
- 15. Otimização do percurso da ferramenta e segurança
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a elaborar programas de fabrico completos para fresadoras CNC, desde a leitura do desenho técnico da peça até à validação do programa por simulação gráfica e maquinação de protótipo. É a competência central de quem trabalha em programação e maquinação CNC, produção de cunhos e cortantes, projeto de moldes e modelos ou como operador de máquinas-ferramentas.
O percurso segue o processo real de uma oficina de maquinação: primeiro analisamos os requisitos técnicos e funcionais da peça (desenho, tolerâncias, preparação de trabalho), depois desenvolvemos o código para o percurso da ferramenta (coordenadas, funções, ciclos, compensação), e por fim simulamos e validamos as sequências operatórias antes de maquinar. No fim, deves conseguir ler uma peça, planear o processo, escrever o programa em código ISO, e comprová-lo por simulação.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os requisitos técnicos e funcionais da peça; desenvolver o código para o percurso da ferramenta; efetuar a simulação gráfica e a validação das sequências operatórias e percurso da ferramenta, cumprindo as normas de representação, a sequência de operações, os códigos e sintaxe de programação, e garantindo a atualização da ficha de fabrico e da ficha de ferramentas.
1. Ler a peça: desenho técnico e tolerâncias
Um programa CNC começa sempre na leitura do desenho de definição da peça. Antes de qualquer código, o programador tem de interpretar corretamente o que o desenho pede.
Normas de representação
O desenho técnico usa uma linguagem normalizada:
- Projeções ortogonais: vistas (alçado principal, planta, perfil) que mostram a peça de vários ângulos.
- Cortes e secções: "abrem" a peça imaginariamente para mostrar furos, rasgos ou cavidades internas que não se veem por fora.
- Cotagem: dimensões, com cotas funcionais (que garantem o encaixe/função da peça) e cotas de referência.
- Simbologia e anotações: rugosidade (Ra), tratamento térmico, material, notas gerais de fabrico.
Tolerâncias dimensionais e geométricas
Uma tolerância dimensional define o intervalo aceitável de uma cota: a diferença entre a cota máxima e a cota mínima. Por exemplo, uma cota Ø20 H7 corresponde ao intervalo Ø20,000 a Ø20,021 mm: qualquer valor medido dentro deste intervalo é uma peça conforme.
Uma tolerância geométrica controla forma, orientação, posição ou batimento, e é independente da tolerância dimensional: uma peça pode estar dentro da cota e, ainda assim, fora de forma (por exemplo, um furo com o diâmetro certo mas fora de posição).
Exemplo resolvido · ler uma cota tolerada
Uma cota no desenho indica Ø30 ±0,02. Calcula os limites máximo e mínimo aceitáveis.
- Cota nominal: 30 mm.
- Limite máximo: 30 + 0,02 = 30,02 mm.
- Limite mínimo: 30 − 0,02 = 29,98 mm.
- Qualquer diâmetro medido entre 29,98 e 30,02 mm é conforme.
2. Preparação de trabalho e fichas
A preparação de trabalho é o planeamento que decide como a peça vai ser maquinada, antes de escrever qualquer linha de código.
Sequência de preparação
- Analisar geometria, material e tolerâncias do desenho.
- Definir a sequência de operações: desbaste (remoção rápida de material), semiacabamento e acabamento (cotas e rugosidade finais).
- Escolher dispositivo de fixação, ferramentas e parâmetros de corte para cada operação.
- Estimar tempos de ciclo e necessidade de mudanças de ferramenta.
