UC02939 · Instrumentação industrial
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Introdução
A instrumentação industrial é o conjunto de tecnologias usadas para medir e controlar variáveis físicas em processos industriais — temperatura, pressão, caudal, nível, posição, etc.
É a "sensorialidade" das máquinas e processos: sem instrumentação, sistemas automatizados são cegos. Esta unidade (25h) cobre os principais sensores e transmissores, sinais standard, calibração, comunicação industrial e manutenção.
1. Princípios da instrumentação
1.1 Conceitos
Instrumentação = ciência e tecnologia de medir, controlar, registar e visualizar variáveis físicas.
Cadeia básica:
Variável física → Sensor → Transmissor → Sinal padrão → Controlador (PLC/DCS) → Actuador → Variável corrigida
Loop de controlo (feedback):
- Sensor mede.
- Controlador compara com setpoint, calcula erro.
- Actuador ajusta para reduzir erro.
- Ciclo contínuo (PID).
1.2 Variáveis típicas
Físicas:
- Temperatura (T).
- Pressão (P).
- Caudal (Q).
- Nível (L).
- Posição / deslocamento.
- Velocidade / rotação.
- Força / binário.
- Aceleração / vibração.
Químicas:
- pH.
- Condutividade.
- Concentração de gases.
- Densidade / viscosidade.
Outras:
- Humidade.
- Luminosidade.
- Cor.
1.3 Características dos instrumentos
Gama (range, span): do valor mínimo ao máximo medível.
- Ex: 0-100 °C, 4-20 bar, 0-1000 L/min.
Resolução: menor variação detectável.
- Ex: 0,1 °C; 0,01 bar.
Precisão (accuracy): erro vs valor real.
- Ex: ±0,5% do span, ±1 °C.
Repetibilidade: consistência de medições da mesma variável.
- Diferentes da precisão (precisão é vs valor real; repetibilidade é entre medições).
Linearidade: relação saída-entrada é linear?
Tempo de resposta: quanto tempo para atingir 90% da nova leitura?
Drift: desvio gradual ao longo do tempo.
Histerese: diferença entre leituras subindo vs descendo.
2. Sensores principais
2.1 Temperatura
Termopar (TC):
- Junção de 2 metais diferentes gera tensão proporcional à diferença de temperatura.
- Lei de Seebeck.
- Tipos:
- K (Ni-Cr / Ni-Al): -200 a 1370 °C. Mais comum.
- J (Fe / Cu-Ni): -210 a 1200 °C.
- T (Cu / Cu-Ni): -200 a 400 °C, alta precisão.
- S, R (Pt-Rh): até 1700 °C, caros, fornos.
- Tensão pequena (mV) — necessita amplificação.
- Compensação de junção fria (CJC) obrigatória.
RTD (Resistance Temperature Detector):
- Resistência metálica varia com temperatura.
- Pt100: platina, 100 Ω a 0 °C.
- Gama: -200 a 600 °C.
- Mais preciso que termopar (até ±0,1 °C).
- Ligação 2, 3 ou 4 fios (compensação de resistência dos cabos).
Termístor:
- Semicondutor; resistência varia muito com temperatura.
- NTC (Negative Temperature Coefficient): resistência diminui com T.
- PTC: resistência aumenta com T.
- Gama pequena (-50 a 150 °C tipicamente).
- Muito sensível, barato.
Sensores infravermelhos / pirómetros:
- Medem radiação IR emitida pelo objecto.
- Sem contacto.
- Gama típica: -50 a +2000 °C.
- Útil em objectos em movimento, inacessíveis ou perigosos.
2.2 Pressão
Manómetro de Bourdon (mecânico):
- Tubo curvo deforma-se com pressão.
- Mostrador analógico.
- Sem saída eléctrica.
- Tradicional, robusto, barato.
Transmissor de pressão piezoeléctrico:
- Material piezoeléctrico (quartzo, cerâmico) gera tensão quando deformado.
- Saída: 4-20 mA.
- Gamas: vácuo (mbar) a alta pressão (kbar).
- Marcas: Endress+Hauser, Siemens SITRANS, ABB.
Transmissor capacitivo:
- Membrana metálica forma capacitor com placa fixa.
- Pressão deforma membrana → capacitância varia.
