Quadros eléctricos de distribuição
Introdução
Esta UC foca o projecto e montagem de quadros eléctricos — desde habitação até industrial. Cobre normas (EN 61439), classificação IP/IK, componentes, dimensionamento térmico, cablagem interna, montagem física e ensaios obrigatórios.
Pré-requisitos: UC02864 (Segurança), UC02928 (Desenho), UC02932 (Instalações), UC02862 (Circuitos eletromecânicos).
1. Tipos de quadros
1.1 Por função
| Tipo | Função | Onde |
|---|---|---|
| QGBT (Quadro Geral BT) | Entrada do edifício; recebe da rede | Subsolo, técnico |
| QD (Distribuição) | Distribui circuitos | Pisos, zonas |
| Quadro Comando | Comutação motores/sequências | Junto à máquina |
| Quadro Força Motriz (QFM) | Alimentação motores grandes | Centro de cargas |
| Quadro Iluminação | Apenas iluminação | Separação para gestão |
| Quadro Emergência | Alimentado por UPS/gerador | Funções críticas |
| Quadro Tarifário | Tarifa preferencial (off-peak) | Habitação/comércio |
1.2 Por construção
- Modular DIN — componentes em trilho 35 mm. Padrão.
- Mural — caixa montada na parede.
- Embutido — em alvenaria, só tampa visível.
- De chão (free-standing) — industrial grande, > 200A.
- Aberto (frame) — só zonas de acesso restrito (subestações).
- Containerizado — entregue pronto a instalar.
1.3 Por dimensão
- Quadrinho de tarifa — 1-3 módulos. Quadro contagem habitação.
- Pequeno — 8-24 módulos. Habitação T1-T3.
- Médio — 24-72 módulos. Habitação T4+, comércio.
- Grande — 100+ módulos. Industrial, edifícios.
2. Normas
2.1 EN 61439
Norma europeia padrão para conjuntos de comando e protecção de baixa tensão (LV switchgear), em vigor desde 2014 (substituiu EN 60439).
Partes: - EN 61439-1: regras gerais. - EN 61439-2: quadros industriais (PSC-Assemblies, P=Power, S=Switching). - EN 61439-3: quadros para uso por leigos (DBO=Distribution Board for Operation by ordinary persons) — habitação. - EN 61439-4: estaleiros. - EN 61439-5: distribuição pública.
Toda documentação técnica deve referenciar a norma aplicável.
2.2 IP — Ingress Protection
2 dígitos: - 1º dígito: protecção contra sólidos (0-6). - 0 = sem; 5 = poeira; 6 = totalmente vedado. - 2º dígito: protecção contra líquidos (0-8). - 0 = sem; 4 = salpicos; 5 = jactos; 7 = imersão temporária; 8 = imersão contínua.
| IP | Onde |
|---|---|
| IP20 | Mínimo aceitável; interior seco apenas |
| IP30 | Quadro interior padrão |
| IP44 | Casa-banho, exterior coberto |
| IP54 | Exterior moderado |
| IP65/66 | Exterior agressivo, marítimo |
| IP67 | Submersão temporária |
2.3 IK — Impacto mecânico
Escala 0-10. Resistência a choques mecânicos (joules de energia de impacto suportada).
- IK02 = 0,2 J (impacto leve).
- IK07 = 2 J.
- IK10 = 20 J (impacto severo, possíveis vandalismo).
Para zonas públicas/exteriores: IK07 ou superior.
2.4 Form de separação
Grau de separação interna entre compartimentos:
- Form 1: sem separação. Tudo no mesmo espaço.
- Form 2: separação entre bornes e componentes activos.
- Form 3: separação entre componentes activos individuais.
- Form 4: separação total + bornes em compartimentos.
Quanto maior o Form, mais seguro em manutenção (trabalhar num circuito não expõe os outros).
- Habitação: Form 1 chega.
- Industrial: Form 2b ou superior.
- Indústria pesada/processos críticos: Form 4.
3. Componentes
3.1 Núcleo
- Caixa (metal galvanizado pintado, aço inox, ABS plástico).
- Trilho DIN 35 mm padronizado para componentes modulares.
- Tampas frontais com furos pré-recortados ou personalizáveis.
- Porta com fechadura, vidro (opcional).
- Espaços livres (15-20%) em DIN para futuras adições.
3.2 Componentes eléctricos
| Componente | Localização típica |
|---|---|
| Disjuntor geral | Topo do quadro |
| Diferencial geral | Imediatamente abaixo |
| Disjuntores secundários | Em fila horizontal |
| Diferenciais 30 mA | Acima dos respectivos disjuntores |
| Contactores | Zona inferior; grandes ficam em separado |
| Fusíveis NH | Caixa selada à parte |
| Réguas de bornes entrada/saída | Lados ou fundo |
| Bus-bars (barramentos cobre) | Atrás dos disjuntores |
| Transformador 230→24V | Espaço dedicado (gera calor) |
| Iluminação interna | Tecto do quadro com sensor de porta |
| Tomada manutenção 230V | Lateral acessível |
3.3 Acessórios
- Iluminação interna (LED) com interruptor por porta aberta.
