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UC · Unidade de Competência · UC02930

UC02930 · Sistemas hidráulicos

Óleo sob pressão, bombas, actuadores, válvulas
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

A hidráulica é o uso de óleo sob pressão para transmitir força e movimento. Operando tipicamente entre 100 e 300 bar (até 700 bar em aplicações pesadas), permite obter forças enormes em espaços pequenos — uma prensa hidráulica de bancada pode aplicar várias toneladas com um cilindro do tamanho de um copo.

Esta unidade de 25 horas cobre os fundamentos: princípios físicos, bombas, actuadores, válvulas, circuitos básicos, e manutenção. É uma introdução prática orientada ao técnico que vai diagnosticar e manter sistemas hidráulicos em fábricas, oficinas, máquinas-ferramenta, e equipamento móvel (escavadoras, gruas, empilhadores).


1. Princípios físicos

1.1 Lei de Pascal

Princípio fundamental (Blaise Pascal, séc. XVII): a pressão num fluido confinado transmite-se igualmente em todas as direcções.

F = p × A

Onde F é a força, p a pressão, A a área. Consequência prática: com pressão constante num circuito hidráulico, pistões de áreas diferentes produzem forças diferentes — princípio do macaco hidráulico e da multiplicação de força.

Exemplo: prensa hidráulica

(Conservação de energia: pistão grande move-se 100× menos distância que o pequeno.)

1.2 Pressão, caudal, potência

Pressão (p): medida em bar (1 bar = 10⁵ Pa ≈ 1 kgf/cm²).

Caudal (Q): volume por tempo. Unidades: L/min, m³/h, cm³/s.

Potência hidráulica:

P (kW) = (p × Q) / 600

(com p em bar e Q em L/min)

Exemplo: 100 bar × 30 L/min / 600 = 5 kW.

Numa bomba, potência eléctrica consumida considera rendimento:

P_eléctrica = P_hidráulica / η_bomba

η_bomba típico: 0,75-0,90

1.3 Comparação pneumática / hidráulica / eléctrica

Critério Pneumática Hidráulica Eléctrica
Pressão típica 6-8 bar 150-300 bar –
Força máxima Média (até toneladas) Muito alta (até centenas de toneladas) Média
Velocidade Alta Baixa-média Variável
Controlo posição Difícil Excelente (óleo incompressível) Excelente (servomotor)
Eficiência 5-15% 30-50% 80-95%
Custo instalação Baixo Alto Médio
Manutenção Simples Complexa (limpeza óleo) Média
Limpeza ambiente Limpo Sujo (óleo) Limpo
Segurança Alta Média (alta pressão) Risco eléctrico

Quando usar hidráulica:


2. Óleo hidráulico

2.1 Tipos e viscosidades

Óleos hidráulicos classificados por viscosidade ISO VG:

Número = viscosidade cinemática a 40 °C em cSt (mm²/s).

Aditivos standard:

Óleos especiais:

2.2 Classes de limpeza

Norma ISO 4406: 3 números separados por barras, ex: 18/16/13.

Significado: número de partículas por mL nos tamanhos:

Cada número é uma classe (cada classe = 2× mais partículas que a anterior).

Standards típicos:

Como medir: laboratório por contagem com microscópio ou contador automático. Algumas empresas têm equipamento portátil.

2.3 Contaminantes do óleo

Partículas sólidas: areia, ferro de desgaste, fibras. Provocam desgaste de válvulas e cilindros.

Água: provoca emulsão, corrosão, degradação do óleo. Detecta-se visualmente (aspecto leitoso) ou em laboratório.

Ar: cria espuma; provoca cavitação na bomba (implosões violentas das bolhas → cratera no metal).

Calor: óleo escuro, cheiro a queimado, viscosidade diminuída. Mudar.

Contaminantes químicos (combustível, solventes): em sistemas mistos com motores diesel; reduzem capacidade lubrificante.


3. Bombas hidráulicas

3.1 Tipos principais

Bomba de engrenagens (gear pump):

Bomba de palhetas (vane pump):

Bomba de pistões axiais:

Bomba de pistões radiais:

3.2 Caudal fixo vs variável

Caudal fixo + válvula limitadora:

Caudal variável (load-sensing):

Exemplo: sistema que consome 30 L/min em pico e 5 L/min em média.

3.3 Cavitação

Problema clássico de bombas hidráulicas: pressão à aspiração cai abaixo da pressão de vapor → óleo "ferve" formando bolhas → bolhas implodem violentamente do lado de pressão → danifica bomba.

Causas:

Detecção: ruído característico (chiado, "ferver pedras"); vibração; desempenho fraco.

Solução: identificar causa e corrigir antes que bomba estrague (cavitação prolongada destrói bomba em horas).


4. Actuadores

4.1 Cilindros

Cilindro de simples efeito (raro em hidráulica):

Cilindro de duplo efeito (standard):

Cilindro diferencial:

Cilindro telescópico:

4.2 Cálculo de força

Igual ao cilindro pneumático:

F_avanço = p × A_pistão
F_recuo = p × (A_pistão − A_haste)

Exemplos a 200 bar (200×10⁵ Pa):

Ø Pistão Área (cm²) F_avanço
25 mm 4,9 9 800 N (1 t)
50 mm 19,6 39 250 N (4 t)
80 mm 50,3 100 500 N (10 t)
100 mm 78,5 157 000 N (16 t)
160 mm 201 402 000 N (41 t)
200 mm 314 628 000 N (64 t)

4.3 Motores hidráulicos

Rotação contínua a partir de óleo pressurizado:

Características:

Aplicações: rotação de tambores (betoneiras, barris), mesas rotativas, sistemas móveis (translação de gruas, escavadoras).


