UC02929 · Sistemas pneumáticos
- Introdução
- 1. Princípios físicos
- 2. Produção de ar comprimido
- 3. Tratamento do ar
- 4. Distribuição
- 5. Actuadores
- 6. Válvulas direccionais
- 7. Válvulas de regulação
- 8. Simbologia ISO 1219
- 9. Circuitos básicos
- 10. Manutenção e diagnóstico
- Apêndice A · Cálculo rápido de força
- Apêndice B · Glossário
- Apêndice C · Recursos
Introdução
A pneumática é o uso de ar comprimido como meio de transmissão de força e movimento. É uma das tecnologias mais difundidas na indústria moderna: presente em praticamente qualquer linha de produção, oficina, instalação alimentar ou farmacêutica.
Esta unidade cobre, em 50 horas, todo o ciclo: produção (compressor), tratamento (FRL, secador), distribuição (canalizações), comando (válvulas), actuação (cilindros, motores), circuitos (sequenciais, automatismos), e manutenção.
O técnico de manutenção industrial encontra pneumática em cada esquina. Saber ler um esquema ISO 1219, dimensionar um cilindro, diagnosticar uma fuga, são competências do dia-a-dia.
1. Princípios físicos
1.1 Propriedades do ar
O ar atmosférico ao nível do mar: - Pressão: 1013 mbar = 1,013 bar = 101,3 kPa. - Composição: 78% N₂, 21% O₂, 1% argão + traços. - Humidade: 0-100% conforme tempo e estação.
Quando comprimimos o ar: - Volume diminui (Lei de Boyle: P × V = constante a temperatura constante). - Temperatura sobe (compressão adiabática). - Após arrefecer, parte da humidade condensa em água.
Esta água é um dos maiores problemas em pneumática — provoca corrosão, congelamento (no inverno), e mau funcionamento das válvulas.
1.2 Pressões em pneumática
- Pressão atmosférica: 0 bar manométrica (1 bar absoluta).
- Pressão de trabalho industrial: tipicamente 6-8 bar (manométrica).
- Pressão máxima de rede: 10-12 bar.
- Vácuo: pressão abaixo de atmosférica; medida em mbar ou %.
Em pneumática trabalhamos quase sempre com pressão manométrica (medida em relação à atmosfera). É a tensão útil disponível.
1.3 Caudal e consumo
- Caudal = volume de ar por unidade de tempo (L/min, m³/min, m³/h).
- Expressar em condições normais (NL/min ou Nm³/h) — temperatura 0 °C, pressão 1 atm — para comparações.
- Caudal de um cilindro: depende do volume da câmara e do tempo de movimento.
1.4 Pneumática vs hidráulica vs eléctrica
| Parâmetro | Pneumática | Hidráulica | Eléctrica |
|---|---|---|---|
| Meio | Ar | Óleo | Corrente |
| Pressão típica | 6-8 bar | 100-300 bar | – |
| Velocidade | Alta | Média | Variável |
| Força disponível | Média | Muito alta | Média |
| Eficiência energética | 5-15% | 30-50% | 80-95% |
| Custo instalação | Baixo | Alto | Médio |
| Manutenção | Simples | Complexa | Média |
| Limpeza | Ar = limpo | Óleo = sujo | Limpa |
| Segurança | Alta | Média (alta pressão) | Risco eléctrico |
Pneumática é escolha lógica para: forças moderadas, alta velocidade, ambiente que exige limpeza (alimentar, farmacêutico), aplicações com risco de incêndio (gases inflamáveis), operações com muitos ciclos curtos.
Hidráulica é escolha para: forças muito elevadas (toneladas), velocidades baixas e controladas (prensas, gruas, elevadores), aplicações móveis (escavadoras).
Eléctrica (motor + redutor) é escolha para: rotação contínua, controlo preciso, eficiência máxima.
2. Produção de ar comprimido
2.1 Compressor — coração do sistema
Tipos principais:
Pistão alternativo (reciprocating): - Cilindro + pistão + válvulas de admissão/escape. - 1-stage (até 8 bar) ou 2-stage (até 15 bar com arrefecimento intermédio). - Potências: 0,3-50 kW (industrial pequeno-médio). - Operação: intermitente (liga/desliga conforme reservatório). - Ruidoso (clic-clac), com vibração. - Custo baixo.
Parafuso (rotary screw): - 2 rotores helicoidais comprimem ar continuamente. - Operação contínua suave. - Potências: 5-300 kW. - Mais eficiente que pistão para uso intensivo. - Silencioso. - Custo mais elevado.
