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UC · Unidade de Competência · UC02929

UC02929 · Sistemas pneumáticos

Ar comprimido, actuadores, válvulas, circuitos
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Mecatrónica ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

A pneumática é o uso de ar comprimido como meio de transmissão de força e movimento. É uma das tecnologias mais difundidas na indústria moderna: presente em praticamente qualquer linha de produção, oficina, instalação alimentar ou farmacêutica.

Esta unidade cobre, em 50 horas, todo o ciclo: produção (compressor), tratamento (FRL, secador), distribuição (canalizações), comando (válvulas), actuação (cilindros, motores), circuitos (sequenciais, automatismos), e manutenção.

O técnico de manutenção industrial encontra pneumática em cada esquina. Saber ler um esquema ISO 1219, dimensionar um cilindro, diagnosticar uma fuga, são competências do dia-a-dia.


1. Princípios físicos

1.1 Propriedades do ar

O ar atmosférico ao nível do mar:

Quando comprimimos o ar:

Esta água é um dos maiores problemas em pneumática — provoca corrosão, congelamento (no inverno), e mau funcionamento das válvulas.

1.2 Pressões em pneumática

Em pneumática trabalhamos quase sempre com pressão manométrica (medida em relação à atmosfera). É a tensão útil disponível.

1.3 Caudal e consumo

1.4 Pneumática vs hidráulica vs eléctrica

Parâmetro Pneumática Hidráulica Eléctrica
Meio Ar Óleo Corrente
Pressão típica 6-8 bar 100-300 bar –
Velocidade Alta Média Variável
Força disponível Média Muito alta Média
Eficiência energética 5-15% 30-50% 80-95%
Custo instalação Baixo Alto Médio
Manutenção Simples Complexa Média
Limpeza Ar = limpo Óleo = sujo Limpa
Segurança Alta Média (alta pressão) Risco eléctrico

Pneumática é escolha lógica para: forças moderadas, alta velocidade, ambiente que exige limpeza (alimentar, farmacêutico), aplicações com risco de incêndio (gases inflamáveis), operações com muitos ciclos curtos.

Hidráulica é escolha para: forças muito elevadas (toneladas), velocidades baixas e controladas (prensas, gruas, elevadores), aplicações móveis (escavadoras).

Eléctrica (motor + redutor) é escolha para: rotação contínua, controlo preciso, eficiência máxima.


2. Produção de ar comprimido

2.1 Compressor — coração do sistema

Tipos principais:

Pistão alternativo (reciprocating):

Parafuso (rotary screw):

Palhetas (rotary vane):

Centrífugo (turbo):

Sem óleo (oil-free):

2.2 Reservatório

Tanque (vertical ou horizontal) com:

Função:

  1. Pulmão de capacidade — fornece ar quando consumo > caudal do compressor por curtos períodos.
  2. Arrefecimento — ar comprimido entra quente, arrefece no tanque, água condensa.
  3. Reduz ciclos do compressor — sem reservatório, compressor pequeno arrancava/parava cada poucos segundos (desgaste).

Regra de dimensionamento: capacidade reservatório ≈ caudal compressor (L/min) × 0,3 a 1 = volume tanque em litros.

Exemplo: compressor 200 L/min → tanque 60-200 L.

2.3 Comando do compressor


3. Tratamento do ar

3.1 Filtros

Ar bruto contém poeiras (atmosféricas) + óleo (do compressor a óleo) + água (condensada).

Etapas típicas:

  1. Filtro de admissão do compressor (5-25 µm) — partículas grossas.
  2. Filtro principal pós-reservatório (5 µm) — partículas mais finas e gotas grandes.
  3. Filtro fino (1 µm) — antes de equipamentos sensíveis.
  4. Filtro coalescente (0,01 µm + óleo residual) — para ar muito limpo.
  5. Filtro de carvão activado — remove vapores de óleo + odores.