A ficha de fabrico
A ficha de fabrico documenta todo o processo de maquinação de uma peça, de forma a que qualquer operador o consiga reproduzir:
| Campo | Conteúdo |
|---|---|
| Peça / desenho | referência, material, quantidade |
| Máquina | modelo da fresadora CNC |
| Operações | sequência numerada, com ferramenta associada |
| Parâmetros | Vc, n, f, ap por operação |
| Origem peça | zero-peça e sistema de fixação |
| Tempos | estimado por operação |
A ficha de ferramentas
A ficha de ferramentas lista as ferramentas do programa e os dados que a máquina precisa: número de ferramenta (T) e corretor (D/H), tipo, dimensões (diâmetro, comprimento, número de dentes), parâmetros de corte recomendados, e corretores medidos no pré-ajuste.
Ambas as fichas são um critério de desempenho explícito desta UC: têm de estar sempre atualizadas, refletindo o programa efetivamente usado na máquina.
3. Tecnologia do corte
A tecnologia do corte define como a ferramenta remove material com eficiência, sem danificar a peça nem a própria ferramenta.
Parâmetros fundamentais
- Vc, velocidade de corte (m/min): velocidade do gume na periferia da ferramenta.
- n, rotação do fuso (rpm): calculada a partir de Vc e do diâmetro D da ferramenta.
- fz, avanço por dente (mm/dente): quanto cada gume avança a cada rotação.
- Vf, avanço de trabalho (mm/min): velocidade a que a ferramenta se desloca a cortar.
- ap, profundidade de corte axial; ae, largura de corte radial (mm).
Estes valores partem do catálogo de ferramentas do fabricante, ajustados ao material da peça e à rigidez da máquina.
Fórmulas fundamentais
n = (Vc × 1000) / (π × D) [rpm]
Vf = fz × z × n [mm/min]
onde D é o diâmetro da ferramenta (mm) e z é o número de dentes.
Exemplo resolvido · calcular n e Vf
Fresa de topo Ø10 mm, z = 4 dentes, Vc = 120 m/min, fz = 0,05 mm/dente (catálogo do fabricante para aço macio).
- Rotação:
n = (120 × 1000) / (π × 10) ≈ 3 820 rpm. - Avanço de trabalho:
Vf = 0,05 × 4 × 3 820 ≈ 764 mm/min. - Arredonda-se n para o valor mais próximo disponível na máquina (ex.: 3 800 rpm) e recalcula-se Vf se necessário.
4. Dispositivos de aperto, suportes e ferramentas de corte
Fixação da peça
- Morsa de máquina: fixação rápida para peças prismáticas simples.
- Grampos e calços sobre a mesa: peças de forma irregular ou de grandes dimensões.
- Placas de aperto pneumático/hidráulico: produção em série, aperto rápido e repetível.
- Dispositivos dedicados: geometria específica de uma peça repetida em quantidade.
A escolha depende da geometria da peça, das forças de corte previstas e do acesso necessário das ferramentas a todas as faces a maquinar.
Ferramentas de corte e suportes
| Ferramenta | Uso típico |
|---|---|
| Fresa de topo | perfilagem, contornos, rasgos |
| Fresa de facear | planificação de grandes superfícies |
| Broca | furação |
| Macho | roscagem interior |
| Mandril | acabamento fino de furos |
Os suportes e pinças (ER, hidráulicas, térmicas) fixam a ferramenta ao fuso, garantindo concentricidade. Os acessórios incluem pré-ajustadores de ferramenta (medem comprimento e diâmetro fora da máquina) e apalpadores de peça e de ferramenta.
5. Constituição e funcionamento de uma fresadora CNC
A fresadora CNC é constituída por:
- Estrutura: base, coluna, mesa, carros dos eixos X, Y, Z.
- Fuso principal: roda a ferramenta a alta velocidade.
- Armazém de ferramentas e trocador automático, nos centros de maquinação.
- Comando numérico (CNC): interpreta o programa e comanda os motores dos eixos.
- Painel de controlo: teclado, ecrã, volante manual, botões de emergência.
- Sistemas auxiliares: refrigeração, extração de aparas, lubrificação.
