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UC · Unidade de Competência · UC02945

UC02945 · Quadros eléctricos de máquinas

Projecto, integração, comunicação industrial
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

O quadro eléctrico de máquina é o "cérebro" e "coração" de qualquer máquina industrial — onde estão os componentes que comandam, protegem e comunicam com o resto do sistema.

Diferentemente do quadro geral (que distribui energia, tratado em UC02933), o quadro de máquina é específico à máquina que comanda e segue a norma EN 60204-1 (equipamento eléctrico de máquinas).

Esta unidade (25h) cobre: tipos, componentes, projecto, integração, conformidade legal e manutenção.


1. Tipos de quadros

1.1 Distinção

Quadro geral (UC02933): - Distribui energia da rede para toda a instalação. - Norma: RTIEBT + EN 61439. - Componentes: disjuntor geral, DR, disjuntores de circuito, contadores fiscais. - Focus: protecção e distribuição.

Quadro de máquina (esta UC): - Comanda uma máquina específica ou conjunto. - Norma: EN 60204-1 (electric equipment of machines). - Componentes: protecção + comando + PLC + HMI + comunicação + segurança. - Focus: controlo e funcionalidade da máquina.

Em alguns casos, quadro pode combinar ambas funções (PT industrial pequeno onde quadro geral + máquina principal estão integrados).

1.2 Por aplicação

Máquina-ferramenta (CNC, prensa, fresadora): - Comando complexo com servomotores. - HMI com controlador CNC (SIEMENS SINUMERIK, FANUC) ou PLC. - VFDs ou servos drives. - Segurança categoria PLe (Anexo IV Directiva Máquinas).

Linha de produção: - Vários equipamentos coordenados. - PLC central + I/Os distribuídos. - HMI supervisor. - Integração com MES.

HVAC: - Controlo de climatização. - Variadores em ventiladores. - Sensores de temperatura, humidade, qualidade do ar. - BACnet ou Modbus.

Bombagem: - Bombas + VFD + sensores de pressão / nível. - PID para controlo automático. - Comunicação para SCADA.

Robôs: - Controlador específico do robô (separado). - Quadro auxiliar com PLC para integração. - I/Os para ferramentas.

Embalagem: - Alta velocidade. - Sincronização multi-eixo. - Visão computacional.

1.3 Localização

Integrado na máquina: - Quadro fisicamente sobre, ao lado ou dentro da máquina. - Compacto, optimizado para o espaço. - HMI local na frente do quadro. - Cabos curtos.

Separado (sala técnica): - Quadro em sala dedicada. - Mais espaço, melhor refrigeração. - HMI a distância da máquina (sala de controlo). - Comunicação por Profinet com I/Os remotos próximos da máquina. - Standard em indústria pesada.

Misto (mais comum): - Quadro principal com PLC e protecção na sala técnica. - I/Os remotos distribuídos na máquina (Siemens ET 200SP, etc.). - Comunicação Profinet entre eles.


2. Componentes essenciais

2.1 Protecção

Disjuntor geral: - Calibre conforme corrente total da máquina. - Localização acessível (frente do quadro). - Indicação de estado (armado/disparado/desarmado). - Bloqueável para LOTO.

Disjuntores secundários: - Por subcircuito (motores, comando, iluminação, etc.). - Calibres e curvas adequadas.

DR (diferencial): - Tipicamente DR geral 300 mA tipo A ou B. - Para protecção pessoas e contra incêndio. - Tipo B se houver VFDs.

Relés térmicos: - Para protecção de motores contra sobrecarga. - Combinados com contactores (conjunto motor).

Protecções específicas: - Surge protectors (descargas atmosféricas). - Fusíveis (em circuitos específicos com características críticas).

2.2 Comando

PLC: - Standard moderno (UC02940). - Marcas: Siemens S7-1200/1500, Schneider M221/M580, Allen-Bradley.

HMI: - Touch panel local (UC02941). - Comunicação Profinet com PLC.

Botoeiras: - START (verde, NO). - STOP (vermelho, NC). - EMERGÊNCIA (vermelho cogumelo, dupla acção, NC). - RESET (azul). - Selectores (auto/manual, modos).

Lâmpadas piloto: - Verde: máquina ON. - Amarelo: aviso. - Vermelho: alarme. - Azul: status auxiliar.

2.3 Distribuição de energia

Contactores: - Para potência (motores, aquecedores). - AC1, AC3, AC4 conforme aplicação (UC02862, UC02936).

