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UC · Unidade de Competência · UC02949

Montagem e Ensaio de Instalações Elétricas Industriais

UC02949 — Efetuar a montagem e ensaio de instalações elétricas industriais
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Sebenta UC02949 — Instalações Eléctricas Industriais

1. Normas e Regulamentação

1.1 RTIEBT — Regras Técnicas Portuguesas

O Decreto-Lei n.º 226/2005 aprovou as RTIEBT (Regras Técnicas das Instalações Eléctricas de Baixa Tensão), que transpõem para a legislação portuguesa as normas da série IEC 60364. Estas regras aplicam-se a todas as instalações eléctricas de utilização em baixa tensão (< 1 000 V AC ou < 1 500 V DC).

Divisão das instalações: - Instalações de utilização normal (uso doméstico e geral) - Instalações de utilização industrial (factories, warehouses) - Instalações especiais (hospitais, locais com risco de explosão, estaleiros)

1.2 Série IEC 60364

Parte Conteúdo
60364-1 Princípios fundamentais
60364-4-41 Protecção contra choques eléctricos
60364-4-43 Protecção contra sobrecorrentes
60364-5-52 Selecção e instalação de cabos
60364-5-54 Aterramento, condutores de protecção
60364-6 Verificação inicial e periódica
60364-7-706 Instalações especiais (zonas com risco)

1.3 IEC 61439 — Quadros de Distribuição

A norma IEC 61439 define os requisitos para quadros de distribuição de baixa tensão: - IEC 61439-1: Requisitos gerais - IEC 61439-2: Quadros de distribuição de energia (PDB) - IEC 61439-3: Quadros de distribuição operados por pessoas não qualificadas

Parâmetros de um quadro certificado: - Tensão nominal (Un): 400/690 V - Corrente nominal (In): 63–6300 A - Grau de protecção IP: 20–65 (conforme instalação) - Temperatura de serviço: -5°C a +40°C - Resistência ao curto-circuito (Icw): conforme dimensionamento


2. Componentes de Aparelhagem Industrial

2.1 Disjuntores de Baixa Tensão

Classificação por curva de disparo: - Curva B: disparo magnético a 3–5× I_nom — instalações domésticas, protecção de condutores - Curva C: disparo magnético a 5–10× I_nom — usos gerais, motores pequenos - Curva D: disparo magnético a 10–20× I_nom — motores, transformadores (correntes de arranque elevadas) - Curva MA: apenas magnético (sem térmico) — para uso com relé térmico externo

Poder de corte (Icu / Ics): - Icu: corrente máxima de curto-circuito que o disjuntor pode interromper (uma vez) - Ics: corrente de serviço (operação repetida): normalmente 0,5–0,75× Icu - Para instalações industriais: mínimo Icu = 10 kA (verificar corrente de curto-circuito do quadro)

Cálculo de corrente de curto-circuito:

Para calcular a corrente de curto-circuito num ponto, usa-se a impedância da rede:

$$I_{cc} = \frac{U_{fase}}{Z_{total}} = \frac{230}{Z_{rede} + Z_{cabo}}$$

2.2 Contactores (Contactor / Contactor AC)

Categorias de utilização (IEC 60947-4-1): - AC-1: cargas resistivas (resistências, aquecimento) - AC-2: motores de anel deslizante (arranque/paragem em carga) - AC-3: motores de gaiola, arranque directo, paragem em marcha - AC-4: motores de gaiola com inversão e frenagem (plugging)

Vida útil: - Mecânica: 10–30 milhões de operações (sem carga) - Eléctrica: 1–3 milhões de operações (com carga)

Constituição de um contactor: - Contactos principais: conectam a carga (3 NO para trifásico) - Contactos auxiliares: para circuitos de comando (NO + NC) - Bobine electromagnética: atracção do núcleo; tensão normalmente 24 VDC, 48 VDC, 110 VAC ou 230 VAC

2.3 Relés Térmicos

O relé térmico protege o motor contra sobrecarga de corrente prolongada: - Elemento bimetálico: aquece e curva ao ser percorrido por corrente excessiva - Ajuste: girar o cursor para o valor de corrente nominal do motor (In ± 5–10%) - Classe 10 (IEC 60947-4-1): dispara em 10 s com 7,2× I_ajuste — standard para motores industriais

