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UC · Unidade de Competência · UC02933

Quadros eléctricos de distribuição

Tipos, normas, dimensionamento, montagem, ensaios
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta UC foca o projecto e montagem de quadros eléctricos — desde habitação até industrial. Cobre normas (EN 61439), classificação IP/IK, componentes, dimensionamento térmico, cablagem interna, montagem física e ensaios obrigatórios.

Pré-requisitos: UC02864 (Segurança), UC02928 (Desenho), UC02932 (Instalações), UC02862 (Circuitos eletromecânicos).

1. Tipos de quadros

1.1 Por função

Tipo Função Onde
QGBT (Quadro Geral BT) Entrada do edifício; recebe da rede Subsolo, técnico
QD (Distribuição) Distribui circuitos Pisos, zonas
Quadro Comando Comutação motores/sequências Junto à máquina
Quadro Força Motriz (QFM) Alimentação motores grandes Centro de cargas
Quadro Iluminação Apenas iluminação Separação para gestão
Quadro Emergência Alimentado por UPS/gerador Funções críticas
Quadro Tarifário Tarifa preferencial (off-peak) Habitação/comércio

1.2 Por construção

1.3 Por dimensão

2. Normas

2.1 EN 61439

Norma europeia padrão para conjuntos de comando e protecção de baixa tensão (LV switchgear), em vigor desde 2014 (substituiu EN 60439).

Partes: - EN 61439-1: regras gerais. - EN 61439-2: quadros industriais (PSC-Assemblies, P=Power, S=Switching). - EN 61439-3: quadros para uso por leigos (DBO=Distribution Board for Operation by ordinary persons) — habitação. - EN 61439-4: estaleiros. - EN 61439-5: distribuição pública.

Toda documentação técnica deve referenciar a norma aplicável.

2.2 IP — Ingress Protection

2 dígitos: - 1º dígito: protecção contra sólidos (0-6). - 0 = sem; 5 = poeira; 6 = totalmente vedado. - 2º dígito: protecção contra líquidos (0-8). - 0 = sem; 4 = salpicos; 5 = jactos; 7 = imersão temporária; 8 = imersão contínua.

IP Onde
IP20 Mínimo aceitável; interior seco apenas
IP30 Quadro interior padrão
IP44 Casa-banho, exterior coberto
IP54 Exterior moderado
IP65/66 Exterior agressivo, marítimo
IP67 Submersão temporária

2.3 IK — Impacto mecânico

Escala 0-10. Resistência a choques mecânicos (joules de energia de impacto suportada).

Para zonas públicas/exteriores: IK07 ou superior.

2.4 Form de separação

Grau de separação interna entre compartimentos:

Quanto maior o Form, mais seguro em manutenção (trabalhar num circuito não expõe os outros).

3. Componentes

3.1 Núcleo

3.2 Componentes eléctricos

Componente Localização típica
Disjuntor geral Topo do quadro
Diferencial geral Imediatamente abaixo
Disjuntores secundários Em fila horizontal
Diferenciais 30 mA Acima dos respectivos disjuntores
Contactores Zona inferior; grandes ficam em separado
Fusíveis NH Caixa selada à parte
Réguas de bornes entrada/saída Lados ou fundo
Bus-bars (barramentos cobre) Atrás dos disjuntores
Transformador 230→24V Espaço dedicado (gera calor)
Iluminação interna Tecto do quadro com sensor de porta
Tomada manutenção 230V Lateral acessível

3.3 Acessórios

4. Dimensionamento térmico

4.1 Porquê importa

Componentes geram calor por perdas (P = R × I²; perdas em contactos, cabos, bobinas). Em caixa fechada, calor acumula-se → temperatura interna sobe.

Regra Arrhenius simplificada: cada +10°C acima de 40°C reduz vida útil de componentes para metade.

Quadro a 60°C internamente → componentes duram 1/4 da vida nominal.

4.2 Cálculo

  1. Perdas dos componentes:
  2. Disjuntores: ~1-3W cada.
  3. Diferenciais: ~2-5W.
  4. Contactores em operação: ~3-10W.
  5. Transformador (no-load): ~10-30W.
  6. Iluminação: 5W (LED).

Total: somar todas as perdas → dezenas a centenas de W em quadros grandes.

  1. Dissipação natural:
  2. Função da área de superfície da caixa.
  3. Coeficiente k (W/m²/°C) depende do material e cor.
  4. Caixa pintada em cor clara dissipa mais.

  5. Diferença de temperatura aceitável:

  6. Quadro vê ambiente a 25-35°C tipicamente.
  7. Interior aceitável: 40-50°C.
  8. Diferença permitida (Δθ): 10-20°C.

  9. Comparar perdas vs dissipação:

  10. Se perdas < dissipação natural: OK, sem ventilação.
  11. Se > dissipação: precisa ventilação forçada ou caixa maior.

4.3 Soluções

4.4 Software de cálculo

Gratuito de fabricantes: - Schneider Pro-Calc. - Hager Easy-Box. - ABB EcoStruxure Power Build.

Inserir lista de componentes; software calcula perdas, escolhe caixa adequada, recomenda ventilação.

5. Cablagem interna

5.1 Caminhos

Separar: - Potência (3F, alta corrente) numa canaleta. - Comando (24V, 1mm²) em canaleta separada. - Sinal (analógico, baixa frequência, sensores) em outra canaleta.