Cada filtro tem indicador de saturação (manómetro diferencial). Substituir quando diferença de pressão excede ~0,7 bar.

3.2 Secadores

Ar saturado a 7 bar e 20 °C contém ~12 g/m³ de água. Em 100 m³/h → 1,2 kg de água/hora. Em 8h de operação → 9,6 kg de água nas canalizações se não houver secador!

Tipos de secador:

Refrigeração:

Adsorção (regenerative):

Membrana:

3.3 Drenagem de condensado

Pontos onde água acumula:

Tipos de drenadores:

Condensado contém óleo + água + sujidade → resíduo perigoso, requer tratamento (separador óleo/água) antes de descartar.

3.4 Unidade FRL

Filtro-Regulador-Lubrificador — combinação modular instalada antes de cada equipamento ou ramal.

Filtro (F):

Regulador de pressão (R):

Lubrificador (L):


4. Distribuição

4.1 Canalizações

Materiais:

Dimensionamento:

4.2 Topologia

Linha em estrela: um anel central + ramais radiais. Simples.

Anel fechado (ring main): tubulação em circuito fechado, ar pode chegar a cada ponto por 2 caminhos → menor queda de pressão e maior fiabilidade. Padrão industrial.

Pendurada (do tecto):

4.3 Conexões


5. Actuadores

5.1 Cilindro simples efeito

       ┌────────────────┐
ar ──>│  ┃               │── haste
       │  ┃ <- mola      │
       └────────────────┘

Vantagens: simples, barato, só precisa 1 sinal de comando. Desvantagens: força no recuo é só a da mola; perda de espaço (mola ocupa metade).

Aplicações: marcadores, prensas pequenas, ejecção, posicionamento simples.

5.2 Cilindro duplo efeito

       ┌────────────────┐
ar1 ──>│       ┃         │
ar2 ──>│       ┃         │── haste
       └────────────────┘

90% das aplicações industriais usam duplo efeito. Força disponível em ambos os sentidos.

5.3 Cálculo de força

Avanço (área completa do pistão):

F_avanço = p × A_pistão = p × π × D² / 4

Recuo (área menor, descontando a área da haste):

F_recuo = p × (A_pistão − A_haste) = p × π × (D² − d²) / 4

Onde D = diâmetro do pistão, d = diâmetro da haste.

Exemplo: Ø50 mm pistão, Ø18 mm haste, p = 6 bar (6×10⁵ Pa):

5.4 Cilindros especiais

Cilindro sem haste:

Cilindro com travão:

Cilindro rotativo (paleta):

Motor pneumático:

Ventosas com gerador de vácuo:

Pinça pneumática (gripper):


6. Válvulas direccionais

6.1 Designação NxV

Convenção universal:

N / V
│   └── número de posições (geralmente 2 ou 3)
└────── número de vias (orifícios de ligação)

Exemplos:

6.2 Estado de repouso

NC (normally closed): em repouso, via 1 fechada (sem fluxo). NO (normally open): em repouso, via 1 aberta.

Para válvula 3/2 NC com cilindro simples efeito:

6.3 Tipos de accionamento

Tipo Símbolo Uso
Pneumático (piloto) seta Comando por outro sinal de ar
Eléctrico (solenoide) rectângulo com bobina Comando por PLC ou interruptor
Manual (botão) círculo Operador acciona
Manual (alavanca) seta com cabo Operador acciona
Manual (pedal) rectângulo curvo Pé
Mecânico (rolo) círculo com seta Fim-de-curso, accionado por peça
Mecânico (mola) espiral Retorno em repouso

Cada lado da válvula tem o seu accionamento. Válvula 5/2 com solenoide e retorno por mola: solenoide activa = 1ª posição; mola retorna = 2ª posição.

Válvula biestável (com 2 solenoides ou 2 pilotos): muda de posição apenas com sinal e mantém-se ali até receber sinal oposto. Memória pneumática.

