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UC · Unidade de Competência · UC02935

UC02935 · Transformadores

Princípios, tipos, dimensionamento, manutenção
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

O transformador é o componente que permite a rede eléctrica moderna. Sem ele, a energia produzida em centrais a centenas de km de distância não chegava a cada tomada na nossa casa de forma económica.

Princípio descoberto por Michael Faraday em 1831 (indução electromagnética). Aplicação industrial em larga escala desde os anos 1880 com a "guerra das correntes" entre Edison (CC) e Tesla/Westinghouse (CA) — venceu CA porque era fácil transformar (subir tensão para transporte, baixar para utilização).

Esta unidade (25h) cobre os fundamentos: princípios físicos, tipos principais (monofásico, trifásico, especiais), ensaios e manutenção. Foco prático em situações que o técnico de manutenção industrial encontra: pequenos transformadores em quadros de comando, transformadores de isolamento em zonas críticas, transformadores de potência em postos de transformação (PT) industriais.


1. Princípios electromagnéticos

1.1 Lei de Faraday

Lei fundamental (Michael Faraday, 1831):

Quando o fluxo magnético através de uma bobina varia no tempo, induz-se uma força electromotriz (f.e.m.) nessa bobina.

ε = -N × dΦ/dt

Onde:

Implicação: para haver tensão induzida, o fluxo tem de variar. Por isso o transformador não funciona com CC — a CC mantém fluxo constante, não há variação, não há indução.

1.2 Acoplamento magnético

Se duas bobinas partilham o mesmo fluxo (estão no mesmo núcleo magnético), uma variação na primeira induz tensão na segunda:

Bobina 1 (primário, N1 espiras):    ε1 = -N1 × dΦ/dt
Bobina 2 (secundário, N2 espiras):  ε2 = -N2 × dΦ/dt

Dividindo:

ε1 / ε2 = N1 / N2

Esta é a relação fundamental do transformador.

1.3 Relação de transformação

U1 / U2 = N1 / N2 = a (relação de transformação)

Conservação aproximada de potência (descontando perdas):

S1 = S2  (em VA)
U1 × I1 = U2 × I2
→ I1 / I2 = N2 / N1 = 1/a

Tensão sobe → corrente desce, e vice-versa.

1.4 Exemplo prático

Transformador 230 V / 24 V para campainha:

Cobre da bobina primária é mais fino (corrente menor); cobre da secundária é mais grosso. O número de espiras é maior no primário.


2. Transformador monofásico

2.1 Construção

Núcleo magnético:

Bobinas:

2.2 Tipos de núcleo

Núcleo em coluna (core type):

   ┌─────────┐
   │         │
  ███       ███    bobinas em volta de 2 colunas
   │         │
   └─────────┘

Construção simples, comum em transformadores pequenos-médios.

Núcleo encurralado (shell type):

   ┌───────┬───────┐
   │       │       │
   │      ███      │   bobina em torno da coluna central
   │       │       │
   └───────┴───────┘

Bobinas mais protegidas. Menor dispersão magnética. Standard em transformadores de potência médios.

Núcleo toroidal:

2.3 Perdas no transformador

Perdas no ferro (no núcleo):

Característica: existem sempre que transformador está ligado, independentemente da carga. Constantes.

Perdas no cobre (nas bobinas):

Rendimento típico:

Maior eficiência possível em hardware industrial — é dos componentes eléctricos mais eficientes que existem.

2.4 Diagrama equivalente

Para análise eléctrica, transformador modela-se como circuito equivalente:

        R1, X1               R2, X2
   ───/\/\─/\/\─┬──────────┬─/\/\─/\/\───
   Primário    │          │    Secundário
              X_m   │   R_núcleo
              (magnetização)   (perdas ferro)
                    │
                   GND

2.5 Aplicações


3. Transformador trifásico

3.1 Construção

3 transformadores monofásicos podem ser combinados num único núcleo trifásico com 3 colunas:

       Coluna L1   Coluna L2   Coluna L3
          │           │           │
        ┌─┴─┐       ┌─┴─┐       ┌─┴─┐
        │   │       │   │       │   │
        │ █ │       │ █ │       │ █ │   bobinas primárias
        │   │       │   │       │   │
        │ █ │       │ █ │       │ █ │   bobinas secundárias
        │   │       │   │       │   │
        └─┬─┘       └─┬─┘       └─┬─┘
          │           │           │
          └───────────┴───────────┘
                  jugo magnético

Vantagens vs 3 monofásicos:

Desvantagens:

3.2 Ligações trifásicas

Cada lado (primário e secundário) pode ser ligado em:

Estrela (Y):

Triângulo (D ou Δ):

Zig-zag (Z):

3.3 Designação de transformadores trifásicos

Formato: Aa[N][n][número]

Exemplos:

3.4 Tensões standard em Portugal

Tensão Designação Aplicação
400/230 V (50 Hz) BT (Baixa Tensão) Distribuição ao consumidor final.
15 kV (entre fases) MT (Média Tensão) Distribuição urbana e periurbana.
30 kV MT Distribuição rural.
60 kV AT (Alta Tensão) Sub-transmissão entre subestações regionais.
150 kV AT Transmissão.
220 kV AT Transmissão principal nacional (REN).
400 kV AT Transporte longa distância (linhas internacionais).

Posto de Transformação (PT) típico industrial: alimentação 15 kV (rede MT) → transformador Dyn11 → 400/230 V para distribuição interna.

3.5 Comportamento perante cargas desequilibradas

Em sistemas trifásicos reais, as cargas raramente são exactamente iguais nas 3 fases. Isto cria corrente de neutro (em sistemas com neutro) ou desequilíbrio interno (em triângulo).

Y-Y com neutro (Yyn0): aceita bem cargas desequilibradas — neutro retorna o desequilíbrio. Standard residencial.

D-Y com neutro (Dyn11): o triângulo no primário "absorve" o desequilíbrio internamente, não o passa à rede MT. Por isso é o standard de distribuição.

Y-D: cargas desequilibradas no triângulo causam circulação interna mas mantêm tensões estáveis externamente.

3.6 Acoplamento em paralelo

Para alimentar grandes cargas pode ser necessário ter 2+ transformadores em paralelo. Requisitos:

  1. Mesma relação de transformação (mesma tensão de saída).
  2. Mesmo grupo de ligação (Yd11 com Yd11; nunca Yd11 com Dy5 → desfasamento diferente → circulação destrutiva).
  3. Impedâncias percentuais semelhantes (max 10% de diferença) — caso contrário, um leva a maior parte da carga.
  4. Mesma sequência de fases.

Em PTs grandes (industriais, hospitais, etc.), 2 transformadores em paralelo dão redundância: se um falhar, o outro continua a alimentar (com cargas reduzidas se necessário).


4. Transformadores especiais

4.1 Auto-transformador

Uma única bobina com derivação intermédia:

    Terminal A ──┬─────────────────
                 │
              N1 (parte da bobina toda)
                 │
                 ├──── Saída (derivação)
                 │
              N2 (parte adicional)
                 │
    Terminal B ──┴─────────────────

Relação: U_saída = U_A_B × (N2 / N_total).

Vantagens vs transformador convencional:

Desvantagens:

Aplicações:

4.2 Transformador de corrente (TC)

Mede correntes elevadas convertendo para escala compatível com instrumentos (5 A ou 1 A):

Conductor primário (passa por núcleo toroidal)
                              │
                              ▼
                       ╔══════════╗
                       ║  Núcleo  ║
                       ║          ║
                       ║      ████║   Bobina secundária (várias espiras)
                       ║          ║   → para amperímetro / relé
                       ╚══════════╝

Primário pode ser 1 só passagem (cabo passa pelo TC) ou múltiplas espiras enroladas.

Exemplo: TC 1000/5

Cuidados críticos:

Tipos:

4.3 Transformador de tensão (TT)

Mede tensões elevadas convertendo para 100 V (ou 110 V) para voltímetros:

Exemplo: TT 15kV/100V

Aplicações: contadores fiscais em MT, painéis de protecção, monitorização.

Cuidados:

4.4 Transformador de isolamento

Relação 1:1 (tensão entrada = tensão saída). Objectivo é apenas separar galvânicamente os dois lados.

Aplicações:

  1. Zonas médicas críticas (salas de cirurgia, UCI): paciente conectado a aparelhos eléctricos deve ter circuito isolado da rede para evitar correntes de fuga letais. Norma IEC 60364-7-710.

  2. Bancadas de laboratório / serviço: protegem técnico ao reparar equipamentos com chassis vivos (e.g. fontes antigas sem isolamento).

  3. Áudio / instrumentação: eliminam ground loops (loops de massa que introduzem zumbido 50 Hz).

  4. Equipamento eléctrico portátil em zonas húmidas (canteiros): obrigatório em alguns países.

4.5 Transformador toroidal

Núcleo em forma de anel (toroide); bobina enrolada à volta do anel.

Vantagens:

Desvantagens:

Aplicações: amplificadores hi-fi, equipamento médico, instrumentação de precisão, fontes de alimentação especiais.