- Alta precisão.
Pressão diferencial (DP):
- Mede diferença entre 2 pontos.
- Aplicações: medição de caudal (placa orifício), nível em tanques pressurizados.
2.3 Caudal
Turbina (mecânica):
- Roda de pás roda proporcional ao caudal.
- Pulsos por volta detectados.
- Para líquidos limpos.
Vortex:
- Barra obstáculo no fluido cria vortices alternados.
- Frequência dos vortices proporcional ao caudal.
- Sem partes móveis.
- Para líquidos e gases.
Magnético (electromagnético):
- Princípio de Faraday: fluido condutor a passar por campo magnético induz tensão.
- Apenas para líquidos condutores (água, soluções).
- Não funciona em fluidos isolantes (óleo).
- Sem partes móveis, sem perda de carga.
Ultrasónico:
- Tempo de propagação de ondas ultra-sónicas no fluido.
- Sem contacto (ou clamp-on no exterior do tubo).
- Para líquidos limpos.
Coriolis:
- Mede massa (não volume) directamente.
- Princípio: fluido em movimento sofre força de Coriolis.
- Alta precisão (±0,1%).
- Caro mas único para certas aplicações (farmacêutica).
Diferencial de pressão + placa orifício:
- Tradicional. Placa orifício causa queda de pressão proporcional a Q².
- Transmissor DP mede.
- Económico mas perdas de carga significativas.
2.4 Nível
Bóia mecânica:
- Bóia segue nível, accionando switch.
- Para nível pontual (alto / baixo / médio).
- Simples, robusta.
Capacitivo:
- Capacitância entre eléctrodo e parede do tanque varia com nível.
- Sem contacto.
- Para líquidos, sólidos pulverulentos.
Hidrostático:
- Pressão no fundo do tanque = ρ × g × h.
- Mede pressão → calcula altura.
- Para líquidos. Necessita densidade conhecida.
Ultrasónico (sem contacto):
- Sensor no topo do tanque envia ondas ao líquido.
- Tempo de retorno → distância → nível.
- Para líquidos e sólidos.
Radar (sem contacto):
- Similar ao ultra-sónico mas com micro-ondas.
- Funciona com vapores, espuma.
- Mais preciso.
- Caro.
Pesagem:
- Reservatório sobre células de carga.
- Massa → nível (com densidade).
- Para qualquer fluido ou sólido.
2.5 Posição
Indutivo (proximity):
- Detecta metais.
- Distância 5-15 mm.
- Sem contacto, longa vida.
Capacitivo:
- Detecta qualquer material.
- Distância 5-50 mm.
Fotoeléctrico:
- Barreira: emissor + receptor separados.
- Reflexivo: emissor+receptor; espelho do outro lado.
- Difuso: detecta luz reflectida pelo próprio objecto.
Encoder:
- Incremental: pulsos por volta (ex: 1024 ppr). Posição relativa.
- Absoluto: posição única para cada ângulo. Mantém posição após desligar.
LVDT (Linear Variable Differential Transformer):
- Posição linear precisa (mm a metros).
- Sem contacto entre núcleo e bobinas.
Lasers:
- Distância sem contacto, alta precisão (µm).
- Custo médio-alto.
2.6 Outras
Vibração: acelerómetros piezoeléctricos.
Força: célula de carga (strain gauge).
Binário: torquímetros.
pH: eléctrodo combinado (vidro + referência).
Condutividade: 2 ou 4 eléctrodos em água.
Gases (CO, CO₂, O₂, etc.): químicos, electroquímicos, infravermelho.
3. Sinais
3.1 Sinais analógicos
4-20 mA — standard mundial em processo:
- 4 mA = 0% (mínimo da gama).
- 20 mA = 100% (máximo).
- < 4 mA = avaria (cabo cortado, sensor avariado).
- Vantagens:
- Resistente a perdas em cabos (corrente, não tensão).
- Diagnóstico imediato (sinal abaixo de 4 mA = erro).
- Alimentação pela linha em transmissores 2 fios.
0-10 V — alternativa:
- 0 V = 0%, 10 V = 100%.
- Mais sensível a ruído eléctrico.
- Standard em aplicações curtas.
