UC02937 · Planeamento e gestão da manutenção
- Introdução
- 1. Estratégias de manutenção
- 2. Planeamento e programação
- 3. CMMS — gestão informática
- 4. KPIs e indicadores
- 5. RCM — Reliability Centered Maintenance
- 6. TPM — Total Productive Maintenance
- 7. Stock de peças e fornecedores
- 8. Segurança e regulamentação
- Apêndice A · Glossário de gestão da manutenção
- Apêndice B · Recursos
Introdução
Esta unidade (50h) cobre o lado de gestão da manutenção industrial. Enquanto UC02867 ensina o "como" técnico (rolamentos, lubrificação, vibração), UC02937 ensina o "como organizar": como planear, programar, medir, melhorar, garantir conformidade legal, gerir pessoas e recursos.
É a UC que torna um bom técnico num bom responsável de manutenção. Conhecimentos: - Estratégias de manutenção e quando usar cada. - Software CMMS para gestão centralizada. - Indicadores (KPIs) para medir desempenho. - Metodologias avançadas (RCM, TPM, 5S). - Gestão de peças e fornecedores. - Segurança e regulamentação. - Liderança e formação de equipa.
1. Estratégias de manutenção
1.1 As 4 estratégias
(Já abordadas em UC02867, expandindo aqui)
Correctiva (reactiva): - Reparar após a avaria. - Sem planeamento. - Custo de peças: mínimo (usa-se até partir). - Custo de paragem: máximo (urgência, indisponibilidade). - Adequada para: equipamentos baratos, redundantes, não-críticos. Lâmpadas, pequenos motores de ventilação.
Preventiva (programada): - Intervenções regulares (calendarizadas). - Filosofia: "trocar antes de partir" baseado em estatística. - Standard tradicional. - Adequada para: equipamentos com vida útil previsível, sem instrumentação preditiva disponível.
Preditiva (condicionada): - Substituir baseado em medições (vibração, termografia, óleo, ruído). - Substitui só quando há sinais de degradação real. - Requer instrumentos e formação. - Adequada para: equipamentos críticos e caros, onde paragens custam muito.
Proactiva (RCM-based): - Atacar causas-raiz da degradação. - Filosofia: "porque é que partiu? Eliminar causa". - Investimento em qualidade de instalação, alinhamento, qualidade da energia. - Adequada para: organizações maduras com cultura de melhoria contínua.
1.2 Matriz de criticidade
Não todos os equipamentos merecem o mesmo esforço. Classificar por criticidade:
| Critério | Peso |
|---|---|
| Impacto da paragem (€/h) | 30% |
| Tempo médio de reparação | 20% |
| Existência de redundância | 15% |
| Custo de substituição | 15% |
| Impacto em segurança/ambiente | 10% |
| Frequência típica de avaria | 10% |
Classes: - A — Crítico (top 10-20%): paragem custa muito; estratégia preditiva + proactiva. - B — Importante (20-50%): preventiva + ocasional preditiva. - C — Não-crítico (50-100%): preventiva ligeira ou correctiva.
Princípio de Pareto: 20% dos equipamentos absorvem 80% do esforço de manutenção. Identificá-los é o primeiro passo.
1.3 Custo total de propriedade (TCO)
TCO = Custo aquisição + Custo operação + Custo manutenção + Custo paragem
Decisão manter vs substituir vs upgrade baseada em TCO ao longo da vida útil.
Exemplo: motor de 10 anos com 3 reparações/ano (custo 500 €/cada): - Manter: 1500 €/ano em reparações + risco de paragem + ineficiência energética. - Substituir por IE3 novo (1000 €): poupa em manutenção + poupa energia 5-10% + extends vida útil 15-20 anos.
ROI da substituição: tipicamente 1-3 anos.