O comando executa o programa bloco a bloco, movendo os eixos segundo as coordenadas e funções lidas em cada linha. A fresadora vertical (fuso na vertical) é a configuração mais comum na aprendizagem; o centro de maquinação acrescenta armazém e troca automática de ferramenta.
6. Sistema de coordenadas e pontos de referência
Zero-máquina e zero-peça
- Zero-máquina (M): ponto de referência fixo, definido pelo fabricante da máquina.
- Zero-peça (W): ponto de origem definido pelo programador para cada montagem, geralmente num vértice ou no centro da peça.
Os deslocamentos programados são sempre relativos ao zero-peça ativo, guardado num corretor de origem (G54 a G59). Determinar corretamente o zero-peça, em função do cenário e da geometria da peça, é o primeiro critério de desempenho desta UC.
Coordenadas absolutas e incrementais
- Absolutas (G90): cada coordenada é sempre medida a partir do zero-peça.
- Incrementais (G91): cada coordenada é medida a partir da posição anterior da ferramenta.
Exemplo resolvido · comparar absoluto e incremental
Deslocamento da ferramenta de (0,0) para (20,0) e depois para (20,10):
Absoluto (G90): N10 X20 Y0 N20 X20 Y10
Incremental (G91): N10 X20 Y0 N20 X0 Y10
No modo incremental, o segundo bloco só soma o deslocamento necessário (0 em X, 10 em Y) à posição já atingida.
7. Métodos e técnicas de programação CNC
Código ISO vs conversacional
| Código ISO | Conversacional | |
|---|---|---|
| Formato | blocos com letras e números (G, M, X...) | menus e formulários no comando |
| Portabilidade | alta, normalizada | baixa, depende do fabricante |
| Controlo | total, todo o detalhe é explícito | limitado ao que o menu oferece |
| Aprendizagem | mais exigente | mais intuitiva |
Ambas geram, no fundo, movimentos de eixos e ativação de funções; o conversacional constrói o código ISO por trás do menu.
Boas práticas
- Comentar o início de cada operação (ferramenta, descrição, parâmetros).
- Programar com o mesmo estilo em todo o programa: absolutas para posicionamento principal, plano de segurança fixo.
- Validar mentalmente cada bloco antes de correr na máquina.
- Documentar toda a alteração ao programa na ficha de fabrico.
8. Estrutura de um programa e funções G/M
Anatomia de um programa
%
O1001 (PECA_FLANGE)
N10 G17 G90 G94 G21 G54
N20 T1 M06 (FRESA TOPO D10)
N30 G43 H1 Z50 S3800 M03
N40 G00 X0 Y0
N50 G01 Z-5 F200
...
N120 G00 Z100
N130 M30
%
- Cabeçalho: número/nome do programa e comentário identificativo.
- Bloco de arranque: plano de trabalho, unidades, modo de coordenadas, corretor de origem.
- Corpo: sequência de operações, agrupadas por ferramenta.
- Fecho: retirar a ferramenta em segurança, parar o fuso, M30.
Funções auxiliares (M)
| Código | Função |
|---|---|
| M03 / M04 | fuso roda sentido horário / anti-horário |
| M05 | paragem do fuso |
| M06 | mudança de ferramenta |
| M08 / M09 | refrigerante ligado / desligado |
| M00 / M01 | paragem de programa / paragem opcional |
| M30 | fim de programa, retorno ao início |
| M98 / M99 | chamada / retorno de sub-programa |
Funções de preparação (G)
| Código | Função |
|---|---|
| G17 / G18 / G19 | plano de trabalho XY / XZ / YZ |
| G90 / G91 | coordenadas absolutas / incrementais |
| G94 / G95 | avanço em mm/min / mm/rotação |
| G21 / G20 | unidades métricas / imperiais |
| G54-G59 | corretores de zero-peça |
| G43 / G49 | ativa / cancela compensação de comprimento |
9. Posicionamentos e trajetórias lineares e circulares
Movimento rápido e interpolação linear
- G00, posicionamento rápido: move à velocidade máxima, sem corte, sempre em vazio, fora da peça.