Palhetas (rotary vane): - Rotor com palhetas deslizantes em câmara cilíndrica excêntrica. - Médio porte, contínuo. - Mais barato que parafuso, menos eficiente.
Centrífugo (turbo): - Compressão por força centrífuga em pás. - Grande caudal, baixa pressão (típico 3-5 bar). - Potências > 100 kW. - Aplicações industriais pesadas: químicas, mineração.
Sem óleo (oil-free): - Variantes de pistão ou parafuso onde o ar não contacta óleo. - Essencial em alimentar, farmacêutico, electrónica. - Mais caros e exigentes.
2.2 Reservatório
Tanque (vertical ou horizontal) com: - Manómetro (pressão actual). - Válvula de segurança (abre a pressão acima do limite — tipicamente 110% nominal). - Drenagem inferior (purga de condensado — manual ou automática). - Saídas para distribuição.
Função: 1. Pulmão de capacidade — fornece ar quando consumo > caudal do compressor por curtos períodos. 2. Arrefecimento — ar comprimido entra quente, arrefece no tanque, água condensa. 3. Reduz ciclos do compressor — sem reservatório, compressor pequeno arrancava/parava cada poucos segundos (desgaste).
Regra de dimensionamento: capacidade reservatório ≈ caudal compressor (L/min) × 0,3 a 1 = volume tanque em litros.
Exemplo: compressor 200 L/min → tanque 60-200 L.
2.3 Comando do compressor
- Pressostato: liga compressor quando pressão cai abaixo de P_min (ex: 6 bar), desliga quando atinge P_max (ex: 8 bar).
- Histerese entre P_min e P_max evita oscilação contínua.
- Compressor modulante (em parafuso): varia capacidade conforme demanda.
- Compressor com VFD: ajusta rotação → caudal proporcional ao consumo → eficiência máxima.
3. Tratamento do ar
3.1 Filtros
Ar bruto contém poeiras (atmosféricas) + óleo (do compressor a óleo) + água (condensada).
Etapas típicas:
- Filtro de admissão do compressor (5-25 µm) — partículas grossas.
- Filtro principal pós-reservatório (5 µm) — partículas mais finas e gotas grandes.
- Filtro fino (1 µm) — antes de equipamentos sensíveis.
- Filtro coalescente (0,01 µm + óleo residual) — para ar muito limpo.
- Filtro de carvão activado — remove vapores de óleo + odores.
Cada filtro tem indicador de saturação (manómetro diferencial). Substituir quando diferença de pressão excede ~0,7 bar.
3.2 Secadores
Ar saturado a 7 bar e 20 °C contém ~12 g/m³ de água. Em 100 m³/h → 1,2 kg de água/hora. Em 8h de operação → 9,6 kg de água nas canalizações se não houver secador!
Tipos de secador:
Refrigeração: - Arrefece ar a ~3 °C → água condensa, é drenada. - Ponto de orvalho de saída: ~3 °C. - Adequado para 90% das aplicações industriais. - Consumo eléctrico: ~3% do compressor.
Adsorção (regenerative): - Material adsorvente (silica gel, alumina activada, peneira molecular) capta humidade. - Ponto de orvalho: até −40 °C ou −70 °C (ar ultra-seco). - Tem 2 colunas: uma adsorve, outra regenera (aquecimento ou ar seco). - Aplicações: farmacêutica, electrónica, alimentar. - Mais caro e consome mais energia (~10-15% do ar gerado para regeneração).
Membrana: - Membrana semi-permeável separa vapor de água. - Pequeno-médio caudal. - Ponto de orvalho: −20 a −40 °C.
3.3 Drenagem de condensado
Pontos onde água acumula: - Reservatório (purga inferior). - Pós-arrefecedores e secadores. - Pontos baixos da canalização ("guppys" — saídas em U).
Tipos de drenadores: - Manual (válvula esferica) — operador purga periodicamente. - Temporizado — purga automática a cada X minutos. - Capacitivo (nível) — purga quando atinge nível. - Electrónico inteligente — purga só quando há água (poupa ar).
Condensado contém óleo + água + sujidade → resíduo perigoso, requer tratamento (separador óleo/água) antes de descartar.
3.4 Unidade FRL
Filtro-Regulador-Lubrificador — combinação modular instalada antes de cada equipamento ou ramal.
Filtro (F): - Remove condensado e partículas até 5 µm (ou menor). - Tem dreno na parte inferior.