1.4 Quando cada estratégia
| Equipamento | Estratégia recomendada |
|---|---|
| Motor crítico 24/7 | Preditiva + Proactiva |
| Bomba secundária com redundância | Preventiva |
| Ventoinha pequena | Correctiva |
| Compressor único 22 kW | Preditiva + Preventiva |
| Iluminação LED | Correctiva |
| Sistema HVAC | Preventiva + Preditiva |
| Linha de produção crítica | RCM completo |
2. Planeamento e programação
2.1 Hierarquia de planos
Política de manutenção (alta direcção): - Filosofia (preventiva vs preditiva?). - Objectivos (OEE > 85%, MTBF > X). - Recursos (orçamento, equipa). - Standards.
Plano anual (gestor de manutenção): - Orçamento: peças, formação, equipamento. - Recursos humanos: contratações, formação. - Prioridades estratégicas: que projectos (CMMS, RCM)? - Riscos e mitigações.
Plano mensal (chefes de equipa): - Distribuição de OTs preventivas. - Recursos para a semana/mês. - Coordenação com produção.
Plano semanal/diário: - Atribuição específica por técnico. - Sequência de tarefas.
Ordem de Trabalho (OT) (técnico): - Tarefa específica num momento.
2.2 Ordem de Trabalho (OT)
Documento estruturado que descreve uma intervenção:
Cabeçalho: - Número único (OT-2025-1234). - Equipamento (código + descrição). - Prioridade (A, B, C ou 1-5). - Tipo (preventiva, correctiva, preditiva). - Data de planeamento + janela de execução. - Técnico atribuído. - Estado actual (planeada, em curso, fechada).
Corpo: - Descrição da tarefa. - Materiais necessários (referências, quantidades). - Ferramentas específicas. - EPI obrigatório. - Tempo estimado. - Procedimento passo-a-passo. - Análise de segurança (riscos, mitigações). - Permits necessários (espaço confinado, trabalho em altura, fogo).
Fecho: - Trabalho realmente realizado (pode diferir do planeado). - Materiais consumidos. - Tempo real. - Causa-raiz (em manutenção correctiva). - Observações e recomendações. - Assinaturas: técnico + supervisor (validação).
Em CMMS: tudo digital. Mobile (técnico vê OT no smartphone, fecha lá mesmo).
2.3 Backlog
Backlog = soma de OTs pendentes não-executadas.
Saudável: 1-2 semanas de trabalho acumulado. - Permite optimização de recursos. - Permite agregar tarefas (mesma máquina, várias tarefas num só shutdown).
Excessivo: > 4 semanas. - Equipa sub-dimensionada OU - Priorização incorrecta OU - Cultura de não-fecho.
Vazio: 0 ou < 1 semana. - Equipa sub-utilizada OU - Falta de planeamento preventivo (só se faz corrective).
2.4 Priorização
Matriz importância × urgência:
| Urgente | Não urgente | |
|---|---|---|
| Importante | Fazer JÁ (avaria crítica) | Planear (preventiva) |
| Não importante | Delegar (substituir lâmpada) | Eliminar / quando der |
Em CMMS: prioridade A (< 24h), B (< semana), C (< mês), D (quando der).
2.5 Coordenação com produção
Manutenção e produção têm objectivos potencialmente conflituantes: - Produção: maximizar output → "não pares para manutenção". - Manutenção: prevenir falhas → "para, preciso fazer manutenção".
Solução: planeamento conjunto. - Janelas programadas (mudanças de turno, fins-de-semana, paragens técnicas). - Comunicação clara: produção sabe quando há paragem. - Manutenção de oportunidade: aproveitar paragens não-planeadas para tarefas próximas. - Indicadores partilhados: OEE é responsabilidade conjunta.
3. CMMS — gestão informática
3.1 O que é
Computerized Maintenance Management System: software que centraliza toda a gestão de manutenção.
Substitui: - Fichas em papel. - Tabelas Excel espalhadas. - Memória do técnico ("eu sei como funciona aquela máquina").