Compensação de temperatura ambiente: - Relés com compensação: mantém a curva de disparo mesmo com variações de T ambiente - Relés sem compensação: podem disparar prematuramente em ambientes quentes

Após disparo: - Aguardar arrefecimento do motor (5–10 min) antes de repor (reset manual ou automático) - Investigar a causa do disparo antes de reiniciar


3. Instalação e Cablagem de Quadros

3.1 Regras de Cablagem

Selecção de secções de condutores (IEC 60364-5-52):

Corrente (A) Secção mínima cabo Cu (mm²) Tipo de instalação
até 13 1,5 Conduta fechada
até 17 2,5 Conduta fechada
até 23 4 Conduta fechada
até 30 6 Conduta fechada
até 40 10 Conduta fechada
até 52 16 Conduta fechada
até 65 25 Conduta fechada

Cores dos condutores (IEC 60446): - Fase L1: Preto, Castanho ou Cinzento - Fase L2: Preto, Castanho ou Cinzento - Fase L3: Preto, Castanho ou Cinzento - Neutro (N): Azul claro - Condutor de protecção (PE): Verde-amarelo (OBRIGATÓRIO)

Sistema de numeração de condutores: - Usar ferrule (manga) numeradas em ambas as extremidades - Convenções: condutores de alimentação: L1, L2, L3; condutores de comando: 1, 2, 3... ou A1, A2... - Documentar a numeração no esquema como-construído (as-built)

3.2 Ligação do Motor — 3 Configurações

1. Ligação em triângulo (400V AC, rede 3×400V): - U=W=V: terminais L1→U1; L2→V1; L3→W1 - Pontes: U2-W1; V2-U1; W2-V1 (→ internamente ligado em triângulo se acessível)

2. Ligação em estrela (690V → 400V, rede 3×690V): - L1→U1; L2→V1; L3→W1 - Pontes: U2+V2+W2 juntos (neutro estrela)

3. Ligação estrela-triângulo externo: Para a partida estrela-triângulo, os 6 terminais do motor são acessíveis (não há pontes internas): - U1, V1, W1: terminais de início de enrolamento - U2, V2, W2: terminais de fim de enrolamento


4. Arranques de Motores

4.1 Arranque Directo (DOL)

Circuito de potência:

L1  L2  L3
 │   │   │
[Q1 - Disjuntor de motor]
 │   │   │
[K1 - Contactor principal]
 │   │   │
[F1 - Relé térmico]
 │   │   │
U1  V1  W1 → MOTOR M1

Circuito de comando típico (230V AC):

L (fase de comando)
 │
[S0 - Botão de paragem NC]──[S1 - Botão de marcha NO]──[K1 - Bobine]
                                     │
                             [K1 - contacto aux. NO]
                             (auto-sustentação)
 │
N (neutro)

4.2 Arranque Estrela-Triângulo — Circuito Completo

Componentes adicionais: - K2 (contactor de estrela): fecha o neutro estrela (U2+V2+W2) - K3 (contactor de triângulo): liga os terminais em triângulo (U2→L3, V2→L1, W2→L2) - KT (temporizador TON): mede o tempo de comutação Y→Δ (ajuste: 5–10s) - Bloqueio eléctrico: K2 NO em série com K3, e K3 NO em série com K2 (nunca fechados simultaneamente → curto-circuito)

Sequência de funcionamento: 1. Pressionar S1: K1 fecha (alimentação), K2 fecha (estrela), KT começa a contar 2. Decorrido o tempo KT: K2 abre, aguarda ~50ms, K3 fecha (triângulo) 3. Motor em operação normal em triângulo

4.3 Variador de Velocidade (VFD) — Instalação

Cablagem de potência: - L1, L2, L3 → entradas do VFD (nunca ligar ao motor antes do VFD!) - U, V, W → saídas do VFD para o motor - PE → aterramento do VFD e do motor (obrigatório)