Regulador de pressão (R): - Reduz pressão local da rede (8 bar) para a pressão de trabalho do equipamento (5 bar, 3 bar, etc.). - Mantém pressão estável mesmo com variação a montante. - Tem manómetro indicando pressão regulada.
Lubrificador (L): - Adiciona micro-óleo (gotas) ao ar para lubrificar válvulas e cilindros. - Necessário em sistemas antigos / pesados. - Sistemas modernos: equipamentos auto-lubrificados → não é necessário lubrificador. Muitas instalações usam apenas FR (sem lubrificador). - Lubrificador uma vez instalado deve continuar — material sem lubrificação deixou de receber óleo seca-se → falha.
4. Distribuição
4.1 Canalizações
Materiais: - Aço galvanizado: clássico, robusto, mas oxida internamente com humidade. - Aço inoxidável: para ar de alta qualidade (alimentar). - Cobre: aceitável, bom para diâmetros pequenos. - PEAD ou PA (poliamida): moderno, leve, não corrosivo. Aluramaire, Festo, SMC produzem. - Alumínio: leve, fácil de instalar, sem corrosão. Sistemas modulares (Transair, Aignep).
Dimensionamento: - Diâmetro adequado ao caudal máximo + queda de pressão aceitável (< 0,1 bar de origem a ponto de uso). - Tabelas e nomogramas dos fabricantes. - Regra rápida: para 100 m de linha + 200 L/min → diâmetro ~25 mm.
4.2 Topologia
Linha em estrela: um anel central + ramais radiais. Simples.
Anel fechado (ring main): tubulação em circuito fechado, ar pode chegar a cada ponto por 2 caminhos → menor queda de pressão e maior fiabilidade. Padrão industrial.
Pendurada (do tecto): - Tubo principal com inclinação 1-2% para a um drenador final. - Ramais saem de cima do tubo (água fica em baixo). - Em cada ponto de uso, descida vertical com trap em U (sifão) para reter condensado.
4.3 Conexões
- Roscadas (BSP, NPT) — clássicas.
- Engates rápidos (one-touch) — modernos, sem ferramentas, vedação em O-ring.
- Soldadas — instalações fixas, aço.
- Compressão (Olive) — sem soldadura, robusto.
5. Actuadores
5.1 Cilindro simples efeito
┌────────────────┐
ar ──>│ ┃ │── haste
│ ┃ <- mola │
└────────────────┘
- Ar empurra o pistão num sentido (avanço).
- Mola interna devolve no outro (recuo).
- Cursos típicos: 5-200 mm.
- Diâmetros: 6-50 mm tipicamente.
Vantagens: simples, barato, só precisa 1 sinal de comando. Desvantagens: força no recuo é só a da mola; perda de espaço (mola ocupa metade).
Aplicações: marcadores, prensas pequenas, ejecção, posicionamento simples.
5.2 Cilindro duplo efeito
┌────────────────┐
ar1 ──>│ ┃ │
ar2 ──>│ ┃ │── haste
└────────────────┘
- 2 entradas de ar (uma em cada câmara).
- Ar a câmara 1 → pistão avança; ar a câmara 2 → pistão recua.
- Sem mola.
- Cursos: 5-2000 mm.
- Diâmetros: 8-200 mm.
90% das aplicações industriais usam duplo efeito. Força disponível em ambos os sentidos.
5.3 Cálculo de força
Avanço (área completa do pistão):
F_avanço = p × A_pistão = p × π × D² / 4
Recuo (área menor, descontando a área da haste):
F_recuo = p × (A_pistão − A_haste) = p × π × (D² − d²) / 4
Onde D = diâmetro do pistão, d = diâmetro da haste.
Exemplo: Ø50 mm pistão, Ø18 mm haste, p = 6 bar (6×10⁵ Pa): - F_avanço = 6×10⁵ × π × 0,05² / 4 = 1178 N ≈ 120 kgf. - F_recuo = 6×10⁵ × π × (0,05² − 0,018²) / 4 = 1025 N ≈ 105 kgf.
5.4 Cilindros especiais
Cilindro sem haste: - Pistão dentro de um tubo, ligado a uma corrediça externa por imã (magnético) ou junta (mecânico). - Permite cursos longos sem comprimento da haste a duplicar (~50% de espaço). - Aplicações: transferência de produtos em linhas, manipulação.
Cilindro com travão: - Mecanismo interno (cunha ou disco) que segura o pistão na posição quando há perda de ar. - Segurança em aplicações verticais.