Relés: - Para sinais de comando. - Interface PLC → cargas maiores.

Variadores de frequência (VFDs): - Para motores com controlo de velocidade (UC02942).

Servos drives: - Para servomotores em aplicações de precisão.

Soft-starters: - Para motores grandes em arranque suave (alternativa a VFD se velocidade fixa for OK).

Fontes de alimentação: - 24V CC para comando, sensores, electroválvulas. - 230V CA para alguns equipamentos. - Phoenix Contact, Mean Well, SIEMENS SITOP.

2.4 Comunicação

Switches industriais: - Para infraestrutura Profinet / EtherNet/IP. - Marcas: Scalance (Siemens), Hirschmann, Stratix.

Conversores / Gateways: - Profibus DP ↔ Profinet. - Modbus RTU ↔ Modbus TCP. - OPC UA gateways.

2.5 Segurança

Relés de segurança: - Categoria 4 / PLe certificados. - Marcas: Pilz PNOZ, Sick UE, Schmersal SRB.

Contactores de segurança: - Para circuitos de segurança redundantes.

Outros: - Cortinas ópticas (instaladas na máquina, mas conectadas ao quadro). - Sensores de porta com interbloqueio. - Botões emergência físicos.

2.6 Cablagem interna

Cores conforme RTIEBT + extensões: - L1: castanho. - L2: preto. - L3: cinzento. - N: azul-claro. - PE: verde-amarelo. - 24V CC +: vermelho. - 24V CC -: azul-escuro. - Sinalização de emergência: laranja.

Bornes: - Mola (Wago) ou parafuso (Phoenix, Weidmüller). - Identificados com etiquetas. - Bornes PE + N separados em régua dedicada.

Calhas (canaletas): - Plásticas com aberturas. - Organização vertical e horizontal. - Separação potência ↔ comando.

Tipos de cabos: - H07V-K (flexível, isolante PVC). - H05V-K (similar, tensão mais baixa). - Cabos blindados para VFD → motor.


3. Projecto e construção

3.1 Análise inicial

Definir:

  1. Função da máquina: o que faz, ciclo de operação.
  2. Cargas:
  3. Motores: tipo, potência, modo arranque.
  4. Aquecedores: potência.
  5. Sensores: tipo, número.
  6. Actuadores: tipo, número.
  7. Comando:
  8. Manual simples ou PLC + HMI?
  9. Quantos estados / modos operacionais?
  10. Comunicação:
  11. Standalone ou em rede industrial?
  12. Protocolos necessários.
  13. Segurança:
  14. Análise de risco (ISO 12100).
  15. Categoria PL (ISO 13849).
  16. Ambiente:
  17. IP necessário (poeira, humidade, lavagem).
  18. Temperatura operacional.
  19. EMC (próximo a outros equipamentos).

3.2 Dimensionamento

Carga total:

Σ P_motores + Σ P_aquecedores + Σ P_outros = P_total

Factor de simultaneidade: - Industrial standard: 0,7-0,9. - Aplicar ao P_total para obter carga real esperada.

Margem para crescimento: - 20-30% adicionais.

Corrente principal:

I_n = P_real / (√3 × U × cos φ)

Disjuntor geral: 1,2-1,5 × I_n.

Cabo principal: conforme corrente + ambiente (UC02936).

3.3 Esquemas

Esquema unifilar: - Visão geral. - Disjuntor geral → sub-circuitos. - Anotações de calibres e características.

Esquema multifilar: - Detalhe por circuito. - Todas as fases visíveis. - Pontos de medição.

Esquema de comando (PLC): - Ladder logic ou GRAFCET. - Documentado claramente. - Comentários em cada network.

Esquema de cablagem interna: - Bornes numerados. - Cabos identificados. - Percurso pelos calhas.

Layout do quadro: - Vista frontal do interior. - Posição de cada componente. - Distâncias mínimas. - Acesso para manutenção.

Software: - EPLAN (standard mundial em projecto eléctrico). - AutoCAD Electrical. - SEE Electrical. - WSCAD.

3.4 Selecção de marcas

Standard português / europeu: - Schneider Electric: amplo, dominante. - Siemens: forte em PLCs e instrumentação. - ABB: contactores, VFDs, robôs. - Eaton: alternativa de qualidade. - Hager, Legrand: residencial e comercial pequeno.

Coerência: - Mesma marca facilita design + peças de substituição. - Mix possível mas requer compatibilidade verificada (especialmente em comunicação).