3.2 Funcionalidades essenciais
1. Cadastro de equipamentos: - Hierarquia (empresa → edifício → linha → máquina → componente). - Identificação (nome, código, número de série, fabricante, ano). - Fotos, esquemas, manuais (PDFs anexados). - Localização (visual em planta). - Componentes principais (sub-cadastro). - Cargas, especificações eléctricas/mecânicas.
2. Manutenção preventiva: - Planos por equipamento (calendário, horas de operação, ciclos, condição). - Triggers automáticos: sistema cria OTs automaticamente conforme cronograma. - Checklist integrada (passos a fazer). - Histórico: cada execução fica registada.
3. Ordens de trabalho (OTs): - Criar (manual ou automática). - Atribuir (técnico, equipa). - Acompanhar (estado, progresso). - Fechar (com relatório). - Validar (supervisor confirma).
4. Stock de peças: - Inventário com localização, quantidade, valor. - Mínimos e máximos: alertas quando atinge mínimo → reposição. - Histórico de movimentos (entrada, saída por OT). - Pedidos de compra automáticos. - Códigos de barras / QR para acesso rápido.
5. KPIs e relatórios: - MTBF, MTTR, disponibilidade calculados automaticamente. - OEE se integrado com SCADA. - Custos por equipamento, por departamento. - Cumprimento do plano (% de OTs concluídas no prazo). - Dashboards customizáveis.
6. Mobile: - App para smartphone/tablet. - Técnico vê OT no terreno. - Fecha OT lá mesmo (com foto, comentários). - Pode-se consultar manual do equipamento via QR code.
7. Integrações: - ERP (SAP, Oracle): compras, custos, peças. - SCADA: dados em tempo real de produção e consumos. - IoT: sensores enviam dados → CMMS cria OT automática se anomalia.
3.3 Opções de software
Grande empresa (> 1000 utilizadores): - SAP PM: standard mundial; integração nativa com ERP SAP. Caro, complexo. - IBM Maximo: indústria pesada (oil&gas, mineração, energia). Robustez. - Infor EAM: alternativa ao Maximo. - Oracle EAM: integração com ERP Oracle.
PME (50-500 utilizadores): - Fiix (cloud): popular, intuitivo. - UpKeep: mobile-first. - eMaint (Fluke): boa integração com instrumentos. - MaintainX: muito moderno. - Infor EAM (versão "lite").
Open source / gratuito: - OpenMAINT (Itália): completo, requer instalação local. - GMAO (França): simples. - Snipe-IT: focado em activos IT mas adaptável.
Por sector: - Facilities (edifícios): Aralco Concept, IBM TRIRIGA. - Frota: Fleetio, GeoTab. - Saúde (equipamento médico): nCompass, Phoenix.
3.4 Implementação
Fase 1 — Análise (1-2 meses): - Inventário de equipamentos. - Análise de processos actuais. - Selecção de software (matrizes de requisitos vs funcionalidades). - Negociação contrato.
Fase 2 — Configuração (2-4 meses): - Cadastro de equipamentos no sistema. - Criação de planos preventivos. - Cadastro de peças. - Definição de utilizadores e permissões. - Customizações específicas.
Fase 3 — Formação (1-2 meses): - Treinamento de utilizadores (técnicos, supervisores, gestores). - Documentação interna. - Sessões prácticas.
Fase 4 — Piloto (1-3 meses): - Implementar em 1 área (linha, sector). - Identificar problemas, ajustar.
Fase 5 — Roll-out: - Expandir a toda a empresa. - Suporte contínuo.
Fase 6 — Optimização contínua: - Análise de dados. - Refinamento de planos. - Novas funcionalidades.
3.5 Factores de sucesso
- Apoio da direcção: imprescindível para investimento + cultura.
- Equipa de projecto dedicada: alguém com tempo para liderar.
- Adesão dos técnicos: formação + benefícios visíveis para eles.