- Tomada 230V para manutenção (dentro do quadro).
- Aquecimento (resistor com termóstato) em quadros exteriores frios — evita condensação.
- Ventilação com termóstato em quadros que geram calor.
- Sinalização luminosa externa (LEDs na porta indicando estado).
- Botoneira de emergência acessível pela parte de fora.
- Tampa transparente sobre componentes (visualização + protecção).
4. Dimensionamento térmico
4.1 Porquê importa
Componentes geram calor por perdas (P = R × I²; perdas em contactos, cabos, bobinas). Em caixa fechada, calor acumula-se → temperatura interna sobe.
Regra Arrhenius simplificada: cada +10°C acima de 40°C reduz vida útil de componentes para metade.
Quadro a 60°C internamente → componentes duram 1/4 da vida nominal.
4.2 Cálculo
- Perdas dos componentes:
- Disjuntores: ~1-3W cada.
- Diferenciais: ~2-5W.
- Contactores em operação: ~3-10W.
- Transformador (no-load): ~10-30W.
- Iluminação: 5W (LED).
Total: somar todas as perdas → dezenas a centenas de W em quadros grandes.
- Dissipação natural:
- Função da área de superfície da caixa.
- Coeficiente k (W/m²/°C) depende do material e cor.
-
Caixa pintada em cor clara dissipa mais.
-
Diferença de temperatura aceitável:
- Quadro vê ambiente a 25-35°C tipicamente.
- Interior aceitável: 40-50°C.
-
Diferença permitida (Δθ): 10-20°C.
-
Comparar perdas vs dissipação:
- Se perdas < dissipação natural: OK, sem ventilação.
- Se > dissipação: precisa ventilação forçada ou caixa maior.
4.3 Soluções
- Caixa maior com mais área de dissipação (passiva).
- Ventiladores com filtro (entram poeira; manutenção mais frequente).
- Permutador ar/ar (heat exchanger) — sem trocas de ar entre interior/exterior; só calor.
- Permutador ar/água.
- Ar condicionado dedicado (industrial pesado, subestações).
- Componentes mais eficientes (LED em vez de fluorescente para indicação).
- Disjuntores de maior calibre** (resistência interna menor → menos perdas).
4.4 Software de cálculo
Gratuito de fabricantes: - Schneider Pro-Calc. - Hager Easy-Box. - ABB EcoStruxure Power Build.
Inserir lista de componentes; software calcula perdas, escolhe caixa adequada, recomenda ventilação.
5. Cablagem interna
5.1 Caminhos
- Canaletas plásticas com tampa (DAH, Klein).
- Bus-bars (barramentos cobre rígidos) para distribuição entre disjuntores.
- Cabos individuais com identificação.
Separar: - Potência (3F, alta corrente) numa canaleta. - Comando (24V, 1mm²) em canaleta separada. - Sinal (analógico, baixa frequência, sensores) em outra canaleta.
Razão: interferência electromagnética. Sinais de comando podem ser corrompidos por correntes elevadas paralelas.
5.2 Padrões de cor (RTIEBT)
| Cor | Função |
|---|---|
| Verde/amarelo | Terra (PE) |
| Azul claro | Neutro (N) |
| Castanho | Fase L1 |
| Preto | Fase L2 |
| Cinzento | Fase L3 |
| Vermelho | Comando + (24V positivo típico) |
| Azul escuro | Comando − (0V) |
| Laranja | Sinais que não desligam com QF principal (alarme, UPS) |
5.3 Numeração
Cabos: anel ou braçadeira com número correspondente ao esquema.
Exemplos: "1" = cabo entre QF0 e DR0; "2" = entre DR0 e QF1; etc.
Bornes: identificação ("L1", "N", "1", "2", "K1-13", "K1-14").
Componentes: etiquetas ("QF0", "DR0", "KM1", "B1", "S0").
Numeração consistente entre esquema e realidade = manutenção em minutos vs horas.
5.4 Apertos de bornes
- Cada borne com torque adequado (tabela do fabricante).
- Tipicamente: M2 → 0,25 N·m; M3 → 0,5 N·m; M4 → 1,2 N·m; M6 → 4 N·m.
- Re-verificação após primeiro ciclo térmico (após 24-48h de operação) — alguns bornes cedem com a vibração térmica.
- Manutenção anual: re-apertar todos.
Bornes soltos = pontos quentes = causa #1 de incêndios em quadros.
6. Montagem física
6.1 Sequência
- Caixa posicionada (mural ou de chão), nivelada.
- Trilho DIN instalado.
- Bus-bars (barramentos) instalados se aplicável.
- Componentes modulares clipsados no DIN, ordenados conforme layout.
- Cablagem entre componentes organizada nas canaletas.
- Réguas de bornes entrada/saída.
- Etiquetagem de cada componente e cabo.
- Verificação visual + verificação de apertos.
- Documentação interna plastificada na porta.