Critérios de selecção: - Disponibilidade de peças local. - Suporte técnico. - Preço. - Documentação em português. - Cursos de formação.

3.5 Construção física

Caixa do quadro: - Material: aço (standard), inox (ambientes hostis), poliéster (anti-corrosivo). - Dimensões: conforme densidade de componentes + acesso. - IP: IP54 em fábrica, IP65 em zonas húmidas, IP66+ em exterior. - Marcas: Rittal, Schneider Spacial, Eldon, Eaton.

Montagem dos componentes: - Trilho DIN (35 mm) para componentes modulares. - Placas de montagem para componentes maiores. - Distâncias entre componentes para refrigeração.

Ventilação: - Natural em quadros pequenos. - Forçada com ventilador + filtros em quadros médios. - Climatizada (aquecimento + arrefecimento) em ambientes extremos.

Cálculo térmico: - Soma das perdas internas dos componentes. - Capacidade de dissipação da caixa. - Margem de 20% para envelhecimento.


4. Integração de sistemas

4.1 PLC + HMI + I/Os

Configuração típica:

HMI Local (KTP700) ─── Profinet ─── PLC (S7-1200)
                                       │
                                       ├── Profinet ─── I/Os remotos (ET 200SP) na máquina
                                       │
                                       └── Profinet ─── VFD (Sinamics G120)

Vantagens: - Cablagem reduzida: 1 cabo Ethernet vs muitos cabos. - Flexibilidade: adicionar/remover dispositivos sem refazer. - Diagnóstico centralizado. - Manutenção preditiva via dados.

4.2 VFDs e servos

Em máquinas com movimento controlado: - VFD por motor. - Servo drive por eixo. - Profinet IRT para sincronização (CNC, robôs).

Cabos: - Potência: blindado VFD → motor (EMC). - Feedback: encoder. - Comando: Profinet.

4.3 Sensores e actuadores

Standard moderno: IO-Link. - Sensores e actuadores binários ligados a master IO-Link. - Master conectado a PLC via Profinet. - Vantagens: - Identificação automática. - Configuração remota. - Diagnóstico.

Para sinais analógicos (4-20 mA, Pt100): - Módulos analógicos do PLC. - Ou transmissor com comunicação digital.

4.4 Comunicação industrial

Conforme já abordado (UC02939, UC02940): - Profinet: standard moderno. - Profibus DP: legacy ainda usado. - OPC UA: integração com SCADA / cloud.

4.5 Cybersegurança

Em quadros modernos com comunicação ampla: - Firewall entre rede industrial e corporativa. - VPN para acesso remoto. - Autenticação forte em PLC, HMI. - Backup religioso. - Updates de firmware regulares.


5. Conformidade EN 60204-1

5.1 Visão geral da norma

EN 60204-1: equipamento eléctrico de máquinas — requisitos gerais.

Cobre 18 capítulos, incluindo: - Características eléctricas. - Selecção de equipamento. - Identificação. - Aterramento e equipotencialização. - Protecção contra choque. - Marcação. - Documentação.

Aplicável a quadros de máquinas em complemento a RTIEBT.

5.2 Pontos críticos

1. Disjuntor geral / Seccionador: - Acessível sem ferramenta especial. - Visível e identificado. - Bloqueável com cadeado. - Posição OFF claramente visível.

2. Botão de emergência: - Vermelho cogumelo em fundo amarelo. - Cat. 0, 1 ou 2 conforme aplicação. - Múltiplos se a zona for grande. - Reset manual obrigatório.

3. Categorias de paragem:

4. Identificação: - Cada componente etiquetado. - Cada cabo identificado. - Esquemas dentro do quadro.

5. Aterramento: - Cabo PE robusto. - Todas as partes metálicas ligadas. - Continuidade verificada.

5.3 Tensões

Alimentação principal: - 230V monofásico (raramente em máquinas). - 400V trifásico standard industrial. - 690V em indústria pesada. - MT em equipamentos muito grandes.

Comando: - 24V CC: standard moderno (PLC + sensores). - 110V CA: legacy. - 230V CA: ainda usado.

Iluminação interna do quadro: - Idealmente 24V CC SELV (Safety Extra-Low Voltage). - Segurança em manutenção.

5.4 Marcação CE da máquina

Quadro + máquina = uma máquina segundo Directiva 2006/42/CE.

Responsabilidade: - Integrador que monta a máquina é o "fabricante". - Assume responsabilidade legal.