- Dados de qualidade: cadastros completos, OTs preenchidas correctamente.
- Manutenção do sistema: actualizações, novas funcionalidades.
Falhas típicas: - Sistema implementado mas não usado (técnicos voltam ao papel). - Cadastros incompletos. - Dados não fiáveis (KPIs sem sentido). - Sub-utilização (5% das funcionalidades usadas).
ROI esperado: tipicamente 1-3 anos para PME, mais rápido em grandes empresas.
4. KPIs e indicadores
4.1 OEE — Overall Equipment Effectiveness
(Já tratado em UC02867. Resumo aqui)
OEE = Disponibilidade × Desempenho × Qualidade
Benchmark: - < 40%: muito mau (gestão inexistente). - 40-60%: má (típica em PMEs sem programa). - 60-85%: boa (gestão estruturada). - > 85%: world-class.
Componentes: - Disponibilidade = Tempo operação / Tempo planeado. - Desempenho = Output real / Output ideal. - Qualidade = Peças OK / Total peças.
4.2 MTBF e MTTR
MTBF (Mean Time Between Failures):
MTBF = Tempo total operação / Número de falhas
Maior = melhor.
Calculado por equipamento + global.
Exemplo: motor com 5 avarias em 8760 h (1 ano) → MTBF = 1752 h.
MTTR (Mean Time To Repair):
MTTR = Tempo total reparações / Número de falhas
Menor = melhor.
Exemplo: 5 reparações totalizando 20 h → MTTR = 4 h.
Disponibilidade intrínseca:
A = MTBF / (MTBF + MTTR)
A = 1752 / (1752 + 4) = 99,77%
4.3 Outros KPIs essenciais
Manutenção preventiva: - % PMs cumpridas no prazo: > 90% objectivo. - % manutenção planeada vs reactiva: > 75% objectivo. - Backlog de PMs atrasadas: < 5%.
Custo: - Custo total de manutenção / valor produzido: 2-5% típico saudável. - Custo / unidade produzida. - Custo por equipamento (top 10 mais caros). - Stock value / vendas: 0,5-2% típico (não imobilizar muito capital).
Tempo: - MTBF por classe de equipamento. - MTTR por tipo de avaria. - Tempo médio de OT (criação a fecho).
Qualidade: - Taxa de retrabalho: avarias recorrentes em < 30 dias. - First-time-right: OT fechada sem necessidade de retorno.
Segurança: - LTI (Lost Time Injury): zero objectivo. - Quase-acidentes reportados (mais = melhor cultura).
Pessoas: - Horas de formação por técnico/ano: > 40h objectivo. - Rotatividade: < 10%/ano.
4.4 Dashboards
Apresentação visual dos KPIs: - Cores: verde (OK), amarelo (atenção), vermelho (acção). - Tendências: setas para cima/baixo. - Benchmarks vs objectivos. - Drill-down: clicar num KPI vai ao detalhe.
Visível em: - TV no corredor da manutenção (sempre). - Reuniões diárias/semanais. - Reuniões mensais com direcção. - Mobile para gestores.
5. RCM — Reliability Centered Maintenance
5.1 Conceito
Metodologia estruturada para definir a estratégia óptima de manutenção para cada equipamento. Originada na aviação civil (anos 1960) e formalizada na norma SAE JA1011.
Princípio: não toda a manutenção preventiva é necessária. RCM identifica o mínimo necessário para garantir fiabilidade aceitável.
5.2 As 7 perguntas
Para cada equipamento ou função:
1. Quais são as funções e padrões de desempenho? - Função principal (ex: bombear 100 L/min a 5 bar). - Funções secundárias (não vazar, manter pressão estável).
2. Que falhas funcionais podem ocorrer? - Não bombear nada. - Bombear caudal reduzido. - Pressão flutuante. - Vazamento.
3. Quais as causas (modos de falha)? - Para cada falha funcional, listar causas: - Rolamento partido. - Vedação degradada. - Cavitação. - Falha eléctrica do motor. - Filtro entupido. - ...