Cilindro rotativo (paleta): - Movimento angular limitado (90°, 180°, 270°). - Aplicações: virar peças, abrir portas.
Motor pneumático: - Rotação contínua (palhetas, pistões, turbinas). - Alta rpm (até 30 000), binário baixo. - Aplicações: ferramentas portáteis (berbequins, lixadeiras), agitadores.
Ventosas com gerador de vácuo: - Ar comprimido passa por bocal Venturi → cria vácuo. - Ventosa em borracha agarra peças planas (placas, vidro, embalagens). - Manipulação por robôs e linhas de embalamento.
Pinça pneumática (gripper): - 2 dedos paralelos ou angulares accionados por cilindros internos. - Manipulação de peças em automação.
6. Válvulas direccionais
6.1 Designação NxV
Convenção universal:
N / V
│ └── número de posições (geralmente 2 ou 3)
└────── número de vias (orifícios de ligação)
Exemplos: - 3/2: 3 vias (entrada, saída, escape), 2 posições. Para cilindro simples efeito. - 5/2: 5 vias, 2 posições. Para cilindro duplo efeito. - 5/3: 5 vias, 3 posições (a 3ª posição é tipicamente "centro" — todas vias fechadas ou ligadas ao escape). - 2/2: 2 vias, 2 posições. Funciona como interruptor (passa/não passa). - 4/2: 4 vias, 2 posições. Para duplo efeito (versão antiga, menos comum).
6.2 Estado de repouso
NC (normally closed): em repouso, via 1 fechada (sem fluxo). NO (normally open): em repouso, via 1 aberta.
Para válvula 3/2 NC com cilindro simples efeito: - Repouso → ar não passa → cilindro recolhido (mola). - Activada → ar passa → cilindro avança.
6.3 Tipos de accionamento
| Tipo | Símbolo | Uso |
|---|---|---|
| Pneumático (piloto) | seta | Comando por outro sinal de ar |
| Eléctrico (solenoide) | rectângulo com bobina | Comando por PLC ou interruptor |
| Manual (botão) | círculo | Operador acciona |
| Manual (alavanca) | seta com cabo | Operador acciona |
| Manual (pedal) | rectângulo curvo | Pé |
| Mecânico (rolo) | círculo com seta | Fim-de-curso, accionado por peça |
| Mecânico (mola) | espiral | Retorno em repouso |
Cada lado da válvula tem o seu accionamento. Válvula 5/2 com solenoide e retorno por mola: solenoide activa = 1ª posição; mola retorna = 2ª posição.
Válvula biestável (com 2 solenoides ou 2 pilotos): muda de posição apenas com sinal e mantém-se ali até receber sinal oposto. Memória pneumática.
6.4 Numeração de orifícios
Standard ISO 5599: - 1: alimentação (P). - 2, 4: saídas para trabalho (A, B). - 3, 5: escapes (R, S). - 10, 12, 14: pilotos de comando.
Exemplo válvula 5/2:
4 2
│ │
┌─┬────┬─┬────┬─┬─┐
14 │ │ │ │ │ │ │ 12
└─┴────┴─┴────┴─┴─┘
5 1 3
│ │ │
escape entrada escape
7. Válvulas de regulação
7.1 Estrangulador (flow control)
Reduz secção de passagem → reduz caudal → reduz velocidade do actuador.
Estrangulador simples: regula em ambos os sentidos.
Estrangulador com anti-retorno (mais comum): - Num sentido: passa pelo estrangulamento → caudal reduzido. - No sentido oposto: válvula de não-retorno abre, ar passa livre.
Regulação por entrada (meter-in): estrangulador na alimentação ao cilindro → controla velocidade do movimento de fora para dentro.
Regulação por escape (meter-out): estrangulador no escape → ar sai devagar → controla velocidade do movimento. Método preferido porque resiste melhor a variações de carga (mais estável).
7.2 Válvula de não-retorno (check valve)
Passa só num sentido. Aplicações: - Impedir refluxo. - Combinada com estrangulador para regulação unidireccional. - Proteger acumuladores.
7.3 Válvula "OU" e "E" (lógica pneumática)
Antes do PLC, lógica fazia-se com válvulas:
OU (shuttle valve): 2 entradas, 1 saída. Sai sinal se qualquer entrada tiver sinal.
E (twin pressure): 2 entradas, 1 saída. Sai sinal apenas se ambas entradas tiverem sinal simultaneamente. Aplicação típica: comando bi-manual de segurança (operador tem que premir 2 botões para activar máquina).