Cablagem de controlo: - Entradas digitais DI1-DI8: comandos de marcha, paragem, inversão, velocidades pré-definidas - Saídas digitais DO1-DO3: sinalização de estado (em marcha, em avaria, em temperatura) - Entradas analógicas AI1, AI2: referência de velocidade (0–10V DC ou 4–20 mA) - RS485 / PROFIBUS / EtherNet: comunicação com PLC ou SCADA

Regras EMC: - Cabo motor blindado: blindagem ligada à terra no VFD e no motor (360° bonding) - Separação de cabos de sinal e de potência: mínimo 20 cm (perpendicularmente em cruzamentos) - Filtro EMC de entrada (classe C2): reduz perturbações irradiadas e conduzidas


5. Ensaios e Comissionamento

5.1 Verificação Inicial — IEC 60364-6

Ensaios obrigatórios antes de energizar uma instalação nova:

  1. Inspecção visual:
  2. Verificar selecção correcta dos componentes
  3. Verificar qualidade da cablagem, apertos, identificação
  4. Verificar aterramento e continuidade do PE

  5. Medição de resistência de isolamento:

  6. Com todos os circuitos desligados e dispositivos sensíveis desconectados (VFDs, relés electrónicos)
  7. Aplicar 1000 V DC entre condutores activos e PE
  8. Resultado: ≥ 1 MΩ para circuitos até 1 000 V AC

  9. Continuidade do condutor de protecção:

  10. Medir resistência do condutor PE desde o barramento de terra até à carcaça de cada equipamento
  11. Resultado: ≤ 1 Ω

  12. Sequência de fases:

  13. Sequencímetro ou osciloscópio
  14. Confirmar L1→L2→L3 em sentido horário (antes de ligar ao motor)

5.2 Teste Funcional de Quadro de Motor Y-Δ

Procedimento passo a passo: 1. Verificar com multímetro que a alimentação está DESLIGADA 2. Verificar posição e ajuste do relé térmico (In do motor) 3. Energizar o quadro (Q1 geral) 4. Medir tensão no barramento: U=400V (±10%) 5. Pressionar S1 (marcha): verificar K1 e K2 fecham (LEDs ou multímetro nas bobines) 6. Após tempo KT: verificar K2 abre e K3 fecha 7. Medir corrente nas 3 fases com pinça amperimétrica: desequilíbrio < 5% 8. Pressionar S0 (paragem): verificar K1 e K3 abrem 9. Testar relé térmico: pressionar botão de teste → K1 deve abrir e alarme ligar 10. Verificar sinalização luminosa em cada estado


6. Manutenção de Instalações Eléctricas

6.1 Programa de Manutenção de Quadros

Periodicidade e tarefas:

Frequência Tarefa Método
Semanal Verificação visual da sinalização (LEDs, displays) Visual
Mensal Verificação de temperatura com termómetro IR Contacto ou IR
Semestral Verificação de apertos com chave de torques calibrada Chave torques
Anual Termografia completa do quadro Câmara termográfica
Anual Limpeza interior (aspirador HEPA) Aspirador, panos
Anual Verificação do estado dos contactos de contactores Visual + ohmímetro
Anual Verificação dos filtros de ar de armários com ventilação Substituição se necessário
5 anos Substituição de contactores de alta solicitação Conforme contagem de operações

6.2 Interpretação de Termografia em Quadros

Critérios de avaliação (norma NETA/IEC 61439):

ΔT (°C) entre componente e referência Acção
1–3 Monitorizar; possível falso positivo (emissividade diferente)
3–10 Investigar; planear verificação de aperto na próxima paragem
10–30 Urgente; programar reparação em 30 dias
> 30 Imediato; reduzir carga ou parar circuito

Causas mais comuns de ponto quente em quadro: 1. Aperto insuficiente no terminal (resistência de contacto aumentada → aquecimento R×I²) 2. Oxidação do terminal de cobre 3. Contactor com contacto desgastado (resistência aumentada) 4. Desequilíbrio de carga entre fases


Sebenta elaborada para a UC02949 do curso TMIM — Aulify Platform Versão 1.0 — 2026