4. Quais as consequências? - Operacionais (paragem da produção, qualidade afectada). - Económicas (custo de reparação, perdas). - Segurança (risco para pessoas). - Ambientais (derrame).
5. Como detectar (sinais)? - Vibração crescente → rolamento. - Aquecimento → eléctrico. - Ruído → cavitação. - Manchas → vazamento.
6. Que tarefa preventiva/preditiva é técnicamente viável? - Análise de vibração mensal → rolamento. - Termografia → eléctrico. - Verificação visual → vazamento.
7. Quando executar? - Conforme intervalo entre falha potencial e funcional (curva P-F). - Análise de vibração: a cada P-F/2 (margem de segurança).
5.3 FMEA — Failure Modes and Effects Analysis
Tabela estruturada output do RCM:
| Modo de falha | Efeito | Severidade (1-10) | Probabilidade (1-10) | Detecção (1-10) | RPN | Tarefa preventiva |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Rolamento parte | Paragem máquina, 4h | 8 | 5 | 3 | 120 | Vibração mensal |
| Vedação vaza | Perda de pressão | 5 | 7 | 8 | 280 | Inspecção visual semanal |
| Motor queima | Paragem 1 semana | 9 | 3 | 5 | 135 | Termografia + megger anual |
RPN (Risk Priority Number) = Severidade × Probabilidade × Detecção. Maior = prioridade para mitigação.
5.4 Aplicação
Indústrias onde RCM é standard: - Aviação (origem). - Nuclear. - Petroquímica. - Ferroviária. - Defesa.
Em PMEs: "RCM lite" — simplificado, focado em equipamentos críticos.
Investimento em RCM: - Tempo: 1-3 dias por equipamento crítico (workshop com engenheiros, operadores, técnicos). - Custo: 1000-5000 € por equipamento (se consultoria externa). - Retorno: tipicamente 6-24 meses.
6. TPM — Total Productive Maintenance
6.1 Filosofia
Originada no Japão (Seiichi Nakajima, anos 1970), depois adoptada globalmente.
Princípio: manutenção não é responsabilidade só do departamento de manutenção; é responsabilidade de toda a empresa, especialmente dos operadores.
6.2 Os 8 pilares
1. Manutenção autónoma (Jishu Hozen): - Operadores fazem inspecções diárias. - Pequenas reparações pelos operadores. - Limpeza e lubrificação básica. - Resultado: operadores conhecem máquina, detectam problemas precocemente.
2. Manutenção planeada: - Rotina pelo departamento de manutenção. - Preventiva + preditiva.
3. Melhoria contínua (Kobetsu Kaizen): - Eliminação sistemática de perdas. - Equipa multidisciplinar analisa cada perda. - Pequenas melhorias incrementais (kaizen).
4. Educação e formação: - Operadores formados em manutenção básica. - Técnicos formados em novas tecnologias. - Treinamento contínuo.
5. Manutenção da qualidade (Hinshitsu Hozen): - Integrar qualidade no processo de manutenção. - Configurações que evitam defeitos.
6. Manutenção inicial (Initial Phase Management): - Incorporar fiabilidade no projecto de novas máquinas. - Lições aprendidas aplicadas a próximas instalações.
7. TPM no escritório: - Filosofia em departamentos administrativos. - Eliminação de desperdícios em processos.
8. Segurança, saúde, ambiente: - Zero acidentes. - Zero poluição. - Cultura preventiva.
6.3 OEE como métrica central
TPM usa OEE como medida principal de sucesso. Objectivo: melhorar continuamente.
6.4 Implementação
- Tempo: 3-5 anos para implementação madura.
- Investimento: variável (formação + cultura + sistemas).
- Suporte da direcção crítico (cultura tem que vir de cima).
- Resistência inicial normal (operadores podem ver mais trabalho).