4.6 Transformador SMPS / electrónico

Fontes electrónicas modernas (computadores, telemóveis, LEDs) usam transformadores de alta frequência (kHz):

Vantagens vs transformador 50 Hz:

Desvantagens:

Comum em adaptadores de portátil, carregadores USB, drivers de LED, fontes de PC.


5. Ensaios e manutenção

5.1 Ensaios de transformador novo

Ensaio em vazio (no-load test):

Ensaio em curto-circuito (short-circuit test):

Estes 2 ensaios caracterizam completamente o transformador.

Outros ensaios (laboratoriais ou de aceitação em fábrica):

5.2 Manutenção — transformador seco BT

Transformadores secos (sem óleo) usados em quadros de comando, em interior:

Inspecção mensal:

Trimestral:

Anual:

5-10 anos:

5.3 Manutenção — transformador em óleo

Transformadores de potência (acima de ~100 kVA) tipicamente usam óleo mineral como isolante e refrigerante:

Análise periódica do óleo (1-2 vezes por ano):

Manutenção do óleo:

Outros equipamentos a verificar:

5.4 Vida útil

Tipo Vida útil típica
Pequeno transformador BT (comando) 20-30 anos
Transformador seco médio 25-35 anos
Transformador em óleo de distribuição 30-50 anos
Transformador de potência (grande) 40-60 anos (com manutenção)

Manutenção adequada estende vida útil; sem manutenção, falhas catastróficas em 10-15 anos.


6. Segurança

6.1 Riscos

Os transformadores são equipamentos com alto risco eléctrico:

6.2 5 regras de ouro

Em qualquer intervenção em transformador (ou qualquer equipamento eléctrico):

  1. Cortar todas as fontes de tensão (todos os pólos).
  2. Bloquear e etiquetar o seccionador (LOTO — Lockout/Tagout).
  3. Verificar ausência de tensão com instrumento adequado (não só visualmente).
  4. Pôr à terra e em curto-circuito (em MT/AT).
  5. Sinalizar e delimitar zona de trabalho.

Em BT, regra 4 pode não ser obrigatória mas é recomendada em equipamentos com capacidade significativa.

6.3 Distâncias de segurança

Tensão Distância de aproximação
BT (< 1 kV) 30 cm
MT 15 kV 1,0 m
MT 30 kV 1,2 m
AT 60 kV 1,5 m
AT 150 kV 2,5 m
AT 220 kV 3,5 m
AT 400 kV 5,5 m

Em MT/AT só pessoal habilitado (Habilitação BTC para MT, BTC AT para AT em Portugal) pode aproximar-se. Operações em vivo só com EPI específico e procedimentos certificados.

6.4 EPI específico

EPI deve ser testado periodicamente (ano a ano em laboratório certificado). Luvas com fissuras ou furos = inúteis.

6.5 Procedimento de socorro

Em caso de electrocussão de colega:

  1. NUNCA tocar directamente a vítima.
  2. Cortar a alimentação se possível (interruptor, disjuntor).
  3. Se impossível: empurrar a vítima para longe do contacto com objecto isolante seco (bastão, pau, vassoura — não metal, não húmido).
  4. Se a vítima não reage, ligar 112 de imediato, com o telefone em alta voz, e verificar se respira (ver, ouvir e sentir, 10 segundos).
  5. Se não respira normalmente: iniciar SBV (30 compressões para 2 insuflações) se formado, e pedir o DAE, seguindo as indicações do CODU.
  6. Não deixar vítima sozinha; observar até chegada do socorro.

Formação em primeiros socorros e desfibrilação é obrigatória para técnicos eléctricos qualificados.


Apêndice A · Fórmulas de transformador

Relação de transformação:
a = N1/N2 = U1/U2 = I2/I1

Conservação de potência (ideal):
S1 = S2  (em VA)

Rendimento:
η = P_saída / P_entrada = P2 / (P2 + perdas_ferro + perdas_cobre)

Tensão induzida por espira:
ε/N = 4,44 × f × Φ_máx
(para onda sinusoidal)

Φ_máx = B_máx × A_núcleo
(B em Tesla, A em m²)

Apêndice B · Tabela de tensões UE

Sistema Faixa Designação
Extra Baixa Tensão (EBT) < 50 V CA / 120 V CC SELV, PELV
Baixa Tensão (BT) 50-1000 V CA 230/400V residência
Média Tensão (MT) 1-35 kV Distribuição
Alta Tensão (AT) 35-230 kV Transmissão
Muito Alta Tensão (MAT) > 230 kV Linhas internacionais

Apêndice C · Glossário


Apêndice D · Recursos