- G01, interpolação linear: move em linha reta, à velocidade de avanço (F), com a ferramenta a cortar.
N40 G00 X0 Y0 (aproximação rápida, em vazio)
N50 G01 Z-5 F200 (mergulho a cortar)
N60 G01 X50 Y0 F300 (corte em linha reta)
Interpolação circular
G02 descreve um arco no sentido horário; G03, no sentido anti-horário. O centro do arco define-se com I, J (deslocamento incremental do centro a partir do ponto inicial do arco) ou com R (raio).
N70 G01 X60 Y20 F300
N80 G02 X80 Y40 I20 J0 (arco horário, centro a I20 J0 do início do arco)
N90 G03 X60 Y60 R20 (arco anti-horário, raio 20)
Exemplo resolvido · programar um contorno com arco
Programar um contorno de (0,0) a (40,0) em linha reta e depois um arco de 90º até (60,20), no sentido horário, raio 20:
N10 G90 G54
N20 G00 X0 Y0
N30 G01 Z-3 F150
N40 G01 X40 Y0 F300
N50 G02 X60 Y20 R20
N60 G00 Z50
10. Compensação da ferramenta
Compensação de comprimento
G43 H_ soma o comprimento real da ferramenta (medido no pré-ajustador e registado no corretor H) à posição Z programada, permitindo escrever o programa com Z=0 na face da peça, independentemente do comprimento físico de cada ferramenta. G49 cancela a compensação.
Compensação de raio
- G41: compensação à esquerda do percurso, vista no sentido do avanço.
- G42: compensação à direita do percurso.
- G40: cancela a compensação, sempre num movimento fora da peça.
N60 G01 G41 D1 X10 Y10 F300 (compensação à esquerda, corretor de raio D1)
...
N110 G01 G40 X0 Y0 (cancelar compensação, fora do material)
Com G41/G42 ativo, o programador escreve as coordenadas do contorno real da peça, e a máquina desvia automaticamente o centro da ferramenta pelo valor do raio guardado no corretor D.
11. Sub-programação
Um sub-programa é um bloco de código reutilizável, guardado com o seu próprio número. Chama-se com M98 P____ e regressa ao programa principal com M99.
N50 M98 P2000 (chama o sub-programa O2000)
...
O2000 (SUBPROGRAMA FUROS)
N10 G81 X10 Y10 Z-5 R2 F100
N20 X30
N30 X50
N40 M99 (regressa ao programa principal)
Usa-se sub-programação para: padrões repetidos (furação em matriz), contornos usados várias vezes no mesmo programa, e rotinas comuns entre programas diferentes (por exemplo, retirar a ferramenta em segurança). Reduz o tamanho do programa e o risco de erro ao copiar e colar código manualmente.
12. Ciclos de furação, roscagem e mandrilagem
Ciclos de furação
| Código | Ciclo |
|---|---|
| G81 | furação simples |
| G73 / G83 | furação com quebra de apara (peck drilling) |
| G82 | furação com temporização no fundo |
N40 G81 X10 Y10 Z-15 R2 F100
N50 X30
N60 X50
N70 G80 (cancela o ciclo fixo)
O ciclo repete-se automaticamente para cada novo par X/Y programado, até ser cancelado com G80. R define o plano de aproximação; Z, a profundidade final do furo.
Roscagem e mandrilagem
G84, ciclo de roscagem, sincroniza a rotação do fuso com o avanço, para cortar rosca interior com macho. O avanço F tem de corresponder exatamente ao passo da rosca multiplicado pela rotação, não é um valor livre.
G85 / G86, ciclos de mandrilagem, dão acabamento fino a furos com mandril, com ou sem paragem do fuso na retração.