0-20 mA — variante:
- Similar a 4-20 mA mas sem detecção de avaria por valores baixos.
- Menos usado.
3.2 Sinais digitais discretos
Sensores binários (ON/OFF):
- NPN (sinking): sensor liga 0V à saída quando activo.
- PNP (sourcing): sensor liga +24V quando activo. Standard europeu.
- Contacto seco (relé): sem electrónica, livre de polaridade.
Saídas:
- Open collector (transistor sem pull-up).
- TTL (5 V).
- Push-pull.
3.3 Comunicação digital
HART (Highway Addressable Remote Transducer):
- Sinal digital sobreposto a 4-20 mA.
- Permite ler diagnóstico, configurar, calibrar sem interromper sinal.
- Standard em processo.
Fieldbus específicos:
- Profibus PA: para processo (intrinsecamente seguro).
- Foundation Fieldbus: alternativa americana.
- AS-Interface (AS-i): para sensores e actuadores binários.
IO-Link:
- Comunicação ponto-a-ponto entre sensor e PLC.
- Cabo simples (não fieldbus).
- Configuração + diagnóstico + valores + identificação.
- Standard moderno emergente.
Ethernet industrial:
- Profinet, EtherNet/IP, EtherCAT, Modbus TCP.
- Velocidades altas.
- Topologias flexíveis.
- Standard moderno.
4. Calibração
4.1 Princípio
Calibrar = comparar instrumento com referência (padrão) de precisão superior.
Permite:
- Verificar precisão.
- Ajustar se houver desvio.
- Documentar rastreabilidade.
Hierarquia de padrões:
- Padrões nacionais (IPQ em Portugal).
- Padrões secundários (laboratórios acreditados).
- Padrões de trabalho (em empresas).
- Instrumentos em uso.
4.2 Frequência
Conforme criticidade:
- Crítico (segurança, qualidade): mensal a trimestral.
- Importante: semestral.
- Standard: anual.
- Não-crítico: bienal ou em manutenção.
Após:
- Manutenção do instrumento.
- Suspeita de drift.
- Choque ou queda.
- Modificações no processo.
4.3 Procedimento
Preparação:
- Instrumento de referência com certificado válido.
- Ambiente controlado: temperatura, humidade estáveis.
- Estabilização: instrumento sob teste em condições normais por tempo suficiente.
Execução:
- Aplicar 5 valores conhecidos: 0%, 25%, 50%, 75%, 100% da gama.
- Para cada valor:
- Aplicar entrada (subindo).
- Esperar estabilização.
- Registar leitura do instrumento.
- Repetir descendo (100% → 0%).
- Calcular:
- Erro = leitura - valor real.
- Erro relativo = erro / span × 100%.
- Histerese = leitura subindo - leitura descendo.
Tolerância: comparar com especificação do fabricante (ex: ±0,5% do span).
Se fora de tolerância:
- Ajustar zero (4 mA quando entrada = 0%).
- Ajustar span (20 mA quando entrada = 100%).
- Re-verificar após ajuste.
Certificado de calibração:
- Identificação do instrumento (modelo, número de série, gama).
- Data + assinatura.
- Padrão de referência usado (com seu próprio certificado válido).
- Resultados (tabela de pontos).
- Erros calculados.
- Conclusão (passa / falha).
- Próxima calibração prevista.
4.4 Equipamentos de referência
Para temperatura:
- Forno seco (Fluke 9143) — temperatura controlada com Pt100 padrão.
- Banho de óleo / água — para gamas líquidas.
- Calibrador portátil com simulador de termopar/RTD.
Para pressão:
- Calibrador deadweight — pesos calibrados aplicam pressão.
- Bomba manual + manómetro padrão.
- Calibrador electrónico (Fluke 754, Beamex MC6).
Para 4-20 mA:
- Calibrador de loop (Fluke 705, 707).
- Simula 4-20 mA e mede com precisão.
Para outros:
- Padrões específicos por variável.
5. Comunicação industrial
5.1 Hierarquia
ERP / MES (nível empresa) ──── Ethernet TI
↓
SCADA (supervisão) ──── Ethernet industrial (Profinet, etc.)