6.4 Numeração de orifícios

Standard ISO 5599:

Exemplo válvula 5/2:

                  4    2
                  │    │
      ┌─┬────┬─┬────┬─┬─┐
   14 │ │    │ │    │ │ │ 12
      └─┴────┴─┴────┴─┴─┘
       5      1      3
       │      │      │
      escape entrada escape

7. Válvulas de regulação

7.1 Estrangulador (flow control)

Reduz secção de passagem → reduz caudal → reduz velocidade do actuador.

Estrangulador simples: regula em ambos os sentidos.

Estrangulador com anti-retorno (mais comum):

Regulação por entrada (meter-in): estrangulador na alimentação ao cilindro → controla velocidade do movimento de fora para dentro.

Regulação por escape (meter-out): estrangulador no escape → ar sai devagar → controla velocidade do movimento. Método preferido porque resiste melhor a variações de carga (mais estável).

7.2 Válvula de não-retorno (check valve)

Passa só num sentido. Aplicações:

7.3 Válvula "OU" e "E" (lógica pneumática)

Antes do PLC, lógica fazia-se com válvulas:

OU (shuttle valve): 2 entradas, 1 saída. Sai sinal se qualquer entrada tiver sinal.

E (twin pressure): 2 entradas, 1 saída. Sai sinal apenas se ambas entradas tiverem sinal simultaneamente. Aplicação típica: comando bi-manual de segurança (operador tem que premir 2 botões para activar máquina).

7.4 Válvula de sequência

Activa apenas quando pressão de pilotagem atinge valor ajustado. Permite encadear movimentos sem temporizadores: "B avança só quando A atingiu pressão final" → garante que A terminou movimento.

7.5 Válvula limitadora de pressão (relief)

Abre escape quando pressão excede limite ajustado. Protecção contra sobrepressão.

7.6 Regulador de pressão

Reduz pressão de uma rede principal (8 bar) para uma local (3 bar, 5 bar, etc.) e mantém estável.


8. Simbologia ISO 1219

8.1 Princípios gerais

Norma ISO 1219 define símbolos universais para componentes pneumáticos e hidráulicos. Permite ler esquemas independentemente do fabricante.

Linhas:

Componentes: cada um tem símbolo padronizado.

8.2 Símbolos básicos

Cilindro duplo efeito:
   ┌──────────────┐
   │              │
 ──┤  ━━━━━━━━━   ├──    
   │              │
   └──────────────┘

Cilindro simples efeito:
   ┌──────────────┐
   │              │
 ──┤  ━━━━━━ ⟨    ├──    (mola)
   │              │
   └──────────────┘

Válvula 5/2:
        4   2
        │   │
   ┌──┬─┴─┬─┴─┬──┐
   │  │   │   │  │
   └──┴───┴───┴──┘
       5  1   3

FRL combinada:
   ───[F]──[R]──[L]───

Compressor:
       ◯       (símbolo redondo com triângulo)

8.3 Numeração de componentes

Convenção:


9. Circuitos básicos

9.1 Comando directo de cilindro simples

Mais simples possível:

S1 (botão) → válvula 3/2 NC → cilindro simples efeito

Premir S1: cilindro avança. Soltar S1: válvula fecha, cilindro recolhe (mola).

Aplicação: prensa manual, marcador, controlado pelo operador.

9.2 Comando indirecto

Botão pequeno comanda válvula maior (potência):

S1 (botão pequeno) → válvula 3/2 pequena → pilota → válvula 5/2 grande → cilindro grande

Aplicação: cilindro grande precisa de muita pressão para comutar — mais económico usar botão pequeno que pilota válvula grande.

9.3 Auto-retenção pneumática

Cilindro mantém-se avançado mesmo depois de soltar botão:

Equivalente pneumático de auto-retenção eléctrica com contactor.