Exemplo resolvido · calcular o avanço de roscagem
Roscar M10 (passo 1,5 mm) a n = 500 rpm.
F = passo × n = 1,5 × 500 = 750 mm/min
13. Programação paramétrica
A programação paramétrica usa variáveis (ex.: #1, #2) em vez de valores fixos, com operações aritméticas, condições (IF) e ciclos (WHILE) diretamente no código.
#1 = 10 (diâmetro do furo)
#2 = -15 (profundidade)
G81 X0 Y0 Z[#2] R2 F100
Vantagens: menos programas para manter, adaptação rápida a variantes de peça (uma família de peças semelhantes), menos erros de cópia. Cuidado: documentar bem o significado de cada variável e testar sempre em simulação antes de correr. Só compensa a complexidade extra quando há repetição real de família de peças.
14. Edição e simulação de programas
Edição direta e remota
- Edição direta (na máquina): escrever ou corrigir o programa no painel do comando, junto da máquina.
- Edição remota: escrever num software de edição no computador e transferir para a máquina através de software de comunicação PC-Máquina.
A edição remota tem teclado completo, verificação de sintaxe, cópias de segurança e liberta a máquina para produzir enquanto se prepara o programa seguinte.
Simulação gráfica
A simulação gráfica representa o percurso da ferramenta em 2D/3D antes de correr o programa na máquina real. Deteta colisões, percursos em vazio excessivos e erros de coordenadas ou de sintaxe, e permite comparar o material removido simulado com a geometria alvo do desenho.
Um programa só está pronto para maquinação de protótipo quando passa a simulação sem colisões e sem alarmes. É o critério de desempenho central desta UC: assegurar a otimização do percurso da ferramenta em função do observado na simulação gráfica e na maquinação de protótipo.
15. Otimização do percurso da ferramenta e segurança
Técnicas de otimização
- Entradas e saídas: aproximar e afastar em arco ou rampa, nunca perpendicular ao contorno acabado.
- Maquinação contínua: manter a ferramenta em contacto com o material o máximo de tempo possível, reduzindo movimentos em vazio.
- Trajetórias helicoidais e em rampa: entrar em profundidade sem mergulho vertical, preservando ferramentas sem gume ao centro.
- Posicionamentos otimizados: encurtar percursos rápidos (G00) sem comprometer a segurança.
A otimização valida-se comparando o tempo de ciclo antes e depois, verificando na simulação se entradas e saídas ficaram suaves, e confirmando na maquinação de protótipo o previsto na simulação. Os parâmetros finais registam-se sempre na ficha de fabrico.
Segurança
Uso obrigatório de equipamentos de proteção individual (EPI): óculos de proteção, calçado de segurança, proteção auditiva quando aplicável. Nunca abrir a porta de proteção com a máquina em movimento ou o fuso a rodar; manter mãos, roupa e cabelo afastados de partes móveis; cumprir sempre os planos e normas de segurança e saúde no trabalho da oficina.
Erros comuns
- Ler mal uma cota (funcional vs referência) e maquinar para a dimensão errada.
- Confundir zero-máquina com zero-peça, programando coordenadas relativas ao ponto errado.
- Deixar G91 (incremental) ativo por engano, somando deslocamentos à posição em vez de ir à cota absoluta.
- Trocar G02 por G03, descrevendo o arco do lado errado da peça.
- Usar G00 já dentro do material, causa direta de colisão e quebra de ferramenta.
- Esquecer o G80 depois de um ciclo fixo, ou o M99 no fim de um sub-programa.
- Ativar/cancelar a compensação de raio dentro do contorno, criando um movimento brusco inesperado.
- Aplicar um avanço de roscagem estimado, em vez de calculado a partir do passo e da rotação.
- Não atualizar a ficha de fabrico e a ficha de ferramentas depois de alterar o programa.
Glossário
- Zero-máquina (M) · ponto de referência fixo da máquina, definido pelo fabricante.