5. Válvulas

5.1 Direccionais

Designação NxV idêntica à pneumática. Diferenças:

Tamanho: válvulas hidráulicas são maiores (resistir a alta pressão).

Numeração ISO:

Standard industrial: válvula 4/3 (4 vias, 3 posições). 4 vias porque há também conexão directa ao tanque na posição central.

Posições centrais comuns em 4/3:

Accionamento:

5.2 Válvulas reguladoras

Limitadora (relief valve):

Redutora (pressure reducing):

Sequência:

Contrabalanço (counterbalance):

Descarga (unloading):

5.3 Controlo de caudal

Estrangulador fixo: orifício calibrado. Caudal proporcional a √Δp (não constante).

Estrangulador ajustável: parafuso ajusta abertura.

Compensado em pressão: mantém caudal constante mesmo com variação de pressão. Usa pistão interno que ajusta abertura automaticamente. Caro mas preciso.

Servoválvulas: controlo electrónico contínuo (analógico ou digital). Caudal e direcção em função de sinal eléctrico. Aplicações: posicionamento de precisão, controlo de força.

Válvulas proporcionais: versão mais simples/barata da servoválvula. Caudal ~ proporcional a sinal eléctrico.


6. Circuitos básicos

6.1 Circuito simples — cilindro com avanço/recuo

                      Tanque
                         │
                       Bomba ─── motor eléctrico
                         │
                  Válvula limitadora ─── Tanque
                         │
                         │
              ┌──────────┴───────────┐
              │   Válvula 4/3 NC     │
              │   com solenoide      │
              │                      │
              │  P  T   A    B       │
              └──┬──┬───┬────┬───────┘
                 │  │   │    │
            Bomba T  │    │
                     │    │
              ┌──────┴────┴──────┐
              │     Cilindro     │
              │     ━━━━━━━━━    │
              └───────────────────┘

Operação:

6.2 Circuito com controlo de velocidade

Adicionar estrangulador em meter-out (mais estável):

              Cilindro
                │
              Linha A (escape)
                │
              Estrangulador com anti-retorno
                │
              Tanque

Velocidade ajustável com parafuso do estrangulador. Anti-retorno permite avanço rápido (sem estrangular) e escape regulado.

6.3 Circuito com acumulador

Acumulador = reservatório de óleo sob pressão (vesícula de nitrogénio).

Usos:

Em sistemas grandes (prensas, elevadores) é prática comum.


7. Manutenção

7.1 Plano preventivo

Diária:

Semanal:

Mensal:

Trimestral:

Anual:

Cada 3-5 anos:

7.2 Análise de óleo

Laboratórios externos (Mobil, Castrol, Shell, e empresas independentes) fazem análise por ~50-100 €. Resultados incluem:

Comparando análises sucessivas, vê-se tendência — mudar óleo antes que protecção seja comprometida.

7.3 Avarias comuns

Sintoma Causa(s) provável(eis) Acção
Bomba ruidosa Cavitação (filtro entupido, óleo baixo, viscoso, frio); desgaste interno Verificar nível, filtros, temperatura; se persistir, abrir bomba
Pressão baixa Válvula limitadora desajustada ou avariada; fuga interna; bomba gasta Verificar válvula; medir caudal vs pressão
Sobreaquecimento Trocador entupido; sobrecarga; viscosidade errada; fuga interna Limpar trocador; verificar carga; verificar óleo
Cilindro lento Caudal reduzido; fuga interna na válvula; vedação cilindro Medir caudal; testar válvula; desmontar cilindro
Cilindro hesitante / saltitante Ar no sistema; cavitação; carga variável Purgar ar; verificar aspiração
Fuga externa Vedação degradada; mangueira danificada; conexão solta Substituir vedação/mangueira/aperto
Espuma no tanque Entrada de ar; aditivo esgotado Verificar vedação aspiração; analisar óleo
Óleo escuro / queimado Sobreaquecimento histórico Mudar óleo + investigar causa
Óleo leitoso Água Drenar; analisar; investigar entrada de água (trocador?)

7.4 Reparação de fugas e cuidados

Fugas em hidráulica são problema sério:

Reparação típica:

Cuidados em hidráulica:


Apêndice A · Símbolos ISO 1219 (hidráulica)

Bomba caudal fixo:        ◯ com seta para fora
Bomba caudal variável:    ◯ com seta + barra atravessada (variável)
Cilindro DE:              ━━━━━━━━━━━━━━━━━ com 2 entradas
Válvula 4/3:              3 quadrados com setas e conexões P, T, A, B
Válvula limitadora:       símbolo com seta + mola + escape T
Tanque:                   ─┴─ aberto ao ambiente
Acumulador:               ▼ contendo gás
Filtro:                   ◇ com retícula

Apêndice B · Tabela rápida de força

A 200 bar:

Ø Pistão F (kgf) Aplicação típica
25 mm 1000 (1 t) Pequenos sistemas
50 mm 4000 (4 t) Industrial leve
80 mm 10 250 (10 t) Prensas médias
100 mm 16 000 (16 t) Prensas industriais
150 mm 36 000 (36 t) Prensas pesadas
200 mm 64 000 (64 t) Forjas, estampagem pesada

Apêndice C · Glossário