7. Stock de peças e fornecedores
7.1 Categorização ABC
Princípio de Pareto: 20% das peças = 80% do valor do stock.
Categoria A (top 20%): - Peças críticas e/ou caras. - Gestão rigorosa (mínimos, máximos, alertas). - Compra prevista, não em emergência.
Categoria B (próximos 30%): - Importantes mas não críticas. - Stock moderado.
Categoria C (50% restantes): - Pequenas, baratas. - Stock simples (caixa cheia / vazia).
7.2 Categorização por criticidade
Independente do valor:
Críticas: paragem se faltar, longo lead time, sem alternativa. - Manter em stock sempre (custa caro mas evita paragens caríssimas).
Importantes: paragem mas com alternativas ou prazo médio. - Stock moderado.
Standard: comprável em horas. - Stock mínimo ou sem stock.
Não-críticas: sem urgência. - Comprar quando necessário.
7.3 KPIs de stock
- Cobertura (dias de operação que stock cobre).
- Rotação (vezes/ano que stock é renovado).
- % peças críticas em stock: > 95%.
- Capital imobilizado em stock.
- % obsolescência (peças não usadas há > 12 meses).
7.4 Fornecedores
Selecção: - Qualidade (certificações ISO 9001). - Tempo de entrega (lead time). - Preço competitivo. - Disponibilidade de stock. - Suporte técnico (não só vender — ajudar a escolher). - Garantia. - Reputação e referências.
Gestão: - 2-3 fornecedores por categoria (concorrência saudável + backup). - Contratos quadro com preços negociados. - Avaliação periódica (scorecards). - Parcerias estratégicas (VMI — Vendor Managed Inventory para algumas peças).
8. Segurança e regulamentação
8.1 Segurança como prioridade
Em manutenção, acidentes acontecem: - Trabalhos com energia. - Trabalhos em altura. - Espaços confinados. - Equipamentos pesados. - Ferramentas perigosas.
Estatística internacional: em manutenção há 2-3× mais acidentes por hora trabalhada que em produção. Razão: trabalhos não-rotineiros, equipamentos em estados anormais.
8.2 LOTO
Lockout/Tagout — já abordado em UCs anteriores. Lembretes essenciais: - Identificar todas as fontes de energia. - Cadeado pessoal com chave única. - Etiqueta com identificação. - Verificar ausência de energia. - Cada técnico remove apenas o seu cadeado.
Causa #1 de fatalidades em manutenção industrial mundial: negligência de LOTO.
8.3 EPI obrigatório
Standard para manutenção industrial: - Calçado de segurança. - Luvas mecânicas. - Óculos panorâmicos. - Auriculares em zonas ruidosas. - Capacete em risco de queda de objectos. - Roupa de trabalho adequada.
Específicos conforme tarefa: - Eléctrica: luvas isolantes, viseira anti-arco. - Química: luvas químicas específicas, máscara. - Altura: arnês. - Soldadura: máscara, capa. - Espaço confinado: detector multigás, EPI de fuga.
8.4 Permits de trabalho
Para tarefas perigosas, exigir autorização formal antes:
Trabalho em altura (> 2 m): - Plano de prevenção de queda. - Arnês + linha de vida. - Inspecção dos equipamentos.
Espaço confinado (poços, silos, tanques): - Plano de salvamento. - Detector multigás. - Vigia exterior. - Comunicação contínua.
Hot work (soldadura, corte, esmerilamento): - Análise de risco de incêndio. - Extintor próximo. - Vigia anti-incêndio.
Eléctrica em vivo (raro, normalmente desligar): - Habilitação eléctrica obrigatória. - EPI específico. - Procedimento aprovado.
8.5 Regulamentação Portugal
Geral: - Código do Trabalho: SST geral. - DGS: directrizes médicas. - ACT (Autoridade para Condições de Trabalho): fiscalização. - ISO 45001: SST internacional (certificação opcional mas valoriza).