9.4 Sequência A+ A−

Cilindro avança automaticamente, atinge fim, recua automaticamente:

9.5 Sequência A+ B+ A− B−

2 cilindros, 4 movimentos:

  1. A avança até B1 (sensor) → sinal activa B.
  2. B avança até B3 → sinal activa A− (recuo A).
  3. A recua até B2 → sinal activa B− (recuo B).
  4. B recua até B4 → sistema em repouso.

Implementação pneumática complexa (cascata de sinais).

Solução moderna: PLC com electroválvulas + sensores eléctricos simplifica enormemente. PLC lê sensores, executa sequência em código, comanda electroválvulas.


10. Manutenção e diagnóstico

10.1 Manutenção preventiva

Frequência Acção
Diária Purgar reservatório (water trap). Verificar pressão.
Semanal Verificar nível de óleo do compressor. Drenar pontos baixos.
Mensal Limpar filtros de admissão. Verificar fugas (visual + audição).
Trimestral Substituir filtros FRL. Verificar conexões.
Semestral Auditoria de fugas com detector ultra-sónico. Substituir vedações de cilindros se desgastadas.
Anual Revisão completa do compressor: óleo, filtro de ar, correia, válvulas. Verificar secador.

10.2 Avarias comuns

Sintoma Causa provável
Compressor não para Fuga grande na rede; pressostato avariado; consumo > capacidade.
Compressor liga/desliga muito Pressostato com histerese pequena; reservatório pequeno; fuga média.
Sobreaquecimento compressor Filtro de admissão sujo; ventilação obstruída; falta óleo; sobrecarga.
Cilindro lento Filtro FRL entupido; estrangulador apertado; fuga no cilindro; pressão baixa.
Cilindro hesitante Vedações desgastadas; corpo do cilindro riscado; falta lubrificação (em sistema com lubrificador).
Cilindro não atinge força Pressão regulada baixa; fuga interna no cilindro; carga acima do dimensionamento.
Válvula presa Sujidade; corrosão; falta lubrificação.
Electroválvula não comuta Bobina queimada; tensão errada; fio cortado; obstrução mecânica.
Água nas linhas Drenadores entupidos; secador avariado; canalização sem inclinação.
Ruído (sibilo) Fuga audível. Usar detector ultra-sónico para localizar.

10.3 Detecção de fugas

Métodos:

  1. Audição — fugas grandes audíveis a vários metros.
  2. Tacto — passar mão perto de conexões.
  3. Espuma de sabão — aplicar nas conexões; bolhas indicam fuga.
  4. Detector ultra-sónico — equipamento profissional, detecta fugas mesmo em ambiente ruidoso a distância. Standard industrial.
  5. Pressurizar zona e medir queda de pressão ao longo do tempo.

Custo de fugas:

Auditoria de fugas paga-se em meses (técnico passa um dia, detecta 20-50 fugas; reparação custa €€, poupa €€€/ano).

10.4 Eficiência energética

Ar comprimido é o utility mais caro numa fábrica (após electricidade directa):

Boas práticas:


Apêndice A · Cálculo rápido de força

Diâmetro Área (mm²) F @ 6 bar F @ 8 bar
20 mm 314 188 N (19 kgf) 251 N (26 kgf)
32 mm 804 482 N (49 kgf) 643 N (66 kgf)
50 mm 1963 1178 N (120 kgf) 1570 N (160 kgf)
63 mm 3117 1870 N (191 kgf) 2493 N (254 kgf)
80 mm 5027 3016 N (308 kgf) 4021 N (410 kgf)
100 mm 7854 4712 N (480 kgf) 6283 N (641 kgf)
125 mm 12 272 7363 N (751 kgf) 9817 N (1001 kgf)
160 mm 20 106 12 064 N (1230 kgf) 16 085 N (1640 kgf)

(Valores teóricos no avanço; recuo é ~10-15% menor devido à haste.)


Apêndice B · Glossário


Apêndice C · Recursos