7.4 Válvula de sequência
Activa apenas quando pressão de pilotagem atinge valor ajustado. Permite encadear movimentos sem temporizadores: "B avança só quando A atingiu pressão final" → garante que A terminou movimento.
7.5 Válvula limitadora de pressão (relief)
Abre escape quando pressão excede limite ajustado. Protecção contra sobrepressão.
7.6 Regulador de pressão
Reduz pressão de uma rede principal (8 bar) para uma local (3 bar, 5 bar, etc.) e mantém estável.
8. Simbologia ISO 1219
8.1 Princípios gerais
Norma ISO 1219 define símbolos universais para componentes pneumáticos e hidráulicos. Permite ler esquemas independentemente do fabricante.
Linhas: - Contínua grossa: linha de potência (transporta fluido). - Tracejada: linha de comando ou piloto. - Pontilhada: linha de drenagem.
Componentes: cada um tem símbolo padronizado.
8.2 Símbolos básicos
Cilindro duplo efeito:
┌──────────────┐
│ │
──┤ ━━━━━━━━━ ├──
│ │
└──────────────┘
Cilindro simples efeito:
┌──────────────┐
│ │
──┤ ━━━━━━ ⟨ ├── (mola)
│ │
└──────────────┘
Válvula 5/2:
4 2
│ │
┌──┬─┴─┬─┴─┬──┐
│ │ │ │ │
└──┴───┴───┴──┘
5 1 3
FRL combinada:
───[F]──[R]──[L]───
Compressor:
◯ (símbolo redondo com triângulo)
8.3 Numeração de componentes
Convenção: - Cilindros: A, B, C... (ou 1.0, 2.0, 3.0...). - Válvulas associadas: 1.1, 1.2, 1.3 (válvula que comanda A, sensores associados, etc.). - Sensores: 1.S1, 1.S2 (associados ao cilindro 1).
9. Circuitos básicos
9.1 Comando directo de cilindro simples
Mais simples possível:
S1 (botão) → válvula 3/2 NC → cilindro simples efeito
Premir S1: cilindro avança. Soltar S1: válvula fecha, cilindro recolhe (mola).
Aplicação: prensa manual, marcador, controlado pelo operador.
9.2 Comando indirecto
Botão pequeno comanda válvula maior (potência):
S1 (botão pequeno) → válvula 3/2 pequena → pilota → válvula 5/2 grande → cilindro grande
Aplicação: cilindro grande precisa de muita pressão para comutar — mais económico usar botão pequeno que pilota válvula grande.
9.3 Auto-retenção pneumática
Cilindro mantém-se avançado mesmo depois de soltar botão:
- Sinal de start arma válvula biestável (5/2 com 2 pilotos).
- Válvula permanece nessa posição mesmo sem sinal.
- Sinal de stop comuta válvula para outra posição.
Equivalente pneumático de auto-retenção eléctrica com contactor.
9.4 Sequência A+ A−
Cilindro avança automaticamente, atinge fim, recua automaticamente:
- S1 (start) → válvula avança → cilindro avança.
- Fim-de-curso B1 (sensor pneumático na posição avançada) → sinal volta → válvula comuta → cilindro recua.
- Sistema fica em repouso.
9.5 Sequência A+ B+ A− B−
2 cilindros, 4 movimentos:
- A avança até B1 (sensor) → sinal activa B.
- B avança até B3 → sinal activa A− (recuo A).
- A recua até B2 → sinal activa B− (recuo B).
- B recua até B4 → sistema em repouso.
Implementação pneumática complexa (cascata de sinais).
Solução moderna: PLC com electroválvulas + sensores eléctricos simplifica enormemente. PLC lê sensores, executa sequência em código, comanda electroválvulas.