Razão: interferência electromagnética. Sinais de comando podem ser corrompidos por correntes elevadas paralelas.

5.2 Padrões de cor (RTIEBT)

Cor Função
Verde/amarelo Terra (PE)
Azul claro Neutro (N)
Castanho Fase L1
Preto Fase L2
Cinzento Fase L3
Vermelho Comando + (24V positivo típico)
Azul escuro Comando − (0V)
Laranja Sinais que não desligam com QF principal (alarme, UPS)

5.3 Numeração

Cabos: anel ou braçadeira com número correspondente ao esquema.

Exemplos: "1" = cabo entre QF0 e DR0; "2" = entre DR0 e QF1; etc.

Bornes: identificação ("L1", "N", "1", "2", "K1-13", "K1-14").

Componentes: etiquetas ("QF0", "DR0", "KM1", "B1", "S0").

Numeração consistente entre esquema e realidade = manutenção em minutos vs horas.

5.4 Apertos de bornes

Bornes soltos = pontos quentes = causa #1 de incêndios em quadros.

6. Montagem física

6.1 Sequência

  1. Caixa posicionada (mural ou de chão), nivelada.
  2. Trilho DIN instalado.
  3. Bus-bars (barramentos) instalados se aplicável.
  4. Componentes modulares clipsados no DIN, ordenados conforme layout.
  5. Cablagem entre componentes organizada nas canaletas.
  6. Réguas de bornes entrada/saída.
  7. Etiquetagem de cada componente e cabo.
  8. Verificação visual + verificação de apertos.
  9. Documentação interna plastificada na porta.

6.2 Cuidados

6.3 Selagem

Quadro IP65 com prensa-cabos mal apertado → na realidade IP30. Poeira/humidade entra.

7. Ensaios

7.1 Ensaios obrigatórios (EN 61439)

Antes da entrega ao cliente:

  1. Inspecção visual:
  2. Conformidade com projecto.
  3. Etiquetas no sítio e legíveis.
  4. Cabos identificados.
  5. Apertos visuais OK.
  6. Sem componentes soltos ou danificados.

  7. Verificação de cablagem:

  8. Continuidade dos condutores (multímetro).
  9. Comparação com esquema.
  10. Resistência baixa em ligações de potência.

  11. Tensão aplicada (teste dieléctrico):

  12. Aplicar tensão alta (ex.: 1500V AC durante 1 min) entre circuitos isolados.
  13. Não deve disparar.
  14. Comprova isolamento entre circuitos.

  15. Resistência de isolamento:

  16. Megger 500V (BT) entre fases e PE.
  17. > 1 MΩ mínimo.

  18. Função dos diferenciais e protecções:

  19. Premir TEST de cada diferencial.
  20. Injectar corrente controlada para confirmar disparo.

  21. Operação dos comandos:

  22. Botoeiras funcionam.
  23. Contactores fecham/abrem.
  24. Lâmpadas de sinalização acendem.
  25. Inter-bloqueios respeitados.

  26. Polaridade das tomadas:

  27. Tester de tomada confirma F-N-PE.

  28. Identificação completa:

  29. Etiquetas legíveis.
  30. Esquema na porta.
  31. Documentação completa.

7.2 Relatório

Cada ensaio com resultado registado. Documento assinado pelo TR ou montador.

7.3 Marcação CE

Para quadro manufacturado por fabricante (em série ou personalizado): - Placa identificadora: marca, modelo, número de série, tensão nominal, corrente nominal, IP/IK, Form, ano de fabrico. - Marcação CE afixada visivelmente. - Declaração de conformidade UE disponível.

Para quadro assemblado em obra: o montador (electricista) é considerado o fabricante; assume responsabilidade.

8. Documentação a entregar

9. Manutenção

9.1 Preventiva

Periodicidade Acção
Visual contínua Inspecção (ar quente, ruído, cheiros)
Mensal Verificar tensão de saída; testar 1 diferencial
Anual Reaperto bornes; inspecção visual completa
Bianual Termografia (câmara IR) detecta pontos quentes
5 anos Verificação completa; substituir filtros ventilação

9.2 Corretiva

Quando há falha: 1. Identificar circuito com problema. 2. Aplicar 5 regras de ouro antes de intervir. 3. Diagnosticar (multímetro, ohmímetro). 4. Substituir componente avariado. 5. Re-testar. 6. Registar no histórico.

10. Liga a outras UCs

11. Conclusão

Quadro bem feito vive 30+ anos. Mal feito = incêndio, paragens, custos enormes. Qualidade material + montagem + documentação + manutenção = quadro durável.

Hoje há soluções pré-fabricadas muito boas (Schneider Prisma, Hager Quadro, ABB) que aceleram montagem e garantem conformidade. Mas mesmo essas precisam de montagem cuidadosa e documentação rigorosa.

Apêndice A · Cheat sheet IP

IPxy

x (sólidos):
  0 = sem protecção
  2 = dedo (12,5mm)
  4 = ferramenta (1mm)
  5 = poeira (sem danos)
  6 = vedado a poeira

y (líquidos):
  0 = sem
  1 = gotas verticais
  4 = salpicos qualquer direcção
  5 = jactos
  6 = jactos potentes
  7 = imersão 30min
  8 = imersão contínua

Apêndice B · Recursos