↓
PLC / DCS (controlo) ──── Profibus DP / Profinet / EtherCAT
↓
Instrumentação de campo ──── Profibus PA / HART / IO-Link / 4-20 mA
5.2 Profibus PA
Specific para processo:
- Intrinsecamente seguro (zonas explosivas ATEX).
- Alimentação + dados no mesmo cabo.
- Até 31 instrumentos por segmento.
- Standard em refinarias, química, farmacêutica.
5.3 IO-Link
Mais moderno:
- Ponto-a-ponto entre sensor e gateway IO-Link.
- Gateway IO-Link conecta a PLC via Profinet/EtherNet IP.
- Sensor reporta valor + diagnóstico + identificação.
- Configuração à distância.
- Standard universal IEC 61131-9.
Vantagens vs sensor binário tradicional:
- Diagnóstico (não só ON/OFF).
- Identificação automática.
- Mudança de tipo de sensor sem alterar PLC.
5.4 Ethernet industrial
Profinet, EtherNet/IP, EtherCAT, Modbus TCP:
- Velocidade alta (100 Mbit/s, 1 Gbit/s).
- Topologias flexíveis.
- Integração com IT.
- Cybersegurança crítica.
6. Manutenção e diagnóstico
6.1 Plano
Diária:
- Inspecção visual: cabos, conexões, sujidade.
- Leituras dentro do esperado.
Mensal:
- Verificar drift comparando com referência local.
- Limpeza de superfícies sensíveis (lentes ópticas, sensores capacitivos).
Trimestral:
- Verificação dos diagnósticos do PLC (instrumentos a reportar erros?).
- Termografia dos cabos e conexões.
Anual:
- Calibração com instrumento de referência.
- Substituição de baterias em sensores wireless.
- Verificação de cabos longos.
6.2 Avarias comuns
| Sintoma | Causa(s) provável(is) | Acção |
|---|---|---|
| Leitura ruidosa, instável | EMI, cabo mal blindado, mau aterramento | Verificar cabo, blindagem, terra |
| Leitura fixa em 0 ou max | Cabo cortado, sensor avariado | Substituir |
| Drift gradual | Envelhecimento do sensor | Calibrar; substituir se persiste |
| Leitura errática | Sensor instalado em ponto errado (turbulência) | Mover ou amortecer |
| Comunicação intermitente | Cabo/conector, terminações fieldbus | Verificar conexões |
| Sensor parado, sem leitura | Alimentação, cabo, sensor avariado | Verificar fonte 24V, multímetro |
6.3 Diagnóstico
Tradicional (4-20 mA):
- Multímetro: medir corrente real e comparar com valor esperado.
- Calibrador de loop: substituir sensor por simulador.
Moderno (HART, fieldbus):
- Software (Emerson AMS, Honeywell, Endress+Hauser FieldCare).
- Lê diagnósticos do próprio instrumento.
- Histórico de drift.
- Recomenda calibração / substituição.
Apêndice A · Glossário
- TC — Thermocouple (termopar).
- RTD — Resistance Temperature Detector.
- PT100 — Pt100, resistência de platina 100 Ω a 0 °C.
- NTC, PTC — termístores.
- DP — Differential Pressure.
- HART — Highway Addressable Remote Transducer.
- CJC — Cold Junction Compensation.
- EMI — Electromagnetic Interference.
- LVDT — Linear Variable Differential Transformer.
- Loop 4-20 mA — circuito de corrente standard.
- Span — gama.
- Drift — desvio gradual.
- Acreditação — reconhecimento formal de laboratório (IPAC em PT).
Apêndice B · Fabricantes
Globais:
- Endress+Hauser: variável process control.
- Siemens (SITRANS): amplo.
- ABB: variável.
- Emerson (Rosemount, Micro Motion): caudal.
- Yokogawa: japonês, qualidade alta.
- Honeywell: amplo.
Em Portugal:
- Distribuídos por Electromecânica, Tecnirec, Fluke (instrumentação portátil).
Apêndice C · Recursos
- Norma EN 60751: RTD Pt100.
- Norma IEC 60584: termopares.
- Norma EN 60534: válvulas de controlo.
- IPAC (Portugal): instituto português de acreditação.
- Calibrador portátil: Fluke 754 documenting calibrator.
- Software: Fluke DMS, Emerson AMS, Endress+Hauser FieldCare.