Específica eléctrica: - RTIEBT (Regras Técnicas de Instalações Eléctricas em Baixa Tensão). - Decreto-Lei sobre habilitações eléctricas (BTC, BTC AT). - Regulamento de segurança de instalações eléctricas em zonas perigosas (ATEX).
Pressão: - PED (Pressure Equipment Directive 2014/68/UE). - Decreto-Lei nº 90/2010.
Máquinas: - Directiva Máquinas 2006/42/CE. - Marcação CE obrigatória. - Análise de risco + manual obrigatórios.
Ambiente: - ISO 14001 (gestão ambiental). - REACH (químicos). - Resíduos (decreto-leis específicos).
Sectorial (conforme indústria): - Alimentar: HACCP, normas higiene. - Farmacêutica: GMP, INFARMED. - Energia: ERSE, REN. - Aviação: ANAC.
8.6 Documentação obrigatória
Para conformidade e auditorias: - Plano de manutenção por equipamento. - Histórico de intervenções (rastreável). - Certificações dos equipamentos (CE, declarações de conformidade). - Relatórios de ensaios (megger, isolamento, etc.). - Análises de risco (JSA, FMEA por tarefa/equipamento). - Permits de trabalho assinados. - Formação dos técnicos (certificados, dates). - EPI (com datas de validade e testes).
Em CMMS: tudo digital, rastreável, auditável.
8.7 Auditoria
Periódica (anual ou semestral): - Verificação de planos cumpridos. - Análise de KPIs. - Conformidade legal. - Avaliação da equipa. - Plano de melhoria.
Tipos: - Interna: por equipa própria. - 2ª parte: por cliente. - 3ª parte: por organismo certificador (DNV, Bureau Veritas, SGS, TÜV).
Resultado: certificação ISO (9001 qualidade, 14001 ambiente, 45001 SST). Vantagens em concursos públicos, contratos com grandes clientes, redução de seguros.
Apêndice A · Glossário de gestão da manutenção
- CMMS — Computerized Maintenance Management System.
- OEE — Overall Equipment Effectiveness.
- MTBF — Mean Time Between Failures.
- MTTR — Mean Time To Repair.
- TCO — Total Cost of Ownership.
- RCM — Reliability Centered Maintenance.
- TPM — Total Productive Maintenance.
- FMEA — Failure Modes and Effects Analysis.
- RPN — Risk Priority Number.
- OT — Ordem de Trabalho.
- PM — Preventive Maintenance.
- PdM — Predictive Maintenance.
- JSA — Job Safety Analysis.
- LOTO — Lockout/Tagout.
- EPI — Equipamento de Protecção Individual.
- 5S — Seiri, Seiton, Seiso, Seiketsu, Shitsuke.
- Kaizen — Melhoria contínua.
- VMI — Vendor Managed Inventory.
Apêndice B · Recursos
- Livros:
- "Reliability-Centered Maintenance" — John Moubray.
- "Total Productive Maintenance" — Seiichi Nakajima.
-
"Maintenance Engineering Handbook" — Higgins, Mobley.
-
Normas:
- ISO 55000 (gestão de activos).
- SAE JA1011 (RCM).
- EN 13306 (terminologia da manutenção).
-
ISO 14224 (registo de fiabilidade).
-
Certificações profissionais:
- CMRP (Certified Maintenance & Reliability Professional) — SMRP.
- CMRT (Certified Maintenance & Reliability Technician).
-
Lean Six Sigma (Green Belt, Black Belt).
-
Cursos em Portugal:
- APEM (Associação Portuguesa de Manutenção).
- SEMSP (Sociedade Portuguesa de Manutenção).
-
Universidades técnicas (Mestrados em Gestão da Manutenção).
-
Eventos:
- Manutenção (revista APEM).
- Maintenance World.
- Conferências internacionais: AMP — American Maintenance Professionals.