Documentação obrigatória: 1. Análise de risco (ISO 12100). 2. Esquemas eléctricos. 3. Lista de componentes. 4. Manual em português. 5. Declaração CE. 6. Marcação CE visível.

Em máquinas Anexo IV (prensas, robôs, etc.): - Avaliação por organismo notificado. - Mais rigoroso.

5.5 Documentação acessível

Dentro do quadro (plastificado): - Esquema unifilar. - Esquema básico de comando. - Lista de I/Os. - Contactos de emergência.

Em arquivo (físico + digital): - Esquemas completos. - Manuais de cada componente. - Programas (PLC, HMI, robô se aplicável). - Análise de risco. - Histórico de modificações.


6. Manutenção

6.1 Plano

Diária (operador): - Inspecção visual rápida. - Sem alarmes ou sinais anormais. - Ventilação OK (sem obstruções nos filtros).

Semanal: - Limpeza externa. - Verificar conectores Ethernet apertados.

Mensal: - Termografia em carga. - Verificar lâmpadas piloto funcionais. - Teste TEST dos DRs. - Limpeza dos ventiladores e dissipadores (se quadro tem ventilação activa).

Trimestral: - Apertos de bornes com chave dinamométrica. - Backup do PLC + HMI. - Verificar configurações de comunicação. - Limpeza profunda (com quadro desligado).

Anual (paragem programada): - 5 regras de ouro + LOTO completo. - Megger do isolamento. - Substituir filtros de ventilação. - Verificar condensadores em fontes (envelhecimento). - Calibração de instrumentos. - Análise de qualidade da energia (THD, factor de potência). - Renovação de etiquetas se desgastadas.

A cada 5 anos: - Substituição preventiva de componentes em fim de vida: - Ventiladores de quadros. - Condensadores grandes. - Baterias do PLC. - Avaliação de upgrade do PLC se obsoleto. - Inspecção legal RTIEBT (cada 3 anos comercial, 1 ano industrial específico).

6.2 Avarias comuns

Sintoma Causa típica
Disjuntor dispara repetidamente Sobrecarga, curto, calibre errado
DR dispara Fuga à terra, equipamento degradado
Não comunica (Profinet) Cabo Ethernet, switch, configuração IP
Motor não arranca Contactor, relé térmico, sinal do PLC
HMI travado Memória cheia, comunicação cai
PLC em STOP Erro de programa, sobrecarga em saída
Ventilação fraca Filtros entupidos, ventilador avariado
Aquecimento anormal Sobrecarga, ventilação, bornes soltos

6.3 Diagnóstico sistemático

Em caso de avaria:

  1. HMI / display: mostra erro?
  2. Diagnostic buffer do PLC.
  3. LEDs de cada componente (verde OK, vermelho erro).
  4. Termografia para pontos quentes.
  5. Multímetro para medições eléctricas.
  6. Análise sistemática conforme metodologia das UCs anteriores.

6.4 Documentação e backup

Crítico: - Programa PLC: backup actualizado. - Programa HMI: idem. - Parâmetros VFD: extraíveis com software. - Receitas: backup. - Esquemas eléctricos: digital + físico.

Onde: - PC do programador (com restrições de acesso). - Servidor da empresa. - Cloud (cifrado). - Cartões SD em PLCs (alguns suportam).

Frequência: após cada alteração + mensal mínimo.


Apêndice A · Checklist de projecto

Antes de iniciar: - [ ] Especificação da máquina clara. - [ ] Análise de risco preliminar. - [ ] Selecção de marca. - [ ] Orçamento aprovado.

Durante o projecto: - [ ] Esquema unifilar. - [ ] Esquema multifilar de cada circuito. - [ ] Esquema de comando (PLC). - [ ] Layout do quadro. - [ ] Lista de componentes (BOM). - [ ] Cálculos eléctricos (Icc, queda V, térmico). - [ ] Análise de risco completa. - [ ] Conformidade EN 60204-1 + Directiva Máquinas.

Construção: - [ ] Componentes adquiridos. - [ ] Caixa preparada. - [ ] Montagem dos componentes. - [ ] Cablagem interna conforme esquema. - [ ] Identificação de bornes e cabos.

Comissionamento: - [ ] Ensaios eléctricos (continuidade, isolamento, DRs). - [ ] Configuração de PLC + HMI. - [ ] Testes funcionais. - [ ] Testes de segurança. - [ ] Documentação final. - [ ] Marcação CE. - [ ] Treinamento de operadores.


Apêndice B · Glossário


Apêndice C · Recursos