10. Manutenção e diagnóstico
10.1 Manutenção preventiva
| Frequência | Acção |
|---|---|
| Diária | Purgar reservatório (water trap). Verificar pressão. |
| Semanal | Verificar nível de óleo do compressor. Drenar pontos baixos. |
| Mensal | Limpar filtros de admissão. Verificar fugas (visual + audição). |
| Trimestral | Substituir filtros FRL. Verificar conexões. |
| Semestral | Auditoria de fugas com detector ultra-sónico. Substituir vedações de cilindros se desgastadas. |
| Anual | Revisão completa do compressor: óleo, filtro de ar, correia, válvulas. Verificar secador. |
10.2 Avarias comuns
| Sintoma | Causa provável |
|---|---|
| Compressor não para | Fuga grande na rede; pressostato avariado; consumo > capacidade. |
| Compressor liga/desliga muito | Pressostato com histerese pequena; reservatório pequeno; fuga média. |
| Sobreaquecimento compressor | Filtro de admissão sujo; ventilação obstruída; falta óleo; sobrecarga. |
| Cilindro lento | Filtro FRL entupido; estrangulador apertado; fuga no cilindro; pressão baixa. |
| Cilindro hesitante | Vedações desgastadas; corpo do cilindro riscado; falta lubrificação (em sistema com lubrificador). |
| Cilindro não atinge força | Pressão regulada baixa; fuga interna no cilindro; carga acima do dimensionamento. |
| Válvula presa | Sujidade; corrosão; falta lubrificação. |
| Electroválvula não comuta | Bobina queimada; tensão errada; fio cortado; obstrução mecânica. |
| Água nas linhas | Drenadores entupidos; secador avariado; canalização sem inclinação. |
| Ruído (sibilo) | Fuga audível. Usar detector ultra-sónico para localizar. |
10.3 Detecção de fugas
Métodos:
- Audição — fugas grandes audíveis a vários metros.
- Tacto — passar mão perto de conexões.
- Espuma de sabão — aplicar nas conexões; bolhas indicam fuga.
- Detector ultra-sónico — equipamento profissional, detecta fugas mesmo em ambiente ruidoso a distância. Standard industrial.
- Pressurizar zona e medir queda de pressão ao longo do tempo.
Custo de fugas: - Fuga de 1 mm a 7 bar: ~1 L/s = ~60 L/min. - Compressor compensa: ~0,3 kW extra contínuo. - Em 8760 h/ano: 2628 kWh = ~390 €/ano (a 0,15 €/kWh). - Sistema com 10 fugas pequenas = ~4000 €/ano desperdiçados.
Auditoria de fugas paga-se em meses (técnico passa um dia, detecta 20-50 fugas; reparação custa €€, poupa €€€/ano).
10.4 Eficiência energética
Ar comprimido é o utility mais caro numa fábrica (após electricidade directa): - Eficiência do sistema: 5-15% típico. - Compressor consome ~3% da electricidade industrial nacional.
Boas práticas: - Não usar ar para arrefecimento ou limpeza (há ferramentas eléctricas que fazem o mesmo com 10× menos energia). - Pressão mínima — não trabalhar a 8 bar se 6 bar bastam (1 bar a menos = 7% menos energia). - Recuperação de calor — compressor parafuso pode aquecer água do edifício (~80% do calor é recuperável). - VFD no compressor — modulação fina. - Auditoria periódica — fugas, mau dimensionamento, equipamentos desperdiçadores.
Apêndice A · Cálculo rápido de força
| Diâmetro | Área (mm²) | F @ 6 bar | F @ 8 bar |
|---|---|---|---|
| 20 mm | 314 | 188 N (19 kgf) | 251 N (26 kgf) |
| 32 mm | 804 | 482 N (49 kgf) | 643 N (66 kgf) |
| 50 mm | 1963 | 1178 N (120 kgf) | 1570 N (160 kgf) |
| 63 mm | 3117 | 1870 N (191 kgf) | 2493 N (254 kgf) |
| 80 mm | 5027 | 3016 N (308 kgf) | 4021 N (410 kgf) |
| 100 mm | 7854 | 4712 N (480 kgf) | 6283 N (641 kgf) |
| 125 mm | 12 272 | 7363 N (751 kgf) | 9817 N (1001 kgf) |
| 160 mm | 20 106 | 12 064 N (1230 kgf) | 16 085 N (1640 kgf) |
(Valores teóricos no avanço; recuo é ~10-15% menor devido à haste.)
Apêndice B · Glossário
- FRL — Filtro / Regulador / Lubrificador.
- NC — Normally Closed.
- NO — Normally Open.
- Bar — unidade pressão (1 bar = 10⁵ Pa).
- Caudal Nm³/h — volume normalizado (T=0°C, P=1 atm).
- Ponto de orvalho — temperatura abaixo da qual água condensa.
- PDP — Pressure Dew Point.
- Festo, SMC, Camozzi — marcas líder de pneumática.
Apêndice C · Recursos
- Normas: ISO 1219-1 (símbolos); ISO 6358 (caudal); ISO 8573 (qualidade do ar).
- Catálogos: Festo, SMC, Camozzi, Aignep, Aluramaire (canalização).
- Software de simulação: Festo FluidSIM, Automation Studio.
- Curso online: Festo Didactic (excelente material gratuito).