- Zero-peça (W) · ponto de origem definido pelo programador para a peça montada.
- Corretor de origem (G54-G59) · guarda a posição do zero-peça ativo.
- G-code · linguagem normalizada de programação CNC, em blocos com letras e números.
- Ciclo fixo · função que resume uma sequência completa de movimentos (ex.: furação).
- Compensação de raio (G41/G42) · desvio automático do centro da ferramenta pelo valor do raio.
- Compensação de comprimento (G43) · soma o comprimento real da ferramenta à posição Z.
- Sub-programa · bloco de código reutilizável, chamado com M98 e terminado com M99.
- Ficha de fabrico · documento com a sequência de operações e parâmetros de uma peça.
- Ficha de ferramentas · documento com os dados de cada ferramenta usada no programa.
- Simulação gráfica · representação do percurso da ferramenta antes da maquinação real.
- Vc (velocidade de corte) · velocidade do gume na periferia da ferramenta, em m/min.
- Vf (avanço de trabalho) · velocidade de deslocamento da ferramenta a cortar, em mm/min.
- EPI · equipamentos de proteção individual.
Síntese
Elaborar um programa de fabrico em fresadora CNC segue sempre a mesma ordem: ler a peça (desenho, tolerâncias) → preparar o trabalho (sequência de operações, ficha de fabrico e de ferramentas) → conhecer o processo físico (tecnologia de corte, dispositivos de fixação, a máquina) → definir a origem (zero-peça, coordenadas absolutas/incrementais) → programar (estrutura, funções G/M, trajetórias, compensação, sub-programação, ciclos fixos, parametrização) → editar e simular → otimizar o percurso → validar com protótipo e segurança. Domina este fluxo em código ISO e conversacional e serás capaz de elaborar o programa de qualquer peça de fresagem.
Exercícios resolvidos
1. Calcula a rotação (n) e o avanço de trabalho (Vf) para uma fresa Ø8 mm, z = 2 dentes, Vc = 100 m/min, fz = 0,04 mm/dente.
Resolução: n = (100 × 1000) / (π × 8) ≈ 3 979 rpm. Vf = 0,04 × 2 × 3 979 ≈ 318 mm/min.
2. Uma cota no desenho é Ø25 H7 (intervalo Ø25,000 a Ø25,021). A peça medida deu Ø25,03. Está conforme?
Resolução: não está conforme: 25,03 mm excede o limite máximo de 25,021 mm. A peça está fora de tolerância dimensional.
3. Escreve o bloco que ativa a compensação de comprimento com o corretor H3, sobe a Z50 e liga o fuso a 4000 rpm no sentido horário.
Resolução:
G43 H3 Z50 S4000 M03.
4. Programa um arco de 90º, sentido anti-horário, do ponto (30,0) até (50,20), com raio 20, em coordenadas absolutas.
Resolução:
G90 G03 X50 Y20 R20(partindo já posicionado em X30 Y0).
5. Um colega deixa a compensação G41 ativa e programa o cancelamento (G40) já dentro do contorno da peça. Que problema causa e como corrigir?
Resolução: cancelar a compensação dentro do contorno provoca um movimento brusco não previsto, porque a máquina deixa de desviar o centro da ferramenta pelo raio a meio do percurso, criando uma marca ou colisão. Corrige-se movendo o G40 para um bloco de afastamento, fora do material.
6. Explica porque é que um programa que passa na simulação gráfica sem alarmes ainda assim maquina primeiro um protótipo antes da produção em série.
Resolução: a simulação valida a geometria do percurso e deteta colisões e erros de sintaxe, mas não confirma variáveis reais como o desgaste da ferramenta, vibrações, ou pequenos desvios do zero-peça físico. A maquinação de protótipo confirma na prática que a cota, o acabamento e o tempo correspondem ao previsto, fechando o ciclo de validação exigido pelos critérios de desempenho da UC.