6.2 Cuidados
- Comprimentos certos dos cabos — folga mínima mas suficiente para manutenção.
- Raio de curvatura respeitado (10× diâmetro do cabo no mínimo).
- Não estrangular cabos com braçadeiras apertadas demais.
- Cabos longos evitar — picam interferência.
- Diferenciar entradas/saídas visualmente.
6.3 Selagem
- Prensas-cabos (cable glands) com aperto correcto — mantém IP do quadro.
- Tampões em entradas não usadas.
- Junta da porta intacta.
Quadro IP65 com prensa-cabos mal apertado → na realidade IP30. Poeira/humidade entra.
7. Ensaios
7.1 Ensaios obrigatórios (EN 61439)
Antes da entrega ao cliente:
- Inspecção visual:
- Conformidade com projecto.
- Etiquetas no sítio e legíveis.
- Cabos identificados.
- Apertos visuais OK.
-
Sem componentes soltos ou danificados.
-
Verificação de cablagem:
- Continuidade dos condutores (multímetro).
- Comparação com esquema.
-
Resistência baixa em ligações de potência.
-
Tensão aplicada (teste dieléctrico):
- Aplicar tensão alta (ex.: 1500V AC durante 1 min) entre circuitos isolados.
- Não deve disparar.
-
Comprova isolamento entre circuitos.
-
Resistência de isolamento:
- Megger 500V (BT) entre fases e PE.
-
> 1 MΩ mínimo.
-
Função dos diferenciais e protecções:
- Premir TEST de cada diferencial.
-
Injectar corrente controlada para confirmar disparo.
-
Operação dos comandos:
- Botoeiras funcionam.
- Contactores fecham/abrem.
- Lâmpadas de sinalização acendem.
-
Inter-bloqueios respeitados.
-
Polaridade das tomadas:
-
Tester de tomada confirma F-N-PE.
-
Identificação completa:
- Etiquetas legíveis.
- Esquema na porta.
- Documentação completa.
7.2 Relatório
Cada ensaio com resultado registado. Documento assinado pelo TR ou montador.
7.3 Marcação CE
Para quadro manufacturado por fabricante (em série ou personalizado): - Placa identificadora: marca, modelo, número de série, tensão nominal, corrente nominal, IP/IK, Form, ano de fabrico. - Marcação CE afixada visivelmente. - Declaração de conformidade UE disponível.
Para quadro assemblado em obra: o montador (electricista) é considerado o fabricante; assume responsabilidade.
8. Documentação a entregar
- Esquema unifilar e multifilar completos.
- Layout do quadro com posições.
- Lista de material (BOM).
- Lista de bornes com identificações.
- Manual de operação simples para utilizador.
- Plano de manutenção (frequências, tarefas).
- Certificado de ensaios assinado.
- Declaração de conformidade + marcação CE (se aplicável).
- Termo de responsabilidade do TR.
9. Manutenção
9.1 Preventiva
| Periodicidade | Acção |
|---|---|
| Visual contínua | Inspecção (ar quente, ruído, cheiros) |
| Mensal | Verificar tensão de saída; testar 1 diferencial |
| Anual | Reaperto bornes; inspecção visual completa |
| Bianual | Termografia (câmara IR) detecta pontos quentes |
| 5 anos | Verificação completa; substituir filtros ventilação |
9.2 Corretiva
Quando há falha: 1. Identificar circuito com problema. 2. Aplicar 5 regras de ouro antes de intervir. 3. Diagnosticar (multímetro, ohmímetro). 4. Substituir componente avariado. 5. Re-testar. 6. Registar no histórico.
10. Liga a outras UCs
- UC02864 — segurança em todos os trabalhos.
- UC02928 — desenho dos esquemas.
- UC02862 — circuitos electromecânicos no comando.
- UC02932 — instalações onde os quadros vivem.
- UC02938 — verificação periódica de máquinas/quadros.
11. Conclusão
Quadro bem feito vive 30+ anos. Mal feito = incêndio, paragens, custos enormes. Qualidade material + montagem + documentação + manutenção = quadro durável.
Hoje há soluções pré-fabricadas muito boas (Schneider Prisma, Hager Quadro, ABB) que aceleram montagem e garantem conformidade. Mas mesmo essas precisam de montagem cuidadosa e documentação rigorosa.
Apêndice A · Cheat sheet IP
IPxy
x (sólidos):
0 = sem protecção
2 = dedo (12,5mm)
4 = ferramenta (1mm)
5 = poeira (sem danos)
6 = vedado a poeira
y (líquidos):
0 = sem
1 = gotas verticais
4 = salpicos qualquer direcção
5 = jactos
6 = jactos potentes
7 = imersão 30min
8 = imersão contínua
Apêndice B · Recursos
- EN 61439 — norma quadros LV.
- EN 60529 — IP.
- EN 62262 — IK.
- Schneider Pro-Calc — gratuito.
- Hager Easy-Box — gratuito.
- Catálogos: Schneider, ABB, Hager, Legrand.